Dois Josés Maria inovadores na literatura presentes na toponímia de Lisboa

Avenida José Régio e Rua Ferreira de Castro -Freguesias de Alvalade e de Marvila

José Maria dos Reis Pereira e José Maria Ferreira de Castro são dois Josés Marias que a escrita uniu e se corresponderam, ambos presentes na toponímia de Lisboa, em artérias paralelas, o primeiro numa Avenida de Alvalade e de Marvila e o segundo, numa Rua de Marvila.

Quando Régio publicou o seu primeiro livro – Poemas de Deus e do Diabo – Ferreira de Castro na sua página «Livros e Autores» do jornal ABC (de Rocha Martins), logo em 22 de abril de 1926 deu conta da sua chegada, testemunhando que «É um poeta, um autêntico poeta, este José Régio que agora solta o primeiro grito desde o campo, até aqui silente, do seu anonimato. É um poeta original, aqui e ali irreverente – uma irreverência que não está mui longe da profundidade. (…) O seu “Poemas de Deus e do Diabo” é uma verdadeira revelação – a revelação de uma forte personalidade que não está volvida para cinzas arcaicas, mas sim para os torreões onde se desfraldam os mais novos e deslumbrantes estandartes literários.»

Ferreira de Castro e Régio também estiveram presentes no nº especial da Vértice de 1951 – comemorativo do 10º aniversário e do nº 100 da revista – assim como em 11 de novembro de 1966, com David Mourão Ferreira, Luís Amaro e Natália Correia, ambos assistiram à deposição dos restos mortais de António Botto num gavetão do Cemitério do Alto de São João.

Ferreira de Castro, o autor de A Selva – fruto da sua experiência como emigrante no Brasil-, está desde a publicação do Edital municipal de 28 de fevereiro de 1984 como o topónimo de Marvila. O mesmo Edital colocou numa rua da mesma freguesia a escritora brasileira Dinah Silveira de Queiroz. Cinco anos depois,  junto à Rua Ferreira de Castro nasceu a Rua como o nome da poetisa Luísa Neto Jorge e em 1997, paralela, surgiu a Avenida José Régio.

José Maria Ferreira de Castro (Oliveira de Azeméis- Ossela/24.05.1898 – 29.06.1974/Porto) foi um escritor e jornalista que se destacou por retratar na  sua obra a vida dos emigrantes no Brasil, nomeadamente no romance Os Emigrantes (1926) e em A Selva (1930), no qual narra a vida nos seringais da Amazónia inspirando-se na sua própria experiência de trabalho. A edição de A Selva no Brasil, em 1935, foi prefaciada por Afrânio Peixoto  e, em 2002, numa produção luso-hispano-brasileira, a obra foi adaptada ao cinema por Leonel Vieira. Ferreira de Castro foi considerado precursor do neorrealismo pela sua inovadora obra marcada pelo sofrimento e pobreza, em resultado da morte prematura do pai em 1906 e a sua experiência de emigração no Brasil desde os 12 anos, corria então o ano de 1910: viveu durante quatro anos como caixeiro no seringal Paraíso (em plena selva amazónica) e depois recorreu a trabalhos como colar cartazes em Belém ou ser embarcadiço em navios entre Belém e a Guiana Francesa. Ainda no seringal escreveu o seu primeiro romance Criminoso por ambição (1916)  que publicou em fascículos no Brasil.

«Alma Nova», dezembro de 1925

Do conjunto das suas 31 obras refiram-se ainda a peça A Alma Lusitana(1916), O Êxito Fácil (1923), Sangue Negro (1923),  A Metamorfose (1924)A Epopeia do Trabalho (1926)O voo nas Trevas (1927), Terra Fria (1934) – que foi Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências e também adaptada a filme de António Campos em 1992-  A Tempestade (1940), A Lã e a Neve (1947), O Instinto Supremo (1968) , Os Fragmentos (1974) e os dois volumes de  As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-1963), que receberam em 1965 Prémio Catenacci da Academia de Belas Artes de Paris. Duas das suas obras de 1936- O Intervalo e a peça Sim, uma Dúvida Basta, feita para o Teatro Nacional e censurada  por despacho governamental – só foram publicadas em 1974 e 1994.

Nos periódicos, colaborou no Jornal do Novos de Belém (1916); fundou e dirigiu com outro emigrante, João Pinto Monteiro, o semanário Portugal (1917)  e O Luso (1919), as revistas A Hora (1922) e Civilização (1928); colaborou nos jornais Imprensa Livre (1921), no «Suplemento Literário» do diário A Batalha e da revista Renovação (1925) da Confederação Geral do Trabalho anarco-sindicalista, no jornal O Século (1927), O domingo ilustrado e Ilustração (1934), o jornal O Diabo (1935) e o jornal carioca A Noite (1938). Em 1926 foi eleito presidente do Sindicato dos Profissionais da Imprensa de Lisboa.

Como cidadão, José Maria Ferreira de Castro denunciou os efeitos nefastos da censura sobre os escritores portugueses numa entrevista ao Diário de Lisboa em 1945, e nessse mesmo ano integrou a Comissão Consultiva e a Comissão de Escritores Jornalistas e Artistas do Movimento da Unidade Democrática (MUD). Em 1949, apoiou empenhadamente a candidatura de Norton de Matos à presidência da República. Em 1962, foi eleito por unanimidade presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores, da qual era o sócio nº 2 e Aquilino o nº 1.

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