Absolutos Beguinos ou Beguinhos num Beco de São Vicente

Freguesia de São Vicente
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Beco dos Beguinhos  já existia na Freguesia de São Vicente antes do Terramoto de 1755, então denominado Beco dos Beguinos, sendo controversa a origem do topónimo.

Consideremos que Beguino  significa devoto, beato e que no séc. XIII existiu uma seita religiosa com este nome, que acabou sendo considerada herética, tendo os seus  seguidores sido excomungados pelo Concílio de Viena de 1312 e ainda,  perseguidos pela Inquisição, principalmente em França e na Alemanha, devido ao seu espírito livre, antidogmático e pelos seus costumes, considerados dissolutos à época. Em Portugal também foram contestados e a palavra Beguino chegou mesmo a ter a conotação de hipócrita, pelo que, eventualmente, poderia ter dado azo ao nome do Beco.

Mas também existe a hipótese do olisipógrafo Gomes de Brito. O criador dos estudos toponímicos lisboetas defende que se trata do Beco dos Beguinos, e não Biguinos como no séc. XVI ou Biguinhos ou até  Beguinhos,  por assumir a a explicação de Viterbo no seu Elucidário de que o termo viria do inglês begging que significa pedir, mendigar e como tal corresponderia ao beco dos pedintes ou dos penitentes mas sem ligação a nenhum voto.

Gomes de Brito refere ainda que em 1565, um códice do arquivo camarário, dá nota de aí ter residido um tal Luiz,  Begino ou Beguino de alcunha ou de apelido, que  eventualmente poderia  ter dado nome ao local por ter sido o primeiro proprietário da viela.

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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As terras do «Carvalhão» que viria a ser Marquês de Pombal

Alto do Carvalhão – Freguesia de Campolide
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Carvalhão era o nome pelo qual era conhecido Sebastião José de Carvalho e Melo – que viria depois a ser Conde de Oeiras e Marquês de Pombal – nesta zona de Campolide, onde era o proprietários dos terrenos que se estendiam desde a Cruz das Almas até à ribeira de Alcântara e onde se fixou na toponímia local como Alto do Carvalhão, Rua do Arco do Carvalhão e já no século XX, também com a Rua do Meio ao Arco do Carvalhão (Edital de 22/06/1948).

Segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo, «do apelido [Carvalhão] derivaram os nomes da Rua actual (da direita) que leva à Cruz das Almas, e da ladeira (à esquerda) só há poucos anos (1933) edificada em forma, e que leva à D. Carlos Mascarenhas», porque ali possuía  casas, terras, olivais, pedreiras como a da Cascalheira, fornos de cal e até moinhos e azenhas. Ainda segundo Norberto de Araújo «antes de ser do Arco do Carvalhão a rua chamava-se do Sargento-Mór.»

Antes do Terramoto de 1755, o Arco do Carvalhão aparece na descrição corográfica da freguesia de Santa Isabel, bem como na planta após a remodelação paroquial de 1770. Cerca de 1779 existiriam casebres na Rua do Arco do Carvalhão que seriam demolidos em 1929 para alargamento do arruamento, ainda de acordo com Norberto de Araújo.

No século XX, em 1807, a planta de Duarte Fava apresentava esta zona como o Arco do Carvalhão. Filipe Folque, na sua planta de 1857 já refere o Arco do Carvalhão, a Estrada do Arco do Carvalhão e o forte do Alto do Carvalhão, sendo que desde 12 de outubro de 1823 que o Chafariz do Arco do Carvalhão (ou da Cruz das Almas), da autoria de Reinaldo Manuel dos Santos, estava a funcionar na Rua do Arco do Carvalhão que foi alargada a partir de 1887, alongada em 1900 e novamente alargada em 1901 bem como de 1914 a 1922.

Sabe-se ainda, por uma escritura de 21 de fevereiro de 1920, que neste ano estavam a ser construídas ruas no Alto do Carvalhão,  numa obra levada a cabo por Gustavo de Araújo Santos Moreira e que, dois anos depois (escritura de 27/01/1924), o mesmo indivíduo obteve licença para abertura e construção de ruas nos terrenos sitos no Alto do Carvalhão cedendo 2571,25 m2 de terreno à Câmara Municipal de Lisboa. A pavimentação das ruas ocorreu dez anos depois como prova a escritura de adjudicação da empreitada de pavimentação das ruas do Alto do Carvalhão a Emílio Hidalgo, com data de 22 de maio de 1934. A partir de 1937 o  Alto do Carvalhão recebeu a construção de  rampas de acesso à Auto-Estrada Lisboa-Cascais, incluindo ainda um viaduto sobre a artéria com data de 1940.

