A Praça Carlos Fabião, militar de Abril

Carlos Fabião falando às tropas em parada no Regimento de Comandos, em 3 de fevereiro de 1975                                                                                                              (Foto: Associação 25 Abril)

Carlos Fabião foi um militar de Abril, daquela geração de militares que teve o mérito de conseguir ajustar contas com a história e desempenhar um importante papel na constituição de um Portugal democrático, estando assim consagrado numa praça lisboeta muito próxima da Avenida das Forças Armadas, também ela uma homenagem aos Capitães de Abril.

Dez anos após o seu falecimento, pelo Edital municipal de 07/04/2016, a edilidade lisboeta perpetuou o nome de Carlos Fabião na Praça Projetada à Avenida das Forças Armadas (Loteamento EPUL), delimitada entre a Rua da Cruz Vermelha e as Ruas Mário Cesariny e Adriano Correia de Oliveira, com a legenda «Militar de Abril/1930 – 2006».

Freguesia das Avenidas Novas – Placa Tipo II (Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

Carlos Alberto Idães Soares Fabião (Lisboa/09.12.1930 – 02.04.2006/Lisboa) que nasceu lisboeta no Bairro da Graça, foi o último Governador da Guiné, nomeado pela Junta de Salvação Nacional após o 25 de Abril e, até 10 de setembro de 1974, data em que Portugal reconheceu a independência da Guiné-Bissau na sequência do Acordo de Argel. Fabião fizera 4 Comissões de serviço na Guiné e conhecia a população, a ponto de ter aprendido a cultura da etnia Nalú que era a minoritária.

Ainda antes do 25 de Abril, em maio de 1973, Carlos Fabião com Ramalho Eanes, Firmino Miguel e Dias de Lima angariaram outros militares para o movimento de contestação ao Congresso dos Combatentes que Vasco Lourenço considerou a pré-conspiração que levou ao 25 de Abril.  E em 17 de dezembro de 1973, numa aula do curso de majores, no Instituto de Altos Estudos Militares, o então major Carlos Fabião, conforme acordado previamente com Vasco Lourenço, logo no início da primeira aula do dia denunciou publicamente a preparação de um golpe de estado de extrema-direita, conduzido por quatro generais da ditadura – Kaúlza de Arriaga, Luz Cunha, Silvino Silvério Marques e Troni – visando afastar os generais Costa Gomes e António de Spínola, o que lhe valeu a punição de ser transferido para o D.R.M. de Braga e com uma espécie de residência fixa, pelo que era aí que se encontrava a prestar serviço no dia 25 de Abril de 1974, embora tenha participado em reuniões preparatórias do Movimento dos Capitães.

Solidário e amante da Liberdade, o então brigadeiro Fabião foi também o Chefe do Estado Maior do Exército, na sequência do 28 de setembro, escolhido pelos militares do Exército para integrar a Junta de Salvação Nacional, e por inerência o Conselho de Estado. Foi então graduado em general e eleito em Assembleia do MFA para substituir Jaime Silvério Marques no cargo de Chefe do Estado-Maior do Exército. Após o 11 de março de 1975 foi extinta a Junta, passando os seus membros a partir do dia 14 a integrar o novo órgão designado como Conselho da Revolução, no qual Carlos Fabião se manteve até dois dias após o 25 de novembro, sendo substituído pelo General Ramalho Eanes e regressado ao posto de coronel. Neste intervalo de tempo, do 11 de março ao 25 de novembro, Carlos Fabião atravessou o período mais turbulento do processo revolucionário, procurando conciliar as fações e passou a ser presença assídua nos Telejornais. Em agosto de 1975, chegou a ser convidado formalmente pelo Presidente da República, General Costa Gomes, para substituir Vasco Gonçalves e formar o VI Governo Provisório, tendo como vice-primeiro-ministro Melo Antunes, mas recusou.

Fabião que frequentou o Liceu Gil Vicente e  a Escola do Exército, após casar em 1954 com Maria Margarida Cecílio Gonçalves, de quem teve 3 filhos, assentou morada de família no Largo de Santa Marinha. O seu funeral saiu do Grémio Lusitano, já que Carlos Fabião fora iniciado sob os auspícios de Fernando Vale, com o nome de Gomes Freire e chegou a ser Grão-mestre Adjunto do Grande Oriente Lusitano.

