Igreja e Convento do Carmo

Situado na colina fronteira ao Castelo de São Jorge, com o Rossio a “seus pés”, o Convento do Carmo foi mandado edificar por D. Nuno Álvares Pereira após a Batalha de Aljubarrota. A sua construção teve início em 1389 e prolongou-se até 1422, tendo surgido vários problemas com os alicerces, devido ao solo arenoso e à escarpa. A igreja conventual, apesar de arruinada, é um dos raros edifícios em Lisboa que mantém uma estrutura gótica.

Os primeiros religiosos instalaram-se em 1397, vindos do Convento de Nossa Senhora do Carmo de Moura, de Carmelitas Calçados mas o convento só foi oficialmente entregue à Ordem do Carmo em 1423.

A igreja, com quase 70 m de comprimento, tinha planta em cruz latina e era composta por três naves longitudinais com arcos em cruzaria de ogivas e transepto pouco saliente; a iluminação do templo era feita através de janelas em arco apontado. A fachada principal era tripartida, com portal flanqueado por dois contrafortes, rematado em empena com óculo.

O terramoto de 1755 e o incêndio que se seguiu causaram danos profundos no conjunto conventual: a biblioteca ficou destruída e na igreja  ruíram a cobertura da capela-mor, o transepto e parte da nave. Os 126 religiosos viram-se obrigados a procurar abrigo noutro local, tendo regressado a 2 de julho de 1758, para uma pequena igreja provisória.

Houve várias tentativas para a reconstrução do templo gótico mas as obras nunca foram concluídas e a igreja manteve-se a céu aberto. A degradação da igreja arruinada foi travada quando o espaço foi cedido em 1864 à Real Associação dos Arquitetos e Arqueólogos Portugueses que aí instalou um museu arqueológico.

Atualmente, o museu reúne um importante acervo de peças de valor histórico, arqueológico e artístico que contempla artefactos e obras desde a Pré-História à Época Contemporânea.

Após a extinção das casas religiosas masculinas, decretada a 30 de maio de 1834, o núcleo conventual foi ocupado com serviços do exército e mais tarde pela Guarda Nacional Republicana, que aí instalou o seu comando-geral.

É ainda hoje um dos lugares mais simbólicos da revolução de 25 de Abril de 1974, o local onde Marcelo Caetano se refugiou. Depois de longas horas de impasse, as portas abriram-se finalmente para deixar entrar o capitão Salgueiro Maia que no gabinete do comandante-geral negociou o fim do regime com o então líder do governo.

Suba até ao Largo do Carmo, visite o espaço museológico da antiga igreja e passeie pelo miradouro dos Terraços do Carmo. Para além da vista deslumbrante sobre parte do Rossio e zona envolvente, pode observar de perto a imponente estrutura de contrafortes do antigo conjunto conventual.

Classificado Monumento Nacional.

Texto: © CML | DPC | 2018
Fotos: © José Vicente |CML | DPC | 2018

Anúncios

O Largo do Carmo de Nuno Álvares Pereira

Freguesia de Santa Maria Maior

O Largo do Carmo é um topónimo fixado na memória de Lisboa por referência à proximidade ao Convento e Igreja de Nª Srª do Vencimento do Monte do Carmo, estruturas religiosas da iniciativa de Nuno Álvares Pereira, no último quartel do século XIV.

António José Saraiva defendeu que a localização do Convento seria simbólica. Primeiro, porque este templo foi erguido num monte que afrontava o do Castelo, em cuja encosta  se situavam o Paço Real e a Sé de Santa Maria Maior. Em segundo lugar, porque na época de construção o popularmente designado Rossio denominava-se Valverde, o que decerto lembraria a Nuno Álvares Pereira o triunfo na batalha desse nome. Em terceiro lugar, porque apesar das enormes dificuldades técnicas surgidas na consolidação da escarpa para assentar as fundações do templo, a ponto de terem sido precisos 8 anos para a construção dos alicerces, o Condestável insistiu na construção do convento ali mesmo. Quando a obra ficou terminada, em 1423, doou o convento à Ordem do Carmo e ingressou nele como frade.

