A Rua Gervásio Lobato do humor de «Lisboa em Camisa»

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A memória do alfacinha autor de Lisboa em Camisa, célebre na cidade-capital oitocentista pelo riso que provocava, está desde 1932 numa artéria de  Campo de Ourique através da Rua Gervásio Lobato, que liga a Estrada dos Prazeres à Rua Freitas Gazul, vizinha do lado do arruamento de outro nome do humor em palco que é a Rua André Brun, ambos topónimos saídos do mesmo Edital municipal de 12 de março  de 1932, cabendo a Gervásio a Rua Particular nº 1 aos Prazeres  e a André a Rua Particular nº 2 aos Prazeres.

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De seu nome completo Gervásio Jorge Gonçalves Lobato (Lisboa/23.04.1850 – 26.05.1895) ficou muito conhecido no seu tempo, pelas plateias do Teatro Ginásio e pelo acontecimento que foi para a comédia oitocentista o seu Lisboa em Camisa, publicado  primeiro em folhetim de jornal – no jornal O Progresso (de 11 de novembro de 1880 a 1 de março de 1881) e depois, no jornal O Fígaro (de 5 de fevereiro a 28 de maio de 1882)- e só depois em livro, publicado em 1882 pela Empreza Litteraria de Lisboa, no qual fazia humor com os  ridículos e manias da pequena e média burguesia lisboeta do fim do século que circulava pelas ruas do Chiado e da Baixa.

Contudo, Gervásio Lobato também trabalhou com afinco como funcionário público, jornalista e professor de Declamação na Escola Dramática do Conservatório de Lisboa. Gervásio Lobato concluíra o Curso Superior de Letras e a cadeira de Direito Internacional na Escola Naval com o intuito de seguir a carreira diplomática mas a sua vocação era o jornalismo e permaneceu em Lisboa, tanto mais que  aos 15 anos já havia fundado com alguns condiscípulos um jornal literário, A Voz Académica. Garantia a base do seu sustento como segundo oficial da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino mas com Pinheiro Chagas fundou o Diário da Manhã – antes era A Discussão e foi depois Correio da Manhã-, onde se distinguiu como folhetinista, género muito em voga na época, tendo sido A Comédia de Lisboa o título do primeiro que publicou, em 1878, ainda com o pseudónimo Gilberto.

Ao longo da vida colaborou em inúmeros periódicos  como Braz TizanaCorreio da NoiteDiário IlustradoDiário de NotíciasGazeta de Portugal, Gazeta Literária, A Illustração PortuguesaRecreioRibaltas e GambiarrasO Século, A Semana de Lisboa, para além de ter dirigido a revista O Occidente, ou fundado com Teixeira de Vasconcelos e outros o Jornal da Noite, assim como O Contemporâneo com Salvador Marques e Sousa Bastos.

Como escritor,  Gervásio Lobato construiu-se como aquele que nas suas obras retratava a vida na capital portuguesa nessa época, destacando-se Lisboa em Camisa, que o realizador Herlander Peyroteo adaptou para uma série de televisão, com 15 episódios, em 1960. A sua fama cresceu por ser o dramaturgo de comédias que agradavam ao público do Teatro do Ginásio- o nascido  Theatro do Gymnasio, em 1846, na Rua Nova da Trindade-, no qual iam surgindo ano após ano, interpretadas por grandes valores como o ator Vale. Também foi um grande êxito O Comissário de Polícia em exibição em 1890, oferecendo o Teatro Ginásio ao público um cartaz da peça da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro e que foi adaptada ao cinema pela Invicta Films (em 1914) e por Constantino Esteves (em 1953). Foi até na representação de O Festim de Baltasar (1892), com fins caritativos, no São Carlos, que Gervásio Lobato foi agraciado pelo Rei com o oficialato da Ordem de Santiago.

A sua primeira comédia foi o O Rapto de um Noivo, em 1 acto, feita com Maximiliano de Azevedo, que subiu à cena no Teatro Dona Maria II. Seguiram-se em 1873, já para o Ginásio, Debaixo da Máscara e também No Campo. Depois, foram inúmeras peças originais suas, adaptações ou traduções que encheram os palcos portugueses do último quartel do séc. XIX, contabilizando Luiz Francisco Rebello 25 peças originais e 115 traduções e imitações, em pouco mais de 20 anos, como Sua Excelência (1884) ou As Noivas do Eneias (1892), para além de operetas como Cocó , Ranheta e Facada. Também publicou novelas e romances de que salientamos A Primeira Confessada (1881), Os Invisíveis de Lisboa (1886-1887) que teve êxito também no Brasil, Os Mistérios do Porto (1890-1891) ou O Grande Circo (1893).

Na sua vida particular, casou com Maria das Dores Pereira d’Eça Albuquerque, de quem teve filhas e residiu durante muitos anos na Travessa do Convento das Bernardas, na Madragoa, assim como na Travessa do Pombal, que em 29/12/1880 passou a ser a Rua da Imprensa Nacional. Faleceu aos 45 anos, na sua casa na Rua das Amoreiras, nº 102.

Gervásio Lobato está também presente na toponímia dos concelhos de Almada (Charneca da Caparica), Seixal (Arrentela)e Sintra (Massamá).

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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