Carlos Fabião foi agraciado com a Ordem da Liberdade (2005) no grau de Grande-Oficial e a título póstumo, a Associação 25 de Abril, de que havia sido presidente da Mesa da Assembleia Geral, fê-lo seu Sócio de Honra, tal como a Assembleia da República aprovou por unanimidade, um voto de pesar pela morte deste militar de Abril.

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

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Do Sítio do Casalinho à Rua do Sítio do Casalinho à Ajuda

Rua do Sítio ao Casalinho da Ajuda – Freguesia da Ajuda
(Foto: Paulo Catrica, 1998, Arquivo Municipal de Lisboa)

Uma moradora da Ajuda solicitou a alteração do topónimo Sítio do Casalinho após o 25 de Abril mas só em 1978 houve uma modificação tendo então esta artéria sido fixada, pela primeira vez pela Câmara de Lisboa, como Rua do Sítio ao Casalinho da Ajuda.

Em 1974, Amélia de Assunção Duarte solicitou à edilidade a alteração do topónimo Sítio do Casalinho tendo a Comissão Municipal de Toponímia emitido o parecer de «que deverá aguardar-se maior manifestação popular no sentido da pretendida alteração». Em 1975, também Maria José Gonçalves pediu a alteração de outro topónimo da Freguesia da Ajuda, o Casalinho da Ajuda e o parecer da Comissão foi de «Aguardar-se maior manifestação popular no sentido da pretendida alteração».

O nomes na base do topónimo– Sítio e Casalinho – denotam a origem rural deste local da Ajuda. As primeiras casas aí edificadas datam de 1907, junto ao portão da Tapada da Ajuda e até ao final da primeira metade do século XX o Casalinho era um pequeno aglomerado de casas rodeado de terras de cultivo, de Monsanto, da Tapada da Ajuda e das terras e pedreira da empresa de materiais de construção F.H. D’Oliveira.

Em 1960, em consequência das obras da primeira ponte sobre o Tejo, várias famílias foram desalojadas e o município encaminhou-as para barracas de madeira provisórias no Casalinho da Ajuda, onde permaneceram até 1970, altura em que essas famílias receberam as primeiras chaves das casas para pobres do Bairro do Casalinho da Ajuda, construído para esse efeito.

Hoje o Casalinho da Ajuda e o Sítio do Casalinho, quase na orla do Parque Florestal de Monsanto, estão próximos do Palácio da Ajuda e do Pólo Universitário do Alto da Ajuda. O Sítio do Casalinho, que também era vulgarmente conhecido como Calçada do Casalinho, foi fixado pelo Edital de 16 de agosto de 1978 como Rua do Sítio ao Casalinho da Ajuda.

Neste arruamento está sediada a Liga Portuguesa dos Deficientes Motores. Em 1975, a Câmara Municipal de Lisboa cedeu-lhe o terreno para a construção da sede, que se iniciou em 1979, tendo sido inaugurada em 1 de outubro de 1986.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

O pedido de alteração da Calçada da horta do Cabra

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

Alguns moradores  da Calçada do Cabra solicitaram a alteração do topónimo após o 25 de Abril mas por ser um topónimo tradicional não foi modificado.

Logo na 2ª reunião da Comissão Municipal de Toponímia após o 25 de Abril, em 20 de dezembro de 1974, surgiu uma carta de vários moradores da Calçada do Cabra solicitando a alteração do topónimo, tendo a Comissão pedido ao seu vogal Fernando Castelo Branco um parecer sobre a origem do topónimo. Na 4ª reunião, em 5 de março de 1975, deu então o seu parecer final: «Trata-se de um topónimo tradicional que não deve, por isso, ser alterado».

Freguesia da Misericórdia – Placa Tipo II
(Foto: Mário Marzagão, 2011)

A Calçada do Cabra, confinada entre a Rua de São Boaventura e a Rua Nova do Loureiro, deriva do nome ou alcunha de um proprietário do local que Júlio de Castilho mencionou na sua Lisboa Antiga – O Bairro Alto da seguinte forma: «Por aí, era no século XVIII, sabe Deus desde quando, a Horta do Cabra. Hoje a Travessa da Horta [A Travessa da Horta liga a Rua da Academia das Ciências à Rua Eduardo Coelho], comunicando o do Areu com a dos Cardais (modernamente denominada Eduardo Coelho) é o vestígio derradeiro do campo de nabiças e feijoais do antigo Cabra, sujeito cuja personalidade se sumiu na voragem dos Invernos».

