A Rua Mestre Martins Correia junto à sua homenagem às mulheres de Lisboa no Metro das Picoas

Freguesia de Arroios
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Mestre Martins Correia, o escultor de intensa policromia e paixão pelo bronze, que concebeu a decoração da Estação de Metropolitano das Picoas como uma homenagem às mulheres de Lisboa, está desde o ano seguinte ao seu falecimento perpetuado numa rua muito próxima dessa estação, com a legenda «Escultor/1910 – 1999».

A  Rua Mestre Martins Correia era a Passagem Pública entre a Avenida Fontes Pereira de Melo e a Rua Engenheiro Vieira da Silva até a deliberação camarária de 16 de fevereiro de 2000 e consequente Edital municipal de 23 de fevereiro fazerem nascer a Rua, que teve honras de inauguração pública em 20 de outubro desse ano, com evocação do homenageado pelo Mestre Lagoa Henriques e pelo amigo cantor Pedro Barroso.

O ribatejano Joaquim Martins Correia (Golegã/07.02.1910 – 30.07.1999/Lisboa) destacou-se como uma das figuras marcantes da escultura portuguesa, num extenso percurso, multifacetado, com uma estética muito própria. Foi autor de composição abstrata, de retratos, de estatuária oficial, com uma marcante estilização italianizante e aligeirada pelo recurso decorativo à policromia, com a utilização de intensos vermelhos, ocres, pretos, verdes, brancos, azuis e amarelos e uma preferência pelo bronze.

Os seus pais faleceram numa epidemia de pneumónica e foi o aluno casapiano n.º 393, a partir de novembro de 1922, tendo aí concluído o curso industrial e recebido uma bolsa de estudo para frequentar a Escola de Belas Artes de Lisboa, na qual se matriculou no curso de desenho, em 1928, embora tenha terminado diplomado em escultura, a conselho do seu professor da cadeira de modelo, Luciano Freire.

Começou a expor individualmente em 1938, destacando-se logo em 1940 o seu trabalho na exposição da Missão Estética de Viana do Castelo, tendo o seu Cruzeiro do Minho merecido então referências de primeira página no jornal O Século. Nessa década de quarenta executou trabalhos de escultura para a Exposição do Mundo Português, foi um participante constante dos salões do SNI-Secretariado Nacional de Informação bem como continuou presença certa dos salões da Sociedade Nacional de Belas Artes (nos anos de 1936 a 1942) e conseguiu todos os prémios de escultura do país na época : o da Missão Estética de Viana do Castelo (1940), o Mestre Soares dos Reis (1942), o Mestre  Manuel Pereira (1943 e 1947), o de Escultura do SNI, o  do Salão Lisboa, a 1ª medalha do Salão Provincial da Beira Alta. Martins Correia recebeu ainda do Estado uma bolsa de estudos em Espanha e Itália  (1944 e 1945).

Nos anos cinquenta a sua  exposição de 1957 na Galeria do Diário de Notícias valeu-lhe o prémio Mestre Luciano Freire da Academia Nacional de Belas Artes, assim como foi medalha de prata da Junta de Turismo de Cascais, sendo nesse ano também condecorado com a Ordem da Instrução Pública pelo Ministério da Educação Nacional. No ano seguinte, executou as estátuas em bronze de Luís de Camões para a cidade de Velha Goa que lhe valeram o prémio Diário de Notícias. Destaquem-se ainda os seus bustos em bronze de Jaime Cortesão, Augusto de Castro, Nuno Simões, Olegário Mariano, Miguel Torga, Fernando Namora, Natércia Freire, Sophia de Mello Breyner Andresen e a estátua em pedra de Bartolomeu de Gusmão, executada nos anos setenta mas inaugurada em 25 de outubro de 1989 na Alameda das Comunidades Portuguesas. Destaque-se ainda que Mestre Martins Correia também foi galardoado com o Prémio Internacional de Gravura na Noruega e  o Prémio Internacional de Artes Plásticas em Bruxelas.

Em Lisboa, a sua obra, para além da decoração artística da Estação do Metropolitano das Picoas, na ampliação de 1994, soma a composição escultórica da parede do fundo do Café Império até à estátua em pedra de Dom Pedro V na  Faculdade de Letras, passando pela decoração da escadaria da sala de receções do Hotel Ritz, pelo relevo A Justiça e o Povo para o Palácio da Justiça, pela Rainha Santa Isabel de bronze da Casa Pia de Lisboa, pelo Fernão Lopes de granito rosa na Biblioteca Nacional de Lisboa até ao átrio da Torre Vasco da Gama no Parque das Nações. Ainda em Lisboa, refira-se que Martins Correia trabalhou muitos anos num atelier municipal e realizou para a Câmara da capital alguns trabalhos para jardins e edifícios municipais, para além de ter sido membro do Conselho de Arte e Arqueologia da Câmara Municipal de Lisboa.

Um pouco por todo o país estão erigidos vestígios da sua obra no espaço público, para além de estar representado no Museu de Arte Contemporânea de Lisboa-Museu do Chiado, no Museu Soares dos Reis do Porto, no Museu Regional de José Malhoa, no Museu de Arte Moderna de Madrid e claro, na Museu Municipal Martins Correia, na Golegã.

Paralelamente  à sua carreira de escultor Martins Correia também exerceu a docência. Ainda aluno, foi auxiliar dos professores de desenho da Casa Pia de Lisboa. A seguir, foi professor do Ensino Técnico Profissional, na Escola Rafael Bordalo Pinheiro (de 1936 a 1938) das Caldas da Rainha, e em Lisboa, nas Escolas Marquês de Pombal (ano lectivo de 1938-39), Machado de Castro (1939-40), Afonso Domingues (1940-41) e António Arroio (1941-42). Em 1946, foi convidado para professor da Casa Pia de Lisboa, onde ficou até 1958 e de onde partiu para a ESBAL, até à sua última lição em 1971.

Como cidadão, Joaquim Martins Correia foi Presidente da Secção de Cultura Artística da Sociedade de Geografia de Lisboa (1951), autor do programa Assuntos de Arte na antiga Emissora Nacional (1965), membro do Conselho Técnico à Exposição Portuguesa do Rio de Janeiro assim como tomou parte nas exposições internacionais do Rio de Janeiro, de Bruxelas, na Ibero-Americana de Barcelona e na de desenhos de Lausanne. Foi ainda administrador da Fundação Abel de Lacerda-Museu do Caramulo e vogal efetivo da Academia Nacional de Belas Artes.

Das várias homenagens que recebeu evocamos a exposição retrospectiva de 300 obras de escultura, desenho e medalhística de 1939 a 1973 na SNBA (1973), filmada pelos cineastas Manuel Guimarães e Escouto; a sua última lição na seção casapiana de Pina Manique e a condecoração com a Ordem de Santiago da Espada (24 de março de 1973); a inauguração da sua estátua A Camponesa  e a abertura do Museu Municipal Martins Correia, em cerimónia na Golegã presidida pelo então Presidente da República, general Ramalho Eanes (1982); e a Ordem de Santiago de Espada pela segunda vez (1990).

A homenagem às mulheres de Lisboa de Mestre Martins Correia no Metro das Picoas
(Foto: Andrés Lejona, 2002, Arquivo Municipal de Lisboa)

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