Freguesia de Campolide
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Beco da Pedreira da Caneja

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Beco da Pedreira da Caneja, em Campo de Ourique, é um dos termos geológicos presentes na toponímia da cidade, relacionados com a existência de pedreiras de calcários cretácicos, a pedra ornamental mais usada na cidade de Lisboa.

De igual forma, a toponímia de Lisboa comporta ainda a Rua da Cascalheira (Alcântara), a Rua da Pedreira do Fernandinho (Campolide), a Rua das Pedreiras (Belém), as Escadinhas do Santo Espírito da Pedreira (Santa Maria Maior) e ainda, o Largo, a Rua e a Travessa de São Sebastião da Pedreira (Avenidas Novas, Arroios e Santo António).

Já Caneja é um termo de origem desconhecida mas poderia ter sido uma alcunha ou até um apelido da proprietária, sendo certo que caneja é o nome vulgar de um peixe semelhante ao cação, assim designado nomeadamente na Ericeira, embora caneja também denomine o rego entre dois compartimentos de uma salina.

Sobre a data da fixação do Beco da Pedreira da Caneja pode supor-se que seja do século XX.  Na planta de remodelação paroquial de 1780 como na de 1807 de Duarte Fava o topónimo não surgia e a zona apresentava apenas terrenos de cultivo, situação que continua em  1850, apenas acrescida de moinhos de vento nas imediações. O topónimo Beco da Pedreira da Caneja aparece apenas no séc. XX, no Guia das Ruas de Lisboa de 1941, da Tipografia Gonçalves, como um beco sem saída, tal como vemos na planta municipal de 1950 e ainda, no Roteiro actualizado da cidade de Lisboa, Algés, Amadora, Dafundo, Damaia, Moscavide, Pontinha e Venda Nova da Polícia de Segurança Pública de Lisboa, de 1970/71.  Só em 1988, com a denominação de uma Rua Particular como Rua Bombeiro Catana Ramos, para homenagear este bombeiro vítima do incêndio do Chiado, o Beco da Pedreira da Caneja passou à dimensão que hoje lhe encontramos da Rua de Campo de Ourique à Rua Bombeiro Catana Ramos.

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

A seiscentista Rua Fresca aos Poiais de São Bento

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Na freguesia da Misericórdia, a ligar a Rua de Caetano Palha à Rua de São Bento, está a seiscentista Rua Fresca, parecendo o topónimo advir das condições climatéricas próprias da artéria.

O olisipógrafo Gustavo Matos Sequeira apontou que a Rua Fresca dos nossos dias não deve ser a primitiva artéria seiscentista, « A rua Frêsca, citada na demarcação de 1632, não devia corresponder à actual. A própria orientação que se lhe marca – de perlongo para o norte até à quinta de Francisco Soares – dá a entender isso mesmo » e argumenta que «Quanto a mim tal designação correspondia à moderna rua de Caetano Palha e mais anteriormente à junção desta com a rua da Cruz dos Poiais, como o atestam as denominações de rua Fresca abaixo dos Poiais e rua Fresca que vai para os Poiais, citadas respectivamente em 1641 e 1644, nos Livros de Óbitos de Santa Catarina, e, ainda a circunstância de, desde 1630 a 1637, aparecer incluída na área das Mercês», acrescentando Luís Pastor de Macedo que  «O Sr. [ Gustavo]  Matos Sequeira tem razão. A rua de Caetano Palha foi a antiga Rua Fresca, como o demonstram as formas que em determinadas alturas serviram para designá-la – Rua Fresca do Poço dos Negros (1760) e Rua Fresca de Caetano Palha (1802) – e o facto de Manuel Palha Leitão, não sabemos se pai de Caetano Palha da Silva Leitão, mas decerto da sua família, ter morado na Travessa Fresca, onde faleceu em 1 de Maio de 1725.»