Nuno Álvares Pereira era cunhado do Almirante Pessanha, grande proprietário naquele local do Monte do Carmo e que por isso mesmo também ficou registado na toponímia da zona.  Até ao Terramoto de 1775, o Largo do Carmo tinha assim a maior Igreja de Lisboa, cuja nave central é hoje visível a céu aberto. A zona do Convento está  ocupada pelo quartel da GNR que foi o palco da rendição de Marcelo Caetano em 25 de Abril de 1974.

Freguesia de Santa Maria Maior – Placa de Azulejo

Amanhã, inauguração do Jardim Mário Soares

O Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, vai proceder amanhã, às 13:00, à inauguração do Jardim Mário Soares.

 

“ Mário Soares é o maior político português do século XX”, disse o seu rival, nas eleições presidenciais de 1986, Diogo Freitas do Amaral. Para Mário Soares, a política era uma vontade e uma vocação, um prazer e uma paixão. E foi-lhe um destino! A sua voz tonou-se, nos momentos em que tudo se jogava, a voz do País – e dizia a palavra Liberdade. Foi fundador e garante da democracia portuguesa, dando o seu nome ao que melhor a prefigurou e configurou. É o rosto do Portugal democrático e europeu. A sua morte apareceu na Imprensa de todo o mundo. Foi o fim de uma grande vida livre.

Nasceu em Lisboa, a 7 de Dezembro de 1924. Do pai, João Soares, ministro da I República, intelectual e pedagogo, recebeu o gosto idealista da política e da cultura. Da mãe, Elisa Nobre Baptista, herdou o senso prático e o realismo.

A Guerra Civil de Espanha foi o seu despertar político. Estudou em colégios, terminando o liceu no Colégio Moderno, fundado pelo pai. Em 1942, ao entrar na Universidade de Lisboa, já tinha uma posição política clara: era antifascista. Licenciou-se em História e Filosofia. Depois, em Direito. Viveu intensamente a II Guerra Mundial, lutando pela vitória dos Aliados. Quando ela aconteceu, organizou grandes manifestações, mas Salazar aguentou-se.

Casou com Maria de Jesus Barroso em 1949, quando estava preso. Tiveram dois filhos: João e Isabel. O MUD Juvenil e o MUD iniciaram-no como dirigente político. Preso 13 vezes, foi deportado em S. Tomé e esteve exilado em França. Participou em todos os grandes combates contra a ditadura. Após o assassinato de Humberto Delgado pela PIDE, foi o advogado da família. Em 1950, tinha-se distanciado do Partido Comunista, iniciando uma travessia do deserto que o levaria, mais tarde, à fundação da ASP e, em 1973, do PS.

Com o 25 de Abril de 1974, regressou a Portugal, no Comboio da Liberdade. Trazia, na bagagem, um Partido, uma rede de relações internacionais, uma ideia para o país. Visitou os seus amigos, que chefiavam muitos governos  na Europa, para obter o reconhecimento da Revolução. Foi ministro dos Negócios Estrangeiros do I e II Governos Provisórios, abrindo Portugal ao mundo. Iniciou as conversações para a descolonização, mas esse processo, logo a seguir, ficou nas mãos do MFA e do PCP.

À medida que se tornava claro que os comunistas queriam tomar o poder, Soares liderou um PS que se opôs firmemente à tentação totalitária. Depois da vitória socialista nas eleições para a Assembleia Constituinte, em Abril de 1975, ergueu a legitimidade democrática acima da legitimidade revolucionária. A unicidade sindical foi rejeitada; o “caso República” levou o país à rua e os socialistas saíram do governo; o comício da Fonte Luminosa foi o símbolo maior da luta contra Vasco Gonçalves e Cunhal. Malraux disse então que, em Portugal, pela primeira vez na história, os mencheviques derrotaram os bolcheviques. Soares tornara-se uma figura mundial.

