MURO’19: A bola de San Spiga a rolar no Grupo Desportivo do Bairro da Cruz Vermelha ou das Marias

San Spiga, artista argentino focado no futebol e no sorriso, vai fazer rolar as suas tintas para intervir nas paredes exteriores do Grupo Desportivo e Recreativo do Bairro da Cruz Vermelha, junto à extinta Rua das Três Marias, no Bairro também conhecido popularmente como «Bairro das Marias»,  no âmbito do MURO’19, 3ª edição do Festival de Arte Urbana de Lisboa que desta vez junta arte urbana com sonoridades que a toponímia local ligada à música sugere.

San Spiga é o nome artístico de Santiago Spigariol, nascido em 1981 na Argentina. Este artista  multifacetado, adepto do lema «faz-se, aprende-se», é também desenhador gráfico, professor universitário e investigador da Universidade de Buenos Aires, bem como sócio e diretor criativo da empresa The Brandbean. Tem obra pedagógica e de investigação publicada, tendo despendido dois anos em viagem pelas universidade de desenho mais prestigiadas do mundo para entrevistar alunos e docentes orgulhosos da sua vocação.  O mundo visual  de San Spiga, bem humorado e de sorriso desenhado é feito com paixão e essa vocação natural cria a marca da diferença da sua obra. Já esteve em Lisboa a participar no MURO’16.

A Rua das Três Marias em 1970
(Foto: João H. Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua das Três Marias era a Rua 7 do Bairro Municipal da Cruz Vermelha, atribuída pelo Edital municipal de 27 de outubro de 1966, como os restantes topónimos do Bairro da Cruz Vermelha.

Ao contrário do que era hábito na toponímia de Lisboa desde a criação em 1943 da Comissão Municipal de Toponímia, através do Edital de 27 de outubro de 1966 a Câmara Municipal de Lisboa atribuiu aos arruamentos do Bairro da Cruz Vermelha o nome de pessoas ainda vivas: o de seis mulheres da Secção Auxiliar Feminina da Cruz Vermelha que naquela mesma década promoveram uma campanha nacional de angariação de fundos para a construção do Bairro, tendo até perante as câmaras da RTP solicitado um escudo  a cada telespetador – um escudo equivale a cerca de meio cêntimo dos nossos dias -, para se proceder ao realojamento das famílias cujas barracas na Quinta da Feiteira (à Charneca do Lumiar), tinham sido destruídas por um incêndio em 15 de julho de 1963.  As beneméritas ficaram identificadas exclusivamente pelos seus nomes próprios: Rua Maria Carlota (de Maria Carlota Saldanha Pinto Basto), Rua Maria Emília (de Maria Emília Moreira Sena Martins), Rua Maria Helena (de Maria Helena Monteiro de Barros Spínola, mulher de António de Spínola), Rua Maria Margarida (de Maria Margarida Montenegro Fernandes Tomás de Morais, a presidente da Secção Feminina da Cruz Vermelha), Rua Maria Ribeiro (de Maria Ribeiro Espírito Santo Silva de Melo) e Rua Maria Teresa (de Maria Teresa Assis Palha Holstein Beck). Nos restantes arruamentos a edilidade lisboeta fez nascer a Rua das Duas Marias, a Rua das Três Marias, a Rua das Quatro Marias, a Rua das Cinco Marias e o Largo das Seis Marias.

Desta toponímia inicial do Bairro da Cruz Vermelha, popularmente conhecido como das Marias, hoje restam a Rua Maria Carlota e a Rua Maria Margarida. E as outras «Marias» que se juntaram depois: a Rua Maria Albertina (Edital municipal de 25 de junho de 1985) e as Ruas Maria Alice, Maria do Carmo Torres e Maria José da Guia ( Edital municipal de 5 de julho de 2000).

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RAF e Helena Vaz da Silva no MURO’19

A Rua Helena Vaz da Silva

No talude da Rua Helena Vaz da Silva vai estar presente RAF  com uma intervenção artística com 450 metros de extensão, no âmbito da realização do MURO’19 – Festival de Arte Urbana de Lisboa.

Rui Ferreira é o nome civil de RAF, criador das Produções Artísticas da RAF ART Lda., também tatuador e fundador da MU Workspace Creative Cowork, na Alta de Lisboa. Estudou na Escola Secundária Artística António Arroio e já em 2013 colaborou com a Galeria de Arte Urbana | GAU, ao participar no «Rostos do Muro Azul», na Rua das Murtas.

Área da intervenção artística de RAF para o MURO’19

Helena Vaz da Silva, mulher de cultura e jornalista do Centro Nacional de Cultura e do Instituto Português de Cinema, é topónimo de Rua do Alto do Lumiar desde a publicação do Edital municipal de 20 de novembro de 2003, numa artéria que parte da confluência da Avenida Álvaro Cunhal, Rua Arnaldo Ferreira, Rua General Vasco Gonçalves e Avenida Eugénio de Andrade para chegar à Avenida David Mourão-Ferreira.

Helena Maria da Costa de Sousa Macedo Gentil (Lisboa/03.07.1939 – 12.08.2002/Lisboa), nascida alfacinha no nº7 C do Largo Dr. António de Sousa Macedo, estudou em colégios católicos e quando terminou o ensino secundário ficou a ensinar Moral e Francês no Colégio das Oblatas, tendo também aos 17 anos conseguido o seu primeiro emprego como correspondente de línguas na Agência de Publicidade Manuel Martins da Hora, onde outrora trabalhara Fernando Pessoa. Em 1959, casou com Alberto Vaz da Silva, de quem teve quatro filhos (Francisco, Salvador, Tomás e Helena) e esta decisão pessoal vai marcar a sua carreira profissional futura já que o  seu círculo de amigos próximos passou a incluir Alçada Baptista, Nuno Bragança, João Bénard da Costa, Pedro Tamen, bem como José Escada, Luís Sousa Costa e Mateus Cardoso Peres. Concretizaram juntos em 1963 a revista católica de oposição ao regime salazarista, O Tempo e Modo, dirigida por Alçada Baptista, editada por Pedro Tamen, com chefia de redação de João Bénard da Costa e tendo como principais redatores Nuno Bragança e Alberto Vaz da Silva.

