O Beco de S. Francisco e o Largo da Achada e a passagem do Beco do Esfola Bodes ao da Boa Vista

Beco de São Francisco (na Achada ) em data entre 1898 e 1908
(Foto: Machado & Souza, © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

O Edital do Governo Civil de Lisboa de sábado 9 de setembro de 1871, integrou parte do Beco de São Francisco no Largo da Achada e continuaram a existir ambos os topónimos que hoje são parte da Freguesia de Santa Maria Maior. Pelo mesmo Edital, o Governo Civil de Lisboa mudou o Beco do Esfola Bodes para Beco da Boavista, no território da hoje Freguesia da Misericórdia.

O Beco de São Francisco e o Largo da Achada

O Beco de São Francisco, que liga o Largo da Achada à Rua das Achada, teve a sua parte compreendida na área do Largo da Achada (lado Sul) incorporada nesse mesmo Largo por Edital do Governo Civil de Lisboa de 9 de setembro de 1871. O olisipógrafo Luís Pastor de Macedo defende que o beco é ainda mais antigo porque «Vemo-lo em 1770 – “Terreirinho de S. Francisco (actual largo da Achada) e seu beco [Róis de desobrigas da freguesia de S. Cristóvão] – mas é de presumir que já existisse muitíssimos anos antes». Registe-se que na planta da remodelação paroquial de 1770, surge na freguesia de São Cristóvão o Terreirinho de São Francisco e o beco da «Axada», enquanto na Freguesia de São Lourenço se regista a «Rua da  Axada» que já Cristóvão Rodrigues de Oliveira menciona no seu Sumário de Lisboa em 1551 como arruamento da Freguesia de S. Cristóvão. Também Norberto de Araújo referiu que «Este sítio da Achada, que foi arrabalde da cidade muçulmana, deve o seu nome, muito antigo e característico, pois já é citado em 1554, ao facto de aqui se encontrar uma pequena planície ou descanço da encosta. “Achada”, com efeito, é uma contracção de “achaada”, terra chã.»

Sobre São Francisco, encontramos na memória paroquial de São Cristóvão, assinada pelo pároco Joaquim Salter de Mendonça em 10 de setembro de 1758, a informação de que a igreja tinha oito altares, estando no corpo da igreja, o altar do Crucificado, onde surgia uma Sagrada Família, e o altar de São Miguel, ladeado por São Sebastião e São Francisco Xavier. Todavia, o Beco de São Francisco pode fixar antes a memória ou a propriedade  do antigo convento de São Francisco da Cidade, influente centro cultural, religioso e social da Lisboa de vários séculos,  que tendo começado numa ermida construída pelos franciscanos em 1217, localizado no Monte Fragoso acabou por dar o nome de São Francisco a essa colina e a diversos topónimos locais.

O Beco do Esfola Bodes em 1856, na cartografia de Filipe Folque

Do Beco do Esfola Bodes ao Beco da Boa Vista de 1871

O mesmo Edital do Governo Civil de Lisboa de sábado 9 de setembro de 1871 alterou a denominação de Beco do Esfola Bodes para Beco da Boa Vista, por referência à proximidade à Rua da Boavista e provavelmente para tornar mais urbano um topónimo rural e violento. Recorde-se que Câmara Municipal de Lisboa em 1834 proibira também o lançamento de cadáveres de cavalos ao Tejo, assim como depois, entre 1847 e 1872 foram naquela zona construídos prédios no seguimento do edifício da Companhia do Gás (de 1846) e foi aberta a Rua da Moeda – antes conhecido como Boqueirão da Moeda, por referência à Casa da Moeda ali instalada desde 1720 -, fundado o Instituto Industrial em 1852 e erguida nova casa da Moeda entre 1889 e 1891. Recorde-se que a Praia da Boa Vista só teve o seu aterro a partir de 1855, sobre o qual nasceu a Praça de D. Luís e a Avenida 24 de Julho.

Se recuarmos à Lisboa de 1551, o relato de Cristóvão Rodrigues de Oliveira apenas  nos menciona a Rua direita da boa vista até à cruz na Freguesia de Nª Sª dos Mártires, assim como o Vale das Chagas e a Calçada da Boa Vista na Freguesia do Loreto. Mas cerca de duzentos anos depois, por uma descrição corográfica das paróquias no dia do terramoto de 1755 já encontramos o «Beco do esfollabodes» tal como a «rua da boavista» na Freguesia de São Paulo, junto à praia da Boavista. E na memória paroquial após o terramoto, em 22 de dezembro de 1759, o vigário de São Paulo, Francisco Xavier Baptista, confirma a existência da rua direita da Boavista e do Becco do Esfolla Bodes, que mesmo uns vinte anos depois davam para uma praia junto ao Tejo. O Beco do Esfola Bodes é ainda o que aparece na cartografia de Filipe Folque de 1856 até que depois do Edital de 1871, a cartografia de Francisco Goullard de 1883 já refere o Beco da Boavista.

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