Rua Gomes de Brito

Olisipo, outubro de 1943

Rua Gomes de Brito, topónimo atribuído por Edital de 16 de Setembro de 2009 a um arruamento da freguesia de Marvila

José Joaquim Gomes de Brito (1843 – 1923), jornalista, funcionário da Câmara Municipal de Lisboa, olisipógrafo, foi autor prolífico, redigindo diversos elogios históricos, pareceres sobre a indústria e o comércio, e escrevendo sobre a cidade de Lisboa. Assinou quer com o seu nome, quer sob pseudónimo (Brás Fogaça, Um português obscuro, Nullius, Petintal de Alfama, G. de B.). Foi sócio fundador da Sociedade de Geografia de Lisboa (1875), participou na criação da Sociedade dos Jornalistas e Escritores Portugueses e na Comissão do primeiro mausoléu de Alexandre Herculano (1880). Cursou Belas Artes, mas por influência de Alexandre Herculano, de quem viria a ser discípulo e amigo, licenciou-se em Letras, onde conheceu os irmãos Bordalo Pinheiro. Participou num grupo de teatro amador, ao qual pertencia Rafael Bordalo Pinheiro, vindo a colaborar com este n’O Binóculo (1870) e n’O Calcanhar de Achilles (1870). Publicou artigos na Revista de Educação e Ensino, no Correio Nacional, n’O Occidente, O Commercio de Portugal e o Diário de Notícias, entre outros. Como olisipógrafo, publicou o primeiro trabalho em 1880, A Rua de S. Tomé, publicado no jornal A Revolução de Setembro. Mais de dez anos depois, atendendo à sua vida profissional que o impediu de se dedicar à olisipografia, dá início à publicação de várias obras sobre a cidade: Lisboa de 1578 a 1583: cartas de Filipe Sassetti(…) (1893); O prior de S. Nicolau (…) (1893); Os remolares: o que fossem, onde e quando começariam a ser denominação de um sítio de Lisboa (1899); Os Itinerários de Lisboa (1899-1900); Archeologia musical (1904); Tenças testamentárias da Infanta D. Maria (1907); Notícia de livreiros e impressores em Lisboa na segunda metade do século XVI (1911). Neste último ano, publicou ainda Lisboa do passado, Lisboa dos nossos dias, reunindo num único volume alguns dos artigos dispersos em várias publicações.

Já reformado, prosseguiu os seus trabalhos, embora muito limitado nas suas deslocações, após ter partido uma perna nas escadas dos Paços do Concelho de Lisboa. No entanto, tal não o impediu de trabalhar naqueles que viriam a ser os seus grandes contributos para a história e a olisipografia. Em 1914, foi publicado o seu aprofundado estudo sobre Alexandre Herculano para o Diccionario Bibliographico Português de Inocêncio F. da Silva e Brito Aranha, que viria a ocupar todo o volume XXI.

Em 1923, terminou, pouco antes de falecer, o comentário e as notas à edição do manuscrito anónimo, Estatística de Lisboa de 1552, ao qual atribuiu novo título (Tratado da majestade, grandeza e abastança da cidade de Lisboa, na 2ª metade do século XVI) e cujo autor conseguiu identificar como sendo João Brandão (de Buarcos). Augusto Vieira da Silva conta no discurso que fez em homenagem a Gomes de Brito em sessão da Academia Portuguesa da História, um episódio passado entre os dois a propósito desta obra. Vieira da Silva narra como Gomes de Brito sempre o auxiliou nas suas investigações, quer emprestando-lhe livros da sua biblioteca, quer partilhando o seu conhecimento. No entanto, quando Vieira da Silva o indagou sobre a autoria da Estatística Brito remeteu-se ao silêncio, não querendo revelar o que tinha descoberto antes da edição das anotações. Mas não se esqueceu Gomes de Brito deste episódio. O Gabinete de Estudos Olisiponenses possui o exemplar da Estatística de Vieira da Silva com a seguinte dedicatória, assinada por António Baião, testamenteiro de Gomes de Brito e datada de 14 de Novembro de 1923, isto é um mês após a morte do olisipógrafo: “Exemplar oferecido ao Exmº Sr. A. Vieira da Silva, como homenagem ao seu valioso auxílio para a publicação desta obra e por expressa determinação do anotador e comentador, J.J. Gomes de Brito, antes do seu falecimento.”

A última grande obra da sua autoria publicada por António Baião, é certamente a mais conhecida: As Ruas de Lisboa: notas para a história das vias públicas lisbonenses. Editada em 1935, ela resulta do facto de António Baião, ter sido amigo e o herdeiro do espólio de Gomes de Brito, o qual ao longo da vida recolhera as informações necessárias para a realização do livro, reunindo verbetes sobre topónimos lisboetas. Baião prosseguiu o trabalho de Brito dando-lhe forma de livro, organizado alfabeticamente, tal como as fichas de Brito. Trabalho incompleto e com entradas de dimensões muito variáveis, As Ruas de Lisboa, são, porém, um trabalho inovador. Até então nunca tinha sido impressa uma obra exclusivamente dedicada à toponímia urbana. Gomes de Brito é justamente considerado o fundador dos estudos toponímicos de Lisboa.

© CML | DPC | Gabinete de Estudos Olisiponenses | 2019

One thought on “Rua Gomes de Brito

  1. Embora justamente considerado como o “pai” dos estudos sobre toponímia, a verdade é que ninguém se tinha lembrado de perpetuar o nome de Gomes de Brito numa rua. Dei por essa falha e tive, por isso, o gosto (e a honra) de ser eu a fazer a proposta, na Comissão Municipal de Toponímia, a que então pertencia. Claro que foi aprovada por unanimidade. Curiosamente, no mesmo dia propus também Frederico de Brito, pelo que alguém brincou dizendo que eu estava virado para os Britos. Penso que a proposta deve constar da respectiva acta. Cumprimentos para os “toponímicos” que mantêm esta secção sempre com interesse.

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