Em 1976, o PS ganhou as eleições legislativas e ele foi primeiro- ministro do I e II Governos Constitucionais: salvou o país da banca rota, construiu o Estado de Direito, lançou os fundamentos do Estado Social, pediu a adesão à CEE. A seguir, fez oposição à AD, mas celebrou acordos para tornar Portugal uma democracia civilista e europeia. Voltou a chefiar o Governo (IX). Em 1985, assinou o Tratado de Adesão de Portugal à CEE. Contrariando uma ideia falsa, os governos de Soares foram os mais reformistas e eficazes, tomando decisões fundamentais para a economia e a sociedade.

Em 1986, depois de uma dura campanha, que começou, para ele, com previsões baixíssimas nas sondagens, foi eleito Presidente da República, o primeiro civil, após 60 anos. Em 1991, foi reeleito com mais de 70% dos votos. O seu estilo e as Presidências Abertas permanecem como uma maneira contemporânea de fazer política e de olhar o Estado. Nesses anos, o lugar da cultura foi o primeiro.

Depois, Soares continuou presente. Interveio, falou, escreveu, agiu. Animou a Fundação Mário Soares. Fez da defesa do ambiente uma grande causa. Foi Presidente da Comissão Mundial Independente dos Oceanos. Opôs-se á guerra do Iraque, que considerou um desastre para o Ocidente. Foi deputado no Parlamento Europeu. Perdeu as eleições presidenciais de 2006, mas o estado do País, da Europa e do Mundo nos anos seguintes deu razão ao que Soares dissera na campanha eleitoral.

Figura portuguesa, europeia e mundial, Mário Soares exerceu os mais altos cargos e recebeu as maiores distinções. Isso nunca o acomodou. Lutou sempre até ao fim: denunciou, previu, preveniu, advertiu, propôs. Tinha orgulho nos livros que escreveu e nos combates que travou. Nele, a política e a liberdade eram uma da outra e, as duas, inseparáveis da vida e do que a torna grande.

José Manuel dos Santos

 

 

A Praça Carlos Fabião, militar de Abril

Carlos Fabião falando às tropas em parada no Regimento de Comandos, em 3 de fevereiro de 1975                                                                                                              (Foto: Associação 25 Abril)

Carlos Fabião foi um militar de Abril, daquela geração de militares que teve o mérito de conseguir ajustar contas com a história e desempenhar um importante papel na constituição de um Portugal democrático, estando assim consagrado numa praça lisboeta muito próxima da Avenida das Forças Armadas, também ela uma homenagem aos Capitães de Abril.

Dez anos após o seu falecimento, pelo Edital municipal de 07/04/2016, a edilidade lisboeta perpetuou o nome de Carlos Fabião na Praça Projetada à Avenida das Forças Armadas (Loteamento EPUL), delimitada entre a Rua da Cruz Vermelha e as Ruas Mário Cesariny e Adriano Correia de Oliveira, com a legenda «Militar de Abril/1930 – 2006».

Freguesia das Avenidas Novas – Placa Tipo II (Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

Carlos Alberto Idães Soares Fabião (Lisboa/09.12.1930 – 02.04.2006/Lisboa) que nasceu lisboeta no Bairro da Graça, foi o último Governador da Guiné, nomeado pela Junta de Salvação Nacional após o 25 de Abril e, até 10 de setembro de 1974, data em que Portugal reconheceu a independência da Guiné-Bissau na sequência do Acordo de Argel. Fabião fizera 4 Comissões de serviço na Guiné e conhecia a população, a ponto de ter aprendido a cultura da etnia Nalú que era a minoritária.

