José Régio e Vergilio Ferreira em Avenidas lisboetas

Vergílio Ferreira (ao centro) com Régio e o irmão Júlio, em Portalegre
(Foto: © CER)

Ambos escritores, ambos ensaístas, ambos professores do ensino liceal, estão  José Régio e Vergílio Ferreira de igual modo consagrados em Lisboa em Avenidas, dois homens que esgrimiram argumentos numa recíproca admiração e longa amizade que os ligava.

Em 1965, ano em que Régio foi um dos duzentos subscritores de uma declaração de solidariedade com a Direção da Sociedade Portuguesa de Escritores e o Júri do Grande Prémio que o atribuiu a Luandino Vieira, Vergílio Ferreira declarou «Régio é hoje o maior de todos nós» e em 1969, redigiu o artigo Na morte de Régio, mais tarde inserido no Espaço do Invisível II (1991).

Freguesia de Marvila

Quinze anos mais novo que José Régio, Vergílio António Ferreira (Gouveia – Melo/28.01.1916 – 01.03.1996/Lisboa) nasceu às 15 horas de uma sexta-feira, filho de António Augusto Ferreira e Josefa Ferreira, que emigraram deixando-o ao cuidado das tias. Já a Avenida lisboeta que homenageia o autor de Aparição resultou da aprovação por unanimidade em sessão de Câmara, cinco dias após o seu falecimento, de uma proposta de atribuição do seu nome a uma artéria da cidade, o que se concretizou através do Edital municipal de 24 de setembro de 1996 na Rua M 3 do Bairro do Armador, na freguesia de Marvila.

Vergílio Ferreira defendeu que «Toda a biografia é uma rede de sinais que apontam o vazio do que jamais poderemos saber. Mas é nesse vazio que falta que está a razão do que chegou até nós» e assim narramos que o seu primeiro romance se intitulava O caminho fica longe (1939), a que se seguiram Onde Tudo Foi Morrendo (1944) e Vagão J (1946). Em 1949, foi a vez do romance Mudança que faz a passagem do neorrealismo para o existencialismo. E a partir daí construiu uma obra literária onde pontuam romances, contos, diarística e ensaios, a interrogar o mistério da existência, o destino da humanidade, o lugar do Homem no Mundo, o absurdo da vida e da morte, a solidão e os problemas da condição humana, de que se salientam Manhã Submersa (1954), Aparição(1959), Cântico Final (1960), Alegria Breve (1965) Nítido Nulo (1971), Signo Sinal (1979), Para Sempre (1983), Uma Esplanada sobre o Mar (1987), Até ao Fim (1987), Em Nome da Terra (1990) ou Na Tua Face (1993).

Algumas das suas obras serviram de argumento para filmes como o de Manuel Guimarães a partir de Cântico Final (1974) ou  o de António Macedo a partir do conto «Encontro» (1978), bem como também o fez  Lauro António com a Manhã Submersa (1979), com o conto «Mãe Genoveva» (1983) para uma série da RTP, e ainda com as curtas Prefácio a Vergílio Ferreira (1975) e Vergílio Ferreira Numa Manhã Submersa (1979).

Licenciado em Filologia Clássica desde 1940, Vergílio Ferreira foi também o ensaísta que publicou Sobre o Humorismo de Eça de Queirós (1943), Da Fenomenologia a Sartre (1963) ou os 5 volumes Espaço do Invisível (1965, 1976,1977, 1987, 1998), para além de ter sido professor de Português e de Latim do ensino secundário em Faro, Bragança, Évora, Gouveia e, finalmente, a partir de 1959, no alfacinha Liceu Camões, tendo desde então fixado residência nesta cidade, no Bairro de Alvalade, com a sua mulher Regina Kasprzykowsky, professora polaca que se encontrava refugiada em Portugal da Guerra, com quem casara em 1946.

Vergílio Ferreira foi galardoado com o Prémio Camilo Castelo Branco (1960) por Aparição, o Prémio da Casa da Imprensa (1965) por Alegria Breve, a comenda de Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1979), o Prémio D. Dinis da Casa de Mateus (1981), o Prémio PEN Clube (1983) por Para Sempre bem como do Município de Lisboa, o Prémio do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários pelo conjunto da sua obra (1985), o Prémio da Associação Portuguesa de Escritores (1987) por Até ao Fim, o francês Prémio Femina (1990) por Manhã Submersa,  o Prémio Europália (1991) pelo conjunto da sua obra, o Prémio Camões (1992), o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (1994) por Na Tua Face, para além de ter sido eleito para a Academia Brasileira de Letras (1984) e para a Academia de Ciências de Lisboa (1992) e dar o seu nome à Biblioteca de Gouveia e aos Prémios Literários da Câmara Municipal de Gouveia e da Universidade de Évora.

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