José Régio e o Sanatório da Alameda das Linhas de Torres Vedras

Em 1961
(Foto: Artur João Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

Em novembro de 1966 José Régio ficou internado em Lisboa no antigo Sanatório do Lumiar, na Alameda das Linhas de Torres, diagnosticado com uma afeção pulmonar. Aí permaneceu cerca de quatro meses tendo regressado a Vila do Conde em março de 1967.

Esse tempo de internamento, conforme relatou em carta a Adolfo Casais Monteiro, em 11 de Julho de 1968, virou-o mais para o desenho do que para a escrita: « Durante esses meses, quase não consegui escrever nada. […] Quando digo que nada, então me vinha para o papel não estou a ser exacto: vinham-me desenhos, a que chamava então os meus poemas. »

Sito na então Alameda do Lumiar, o Sanatório do Lumiar ou Hospital de Repouso de Lisboa foi inaugurado em fevereiro de 1910, no espaço de uma quinta, recebendo a denominação D. Carlos I. Em 1926, o Sanatório Popular D. Carlos I tinha 64 camas. Nele trabalhou muitos anos o médico e escritor Prista Monteiro. Em 1932, a  lotação aumentou para 182 camas, com o acrescento de dois pavilhões, um financiado pelo casal Lambert de Morais e outro graças a um grupo de senhoras que promoveu festas e peditórios para conseguir o montante necessário. Em 1975, o então denominado Centro Sanatorial do Lumiar passou pelo Decreto-Lei 260/75 a ser o Hospital  Central de Pulido Valente e e hoje está integrado no Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte.

Por deliberação camarária de 3 de agosto e consequente Edital municipal de 7 de agosto de 1911,  a Alameda do Lumiar passou a denominar-se Alameda das Linhas de Torres, no âmbito do centenário das  Linhas de Torres Vedras, construídas em 1810, para defender militarmente Lisboa das invasões francesas.

Esta artéria de saída de Lisboa para norte, fazia a  ligação com a Estrada para Torres Vedras pelo que foi a escolha para homenagear os combatentes das Linhas de Torres Vedras e, tanto mais que o mesmo Edital de 1911 também homenageou Neves Costa, engenheiro militar que participou no estudo dessas mesmas Linhas militares.

As Linhas de Torres Vedras ou simplesmente Linhas de Torres  integram o conjunto de fortificações da península de Lisboa que no contexto da Guerra Peninsular foram concebidas para impedir um exército invasor de atingir a capital ou, em caso de derrota, permitir a retirada, em segurança, do Exército Britânico.

A ordem para a sua construção foi dada em outubro de 1809,  por Arthur Wellesley, então comandante do exército anglo-luso e o oficial do exército de Wellington responsável pelos trabalhos de engenharia era o Coronel Richard Fletcher. Já em 1807, Junot encarregara o coronel de engenharia Vincent de estudar a defesa de Lisboa e, na execução dessa tarefa esteve o major de engenharia José Maria das Neves Costa e,  após a expulsão das tropas francesas foram feitas diligências pelas autoridades portuguesas no sentido de fazer o levantamento topográfico que servisse de base aos trabalhos da defesa de Lisboa, comissão em que esteve novamente Neves Costa, que já em 1801 publicara Observações sobre o plano de ataque e defesa do reino de Portugal em relação à sua Geografia e topografia.

Na Terceira Invasão Francesa foram as Linhas de Torres Vedras que impediram o exército de Massena de atingir Lisboa e acabaram por provocar a sua retirada de Portugal.

Desenho de José Régio realizado no decorrer do internamento
(Imagem: © CER)

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Régio, «As Encruzilhadas de Deus» e a Alameda António Sérgio

Publicado em 1936
(Imagem: © CER)

José Régio publicou em 1936 As Encruzilhadas de Deus, com capa e desenhos do seu irmão Júlio, nas Edições Presença – Atlântida de Coimbra e enviou esta obra a António Sérgio que lhe retribuiu com o seu parecer, em carta datada de 21 de setembro de 1936, escrita na Pensão Colaço de Alcoentre, sendo sabido que os dois escritores se corresponderam entre 1933 e 1958.

