A Rua do poeta neoclássico Filinto Elísio

Rua Filinto Elísio, algures entre os anos 50 e 60 do séc. XX
(Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

O sacerdote  Francisco Manuel do Nascimento que enquanto poeta neoclássico usou o pseudónimo de Filinto Elísio, é o topónimo de uma Rua da freguesia de Alcântara desde o final do séc. XIX.

A Rua Filinto Elísio nasceu na Rua nº 2 do Bairro Rolão pela deliberação camarária de 8 de julho de 1892, na presidência do Conde de Ottolini na edilidade lisboeta. E nessa mesma deliberação mais artérias do Bairro Rolão tiveram também topónimos de escritores atribuídos:  João de Barros ficou na Rua n.º 1, Soares dos Passos na Rua n.º 4, Bocage nas Ruas n.º 7 e 8 (que é a Rua Amadeu de Sousa Cardoso desde os anos oitenta do séc. XX, pelo Edital municipal de 29/02/1988), Gil Vicente na Rua n.º 9,  e o botânico Avelar Brotero ficou na Rua n.º 6 (que é a Rua Pedro Calmon desde os anos oitenta do séc. XX, pelo Edital municipal de 07/09/1987).

Na década de trinta do século XX a Rua Rua A, situada no prolongamento da Rua Filinto Elísio passou também a ser parte integrante da primeira, conforme Edital municipal em 20 de junho de 1938 e este arruamento dedicado ao poeta arcádico, com dimensão aumentada passou assim a ligar a Rua da Indústria à Rua Soares de Passos.

Na Ilustração Portuguesa em 1905

O homenageado Filinto Elísio é Francisco Manuel do Nascimento (Lisboa/23.12.1734 – 25.02.1819/Paris) de seu nome. Nasceu na freguesia de São Julião, como filho de um casal de Ílhavo, um fragateiro e uma peixeira,  que sempre viveram com João Manuel, um Mestre das Fragatas Reais e depois, Patrão-mor da Ribeira das Naus, que Filinto sempre considerou seu pai.

Francisco Manuel do Nascimento tornou-se sacerdote ordenado em 1754 e o Filinto Elísio poeta arcádico. Quando Leonor de Almeida Portugal, a futura Marquesa de Alorna, estava presa no Mosteiro de São Félix, em Chelas, com a sua irmã Maria, antes da Viradeira,  ele começou a ser visita do local e também como era moda na época começou a cortejar uma das reclusas, Maria, a quem deu  o nome árcade Daphne e à sua irmã, Leonor, o de Alcípe. Leonor retribuiu-lhe esse gesto dando-lhe o nome de Filinto Elísio, para substituir o pseudónimo de Niceno que usara até então no círculo poético do Grupo da Ribeira das Naus.

Este poeta neoclássico compôs odes, epístolas, epigramas e sátiras, tendo as suas poesias sido publicadas ainda em vida, em Paris, em 11 volumes, entre 1817 e 1819, mas só após a sua morte foram editadas em Lisboa as suas Obras Completas, num total de 22 tomos, entre 1836 e 1840, sendo a sua obra considerada precursora do Romantismo. Também os seus restos mortais foram transladados do Père Lachaise para o claustro da Sé de Lisboa em 1843, e mais tarde, para o cemitério do Alto de São João.

Refira-se que a partir de 1778 se refugiou em França, com Avelar Brotero, e foi lá que acabou por falecer, tendo nesses 41 anos conhecido o poeta Lamartine, que até lhe dedicou um poema. As suas ideias enciclopedistas e  liberais  levaram a que fosse denunciado à Inquisição em 22 de junho de 1778, por leituras heréticas proibidas e afirmações blasfemas, o que somado a uma forte amizade que o ligava a Félix da Silva de Avelar tornou-os a ambos suspeitos para o Santo Ofício, pelo que exilaram em Paris. E para sobreviver na capital francesa fez trabalhos de tradução: Os Mártires de Chateaubriand, As Fábulas de La Fontaine, Púnica de Sílio Itálico e o Elogio do Doutor António Nunes Ribeiro Sanches de M. Vicq-d’Azyr para português e verteu as Cartas de Mariana Alcoforado para francês como Lettres Portugaises de Mariana Alcoforado.

Filinto Elísio está também como topónimo nos concelhos de Ílhavo, Almada, Barreiro, Caldas da Rainha, Gondomar,  Odivelas, Oeiras, assim como Francisco Manuel do Nascimento surge em dois topónimos da Charneca da Caparica, no concelho de Almada.

Freguesia de Alcântara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)