José Régio e a Rua António Botto

Estudo de José Régio sobre a obra de António Botto, publicado em 1938

José Régio saudou a edição de Ciúme de António Botto em artigo publicado no Diário de Lisboa de 21 de julho de 1934 e quatro anos mais tarde publicaria um ensaio sobre este escritor intitulado António Botto e o Amor, significativamente dedicado a Fernando Pessoa que foi o primeiro a descobrir aquele poeta e a mostrar a sua originalidade poética.

Em Lisboa, António Botto só será fixado na toponímia da cidade 42 anos após o seu falecimento, por Edital de 29 de agosto de 1991, na Rua C da Urbanização do Alto do Chapeleiro, quando foram dados nomes aos arruamentos desta urbanização.

António Botto em O Domingo Ilustrado, 30 de agosto de 1925

António Tomás Botto (Abrantes/17.08.1897 – 16.03.1959/Rio de Janeiro) distinguiu-se como poeta, a partir da publicação de Canções, em 1921. Desde 1908 que António Botto vivia em Lisboa com a família, no bairro de Alfama, razão para um poema seu estar afixado junto à Fonte do Poeta na Rua da Judiaria, no qual se pode ler «esta fonte que fala na surdina de qualquer coisa que eu não sei ouvir».

Botto começou por trabalhar em algumas livrarias e desde os tempos da Orpheu que participava em tertúlias da capital onde Pessoa circulava e avançou para o mundo da literatura, com as coletâneas poéticas Trovas (1917), Cantigas de Saudade (1918), Cantares (1919), Canções do Sul (1920) embora seja Canções, de 1921, a sua obra mais polémica pelo carácter abertamente homossexual e que também o tornou mais conhecido, com várias edições revistas e acrescentadas pelo autor entre 1921 e 1932. Fernando Pessoa gostou desta obra e até publicou a 2ª edição na sua efémera editora Olisipo, para além de a ter traduzido para inglês em 1930.

Entretanto, Botto conseguiu trabalho como funcionário público e começou por ser colocado em Angola em 1924, para regressar no ano seguinte para exercer funções no Governo Civil de Lisboa, de onde transitará em 1937 para o Arquivo Geral de Registo Criminal e Policial, do qual será demitido, conforme o Diário do Governo de 9 de novembro de 1942, de acordo com um conceito de «falta de idoneidade moral». Contudo, entre 1923 e 1959, Botto publicou  13 livros de poesia como Motivos de Beleza (1923), Dandismo (1928), Ciúme (1934), Fátima – Poema do Mundo (1955) e Ainda Não se Escreveu (1959). Além da poesia, António Botto produziu também ficção, em obras como António (1933), Isto Sucedeu Assim (1940), Ele Que Diga se Eu Minto (1945),  assim como literatura infantil em Os Contos de António Botto (1942) e a peça de teatro Alfama (1933), a que acresce ter colaborado com Fernando Pessoa numa Antologia de Poemas Portugueses Modernos.

Emigrou para o Brasil em agosto de 1947, com a sua mulher de sempre Carminda Silva, depois de realizar vários recitais de poesia em Lisboa e no Porto para angariar o dinheiro necessário para a viagem. Nesse país, sobreviveu escrevendo artigos e colunas em jornais portugueses e brasileiros, participando em programas de rádio e organizando récitas de poesia até que em 4 de março de 1959 foi atropelado por um automóvel do governo quando atravessava a Avenida Copacabana (no Rio de Janeiro), em consequência do qual acabou por falecer alguns dias mais tarde.

Na sua vida pessoal, apesar de assumido homossexual, Botto foi casado com Carminda Rodrigues até ao final da sua vida e escreveu « O casamento convém a todo o homem belo e decadente».

Em 29 de outubro de 1965 os seus restos mortais foram trasladados para Lisboa por via aérea, mas só em 11 de novembro de 1966 foram depositados no Cemitério do Alto de São João, cerimónia a que assistiram  José Régio, Ferreira de CastroDavid Mourão-Ferreira, Luís Amaro e Natália Correia, entre outros, encontrando-se no jazigo 1285.

Freguesia de Santa Clara

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