Desde a estreia de Régio em 1926 com Poemas de Deus e do Diabo, que o poeta vilacondense terá delineado manter a temática religiosa e foi assim reunindo os poemas que produzia neste âmbito, para intitular «Novos Poemas de Deus e do Diabo» mas de que acabou por resultar cerca de dez anos o novo título de 1936, por muitos considerado uma obra-prima com a sua poesia torrencial, reflexiva, lírica e dramática. Também em 1926, de  23 a 26 de abril, realizaram-se na Lusa Atenas sessões de divulgação da Seara Nova, dinamizadas por António Sérgio, a que  José Régio assistiu tendo depois colaborado na revista até 1940, ano em que António Sérgio e Mário de Azevedo Gomes abandonaram a da revista embora António Sérgio tenha regressado em 1947 e Régio em 1949, no n° 1116, de 28 de maio de 1949. Nesse ano de 1949, José Régio escreveu o artigo «O recurso ao medo», anunciado pelo jornal República de 16 de Janeiro, acabando por ser publicado num pequeno volume de 64 páginas dos Serviços Centrais da Candidatura de Norton de Matos, com o título genérico de «Depoimento contra Depoimento», numa clara alusão ao discurso «O meu Depoimento», de Salazar, de 7 de janeiro de 1949, no Palácio da Bolsa do Porto.

(Foto: © CER)

António Sérgio, cujo cinquentenário da morte passa este ano, deu nome à Alameda António Sérgio na Freguesia de Santa Clara, onze anos após o seu falecimento, artéria que liga a Rua Jorge de Sena à Rua Vitorino Nemésio, atribuída através da publicação do Edital municipal de 23 de abril de 1980, na via identificada urbanisticamente como Impasse 1 e 2 da Quinta de Santa Clara à Ameixoeira.

António Sérgio de Sousa Júnior (Índia – Damão/03.09.1883 – 12.02.1969/Lisboa) foi um importante pensador do século XX, que em Portugal lançou a ideia do Cooperativismo, mas cuja vasta obra abarca também a teoria do conhecimento e a filosofia política, a pedagogia e a filosofia da educação, assim como a filosofia da história. Radicado em Lisboa desde 1893,  estudou no Colégio Militar, na Escola Politécnica e na Escola Naval, tendo sido oficial da Marinha Portuguesa até 1910.

A partir da implantação da República em 1910, António Sérgio dedicou-se ao mundo editorial, como colaborador da revista Águia (1910), onde conheceu Teixeira de Pascoais e Fernando Pessoa, para no ano seguinte ser o diretor da revista Serões. Em 1918-1919 ( durante o consulado sidonista), fundou e dirigiu a revista Pela Grei, para a qual convocou diversos especialistas para apresentar um programa de Fomento Nacional; a partir de 1923, colabora na revista Seara Nova, como membro da direção  com Raúl Proença e Jaime Cortesão, sendo assim convidado para ministro da Instrução no governo de Álvaro de Castro, onde se manteve apenas dois meses, tempo que lhe foi suficiente para criar o ensino para deficientes, o cinema educativo e o Instituto Português para o Estudo do Cancro (decreto de 29/12/1923).

Integrou também o grupo da Biblioteca Nacional a partir do qual  lançará em 1924 a revista Lusitânia (1924), sendo  mais tarde o diretor da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Depois, residiu na Travessa do Moinho de Vento, no Bairro da Lapa, de 1926 a 1969,  numa habitação traçada pelo Arqt.º Raúl Lino, com excepção do exílio parisiense de 1926 a 1933.

Por outro lado, António Sérgio para além de teórico de pedagogia foi também professor, quer ao ministrar lições particulares na residência de alunos durante o exílio parisiense – após a subida ao poder de António Oliveira Salazar e, de onde passou para Madrid, até ter sido abrangido por uma amnistia- quer em Portugal, como docente de português no Liceu  Pedro Nunes e da Universidade de Santiago de Compostela, em 1932.

