O encontro de pintores na Rua Mário Eloy nascida na Avenida Maria Helena Vieira da Silva

Freguesia do Lumiar

A Rua Mário Eloy nasce na Avenida Maria Helena Vieira da Silva assim produzindo um encontro de pintores na toponímia da  freguesia do Lumiar, desde 1997. Foi pelo Edital de 30 de outubro de 1997 que Mário Eloy passou a ser o topónimo do Impasse III à Avenida Maria Helena Vieira da Silva, ao mesmo tempo que o Impasse II passou a ter o nome do caricaturista Amarelhe.

Autorretrato de 1928

Mário Eloy (Lisboa/15.03.1900 – 09.09.1951/Sintra), de seu nome completo, Mário Elói de Jesus Pereira, foi um pintor autodidata, filho e neto de ourives e atores de teatro, da chamada «Segunda Geração» dos modernistas portugueses embora como pintor expressionista por influência alemã, estivesse de algum modo isolado no meio artístico lisboeta.

Eloy nasceu no mesmo ano dos segundos Jogos Olímpicos Modernos  e da Exposição Universal, ambos em Paris.  Contudo, o seu pai, António Augusto Pereira, assim como o seu avô materno, Elói Marcelino de Jesus, eram amadores de teatro, o que certamente contribuiu para que Mário Elói ingressasse na companhia Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro, na qual se estreou em 23 de março de 1923, na peça Ribeirinha, no palco do Politeama, então sede da companhia, sendo certo que Mário Eloy dedicou a sua primeira exposição de pintura da seguinte forma: «Dedicada à memória de meu Pai, ao ilustre artista Augusto Pina, o grande amigo, a Amélia Rey Colaço, iluminada de Deus, e a Robles  Monteiro.»

Estudou no Liceu Passos Manuel e  decidiu frequentar a Escola de Belas Artes, de 1912 a 1913, para rapidamente escolher antes ser pintor autodidata, como Almada Negreiros, por exemplo. De igual modo, teve uma breve passagem no atelier de cenografia de Augusto Pina e por isso, em 1925, pintou o pano de boca do Tivoli, de inspiração algo futurista.

A pintura de Eloy exprimia lirismos, angústias e visões e a sua vida foi cheia de rápidas fugas e paixões. Aos 19 anos fugiu de um emprego bancário que o pai lhe arranjara numa viagem aventurosa para Madrid. Em 1924, expôs pela primeira vez na Sala da Ilustração Portuguesa, em Lisboa, com Alberto Cardoso, acusando já uma tendência expressionista e continuou em janeiro de 1925, no Salão de Outono da Sociedade Nacional de Belas Artes. Em 1925, partiu para Paris e dali para Berlim (1927), fazendo uma exposição em cada uma destas cidades, embora em Berlim tenha estudado pintura,  casado com Theodora Laura Severin e tido um filho em 1929, de seu nome Mário António Horslt Elói de Jesus Pereira e que viria também a ser pintor. De Berlim, enviou trabalhos para  expor em Lisboa no Sindicato dos Profissionais da Imprensa (1928) e nos Salões de Independentes de 1930 e 1931, assim como no último ano voltou a expor em Berlim, na Galeria Flechtheim. Regressou sozinho a Portugal em 1932, reatou as tertúlias nos cafés e a antiga relação com Beatriz Costa e expôs no Salão de Inverno da Sociedade Nacional de Belas Artes, com um dos raríssimos nus da pintura nacional dessa época. Esteve ausente do país quase ao mesmo tempo que Almada Negreiros e a sua estadia na Alemanha conduziu-o para um desenho linear, alargando o leque da pintura portuguesa às influências expressionistas alemãs. Em 1934, expôs individualmente na UP- Galeria do Chiado, propriedade de António Pedro e de Tom -, e no ano seguinte, na I Exposição Moderna do Secretariado de Propaganda Nacional, onde obteve o prémio Sousa Cardoso, com o quadro Lisboa, encomendado por António Ferro. Em 1936 preferiu juntar-se aos «Artistas Independentes», mas regressou ao salão oficioso nos anos de 1938 e 1939.

Alheio a encomendas, Mário Eloy passou a retratar apenas artistas e intelectuais seus companheiros. Retratou entre outros, José Pacheko para o 1º número da revista Contemporânea (1925), o pintor Paulo Ferreira (1934), o bailarino Francis (1930), João Gaspar Simões de forma caricaturada,  bem como o pintor Altberg com a sua mulher (1932). Também pintou figuras anónimas numa realidade simples e expressiva como em O Desemprego (1935),  Amor (1935), O Livro Azul ou Bailarico no Bairro (1936). As seus últimas quatro telas – O Poeta e o Anjo (1938), Da Minha Janela também conhecido como No Cemitério (1938), A Fuga (1938) e um outro inacabado, conhecido como No camarote (1945)-, são composições de figuras angustiadas e de expressões de lirismo. Gaspar Simões considerou mesmo em 1938 que ele foi o primeiro a «fazer entrar o sonho nas artes plásticas nacionais».

Em 1951, ano da última Exposição de Arte Moderna promovida pelo SNI- Secretariado Nacional de Informação e da I Bienal de S. Paulo e dos seus 51 anos, morreu louco – portador da doença ou coreia de Huntington – no Telhal (em Sintra), onde estava internado desde 1945. Sete anos depois, em 1958, o SNI fez-lhe uma exposição retrospetiva organizada pelo pintor Paulo Ferreira, com catálogo prefaciado pelo Arqtº Jorge Segurado. Em 1978 foi a vez da Fundação Calouste Gulbenkian fazer uma mostra semelhante em Londres e em 1996, o Museu do Chiado fez o mesmo.

A sua obra está representada no Museu do Chiado, no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian , na Fundação da Casa de Serralves e na Casa de Portugal em Paris. O seu nome está presente também na toponímia da Charneca de Caparica, de Cascais, de Santo António dos Cavaleiros, de Algés, de Fernão Ferro e de Rio de Mouro.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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