Em 1965, Helena Vaz da Silva assumiu a responsabilidade da edição portuguesa da revista Concilium, para difundir o espírito de Vaticano II, a partir da qual também se organizaram debates e seminários. E três anos depois, em 1968, foi para Paris fazer a sua formação de jornalista. Regressou a Portugal em 1972, para retomar o trabalho na O Tempo e o Modo, onde organizou dois números especiais, um sobre Deus e outro sobre o casamento, tendo este último sido apreendido pela Censura após a publicação. Ainda em 1972 dirigiu a empresa turística algarvia da Quinta da Balaia. Em 1973 ingressa no semanário Expresso, onde até 1976 assumiu a coordenação da «Revista», para além do trabalho de reportagens, crónicas e entrevistas. Depois foi trabalhar para a Direção de Programas Sociais e Políticos da RTP, a que regressou em 1993, para o Conselho de Opinião da RTP. Esteve na Agência ANOP (1977), onde trabalhou como grande repórter e chefe da secção de cultura e educação, para além de se ter associado à revista Raiz e Utopia, fundada em 1977 por António José Saraiva, passando em 1978 a ser a proprietária e diretora da mesma.

De 1979 até à sua morte presidiu ao Centro Nacional de Cultura, sendo muito recordada pelos lisboetas pela criação dos Passeios de Domingo, iniciativa de itinerários culturais pioneira em Portugal. Em 1980 foi nomeada Vice-Presidente do organismo de apoio à criação cinematográfica, o Instituto Português de Cinema.

Do vasto currículo de Helena Vaz da Silva refira-se que foi tradutora, nomeadamente de Yourcenar e deixou obra publicada como Júlio Pomar com Helena Vaz da Silva (1979), Portugal – o último descobrimento (1987); fez crónicas para a Antena 1, TSF, Comercial e Rádio Renascença; integrou a Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses (1987) e a Comissão Nacional da UNESCO (de 1989 a 1994); foi deputada no Parlamento Europeu, como independente eleita nas listas do PSD (1994-1999); presidiu à Comissão Cidadão e Justiça (1990); foi membro do Conselho de Orientação para os Itinerários Culturais do Conselho da Europa, do Conselho Estratégico de Lisboa (1992), da Comissão para o Futuro da Televisão em Portugal (1996), do Conselho Geral do Movimento Europeu e ainda, presidiu ao Grupo de Trabalho sobre Serviço Público de Televisão, a partir de 5 de junho de 2002.

A intervenção de RAF na Rua Helena Vaz da Silva
(Foto: Bruno Cunha| DPC| 2019)

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A Rua Maria José da Guia, Tamara Alves e Ozearv no MURO’19

A 3ª edição do Festival de Arte Urbana de Lisboa, o MURO’19, na proximidade da Rua Maria José da Guia, junta Tamara Alves e Ozearv numa intervenção artística conjunta no muro do estacionamento, ligando assim a arte urbana à música presente na toponímia local. Tamara Alves & Ozearv realizarão também um workshop no local.

Tamara Alves, nascida em 1983 é uma artista multifacetada que se exprime da pintura à  ilustração, das tatuagens à arte mural urbana, com o denominador comum de uma visão erótica de um corpo contemporâneo com limites expandidos: sem órgãos, uma paixão bruta, um devir animal. Desde o ano 2000 que participa em diversos projetos, exposições individuais e coletivas, afirmando-se como uma das mulheres mais conhecidas da arte urbana.

José Carvalho, nascido em 1980, é o nome civil do artista Ozearv, licenciado em Artes Plásticas pela Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha. Desde 1996 que tem integrado diversos projetos individuais e coletivos, políticos e humanitários, como membro da primeira geração de artistas de arte urbana portugueses. O seu trabalho para a arte mural procura o espaço, o movimento e a cor das cidades e os seus contrastes, através de técnicas que vão do aerosol ao stencil, da ilustração à fotografia, para «preencher o branco que existe no dia-a-dia de cada um de nós». Já em 2017, na 2ª edição do MURO, integrou o «Incursões pela Arte» em que pintou com os alunos da Escola Básica de Marvila.

A Rua Maria José da Guia,  que liga a Rua Pedro Queirós Pereira à Rua Maria Carlota, nasceu do Edital municipal de 5 de julho de 2000, junto com a Rua Maria Alice e a Rua Maria do Carmo Torres no Bairro da Cruz Vermelha. Este bairro conhecido popularmente como Bairro das Marias, recebeu mais estes três topónimos marianos, todos de fadistas, todos por sugestão de Appio Sottomayor enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa.

Maria José da Guia

Maria José dos Santos Guia de Freitas (Angola/16.10. 1929 – 02.09.1992/Espanha) que usou o nome artístico de Maria José da Guia, ficou famosa no Fado na década de quarenta do século XX. Aos quatros anos foi morar para Alfama e aí começou a cantar, tendo  até sido mascote da Marcha de Alfama. A sua carteira profissional data de 1944 e a sua voz sustentava-se num corpo vestido de negro e xaile traçado.

Maria José da Guia cantou em várias casas de fado do Bairro Alto e de Alfama, tendo integrado os elencos do Café Luso, do Retiro da Severa, do Faia ou da Adega Machado. Celebrizou fados como Lisboa Antiga – com letra de José Galhardo e música de Raúl Ferrão -, Casa Portuguesa ( letra de Gustavo de Matos Sequeira e Reinaldo Ferreira com música de Artur Fonseca), Grão de Arroz ( letra e música de Belo Marques), Sempre que Lisboa Canta ( letra de Aníbal Nazaré e música de Carlos Rocha), Bairro Divino (letra e música de Álvaro Duarte Simões), Ciúme duma Verdade (letra de Fernando Peres e música de Jaime Santos, Victor Ramos e Santos Moreira),  Fado da Minha Saudade ( letra de Fernando Peres e música de Francisco José Marques), Um Golpe de Vento (letra de Linhares Barbosa e música de Nuno Meireles) ou o fado Severa ou a Marcha dos Centenários (letra de Norberto de Araújo e música de Raúl Ferrão).