Acrescente-se que segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo, a Travessa da Horta seria do começo do séc. XIX e, «Chamou-se, antes, a Travessa do Cabra, por motivo da existência ali de umas casas, com horta, de um sujeito daquela alcunha ou apelido». Fica a dúvida se as terras do Cabra se estendiam desta Travessa até à Calçada do Cabra ou não. Contudo, nas memórias paroquiais anteriores ao Terramoto de 1755 da freguesia de Nª Srª das Mercês é referida a Horta do Cabra.

Certo é encontrarmos o topónimo Calçada do Cabra no traçado de alteração de um prédio com os nºs 3 e 4, aprovado em 19 de maio de 1852, assim como em 1856 no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa, de Filipe Folque.

Pelo menos de 1898 a 1924 lá existiu a Tipografia do Dia ou Oficina Tipográfica ou Typographia Calçada do Cabra.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

A Travessa do Convento de Santa Mónica e da Cadeia das Mónicas

Freguesia de São Vicente
(Foto: Sérgio Dias)

A Travessa das Mónicas, topónimo derivado de um convento quinhentista convertido em cadeia, recebeu após o 25 de Abril um requerimento para que o topónimo fosse alterado mas a Comissão Municipal de Toponímia manteve o princípio de não alterar topónimos tradicionais, salvo « haja maior manifestação popular tendente à alteração toponímica».

Na reunião de 20 de dezembro de 1974, a Comissão Municipal de Toponímia analisou um requerimento de António Ferreira de Oliveira solicitando que o topónimo Travessa das Mónicas fosse alterado e emitiu o parecer de que «entende que se trata de um topónimo tradicional que, em princípio, não deve ser alterado. No entanto, admite que possa vir a reconsiderar, desde que haja maior manifestação popular tendente à alteração toponímica».

Freguesia de São Vicente – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

A Travessa das Mónicas, entre a Rua de São Vicente e o Largo da Graça, deve o seu nome ao Convento de Santa Mónica ali fundado em  1585/1586 por D. Maria Abranches, em propriedade de seu pai D. Álvaro de Abranches –  capitão-mor de Azamor -,destinado às religiosas eremitas descalças de Santo Agostinho. Sofreu danos consideráveis com o Terramoto de 1755 mas foi reconstruído. Após a extinção das ordens religiosas de  1834 e com a morte da última religiosa em 1870 o Estado instalou no Convento a Casa da Correcção dos Rapazes em 1871, que ao ser transferida para Caxias em 1901 deu lugar a uma casa similar para raparigas, que em 1912 passaram para o Colégio de São Patrício à Costa do Castelo, dando espaço para cinco anos mais tarde, em 1917, passar a ser uma cadeia para mulheres, que aliviasse a sobrelotação da Cadeia do Aljube, que ficou conhecida como Cadeia das Mónicas e assim funcionou até 1953, quando a  população prisional foi transferida para a então nova Cadeia Central de Mulheres em Tires. A partir de 1961 voltou a ser usada como a parte feminina da Cadeia Comarcã de Lisboa, passando em 2005 para os reclusos em Regime Aberto Voltado para o Exterior (RAVE) do Estabelecimento Prisional de Lisboa. No decurso de todas estas modificações na população que foi albergada no edifício manteve-se o painel de azulejos  do século XVIII representando Santa Mónica.

A poeta Sophia de Mello Breyner Andresen e o seu marido, Francisco Sousa Tavares, ambos presentes na toponímia de Lisboa, residiram nesta artéria.

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)

Os novos 26 topónimos dados de 25 de Abril de 1974 até às eleições autárquicas de 1976

O Bairro das Mulheres de 1976, com mais topónimos em 1978 – Freguesia de Carnide

Após o 25 de Abril, a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa deu parecer favorável à atribuição de 23 novos topónimos que assim se estabeleceram em  23 arruamentos novos, a partir dos pareceres que deu no período compreendido entre 5 de março de 1975 a 22 de julho de 1976, ou seja, antes das primeiras eleições autárquicas pós 25 de Abril, em 12 de dezembro de 1976.

