Da Travessa do Pintor à Rua do Hospital de Dona Estefânia de 1871

Planta de 1879, do Engº Ressano Garcia, com a Rua do Hospital de Dona Estefânia
(Imagem: © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

A  edilidade lisboeta após proceder a melhoramentos na Travessa do Pintor, que a levaram a considerar essa «uma das melhores servidões de Lisboa», solicitou ao Governo Civil de Lisboa que lhe alterasse a denominação para Rua do Hospital de Dona Estefânia, o que sucedeu pelo Edital do Governo Civil de 25 de novembro de 1871, considerando a proximidade ao primeiro Hospital construído de raiz em Lisboa, especificamente para esse fim.

Em memória da rainha Dona Estefânia o rei Dom Pedro V iniciou a construção do Hospital da Bemposta em 1860 mas como faleceu no ano seguinte foi o seu irmão, o rei Dom Luís I, que assegurou a continuidade da obra e a inauguração do Hospital a 17 de julho de 1877, dia da morte de Dona Estefânia, vítima de angina diftérica. Este Hospital foi erguido na quinta do paço real da Bemposta, chamada Quinta Velha, então nos arredores da cidade.

A rainha Estefânia Frederica Guilhermina Antónia (Alemanha/1837 – 1859/Lisboa), que se casara com D. Pedro V em 1858, desejou muito fazer erguer um hospital para crianças, após ter ficado impressionada numa visita ao Hospital de São José, num período de epidemias de cólera e febre amarela, com a junção de adultos e crianças nas mesmas enfermarias. Dona Estefânia ofereceu o seu dote de casamento para que fosse criada uma enfermaria apenas pediátrica. O rei português pediu ajuda a diversas casas reais europeias  para cumprir esse desejo de criar em Lisboa um hospital pediátrico moderno e o traçado escolhido foi o desenhado por Humbert, arquiteto da casa real inglesa, numa decisão da comissão a que o rei presidia e constituíra com Bernardino António Gomes (médico real, lente da Escola Médico-Cirúrgica e presidente da Sociedade de Ciências Médicas), os médicos Barral, Kessler e Simas, o Conde da Ponte ( vedor da casa real portuguesa) e o militar e matemático Filipe Folque .

Em 1879, dois anos após a inauguração do Hospital de Dona Estefânia, a Câmara Municipal de Lisboa presidida por Rosa Araújo entendeu que a Rua do Hospital de Dona Estefânia com todo o seu prolongamento até às Portas da Cidade seria um único arruamento com o topónimo Rua de Dona Estefânia, conforme Edital municipal de 22 de agosto de 1879.

Mais tarde, também em Arroios,  por proximidade à Rua, foi atribuído o Largo de Dona Estefânia, através do Edital municipal de 19 de abril de 1893.

O Hospital de Dona Estefânia
(Foto: Ferreira da Cunha, sem data © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

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Do Beco do Conde de Sampaio à Travessa do Marquês de Sampaio

(Imagem: © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

O Edital do Governo Civil de Lisboa de 10 de outubro de 1871 mudou o nome do Beco do Conde de Sampaio para Travessa do Marquês de Sampaio, mudando não só a categoria do arruamento como o título do nobre que lhe dava nome e que falecera 30 anos antes.

A Travessa do Marquês de Sampaio, que se estende no espaço que medeia de  junto ao nº 34 da Rua da Boavista até junto ao nº 96 da Rua da Boavista, hoje na Freguesia da Misericórdia, perpetua o 2.º conde de Sampaio e desde 1834 também 1.º Marquês de Sampaio, que no local possuía residência.