Ainda antes do 25 de Abril, em maio de 1973, Carlos Fabião com Ramalho Eanes, Firmino Miguel e Dias de Lima angariaram outros militares para o movimento de contestação ao Congresso dos Combatentes que Vasco Lourenço considerou a pré-conspiração que levou ao 25 de Abril.  E em 17 de dezembro de 1973, numa aula do curso de majores, no Instituto de Altos Estudos Militares, o então major Carlos Fabião, conforme acordado previamente com Vasco Lourenço, logo no início da primeira aula do dia denunciou publicamente a preparação de um golpe de estado de extrema-direita, conduzido por quatro generais da ditadura – Kaúlza de Arriaga, Luz Cunha, Silvino Silvério Marques e Troni – visando afastar os generais Costa Gomes e António de Spínola, o que lhe valeu a punição de ser transferido para o D.R.M. de Braga e com uma espécie de residência fixa, pelo que era aí que se encontrava a prestar serviço no dia 25 de Abril de 1974, embora tenha participado em reuniões preparatórias do Movimento dos Capitães.

Solidário e amante da Liberdade, o então brigadeiro Fabião foi também o Chefe do Estado Maior do Exército, na sequência do 28 de setembro, escolhido pelos militares do Exército para integrar a Junta de Salvação Nacional, e por inerência o Conselho de Estado. Foi então graduado em general e eleito em Assembleia do MFA para substituir Jaime Silvério Marques no cargo de Chefe do Estado-Maior do Exército. Após o 11 de março de 1975 foi extinta a Junta, passando os seus membros a partir do dia 14 a integrar o novo órgão designado como Conselho da Revolução, no qual Carlos Fabião se manteve até dois dias após o 25 de novembro, sendo substituído pelo General Ramalho Eanes e regressado ao posto de coronel. Neste intervalo de tempo, do 11 de março ao 25 de novembro, Carlos Fabião atravessou o período mais turbulento do processo revolucionário, procurando conciliar as fações e passou a ser presença assídua nos Telejornais. Em agosto de 1975, chegou a ser convidado formalmente pelo Presidente da República, General Costa Gomes, para substituir Vasco Gonçalves e formar o VI Governo Provisório, tendo como vice-primeiro-ministro Melo Antunes, mas recusou.

Fabião que frequentou o Liceu Gil Vicente e  a Escola do Exército, após casar em 1954 com Maria Margarida Cecílio Gonçalves, de quem teve 3 filhos, assentou morada de família no Largo de Santa Marinha. O seu funeral saiu do Grémio Lusitano, já que Carlos Fabião fora iniciado sob os auspícios de Fernando Vale, com o nome de Gomes Freire e chegou a ser Grão-mestre Adjunto do Grande Oriente Lusitano.

Carlos Fabião foi agraciado com a Ordem da Liberdade (2005) no grau de Grande-Oficial e a título póstumo, a Associação 25 de Abril, de que havia sido presidente da Mesa da Assembleia Geral, fê-lo seu Sócio de Honra, tal como a Assembleia da República aprovou por unanimidade, um voto de pesar pela morte deste militar de Abril.

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

Do Sítio do Casalinho à Rua do Sítio do Casalinho à Ajuda

Rua do Sítio ao Casalinho da Ajuda – Freguesia da Ajuda
(Foto: Paulo Catrica, 1998, Arquivo Municipal de Lisboa)

Uma moradora da Ajuda solicitou a alteração do topónimo Sítio do Casalinho após o 25 de Abril mas só em 1978 houve uma modificação tendo então esta artéria sido fixada, pela primeira vez pela Câmara de Lisboa, como Rua do Sítio ao Casalinho da Ajuda.

Em 1974, Amélia de Assunção Duarte solicitou à edilidade a alteração do topónimo Sítio do Casalinho tendo a Comissão Municipal de Toponímia emitido o parecer de «que deverá aguardar-se maior manifestação popular no sentido da pretendida alteração». Em 1975, também Maria José Gonçalves pediu a alteração de outro topónimo da Freguesia da Ajuda, o Casalinho da Ajuda e o parecer da Comissão foi de «Aguardar-se maior manifestação popular no sentido da pretendida alteração».

O nomes na base do topónimo– Sítio e Casalinho – denotam a origem rural deste local da Ajuda. As primeiras casas aí edificadas datam de 1907, junto ao portão da Tapada da Ajuda e até ao final da primeira metade do século XX o Casalinho era um pequeno aglomerado de casas rodeado de terras de cultivo, de Monsanto, da Tapada da Ajuda e das terras e pedreira da empresa de materiais de construção F.H. D’Oliveira.

