Maria do Carmo Torres e Glam unidas pelo Fado nas ruas do Lumiar

(Foto: © Bruno Cunha, 2019 |DPC |DMC |CML )

Maria do Carmo Torres e Catarina Glam,  são duas mulheres unidas pelo Fado e pelo  Festival de Arte Urbana de Lisboa, no Lumiar. Maria do Carmo Torres, voz fadista perpetuada em topónimo numa rua desta zona e Catarina Glam pela sua intervenção mural  centrada na figura de uma fadista.

Glam é o nome artístico de Catarina Monteiro, nascida em 1985, cuja paixão pelas cores e formas a fez enveredar desde o ano 2000 pelo graffiti e pintura de murais. Esta licenciada em Design de Comunicação  pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa que já participou no MURO’16 também transitou, gradualmente, para a execução de  esculturas em papel e madeira, peças e personagens que desenvolveu para várias entidades e inúmeras exposições e festivais. A sua estética assenta na geometria e no seu interesse pela carpintaria criando assim criar personagens em sólidos geométricos, para além de trabalhar também a  reciclar materiais.

Da sua obra, destaquem- se os seus trabalhos em festivais como o MS Artville de Hamburgo e o Iminente Festival em Lisboa ( ambos em 2017), assim como desde 2015 no Walk&Talk dos Açores,  International From Waste To Art Exhibition de Baku, Ruelles de Lyon, Loures Arte Pública, Sm’arte Festival de Bragança,  UPFest de Bristol,  Tons de Primavera de Viseu, Trashplant Festival e Festival Boreal (ambos em Tenerife), Putrica de Freamunde, Super Bock Super Rock, Poesia na Rua  da Amadora, Festival Pitoresco de Vila Real e o Arte Pública de Leiria. Refiram-se também as suas exposições Silver Kings & Paper Toys (2014) e Glam Baby Show(er) (2016), em Lisboa, bem como a sua participação na Amarte no Mercado do Bairro Alto, Meeting Art [Point] nos Armazéns do Chiado, Garagem – Centro Difusor de Artes na Cervejaria Ramiro, The Exhibitionists na Funarte Gallery, Merc’Art no Timeout Market e no Lx Factory, ou Super Bock Coruja no Timeout Market, para além de fora de Lisboa ter marcado presença na Lá Vai Ela de Mala Posta no Centro Cultural Malaposta, na Movie Posters da Incrível Almadense, na Marias dos Tamancos  de Estarreja, na 100 Dollar Bills Y’all na Circus Gallery do Porto ou na Mar Motto em Sesimbra.

Maria do Carmo Alves Torres foi uma cantadeira de fado nascida na piscatória vila algarvia da Fuzeta (Olhão), no dia 8 de janeiro de um dos primeiros anos do século XX,  que ainda em bebé foi morar para Setúbal e seguiu o percurso de trabalhar numa fábrica de conservas de peixe. Em paralelo, fazia teatro amador e foi assim que aos 19 anos ( supõe-se que seja à roda de 1926) se estreou como intérprete  do garoto das filhoses numa revista de amadores levada à cena no Salão Recreio do Povo, em Setúbal, de onde seguiu para outra revista no Casino de Setúbal, onde imitou o conhecido pescador António Gouga, tendo sido obrigada pelos aplausos a cantar 7 vezes seguidas e daí passou para uma revista no Casino Estoril.

Após o suicídio do seu filho de 16 anos a castiça intérprete acabou por fixar-se em Lisboa, no 2º andar do n.º 119 da Travessa dos Fiéis de Deus. Teve depois uma filha a que chamou Maria Carolina. Na capital, trabalhava como empregada de balcão no Café-Restaurante Sul-América e um dia em que acabou por substituir a cantadeira Maria Virgínia, o diretor Mendes Leal e Alfredo Madeira proporcionaram-lhe a aquisição do carteira profissional e a partir daí, cantou o fado nas esperas de touros do Campo Pequeno, nos teatros e salões de festas dos cinemas, em festas de caridade e nas particulares como as da Condessa de Ficalho, bem como até na então denominada Emissora Nacional. Do seu reportório foram sucessos O SonhoMaria da Graça,  Não Me PersigasMaria da EsperançaCarta em Verso, Fado da Amora, Os beijos são como as rosas e O Que é de Mais Faz Mal, sendo Adriano Reis o seu letrista favorito. A partir de 1934, integrou a Embaixada do Fado, organizada por Maria do Carmo Alta e dirigida por Alberto Reis, que se exibiu no Porto e fez uma digressão pelo Brasil, Argentina e Uruguai, incluindo o guitarrista ArmandinhoBerta Cardoso, Branca Saldanha, Lina Duval, Filipe Pinto, Joaquim Pimentel e Eugénio Salvador, entre outros.

Cantou nas diversas casas especializadas de fado lisboetas como o Retiro da Severa (Rua António Maria Cardoso, n.º 5), o Solar da Alegria (Praça da Alegria, n.º 56, num prédio já desaparecido), o Café Luso (no n.º 27 da Avenida da Liberdade, de onde passou em 01/11/1939 para o n.º 131 da mesma Avenida e ainda mais tarde, para a Travessa da Queimada, n.º 8), o Café Mondego (Rua da Barroca, 124), o Retiro dos Marialvas (Rua da Barroca, 122 a 126), a Adega da Lucília (Rua da Barroca, 54) antes de se chamar O Faia e o Solar do Marceneiro (ao fundo da Calçada de Carriche).

No final de 1944 apadrinhou a estreia artística de Deolinda Rodrigues e cerca de 7 anos depois,  após 1951, de acordo com o estudioso Eduardo Sucena retirou-se do fado, para casa de uma irmã e faleceu nessa mesma década em Leça do Bailio.

© CML | DPC | NT e GAU | 2019

 

 

One thought on “Maria do Carmo Torres e Glam unidas pelo Fado nas ruas do Lumiar

  1. Pingback: A Rua Maria Margarida da Cruz Vermelha e o Carlos Paredes do artista Samina | Toponímia de Lisboa

Os comentários estão fechados.