No Fado, Maria José da Guia foi madrinha artística de Ada de Castro mas também passou pela rádio e televisão, assim como participou em várias revistas dos Teatros Maria Vitória, Variedades e ABC, no Parque Mayer, para além de ter cantado no filme O Homem do Dia (1958) de Henrique Campos. Na vida pessoal, Maria José da Guia casou com Amadeu José de Freitas, profissional do relato desportivo nos jornais, na rádio e na televisão, com quem teve dois filhos.

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Muzai na Escola Nuno Cordeiro da Avenida David Mourão-Ferreira, no MURO’19

Muzai na Escola Nuno Cordeiro: A Balada de Seu Ciro e Dona Elvira
(Foto: © José Vicente| CML| DPC| 2019

No âmbito do MURO’19 foi Muzai o escolhido para deixar a sua intervenção artística – A Balada de Seu Ciro e Dona Elvira – na empena da Escola Básica Nuno Cordeiro, sediada na Avenida David Mourão-Ferreira, nesta 3ª edição Festival de Arte Urbana de Lisboa em que a arte urbana se une à música e à literatura presente no espaço, quer através da toponímia, quer de concertos e peças artísticas que unem a pintura a sonoridades.

O brasileiro Muzai usa o fio condutor da simplicidade do seu traço e de cores puras, fortes e contrastadas, para produzir arte urbana. Procura uma poética visual de fantasia e sonho, como que resgatando a criança interior do interior do homem. Nascido em Minas Gerais, em 1968, como Fabrício Alves, desde criança que era apaixonado por banda desenhada e licenciou-se pela Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Uberlândia. Desde 2009 que se tornou o artista Muzai, após ter visitado São Paulo e ter ficado impressionado com o impacto da arte urbana na cidade em contraste com as antigas ruas cinzentas. Começou o seu percurso pela arte urbana mural na sua cidade natal.

David Mourão-Ferreira, escritor romancista, novelista, contista, dramaturgo e poeta que também escreveu para fado, professor universitário de literatura, ensaísta, jornalista e cronista, tradutor e crítico literário é o homenageado nesta longa Avenida onde se encontra a Escola Básica Nuno Cordeiro em cuja empena Muzai pintou a sua obra de caras, guitarra e ternura.

A Avenida David Mourão-Ferreira foi o topónimo dado à Rua 3 da Malha 14,6,1,2 e 3 do Alto do Lumiar através da publicação do Edital municipal de 22 de julho de 2005 e que encontramos desde a rotunda onde confluem a Avenida Carlos Paredes e a Rua General Vasco Gonçalves até ao Eixo Central (no troço entre Rotunda 2 e a Av. Nuno Krus Abecassis). Com a Rua José Cardoso Pires e a Avenida Carlos Paredes define quase um círculo em cujo espaço interior decorre o MURO’19.

O escritor David de Jesus Mourão-Ferreira (Lisboa/24.02.1927-16.06.1996/Lisboa), filho de David Ferreira – secretário do diretor da Biblioteca Nacional – e de Teresa de Jesus Mourão-Ferreira, homem de múltiplas facetas notabilizou-se como poeta do amor e da sensualidade, como uma personalidade que tanto na vida como na escrita celebrou o amor, o erotismo e o corpo em palavras. Nasceu e viveu até aos 15 anos no Bairro da Lapa, frequentou o Colégio Moderno e já nas brincadeiras de infância fazia peças de teatro e jornais que o seu irmão mais novo – Jaime Alberto – ilustrava. Licenciou-se em 1951 em Filologia Românica, na Faculdade de Letras de Lisboa, onde veio a ser professor e catedrático de Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa.

Com Alain Oulman, David Mourão-Ferreira levou os seus poemas também para o fado e para a voz de Amália, em que se destacam Barco Negro (1954), Abandono, Solidão,  Espelho Quebrado, Primavera, Anda o Sol na Minha Rua, Nome de Rua ou Maria Lisboa (1961). Depois, também produziu letras para Simone de Oliveira ou Luís Cília, apesar de ter sido alvo de uma campanha de difamação, assim como de um processo judicial por  ter subscrito a apresentação da Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia (em 1965), bem como por no ano seguinte ter prefaciado a tradução de A Filosofia da Alcova do Marquês de Sade.

Começou a sua vida literária na poesia com a A Viagem (1950) a que somou, entre outros, Tempestade de Verão (1954) que foi Prémio Delfim Guimarães, Os Quatro Cantos do Tempo (1958), A Arte de Amar (1962), Cancioneiro de Natal (1971) que foi Prémio Nacional de Poesia, Matura Idade (1973), Sonetos do Cativo (1974), Os Ramos e os Remos (1985), No Veio de Cristal (1988) que foi Grande Prémio Inasset de Poesia, Nos Passos de Pessoa (1988) que ganhou o Prémio Jacinto Prado Coelho e a antologia erótica Música de Cama (1994).

São também de destacar as novelas Gaivotas em Terra (1959) que conquistaram o Prémio Ricardo Malheiros e são topónimo de uma artéria do Parque das Nações, a peça O Irmão (1965) que foi Prémio de Teatro da Casa da Imprensa, os contos Os Amantes (1968), As Quatro Estações (1980) galardoada com prémio da Associação Internacional dos Críticos Literários, o romance Um Amor Feliz (1986) – que recebeu o Prémio de Narrativa do Pen Clube Português, o Prémio D. Dinis da Fundação da Casa de Mateus, o Prémio de Ficção Município de Lisboa, o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores e a Medalha Oskar Nobiling da Academia Brasileira de Letras -, Duas Histórias de Lisboa (1987) e o CD Um Monumento de Palavras.

Colaborou também em jornais e revistas, como o Diário Popular ou a revista Seara Nova (onde em 1945 publicara os seus primeiros poemas), para além de ter sido um dos fundadores da revista literária Távola Redonda (1950-1954) que dirigiu com António Manuel Couto Viana e Luís de Macedo. Em 1967, tinha a rubrica «Poesia para Todos» no Diário de Lisboa e após o 25 de Abril dirigiu A Capital e foi diretor-adjunto de O Dia. Na década de sessenta do séc. XX também foi o autor do programa Música e Poesia na Emissora Nacional e de Hospital das Letras e Imagens da Poesia Europeia na RTP, tendo nos anos setenta criado também O Dom de Contar para a televisão.

