A Fábrica das Sedas que saiu de duas Ruas e ficou numa Travessa de Lisboa

A Travessa da Fábrica das Sedas, hoje na Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Fábrica das Sedas, manufactura joanina, cujo processo de instalação começou cerca de 1730, com a chegada a Lisboa do francês Robert Godin, deu nome como Rua Direita da Fábrica das Sedas ao arruamento onde estava instalada até passar a ser uma parte da Rua da Escola Politécnica, ao mesmo tempo que estava como Rua da Fábrica das Sedas numa artéria paralela à Rua do Arco de São Mamede, bem como no Alto de São Francisco, próximo da Fábrica pombalina das Amoreiras numa Travessa que é a única via que ainda hoje preserva a memória da Fábrica na toponímia de Lisboa.

Entre 1727 e 1730, o tecelão francês Robert Godin, chegou a a Lisboa para estabelecer fábricas de seda. Com o também francês e especialista no fabrico de sedas Sibert fez um requerimento a D. João V em 1731 para a instalação de uma fábrica de sedas  saindo o  alvará real de fundação apenas em 13 de fevereiro de 1734, com privilégios concedidos por 20 anos, como a exclusividade da manufactura de tecidos de seda e a obrigação de instruir aprendizes portugueses na arte das sedas. Foi lavrada  em 5 de outubro desse mesmo ano a escritura da sociedade de capitais da fábrica e Godin que não havia entrado com capitais, tinha direito a  15% dos lucros e a um salário anual de 480$00. A Fábrica foi construída segundo o risco de Carlos Mardel, com uma planta  longitudinal em L, ocupando todo um quarteirão, o do topo do Largo do Rato e ficou concluída em 1741, nos terrenos da Quinta do Morgado dos Soares de Noronha à Cotovia. O Imóvel está classificado como de Interesse Público pelo Decreto n.º 5/2002, de 19 de fevereiro de 2002.

Troço da antiga Rua Direita da Fábrica das Sedas em 1898
(Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

Esta Real Fábrica das Sedas joanina tornou-se georreferência da toponímia local através da Rua Direita da Fábrica das Sedas. Ou seja, o topónimo é posterior a 1741  e durou até o Edital do Governo Civil de Lisboa de 1 de setembro de 1859 que determinou que esta artéria, tal como a Rua da Patriarcal Queimada, passassem a ser uma só sob a  denominação de Rua da Escola Politécnica, a nova referência forte da zona.

Esta Real Fábrica das Sedas permaneceu sob a administração privada, até 1750, ano da insolvência da Fábrica das Sedas e consequente passagem a propriedade do Estado, por Decreto de 14 de maio de 1750. Já com Pombal adquiriu a designação de Real Fábrica das Sedas do Rato a partir de 1757 e por Alvará de 22 de setembro de 1758, o fundador da Companhia da Fábrica das Sedas, Robert Godin, foi nomeado como quinto diretor.

Em data também posterior à instalação da Fábrica surgiu paralela à Rua do Arco a São Mamede, uma Rua da Fábrica das Sedas, no Bairro dos trabalhadores da Fábrica e assim ficou até 1968, ano em que o Edital municipal de 10 de maio a transformou em Rua Maestro Pedro de Freitas Branco, por ter sido a artéria de residência desse compositor.

Em 1759, o Decreto de 14 de março aprovou a edificação do Bairro das Águas Livres para o estabelecimento dos fabricantes de seda incorporados na Real Fábrica pombalina, cujo epíteto de Real Colégio de Manufacturas Nacionais demonstrava que a Real Fábrica das Sedas para além de manufaturas de seda se dedicava a dar aulas aos aprendizes. Registou-se ainda a instalação de um conjunto de Fábricas Anexas  de cartas de jogar, botões, lençaria, chapéus, cutelaria, fundição de metais, pentes, relógios, serralharia, tapeçaria, tecidos e louça. É neste conjunto que o Marquês idealiza o jardim de amoreiras, cuja arborização com 331 amoreiras junto à fábrica das sedas (hoje Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva), se conclui em 1771. Em volta da praça da fábrica, a   Praça das Amoreiras, foram rasgadas diversas ruas, onde foram edificados prédios de estrutura pombalina, destinados a residências dos fabricantes que trabalhavam na fiação e aos aprendizes que trabalhavam com eles.

A Fábrica de Tecidos de Seda na Praça das Amoreiras, em 1961
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

É neste conjunto urbanístico que surge o bloco de edifícios da designada Travessa da Fábrica das Sedas, a unir a Rua de São Francisco de Sales à Travessa da Légua da Póvoa.  Esta Travessa da Fábrica das Sedas aparece depois mencionada  na planta de Filipe Folque de julho de 1857 e num requerimento de 22 de outubro de 1877, de diversos proprietários e moradores no Alto de S. Francisco e da Travessa da Fábrica das Sedas, solicitando  providências para melhorar aquele local, uma vez que não existia canalização e os despejos se faziam para a rua.

