A Rua Virgílio Martinho, surrealista do Café Gelo e do Teatro de Almada

Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A partir de uma sugestão de Francisco Nicholson, enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia, ficou o escritor Virgílio Martinho, surrealista do Grupo do Café Gelo e dramaturgo da Companhia de Teatro de Almada, inscrito na toponímia de Lisboa, pelo Edital municipal nº 82/1997, a ligar a Rua Prista Monteiro à Rua Eugénio Salvador, artérias de Carnide  que consagram outro dramaturgo e um ator.

Francisco Nicholson, enquanto representante da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) na Comissão Municipal de Toponímia,  sugeriu a homenagem na toponímia de Lisboa aos escritores Fernanda de Castro, Prista Monteiro e Virgílio Martinho, tendo a Rua Virgílio Martinho sido atribuída pelo Edital municipal de 30 de setembro de 1997, com a legenda «Dramaturgo/1928 – 1994», tal como a Rua Prista Monteiro o foi pelo  Edital nº 81/1997 da mesma data. Tanto a Rua Virgílio Martinho como a Rua Prista Monteiro foram inauguradas no mês em que se comemorou os 25 anos do 25 de Abril, no dia 16 de abril de 1999, sendo oradora Alice Vieira, que era então a representante da SPA na Comissão Municipal de Toponímia.

Virgílio Alberto Nunes Martinho (Lisboa/18.09.1928 – 04.12.1994/Almada), funcionário público e membro do Grupo do Café Gelo, estreou-se na ficção em 1958, com a novela fantástica Festa Pública a que se seguiu o romance  O Grande Cidadão (1963) que em 1976 adaptou para teatro, os contos Orlando em Tríptico e Aventuras (1961), Rainhas Cláudias ao Domingo (1972),  Relógio de Cuco (1973), A Caça (1974), o romance O Concerto das Buzinas (1976) onde relatou a sua experiência de 1949-1950 na prisão do Aljube e os contos O Menino Novo (1989). Martinho usou uma escrita comprometida com o tempo que vivia e crítica do Salazarismo, com alegorização ideológica.

Das várias tertúlias de cafés lisboetas que Virgílio Martinho frequentou nas décadas de 50 e 60 do séc. XX, destaque-se a do Café Gelo, próxima do movimento surrealista, com Alexandre O’Neill, António José Forte, António Maria Lisboa, Cruzeiro Seixas, Herberto Helder, Luiz Pacheco, Mário Cesariny, Mário Henrique Leiria e Pedro Oom, entre outros. Note-se que Martinho escreveu o texto de apresentação da exposição de António Maria Lisboa de 1961 no Instituto Superior Técnico, colaborou nas antologias Surrealismo/Abjeccionismo (1963) e Intervenção Surrealista (1966), prefaciou em 1967 a Crítica de Circunstância de Luiz Pacheco logo apreendida pela PIDE e com Ernesto Sampaio, escolheu os textos para a Antologia do Humor Português editada em 1969 pela Afrodite. Em 1991, fez também uma colagem de textos dos membros da tertúlia deste Café, O Gelo à Mesa, ainda hoje inédita.

O dramaturgo começou logo na peça  Filopópulus que só foi publicado em 1970 e deu então brado na imprensa quando em 1973 foi encenada por Joaquim Benite e levada à cena pelo Grupo de Teatro de Campolide. Depois, foi o sucesso com a sua  1383 (1977), o fresco histórico construído a partir das crónicas de Fernão Lopes, que também adaptou para a infância, intitulando-a 1383zinho (1983) . Foi uma fase importante de Virgílio Martinho, a partir de 1972, quando se consagrou quase em exclusivo ao Grupo de Teatro de Campolide, mais tarde designado Companhia de Teatro de Almada, onde adaptou para esta Companhia, entre muitos outras peças, A Vida do Grande D. Quixote de La Mancha e do Gordo Sancho Pança (1972) de António José da Silva, As Aventuras de Till Eulenspiegel (1978) de Charles de Coster ou Réus e Juizes (1986) a partir de textos de Gil Vicente e de António José da Silva sendo também a partir de textos vicentinos que construiu Amor a Quanto Obrigas (1990). Ainda nos anos setenta, a portuense Seiva Trupe produziu em 1975 Aqui é que a Porca Torce o Rabo,  com textos de Virgílio Martinho, Luís Humberto, Luíz Valdes e Fernando Luso Soares, tendo ainda Martinho feito os diálogos da curta-metragem  Os Prisioneiros (1977) de Sérgio Ferreira. Virgílio Martinho ainda publicou a farsa satírica em 2 atos A Sagrada Família (1980), O herói Chegado da Guerra e Outros textos de teatro e  a peça Pão de Mel, Lda.(1982), tendo ainda escrito a peça de teatro infantil Valentim e Valentina em palco em 1989 e publicada em 1993, bem como A Próxima Peça, em 1994, numa encomenda da Câmara Municipal do Seixal.

Virgílio estudou na Escola Industrial Machado de Castro e em 1949, quando transportava uma máquina de stencil do MUD juvenil, foi preso  preventivamente no Aljube, sendo presente a tribunal plenário na Boa Hora em julho do ano seguinte, junto com António Horácio Simões de Abreu, Henrique Correia dos Santos Carvalho, José Maria de Figueiredo Sobral, Manuel Gomes, entre outros.  Também trabalhou como escriturário na Câmara Municipal de Lisboa a partir de 1 de abril de 1953, passando rapidamente a desenhador pelas suas apitidões mas no 1º dia do ano de 1955 foi demitido por razões políticas e em 1956, foi admitido como desenhador tarefeiro da Direção Geral de Obras Públicas e Comunicações do Ministério do Ultramar.

Na sua vida pessoal, Virgilio Martinho teve um filho de seu nome Rui Martinho, aderiu ao PCP em 1976 e em 1981, saiu de Lisboa morar na Margem Sul, tendo morado sucessivamente no Laranjeiro, em Brejos de Azeitão, em Cacilhas e na Cova da Piedade.Em 1985, filiou-se no Sindicato dos Trabalhadores de Espectáculos.

A sua obra artística foi reconhecida com o Prémio 25 de Abril da Associação Portuguesa de Críticos (1984), como a personalidade homenageada no festival de Teatro de Nantes de 1988, com a Medalha de Ouro de Mérito Cultural da Câmara Municipal de Almada (1995), uma exposição sobre a sua vida na 12ª edição do Festival de Teatro de Almada e um número inteiro da revista Cadernos ( o nº de setembro de 1995) da Companhia de Teatro de Almada, bem como o seu nome foi dado a uma sala do Teatro Municipal Joaquim Benite. É também o topónimo de Ruas da freguesia de Laranjeiro e Feijó (Almada), de Paio Pires (Seixal) e de Alcochete.

Freguesia de Carnide
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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