Pastor de Macedo adianta ainda que « O nome de Rua de Caetano Palha aparece pela primeira vez dois anos antes do terramoto [1753] , mas anteriormente a esta denominação, e juntamente com a de Rua Fresca, deu-se também a esta serventia o nome de Rua do Veloso, nome já usado em 1621.»

Nas descrições e plantas paroquiais após 1755 e 1780 a Rua Fresca surge na Freguesia de Santa Catarina. No século XIX, a planta do Duque de Wellington de 1812 coloca a Rua Fresca a unir a Rua de Caetano Palha à Rua da Flor da Murta ( que em 1859 será incluída na Rua de São Bento), tal como aparece ainda em 1856 na planta de Filipe Folque. Já em 1883 o levantamento topográfico de Francisco Goullard traça a Rua Fresca já como a encontramos hoje, a ligar a Rua de Caetano Palha à Rua dos Poiais de São Bento. Sabe-se ainda que em julho de 1892 a artéria teve obras no pavimento.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Da Estrada para Carnaxide até à Rua da Buraca

Freguesia de Benfica
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A partir do séc. XVIII a freguesia de Benfica ganhou novos lugares com os nomes de Buraca, Alfarrobeira, Borel, Calhau, Feiteira, Pedralvas, Porcalhota, Venda Nova e desse lugar da Buraca nascerá em 1954 a Rua da Buraca.

Este arruamento antigo era vulgarmente conhecido por Estrada para Carnaxide. Após a implantação da República, o Edital municipal de 14/05/1917 denominou-a Avenida 14 de Maio, em homenagem à revolta ocorrida dois antes em Lisboa, levada a cabo por um conjunto de militares numa tentativa de reposição da Constituição de 1911, tendo Manuel de Arriaga demitido-se da presidência da República. Vinte anos mais tarde, o Edital de 19/08/1937 alterou a designação de Avenida 14 de Maio para Avenida Coronel Galhardo; porém, a abertura de novos arruamentos em 1954 no Vale Escuro proporcionou uma oportunidade de homenagem conjunta a diversos militares e o topónimo migrou para lá, para a «Avenida debaixo da ponte», como Avenida Coronel Eduardo Galhardo, sendo a artéria da freguesia de Benfica crismada então como Rua da Buraca, a ligar a Estrada da Circunvalação à Estrada da Buraca, tudo pela publicação do Edital de 23 de março de 1954.

O sítio da Buraca originou também na freguesia de Benfica a Estrada da Buraca, topónimo referenciado desde a 2ª metade do séc. XVIII por aí terem adquirido uns chãos Pedro Caetano Brum Pimentel e D. Mariana Catarina de Pastori, propriedade esta que em 1873 estava na posse de José Maria Pastori e já era conhecida por Quinta da Buraca ou Quinta do Bom Pastor. Também foi esta Estrada da Buraca que em 1771 recebeu um chafariz abastecido pelo Aqueduto das Águas Livres da autoria de Reinaldo Manuel dos Santos.

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Beco dos Birbantes do Convento da Encarnação

Freguesia de Arroios
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Beco dos Birbantes abre-se no Beco de São Luís da Pena e é uma artéria sem saída da freguesia de Arroios.

Este arruamento já aparece referido descrições paroquiais anteriores ao Terramoto de 1755,  na freguesia de Nossa Senhora da Pena, como rua dos Bribantes.  Após a catástrofe o topónimo subsiste mas referenciado como traveça dos Birbantes. Francisco Santana na sua comunicação às 3ªs Jornadas de Toponímia de Lisboa (1998), intitulada «Marginalidade nas Ruas de Lisboa», defendeu que «O Beco dos Birbantes ainda aí está perpetuando a memória de indivíduos de duvidoso comportamento.»

Naõ obstante, a origem rigorosa deste topónimo é desconhecida e os estudiosos aceitam como melhor hipótese de explicação  que os Birbantes se refiram à população indigente que se aglomerava mas proximidades do Convento de Nossa Senhora da Encarnação – situado no Beco de São Luís da Pena e no Largo do Convento da Encarnação – para obter esmola. Este convento foi erguido no séc. XVII, no reinado de Filipe II.