Da sua vasta obra destaquem-se Notas sobre os Sonetos e as Tendências Gerais da Filosofia de Antero de Quental (1909), Educação Cívica (1915), Bosquejo da História de Portugal (1923), O Desejado (1924), O Seiscentismo (1926), História de Portugal (1926), Cartesianismo Ideal e Cartesianismo Real (1937), Introdução Actual ao Problema Cooperativista (1937), Antero de Quental e António Vieira (1948), Antologia Sociológica (1956), oito volumes de Ensaios (1920-1958) e Democracia (edição póstuma em 1974).

A título póstumo foi agraciado com a Ordem da Liberdade (Grande Oficial em 30 de junho de 1980) e a Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (Grande Oficial em 3 de agosto de 1983) e nessa mesma década, a sua casa da Lapa, passou a servir a Biblioteca do INSCOOP e a Biblioteca António Sérgio, para além do seu nome ser o de um Prémio Cooperação e Solidariedade que a CASES criou em 2012 para distinguir pessoas singulares ou coletivas na Economia Social.

Na sua vida pessoal, António Sérgio casado com Luísa Epifâneo da Silva que chegou a assinar escritos pedagógicos como Luísa Sérgio.

Carta de António Sérgio a José Régio (Foto: © CER)
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Publicação municipal da Alameda Coronel Marques Júnior

A publicação municipal de toponímia referente à Alameda Coronel Marques Júnior, hoje distribuída no decorrer da inauguração oficial deste arruamento, na Freguesia das Avenidas Novas, já está online

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Inauguração da Alameda Coronel Marques Júnior no próximo dia 3 de julho

Na próxima quarta-feira, dia 3 de julho, data do 73 º aniversário de nascimento do Capitão de Abril Marques Júnior, a Câmara Municipal de Lisboa vai inaugurar às 12:00 horas, uma Alameda com o seu nome, na freguesia das Avenidas Novas.

António Marques Júnior (1946 – 2012), participante  desde a primeira hora na revolução de 25 de Abril de 1974, desde as primeiras reuniões de oficiais em setembro de 1973,  integrou a Comissão Coordenadora do Programa do MFA e foi o mais jovem membro do Conselho da Revolução. A partir de 1985 foi eleito deputado para a Assembleia da República, inicialmente pelo PRD, mas a partir de 1991, integrando listas socialistas até ao ano de 2011.

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A Alameda do primeiro rei português, Dom Afonso Henriques e o 1º dia das Festas de Lisboa’19

Freguesias da Penha de França, de Arroios e, do Areeiro

Nos 120 metros de largura e cerca de 640 metros de comprimento da Alameda Dom Afonso Henriques vai decorrer hoje, a partir das 19:30, o espetáculo de abertura das Festas de Lisboa deste ano, com uma travessia na corda bamba, a 30 metros de altura: o Linhas Voadoras – Abertura Festas de Lisboa’19.

Esta ampla Alameda que homenageia o 1º Rei de Portugal, Afonso Henriques (Guimarães/25.06.1109 ou Viseu/05.08.1111-06.12.1185/Coimbra), já constava de um plano de urbanização aprovado em sessão de câmara de 7 de abril de 1928 mas só passou a topónimo pelo Edital municipal de 31 de março de 1932.

Pelo mesmo Edital e na mesma zona foi atribuída a Avenida Dom João I (na Avenida nº 21), a homenagear outro monarca, o primeiro rei escolhido pelo povo de Lisboa, no decorrer da crise de 1383-1385. Contudo, o Edital municipal de 29 de julho de 1948 transformou-a na que hoje conhecemos como Avenida Marconi, para perpetuar o Nobel da Física de 1909 e criador da Telegrafia Sem Fios, a TSF. Ainda no Edital de 1932 foram dados diversos topónimos de atores que ainda hoje lá encontramos – a  Rua Actor Isidoro (Rua nº 6-A), a Rua Lucinda do Carmo (Rua nº 10) e a Rua Actriz Virgínia (Rua nº 11)- , bem como a Rua Actor Epifânio (Rua nº 1) que nunca saiu da planta de papel e nunca foi construída, tal como aconteceu com a Rua Rui Chianca (Rua nº 22), que perpetuava um popular escritor falecido no ano anterior, em 1931.

