Nascidos em 1901: Nemésio e Régio em ruas lisboetas

Freguesia de Santa Clara

Vitorino Nemésio e José Régio, que ao longo das suas vidas se vão corresponder, nasceram no mesmo ano de 1901 e partilharam também a participação em revistas comuns: Nemésio pontificou na Presença de Régio a partir de 1930 e Régio publicou na Revista Portugal  de Nemésio. Refira-se ainda que Vitorino Nemésio publicou no jornal académico Gente Nova, em abril de 1927, uma crítica favorável ao primeiro livro de José Régio, Poemas de Deus e do Diabo.

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva (Ilha Terceira-Praia da Vitória/19.12.1901 – 20.02.1978/Lisboa), filho de Vitorino Gomes da Silva e de Maria da Glória Mendes Pinheiro, notabilizou-se como professor universitário da Faculdade de Letras de Lisboa, ensaísta, escritor e autor do famoso programa televisivo Se bem me lembro, estando desde o ano do seu falecimento na toponímia de Lisboa, através do Edital municipal de 20 de novembro de 1978, na Rua B da Quinta de Santa Clara à Ameixoeira, tendo ficado na Rua A o também escritor e professor universitário Jorge de Sena.

Na sua carreira académica, Vitorino Nemésio foi também diretor da Faculdade de Letras de Lisboa, de 1956 a 1958, bem como agraciado com o Doutoramento Honoris Causa pelas Universidades de Montpellier e do Ceará. Cumprido o serviço militar, como voluntário, a partir de 1919, concluiu o liceu em Coimbra, em 1921 e inscreveu-se no curso de Direito. Passados  três anos,  trocou pelo curso de Ciências Histórico-Filosóficas, e no ano seguinte voltou a mudar, desta feita para o curso de Filologia Românica, que concluiu em 1931 na Faculdade de Letras de Lisboa,  onde começou desde logo a ensinar Literatura Italiana e, mais tarde, Literatura Espanhola. Doutorou-se em 1934 com a tese A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio. Nemésio foi também professor na Universidade Livre de Bruxelas, entre 1937 e 1939, assim como no Brasil, em 1958. Publicou diversos ensaios de que se salientam Sob os Signos de Agora (1932), Relações Francesas do Romantismo Português (1936) ou Conhecimento de Poesia (1958).

Na carreira literária, Nemésio tanto foi poeta como prosador de crónicas ou romances. Se o seu primeiro livro publicado, como Régio, foi de poesia –Canto Matinal (1916) -, ele é o autor de obras incontornáveis como o romance Mau Tempo no Canal (1944) –  galardoado com o Prémio Ricardo Malheiros – ou as crónicas de Corsário das Ilhas (1956), para além da ficção Varanda de Pilatos (1926) ou Quatro prisões debaixo de armas (1971). Na poesia, destaquem-se as suas obras Eu, Comovido a Oeste (1940), Limite de idade (1972), Sapateia Açoriana, Andamento Holandês e Outros Poemas (1976) e o póstumo Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga (2003).

Na comunicação social, Vitorino Nemésio construiu uma história longa: fundou e dirigiu as revistas  Estrela d’Alva (1916) e a Revista Portugal (1937); dirigiu o jornal O Dia (entre 11 de dezembro de 1975 a 25 de outubro de 1976); fundou a revista Tríptico (1924) com Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões, assim como a Gente Nova. Jornal Republicano Académico (1927) com Paulo Quintela, Cal Brandão e Sílvio Lima; foi redator de A Pátria, A Imprensa de Lisboa, Última Hora (1921), do Humanidade de Coimbra (1925); e ainda colaborou na revista Bizâncio (1923), na Seara Nova (1928), na Presença ( a partir de 1930), em O Diabo (1935), no Diário Popular (1946) com uma rubrica regular, na revista Vértice (1947) e na revista Observador (1971).

Na televisão ficou célebre pelo seu programa semanal Se bem me lembro, de meia hora em horário nobre, onde com uma postura descontraída, de 1970 a 1975, discorria sobre mentalidades e cultura em geral.

Vitorino Nemésio foi galardoado com o Grande Oficialato da Ordem da Infante D. Henrique (1961), o Prémio Nacional de Literatura (1965), o Prémio Montaigne (1974), a Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1967) de que também recebeu,  a título póstumo, a Grã-Cruz (1978).

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