O homenageado é  Manuel Maria Baltasar (ou Manuel António em outras fontes) de Sampaio Melo e Castro Moniz e Torres de Lusignano (Lisboa/06.01.1762-29.09.1841/Lisboa), o 2º Conde de Sampaio que  por decreto da rainha D. Maria II de 1 de dezembro de 1834 recebeu o  título de Marquês de Sampaio, também grafado como Marquês de São Paio. Era filho de António José de Sampaio Melo e Castro, genro do Marquês de Pombal por casamento com Teresa Xavier Violante Eva Judite de Daun. Este 2º Conde e 1º Marquês de Sampaio casou em 1783 com D. Joaquina Maria Rita José Estáquio de Melo (1765 – 1785) e em segundas núpcias, em 1787, com Maria Inês de Albuquerque Mendonça Furtado (1763 – 1815).

O 2.º Conde e 1.º Marquês de Sampaio, aluno do Colégio dos Nobres e militar, aos 45 anos ficou em Lisboa como membro do Conselho de Regência de 1807, para governar Portugal face à retirada da Corte para o Brasil. Aliás, com data de 4 de dezembro desse mesmo encontramos o registo do Aviso de Manuel António de Sampaio Melo e Castro Moniz e Torres de Lusignano, como secretário de Estado dos Negócios da Guerra, a informar que os governadores do reino determinaram que o Senado da Câmara de Lisboa suspendesse o acompanhamento da procissão proveniente da Sé de Lisboa. Mais tarde, foi vice-presidente da Junta Provisional do Governo Supremo do Reino constituída na sequência da Revolução Liberal do Porto de 24 de agosto de 1820 e presidente da Secção de Convocação das Cortes da Junta Preparatória das Cortes. Após a eleição das Cortes foi escolhido para presidente do Conselho de Regência de 1821 pelas Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes para governar até à chegada a Portugal do rei D. João VI, cargo semelhante ao de Primeiro-Ministro nos nossos dias, que exerceu de 27 de janeiro a 5 de julho desse ano.

Participou na Belfastada de 1828 e foi obrigado a procurar asilo na emigração liberal em Inglaterra. Após a estabilização do regime liberal, foi eleito deputado, nomeado par do Reino e recebeu o título de Marquês.

Freguesia da Misericórdia

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Do Beco à Travessa da Silva do Diogo da Silva que ali aforou terras no séc. XVI

 

O Edital do Governo Civil de Lisboa de 5 de abril de 1867 que tornou o Beco em Travessa da Silva

Próximo da Sé de Lisboa e na entrada de Alfama,  um Beco passou a Travessa pelo Edital do Governo Civil de Lisboa de 5 de abril de 1867, a pedido de moradores locais. Foi o Beco da Silva que passou a Travessa da Silva, então na Freguesia de São João da Praça, que havia sido criada em 1209. Vinte e seis anos depois, em 1893, o Edital municipal de 6 de novembro tornou-a Travessa do Chafariz de El-Rei e é assim que hoje ainda a encontramos na Freguesia de Santa Maria Maior.

Este Beco do Silva que passou a Travessa da Silva tudo indica ser um topónimo referente a uma pessoa conhecida no lugar e não o arbusto silva. Os documentos  apontam para um Diogo da Silva que aforou terras naquele local no séc. XVI. Segundo Luís Pastor de Macedo, «nos meados do séc. XVI a travessa era a rua de Diogo da Silva» e é assim que aparece no Sumário de Lisboa de 1551 de Cristóvão Rodrigues de Oliveira. Norberto de Araújo afirma que «Esta Travessinha, em escadaria, do Chafariz de El-Rei foi chamada, no tempo velho, Beco da Silva;  a razão toponímica tradicional esteve no nome do dono da tal casa [Diogo da Silva], trocado que foi, por corruptela o ‘do’ em ‘da’» e esclarece também que « Estas casas, por trás do Chafariz, e as que se seguem à direita da Travessa do Chafariz de El-Rei, foram, na base primitiva desaparecida, as do Marquês de Angeja – a que atrás me referi – (primeira metade do século XVIII), mas no século XVI, uma parte delas havia pertencido a um Lopo de Albuquerque de cujos herdeiros a Câmara a houve um tanto forçadamente e outra parte a um tal Diogo da Silva, que acabou por tomar de fôro as da Câmara.»