A Alameda Dom Afonso Henriques está desde 1936 encimada pelos edifícios do Instituto Superior Técnico, da autoria de Pardal Monteiro. Depois desce num vale e ao subir novamente fecha com a Fonte Luminosa, uma das obras monumentais do Estado Novo, do traço dos irmãos arquitetos Carlos e Guilherme Rebelo de Andrade, concebida em 1938 e inaugurada em maio de 1948, ao mesmo tempo fornece um miradouro sobre a obra realizada. Entre os anos de 1936 e 1946, foram sendo erguidos ao longo desta Alameda  um conjunto de blocos de habitação.

Afonso Henriques (Guimarães/25.06.1109 ou Viseu/05.08.1111-06.12.1185/Coimbra), filho do Conde Dom Henrique e de Dona Teresa de Leão, que ficou na história portuguesa com o cognome de «O Conquistador», foi o primeiro rei de Portugal. Em 1139, após a vitória na batalha de Ourique proclamou-se Rei de Portugal, apoiado pelas suas tropas. Em 1143, o Tratado de Zamora reconhece a independência do território e Afonso Henriques passa a usar o título de Rei e declara vassalagem à Santa Sé, o que vem a ser confirmado em 1179 por bula papal que reconhece o reino de Portugal.

Freguesias da Penha de França, de Arroios e, do Areeiro

 

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Alameda da Música e MynameisnotSEM unidos pelas paisagens sonoras no Muro’19

A Alameda da Música, nascida para ligar várias artérias de um bairro que a edilidade quis com toponímia ligada à música, o que desde logo ficou expresso no mobiliário urbano do seu Parque Infantil, e o artista MynameisnotSEM, cuja última exposição inspirada em música eletrónica se intitula Soundscapes e que no âmbito da 3ª edição do Festival de Arte Urbana de Lisboa vai realizar workshops de pintura para o moradores e visitantes do MURO’19, são o exemplo da simbiose da comunidade local, toponímia, arte urbana e sonoridades musicais que são o mote do diálogo criativo do MURO deste ano, no Lumiar.

Foto de perfil de mynameisnotsem

O residente em Matosinhos MynameisnotSEM, nascido Filipe Granja no Porto em 1989, é um designer e artista urbano cuja obra se  caracteriza por uma pintura abstrata de mistura de padrões e linhas, em cores contrastantes, num minimalismo contemporâneo inspirado por música eletrónica também contemporânea. Licenciado em Design de Comunicação e Multimédia pela Escola Superior Artística do Porto, onde também concluiu um Mestrado em Design de Imagem, tendo realizado o trabalho de investigação A Street Art como ferramenta da perpetuação da memória coletiva do espaço, realiza visitas guiadas a espaços de arte mural enquanto curador e produtor de eventos de Arte Urbana, produz pinturas murais e quadros originais em diversos suportes, dinamiza o Festival DESENLATA e o mural FLASH, para além de desde 2016 ser o produtor artístico do BECUH Porto – Badass Experiences by Creatives from Urban Habitat.

A Alameda da Música que começa na Avenida Carlos Paredes  e atravessa a Rua Tomás Del Negro e a Rua Luís Piçarra até terminar na Avenida David Mourão-Ferreira foi atribuída através do Edital municipal de 4 de agosto de 2004, no arruamento interior da Malha 15 do Alto do Lumiar, procurando assim a edilidade promover em seu redor um pólo toponímico ligado à música.

Aliás, esta Alameda da Música foi inaugurada no dia Dia Mundial da Música de 2004, com mais outros 7 topónimos de figuras ligadas à música, a saber: a Rua Adriana de Vecchi (Violoncelista/1896 – 1995) dedicada a uma instrumentista e professora de música; a Rua Arminda Correia (Cantora/1903 – 1988) e a Rua Luís Piçarra (Cantor/1917 – 1999) que ali fixaram cantores líricos; a que se juntaram mais 4 compositores, através da Rua Belo Marques (Músico/1898 – 1987), da Rua Nóbrega e Sousa (Músico/1913 – 2001), da Rua Shegundo Galarza (Músico/1924 – 2003) e da Rua Tomás Del Negro (Músico/1850 – 1933).