Em 1960, em consequência das obras da primeira ponte sobre o Tejo, várias famílias foram desalojadas e o município encaminhou-as para barracas de madeira provisórias no Casalinho da Ajuda, onde permaneceram até 1970, altura em que essas famílias receberam as primeiras chaves das casas para pobres do Bairro do Casalinho da Ajuda, construído para esse efeito.

Hoje o Casalinho da Ajuda e o Sítio do Casalinho, quase na orla do Parque Florestal de Monsanto, estão próximos do Palácio da Ajuda e do Pólo Universitário do Alto da Ajuda. O Sítio do Casalinho, que também era vulgarmente conhecido como Calçada do Casalinho, foi fixado pelo Edital de 16 de agosto de 1978 como Rua do Sítio ao Casalinho da Ajuda.

Neste arruamento está sediada a Liga Portuguesa dos Deficientes Motores. Em 1975, a Câmara Municipal de Lisboa cedeu-lhe o terreno para a construção da sede, que se iniciou em 1979, tendo sido inaugurada em 1 de outubro de 1986.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

O pedido de alteração da Calçada da horta do Cabra

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

Alguns moradores  da Calçada do Cabra solicitaram a alteração do topónimo após o 25 de Abril mas por ser um topónimo tradicional não foi modificado.

Logo na 2ª reunião da Comissão Municipal de Toponímia após o 25 de Abril, em 20 de dezembro de 1974, surgiu uma carta de vários moradores da Calçada do Cabra solicitando a alteração do topónimo, tendo a Comissão pedido ao seu vogal Fernando Castelo Branco um parecer sobre a origem do topónimo. Na 4ª reunião, em 5 de março de 1975, deu então o seu parecer final: «Trata-se de um topónimo tradicional que não deve, por isso, ser alterado».

Freguesia da Misericórdia – Placa Tipo II
(Foto: Mário Marzagão, 2011)

A Calçada do Cabra, confinada entre a Rua de São Boaventura e a Rua Nova do Loureiro, deriva do nome ou alcunha de um proprietário do local que Júlio de Castilho mencionou na sua Lisboa Antiga – O Bairro Alto da seguinte forma: «Por aí, era no século XVIII, sabe Deus desde quando, a Horta do Cabra. Hoje a Travessa da Horta [A Travessa da Horta liga a Rua da Academia das Ciências à Rua Eduardo Coelho], comunicando o do Areu com a dos Cardais (modernamente denominada Eduardo Coelho) é o vestígio derradeiro do campo de nabiças e feijoais do antigo Cabra, sujeito cuja personalidade se sumiu na voragem dos Invernos».

Acrescente-se que segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo, a Travessa da Horta seria do começo do séc. XIX e, «Chamou-se, antes, a Travessa do Cabra, por motivo da existência ali de umas casas, com horta, de um sujeito daquela alcunha ou apelido». Fica a dúvida se as terras do Cabra se estendiam desta Travessa até à Calçada do Cabra ou não. Contudo, nas memórias paroquiais anteriores ao Terramoto de 1755 da freguesia de Nª Srª das Mercês é referida a Horta do Cabra.

Certo é encontrarmos o topónimo Calçada do Cabra no traçado de alteração de um prédio com os nºs 3 e 4, aprovado em 19 de maio de 1852, assim como em 1856 no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa, de Filipe Folque.

Pelo menos de 1898 a 1924 lá existiu a Tipografia do Dia ou Oficina Tipográfica ou Typographia Calçada do Cabra.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

A Travessa do Convento de Santa Mónica e da Cadeia das Mónicas

Freguesia de São Vicente
(Foto: Sérgio Dias)

A Travessa das Mónicas, topónimo derivado de um convento quinhentista convertido em cadeia, recebeu após o 25 de Abril um requerimento para que o topónimo fosse alterado mas a Comissão Municipal de Toponímia manteve o princípio de não alterar topónimos tradicionais, salvo « haja maior manifestação popular tendente à alteração toponímica».