Pastor de Macedo elucida ainda que «juntamente com a travessa de S. João da Praça, talvez se tivesse chamado em 1565 travessa do Chafariz de El-Rei. Em 1573 vêmo-la designar por ‘travessa que vem da porta de S. Pedro para o chafariz’ [e dá-nos como sua fonte para este efeitos os livros dos Prazos da freguesia de S. João da Praça, caixa 16/15]. Depois, não sabemos desde quando, foi a rua e o beco da Silva» e refere que assim surge no Livro I de baptismos de S. João da Praça dos anos de 1714 e 1717, sendo ainda como Beco da Silva que está registada na Freguesia de  São João da Praça nas memórias paroquiais de 1755, assim como nas plantas da remodelação paroquial de 1770. Depois, já no séc. XIX, o Edital do Governo Civil de Lisboa de 1867 tornou a artéria em Travessa da Silva e o Edital municipal de 1893 voltou a alterar a denominação, desta feita para Travessa do Chafariz de El-Rei.

A primeira referência documental a este chafariz data de 1487, de acordo com Maria Calado, que todavia assinala que também se pode registar o seu funcionamento desde épocas mais recuadas. O Chafariz d’El-Rei surge ainda mencionado no Sumário de Lisboa de 1551. O Chafariz também foi topónimo para a Porta ou Postigo do Chafariz de El-Rei, que depois foi o  Beco das Moscas e ainda mais tarde a  Travessa de São João da Praça.

A Travessa do Chafariz de El-Rei em 1967
(Foto: Armando Serôdio, © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

 

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O Beco de S. Francisco e o Largo da Achada e a passagem do Beco do Esfola Bodes ao da Boa Vista

Beco de São Francisco (na Achada ) em data entre 1898 e 1908
(Foto: Machado & Souza, © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

O Edital do Governo Civil de Lisboa de sábado 9 de setembro de 1871, integrou parte do Beco de São Francisco no Largo da Achada e continuaram a existir ambos os topónimos que hoje são parte da Freguesia de Santa Maria Maior. Pelo mesmo Edital, o Governo Civil de Lisboa mudou o Beco do Esfola Bodes para Beco da Boavista, no território da hoje Freguesia da Misericórdia.

O Beco de São Francisco e o Largo da Achada

O Beco de São Francisco, que liga o Largo da Achada à Rua das Achada, teve a sua parte compreendida na área do Largo da Achada (lado Sul) incorporada nesse mesmo Largo por Edital do Governo Civil de Lisboa de 9 de setembro de 1871. O olisipógrafo Luís Pastor de Macedo defende que o beco é ainda mais antigo porque «Vemo-lo em 1770 – “Terreirinho de S. Francisco (actual largo da Achada) e seu beco [Róis de desobrigas da freguesia de S. Cristóvão] – mas é de presumir que já existisse muitíssimos anos antes». Registe-se que na planta da remodelação paroquial de 1770, surge na freguesia de São Cristóvão o Terreirinho de São Francisco e o beco da «Axada», enquanto na Freguesia de São Lourenço se regista a «Rua da  Axada» que já Cristóvão Rodrigues de Oliveira menciona no seu Sumário de Lisboa em 1551 como arruamento da Freguesia de S. Cristóvão. Também Norberto de Araújo referiu que «Este sítio da Achada, que foi arrabalde da cidade muçulmana, deve o seu nome, muito antigo e característico, pois já é citado em 1554, ao facto de aqui se encontrar uma pequena planície ou descanço da encosta. “Achada”, com efeito, é uma contracção de “achaada”, terra chã.»

Sobre São Francisco, encontramos na memória paroquial de São Cristóvão, assinada pelo pároco Joaquim Salter de Mendonça em 10 de setembro de 1758, a informação de que a igreja tinha oito altares, estando no corpo da igreja, o altar do Crucificado, onde surgia uma Sagrada Família, e o altar de São Miguel, ladeado por São Sebastião e São Francisco Xavier. Todavia, o Beco de São Francisco pode fixar antes a memória ou a propriedade  do antigo convento de São Francisco da Cidade, influente centro cultural, religioso e social da Lisboa de vários séculos,  que tendo começado numa ermida construída pelos franciscanos em 1217, localizado no Monte Fragoso acabou por dar o nome de São Francisco a essa colina e a diversos topónimos locais.