Na reunião de 5 de março de 1975 , acolheu a sugestão da Liga dos Bombeiros Portugueses para a atribuição de uma Avenida dos Bombeiros Voluntários mas antes como Avenida dos Bombeiros, já que «para não ferir susceptibilidades, deverá prestar-se homenagem conjunta.» Também avançou com o Largo Maria Isabel Aboim Inglês,  na «Praceta da Rua de Pedrouços, situada nas proximidades do local onde viveu a falecida educadora» para evitar alterar  o topónimo Rua de Pedrouços – onde vivera a homenageada- , ou a Rua Nova do Loureiro – onde nascera -, conforme propunha o Movimento Democrático das Mulheres Portuguesas. Ainda nesta reunião concordou-se com uma alteração: a da Rua António Ferro para Rua Luís de Freitas Branco.

Em 22 de julho de 1975, a reunião seguinte, a partir do pedido dos moradores no Impasse I à Azinhaga da Fonte, a Comissão sugeriu para o efeito que ficasse denominada como Rua Julião Quintinha.  De igual forma, foi favorável ao topónimo Rua da República da Bolívia,  para retribuir  o arruamento Calle República de Portugal dado pela Municipalidade de La Paz, assim como com o Largo Castro Soromenho para dar resposta à Escrivania municipal que solicitava nomenclatura própria para o largo adjacente à Rua Cidade de Tete. Foram ainda indicados mais  7 novos topónimos: a Avenida Afonso Costa, a Avenida Bernardino Machado e a Praça Machado Santos (que não foram executados no local sugerido), a Rua Alfredo Guisado, a Rua Ferreira de Castro e a Rua da Horta Nova.

Finalmente, na reunião de 15 de junho de 1976 a Comissão deu parecer favorável a uma sugestão da Caixa de Previdência do Ministério da Educação Nacional para consagrar o  Professor Santos Lucas, sugerindo que ficasse na  «Rua C à Avenida do Uruguai, situado nas imediações da Rua Doutor José Batista de Sousa e da Praça Professor Santos Andrea, outro notável matemático», na freguesia de Benfica.

De igual modo, sugeriu mais três topónimos para se juntarem a Maria Veleda no que viria a ser conhecido como o «Bairro das Mulheres», por ser o primeiro bairro de Lisboa com toponímia exclusivamente feminina. Maria de Lourdes Pais Guerreiro da Franca encabeçara uma petição com algumas dezenas de assinaturas para integrar Maria Veleda na toponímia de Lisboa e a Comissão de Toponímia juntou os nomes de  Ana de Castro Osório,  Adelaide CabeteGuiomar Torresão, para a urbanização da Quinta dos Condes de Carnide, designada por UNOR 36.

E por último, nessa mesma reunião a Comissão sugeriu 11 novos topónimos para dar resposta à EPUL – Empresa Pública de Urbanização de Lisboa e aos  arruamentos que esta construíra no Restelo. E assim, «considerando que os arruamentos da zona do Restelo têm sido reservados quase exclusivamente para a consagração das figuras ligadas à história dos Descobrimentos», a Comissão indicou os navegadores Alvisse Cadamosto, Diogo de Silves,  Diogo de Teive, Gonçalo de Sintra, João Dias, Pedro de Sintra, Vicente Dias, o missionário Padre Bento de Góis e os bandeirantes António Raposo Tavares, Luís Pedroso de Barros  e Luís Castanho de Almeida.

Topónimos do Restelo de 1976 – Freguesia de Belém
(Planta: Sérgio Dias)

Viúva de Faria de Vasconcelos pediu rua de maior grandeza cinco anos após atribuição de topónimo

Freguesia do Beato
(Foto: Sérgio Dias)

Faria de Vasconcelos, professor universitário defensor da Escola Nova e criador da Orientação Profissional do nosso país, estava desde 1970 como topónimo de uma Rua do Beato mas em 1975 a sua viúva solicitou que o seu nome passasse para um «arruamento de maior grandeza».

Celsa Quiroga Faria de Vasconcelos enviou uma carta à edilidade lisboeta para que o nome de seu falecido marido ficasse numa artéria maior, assunto que a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa tomou em consideração na sua reunião de 22 de julho de 1975,  emitindo o parecer de que «Neste momento, não se vê possibilidade de satisfazer o pedido.» Para além da escassez de novos arruamentos nessa época havia a impossibilidade de alteração de topónimos tradicionais.