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O Quartel da EPAM, a RTP e a Alameda das Linhas de Torres

A Capital, 25 de abril de 1974, edição das 12 horas

Pelas 02H50, saiu da Escola Prática de Administração Militar uma força com o objetivo de ocupar os estúdios da  Rádio Televisão Portuguesa, na Alameda das Linhas de Torres, ao Lumiar. Estiveram envolvidos cerca de 100 militares, comandados pelo capitão Teófilo Bento.

Na madrugada do dia 25 de abril de 1974, após a audição de Grândola, Vila Morena de José Afonso, foi controlada a EPAM – no nº 179 da Alameda das Linhas de Torres -, de onde saiu uma força de 130 homens comandada pelo capitão Teófilo Bento, que ocupou Mónaco com êxito e sem incidentes, isto é, ocupou os estúdios da RTP, no nº 44  da mesma Alameda das Linhas de Torres, impedindo a sua utilização pelas forças do regime e colocando-os ao serviço do MFA, que passou a transmitir regularmente pelas 19:00, com a imagem e a voz de Fernando Balsinha e de Fialho Gouveia. Na madrugada do dia 26 de abril é através da RTP que se transmite a proclamação ao país da Junta de Salvação Nacional, presidida pelo General António de Spínola.

Esta Alameda das Linhas de Torres, que hoje vai do Campo Grande à Estrada da Torre, nasceu após a implantação da República, através do Edital municipal de 7 de agosto de 1911, na artéria que era a Alameda do Lumiar, para homenagear na memória do local os combatentes das Linhas de Torres Vedras, erguidas em 1810 para defender militarmente Lisboa das invasões francesas e tanto mais que este arruamento fazia a ligação com a Estrada para Torres Vedras. O mesmo Edital de 1911 também homenageou Neves Costa, engenheiro militar que participou no estudo das mesmas.

As Linhas de Torres Vedras ou simplesmente Linhas de Torres  integram o conjunto de fortificações da península de Lisboa que no contexto da Guerra Peninsular foram concebidas para impedir um exército invasor de atingir a capital ou, em caso de derrota, permitir a retirada, em segurança, do Exército Britânico. A ordem para a sua construção foi dada em outubro de 1809,  por Arthur Wellesley, então comandante do exército anglo-luso, sendo o Coronel Richard Fletcher o oficial do exército de Wellington responsável pelos trabalhos de engenharia. Já em 1807, Junot encarregara o coronel de engenharia Vincent de estudar a defesa de Lisboa e na execução dessa tarefa esteve o major de engenharia José Maria das Neves Costa. Após a expulsão das tropas francesas foram feitas diligências pelas autoridades portuguesas no sentido de fazer o levantamento topográfico que servisse de base aos trabalhos da defesa de Lisboa, comissão em que esteve novamente Neves Costa, que já em 1801 publicara Observações sobre o plano de ataque e defesa do reino de Portugal em relação à sua Geografia e topografia. Refira-se ainda que na Terceira Invasão Francesa as Linhas de Torres Vedras impediram o exército de Massena de atingir Lisboa e acabaram por provocar a sua retirada de Portugal.

A Capital, 26 de abril de 1974

 

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Alameda Padre Álvaro Proença

Alameda Padre Álvaro Proença, topónimo atribuído por Edital de 28 de Fevereiro de 1984 a um arruamento da freguesia de Benfica

Álvaro Proença (1912-1983). Padre, professor e escritor. Ordenou-se padre após o curso feito no Seminário de Santarém. Nos anos 40 do século XX, foi professor na Casa Pia de Lisboa e na Escola Industrial Afonso Domingues (Marvila). A sua carreira eclesiástica desenrolou-se na área de Lisboa tendo sido Capelão Naval, Capelão da Casa Pia de Lisboa, Reitor da Igreja da Madre de Deus e pároco de Santa Maria de Loures. Enquanto esteve à frente desta paróquia interessou-se pela história local, tendo publicado em 1940, Subsídios para a história do Concelho de Loures. No ano seguinte escreve Como o povo reza: etnografia, em 1940, Raínha Nossa: coro falado, e em 1949 A grande colheita: coro falado para a festa das colheitas. Por toda a década de 50 publicará várias pequenas obras dedicadas à catequese de jovens e à oração: A nossa oração, Compêndio de Religião e Moral, Nossa Mãe e nossa Vida, Nossa Fé e nossa Lei, A hora triunfal: coro falado e Missal da Juventude.