A retirada da família real e de parte da nobreza para o Brasil, devido às invasões francesas de 1807, a abertura dos portos brasileiros e a permissão de fabrico de sedas no Brasil em 1808,  bem como o tratado de comércio com a Inglaterra de 1810, conduziram à decadência da fábrica e à sua venda em hasta pública, decretada pela portaria de 27 de julho de 1835 e  na segunda metade do século XIX o edifício foi destinado pelos seus proprietários a novas utilizações, comerciais e particulares.

Refira-se que Cassiano Branco viveu no nº 7-7A desta Travessa da Fábrica das Sedas, numa moradia que ele próprio traçou.

A Travessa da Fábrica das Sedas, hoje na Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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2 thoughts on “A Fábrica das Sedas que saiu de duas Ruas e ficou numa Travessa de Lisboa

  1. The procedure for the establishment of the Silk Factory, during the reign of João V, began about 1730 with the arrival in Lisbon of the Frenchman Robert Godin. The Factory gave its name to the former Rua Direita da Fábrica das Sedas on which it was located, until this became part of the Rua da Escola Politécnica. There was also at that time a street running parallel to the Rua do Arco de São Mamede which was called Rua da Fábrica das Sedas, and another one at Alto de São Francisco called Travessa da Fábrica das Sedas, close to the Pombal era Silk Factory at Amoreiras. The latter is the only one left which still preserves in Lisbon’s street names the memory of that Factory.

    At some time between 1727 and 1730, the French weaver Robert Godin arrived in Lisbon to set up silk factories. Together with Sibert, another Frenchman who was a specialist in the manufacture of silks, Godin applied in 1731 to D. João V for a license to set up a silk factory, although the royal license was only forthcoming on the 13th of February 1734. It conceded privileges for 20 years, such as the exclusive manufacture of woven silks, along with the obligation to train Portuguese apprentices in the art of silks. On the 5th of Oct 1734 a deed of association was drawn up relating to the capital for the factory and Godin, who did not contribute capital, had a right to 15% of the profits and an annual salary

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  2. … and an annual salary of 480 réis. The factory was built in an L-shape in accordance with Carlos Mardel’s plans, forming one whole block at the edge of Largo do Rato. It was built on the land of the Quinta do Morgado belonging to the Soares de Noronha at Cotovia and it was finished in 1741. The building is classed as “of public interest” by Decree No. 5/2002, of the 19th of February 2002.

    This Royal Silk Factory of the João V period became a local landmark through the street name Rua Direita da Fábrica das Sedas. Or rather, that name dates from some time after 1741 and lasted until the City Government of Lisbon Decree of the 1st of September 1859, which decided that the street would join together with Rua da Patriarcal Queimada and both become Rua da Escola Politécnica, named after the newer local landmark.

    This Royal Silk Factory remained in private ownership until 1750, the year of its insolvency and consequent transfer into the ownership of the State, through the Decree of the 14th of May 1750. When Pombal acquired, from 1757, the assignment of the Royal Silk Factory of Rato and the License of 22nd of September 1758, then Robert Godin, founder of the Company of the Silk Factory, was nominated as its fifth manager.

    At some date after the establishment of the Factory, one Rua da Fábrica das Sedas appeared in the Bairro for the workers from the Factory, parallel with the Rua do Arco a São Mamede, and it remained so-called until 1968, when the city council Notice of the 10th of May changed it to Rua Maestro Pedro de Freitas Branco, because it was the street where that composer had lived.

    A Decree of the 14th of March 1759 approved the construction of the Águas Livres Bairro for the silk workers in the now Pombal-owned Royal Factory, whose subtitle “Royal College of National Manufacturing” shows that the Royal Silk Factory gave lessons to apprentices as well as manufacturing silks. The establishment of a group of ancillary Factories is also recorded: playing cards, buttons, bedclothes, hats, cutlery, metal casting, combs, watches, locksmiths, upholstery, fabrics and tableware. It was within this grouping that the Marquis of Pombal dreamt up the Mulberry Garden, in which 331 mulberry trees were planted, next to that silk factory (which today houses the Arpad Szenes-Vieira da Silva Foundation), a labour which was completed in 1771. In the vicinity of the factory square, the Praça das Amoreiras, various roads were cut and “pombaline” style buildings erected therein, intended as homes for the spinners who worked there and for their apprentices.

    It is in this urban development that the aforementioned Travessa da Fábrica das Sedas appeared, linking Rua de São Francisco de Sales to Travessa da Légua da Póvoa. The Travessa da Fábrica das Sedas appears on the later Filipe Folque map of July 1857, and in a petition of the 22nd of October 1877 from various owners and residents in the Alto de S. Francisco and Travessa da Fábrica das Sedas, they ask for measures to improve that area, as there were no drains and waste water was put in the street

    The departure of the royal family and some of the nobles for Brazil, in response to the French invasions of 1807, the opening of the Brazilian ports and permission in 1808 for the manufatcure of silk in Brazil, as well as the 1810 commercial treaty with Great Britain, led to the demise of the factory and its sale by public auction, decreed in the ordinance of the 27th of July 1835. In the second half of the 19th century the building was put to new commercial and private uses by its new owners.

    It may be noted that Cassiano Branco lived at number 7-7A in the Travessa da Fábrica das Sedas, in a house for which he drew the plans himself.

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