Régio na  Comissão dos Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos do MUD e a Rua da Trindade

Excerto do protesto da Comissão dos Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos do MUD-Movimento de Unidade Democrática
(Imagem: © CER)

José Régio não era um cidadão alheio aos acontecimentos sociais e assim, teve envolvimento político quando as situações críticas da vida nacional o justificavam, tanto que em 1945 integrou a  Comissão dos Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos do MUD-Movimento de Unidade Democrática, que tinha a sua sede no 3º andar do n° 15 da Rua da Trindade.

Em novembro de 1946, esta Comissão entregou uma missiva ao Presidente da República, em que protestavam o seguinte: «Passado ano e meio sobre a vitória das Nações Unidas, que significou para quase todos os países civilizados a liquidação do fascismo, nas suas formas mais odiosas e mais vis; passado mais dum ano sobre o discurso do Chefe do Governo Português, em que se prometia à opinião pública nacional mais larga expressão dos seus direitos civis e políticos – sentem-se os signatários no dever intelectual e moral de vir protestar perante V. Exª e perante o país contra as opressões, as arbitrariedades e as violências que continuam sendo praticadas, sob o signo da autoridade constituída, contra cidadãos que exercem aqueles mesmos direitos e, o que é talvez pior, contra a dignidade humana e a cultura.» E terminavam com uma justificação do seguinte teor: «Como portugueses e trabalhadores do espírito assiste-nos o direito de chamar a atenção de V. Exª e da Nação para as violências cometidas – contra a lei, contra o senso de justiça, contra a dignidade da cultura – em prejuízo de intelectuais portugueses cuja pessoas e cujas obras constituem um património honroso da comunidade nacional a que pertencemos. É em nome desse direito que formulamos este protesto reclamando Justiça e Liberdade.»

Docente no Liceu de Portalegre, José Régio participava na Comissão Concelhia do MUD de Portalegre desde 1945 e em 1949, integrou também a Comissão Distrital de Portalegre da campanha de Norton de Matos à Presidência da República, assim como mais tarde, em 1958, vai aderir à candidatura de Humberto Delgado.

A Rua da Trindade onde a Comissão dos Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos do MUD-Movimento de Unidade Democrática tinha sede, é uma artéria que hoje começa no Largo do Carmo e segue até atingir a Rua Nova da Trindade. Como o nome indica, é este um topónimo que deriva do Convento da Santíssima Trindade, fundado por D. Afonso II  em 1218, para a Ordem da Santíssima Trindade do Resgate dos Cativos, religiosos franceses, vulgarmente conhecidos por Trinitários, que se estabeleceram assim em Lisboa numa zona envolvida por um olival, na franja urbana da cidade. A mesma origem é partilhada com os topónimos Largo da Trindade, Rua Nova da Trindade e Travessa da Trindade, que se encontram nesta área.

Do antigo convento masculino de religiosos que se dedicavam ao resgate dos cativos portugueses nas cidades de Marrocos e da Argélia, resta hoje parte da estrutura abobada e pilares do refeitório na sala pública da Cervejaria Trindade. O convento recebeu significativos benefícios e privilégios do poder régio, nomeadamente, da Rainha Santa Isabel, a que não será estranho Estêvão Soeiro, frade trinitário que era o confessor da Rainha. No século XIV, a muralha fernandina dividiu o Mosteiro, ficando uma parcela dentro de muros, a qual foi urbanizada nos inícios do século XVI – a Vila Nova do Olival-, e uma exterior, a Herdade de São Roque, urbanizada mais tarde, em meados desse mesmo século. A partir de 1561 o convento foi ampliado, com capacidade para albergar 110 frades, estando entre eles, Frei Nicolau de Oliveira, autor do Livro das Grandezas de Lisboa. O terramoto de 1755 atingiu o edifício conventual e a sua reconstrução prolongou-se por décadas mas o seu lado oriental acompanhava a Rua Larga de São Roque (hoje, Rua da Misericórdia), a fachada principal estava virada a sul e nela se abria a portaria para o lado norte do Largo de São Roque (hoje, Largo Trindade Coelho) e a nova igreja do convento localizava-se no prédio da já desaparecida Livraria Barateira.

Em 1834, com a extinção das ordens religiosas os frades trinitários mudaram-se para a sua casa de Sintra, e o Estado vendeu os terrenos para prédios e uma fábrica de cerveja (a Trindade), para além de, no ano seguinte, ser demolida mais uma parte do antigo convento para permitir a abertura da Rua Nova da Trindade.

Freguesia de Santa Maria Maior

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