A partir de 1955 é nomeado pároco de Nossa Senhora do Amparo de Benfica, lugar que manterá até à sua morte em 1983. Dedica-se à sua paróquia promovendo uma renovação da vida paroquial. Logo nesse ano funda o Boletim da Família Paroquial de modo a aproximar a igreja dos seus fiéis. Em 1958, lança o primeiro peditório para a construção dum Centro Paroquial e Social, a ser edificado no lado poente da Igreja, o que se veio a realizar, depois de apresentados vários projectos, em 1959, e terminada a segunda fase em 1964. O Centro destinava-se às actividades próprias da vida paroquial (cartório, casa paroquial, etc.), mas também, previa, desde o início, uma Creche, Jardim Infantil, Biblioteca, Salas de Aulas e Salão Paroquial. É durante o seu ministério que se iniciam os Cursos de Preparação para o Matrimónio, que se institui a Obra da Sagrada Família (para a promoção da oração em família), que se cria o Grupo de Recepção e Acolhimento, se formaliza o grupo de Leitores para a Eucaristia, e se cria o Apoio Pastoral que ainda hoje funcionam. A partir das emissões de televisão, em 1957, cria também um dos primeiros Cineclubes de Lisboa, que funcionava na paróquia.

Mas o seu interesse por Benfica levou-o igualmente, à semelhança do que já havia feito para Loures, a investigar a história desta freguesia. Em 1964 saiu a sua grande obra: Benfica através dos tempos. O Padre Álvaro Proença, ao longo de quase 600 páginas, procurou fazer a história da paróquia, da sua igreja, mas também do seu povo, usos e costumes, de aspectos da vida social, do património edificado da freguesia, das feiras e festas, entre outros temas. Benfica através dos tempos tornou-se, assim, uma obra fundamental para quem quer estudar esta zona e um excelente exemplo de como a olisipografia se pode dedicar a uma pormenorizada história de uma parte da cidade.

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A Alameda da Quinta de Santo António de Telheiras

Pormenor da Quinta de Santo António na planta de Silva Pinto de 1907

Este topónimo preserva no sítio a memória da Quinta de Santo António e da sua Ermida de Santo António, em Telheiras, na Urbanização da Quinta de Santo António dos anos 80 do século XX.

A Alameda da Quinta de Santo António, que vai da Rua Fernando Namora à Rua Prof. Simões Raposo – no espaço que comercialmente foi denominado Parque dos Príncipes-, foi atribuída pelo Edital municipal de 25 de outubro de 1989 a um troço da Rua B da Urbanização da Quinta de Santo António a Telheiras, perpendicular à Rua A.

Como topónimo, esta Alameda da Quinta de Santo António, surgiu na sequência de um pedido da Junta de Freguesia do Lumiar para que fosse atribuído o nome do médico e investigador Prof. Luís Simões Raposo. A Comissão Municipal de Toponímia na sua reunião de 17 de outubro de 1989 colocou esse topónimo no troço da Rua B situado entre a Alameda da Quinta de Santo António e o Impasse 2 (da Urbanização da Quinta de Santo António), na mesma altura fazendo uso do troço  da mesma Rua B, com início na Rua A e perpendicular a esta, para fixar esta Alameda da Quinta de Santo António, memória de uma das quintas de Telheiras e da sua ermida.

A partir do séc. XVIII povoavam Telheiras proprietários lavradores e assalariados agrícolas, sendo estes últimos que trabalhavam nas quintas dos nobres  então conhecidos como  «os saloios de Tilheiras». Eram famosas as Quintas de São Vicente e de Santo António mas todas estas quintas de lazer possuíam um conjunto de terrenos de cultura e a casa com jardim do proprietário. Em 1758, a Quinta de Santo António pertencia a António Francisco Gorge e tinha uma Ermida dedicada a Santo António,  conforme relato do pároco Feliciano Luz Gonzaga.