Desempenhou ainda as funções de Secretário de Estado da Cultura (nos anos de 1976, 1977 e 1979), sendo seu o despacho que criou a Companhia Nacional de Bailado. A partir de 1981 dirigiu o Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian e depois, presidiu à Associação Portuguesa de Escritores (1984 – 1986) e ao Pen Club Português (1991).

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A Rua Maria Carlota do Bairro da Cruz Vermelha e a cianotipia da Agência Calipo no MURO’19

(Foto: © Bruno Cunha| CML| DPC| 2019)

O pátio nas traseiras dos prédios da Rua Maria Carlota, no antigo Bairro da Cruz Vermelha ou das Marias,  junto à Associação dos Moradores do Bairro da Cruz Vermelha,  é o palco da Agência Calipo no MURO’19 para a realização de wokshops de cianotipia, que têm decorrido nos sábados e domingos deste mês e assim sucederá também nos próximos dias 18, 19, 25 e 26 de maio.

A Agência Calipo junta fotógrafos de distintas linguagens visuais e técnicas fotográficas, que partilham entre si o conhecimento, a discussão de ideias e sobretudo, a vontade de produzir trabalho de qualidade, desde 2014. São eles Alice Wr, Filipe Canário, João José Bica, José Vicente, Luís Vintém, Manuel Falcão Malzbender, Marcin Górski, Mário Tavares e Rui Cartaxo Rodrigues.

Já a Rua Maria Carlota, que foi antes da publicação do Edital identificada como Rua 10 do Bairro Municipal da Cruz Vermelha e hoje liga a Rua Maria do Carmo Torres à Rua Maria José da Guia,  homenageia Maria Carlota de Saldanha Pinto Basto, nascida em Lisboa, na então freguesia da Lapa, em 13 de junho de 1945, filha de Tomás Ferreira Pinto Basto e Maria Carlota da Câmara de Saldanha, sendo irmã de Maria Ana de Saldanha Pinto Basto e de Teresa de Jesus de Saldanha Pinto Basto. Era uma das senhoras da Cruz Vermelha que contribuíram para o nascimento do Bairro da Cruz Vermelha.

Por edital de 27 de outubro de 1966, ao contrário do que era hábito na toponímia da cidade, a Câmara Municipal de Lisboa atribuiu aos arruamentos do Bairro da Cruz Vermelha o nome de pessoas ainda vivas, sendo neste particular o de seis mulheres da Secção Auxiliar Feminina da Cruz Vermelha que naquela mesma década promoveram uma campanha nacional de angariação de fundos para a construção do Bairro, tendo até perante as câmaras da RTP solicitado um escudo  a cada telespetador – um escudo equivale a cerca de meio cêntimo dos nossos dias -, para se proceder ao realojamento das famílias cujas barracas na Quinta da Feiteira (à Charneca do Lumiar), tinham sido destruídas por um incêndio em 15 de julho de 1963.  As beneméritas ficaram identificadas apenas pelos seus nomes próprios: Rua Maria Carlota (de Maria Carlota Saldanha Pinto Basto), Rua Maria Emília (de Maria Emília Moreira Sena Martins), Rua Maria Helena (de Maria Helena Monteiro de Barros Spínola, mulher de António de Spínola), Rua Maria Margarida (de Maria Margarida Montenegro Fernandes Tomás de Morais, a presidente da Secção Feminina da Cruz Vermelha), Rua Maria Ribeiro (de Maria Ribeiro Espírito Santo Silva de Melo) e Rua Maria Teresa (de Maria Teresa Assis Palha Holstein Beck), acrescentando ainda nos arruamentos restantes do Bairro, a Rua das Duas Marias, a Rua das Três Marias, a Rua das Quatro Marias, a Rua das Cinco Marias e o Largo das Seis Marias, pelo que não é de estranhar que popularmente o Bairro também fosse conhecido como o «Bairro das Marias».

Desta toponímia inicial do Bairro hoje restam apenas esta Rua Maria Carlota e a Rua Maria Margarida. Nos anos oitenta do século passado, pelo Edital municipal de 25 de junho de 1985 foi acrescentada a Rua Maria Albertina, em homenagem a uma cantora de temas populares e de fado, pelo que quando o Bairro cresceu em mais três arruamentos, o Edital municipal de 5 de julho de 2000, colocou lá os nomes de mais três cantoras e fadistas, todas marianas: Maria Alice, Maria do Carmo Torres e Maria José da Guia.

Nos anos sessenta do séc. XX, a edilidade lisboeta adquiriu um terreno de seis hectares da Quinta da Feiteira para aí ser edificado o Bairro da Cruz Vermelha correspondendo à campanha então lançada. A inauguração oficial teve lugar em 13 de dezembro de 1966, com a entrega de chaves de 230 fogos, não só às famílias vítimas do incêndio que despoletou a contrução do Bairro, mas também a outras que a campanha «Dez Tostões para uma Casa» do jornal Diário de Notícias permitiu acrescentar. No ano seguinte, em janeiro, a CML adjudicou a construção do grupo escolar do Bairro a António Augusto Freire e a inauguração oficial teve lugar a 27 de outubro, com a presença do Presidente de então da edilidade, António Vitorino França Borges. Ainda em 1967, em outubro, foi também adjudicada a construção do edifício com  salão de festas e já em janeiro de 1968 foi adjudicada também a construção de uma creche, a  José Matias e em 1969, foi a vez da biblioteca.

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Shegundo Galarza e a Sons da Lusofonia no Muro’19

O compositor basco Shegundo Galarza e a Sons da Lusofonia vão partilhar o espaço do Muro’19, 3ª edição do Festival de Arte Urbana de Lisboa, desta feita com a inspiração da música que a toponímia local evoca –  com a Alameda da Música, as fadistas Maria Alice, Maria do Carmo Torres e Maria José da Guia ou nomes da  música clássica como Arminda Correia ou Tomás del Negro-, fazendo a ligação da arte urbana a sonoridades, na vontade expressa da Galeria de Arte Urbana de Lisboa|GAU de apostar na divulgação de abordagens artísticas experimentais e inovadoras.

