Cordoeiros, Santo Antoninho e um arraial na Bica

O Largo de Santo Antoninho (à esquerda) e a Rua dos Cordoeiros (à direita)

No mês de Santo António e dos Santos Populares, encontramos um dos arraiais da Bica a espraiar-se justamente pelo Largo de Santo Antoninho e também pela Rua dos Cordoeiros, promovido pelo Grupo Desportivo Zip Zip, uma associação nascida em 17 de agosto de 1974, com sede na Rua dos Cordoeiros nºs 9 a 15.

O Largo de Santo Antoninho existe na confluência da Calçada da Bica Pequena, Rua dos Cordoeiros e Travessa da Bica Grande, atravessado pelo Elevador da Bica desde que este foi  inaugurado no dia 28 de junho de 1892. As memórias paroquiais de 1758, da freguesia de São Paulo, «cituada esta freguezia em hua praya, da qual se descobre a villa de Almada, e as povoações de Casilhas, Fonte da Pipa, e parte de Caparica», na situação após Terramoto já mencionam este arruamento, mas como Terreirinho de Santo António. Depois, algures no séc. XIX mas ainda antes da implantação do funicular o Terreirinho passou a Largo e Santo António a Santo Antoninho. Em 1852, no traçado de um prédio no n.º 2 a 5 que João Venâncio Nunes pretendia acrescentar, surge como Largo do Terreirinho de Santo Antoninho. Na planta de 1856 de Filipe Folque é já Largo de Santo Antoninho tal como em 12 de abril de 1875, a deliberação de câmara para lhe colocar a cortina do lado ocidental e uma grade de ferro o refere também como Largo de Santo Antoninho.

Curioso é encontrarmos nos documentos municipais, em 1903 e 1905, pedidos de autorização para realizar festas no arruamento, no mês de junho. Em 6 de junho de 1903 é um termo que assina Bento Fernando Lopes, como representante dos moradores do Largo de Santo Antoninho, obrigando-se às condições com que lhes foi concedida a autorização para vedar o mesmo largo e abrir buracos no chão para a ornamentação dos festejos. Em 20 de maio de 1905 é um termo assinado por Bellmiro dos Santos, como representante do Grupo Recreativo do Largo de Santo Antoninho, solicitando  licença para vedar um recinto no mesmo largo e colocação de um coreto e mastros para a promoção de bailes durante o mês de junho.

Já a Rua dos Cordoeiros que liga o Largo de Santo Antoninho à Calçada Salvador Correia de Sá, parece ser uma artéria pelo menos do final do século XVI, já que o Sítio da Bica, na vertente das encostas de Santa Catarina e das Chagas, foi cavado por efeito de um desmoronamento de terras restrito ao local, ocorrido em 22 de julho de 1597 e que se repetiu 25 anos mais tarde. Na planta de 1856 de Filipe Folque está registada a Rua dos Correeiros a terminar na  Calçada de São João Nepomuceno. Os cordoeiros que fabricavam cordas para velas e bandeiras ficaram perpetuados em diversa toponímia lisboeta, enumerando Luís Pastor de Macedo as artérias de Lisboa que evocaram este ofício: «Os cordoeiros ou as cordoarias deram o nome, em Lisboa, às seguintes serventias públicas, pelo menos: à travessa da Cordoaria, na freguesia de Santo Estêvão, nos meados do século XVI, às ruas da Cordoaria Nova e da Cordoaria Velha na freguesia dos Mártires, esta última já classificada de Velha em 1477, à rua dos Cordoeiros que ainda existe compartilhada pelas freguesias de Santa Catarina e de S. Paulo, e à rua dos Cordoeiros em Pedrouços que também mantém ainda este nome. Sabemos ainda que os cordoeiros, em 1821, abancavam no terreiro de S. Pedro de Alcântara e que em 1552 havia na cidade 25 tendas daquele ofício». Refira-se ainda que a existência da Cordoaria Nacional, antiga Real Fábrica da Cordoaria da Junqueira, criado pelo Marquês de Pombal por decreto de 1771.

Freguesia da Misericórdia

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