O Beco do Esfola Bodes em 1856, na cartografia de Filipe Folque

Do Beco do Esfola Bodes ao Beco da Boa Vista de 1871

O mesmo Edital do Governo Civil de Lisboa de sábado 9 de setembro de 1871 alterou a denominação de Beco do Esfola Bodes para Beco da Boa Vista, por referência à proximidade à Rua da Boavista e provavelmente para tornar mais urbano um topónimo rural e violento. Recorde-se que Câmara Municipal de Lisboa em 1834 proibira também o lançamento de cadáveres de cavalos ao Tejo, assim como depois, entre 1847 e 1872 foram naquela zona construídos prédios no seguimento do edifício da Companhia do Gás (de 1846) e foi aberta a Rua da Moeda – antes conhecido como Boqueirão da Moeda, por referência à Casa da Moeda ali instalada desde 1720 -, fundado o Instituto Industrial em 1852 e erguida nova casa da Moeda entre 1889 e 1891. Recorde-se que a Praia da Boa Vista só teve o seu aterro a partir de 1855, sobre o qual nasceu a Praça de D. Luís e a Avenida 24 de Julho.

Se recuarmos à Lisboa de 1551, o relato de Cristóvão Rodrigues de Oliveira apenas  nos menciona a Rua direita da boa vista até à cruz na Freguesia de Nª Sª dos Mártires, assim como o Vale das Chagas e a Calçada da Boa Vista na Freguesia do Loreto. Mas cerca de duzentos anos depois, por uma descrição corográfica das paróquias no dia do terramoto de 1755 já encontramos o «Beco do esfollabodes» tal como a «rua da boavista» na Freguesia de São Paulo, junto à praia da Boavista. E na memória paroquial após o terramoto, em 22 de dezembro de 1759, o vigário de São Paulo, Francisco Xavier Baptista, confirma a existência da rua direita da Boavista e do Becco do Esfolla Bodes, que mesmo uns vinte anos depois davam para uma praia junto ao Tejo. O Beco do Esfola Bodes é ainda o que aparece na cartografia de Filipe Folque de 1856 até que depois do Edital de 1871, a cartografia de Francisco Goullard de 1883 já refere o Beco da Boavista.

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Da Rua dos Galegos à Rua do Duque e da Travessa dos Burros à da Boa Morte

A Rua dos Galegos na planta de 1858 de Filipe Folque

O Edital do Governo Civil de Lisboa da segunda-feira dia 5 de agosto de 1867, alterou a denominação de dois topónimos em dois locais diferentes da cidade: a Rua dos Galegos tornou-se a Rua do Duque e a Travessa dos Burros passou a ser Travessa da Boa Morte.

Da Rua dos Galegos à Rua do Duque

A Rua do Duque, hoje integrada na Freguesia de Santa Maria Maior, foi a Rua da Condessa de Cantanhade, a Rua de D. João Coutinho, a Rua do Galegos e  desde 1867, a Rua do Duque. O olisipógrafo Luís Pastor de Macedo, a este propósito refere que  «A Rua da Condessa de Cantanhede, freguesia do Sacramento, (…) é a actual Rua do Duque, depois de ter sido também designada Rua de D. João Coutinho e Rua dos Galegos: «Um fidalgo de primeira plano começa a aglomerar propriedades. É o Conde de Cantanhede, D. Pedro de Meneses, Alferes-mor de D. Manuel, senhor de Tancos e de Atalaia. Compra as casas que Rui de Sousa Cid adquirira a Leonardo Àlvares e, em breve o veremos adquirir outras propriedades próximas, na rua que ia do Postigo para o Carmo, e que veio a chamar-se mais tarde, pelo nome da sua terceira mulher, a Condessa de Cantanhede D. Guiomar. Foi assim que nasceu a rua, sucessivamente chamada de D. João Coutinho, dos Galegos, e do Duque». 

