A Rua Laura Alves do Monumental

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Laura Alves,  atriz  cuja vida, carreira e popularidade ficou indelevelmente ligada ao Teatro Monumental, faleceu dois anos após a demolição deste e logo a edilidade decidiu atribuir o seu nome a uma artéria relativamente próxima da Praça Duque de Saldanha.

A Rainha do Palco, como era apelidada, retirou-se dele em 1983 e numa entrevista dada em junho desse ano afirmou «toca-me na pele» sobre o  Cine-Teatro Monumental, espaço a cuja destruição assistira, sendo o palco onde trabalhou 32 anos. Laura Alves faleceu aos 64 anos, em maio de 1986 e logo no mês seguinte, a deliberação camarária de 16 de junho atribuía o seu nome a uma artéria de Lisboa, sendo que consegui-la apenas foi possível dois anos depois e mudando o nome da Travessa Marquês de Sá da Bandeira para Rua Laura Alves, através do Edital municipal nº 21/1988 de 29 de fevereiro de 1988, justificando a Comissão Municipal de Toponímia a alteração dado «(…) que existem em Lisboa dois topónimos [uma rua e uma travessa], ambos perpetuando a memória do Marquês de Sá da Bandeira e que não se justifica essa duplicação, até pelos inconvenientes que daí resultam para a localização dos respectivos arruamentos.» No mesmo dia 29 de fevereiro de 1988, mas pelo Edital nº 22/1988, foi dado a uma rua contígua o nome da também atriz Ivone Silva, falecida em novembro de 1987. 

Laura Alves em 1956, com Alves da Costa
(Foto: Bourdain de Macedo, Arquivo Municipal de Lisboa)

Laura Alves Magno (Lisboa/08.09.1921 – 06.05.1986/Lisboa) foi uma popular artista que nasceu no nº 638 da Rua de São Bento, filha de Celestino Magno e de Mariana Alves. Frequentou a Escola Industrial Machado de Castro, onde conheceu o professor Lucena que a levou ao empresário Alves da Cunha, perante o qual prestou provas e assim se estreou profissionalmente em 20 de agosto de 1935, a 20 dias de fazer 14 anos, no palco do Teatro Politeama, interpretando a Gaby de As duas garotas de Paris, de Feuillade e Cartoux adaptada por Eduardo Schwalbach, ao lado de Alves da Cunha, Berta de Bívar e João Villaret.

Praticou diversos géneros, como a opereta, a revista, a comédia e o drama e passou do Politeama para o Teatro Nacional em 1939, onde fez duas épocas, representando ao lado de Palmira Bastos, Álvaro Benamor, Amélia Rey Colaço, Nascimento Fernandes, Maria Lalande e participando também em peças infantis, tendo interpretado ao longo da sua carreira cerca de 400 espetáculos nos palcos dos já referidos a que se somam o Variedades – a partir de 1941, na opereta Lisboa 1900, ao lado de Irene Isidro, António Silva ou Ribeirinho -, o Maria Vitória – onde em 1942 se iniciou no teatro de revista em Essa é que é essa, ao lado de Amália Rodrigues, Luísa Durão e Costinha -, o Trindade, o Avenida e o Apolo, até se fixar em 1951 no Monumental.

Mas dez anos antes do Monumental, dá-se a sua estreia no cinema,  em 1941, no filme O Pai Tirano, de António Lopes Ribeiro. Seguiram-se depois  O Pátio das Cantigas (1942) de Ribeirinho, o Leão da Estrela (1947) de Artur Duarte, Sonhar é Fácil (1951) de Perdigão Queiroga, Um Marido Solteiro (1952) de Fernando Garcia, O Costa d’África (1954) de João Mendes, Perdeu-se um Marido (1956) de Henrique Campos, O parque das ilusões (1963) numa produção de Perdigão Queiroga e O ladrão de quem se fala (1969) produzido pela Tobis Portuguesa. Também com diálogos inspirados no filme O Leão da Estrela, num guião de Francisco Matta, interpretou com Artur Agostinho o folhetim radiofónico Dois num automóvel.

Na sua vida pessoal, Laura Alves namorou com o compositor Frederico Valério mas em 25 de agosto de 1948 casou com o então ator de cinema Vasco Morgado, com quem  teve um único filho, Vasco Morgado Júnior, ator e produtor teatral. Divorciou-se do empresário teatral em 1967 e mais tarde,  em 18 de julho de 1979, casou com Frederico Valério.

Em 1949 associou-se a Irene Isidro, Ribeirinho, António Silva, Carlos Alves e Barroso Lopes, para fundar a Sociedade Artística que se apresentou durante dois anos no Teatro Apolo (antigo Teatro do Príncipe Real), na Rua da Palma e foi esta a 1ª empresa de Vasco Morgado como empresário teatral, a que seguiu a exploração em 1951,  do Teatro Monumental, na Praça Duque de Saldanha, inaugurado com a opereta de Strauss As três valsas. Laura Alves aprendeu até a dançar em pontas para este espectáculo de que Santos Carvalho era o encenador, Frederico Valério o diretor musical e regente da orquestra e Eugénio Salvador o ator e ensaiador coreográfico, tendo nas suas  3 épocas contracenado com nomes como Álvaro Pereira, Camilo de Oliveira, Graziela Mendes, João Villaret, Teresa Gomes ou Tomás Alcaide,  entre outros. Laura Alves atuou no Monumental até se retirar da carreira em 1983, sendo o seu último espetáculo Pai precisa-se, de Manuel Correia. Laura Alves faleceu três anos depois no seu apartamento na Avenida Praia da Vitória, próximo do Teatro Monumental, então já demolido.

Foi galardoada com o Óscar da Imprensa (1962) e o Prémio Lucinda Simões (1963); agraciada por Vasco Morgado com o seu nome num teatro (1968) na Rua da Palma que veio substituir o antigo cinema Rex até na década de oitenta do séc. XX passar a ser uma pensão;  homenageada como o filme Laura Alves, Evocação de uma actriz (1986), uma sessão pública no Politeama (2001), uma exposição na Junta de Freguesia de Santos-O-Velho (2012) e o documentário Laurinha (2012) de Cristina Ferreira Gomes para a RTP. Laura Alves, para além de ser a morada de alguns hotéis lisboetas, dá ainda o seu nome também a Ruas da Charneca da Caparica, de Odivelas, da Parede, da Pontinha, de Queluz e de São Domingos de Rana.

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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