A Rua Eugénio Salvador, o ator-dançarino e futebolista

Freguesia de Carnide
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Eugénio Salvador, que trabalhou sobretudo em teatro de comédia,  foi também ator de cinema no período longo de 1930 a 1992, em cerca de uma vintena de filmes, e desde a publicação do Edital municipal de 7 de setembro de 1993 que é o topónimo da que era a Rua A do Bairro da Horta Nova, no troço compreendido entre o lote 11 e a Estrada do Paço do Lumiar.

Foto: Artur Bourdain de Macedo, Arquivo Municipal de Lisboa

Eugénio Salvador Marques da Silva (Lisboa/31.03.1908 – 01.01.1992/Lisboa), filho do cenógrafo e empresário teatral Luís Salvador Marques da Silva e de Eugénia Maria Dias,  formou-se em Arte de Representar no Conservatório de Lisboa,  e depois especializou-se em comédia, o género que nunca mais abandonou, para além de ser dançarino e coreógrafo. Fez a sua estreia profissional em 1928, no Teatro Maria Vitória, na peça O Grão de Bico,   construindo-se como uma figura importante do teatro de revista, conseguindo ser compère, ator, encenador, diretor de cena, bailarino, ensaiador coreográfico e artista de variedades. No teatro, somou mais de 100 peças na sua carreira, de 1949 a 1988.

Destaque-se que em 1951, para a inauguração do Teatro Monumental, com a opereta de Strauss As três valsas, Eugénio Salvador para além de ator foi o ensaiador coreográfico, nomeadamente de Laura Alves, assim como seis anos depois, foi o encenador da comédia musical João Valentão (1957), onde dirigiu Mariana Vilar. Passou também pela televisão em programas como A TV Através dos Tempos ou A Feira.

No cinema, Eugénio Salvador começou logo em 1930,  numa rábula com Chaby Pinheiro e Beatriz Costa no Lisboa, Crónica Anedótica, de Leitão de Barros, realizador com quem também trabalhou no Maria Papoila (1937). Depois, integrou os elencos de mais cerca de 20 longas-metragens, em que contracenou diversas vezes com Milú e António Silva. Esteve em Cais do Sodré (1946) de Alejandro Perla. Com Perdigão Queiroga,  fez Fado, História d’uma Cantadeira (1948), Sonhar É Fácil (1951), Madragoa (1952), Os Três da Vida Airada (1952) em que também coreografou, As Pupilas do Senhor Reitor (1961) e O Parque das Ilusões (1963). Foi ator de Sol e Touros (1949) de José Buchs, de Eram Duzentos Irmãos (1952) de Armando Vieira Pinto, Um Marido Solteiro (1952) de Fernando Garcia, O Comissário de Polícia (1953) de Constantino Esteves,  Vidas Sem Rumo (1956) de Manuel Guimarães, Aqui Há Fantasmas (1964) e Bonança & C.a (1969), ambos de Pedro Martins e por último, em Aqui D’El Rei! (1992) de António Pedro Vasconcelos. Refira-se que com Henrique Campos fez ainda Duas Causas (1953), A Maluquinha de Arroios (1970) e O Destino Marca a Hora (1970).

Refira-se ainda que Eugénio Salvador foi também um exímio dançarino, que ficou conhecido a partir da sua parelha Lina & Salvador, que por exemplo, se exibia nos intervalos das sessões de filmes duplos, no Cinema Éden. Casou com o seu par, Lina Duval, de quem teve um filho (António Manuel Salvador Marques). Mais tarde, foi casado com a atriz Odete Antunes.

Por último, diga-se que o futebol, também fez parte da vida de Eugénio Salvador, jogando a extremo-esquerdo desde a  inauguração do Campo das Amoreiras do Sport Lisboa e Benfica, em 13 de dezembro de 1925. Nesse  clube fez 43 jogos e marcou 20 golos, entre outubro de 1927 e junho de 1934.

Eugénio Salvador é também topónimo nos concelhos de Almada (uma Rua, uma Travessa e uma Praceta na Charneca de Caparica), Amadora (São Brás), Cascais (Parede), Montijo, Seixal (Arrentela), Odivelas (Pontinha) e Oeiras (Queijas).

