A Rua do Convento da Madre de Deus em Xabregas

A Rua da Madre de Deus na década de cinquenta do séc. XX
(Foto: Abreu Nunes, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua da Madre de Deus, com início na Rua de Xabregas e fim na Calçada da Cruz da Pedra, foi um topónimo fixado na memória de Lisboa em data que se desconhece mas seguramente posterior a 1509, já que é  esse o ano da fundação do Convento de Nossa Senhora da Madre de Deus, de cariz manuelino, a partir do qual se gerou o topónimo.

Também denominado Real Mosteiro de Enxobregas foi este mandado erguer numa quinta em Xabregas pela rainha D. Leonor, então viúva de D. João II, para dele fazer mercê às freiras Franciscanas Descalças, da Primeira Regra de Santa Clara, do Convento de Jesus de Setúbal e que se constituiu como um dos pólos dinamizadores da zona oriental de Lisboa, ao aglomerar em seu torno  populações e quintas de recreio da nobreza, à semelhança de outros mosteiros locais como São Félix de Chelas e São Francisco de Xabregas. Ainda por intervenção da rainha D. Leonor, o Convento da Madre de Deus recebeu  as relíquias de Santa Auta em 1517, cerimónia que originou um retábulo datável entre 1520 e 1525. Refira-se ainda que D. Leonor habitou junto do mosteiro, num paço que para si mandou edificar e em 1525 ficou em campa rasa no claustro do convento.

Coeva do Convento da Madre de Deus foi a Fonte da Samaritana, também  mandada construir pela rainha D. Leonor, junto do Convento da Madre de Deus mas que em 1700 foi transferida para outro local das proximidades por mor do contínuo abuso praticado pelas freiras que desviavam a sua água.

D. João III congratulou-se em 1523 por a Câmara lisboeta custear a construção de uma escadaria defronte do Mosteiro da Madre de Deus, rei que também lhe ordenou obras de remodelação traçadas pelo arquiteto régio Diogo de Torralva no final dos anos trinta de 1500. Em 1567 foi a vez do Cardeal D. Henrique ordenar a construção de um cais junto do Mosteiro da Madre de Deus. D. João V e D. José I, entre 1746 e 1759, ordenaram novas obras de reforma do Convento de que se salienta o revestimento em talha dourada. Foi depois destruído pelo terramoto de 1755, reedificado e novamente restaurado em 1872.

Antes do terramoto e mesmo antes de  1780, conforme plantas conservadas no Arquivo Municipal de Lisboa, o espaço deste arruamento era apenas rural sendo na planta topográfica de Lisboa de 1780 mencionados os campos do Alto do Varejão. Mencione-se que, em julho de 1577, Francisco Álvares Varejão abdicou a favor da cidade de um pedaço de terreno situado nas propriedades do Mosteiro da Madre de Deus, para ser usado como serventia pública. Só na planta de Filipe Folque, produzida em 1858, se indica já a Rua Direita da Madre de Deus.

Em 1867, o Mosteiro foi entregue ao Asilo Maria Pia, aquando da venda dos bens da Igreja. Já no séc. XX, entre 1957 e 1958, com o apoio da Fundação Gulbenkian, por ocasião do V Centenário do Nascimento da Rainha D. Leonor, foram nele realizadas as primeiras obras de cariz museológico, e em 1965, em parte do espaço foi fundado o Museu Nacional do Azulejo.

Ainda derivado do Mosteiro da Madre de Deus temos ainda nesta zona o Largo da Madre de Deus – por Edital municipal de 14/06/1950 –  no Bairro de Casas Económicas da Madre de Deus.

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

#EuropeForCulture

2 thoughts on “A Rua do Convento da Madre de Deus em Xabregas

  1. Pingback: O património religioso na toponímia de Lisboa | Toponímia de Lisboa

Os comentários estão fechados.