Na reunião de 20 de dezembro de 1974, a Comissão Municipal de Toponímia analisou um requerimento de António Ferreira de Oliveira solicitando que o topónimo Travessa das Mónicas fosse alterado e emitiu o parecer de que «entende que se trata de um topónimo tradicional que, em princípio, não deve ser alterado. No entanto, admite que possa vir a reconsiderar, desde que haja maior manifestação popular tendente à alteração toponímica».

Freguesia de São Vicente – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

A Travessa das Mónicas, entre a Rua de São Vicente e o Largo da Graça, deve o seu nome ao Convento de Santa Mónica ali fundado em  1585/1586 por D. Maria Abranches, em propriedade de seu pai D. Álvaro de Abranches –  capitão-mor de Azamor -,destinado às religiosas eremitas descalças de Santo Agostinho. Sofreu danos consideráveis com o Terramoto de 1755 mas foi reconstruído. Após a extinção das ordens religiosas de  1834 e com a morte da última religiosa em 1870 o Estado instalou no Convento a Casa da Correcção dos Rapazes em 1871, que ao ser transferida para Caxias em 1901 deu lugar a uma casa similar para raparigas, que em 1912 passaram para o Colégio de São Patrício à Costa do Castelo, dando espaço para cinco anos mais tarde, em 1917, passar a ser uma cadeia para mulheres, que aliviasse a sobrelotação da Cadeia do Aljube, que ficou conhecida como Cadeia das Mónicas e assim funcionou até 1953, quando a  população prisional foi transferida para a então nova Cadeia Central de Mulheres em Tires. A partir de 1961 voltou a ser usada como a parte feminina da Cadeia Comarcã de Lisboa, passando em 2005 para os reclusos em Regime Aberto Voltado para o Exterior (RAVE) do Estabelecimento Prisional de Lisboa. No decurso de todas estas modificações na população que foi albergada no edifício manteve-se o painel de azulejos  do século XVIII representando Santa Mónica.

A poeta Sophia de Mello Breyner Andresen e o seu marido, Francisco Sousa Tavares, ambos presentes na toponímia de Lisboa, residiram nesta artéria.

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)

Os novos 26 topónimos dados de 25 de Abril de 1974 até às eleições autárquicas de 1976

O Bairro das Mulheres de 1976, com mais topónimos em 1978 – Freguesia de Carnide

Após o 25 de Abril, a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa deu parecer favorável à atribuição de 23 novos topónimos que assim se estabeleceram em  23 arruamentos novos, a partir dos pareceres que deu no período compreendido entre 5 de março de 1975 a 22 de julho de 1976, ou seja, antes das primeiras eleições autárquicas pós 25 de Abril, em 12 de dezembro de 1976.

Na reunião de 5 de março de 1975 , acolheu a sugestão da Liga dos Bombeiros Portugueses para a atribuição de uma Avenida dos Bombeiros Voluntários mas antes como Avenida dos Bombeiros, já que «para não ferir susceptibilidades, deverá prestar-se homenagem conjunta.» Também avançou com o Largo Maria Isabel Aboim Inglês,  na «Praceta da Rua de Pedrouços, situada nas proximidades do local onde viveu a falecida educadora» para evitar alterar  o topónimo Rua de Pedrouços – onde vivera a homenageada- , ou a Rua Nova do Loureiro – onde nascera -, conforme propunha o Movimento Democrático das Mulheres Portuguesas. Ainda nesta reunião concordou-se com uma alteração: a da Rua António Ferro para Rua Luís de Freitas Branco.

