A Rua Actor Isidoro no primeiro Bairro dos Atores

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Isidoro foi um homem de teatro do séc. XIX que ficou na toponímia da cidade na Rua Actor Isidoro, uma artéria do primeiro Bairro dos Atores em Lisboa,  fixado por deliberação camarária de 23 de março de 1932 e consequente Edital de dia 31, o qual também ali colocou diversos nomes de gente do Teatro, como a Rua Lucinda do Carmo e a Rua Actriz Virgínia que ainda hoje ali vemos.

A Rua Actor Isidoro era a Rua nº 6 A do projeto aprovado em sessão de 7 de abril de 1928 e liga a Alameda Dom Afonso Henriques à Rua Actriz Virgínia. O mesmo Edital de 1932 ali colocou na Rua nº 10, a Rua Lucinda do Carmo e na nº 11, a Rua Actriz Virgínia. Também foram atribuídas por esse Edital a Rua Actor Epifânio na Rua nº 1 e a Rua Rui Chianca na Rua nº 22 mas estas não saíram da planta e nunca chegaram a ser executadas. A Rua Actor Epifânio voltou a ser atribuída em planta à Praceta do Impasse entre a Estrada Militar e a Calçada de Carriche mas voltou a não ser executada pelo que só perdurou até aos dias de hoje a partir da publicação do Edital de 26/03/1971 que colocou o topónimo na 4ª T.E. da Estrada do Desvio, na Freguesia do Lumiar. Já Rui Chianca, que era  o autor da comédia histórica O Magriço  e empenhado em reavivar esse género teatral, não regressou como topónimo.

O Palco – Revista Teatral, 20 de maio de 1912

Isidoro Sabino Ferreira (Lisboa/03.11.1828 – 23.09.1876/Lisboa) foi um ator muito popular que nasceu e faleceu (aos 48 anos de idade) na Travessa da Pereira, à Graça. Aos 11 anos já trabalhava numa oficina de chapeleiro e aos 13 era aprendiz de tecelão. Ele próprio organizava grupos amadores para representar e declamar poemas, alguns que ele próprio escrevia. Em 1847 entrou como «comparsa» – uma figuração muda e não remunerada – no D. Maria II e ali ficou por dois anos.

Em 1849, aos 21 anos, representou em público pela primeira vez, no Teatro de Almada e a cobrar bilhete a quem estava a banhos na Outra Banda. Foi também no mesmo ano que se estreou como profissional, na comédia Uma Fraqueza, no  Teatro de Salitre, graças ao ator Taborda que foi seu padrinho artístico e que mais tarde, em 1853, também  o levará para o Ginásio, onde  em 1855, fez a sua primeira revista, ao lado de Taborda e da vedeta francesa Emília Letroublon, conseguindo vibrantes aplausos em dois papéis cómicos – o Enviado do Brasil e o Neptuno do Chafariz do Loreto – e foi para esse elenco que Isidoro escreveu a Revista de 1862. Será ainda com Taborda que fará sociedade para ser empresário do Teatro de Almada, cujo público era constituído sobretudo por famílias a banhos.

Em 1856, Isidoro mudou para o elenco do Variedades, nova denominação do antigo Teatro do Salitre,  que por ele pagou uma indemnização de 400 mil réis. Sete anos depois, em  1863, passou a ser ator residente do D. Maria II , estreando-se em Os Mistérios de um Nigromante, tendo sido classificado pelo conselho dramático como ator de 1ª classe. O ator Isidoro revelou-se quer na comédia quer no drama e foi mestre dos atores António Pedro e Joaquim de Almeida.

Refira-se ainda que o ator Isidoro participou na inauguração do Teatro da Trindade em 1867, no elenco da primeira peça, A Mãe dos Pobres, de Ernesto Biester. Mas Isidoro também se dedicou a fazer traduções de peças e a escrevê-las, de que são exemplo Um homem sem inimigos : revista em 3 actos e 6 quadros (1862), Sem jantar : comedia em um acto (1863), Em quarta feira de cinza! : scena cômica original (1867), Fóra d’horas : comédia em um acto (1873), para além de colaborar  em vários jornais.

Júlio César Machado, que escrevera propositadamente O Tio Paulo para ele interpretar, também lhe escreveu a biografia em 1859 e o próprio Isidoro reproduziu-a quase na íntegra na suas Memórias (1876), acrescentando pormenores rigorosos como ter visto subir o pano 9177 vezes e ter ganho em 26 anos de carreira 17.412$970 réis.

Isidoro Ferreira foi ainda agraciado como cavaleiro da Ordem de Santiago, de mérito científico, literário e artístico, em 1875. Camilo Castelo Branco menciona-o mesmo nas suas Novelas do Minho: «Por fim, o enjeitado, erguendo-se de salto e olhando em redor tão sinistramente quanto cabe na rubrica de um drama e na pupila fulva do Sr. Isidoro Sabino Ferreira na tragédia, disse com o esbofar das angústias vertiginosas: – Assim com’assim… mato-me!»

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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