Ainda segundo a mesma narrativa deste padre do Lumiar, de 4 de maio de 1758, tinha a paróquia do Lumiar 450 fogos e 2226 pessoas, ficando a um quarto de légua de distância do lugar do Campo Grande; precisa ainda que «os lugares que compreende são o do Lumiar que tem 188 fogos e 93 pessoas, o de Tilheyras em que se acham 92 fogos e 440 pessoas, o do Paço com 122 fogos e 603 pessoas, tem mais 2 lugares pequenos que são a Urmeyra que tem 5 fogos e 34 pessoas, e a Torre do Lumiar que tem 19 fogos e 104 pessoas, e os mais fogos que tem que são 24 em que habitam 142 pessoas são em várias quintas que se acham pelos limites desta freguesia».

Mais tarde, na planta de Silva Pinto de 1907 ainda está assinalada a Quinta de Santo António, bem como a Quinta dos Ingleses e a Quinta da Torre do Fato e ainda depois, nas plantas municipais  de 1967 do plano de urbanização da malha de Telheiras ainda aparece a Quinta de Santo António.

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Alameda do Beato António

Freguesia do Beato
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Alameda do Beato deve o seu nome ao Convento do séc. XVI que ali foi mandado erguer por Filipe I, sob a coordenação do  cónego Frei António da Conceição, que depois foi beatificado.

Inicialmente,  dada a sua configuração, esta artéria era vulgarmente conhecida por Largo do Beato e é com essa denominação que aparece na planta de Filipe Folque de 1858, tal como sucede na planta municipal de calçadas e canalizações de 1871. Já na planta de 1908 que Silva Pinto executou para a CML é referida como Alameda do Beato e era o local onde no início do século XX se realizavam arraiais, conforme se encontra na documentação municipal.

O Convento do Beato António, como ficou conhecido, passou para a toponímia em redor e assim está ainda hoje na Rua do Beato ( freguesias de Marvila e do Beato ), na Travessa da Alameda do Beato ( freguesia do Beato ), na Travessa do Olival ao Beato ( Beato ) e até a própria denominação da Freguesia onde se insere esta Alameda.

Freguesia do Beato
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O homenageado neste topónimo é o Frei António da Conceição (Évora/1520 – 1602/Lisboa), que após a beatificação ficou conhecido como Beato António e foi neste sítio o responsável pela construção do novo Convento de S. Bento de Xabregas, a mando de Filipe I. Terá sido tão importante o seu papel que o próprio mosteiro ficou conhecido pelo nome de quem dirigiu a obra.

Desde o séc. XV que existia neste local uma Ermida de S. Bento, propriedade dos frades de Alcobaça no no reinado de D. João I. Em 1461, para dar execução ao testamento da sua falecida esposa D. Afonso V mandou construir no local um hospício-convento que entregou aos religiosos de Vilar de Frades, da Congregação dos Lóios, conhecido até aos finais do século XVI como Convento de São Bento de Enxobregas. Mais tarde, oriundo do Convento dos Lóios de Évora veio Frei António da Conceição dirigir a construção de um sumptuoso convento sobre o primitivo edificado. Segundo a tradição, o frade ganhou fama de milagreiro por ter conseguido erguer a  obra com poucos recursos monetários. Como após falecer, o frade ganhou estatuto de homem santo vindo a ser beatificado no século XVIII, tanto o convento como o sítio passaram a denominar-se Beato António.

Em 1622 ficou pronto o panteão da família dos Condes de Linhares numa nova capela-mor deste templo. O convento quase não foi atingido pelo terramoto de 1755 e acolheu os religiosos do vizinho Convento dos Lóios, passando também a sede da paróquia de São Bartolomeu ao Castelo. Com a extinção das ordens religiosas, em 1834, o templo foi convertido em hospital militar, embora tenha ardido pouco depois, em 1840. O que ficou de pé foi adquirido pelo industrial João de Brito que aí montou um armazém de vinhos, uma oficina de carpintaria e tanoaria e ainda, uma fábrica de moagem a vapor, que a partir de 1849 a Rainha D. Maria II autorizou que usasse como nome de marca «A Nacional».

Nos últimos anos do século XX, o espaço do convento começou a ser usado em eventos de índole cultural e social.

(Foto: Henrique Cayolla, sem data, Arquivo Municipal de Lisboa)