Criada em 1996, a Associação Sons da Lusofonia partiu do saxofonista português Carlos Martins e da sua experiência musical, com o intuito de juntar artistas de diversas origens- em especial, africanos, brasileiros e portugueses – em vários agrupamentos dos quais se destaca a Orquestra Sons da Lusofonia. A Associação procura ainda aliar a intervenção social e a educação global à música, assim como à relação entre comunidades, pessoas e artes,  numa ampla área de intervenção de  Criação de Projetos Culturais, Festivais, Cooperação cultural e técnica, Educação Global através da música, Criação e produção de suportes de comunicação, Investigação em Etnomusicologia e Promoção de espetáculos.

A Associação Sons da Lusofonia tem marcado o seu percurso através de cruzamentos interdisciplinares e pessoas de diferentes geoculturalidades e neste âmbito produz anualmente a Festa do Jazz, a OPA- Oficina Portátil de Artes, a Lisboa Mistura, assim como desenvolveu o Portugal em Jazz, para além de editar discos e livros. Em 2007, realizou ainda para televisão o programa Lisboa Mistura TV, da autoria de Carlos Martins.

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Shegundo Ramón Galarza Arace (Espanha – Guipuzcoa/07.09.1924 – 04.01.2003/Lisboa), maestro e compositor de origem basca, filho único de um comerciante, começou a residir em Lisboa a partir de 1948 e em mais de 50 anos de carreira deixou uma marca de qualidade na música ligeira portuguesa que justificam a sua presença desde a publicação do Edital municipal de 15 de dezembro de 2003 como topónimo no núcleo dedicado à toponímia musical, no arruamento formado pela junção da Rua B com a  Rua 7.1 do Alto do Lumiar, pelo que hoje une a Avenida Álvaro Cunhal  à Rua Ferrer Trindade.

Com a sua orquestra de violinos, Shegundo Galarza esteve presente na televisão portuguesa desde o seu começo e celebrizou o restaurante Mónaco, de que era coproprietário com o empresário galego Manuel Outerelo Costa.

Shegundo Galarza concluiu o conservatório de Bilbau,  ganhou um prémio de piano e aos 18 anos começou a percorrer a Europa em concertos. Chegou a Portugal com 24 anos de idade e a partir de 25 de novembro de 1948 passou a atuar diariamente no Casino Estoril, situação que manteve até maio de 1950. Na década de cinquenta também tocou em diversos restaurantes portugueses, nos de Luanda e da então Lourenço Marques (hoje Maputo), bem como de Joanesburgo (1952 -1954), até se estabelecer  junto à Marginal, no Restaurante Mónaco (de novembro de 1956 a 1974), local que introduziu o jantar dançante em Portugal.

Em paralelo, Shegundo Galarza integrou prestigiadas orquestras ligeiras portuguesas e teve a sua, para além de um conjunto em nome próprio. Por via do maestro José Atalaya, logo em 1956 foi convidado pela RTP a protagonizar um programa semanal, com a sua orquestra de violinos, que atingiu 100 emissões. Ao longo da sua carreira colaborou com a RTP quer em programas de música quer em arranjos musicais de várias longas metragens e de centenas de documentários.

Gravou os seus três primeiros discos para a editora Melodia (1951) com temas de Frederico Valério e seus; mais seis para a editora Decca  (1952 -1954) e assinou a gravação de quatro com a editora Estoril, para além de ter gravado  Fado Rossio para a Fonomat, de Lisboa,  em 1959. Como solista ou com a sua orquestra de violinos, gravou cerca de 50 discos em Portugal e Espanha, para editoras como a Alvorada, BelterEstoril, Marfer, Orfeu, RCA, Roda e Voz do Dono. Em 1996, Shegundo Galarza gravou um disco em que interpretava, ao piano, temas como Lisboa AntigaMadeiraAçoresMoçambique, Aldeia da Roupa Branca e em 2001 editou Sorrisos do Tempo.

Como orquestrador,  Shegundo Galarza trabalhou para o Festival Eurovisão da Canção ou da OTI – tendo dirigido a orquestra da Eurovisão para Playback de Carlos Paião (1981) – e trabalhado com outros inúmeros artistas como AmáliaCândida Branca FlorManuel João Vieira, Frei Hermano da Câmara, Herman José, Jorge Fontes, José Cid, Lara Li, Madalena Iglésias, Marco Paulo, Maria da Fé, Maria de Lurdes Resende, Max, Natália de Andrade, Paulo de Carvalho, Quim Barreiros, TonichaTony de Matos ou Tozé Brito.

Na sua vida pessoal, foi pai da enfermeira Teresa Galarza (1952) e do também músico Ramón Galarza (1957).

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Nóbrega e Sousa de «Vocês Sabem Lá» e a «underground» Rádio Quântica no MURO’19

 

O compositor Nóbrega e Sousa,  funcionário da Emissora Nacional e autor de Vocês Sabem Lá e a Rádio Quântica, uma rádio online do underground português marcam presença  na 3ª edição do Festival de Arte Urbana de Lisboa, o MURO’19, que no Lumiar, nos Bairros da Música e da Cruz Vermelha vai exibir arte urbana e sonoridades inspiradas pela toponímia local.

A emitir online desde 1 de novembro de 2015-  em https://www.radioquantica.com/ -, a Rádio Quântica é uma estação de rádio, uma plataforma comunitária para artistas do underground português se fazerem ouvir. Fundada pelos artistas portugueses Photonz e Violet, ambos com 12 anos combinados de experiência em rádio local, nacional e online, em conjunto com um grupo de artistas e crews. Esta estação de rádio online é a manifestação de um movimento não-local que se desenha há alguns anos e que inclui DJs, editoras, crews, músicos, colecionadores, agitadores culturais e ativistas de igualdade de origem portuguesa ou lusófona. Anos de colaborações na promoção de festas, lançamento de música, presença em festivais, gravações de guest mixes e uma apreciação mútua  deu sentido a uma plataforma que junta estas pessoas da cultura portuguesa.