Em 22 de julho de 1975, a reunião seguinte, a partir do pedido dos moradores no Impasse I à Azinhaga da Fonte, a Comissão sugeriu para o efeito que ficasse denominada como Rua Julião Quintinha.  De igual forma, foi favorável ao topónimo Rua da República da Bolívia,  para retribuir  o arruamento Calle República de Portugal dado pela Municipalidade de La Paz, assim como com o Largo Castro Soromenho para dar resposta à Escrivania municipal que solicitava nomenclatura própria para o largo adjacente à Rua Cidade de Tete. Foram ainda indicados mais  7 novos topónimos: a Avenida Afonso Costa, a Avenida Bernardino Machado e a Praça Machado Santos (que não foram executados no local sugerido), a Rua Alfredo Guisado, a Rua Ferreira de Castro e a Rua da Horta Nova.

Finalmente, na reunião de 15 de junho de 1976 a Comissão deu parecer favorável a uma sugestão da Caixa de Previdência do Ministério da Educação Nacional para consagrar o  Professor Santos Lucas, sugerindo que ficasse na  «Rua C à Avenida do Uruguai, situado nas imediações da Rua Doutor José Batista de Sousa e da Praça Professor Santos Andrea, outro notável matemático», na freguesia de Benfica.

De igual modo, sugeriu mais três topónimos para se juntarem a Maria Veleda no que viria a ser conhecido como o «Bairro das Mulheres», por ser o primeiro bairro de Lisboa com toponímia exclusivamente feminina. Maria de Lourdes Pais Guerreiro da Franca encabeçara uma petição com algumas dezenas de assinaturas para integrar Maria Veleda na toponímia de Lisboa e a Comissão de Toponímia juntou os nomes de  Ana de Castro Osório,  Adelaide CabeteGuiomar Torresão, para a urbanização da Quinta dos Condes de Carnide, designada por UNOR 36.

E por último, nessa mesma reunião a Comissão sugeriu 11 novos topónimos para dar resposta à EPUL – Empresa Pública de Urbanização de Lisboa e aos  arruamentos que esta construíra no Restelo. E assim, «considerando que os arruamentos da zona do Restelo têm sido reservados quase exclusivamente para a consagração das figuras ligadas à história dos Descobrimentos», a Comissão indicou os navegadores Alvisse Cadamosto, Diogo de Silves,  Diogo de Teive, Gonçalo de Sintra, João Dias, Pedro de Sintra, Vicente Dias, o missionário Padre Bento de Góis e os bandeirantes António Raposo Tavares, Luís Pedroso de Barros  e Luís Castanho de Almeida.

Topónimos do Restelo de 1976 – Freguesia de Belém
(Planta: Sérgio Dias)

Viúva de Faria de Vasconcelos pediu rua de maior grandeza cinco anos após atribuição de topónimo

Freguesia do Beato
(Foto: Sérgio Dias)

Faria de Vasconcelos, professor universitário defensor da Escola Nova e criador da Orientação Profissional do nosso país, estava desde 1970 como topónimo de uma Rua do Beato mas em 1975 a sua viúva solicitou que o seu nome passasse para um «arruamento de maior grandeza».

Celsa Quiroga Faria de Vasconcelos enviou uma carta à edilidade lisboeta para que o nome de seu falecido marido ficasse numa artéria maior, assunto que a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa tomou em consideração na sua reunião de 22 de julho de 1975,  emitindo o parecer de que «Neste momento, não se vê possibilidade de satisfazer o pedido.» Para além da escassez de novos arruamentos nessa época havia a impossibilidade de alteração de topónimos tradicionais.

A Rua Doutor Faria de Vasconcelos, com a legenda «1880 – 1939», por via do Edital municipal de 20 de maio de 1970 ocupou a artéria identificada como Rua GKH  ou Rua F à Calçada da Picheleira, ou ainda Rua Particular à Calçada da Picheleira,  ficando a ligar a Calçada da Picheleira ao arruamento constituído pelas Ruas LG e GE e Impasse GJ do plano de Urbanização das Olaias – Quinta dos Machados à Picheleira que em 1971 passou a ser a Rua Professor Mira Fernandes.