A título de exemplo para situar a época histórica de cada topónimo, recordamos que a Rua da Condessa de Cantanhede aparece num documento de 26 de novembro de 1596, como a morada do barbeiro Manuel Fernandes, enquanto fiador de Simão Lopes que tinha a obrigação de vender 500 carneiros no açougue. Em 1704, surge como Rua da Condessa ao Carmo, num plano de obras de uma casa. Em 13 de outubro de 1739 já deparamos com uma vistoria na Rua dos Galegos. De 1812 a 1848 aparece como Rua da Condessa em alguns documentos municipais,  mesmo se em 1836 e 1838 são apontadas demolições de prédios e de um pardieiro na Rua dos Galegos tal como em 1858, na planta de Filipe Folque, se regista a Rua dos Galegos.

Na data de 5 de agosto de 1867, para além de alterar a Rua dos Galegos para Rua do Duque, o Governo Civil de Lisboa também atribuiu o topónimo Calçada do Duque. Em ambos os casos, a homenagem é a um antigo proprietário local, o Duque de Cadaval.

A Travessa dos Burros na planta de 1856 de Filipe Folque

Da Travessa dos Burros à Travessa da Boa Morte

A Travessa dos Burros junto à Rua Direita da Boa Morte, está já assim registada em agosto de 1856 no levantamento cartográfico de Filipe Folque. Cerca de onze anos depois, em fevereiro de 1867, ainda deparamos com o topónimo Travessa dos Burros através do traçado de um prédio que José Bernardo Ferreira quis construir no n.º 7 e 8, nesta zona que ainda era amplamente rural. Nesse mesmo ano, em agosto, o Edital do Governo Civil de Lisboa de dia 5 alterou a denominação para Travessa da Boa Morte, por referência ao Convento da Congregação do Senhor da Boa Morte e Caridade, construído em 1736 e demolido em 1835.

Por último, o Edital municipal de 4 de dezembro de 1882 voltou a modificar o nome da Travessa da Boa Morte para Travessa do Possolo, tal como a Rua da Boa Morte ficou como Rua do Possolo, e esta denominação é a que ainda hoje se apresenta nesta artéria da Freguesia da Estrela.

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Da Rua do Lambaz à Rua de Belver do Alto de Santa Catarina

Rua de Belver, em data entre 1898 e 1908
(Foto: Machado & Souza, © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

No Alto de Santa Catarina, a Rua do Lambaz passou a denominar-se Rua de Belver por Edital do Governo Civil de 16 de abril de 1867, sendo justificado no próprio Edital que tal sucedia por solicitação de «moradores da rua do Lambaz, freguesia de Santa Catharina, districto do Bairro da mesma denominação, o desejo que teem de que á mesma rua seja restituido o nome de Belver, que teve antigamente, e de que fôra desapossada por motivos que se ignoram».

A Rua do Lambaz está registada nas plantas e descrições da freguesia de Santa Catarina de acordo com a remodelação paroquial de 1770 como Rua do Lambas e Rua do Lambaz, assim como mais tarde surge na planta de 1856 de Filipe Folque, sendo a sua origem derivada de uma alcunha de um morador da zona segundo Júlio de Castilho, até o Governador Civil de Lisboa por este Edital de 1867 passar a identificá-la com o nome do sítio: Belver. O olisipógrafo  Gomes de Brito afirma que «Antigamente chamada “Rua do Lambaz”, alcunha, veja Castilho, Tomo V, e substituída esta denominação pela actual, a instâncias do conselheiro José Silvestre Ribeiro, quando adquiriu a morada de casas em que residiu e faleceu, nº de polícia 12. Ao Monte de Santa Catarina, antes da fundação da igreja que o coroava, se chamou o monte de Belver, pitoresca denominação de todo o ponto conforme ao excelente panorama que dali se disfruta. José Silvestre Ribeiro aproveitou, pois, e mui naturalmente, a circunstancia, para ver deferida a sua pretensão.»