Nóbrega e Sousa, compositor famoso por canções como Sol de Inverno ou Vocês sabem Lá, é o topónimo dado à Rua B da Malha 3 do Alto do Lumiar que liga a Rua Vasco Gonçalves à Avenida Carlos Paredes através do Edital municipal de 15 de dezembro de 2003. A inauguração oficial ocorreu no  Dia Mundial da Música de 2004, em conjunto com a Alameda da Música e as Ruas Adriana de Vecchi, Arminda Correia, Belo Marques, Luís Piçarra, Shegundo Galarza e Tomás Del Negro.

O cagaréu Carlos de Melo Garcia Correia Nóbrega e Sousa (Aveiro/04.11.1913 – 04.04.2001/Lisboa) desde a sua primeira valsa editada pela Sasseti, em 1933, durante muitas décadas contribuiu para o êxito da música ligeira portuguesa. Por insistência do seu pai ainda trabalhou 2 anos como escriturário na Câmara Municipal de Lisboa mas depois dedicou-se a uma carreira musical, quer em  programas em direto das rádios, quer no teatro de revista, quer em canções para filmes portugueses, somando mais de 500 canções da sua autoria, nos mais diversos géneros e ritmos, desde valsas a fado, das marchas ao rock, a maior parte delas gravadas comercialmente em Portugal, mas também em Espanha, Brasil, França, Itália, Inglaterra, Argentina ou Estados Unidos da América e que foram sucessos nas vozes de Amália Rodrigues, António Calvário, Madalena Iglésias, Maria de Fátima Bravo, Maria de Lurdes Resende, Simone de Oliveira e de Tony de Matos, entre outras. De 1940 a novembro de 1974 Nóbrega e Sousa foi também funcionário da Emissora Nacional, primeiro como Assistente de Programas Musicais e depois, como Chefe da Secção de Programas Ligeiros.

Nóbrega e Sousa foi distinguido com um Óscar da Casa da Imprensa para o melhor compositor de Música Ligeira (em 1962 e 1963); venceu o Festival da Canção por 3 vezes (1965, 1970 e 1979), com Sol de Inverno, Onde vais rio que eu canto e Sobe sobe balão sobe; ganhou o 1º Prémio da Grande Marcha de Lisboa em dois anos seguidos (1968 e 1969), com Lisboa dos Milagres e Lisboa dos Manjericos; para além de ter sido agraciado com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (1998) quando cumpria 70 anos de carreira e, em novembro de 2000 pela sua obra e como morador durante 35 anos na freguesia, na Rua Tomás da Anunciação, foi homenageado pela Junta de Santo Condestável (já extinta e absorvida pela Junta de Freguesia de Campo de Ourique).

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Ferrer Trindade e a Orquestra de Câmara Portuguesa no MURO’19

Ferrer Trindade, compositor da Canção do Mar e maestro da sua Orquestra Ritmo, tal como a Orquestra de Câmara Portuguesa, criada em 2007, são presenças no MURO’19 que nesta 3ª edição liga a Arte Urbana à criação sonora, a espetáculos musicais, à toponímia musical dos Bairros da Música e  da Cruz Vermelha, na freguesia do Lumiar.

Fundada por Pedro Carneiro, Teresa Simas, José Augusto Carneiro e Alexandre Dias em julho de 2007 a Orquestra de Câmara Portuguesa teve a sua estreia na abertura da temporada do CCB- Centro Cultural de Belém, no dia 13 de setembro desse mesmo ano, sendo a OCP a Orquestra em Residência, desde o ano seguinte e uma presença constante nos Dias da Música em Belém.

A OCP já trabalhou com os compositores Emmanuel Nunes, Miguel Azguime e Sofia Gubaidulina, bem como com os maestros Alberto Roque, Luís Carvalho, Pedro Amaral e Pedro Neves,  e ainda  os coros Voces Celestes e Lisboa Cantat. Também acolheu solistas internacionais como António Rosado, Artur Pizarro, Carlos Alves, Cristina Ortiz, Filipe-Pinto Ribeiro, Gary Hoffman, Heinrich Schiff, Jorge Moyano, Sergio Tiempo, Tatiana Samouil ou Thomas Zehetmair. Já se apresentou em Alcobaça, Almada, Batalha, Castelo Branco, Coimbra, Leiria, Paços de Brandão, Portimão, Setúbal, Tomar, Vila Viçosa e Viseu, bem como no Festival Jovem Músicos da Antena 2, Festival ao Largo do Teatro Nacional São Carlos, concertos de Natal nas Igrejas de Lisboa, concertos da DGPC Música nos Mosteiros (2013) e no City of London Festival (em 2010). Desde 2014, a OCP tem ainda colaborado com a Companhia Nacional de Bailado e foi pioneira em modelos de Responsabilidade Social, no âmbito dos quais desenvolveu a Orquestra Portuguesa (JOP), a OCPsolidária e a OCPdois, com diversos patrocinadores e intercâmbios internacionais, sendo o Município de Lisboa um dos seus parceiros institucionais.

O compositor Ferrer Trindade, autor da famosa Canção do Mar, da qual se produziram inúmeras versões, está desde a publicação do Edital municipal de 14 de julho de 2004 homenageado como topónimo na artéria do Lumiar que se estende da Rua José Cardoso Pires à Rua Helena Vaz da Silva, antes identificada como Rua 7.2 entre a Malha 7 e PER 9.

Francisco Ferrer Trindade (Barreiro/09.12.1917 – 13.01.1999/Lisboa), compositor e maestro consagrado, popular por sucessos como Canção do Mar ou Nem às Paredes Confesso, dedicou-se à música ligeira integrando as orquestras de Tavares Belo e Almeida Cruz, dirigindo a Orquestra de Variedades da Emissora Nacional e também formando a sua própria orquestra –  a Orquestra Ritmo – que circulou pelos Casinos de Espinho, Figueira da Foz, Póvoa de Varzim e Casino Estoril, acompanhando importantes artistas nacionais e estrangeiros. Ferrer Trindade também compôs para o Teatro de Revista e nomes como Amália, Artur Garcia, Anita Guerreiro, António Calvário, António Mourão, Beatriz da ConceiçãoCarlos Ramos, Lenita Gentil, Maria da Fé, Maria de Lurdes Resende ou Madalena Iglésias, entre muitos outros, cantaram músicas suas.