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Azinhaga e a Calçada da Quinta do Carrascal

Freguesia do Beato
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Quinta do Carrascal que se estendia desde a Picheleira à Rua do Sol a Chelas deu chão para o nascimento da Azinhaga e da  Calçada do Carrascal.

Nesta Quinta que surge já na planta de 1909 de Júlio Silva Pinto,  predominavam carrascos – seriam árvores parecidas com o carvalho ou antes oliveiras da variedade carrasca, já que o Beato era desde o séc. XII uma zona de vinhas e olivais?… – , sendo o arruamento próximo a Azinhaga do Carrascal, seguindo a tradição das Azinhagas ganharem o nome da Quinta que lhe era mais próxima. Dada o acentuado declive de uma parte do seu traçado parte da Azinhaga também foi conhecida por Calçada do Carrascal.

Assim, quando em finais de 1969 a Azinhaga ficou dividida em dois troços distintos, por obras na zona, a Câmara acolheu a  sugestão de António Fontes Laranjeira, morador no local, ficando ambos os topónimos como explicita o Edital municipal nº 14/70, de 16 de janeiro de 1970: « tendo em vista a circunstância de a Azinhaga do Carrascal, também designada vulgarmente por Calçada do Carrascal, se encontrar, actualmente, dividida em dois troços distintos, o que torna difícil a sua conveniente identificação, resolvi (…) que o troço do citado arruamento compreendido entre a Calçada da Picheleira e a Rua Frei Fortunato de São Boaventura, mantenha a denominação de Azinhaga do Carrascal e o troço compreendido entre a Rua do Sol a Chelas e a Rua Eng.º Maciel Chaves, passe a denominar-se Calçada do Carrascal.»

Entre a Azinhaga do Carrascal e a Azinhaga da Picheleira também se ergueu um bairro destinado desde 1927 a habitações económicas e que em 1933  os seus arruamentos receberam os seguintes topónimos : Rua Capitão Roby, Rua Frederico Perry Vidal, Rua Frei Fortunato de São Boaventura e Rua de Silveira Peixoto.

Freguesia do Beato
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

Da Calçada de Damião Aguiar à de Manuel Lopes do Lavre

Freguesias de Santo António e de Arroios

Damião de Aguiar no séc. XVI e XVII e Manuel do Lavre no séc. XVIII, moradores à vez num palacete junto ao Largo da Anunciada, deram também à vez nome à artéria que hoje conhecemos como Calçada do Lavra, a ostentar o 1º elevador  da Companhia de Ascensores Mecânicos de Lisboade 1884.

Damião de Aguiar (1535-1618) foi um homem letrado, desembargador do Paço e chanceler do Reino. Por documentos da chancelaria régia sabemos também que prestou juramento a Filipe II assinando o auto de entrega da cidade de Lisboa em 11 de setembro de 1580 e no ano seguinte,   foi eleito com Rodrigo de Menezes como procurador da cidade de Lisboa às Cortes de Tomar de 20 de abril. Segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo, Damião de Aguiar morou «no edifício apalaçado, ao Largo da Anunciada, onde hoje está a Escola Nacional», que no século seguinte foi também a morada de família de Manuel Lopes do Lavre, deputado da Junta e Alfândega do Tabaco, cujo irmão André Lopes Lavre, era secretário do Conselho Ultramarino. A Calçada terá sido mandada abrir por Manuel Lopes do Lavre e assim, a artéria empinada que nasce no Largo da Anunciada passou a chamar-se do Lavre ou do Lavra.

O Elevador do Lavra, obra de Raul Mesnier du Ponsard, foi inaugurado no dia 19 de abril de 1884.

Freguesias de Santo António e de Arroios
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

A Avenida da Muito Notável Vila da Praia da Vitória em 11 de agosto de 1829

Freguesias das Avenidas Novas e de Arroios
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Muito Notável Vila da Praia da Vitória, conforme o título que lhe foi concedido por Carta Régia de 12 de janeiro de 1837, em reconhecimento por ter tomado partido pelas tropas liberais contra a esquadra absolutista de D. Miguel, em 11 de Agosto de 1829, contribuindo assim para a vitória dos liberais de D. Pedro, está perpetuada em Lisboa desde a publicação do Edital municipal de 28 de junho de 1906, nas Avenidas Novas de Ressano Garcia junto à Praça que homenageia o chefe militar de D. Pedro, o Marechal Saldanha.

