A Calçada da Memória do atentado a D. José I

A Calçada da Memória em 1969
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

A memória das aventuras galantes de D. José I com D. Teresa de Távora, que terminaram com um atentado à integridade física do soberano, ficou registada no próprio local da agressão com a construção de uma Igreja dedicada a Nossa Senhora do Livramento – por ele ter saído ileso-, assim como a São José – por ser o nome do rei-, e essa lembrança estendeu-se depois a três topónimos locais: a  Calçada , o Largo e a Travessa da Memória.

Tanto a Calçada da Memória como a Travessa homónima, foram topónimos oficializados pela edilidade lisboeta através do Edital de  26 de setembro de 1916. Já o Largo da Memória não possui prova documental que ateste a sua data de fixação mas terá de ser posterior ao início  da construção nesta zona da Igreja da Memória , isto é, a partir de 1760. A partir dos documentos constantes no Arquivo Municipal de Lisboa podemos deduzir que todos os três topónimos serão do séc. XIX e que antes foram genericamente as Terras da Memória.

Com data de 27 de outubro de 1886, encontramos  um projeto de ruas a executar na zona da Memória e da Ajuda, no qual percebemos que a Igreja da Memória confrontava com o Caminho do Buraco, o Pátio das Vacas e o Largo do Chafariz. Também com a data de 8 de janeiro de  1891 deparamos com o projeto definitivo das ruas nas denominadas Terras da Memória, em terreno cedido pela Casa Real. E em 1892, descobrimos um requerimento de vários moradores a solicitar a demolição do muro na travessa do Pátio das Vacas para comunicação com as Terras da Memória e ainda uma solicitação de Rosa Gomes para construção de casa num dos arruamentos projetados na zona da Memória.

Da ligação de D. José I a D. Teresa de Távora, informa o olisipógrafo  Norberto de Araújo que o atentado ocorreu na noite de 3 de setembro de 1758, quando o monarca saído dos aposentos da jovem marquesa de Távora subia de Belém para Ajuda, na carruagem do seu criado e confidente Pedro Teixeira (também fixado como topónimo numa Estrada da Ajuda) e que ao passar no Pátio das Vacas foi D. José atacado a tiro. Os conjurados sumiram-se e o rei partiu à desfilada para a casa do Marquês de Angeja, na Junqueira, para tratar os seus ferimentos no braço. Saiu ileso o rei desta conspiração, tida como dos Távoras, e por tal bênção desta salvação foi erguida a Igreja da Memória. Depois, o Marquês de Pombal acusou os seus inimigos Távoras de conspiração e estes foram torturados e depois executados em janeiro de 1759. A morte dos Távoras foi celebrada com um pelourinho erguido no Beco do Chão Salgado, topónimo também relativo a essa ocasião e os restos mortais do Marquês de Pombal foram transladados em 1923 para a Igreja da Memória.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

4 thoughts on “A Calçada da Memória do atentado a D. José I

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  3. The affair of King José I with Teresa de Távora ended with an attempt on the king’s life, and this was recorded via a church built on that spot, dedicated to Our Lady of Deliverance – the King emerged unscathed – and also to St Joseph, as per the name of the King. This association later extended to three other nearby street names: Calçada da Memória, Largo da Memória and Travessa da Memória.

    The names of both the Calçada and the Travessa da Memória were made official by Lisbon’s councillors in the City Council Notice of the 26th of Sept 1916. There is no documentation for the exact date when the Largo da Memória was so named, but it has to have been after the start of the building work for the Igreja da Memória, that is, after 1760. We can deduce from documents in the Lisbon City Archives that all three are 19th century street names and that prior to that the general area was collectively called the Memória Fields.

    We can see on an October 1886 plan for streets to be created in the Memória and Ajuda area, that the Memória Church is opposite Caminho do Buraco, Pátio das Vacas and Largo do Chafariz. We can also see, on a plan dated 8th of January 1891, the actual work that was carried out in the Memória Fields on land leased from the Royal Estate. In 1892 we find a petition from various residents requesting the removal of the wall in the travessa do Pátio das Vacas to allow a through connection to the Memória Fields, and also an application from Rosa Gomes for the construction of a house in one of the streets planned for the Memória area.

    On the subject of the liaison between King José I and Teresa de Távora, the olissipographer Norberto de Araújo informs us that the attack occurred on the night of the 3rd of Sept 1758, when the king had left the rooms of the young Marchioness of Távora in Belém and was on his way back to Ajuda in the carriage of his servant and confidante Pedro Teixeira (who also has a street named after him in Ajuda). As they were passing through the Pátio das Vacas the king was fired upon. The assailants disappeared and the King set off towards the house of the Marquês de Angeja in Junqueira to tend a wound on his arm. The king having emerged unscathed from the attack, with the conspiracy attributed to the Távoras, the Igreja da Memória was erected to give thanks for the blesséd escape. The Marquês de Pombal later accused his enemies, the Tavoras, of conspiracy and they were tortured and then executed in January 1759. The death of the Tavoras was commemorated with the setting up of a pillory post in the Beco do Chão Salgado, whose name is also connected to this event. The body of the Marquês de Pombal was transferred in 1923 to the Igreja da Memória.

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