O maestro jorgense Francisco Lacerda numa rua de Campo de Ourique

Freguesia de Campo de Ourique                                                     (Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Francisco Lacerda, o maestro açoriano da Ilha de São Jorge, que fora discípulo do maestro Freitas Gazul,  voltou a juntar-se ao seu mestre na toponímia de Campo de Ourique ao passar o ser o topónimo da Rua Projetada à Rua Freitas Gazul, pelo Edital municipal de 1 de agosto de 2005.

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Francisco Inácio da Silveira de Sousa Pereira Forjaz de Lacerda (Ilha de S. Jorge – Ribeira Seca/11.05.1869 -18.06.1934/Lisboa) recebeu a primeiras lições de música de seu pai, João Caetano Pereira de Sousa e Lacerda, aos 4 anos e construiu-se como um compositor e musicólogo que veio a ser o primeiro chefe de orquestra português a alcançar renome internacional, trabalhando em França e na Suíça.

Já em 1886, na Terceira, onde frequentava o Liceu, compôs a mazurka Uma Garrafa de Cerveja, dedicada ao amigo Luiz da Costa e nesse mesmo ano passou a  residir na cidade do Porto, para frequentar o curso de Medicina. Ao mesmo tempo, fazia estudos musicais com António Maria Soller, que o aconselhou a estudar no Conservatório de Lisboa e ele assim procedeu,  tendo sido aluno de Freitas Gazul e logo no ano de conclusão do seu curso, sido professor dessa escola de artes, de 1891 a 1895, sendo nesse último ano que partiu para Paris, como bolseiro da Coroa (foi a 1ª bolsa oficial de música em Portugal), para se aperfeiçoar no Conservatório e depois na então nova Schola Cantorum, em piano, órgão e composição, onde se tornou discípulo e também amigo de Vincent d’Indy que o incentivou a revelar a sua vocação para chefe de orquestra em 1900 e o escolheu para seu substituto na classe de orquestra, sendo inegável  a influência da escola francesa nas suas composições e no seu estilo de direção musical.

De 1904 a 1913, dirigiu concertos em França, nomeadamente, no Casino de La Baule e no Kursaal de Montreux, sendo o primeiro chefe de orquestra português a alcançar renome internacional. Por isso, foi a sua obra escassa como compositor, mesmo que de alta qualidade e dela se destacam os poemas para orquestra Almourol, Alcácer e Epitáfio para um Herói, as Trovas para canto e piano ou orquestra, a música de cena para A Intrusa de Maeterlinck, os bailados Danse du voile e Três Danças Rítmicas,  peças para órgão, piano, guitarra, trios e quartetos de cordas ou Anteriana, Trente Six Histoires e Petites histoires pour amuser l’enfant d’un artiste, bem como a Canção do Berço para o Centenário do Nascimento de Almeida Garrett (1899).

Consideremos ainda Francisco de Lacerda como professor de direção de orquestra;  fundador em 1905 da Association des Concerts Historiques de Nantes, que dirigiu até 1908;  estudioso do folclore que se dedicou  à recolha de música tradicional açoriana (em 1899-1900 e de 1913 a 1921); bem como quando viveu em Lisboa a partir de 1921, foi conferencista e fundador  de Uma Hora de Arte (1922) dedicada aos operários, assim como no ano seguinte da Pró-arte, com Eugénio de Castro, Afonso Lopes Vieira, Carlos Malheiro Dias e Raúl Lino, bem como da  Filarmónica de Lisboa que se apresentou em concertos em Lisboa e no Porto. Regressou a França  entre 1925 e 1928, para voltar a dirigir os Grands Concerts Classiques de Marseille e ser chefe de orquestra em Paris, Marselha, Nantes, Toulouse e Angers.

Impedido de reger por motivos de saúde (tuberculose pulmonar), voltou a Lisboa em 1928, onde organizou as iniciativas musicais da representação portuguesa na Exposição Ibero-Americana de Sevilha de 1929, para além de se dedicar à composição, ao estudo do folclore e da música antiga portuguesa, tendo o resultado das suas recolhas pelo país sido publicado postumamente como Cancioneiro Musical Português. Quando buscou cura nos ares da Madeira ainda presidiu à Comissão das Festas da Cidade do Funchal (1932).

Foi agraciado com o 1º  prémio da Revue Musical (1904) pela Danse du Voile; Ordre National de la Légion d’ Honneur (1905); como Oficial da Ordem de Santiago (1910) e a Medalha de Serviços Distintos da Cruz Vermelha (1920) pelos serviços prestados «na grippe pneumonica de 1918» na ilha de S. Jorge.

O seu nome está presente num Museu açoriano da sua ilha natal, desde 1991, assim como também na toponímia da Calheta e na de Velas (São Jorge), assim como na de Alhos Vedros.

Música – Revista de Artes, 1 de setembro de 1924