Este topónimo nasceu como Avenida da Praia da Vitória mas a partícula «da» foi suprimida em 1951, a partir de um parecer da Comissão Municipal de Toponímia de 13 de abril que o  Vice-Presidente da edilidade homologou no dia 16. Também a sua dimensão inicial ia da Rua de Dona Estefânia à Praça Duque de Saldanha, tendo a partir de 1945 sido ampliada até à Avenida 5 de Outubro.

A Ilha Terceira (Açores) está dividida em  dois  concelhos, sendo Praia da Vitória a sede do concelho mas a sua colocação na toponímia lisboeta mais do que uma referência de geografia regional radica numa homenagem ao apoio dado a D. Pedro contra D. Miguel em 1829. Aliás, a Avenida Praia da Vitória aquando da sua atribuição – 1906 – desembocava na Praça Duque de Saldanha que assim era designada desde 22 de agosto de 1902, em homenagem ao Marechal Saldanha, o chefe do Estado-Maior do Exército de D. Pedro, substituindo o anterior nome de Praça Mouzinho de Albuquerque.

Refira-se que os outros dois topónimos lisboetas que claramente celebram a vitória liberal de D. Pedro sobre o absolutista D. Miguel também se encontram juntos numa mesma zona da cidade desde o último quartel do séc. XIX, desaguando um no outro: a Avenida 24 de Julho que arriba à Praça do Duque da Terceira. A primeira nasceu como Rua em 13 de setembro de 1878 e em 22 de outubro de 1928 passou a Avenida, enquanto a Praça Duque de Terceira passou a ser a nova denominação da Praça dos Remolares ou Romulares pelo Edital municipal de 28 de dezembro de 1889.

Freguesias das Avenidas Novas e de Arroios
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua de Joaquim Gonzalez Garrido

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua do Garrido deve o seu nome a Joaquim Gonzalez Garrido, proprietário e construtor das casas iniciais deste arruamento, também conhecido como Bairro Garrido, um bairro operário da segunda década do século XX.

No séc. XIX  a Quinta do Garrido surge já em documentos municipais e em 1911, na planta de Silva Pinto a Rua do Garrido aparecia identificada nas terras da Quinta do Bacalhau ou seja, no ano em que em 14 de outubro, Joaquim Gonzalez Garrido teve licença concedida pela Câmara  para construir uma parte do Bairro Operário da Quinta do Bacalhau, no prolongamento da Rua Barão de Sabrosa, que ficou conhecido como Bairro Garrido. Depois, por escritura lavrada em 19 de junho de 1920 a Rua do Garrido foi municipalizada, sendo uma das condições impostas pelos cedentes que a Câmara mantivesse a designação de Rua do Garrido e assim ficou, como se pode verificar através do Edital municipal de 17 de outubro de 1924 que oficializou o topónimo.

De Joaquim de Jesus Gonzalez Garrido (1874-1937) sabemos que era um proprietário, referido em documentos municipais por ceder gratuitamente à edilidade terreno para alinhamento da Rua Barão de Sabrosa (1912), por trocar terrenos para prolongamento dessa mesma Rua Barão de Sabrosa (1915), assim como por ceder terreno na então Azinhaga do Areeiro (1920) ou vender o jazigo n.º 4451, do 1.º Cemitério, a David Sul da Costa (1931).

A artéria que o perpetua na toponímia de Lisboa sofreu no entanto, alguns revezes. A partir de 1939, por via do prolongamento da Alameda Dom Afonso Henriques – desde a Rua Carvalho Araújo até ao Alto do Pina- , bem como da construção da Fonte Monumental conhecida como Fonte Luminosa, desapareceu parte da Rua Garrido, tendo a  filha e o genro de Joaquim Gonzalez Garrido recebido uma indemnização de 292 500$00 pela expropriação. Por ironia, o troço da Rua do Garrido que não foi demolido e que chegou aos nossos dias foi o que não foi edificado por Joaquim Garrido e que encontramos a ligar a Rua José Acúrsio das Neves à Rua Egas Moniz, na freguesia do Areeiro.

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)