Os correspondentes José Régio e Jorge de Sena na toponímia de Lisboa

Na Livraria Leitura, no Porto, (da esquerda para a direita) Eugénio de Andrade, José Régio e Jorge de Sena (Foto: © CER)

José Régio tinha mais 18 anos que Jorge de Sena (que na Presença assinava como Teles de Abreu) mas tal não impediu que os dois escritores tivessem trocado inúmera correspondência ao longo da vida de ambos, que foi reunida por Mécia de Sena e editada pela primeira vez em 1986, tal como ambos se encontram homenageados na toponímia de Lisboa através da Avenida José Régio e da Rua Jorge de Sena.

Cinco meses após o seu falecimento, Jorge de  Sena  foi colocado como topónimo da Rua A da Quinta de Santa Clara à Ameixoeira, na  Freguesia de Santa Clara, enquanto na Rua B ficava Vitorino Nemésio, ambos através de Edital municipal de 20 de novembro de 1978.

De seu nome completo Jorge Cândido Alves Rodrigues Telles Grilo Raposo de Abreu de Sena (Lisboa/02.11.1919 – 04.06.1978/Santa Barbara – E.U.A.), que este ano cumpre o centenário de nascimento, foi um engenheiro de formação que se distinguiu com escritor e professor universitário, ensaísta e historiador da cultura, pelo que desde 2009 os seus restos mortais passaram a repousar em Lisboa, num jazigo do Cemitério dos Prazeres.

Em  março de 1938 era Jorge de Sena um Cadete da Escola Naval quando em foi demitido da Marinha por motivos políticos, tema que ele abordará em Sinais de fogo. Em 1944 concluiu a sua licenciatura em Engenharia Civil na Universidade do Porto e foi depois trabalhar para a Junta Autónoma de Estradas, de 1948 a 1959. Mas nesse mesmo ano de 1959, por causa da ditadura, partiu para o exílio e nunca mais regressou a Portugal a não ser para participação em eventos. Fixou-se no Brasil, receando as perseguições políticas resultantes de uma falhada tentativa de golpe de estado, a 11 de março desse ano, em que esteve envolvido.

No Brasil, Jorge de Sena exerceu como engenheiro e professor de engenharia  em algumas universidades, mas em paralelo doutorou-se em Letras, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara (em São Paulo) em 1964, momento a partir do qual fez uma reconversão profissional e se dedicou ao ensino da literatura. Em 1965, partiu com Mécia de Sena e os nove filhos de ambos, para os Estados Unidos da América, por temor do golpe militar ocorrido no Brasil no ano anterior e aí foi docente na Universidade de Wisconsin, onde se tornou  professor catedrático em 1967, passando depois para a Universidade de Santa Barbara (1970), onde também exerceu funções do diretor do Departamento de Espanhol e Português e do Programa de Literatura Comparada.

Na sua obra literária estreou-se em 1942  com Perseguição e construiu uma obra multifacetada que soma mais de vinte coletâneas de poesia, uma tragédia em verso, uma dezena de peças em um ato, mais de 30 contos, uma novela e um romance, cerca de 40 volumes dedicados à crítica e ao ensaio – com destaque para os estudos sobre Camões e Pessoa-, à história e à teoria literária e cultural -com trabalhos pioneiros sobre o Maneirismo-, ao teatro, ao cinema e às artes plásticas, sem esquecer que traduziu duas antologias gerais de poesia, da Antiguidade Clássica aos Modernismos do século XX assim como autores de ficção como Faulkner, Hemingway, Graham Greene, teatro de Eugene O’Neill e ensaios de Chestov. Do conjunto da sua obra, destacamos os títulos As evidências (1955), Metamorfoses (1963), Peregrinatio ad loca infecta (1969), O Indesejado (1951), Novas andanças do demónio (1966), Os Grão-Capitães (1976), O físico prodigioso(1977) e Sinais de fogo (1979). O seu espólio foi doado pela família à Biblioteca Nacional em 2009.

Jorge de Sena foi ainda cofundador do grupo de teatro Os Companheiros do Páteo das Comédias, em 1948, e colaborador, nesse mesmo ano, de António Pedro, no programa de teatro radiofónico Romance Policial, no Rádio Clube Português; conferencista; crítico de teatro e de literatura em diversos jornais e revistas; comentador de cinema; diretor de publicações como os Cadernos de Poesia e coordenador editorial da revista Mundo Literário; consultor literário da Livros do Brasil (em Lisboa) e da Editora Agir (no Rio de Janeiro).

 

Rua Jorge de Sena na Freguesia de Santa Clara

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