António de Sena Faria de Vasconcelos Azevedo (Castelo Branco/02.03.1880 – 11.08.1939/Lisboa – Freguesia de Benfica), publicou o seu primeiro livro em 1900 com o título O Materialismo Histórico e a Reforma Religiosa do Século XVI e  no ano seguinte, em 12 de junho, concluiu a sua formação como bacharel em Leis pela Universidade de Coimbra, seguindo aí a tradição familiar, mas logo partiu para a Bélgica, onde concluiu um doutoramento em Ciências Sociais na Universidade Nova de Bruxelas, com a tese Esquisse d’une théorie de la sensibilité sociale. A partir daí desenvolveu então uma carreira de pedagogo e professor universitário, ligado ao movimento Escola Nova. Foi docente na Universidade de Bruxelas a partir de 1904 e em outubro de 1912 fundou na proximidade de Bruxelas a Escola de Bierges 28, de acordo com os princípios da Escola Nova e os 30 pontos definidos por Ferrière (cumprindo 28 como o nome indicava), experiência que relatou sob o título Une École Nouvelle en Belgique (1915), o caso da escola nova que criara como contributo para a implementação de uma aprendizagem inclusiva e individualizada. Durante a permanência na Bélgica publicou em Portugal O Pessimismo-Semiologia e Terapêutica (1902)  e Lições de Pedologia e Pedagogia Experimental (1908) e contraiu matrimónio com uma belga.

Com a invasão da Bélgica pela Alemanha Faria de Vasconcelos fugiu para Genebra, para o Instituto Jean-Jacques Rousseau (hoje, é a Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação), onde se integrou na equipa de docentes de Ferrière, Claparède  e Bovet no ano letivo de 1914/15, tendo sido assistente do Laboratório de Psicologia Experimental e secretário do Bureau International des Écoles Nouvelles, pelo que não é de estranhar que quando em 1921 editou a primeira série dos seus Problemas Escolares tenha feito a dedicatória para Pierre Bovet e Edouard Claparéde.

Por indicação de Ferrière foi  para Cuba, de 1915  até 1917, onde como Inspetor Especial do Ministério da Beneficência orientou a Reforma Pedagógica, assim como fundou Escolas Novas. Daqui seguiu para a Bolívia, para gerar Escolas Novas, em La Paz e em Sucre, tendo exercido funções como professor e diretor da Escola Normal Superior de La Paz, na qual fundou a secção de Psicologia, bem como dirigiu a Escola Normal Mista de Precetores em Sucre, onde criou  o  Curso de Organização e Direção de Escolas. Foi também na Bolívia que conheceu Celsa Quiroga, com quem casou em 1923 e de quem teve dois filhos.

Regressou a Portugal em dezembro de 1920 para ser Professor de Pedagogia na Escola Normal Superior. Ligou-se também à revista Educação Popular da Universidade Popular Portuguesa,  à Seara Nova e ao jornal A Batalha. A partir de 1922 tornou-se docente da Faculdade de Letras de Lisboa e regente do curso de Psicologia Geral, a cujo propósito publicou Lições de Psicologia Geral (1924), uma súmula das suas aulas. Refira-se ainda que os seus artigos sobre «Bases para a Solução dos Problemas da Educação Nacional», estiveram na base da proposta de Lei de Bases da Educação Nacional apresentada pelo Ministro João Camoesas ao Congresso da República em 1923.

Em 1925 fundou em Lisboa o Instituto de Orientação Profissional, e se torna o estratega da Orientação Escolar e Profissional, ao mesmo tempo que cria a Biblioteca de Cultura Pedagógica. Concluiu que a população criminosa tende a ter a mesma curva de distribuição da inteligência que a restante população e defende que «O combate ao crime para surtir efeitos tem que remontar até à infância, idade capital na formação do indivíduo.» Passados seis anos, em articulação com o Instituto de Reeducação Mental e Pedagógica participou na organização do Instituto Dr. Navarro de Paiva, atento aos 30% a 40 % de alunos com dificuldades de aprendizagem.

Freguesia do Beato
(Planta: Sérgio Dias)