A Rua Doutor Faria de Vasconcelos, com a legenda «1880 – 1939», por via do Edital municipal de 20 de maio de 1970 ocupou a artéria identificada como Rua GKH  ou Rua F à Calçada da Picheleira, ou ainda Rua Particular à Calçada da Picheleira,  ficando a ligar a Calçada da Picheleira ao arruamento constituído pelas Ruas LG e GE e Impasse GJ do plano de Urbanização das Olaias – Quinta dos Machados à Picheleira que em 1971 passou a ser a Rua Professor Mira Fernandes.

António de Sena Faria de Vasconcelos Azevedo (Castelo Branco/02.03.1880 – 11.08.1939/Lisboa – Freguesia de Benfica), publicou o seu primeiro livro em 1900 com o título O Materialismo Histórico e a Reforma Religiosa do Século XVI e  no ano seguinte, em 12 de junho, concluiu a sua formação como bacharel em Leis pela Universidade de Coimbra, seguindo aí a tradição familiar, mas logo partiu para a Bélgica, onde concluiu um doutoramento em Ciências Sociais na Universidade Nova de Bruxelas, com a tese Esquisse d’une théorie de la sensibilité sociale. A partir daí desenvolveu então uma carreira de pedagogo e professor universitário, ligado ao movimento Escola Nova. Foi docente na Universidade de Bruxelas a partir de 1904 e em outubro de 1912 fundou na proximidade de Bruxelas a Escola de Bierges 28, de acordo com os princípios da Escola Nova e os 30 pontos definidos por Ferrière (cumprindo 28 como o nome indicava), experiência que relatou sob o título Une École Nouvelle en Belgique (1915), o caso da escola nova que criara como contributo para a implementação de uma aprendizagem inclusiva e individualizada. Durante a permanência na Bélgica publicou em Portugal O Pessimismo-Semiologia e Terapêutica (1902)  e Lições de Pedologia e Pedagogia Experimental (1908) e contraiu matrimónio com uma belga.

Com a invasão da Bélgica pela Alemanha Faria de Vasconcelos fugiu para Genebra, para o Instituto Jean-Jacques Rousseau (hoje, é a Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação), onde se integrou na equipa de docentes de Ferrière, Claparède  e Bovet no ano letivo de 1914/15, tendo sido assistente do Laboratório de Psicologia Experimental e secretário do Bureau International des Écoles Nouvelles, pelo que não é de estranhar que quando em 1921 editou a primeira série dos seus Problemas Escolares tenha feito a dedicatória para Pierre Bovet e Edouard Claparéde.

Por indicação de Ferrière foi  para Cuba, de 1915  até 1917, onde como Inspetor Especial do Ministério da Beneficência orientou a Reforma Pedagógica, assim como fundou Escolas Novas. Daqui seguiu para a Bolívia, para gerar Escolas Novas, em La Paz e em Sucre, tendo exercido funções como professor e diretor da Escola Normal Superior de La Paz, na qual fundou a secção de Psicologia, bem como dirigiu a Escola Normal Mista de Precetores em Sucre, onde criou  o  Curso de Organização e Direção de Escolas. Foi também na Bolívia que conheceu Celsa Quiroga, com quem casou em 1923 e de quem teve dois filhos.

Regressou a Portugal em dezembro de 1920 para ser Professor de Pedagogia na Escola Normal Superior. Ligou-se também à revista Educação Popular da Universidade Popular Portuguesa,  à Seara Nova e ao jornal A Batalha. A partir de 1922 tornou-se docente da Faculdade de Letras de Lisboa e regente do curso de Psicologia Geral, a cujo propósito publicou Lições de Psicologia Geral (1924), uma súmula das suas aulas. Refira-se ainda que os seus artigos sobre «Bases para a Solução dos Problemas da Educação Nacional», estiveram na base da proposta de Lei de Bases da Educação Nacional apresentada pelo Ministro João Camoesas ao Congresso da República em 1923.

Em 1925 fundou em Lisboa o Instituto de Orientação Profissional, e se torna o estratega da Orientação Escolar e Profissional, ao mesmo tempo que cria a Biblioteca de Cultura Pedagógica. Concluiu que a população criminosa tende a ter a mesma curva de distribuição da inteligência que a restante população e defende que «O combate ao crime para surtir efeitos tem que remontar até à infância, idade capital na formação do indivíduo.» Passados seis anos, em articulação com o Instituto de Reeducação Mental e Pedagógica participou na organização do Instituto Dr. Navarro de Paiva, atento aos 30% a 40 % de alunos com dificuldades de aprendizagem.