Norberto de Araújo , como olisipógrafo avançou que «O Alto de Santa Catarina, designação que foi simultânea com a de Belver, mas resistiu, deve a designação à circunstância de neste sítio – exactamente onde está êsse Palacete n.º 2, com pátio guarnecido de gradeamento – ter existido a Igreja paroquial de Santa Catarina do Monte Sinai» e acrescenta que «No Alto dêste cabeço havia, como atrás se disse, desde o século XV uma enorme Cruz de madeira, que servia de guia aos mareantes» que ficou na toponímia como Rua da Cruz de Pau (depois, Rua Marechal Saldanha). O local foi também denominado Pico da Boavista, Pico ou Monte de Belver ou Belveder.

No ano anterior ao novo topónimo dado pelo Governo Civil de Lisboa, entre 28 de março e 5 de abril de 1866, Luís de Almeida de Albuquerque (Serpa/02.06.1819 – 03.03.1906) apresentou à Câmara para autorização  o traçado do prédio que acabou por edificar na rua do Lambaz, n.º 5 onde depois residiu. Por Edital municipal de 20 de julho de 1920, a Rua de Belver passou a designar-se Rua Dr. Luís de Almeida e Albuquerque. Norberto de Araújo relata ainda que Luís de Almeida e Albuquerque foi proprietário e diretor do Jornal do Comércio, que também sede nesta artéria.

Freguesia da Misericórdia

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O Largo do Correio Mor de 1867

O Largo do Correio Mor e zona envolvente, numa planta municipal de 1918

O Largo do Correio Mor foi um topónimo oficialmente atribuído por Edital do Governo Civil de 20 de fevereiro de 1867, por sugestão do Conde de Penafiel dirigida ao Governo Civil de Lisboa «para que em consequência das obras e embelezamentos recentemente feitos no local que fica fronteiro ao seu palácio para a parte da Rua Nova de São Mamede, distrito do Bairro do Rossio, seja confirmada ao mesmo local a denominação de Largo do Correio Mor, pela qual era conhecida de tempos antigos».

O serviço de Correio público foi estabelecido por D. Manuel I que em 1520 mandou passar carta de Correio Mor a Luís Homem, um cavaleiro de sua casa. Depois, durante os 191 anos que vão de 1606 a 1797, o ofício de Correio Mor do Reino foi um privilégio dado à família Gomes da Mata.  Em 1797, os serviços de Correio passaram para a alçada da Coroa e foi extinto o ofício de Correio Mor do Reino, pelo que foram dadas várias compensações ao 8.º e último Correio Mor, Manuel José da Mata de Sousa Coutinho, entre as quais o título de Conde de Penafiel, sendo que o seu palácio, o Palácio Penafiel, está localizado nas traseiras deste Largo do Correio-Mor.

O Largo do Correio-Mor está delimitado como arruamento entre a Travessa da Mata (artéria de 1864 que homenageia o Conde de Penafiel usando o seu apelido), a Rua de São Mamede (novo nome da Rua Nova de São Mamede dado por Edital municipal de 08/06/1889) e a Calçada do Conde de Penafiel (em 1858 era ainda denominada como Calçada do Monturo de São Mamede mas já surge com esta denominação em documentação municipal de 1867). Nas proximidades, entre a Rua de São Mamede e a Rua de Santo António da Sé, subsiste também na toponímia a Calçada do Correio Velho, artéria onde de 1606 até 1797 esteve instalado o edifício do serviço de correio, privilégio da família Gomes da Mata, pelo que antes do Terramoto de 1755 se denominava Calçada do Correio. A catástrofe destruiu o prédio do Correio e de 1801 a 1881 o serviço foi instalado no Palácio Marim-Olhão, no nº 38 da Calçada do Combro pelo que este palácio ficou também conhecido como Palácio do Correio-Mor.

Freguesia de Santa Maria Maior

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