A Travessa do Rosário onde José Malhoa viveu 13 anos

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Travessa do Rosário que liga a Travessa da Conceição da Glória à Rua da Alegria foi a morada do pintor José Malhoa em Lisboa durante os seus últimos 13 anos de vida.

José Malhoa que pintou o célebre quadro O Fado, em duas versões, uma em 1909 e a final em 1910 – mesmo que Lisboa só  tenha visto exposto o quadro em 1917, por até aí ser considerado um tema marginal e impróprio -, viveu no nº 8 da Travessa do Rosário de 1922 a 1933, ano da sua morte.

Foto: Eduardo Portugal, 1954, Arquivo Municipal de Lisboa

Só na planta de Lisboa de 1807 de Duarte Fava é que encontramos esta Travessa do Rosário próxima da Praça da Alegria – já que a cidade alfacinha acolhe também uma Travessa do Rosário a Santa Clara -, o que até faz sentido se recordarmos que o sítio da Alegria passou de rural a urbanizado e aumentou de população apenas após o Terramoto de 1755.

Na primeira metade do século XVIII esta zona era ainda um local de terrenos de cultivo, conforme esclarece Norberto de Araújo«(…) Repizo que na primeira metade do século XVIII tudo por aqui eram terrenos de cultivo, abaixo da quinta ou da cêrca dos Padres da Companhia (Jardim Botânico de hoje), ligados a S. José, razão porque esta zona arrabaldina se chamou também Cotovia de S. José. (Para se entender isto melhor é preciso fechar os olhos, e não ver a Avenida actual)».  Depois do Terramoto de 1755 é que as populações se sentiram atraídas para esta área descampada e pouco povoada: «A Alegria, pois, é posterior ao Terramoto; (…) Com a construção e desenvolvimento do Passeio Público, cresceu a Alegria; com a abertura da Avenida [da Liberdade] tornou-se de maioridade». Repara-se que o Chafariz da Mãe d’Água foi para ali transferido em 1840, oriundo do Passeio Público, denotando também a necessidade de maior abastecimento de água neste local.

Para a explicação do topónimo religioso se ter fixado nesta Travessa podemos levantar a hipótese de ter sido denominação dada pelos Jesuítas ou por uma Irmandade. O Noviciado ou Colégio jesuíta da Cotovia esteve aqui sediado entre 1609 e 1759 e foi até nos terrenos mais próximos desta Travessa do Rosário que a partir de 1873 foi começado a plantar o Jardim Botânico. Por outro lado, um pouco por todo o país eram muito populares as Irmandades do Rosário e em Lisboa, a primeira data de 1478. Existiu mesmo em Lisboa uma Confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, pelo menos desde 1494, instalada na Igreja de São Domingos, sobre a qual precisa Cristóvão Rodrigues de Oliveira em 1551 que «e a confraria de Nossa Senhora do Rosário, repartida em duas, uma de pessoas honradas, e outra dos pretos forros e escravos de Lisboa». Com a perda da independência do país na Dinastia Filipina a irmandade foi impedida de ter existência autónoma, proibição que resultou numa dispersão da devoção por outras igrejas, tendo-se destacado nos séculos XVII e XVIII, a irmandade de Nª. Sª. de Guadalupe dos Homens Pretos, no mosteiro de São Francisco,  assim como as de Nª. Srª. do Rosário dos Homens Pretos, nas igrejas do Salvador, da Graça e da Trindade.

Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)