A Rua dos mercadores Possolo e o arraial de Os Combatentes

Freguesias da Estrela e de Campo de Ourique – Placa de azulejo
(Foto: Mário Marzagão, 2012)

A família de mercadores italianos que aqui residiu, os Possolo, ficou perpetuada no local pela edilidade lisboeta em 1882 e catorze anos depois, em 1906, a mesma artéria acolheu também o Grupo Dramático e Escolar Os Combatentes que nas Festas de Lisboa 2019 mais uma vez promove o seu arraial popular.

O Grupo Dramático e Escolar Os Combatentes foi fundado na Rua do Possolo nº 5 a 9, em 30 de setembro de 1906, com o forte intuito de combater o analfabetismo e servir de ponto de encontro aos moradores daquela zona da cidade de Lisboa, contribuindo para a formação humana integral dos seus associados, através da educação cultural, física, desportiva e recreativa.

Freguesias da Estrela e de Campo de Ourique

Os Possolo  eram uma família de mercadores italianos que segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo ergueram o seu Palácio a meio da artéria que hoje conhecemos como Rua do Possolo, à esquina da antiga Travessa das Almas, dando azo a que no último quartel do séc. XIX a Câmara lisboeta renomeasse as  Rua e Travessa da Boa-Morte como Rua e Travessa do Possolo. Esta família de ricos negociantes italianos do séc. XVII ergueram ali o seu palácio erguido cerca de 1730,  com 8 varandas  e um portal brasonado, na esquina da Travessa das Almas, mas que já se encontrava em ruínas na época em que o olisipógrafo escreveu – nos anos 30 do séc. XX- , conforme ele menciona.

A Rua  e a Travessa da família de mercadores  Possolo foram topónimos atribuídos pela deliberação camarária de 30 de novembro de 1882 e consequente Edital de 4 de dezembro, para substituir as anteriores denominações de Rua e Travessa da Boa-Morte: «A rua da Boa Morte e a Travessa da Boa Morte no bairro occidental d’esta cidade passem a ter a denominação de Rua do Possollo e Travessa do Possollo.»  Refira-se ainda que a Travessa da Boa-Morte havia sido antes a Travessa dos Burros, até à publicação do Edital do Governo Civil de Lisboa de 5 de agosto de 1867. O sítio da Boa Morte incluía os topónimos Rua Direita da Boa Morte (hoje Rua do Patrocínio), Rua do Possolo, Rua Possidónio da Silva, Rua de Sant’Ana e Rua de Santo António à Estrela, derivando o nome da existência no local do Convento da Congregação do Senhor da Boa Morte e Caridade, construído em 1736 e demolido em 1835.

Mais pormenores sobre a família devem-se sobretudo a apenas uma fonte: António de Portugal de Faria que escreveu Genealogia da Familia “Possollo”, impresso em 1892. Segundo ele, a quinta dos Possolo foi edificada após o terramoto de 1755 por Nicolau Possolo, educado em Génova onde se dedicava ao comércio e se veio estabelecer em Portugal, tendo casado com a sua prima Joana Maria Eusébia Germack. Moravam no Largo do Corpo Santo e possuíam uma quinta na Lapa, sendo que, segundo o mesmo autor,  «Tinha relações de verdadeira amisade com El Rei D. João V que costumava ir visital’o passando com elle bocados de cavaqueira na sua quinta à Rua de Sant’Anna em Lisboa, que era n’aquella epoca o rendez-vous favorito da aristocracia.» Sucedeu-lhe o filho Nicolau Possolo (nascido em 11 de maio de 1757) que se tornou oficial maior do Conselho da rainha e abastado negociante de vinhos e casou com Maria do Carmo Correia de Magalhães Botelho de Morais Freirão Callabre, tendo o casal tido pelo menos 14 filhos, sendo o terceiro Francisca de Paula Possolo da Costa (1783 – 1838), conhecida como escritora, tendo a família residido até 1790 na Rua de Santana à Lapa.

Pela documentação do Arquivo Municipal ficamos também a saber que em 1904 foram comprados terrenos para o alargamento das Travessas do Possolo e das Almas, intenção que havia sido aprovada na sessão de Comissão Administrativa Municipal de 7 de julho de 1891. Em 1929, o engº António Emídio Abrantes traçou o prolongamento da Travessa do Possolo ligando esta com a Calçada das Necessidades. Finalmente, mencione-se ainda que na esquina da Rua do Possolo com a Rua de Santana à Lapa está o Palacete dos Condes de Sabrosa, construído no 3º quartel do séc. XVIII, de arquitetura pombalina  e com um exuberante revestimento de azulejos policromados da Fábrica de Campolide, traçados pelo desenho de João Rodrigues.

Freguesias da Estrela e de Campo de Ourique

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