Ferrer Trindade formou no Conservatório Nacional de Lisboa como aluno externo ao mesmo tempo que trabalhava. Somou ainda um curso de Composição e Direção de Orquestra da Academia de Santa Cecília em Milão. Começou por tocar na Orquestra de Câmara do Conservatório, clarinete na Banda da Armada e violino na Orquestra Filarmónica de Lisboa. Foi premiado com o 1º Prémio do Festival da Figueira da Foz – com a composição Olhos de Veludo – e um 3º com Sombras da Madrugada, para além do 1º e 2º Prémios do Festival de Luanda. Sendo colaborador da RTP desde a sua inauguração, como maestro, foi o escolhido em 1969 para dirigir a Orquestra da Eurovisão, com a canção A Desfolhada, no Teatro da Ópera de Madrid.

Foi agraciado com a Medalha de Ouro da Emissora Nacional, a Medalha de Mérito Artístico do Governo Civil do Distrito de Setúbal e a Medalha da Cidade de Setúbal e uma sessão comemorativa do seu centenário organizada pela Câmara Municipal do Barreiro.

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Chapitô e Belo Marques no MURO’19

O Chapitô e o compositor Belo Marques, pioneiros na formação de jovens, quer nas artes circenses quer em artistas de música ligeira, vão partilhar o espaço do MURO’19 que nesta edição de 23 a 26 de maio junta à vertente da arte urbana a sonoridade da música inspirada pela toponímia do local, com os artistas do primeiro animando o local do Festival de Arte Urbana e o segundo aí presente na Rua Belo Marques desde a publicação do Edital municipal de 15 de dezembro de 2003.

O Chapitô – Coletividade Cultural e Recreativa de Santa Catarina, é uma casa de cultura e espetáculo sediada na Costa do Castelo, com especial relevância nas Artes Circenses, embora articule quatro áreas: Cultura, Formação, Ação Social e Economia Social. Constituída em 1981, a Coletividade Cultural e Recreativa de Santa Catarina é a entidade de suporte do Chapitô, desde a criação da primeira Escola de Circo – a Escola de Circo Mariano Franco-, ainda no Bairro Alto, através de acordo com a Santa Casa da Misericórdia, em que durante quatro anos realizou trabalhos de animação com jovens e idosos do Bairro ao mesmo tempo que foi o embrião da Escola Profissional de Artes e Ofícios do Espetáculo (EPAOE). Desde 1986, ao abrigo de um protocolo com o Ministério da Justiça, o Chapitô instalou-se na Costa do Castelo, onde a partir do ano letivo de 1987/1988 arrancou o  inovador Curso de Expressão Circense que formou a primeira geração de jovens artistas de cariz circense para o mercado de trabalho.

O compositor Belo Marques, muito recordado pela canção Alcobaçacom letra de Silva Tavares, criação de Cidália Meireles e interpretação de Maria de Lourdes Resende -, desde a publicação do Edital municipal de 15 de dezembro de 2003 que é o topónimo da Rua C da Malha 3 do Alto do Lumiar, artéria que hoje liga a Rua General Vasco Gonçalves à Avenida Carlos Paredes, e assim integra o Bairro da Música criado no local pela edilidade lisboeta desde então.

De seu nome completo José Ramos Belo Costa Marques du Boutac (Leiria/25.01.1898 – 27.03.1987/Sobral de Monte Agraço), distinguiu-se como compositor, orquestrador e figura relevante da Emissora Nacional, onde criou o Centro de Preparação de Artistas. Escreveu mais de 700 canções onde enalteceu cenários portugueses como o Vale do Vouga, o Alcoa, Leiria ou Alcobaça. Também dedicou a Lisboa  inúmeros temas como Campanários de Lisboa, Miradouros de Lisboa, Lisboa Nova ou O Gaiato de Lisboa.

Como violoncelista, teve a sua primeira contratação aos 16 anos, para o Casino Mondego (na Figueira da Foz) e quatro anos depois, tornou-se músico profissional e foi tocar em paquetes que se dirigiam à América do Sul, percorrendo vários países da Europa e da América, até regressar em 1924 para cumprir o serviço militar. Dois anos mais tarde fundou e dirigiu o Orfeão Scalabitano e três anos depois foi para os Açores e Madeira tendo dirigido no Funchal uma orquestra privativa de 35 elementos. Em seguida, integrou as orquestras de Pedro Blanch e David de Sousa, tal como a do Casino Estoril (1932 a 1935).

A partir de 1935 entrou na Emissora Nacional, na Rua do Quelhas. Até 1938 foi violoncelista da Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, dirigida por Pedro de Freitas Branco. Nesta Rádio criou a Orquestra Típica Portuguesa, a Orquestra de Salão e os Quarteto e Sexteto de Música Clássica. Partiu em 1938, para ser o Diretor do Rádio Clube de Moçambique, onde fundou um Coro Feminino e as Orquestras Típica e de Salão. Nos anos em que lá permaneceu também foi pesquisando e fazendo uma recolha de Folclore indígena da região de Tonga e Machangane, que divulgará em 1953 na sua obra Música Negra e da qual já em 1943 publicara Estudos do Folclore Tonga, editado pela Agência Geral das Colónias, bem como compusera a fantasia sinfónica para coro e orquestra, em seis andamentos, Fantasia Negra, estreada em 19 de outubro de 1944 no Teatro São Carlos, executada pela Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional. Com elementos da Orquestra Típica Portuguesa da Emissora também  fundou a sua própria orquestra que até 1960 teria trabalho constante e inúmeras gravações.

