Cavaleiro de Oliveira

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Francisco de Oliveira, conhecido como Cavaleiro de Oliveira, funcionário da Coroa no século XVIII e escritor proibido pela Inquisição, é desde a publicação do Edital municipal de 17 de outubro de 1924 o topónimo de uma Rua de Arroios que hoje une a Rua Morais Soares à Praça Olegário Mariano.

Note-se que já Camilo o pretendera biografar mas foi na primeira metade do séc. XX que a sua biografia foi publicada por Jordão de Freitas, Aquilino Ribeiro e o Prof. Gonçalves Rodrigues, com acesas polémicas nessa época.

Francisco Xavier de Oliveira (Lisboa/21.05.1702 – 18.10.1783/Hackey – Inglaterra), filho de José de Oliveira e Sousa e de Isabel da Silva Neves, ficou conhecido como Cavaleiro de Oliveira por tradução de Chevalier d’Oliveira, nome que ele a si próprio atribuiu depois de ter sido feito Cavaleiro da Ordem de Cristo, em 11 de dezembro de 1729. O seu pai fora Contador dos Contos do Reino e Secretário em embaixadas, como a de Utreque e de Viena, o que facilitou que fosse admitido como funcionário do Tribunal dos Contos do Reino, na qualidade de Oficial, aos 14 anos. Como a sua família, Francisco Xavier de Oliveira era bastante considerado em Lisboa. Em 25 de fevereiro de 1730 casou com Ana Inês de Almeida.

Em 1734 foi destacado para substituir o seu pai que falecera, como Secretário da Embaixada Portuguesa em Viena. Contudo, desde o início o embaixador Conde de Tarouca não o apreciou e fez antes seu Secretário um arquiteto milanês, dispensando-o oficialmente uns três anos depois, em 1737. No ano seguinte, em 26 de junho de 1738 casou em Viena com Maria Eufrosina de Puechberg Enzing. Passou seis anos a tentar exercer a função de secretário da embaixada portuguesa e reclamou mas nunca foi empossado, por razões nunca expostas.

Em 1740, arruinado, partiu para a Holanda, onde começou a publicar, em francês, assumindo-se como escritor sem mecenas: Memoires de Portugal (1741), Memórias das viagens de Francisco Xavier de Oliveira (1741), 3 tomos de Cartas Familiares, Históricas, Políticas e Críticas: Discursos Sérios e Jocosos (1741- 1742), e Viagem à ilha do amor escripta a Philandro (1744) que é comum aceitar-se como uma tradução livre de uma obra de 1664, anónima mas atribuída ao abade Paul Tallemant.

Em 1744 fixou residência de exilado em Londres e um pouco antes, o Inquisidor Frei Manuel do Rosário proibiu a entrada de todos os seus livros em Portugal. O embaixador português em Londres, o futuro Marquês de Pombal, também não simpatizou com ele e o Cavaleiro de Oliveira fez amizade com um pastor anglicano que lhe permitiu sobreviver economicamente. Casou numa igreja anglicana em 1 de fevereiro de 1746, com Françoise Hammon, de origem luterana, e abjurou da fé católica em junho de 1746. Pouco depois do nascimento de uma filha, foi preso por dívidas e cumprida a pena (21 meses e dez dias) passou a receber uma pensão do Príncipe de Gales.

Em 1751 publicou Amusement Périodique, traduzido em 1922 por Aquilino Ribeiro como Recreação Periódica, no qual traçou um conjunto de traços anedóticos sobre a corte portuguesa de D. João V e fez proposições heréticas para a Fé católica e a Inquisição. Após o Terramoto de 1755 defendeu que foi um castigo divino em Discours pathétique au sujet des calamités présentes arrivées en Portugal. Adressé à mes compatriotes et en particulier a Sa Majesté Très-Fidèle Joseph I, Roi de Portugal (1756), obra com tradução inglesa no mesmo ano e a proibição de leitura e circulação pelo Santo Ofício – por denúncia do dr. Joaquim Pereira da Silva Leal, membro da Academia Real da História – que acabou por se estender a todas as suas obras. O Cavaleiro de Oliveira, dito herege, foi condenado a ser queimado em estátua, no mesmo auto da fé de 20 de setembro de 1761 em Lisboa, em que o padre Gabriel Malagrida padeceu a horrível morte pela fogueira. No ano seguinte respondeu com Le Chevalier d’Oliveyra brulé en effigie comme hérétique. Comment et Pourquoi? Anecdotes et Réflexions sur ce Sujet, données au Public par lui-même. Já em 1757 havia respondido com Suite du Discours Pathétique: ou Réponse aux Objections et aux Murmures que cet Ecrit s’est attiré à Lisbonne. Adressée aux Portugais par le Chevalier d’Olyveira, Auteur du Discours qu’il défend. Em 1767, usando um anagrama dele próprio dá a lume Reflexões de Félix Vieyra Corvina de Arcos, Cristão Velho Ulissiponense, com uma forte crítica à Inquisição, a práticas da Igreja e em defesa da liberdade de consciência.

Muito se falou também da sua vida galante, tanto mais que ele próprio se vangloriou nos seus escritos do seu amor por uma freira de Santa Mónica, uma cigana e uma judia que chegou a ser presa pela Inquisição.

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