Freguesia do Beato
(Planta: Sérgio Dias)

A Praça António Sardinha que não passou a Praça Maria Pimentel Montenegro

Freguesia da Penha de França
(Foto: Sérgio Dias)

O poeta e rosto do Integralismo Lusitano António Sardinha, colocado como topónimo lisboeta em 1932, e numa Praça desde 1951, recebeu após o 25 de Abril  um pedido para que fosse substituído pela poetisa Maria Pimentel Montenegro, que já era topónimo desde março de 1974 numa rua de Benfica pelo que não sucedeu modificação alguma.

O caso ocorreu logo na 1ª reunião da 1ª Comissão Municipal de Toponímia pós-25 de Abril, em 15 de novembro de 1974, a partir de uma carta de Branca Alvarez Lopes a propor à edilidade a troca do topónimo Praça António Sardinha para Praça Maria Pimentel Montenegro. Como desde a publicação do Edital municipal de 4 de março de 1974, a artéria que ligava a Rua Dr. João de Barros a uma parte da Rua K já era a Rua Maria Pimentel Montenegro, a Comissão entendeu «que o pedido não é de considerar, porquanto, o nome de Maria Pimentel Montenegro está já consagrado num arruamento da zona de Benfica e quanto à substituição do nome de António Sardinha, deverá aguardar-se maior manifestação popular nesse sentido.»

António Sardinha havia sido consagrado pelo Edital de 31 de março de 1932  na Rua H do plano de  arruamentos da Quinta da Marquesa de Abrantes, em Marvila, aprovado em sessão de 15 de maio de 1930, mas o arruamento nunca chegou a ser executado, como os outros que integravam o plano, pelo que o seu nome voltou a ser dado à Praceta nº 1 da Rua da Penha de França, compreendida entre os nºs 150 e 152 da Rua da Penha de França, através do Edital municipal de 10/01/1951, onde permaneceu até aos dias de hoje.

Política, 10 de janeiro de 1930

O homenageado é António Maria de Sousa Sardinha (Monforte/09.09.1887-10.01.1925/Elvas), formado em Direito pela Universidade de Coimbra, época em que defendeu a implantação da República em Portugal,  para a partir de 1912 se tornar o mentor do Integralismo Lusitano assim como deputado monárquico durante o consulado de Sidónio Pais. A sua obra de cariz doutrinário, define o Integralismo Lusitano como um pensamento político que conjuga a defesa da monarquia, do nacionalismo e do catolicismo, como mostram os seus ensaios O Valor da Raça (1915), A Questão Ibérica (1916), Ao Princípio Era o Verbo A Aliança Peninsular (ambos em 1924), Ao Ritmo da Ampulheta e Teoria das Cortes Gerais (ambos em 1925).

O seu pensamento político teve como órgãos de divulgação as revistas Nação Portuguesa (1914) e A Monarquia (1917), ambas co-fundadas por António Sardinha, com Alberto de Monsaraz, Hipólito Raposo, Luiz de Almeida Braga e Pequito Rebelo no primeiro caso. O seu pensamento antirrepublicano e nacionalista encontrou eco em alguns dos defensores do Estado Novo.

Como poeta, António Sardinha fundiu saudosismo com os valores integralistas lusitanos, tendo publicado Tronco Reverdecido (1910), A Epopeia da Planície (1915), Quando as Nascentes Despertam (1921), Na Corte da Saudade (1922), Chuva da Tarde (1923), para além dos póstumos Era uma Vez um Menino (1926), O Roubo da Europa (1931) e Pequena Casa Lusitana (1937).

Após a morte de Sidónio Pais e o fracasso do movimento da Monarquia do Norte António Sardinha exilou-se em Espanha, no período de 1919 a 1921. De volta a Portugal dirigiu o diário A Monarquia e colaborou no quinzenário A Farça e na revista Lusitania, até falecer aos 37 anos.

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

Da Travessa das Chagas para a Rua de Ruben A.

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

O semanário O Tempo, fundado em 29 de maio de 1975 e sediado no nº 4 da Travessa das Chagas, solicitou logo nesse seu 1º ano a alteração do topónimo da artéria onde estava instalado e no ano seguinte, o topónimo mudou para Rua Ruben A. Leitão.