Regressou à Rua do Quelhas em 1941, empenhado em dedicar-se à canção ligeira. Criou  a Orquestra de Variedades, ao mesmo tempo que dirigiu  a Orquestra de Salão em parceria com René Bohet (entre 1942 e 1945) e depois como titular (1948 a 1954), assim como o Coro Feminino da Emissora. Foi também Belo Marques que criou na Emissora Nacional o Centro de Preparação de Artistas, para o lançamento de novas estrelas da rádio, de que foram exemplo Francisco José, Júlia Barroso, Madalena Iglésias, Simone de Oliveira ou Tony de Matos. Em 1956 também ajudou a criar a Orquestra Típica e Coral de Alcobaça. No ano de 1958, desempenhava o papel de consultor de programas na Emissora Nacional mas foi despedido por ter apoiado a candidatura do General Humberto Delgado.

Belo Marques compôs ainda marchas populares e trabalhou para teatro de revista, bem como para o cinema, áreas em que assinou cerca de 70 canções, onde se destaca a canção Minha aldeia, em parceria com Silva Tavares para a revista Rosmaninho, a banda sonora do filme Rosa do Adro (1938) de Chianca de Garcia e a popular Desgarrada da versão radiofónica de As Pupilas do Senhor Reitor de Júlio Dinis.

Foi  regente honoris causa da Escola de Música do Conservatório Nacional; 1º prémio do Festival Internacional Latino (1938); 2º prémio do Concurso Internacional da Canção Latina (1955), assim como homenageado por Raúl Solnado, Carlos Cruz e Fialho Gouveia no 1º programa de E o Resto São Cantigas (1981).

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NBC e Adriana de Vecchi: dois músicos no MURO’19

(Foto: ©NBC- Natural Blake Colour)

De origem são-tomense e italiana, NBC e Adriana de Vecchi são dois músicos presentes – pela música e pela toponímia – no MURO’19- Festival de Arte Urbana, que de 23 a 26 de maio vai decorrer na Freguesia do Lumiar.

NBC é o nome artístico de Timóteo Deus Santos, natural de São Tomé e Príncipe onde nasceu em 17 outubro de 1974, que já conta com 20 anos de carreira e que no Festival da Canção 2019 vimos a defender Igual a Ti.

Este cantor e escritor de canções veio com a família para Portugal em 1980 – tendo residido em Enxará dos Cavaleiros, Sobral de Monte Agraço e Torres Vedras – e aqui desenvolveu a sua carreira como um dos fundadores do hip-hop português nos anos 90, tendo com o seu irmão BlackMastah criado Filhos de um Deus Menor para o Oeiras Rap 94 da Antena 3 enquanto como NBC  tornou possíveis os já clássicos «Especial» com Regula ou «Chelas» com Sam The Kid.

Conhecido pela sua garra em palco e com influências do groove, do funk, do rock,  soul e blues, a discografia de NBC  soma os álbuns Afro-Dísiaco (2003), Maturidade (2008), o EP  Epidemia (2013) e Toda a Gente Pode Ser Tudo (2017), que foi eleito pela Antena 3 como um dos discos desse ano. Nas duas décadas da sua carreira assinou ainda colaborações com New Max, Orelha Negra, Dealema,, Mundo Segundo, Bob da Rage Sense, Sir Scratch, Grognation, Time for T., Zimun, Dino d’Santiago, DJ Ride ou Gatupreto. Esteve com os GNR no Rock in Rio Lisboa’ 2006 e em 2014 no Meo Out Jazz, Super Bock Super Rock, Meo Sudoeste e no Vodafone Mexefest. Também participou no filme Fados de Carlos Saura e no Do Desassossego.

A origem do nome NBC deriva do rei bíblico de Israel, Nabucodonosor, mas que posteriormente foi assumido como Natural Black Color.

adriana-de-vecchiJá Adriana de Vecchi (Viana do Castelo/14.09.1896 – 1995), nasceu em Portugal filha de mãe italiana e de pai português e foi educada em Itália a partir dos 2 anos, tendo estudado piano e violoncelo no Conservatório de Turim, para além de ter concluído o curso de Pedagogia pelo método da educadora Maria Montessori.

A Rua Adriana de Vecchi, que liga a Rua Shegundo Galarza à Rua Ferrer Trindade,  foi atribuída por Edital Municipal de 15/12/2003, o mesmo Edital que na mesma zona atribuiu mais 6 topónimos ligados à música –  Rua Luís Piçarra, Rua Nóbrega e Sousa, Rua Belo Marques, Rua Shegundo Galarza, Rua Tomás Del Negro e Rua Arminda Correia –, tendo todos estes arruamentos mais a Alameda da Música tido uma cerimónia de inauguração no dia 1 de Outubro de 2004,  formando um Bairro da Música nesta zona da cidade.

Violoncelista como o seu marido Fernando Costa, que conheceu em Lisboa, criou a Fundação Musical Amigos das Crianças,  em 29 de junho de 1953, com o apoio de Sofia Abecassis, que disponibilizou salas da sua residência no nº 97 da Rua Saraiva de Carvalho para o efeito, depois de ouvir a conferência de Adriana «O Ensino da Música na infância e a sua projecção no futuro», no Museu João de Deus, em 15 de junho desse ano. A escola começou com aulas de violoncelo dadas por Adriana de Vecchi, aulas de piano por Abreu Mota, aulas de violino por Lamy Reis e aulas de Canto Coral por Jaime Silva. Adriana criou ainda material didático para ensino de música a crianças em idade pré-escolar pelo que esta escola desempenhou um papel pioneiro em Portugal no ensino da música desde a infância. Também foi a partir dela que se gerou a Orquestra Juvenil de Instrumentos de Arco da FMAC, dirigida por Fernando Costa, da qual saíram na década de 60 os primeiros jovens para os quadros da Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, enquanto outros alunos integraram a Orquestra Gulbenkian e a Orquestra Sinfónica Portuguesa.

A Fundação criada por Adriana de Vecchi designa-se hoje Academia Musical dos Amigos das Crianças e tem sede no 1.º andar do n.º 19 da Rua Dom Luís I, tendo já editado três discos – Canções Tradicionais PortuguesasCantar o Natal e Clássicos Madeirenses –, assim como publicado a partitura do Quarteto em Lá menor de Fernando Costa e um livro sobre a Nova Técnica de Contrabaixo, de Álvaro Silva.

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