Artur Ramos, o primeiro realizador da RTP, numa Rua de Santa Clara

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Artur Ramos, o primeiro realizador efetivo da televisão portuguesa, três anos passados sobre o seu falecimento passou a dar nome a uma artéria do Vale da Ameixoeira, na Freguesia de Santa Clara.

A Rua Artur Ramos foi fixada no arruamento projetado junto à Quinta da Atalaia à Rua 6B do Vale da Ameixoeira, por intermédio do Edital municipal de 16 de setembro de 2009, com a legenda «Encenador e Realizador/1926 – 2006». Pelo mesmo Edital foram perpetuados em ruas do Vale da Ameixoeira mais dois nomes ligados ao teatro, a saber, a atriz Glicínia Quartin e o compositor de teatro de revista Frederico de Brito.

O lisboeta Artur Manuel Moreira Ramos (Lisboa/20.11.1926 – 09.01.2006/Lisboa) foi o primeiro realizador efetivo da televisão portuguesa e o responsável pelas emissões experimentais da RTP, em Palhavã, logo em 1956. A partir de 1951, cursara Realização e Montagem do IDHEC, em Paris, com uma bolsa do governo francês, cuja prova final foi a sua curta-metragem Le Bel indiférent (1954) e no ano seguinte trabalhou na televisão francesa como assistente de realização. Como cineasta,  sobressaiem os seus filmes Pássaros de Asas Cortadas (1962) e A Noite e a Madrugada (1983), a partir das obras de Luiz Francisco Rebello e Fernando Namora, bem como a série adaptada para a RTP de Retalhos da Vida de Um Médico (de 1978 a 1980), tal como Resposta a Matilde (1986) em colaboração com Diniz Machado.  Foi ainda o cineasta autor da média-metragem Before Breakfast  (1961) de E. O’Neill para a ORTF; de L’ Anglaise (1963) para a Paris Match Television; da curta Tragédia do Monte Pereira (1975); de séries de 3 episódios para a RTP: a documental Um Passeio pelo Teatro Português (1987) e A Relíquia (1987) de Eça de QueirozBâton e Vem aí o Pai Natal (ambas em 1988).

Artur Ramos também fez uma carreira muito importante de realizador de teatro televisivo. Para a RTP, logo em 1957, começa a especializar-se em teatro televisivo e escolheu obras de Tchekhov, Garrett, Anselmo Lopes Vieira, Bernard Shaw, Calderón de la Barca, Carlos Selvagem, Cervantes, Claude Spaak, Gervásio Lobato, Gil Vicente, João Pedro de Andrade, John Synge, Lope de Vega, Maeterlinck, Mark Twain, Miguel Barbosa, Oscar Wilde, Pierre Barbier, Teresa Rita,  Thortnton Wilder. Em 1958, realizou também a experiência inédita de transmitir peças teatrais em direto de cenários naturais , com o Amor Posto à Prova  de Marivaux na escadaria do Seminário dos Olivais e, O Doente Imaginário de Molière no Palácio Centeno.

Como encenador, Artur Ramos fundou as companhias teatrais GAT-Grupo de Ação Teatral e a do Teatro Maria Matos, para além de se ter destacado  por ter sido quem primeiro estreou em Portugal Os Dias Felizes, de Samuel Beckett, no ano de 1968. Trabalhou para o Teatro Nacional em 1961, 1967 e 1969; para Solnado no Teatro Villaret em 1965 e 1966; bem como na dramaturgia de ópera, no Grupo Experimental de Ópera de Câmara (1963, 1968 e 1969) que fundou. Em 1972, foi proibida a sua A Mãe, bem como Auschwitz, Oratório em 11 cantos foi retirada de cena pela PIDE. No ano seguinte, ganhou o 1º prémio do concurso da FNAT, com o Retábulo do Flautista, pelo Grupo Teatro da Oliva (de São João da Madeira), de imediato proibida pela censura. Voltou ao teatro a partir de 1977, para encenar nos Bonecreiros, no Teatro da Bugiganga, na Casa da Comédia, no Teatro Nacional, no Grupo de Teatro de Campolide já estabelecido em Almada, no Teatro São Carlos, na Companhia Teatro Estúdio de Lisboa e no Teatro Experimental de Cascais.

Como cidadão, Artur Ramos aderiu ao PCP em 1957, o que lhe valeu em 1961 o despedimento político da RTP, justificado pelo pacifismo da realização da peça O Herói e o Soldado de Bernard Shaw. Em 1969, na primavera marcelista, regressou à RTP como free-lancer e assim realizou mais peças, de António Chiado, Francisco Manuel de Melo, Gil Vicente, Mrozeck, Paddy Chayeefsky, Reginald Rose, A. Miller, Manuel da Fonseca e Brecht. Após o 25 de Abril, foi nomeado Diretor de Programa da RTP, até agosto desse ano, passando depois a dirigir o Departamento de Programas Teatrais. Após o 25 de novembro de 1975 voltou a ser despedido da RTP por motivos políticos e reintegrado em 1986, por sentença judicial.

Este lisboeta, que foi pai de outra cara conhecida da televisão portuguesa – Helena Ramos -, estudou no Liceu Camões e licenciou-se em Filologia Germânica na Faculdade de Letras de Lisboa. Foi ainda crítico de teatro na Seara Nova, tradutor, dirigente da Sociedade Portuguesa de Autores e professor das Escolas de Teatro e Cinema do Conservatório Nacional (1982) e de um curso na Escola de Teatro do Centro Cultural de Évora (1986).

Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

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