A Comissão Municipal de Toponímia analisou o pedido pela primeira vez na sua reunião de 22 de julho de 1975 mas entendeu que deveria colher o parecer da Junta de Freguesia, que na época era a das Mercês. A 2ª Comissão de Toponímia pós-25 de Abril reapreciou o assunto na sua reunião de 15 de junho de 1976 e «resolveu estudar previamente a origem do topónimo, reservando para uma próxima oportunidade o seu parecer sobre a pretendida alteração», conforme referem as Atas da Comissão. Finalmente, na sua reunião de 6 de julho seguinte,  a Comissão foi do parecer que «o topónimo existente não tem qualquer significado especial nem pode considerar-se tradicional» e sugeriu que passasse a denominar-se Rua Ruben A. Leitão, com a legenda «Escritor/1920 – 1975», o que se concretizou com a publicação do Edital de 6 de outubro de 1976.

Assim, a Travessa das Chagas Velhas ou Travessa das Chagas, entre a Rua da Palmeira e a Rua Eduardo Coelho, passou a ser a Rua Ruben A. Leitão, homenageando o  jornalista e escritor mais conhecido por Ruben A., que nascera no 1º andar do nº 25 da Praça do Príncipe Real e depois residira ali perto, no nº 37 da Rua do Monte Olivete, conforme consta no envelope de uma carta dirigida a Eduardo Lourenço em 1967, tendo aos 55 anos de idade, em setembro de 1975, falecido repentinamente.

Diário Popular, 10 de junho de 1975

Ruben Alfredo Andresen Leitão (Lisboa/26.05.1920 – 23.09.1975/Londres), licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas em Coimbra e ensinou cultura portuguesa no King’s College da Universidade de Londres, de 1947 a 1952,  tendo também sido convidado para docente na Universidade de Oxford alguns meses antes de falecer.

Enquanto escritor usava o pseudónimo Ruben A.  Das suas obras publicadas  são de destacar a biografia D. Pedro V: um homem e um rei (1950) bem como a edição das Cartas de D. Pedro V aos seus Contemporâneos (1961) até então inéditas; vários verbetes no Dicionário de História de Portugal dirigido por Joel Serrão; os romances Caranguejo (1954) e A Torre da Barbela (1965) que foi Prémio Ricardo Malheiros; a peça Júlia (1963); os três volumes de O Mundo à Minha Procura (1964, 1966 e 1968); O Outro que era Eu (1966); seis diários com ficção sob o título de Páginas ( de 1949 a 1970) ou a novela Silêncio para 4 (1973). A escrita de Ruben A. caracteriza-se pela irreverência linguística, desconstrução dos eixos narrativos tradicionais e mordacidade.

Foi ainda funcionário da Embaixada do Brasil em Lisboa, de 1954 até 1972, ano em passou para membro do  Conselho de Administração da Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Também desempenhou funções como diretor-geral dos Assuntos Culturais do Ministério da Educação e Cultura e colaborou em diversos jornais como o Expresso, onde foi membro do conselho editorial, e com recensões críticas no Diário Popular de 1963 a 1974.

Em termos pessoais refira-se que era reconhecido pela sua cultura ilimitada e criatividade excepcional, assim como por ter inventado o nome PPD para um partido de que nunca fez parte.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

Alterações de topónimos tradicionais rejeitadas: Largo do Pote de Água, Largo da Graça e Praça do Comércio

O Largo do Pote de Água – Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias)

O Largo do Pote de Água, em Alvalade, a Praça do Comércio em Santa Maria Maior e o Largo da Graça, na freguesia de São Vicente, são topónimos que foram alvo de pedidos de alteração pós-25 de Abril mas que por serem topónimos tradicionais mereceram parecer negativo da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa.

Na reunião de 20 de dezembro de 1974 foi analisada uma carta de Maria Augusta Barbosa, solicitando a alteração do topónimo Largo do Pote de Água. Mais tarde, na de 22 de julho de 1975 foi a vez da carta de Francisco Cota sugerir que a Praça do Comércio passasse a Praça do Povo. Em ambos os casos, por serem alterações de topónimos tradicionais, mereceram o parecer negativo da Comissão Municipal de Toponímia pelo que nunca foi redigida proposta para ser levada a sessão de câmara que caso aprovada expediria um Edital formalizando o nascimento de um novo topónimo.