Freguesia de Carnide
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua do singular João César Monteiro

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O singular João César Monteiro está homenageado numa Rua de Marvila desde a publicação do Edital municipal de 1 de Agosto de 2005, no que era o  arruamento no prolongamento da Rua J 13 à Azinhaga da Salgada, uma artéria paralela à Rua Artur Duarte e perpendicular à Rua Chianca de Garcia, juntando assim três cineastas na mesma zona.

O singular João César Monteiro (Figueira da Foz/02.02.1939-03.02.2003/Lisboa), que afirmou em entrevista de 01/09/1995 que O cinema não tem consolo. Porque é película e a película nem sequer é tão saborosa como um gelado, produziu ao longo de 35 anos uma cinematografia que soma 21 filmes, amplamente premiada a nível nacional e internacional, que foi amada por uns e ignorada por outros, mas que não deixou ninguém indiferente.

Aos 16 anos de idade, Monteiro veio viver para Lisboa e tornou-se cineclubista. A partir da década seguinte, os anos 60, iniciou-se na crítica cinematográfica em jornais e revistas da especialidade, assim como numa carreira ligada ao cinema, quer como assistente de realização de Perdigão Queiroga (1961) no filme O Milionário, quer através da frequência da London School of Film Technique (1963), como bolseiro da Gulbenkian. Em 1965, começou a rodar o seu primeiro filme, Quem espera por sapatos de defunto morre descalço, que terminou apenas em 1971, e que nunca chegou a ser distribuído comercialmente em salas de cinema, já que os cortes impostos pela Censura teriam desfigurado a película pelo que só foi estreado em Portugal a 9 de junho de 1979, na RTP 2, quando esta era dirigida pelo também cineasta Fernando Lopes.

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

João César Monteiro realizou ainda uma curta-metragem de 17 minutos com Sophia de Mello Breyner Andresen,  em 1968-1969 mas só estreada em 1972, no Apolo 70. Por ordem cronológica,  a cinematografia Monteirista conta com mais os seguintes filmes: Fragmentos de um Filme-Esmola: A Sagrada Família (1972); Que Farei com Esta Espada? e Amor de Mãe, ambos em 1975; Veredas em 1977 e mais três curtas-metragens para a RTP 2: Os Dois Soldados, O Amor das Três Romãs e O Rico e o Pobre; Silvestre (1981), a história da donzela do século XV que foi à guerra fazendo-se passar por mancebo; À Flor do Mar (1986), história de uma mulher que quer deixar Portugal por o país nada ter para lhe oferecer; a trilogia de João de Deus, espécie de alter-ego do realizador e interpretado por ele mesmo, iniciada com Recordações da Casa Amarela (1989), que continuou em 1995, com A Comédia de Deus e terminou em 1999, com As Bodas de Deus; as deambulações lisboetas de um jovem e um velho marinheiro pelas festas populares de Santo António fazem O Último Mergulho (1992); em 1995 foi a vez de três curtas-metragens intituladas Passeio com Johnny Guitar, Lettera amorosa e O Bestiário; seguiu-se Le Bassin de John Wayne ( 1997) onde regressa o personagem Jean de Dieu; o ano 2000 acolheu o controverso Branca de Neve e, o seu último filme, intitulado Vai e Vem (2003), foi estreado três meses após a sua morte, numa sessão do Festival de Cannes que o homenageava, tendo sido rodado no bairro lisboeta entre o Príncipe Real e São Bento, onde João César Monteiro vivia e era conhecido como o senhor da Casa Amarela.

Refira-se que João César Monteiro foi também escritor, autor de Corpo Submerso (1959), Morituri Te Salutant (1974), Le Bassin de John Wayne/As Bodas de Deus  (1998) e de  Uma Semana Noutra Cidade-Diário Parisiense (1999).  A partir de 2014, com coordenação de Vítor Silva Tavares, começaram a ser publicados os 5 volumes de Obra Escrita, que reúne todos os seus textos, guiões de filmes, críticas de cinema e correspondência do realizador.

