A Calçada da Capela de Santo Amaro, protetor dos ossos e dos namoros

Freguesia de Alcântara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Calçada de Santo Amaro recolhe o seu nome da Capela a que dá morada, por ser uma via talvez do séc. XVI mas seguramente do tempo em que eram as populações que atribuíam os nomes pelos pontos de referência que eram significantes no seu mundo.

Hoje, a Calçada de Santo Amaro liga a Rua Primeiro de Maio à Travessa dos Moinhos e será um topónimo posterior à construção da Ermida em 1549, no Alto que ficou também de Santo Amaro, um abade beneditino que como santo do dia 15 de janeiro é o protetor dos ossos, dos pescadores  e dos namoros. Norberto de Araújo esclareceu a este propósito que «A Ermida de Santo Amaro foi edificada em Fevereiro de 1549, era então êste sítio, num alto bem marcado, completamente isolado de Lisboa, campo verdejante enfrentando o Tejo pelo Sul e uma parte da Serra do Monsanto pelo Norte, antigas terras do Casal Rolão. (…) A Ermida lisboeta de Santo Amaro estava agregada à Basílica de S. João Latrão, de Roma, à qual pagava foro (…).»

Há quem atribua  a fundação da Ermida a tripulantes galegos de uma barca que  aqui teria dado à costa e há quem defenda tratar-se de uma iniciativa de frades da Ordem de Cristo, regressados de Roma, que aqui teriam iniciado a sua ascese religiosa.

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Ainda segundo Norberto de Araújo, desde o século XVI ao XIX, eram os galegos em Lisboa os mais devotos de Santo Amaro e esta capela, era local certo de romaria de 15 de janeiro a 2 de fevereiro: a Romaria dos Pinhões, o fruto seco mais comum dessa época do ano, que  se realizou pela última vez em 1930. Conta-nos o historiador olisiponense Augusto Vieira da Silva que “Nela se faziam antigamente grandes festas ao seu patrono, que começavam em 15 de Janeiro e se prolongavam ordinariamente até 2 de Fevereiro. No seu adro organizavam os galegos das companhias de aguadeiros de Lisboa, um arraial e danças ao som de gaitas de foles, e nele apareciam, além dos vendedores dos artigos que era uso negociarem-se em todas as festanças populares portuguesas, mulheres vendendo rosários de pinhões de Leiria”. Santo Amaro era venerado pelo povo como santo casamenteiro registado até numa quadra que o etnógrafo Luís Chaves registou em 1922:

Santo Amaro, meu Santo Amaro,
tu és o meu santo querido.
Venho hoje aqui pedir-te
que me dês um bom marido.

Na zona existem mais dois topónimos ligados ao mesmo Santo: as Escadinhas de Santo Amaro que ligam a capela à Calçada e a Rua da Academia Recreativa de Santo Amaro, atribuída pelo Edital municipal de  28 de julho de 1958 para consagrar a coletividade local.

Gravura das Escadinhas e da Calçada de Santo Amaro
(Foto do Arquivo Municipal de Lisboa)

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