O Largo de São Roque ou do Cauteleiro que é o Largo Trindade Coelho

O Largo Trindade Coelho no início do séc. XX
(Foto: Paulo Guedes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Começou por ser o Largo de São Roque no séc. XVI. No final dos anos 80 do séc. XX com a colocação no local de uma estátua em homenagem aos cauteleiros passou a ser conhecido como Largo do Cauteleiro e ponto de encontro para incursões na noite do Bairro Alto, mas desde 1913  que o Largo de São Roque se denomina oficialmente Largo Trindade Coelho.

Quando no ano de 1509 grassava  uma grande peste em Lisboa o rei D. Manuel I mandou erguer junto ao cemitério próximo do Convento da Trindade uma ermida a que chamou de São Roque para albergar uma relíquia do santo, oriunda de Veneza. Em 1553 os jesuítas tomaram conta desta ermida e em 1555 iniciaram a construção de um majestoso templo para a substituir nascendo assim a Igreja de São Roque que passou para o topónimo e assim nasceu o Largo de São Roque.

Em 1913 a edilidade alfacinha substituiu alguns hagiotopónimos (topónimos com nomes de santos) por outros relacionados com o regime republicano. As alterações na toponímia foram recorrentes nos anos seguintes ao 5 de outubro de 1910, tendo a primeira ocorrido logo a 5 de novembro desse mesmo ano, data em foram substituídos dez topónimos ligados à monarquia.  Pelo Edital municipal de 18 de outubro de 1913 tiveram lugar as seguintes modificações: o Largo de São Carlos passou a denominar-se Largo do Directório; o Largo do Espírito Santo passou a Largo de Ernesto Silva;  o Largo de Santa Bárbara passou a Largo 28 de Janeiro; a Rua de São José passou a Rua Alves Correia e o Largo de São Roque passou a Largo Trindade Coelho. Note-se que já desde o Edital de 18/11/1910 a Rua Larga de São Roque tinha passado a ser a Rua do Mundo, em  homenagem ao jornal republicano aí sediado, pelo que faz sentido que o largo do seu topo, o antigo Largo de São Roque tenha passado três anos depois a ser o Largo Trindade Coelho que nos jornais defendeu os ideais republicanos mesmo que se tenha suicidado antes de ver implantada a República cujos valores perfilhou e defendeu.

José Francisco de Trindade Coelho (Mogadouro/18.06.1861 – 09.06.1908/ Lisboa), formado em Direito em Coimbra começou por exercer advocacia nessa cidade ao mesmo tempo que começava a escrever nos jornais sob pseudónimo e até fundou  duas publicações: Porta Férrea e Panorama Contemporâneo. Camilo Castelo Branco admirava-o literariamente e conseguiu que ele  ingressasse na magistratura, como Delegado do Procurador Régio na comarca de Sabugal, indo depois para Portalegre, onde fundou dois jornais: Gazeta de Portalegre e Comércio de Portalegre. Depois,  já em Lisboa coube-lhe a tarefa ingrata de fiscalizar a imprensa da capital aquando do Ultimatum e abalado pelas críticas transferiu-se para Sintra (1895) e prosseguiu a sua carreira jurídica em vários tribunais.

Como escritor, Trindade Coelho publicou o livro de contos Os Meus Amores (1891) e o de memórias de Coimbra In Illo Tempore (1902), para além de obras de cariz social como a Cartilha do Povo (1901), o Manual Político do Cidadão Português (1906), o ABC do Povo  (1901) que foi um livro adotado oficialmente nas escolas públicas, bem como mais três Livros de Leitura (1903 a 1905). Também deu a lume obras jurídicas como Recursos Finais em Processo Criminal e Anotações ao Código e Legislação Penal e conseguiu uma presença importante em jornais para além da já referida, com os pseudónimos Belisário e José Coelho, escrevendo nos jornais Portugal, Branco e NegroNovidades, Repórter, O Progressista, O Imparcial, Tirocínio, Beira e Douro, Jornal da Manhã e Diário Ilustrado para além de ter ainda fundado a Revista de Direito e Jurisprudência e a Revista Nova, onde publicou as crónicas «Folhetos para o Povo», tendo através da escrita contribuído para divulgar as ideias republicanas.

No Largo Trindade Coelho, por ser a morada da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, foi inaugurada em 18 de novembro de 1987 – dia do 204º aniversário da Lotaria Nacional – uma estátua de bronze em homenagem aos cauteleiros, da autoria de Fernanda de Assis, que acabou por dar uma nova denominação popular ao arruamento, que começou a ser conhecido como o Largo do Cauteleiro.

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

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