Muzai na Escola Nuno Cordeiro da Avenida David Mourão-Ferreira, no MURO’19

Muzai na Escola Nuno Cordeiro: A Balada de Seu Ciro e Dona Elvira
(Foto: © José Vicente| CML| DPC| 2019

No âmbito do MURO’19 foi Muzai o escolhido para deixar a sua intervenção artística – A Balada de Seu Ciro e Dona Elvira – na empena da Escola Básica Nuno Cordeiro, sediada na Avenida David Mourão-Ferreira, nesta 3ª edição Festival de Arte Urbana de Lisboa em que a arte urbana se une à música e à literatura presente no espaço, quer através da toponímia, quer de concertos e peças artísticas que unem a pintura a sonoridades.

O brasileiro Muzai usa o fio condutor da simplicidade do seu traço e de cores puras, fortes e contrastadas, para produzir arte urbana. Procura uma poética visual de fantasia e sonho, como que resgatando a criança interior do interior do homem. Nascido em Minas Gerais, em 1968, como Fabrício Alves, desde criança que era apaixonado por banda desenhada e licenciou-se pela Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Uberlândia. Desde 2009 que se tornou o artista Muzai, após ter visitado São Paulo e ter ficado impressionado com o impacto da arte urbana na cidade em contraste com as antigas ruas cinzentas. Começou o seu percurso pela arte urbana mural na sua cidade natal.

David Mourão-Ferreira, escritor romancista, novelista, contista, dramaturgo e poeta que também escreveu para fado, professor universitário de literatura, ensaísta, jornalista e cronista, tradutor e crítico literário é o homenageado nesta longa Avenida onde se encontra a Escola Básica Nuno Cordeiro em cuja empena Muzai pintou a sua obra de caras, guitarra e ternura.

A Avenida David Mourão-Ferreira foi o topónimo dado à Rua 3 da Malha 14,6,1,2 e 3 do Alto do Lumiar através da publicação do Edital municipal de 22 de julho de 2005 e que encontramos desde a rotunda onde confluem a Avenida Carlos Paredes e a Rua General Vasco Gonçalves até ao Eixo Central (no troço entre Rotunda 2 e a Av. Nuno Krus Abecassis). Com a Rua José Cardoso Pires e a Avenida Carlos Paredes define quase um círculo em cujo espaço interior decorre o MURO’19.

O escritor David de Jesus Mourão-Ferreira (Lisboa/24.02.1927-16.06.1996/Lisboa), filho de David Ferreira – secretário do diretor da Biblioteca Nacional – e de Teresa de Jesus Mourão-Ferreira, homem de múltiplas facetas notabilizou-se como poeta do amor e da sensualidade, como uma personalidade que tanto na vida como na escrita celebrou o amor, o erotismo e o corpo em palavras. Nasceu e viveu até aos 15 anos no Bairro da Lapa, frequentou o Colégio Moderno e já nas brincadeiras de infância fazia peças de teatro e jornais que o seu irmão mais novo – Jaime Alberto – ilustrava. Licenciou-se em 1951 em Filologia Românica, na Faculdade de Letras de Lisboa, onde veio a ser professor e catedrático de Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa.

Com Alain Oulman, David Mourão-Ferreira levou os seus poemas também para o fado e para a voz de Amália, em que se destacam Barco Negro (1954), Abandono, Solidão,  Espelho Quebrado, Primavera, Anda o Sol na Minha Rua, Nome de Rua ou Maria Lisboa (1961). Depois, também produziu letras para Simone de Oliveira ou Luís Cília, apesar de ter sido alvo de uma campanha de difamação, assim como de um processo judicial por  ter subscrito a apresentação da Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia (em 1965), bem como por no ano seguinte ter prefaciado a tradução de A Filosofia da Alcova do Marquês de Sade.

Começou a sua vida literária na poesia com a A Viagem (1950) a que somou, entre outros, Tempestade de Verão (1954) que foi Prémio Delfim Guimarães, Os Quatro Cantos do Tempo (1958), A Arte de Amar (1962), Cancioneiro de Natal (1971) que foi Prémio Nacional de Poesia, Matura Idade (1973), Sonetos do Cativo (1974), Os Ramos e os Remos (1985), No Veio de Cristal (1988) que foi Grande Prémio Inasset de Poesia, Nos Passos de Pessoa (1988) que ganhou o Prémio Jacinto Prado Coelho e a antologia erótica Música de Cama (1994).

São também de destacar as novelas Gaivotas em Terra (1959) que conquistaram o Prémio Ricardo Malheiros e são topónimo de uma artéria do Parque das Nações, a peça O Irmão (1965) que foi Prémio de Teatro da Casa da Imprensa, os contos Os Amantes (1968), As Quatro Estações (1980) galardoada com prémio da Associação Internacional dos Críticos Literários, o romance Um Amor Feliz (1986) – que recebeu o Prémio de Narrativa do Pen Clube Português, o Prémio D. Dinis da Fundação da Casa de Mateus, o Prémio de Ficção Município de Lisboa, o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores e a Medalha Oskar Nobiling da Academia Brasileira de Letras -, Duas Histórias de Lisboa (1987) e o CD Um Monumento de Palavras.

Colaborou também em jornais e revistas, como o Diário Popular ou a revista Seara Nova (onde em 1945 publicara os seus primeiros poemas), para além de ter sido um dos fundadores da revista literária Távola Redonda (1950-1954) que dirigiu com António Manuel Couto Viana e Luís de Macedo. Em 1967, tinha a rubrica «Poesia para Todos» no Diário de Lisboa e após o 25 de Abril dirigiu A Capital e foi diretor-adjunto de O Dia. Na década de sessenta do séc. XX também foi o autor do programa Música e Poesia na Emissora Nacional e de Hospital das Letras e Imagens da Poesia Europeia na RTP, tendo nos anos setenta criado também O Dom de Contar para a televisão.

Desempenhou ainda as funções de Secretário de Estado da Cultura (nos anos de 1976, 1977 e 1979), sendo seu o despacho que criou a Companhia Nacional de Bailado. A partir de 1981 dirigiu o Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian e depois, presidiu à Associação Portuguesa de Escritores (1984 – 1986) e ao Pen Club Português (1991).

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