O sítio do Pote de Água, deu o seu nome à Quinta do Pote de Água, que foi destruída pelo terramoto de 1755 e também daí advieram os topónimos Largo e Travessa do Pote de Água que ainda hoje encontramos. O Largo ficou fixado na memória da cidade pelos seus moradores e o Edital municipal de 21 de dezembro de 1960 colocou-o na Rua 1 à Avenida do Brasil.  Quase nove anos depois, pelo Edital municipal de 23/05/1969, juntou-se a Travessa do Pote de Água, a partir de um pedido do serviço municipal de Escrivania para atribuição de topónimo ao arruamento que ligava a Avenida do Brasil com o Largo do Pote de Água e o Largo João Vaz. A localização da Quinta do Pote de Água, aparece nas memórias paroquiais publicadas em Lisboa na 2ª metade do século XVIII (plantas e descrições pelas freguesias), na Freguesia de Santo André, da seguinte forma: «pela Estrada da Charneca athé a Quinta do Pote de Agoa inclusive, q hoje he de Joseph Antonio Ferreira» e, esclarece mais adiante que a Quinta «foi dos Padres Jezuitas.»

O Largo da Graça – Freguesia de São Vicente                                                  (Foto: Ana Luísa Alvim)

O pedido de alteração do Largo da Graça chegou à reunião da Comissão de 15 de junho de 1976, numa carta do Grupo Escolar Republicano Almirante Reis que avançava com  o nome de Alfredo Pedro Guisado para a substituição, e que mereceu um desfecho semelhante aos anteriores, porque embora «reconhecendo a justiça de ser consagrada na toponímia citadina a figura do doutor Alfredo Guisado, notável republicano e homem de letras, a Comissão emite parecer desfavorável por entender que o topónimo existente é tradicional e não deve, por isso, ser alterado. Na devida oportunidade, e logo que se consiga arruamento condigno, será prestada homenagem a essa individualidade.» O Largo da Graça foi um espaço definido como tal após 1700, cujo nome deriva do antigo Convento de Nossa Senhora da Graça, começado a construir em 1271 naquele local, então conhecido por Almofala, pequeno arrabalde mourisco extramuros onde as tropas de D. Afonso Henriques acamparam durante o cerco de Lisboa. A Almofala mourisca tornou-se no Bairro da Graça, topónimo repetido no Largo, na Calçada, no Caracol, na Rua,  e demais topónimos que a ecoam na Rua da Bela Vista, na Rua e na Travessa do Arco, na Rua do Cardal, na Rua do Sol, na Travessa de Santo António e na Travessa do Olival. Por seu lado,  Alfredo Guisado chegou à toponímia lisboeta em 1977,  através do Edital de 10 de outubro que o colocou numa Rua de São Domingos de Benfica.

Outras sugestões de topónimos ou pedidos de alterações foram rejeitados pela Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa neste período histórico por colidirem com os princípios pelos quais se o órgão consultivo se regia.

A sugestão de Margarida Stella Bulhão Pato Maia Rebelo,  para a atribuição do nome de José Afonso a uma artéria, apreciada na reunião de  20 de dezembro de 1974, foi recusada por contrariar a regra de atribuição de topónimos apenas a falecidos. Recusa análoga teve nessa mesma reunião uma carta anónima que sugeria a restituição do nome de Alferes Malheiro à Avenida do Brasil, pelos óbvios inconvenientes que acarretaria aos residentes das duas artérias assim fixadas desde há 40 anos. No entanto, o jornal A Capital de 10 de fevereiro de 1975 insistiu na proposta, pelo que a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa, reunida quatro dias depois, deu parecer para o assunto ser arquivado.

Por último, na reunião de 14 de fevereiro de 1975, analisou-se o pedido de substituição do topónimo Avenida Casal Ribeiro, remetido por  Miguel Araújo Rato Fernandes, que foi rejeitado, com o parecer de que «esta Comissão entende que não é de alterar o referido topónimo, visto a figura homenageada não ser o “Casal Ribeiro” deputado à Assembleia, mas sim o primeiro conde de Casal Ribeiro – José Maria Caldeira do Casal Ribeiro.»

A Praça do Comércio em 25 de Abril de 1974
(Foto: Fernando Baião, «O Século Ilustrado», 28.04.1974)