Rua José Felicidade Alves

Rua José Felicidade Alves, topónimo atribuído por Edital de 14 de Julho de 2004 a um arruamento da freguesia de Campolide

José Felicidade Alves (1925-1998), sacerdote, escritor, olisipógrafo. Participou na Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos. Foi sócio da Academia Nacional de Belas Artes, do Grupo Amigos de Lisboa e da Associação Portuguesa de Historiadores de Arte. Pertenceu à Comissão de Ética do Instituto Português de Oncologia. Foi ordenado sacerdote em 1948. A sua carreira eclesiástica iniciou-se nos Seminários de Almada e dos Olivais, como professor, mas em 1956 foi nomeado pároco de Santa Maria de Belém. Segundo alguns dos seus próprios testemunhos, foi aqui, através da vida paroquial e dos paroquianos, que contactou com a realidade. Em simultâneo, as eleições presidenciais às quais Humberto Delgado se candidatou, em 1958, despertaram nele uma consciência política, embora ainda pouco definida – “Foram as eleições de Humberto Delgado que me acordaram(…) dei-me conta que não estava com o regime embora não soubesse porquê”, como contou à jornalista Diana Andringa. Com o início da guerra colonial, começa também a questionar o papel da Igreja no acompanhamento dado aos militares e no ocultar das tragédias pessoais que iam ocorrendo, e que ele tanta vezes ouvia no confessionário. Viviam-se então os anos do Concílio Vaticano II (1962-1965), pelo qual a Igreja, através dos seus dignitários procurou a reaproximação aos princípios cristãos, ao mesmo tempo que alterava profundamente a liturgia, apelava à participação activa dos leigos na vida das comunidades e apelava à aplicação dos direitos do homem. Em 1965, o cardeal Cerejeira envia-o a Paris, por pouco tempo. Em 1967 as suas homílias começam a incomodar a hierarquia católica ao abordar temas como a reforma da Igreja e mais uma vez é enviado a Paris, agora para estudar Teologia Ecuménica em 1968. No entanto, nas férias da Páscoa desse ano, regressa Lisboa, apresentando uma comunicação ao Conselho Paroquial de Belém subdividida em duas partes Perspectivas actuais de transformação nas estruturas da Igreja, e Sentido da responsabilidade pessoal na vida pública do meu país onde tece considerações sobre uma muito necessária reforma do clero, da igreja e do seu ensinamento, ao mesmo tempo que defendia a abolição da censura, o direito à informação e discutia a guerra colonial. Esta comunicação veio a revelar-se um ponto de viragem na sua vida, pelas consequências que provocou. O cardeal Cerejeira, instaurou-lhe um processo cujo resultado foi o afastamento de Felicidade Alves da paróquia em Novembro de 1968, a suspensão e a excomunhão em 1970.

Afastado da vida clerical, mas não da fé cristã, Felicidade Alves impulsionou, com Teotónio Pereira e o padre Abílio Tavares Cardoso, a publicação dos Cadernos do GEDOC (Grupo de Estudos, Intercâmbio de Documentos, Informações e Experiências) inseridos no movimento dos católicos progressistas que questionavam a hierarquia da Igreja instituída e a manutenção da guerra. Acusado de incitar à violência e à luta armada, foi preso pela PIDE e levado a tribunal, sendo absolvido.

Após a saída da vida religiosa passa a dirigir o Anuário Comercial, e depois ingressa na Editora Livros Horizonte. Dedica-se à escrita de temas teológicos Também nós queremos ser pessoas livres (1970), Não te admires que eu diga: é preciso nascer de novo! (1970), Jesus da Nazaré (1994). Enveredou pela Olisipografia a partir da década de 80 do século XX, iniciando em 1984 a publicação da obra de Francisco de Holanda (1517-1585), humanista e arquitecto português: Da Fábrica que falece à cidade de Lisboa, Do tirar polo natural, Da pintura antiga, Diálogos em Roma (todos de 1984). Obras para as quais redigiu as introduções, as notas e comentários trazendo para a luz da discussão este importante humanista. Em 1986 apresenta de sua autoria Introdução ao estudo da obra de Francisco de Holanda. No ano seguinte inicia um novo e importante conjunto de edições, traduzindo , anotando e comentando algumas das obras clássicas sobre Lisboa: Lisboa em 1551, de Cristóvão Rodrigues de Oliveira (1987); Descrição da cidade de Lisboa, de Damião de Góis (1988), A conquista de Lisboa aos mouros em 1147 (…), (1989), Grandeza e Abastança de Lisboa em 1552, de João Brandão, e Do sítio de Lisboa: diálogos, de Luís Mendes de Vasconcelos (ambos de 1990). Estas edições enriquecidas com as suas investigações permitiram que toda uma nova geração a elas tivesse acesso e deu a conhecer ao grande público algumas das mais importantes fontes para o conhecimento da história da cidade. Entre 1989 e 1993, vieram a público os seus três volumes O Mosteiro dos Jerónimos: Descrição e evocação (I vol.), Das origens à actualidade (II vol. ) e Para um inventário do recheio de Santa Maria de Belém (III vol. ), naquele que é considerado um dos mais completos estudos sobre este mosteiro.

O seu arquivo, meticulosamente organizado, foi doado pela sua viúva, Elisete Alves, com quem se casara civilmente em 1970 (e canonicamente em 1998), à Fundação Mário Soares, e abarca um vasto conjunto documental sobre temas diversos. Foi a partir do seu espólio que foram postumamente publicados os títulos, Roteiro da Produção literária Portuguesa no século XVI, e em 2008, Monografia sobre São Vicente.

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