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua Reinaldo Ferreira, da Invicta Filmes, da Repórter X Film e do cinema mudo

A Rua Reinaldo Ferreira em 1968
(Foto: João H. Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

Reinaldo Ferreira,  jornalista, escritor de ficção e realizador do cinema mudo que usou o pseudónimo de Repórter X, é o topónimo de uma Rua de Alvalade, desde a publicação do Edital municipal de 13 de dezembro de 1963 no que outrora era um troço da Estrada da Portela, compreendido entre a Rua Ricardo Jorge e a Avenida do Brasil.

Cerca de 18 anos passados sobre o falecimento do Repórter X, em 1963, a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa, recebeu sugestões da inclusão do seu nome na toponímia lisboeta, quer publicadas pelo quinzenário Correio das Ilhas e pelo jornal A Voz, quer por cartas de Júlio Madeira e de Jorge Ramos, a que a edilidade alfacinha deu provimento no final desse ano.

Freguesia de Alvalade
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Reinaldo Ferreira (Lisboa/10.08.1897 – 04.10.1935/Lisboa) viu a sua novela O Groom do Ritz (1923) ser adaptada ao cinema com o título  El Botones del Ritz, quando vivia em Barcelona. Quando residiu no Porto, realizou para a Invicta Filmes e para a sua Repórter X Film, financiada pelo comerciante Joaquim Alves Barbosa, os seguintes filmes : O Táxi nº 9297 (1927) com Alves da Costa como protagonista e inspirado no assassinato da corista Maria Alves, história que foi primeiro publicada em folhetim pelo Primeiro de Janeiro, assim como em livro e ainda subiu a palco; Rita ou Rito? (1927) inspirado num caso ocorrido em Aveiro que na tela se transformou em Rio Tinto Maduro e cuja personagem central é um travestiVigario Sport Club (1927), uma paródia ao mundo do futebol; Hipnotismo ao Domicílio (1927), humor sobre essa moda da época; Entrevistas Cinematográficas com Escritores e Jornalistas de Lisboa (1927)  –  com testemunhos de Norberto Lopes, Rocha Martins e Norberto de Araújo–  e O Diabo em Lisboa (1928) sendo que em junho desse ano chegou a ser noticiado que filmaria na Invicta Filmes uma película que se intitularia 9 de Abril.

Reinaldo iniciou-se no jornalismo aos 12 anos, cerca de 1909, e passados cinco, em 1914, ingressou no jornal A Capital, onde criou uma pioneira rubrica de cinema, a primeira que houve na imprensa portuguesa. Mas a partir de 1917, Reinaldo Ferreira criou mais ficção do que jornalismo. O seu livro O Mistério da Rua Saraiva de Carvalho começou nesse ano a ser publicado em folhetim nas páginas de O Século, em forma de cartas enviadas por um desconhecido e assustou os lisboetas, a ponto de o jornal ter revelado a verdade do que se estava a passar e Leitão de Barros ter procurado adaptá-lo a filme sob o título O Homem dos Olhos Tortos. No ano seguinte, foi a vez de inventar um inquérito à mendicidade, alegando ter vivido como mendigo para averiguar, publicado em A Manhã. Ainda em 1918, com ajuda de Stuart Carvalhais revolveu o quarto de uma pensão de Lisboa e publicou uma notícia em O Século de um suposto assassinato de uma estrangeira pelo marido. E no final desse ano, tendo chegado tarde para a reportagem da chegada de Sidónio Pais à Estação de comboio do Rossio e não tendo presenciado o assassinato, afirmou ter recolhido as últimas palavras do presidente: Morro bem. Salve-se a Pátria.

Em 1920,  ao serviço da filial francesa da Agência Americana, foi para Paris, cidade onde vai conhecer a morfina. Em finais de 1921, radicou-se em Barcelona. Contudo, a subida ao poder de Primo de Rivera, fez com que regressasse a Portugal, enviando de Barcelona uma última crónica a criticar o ditador espanhol. A partir de 1923, trabalhou para A Tarde e em 1925, ao serviço da ABC , foi enviado à Rússia, para acompanhar a luta entre Estaline e Trotsky após a morte de Lenine. Mas indo por Paris, à espera de visto, parece ter ficado por aí,  e foi enviando uma entrevista forjada a Conan Doyle e diversas peças, supostamente a partir de Moscovo, em que sempre encontrou portugueses, desde o porteiro do Kremlin ao homem que embalsamou Lenine. Reinaldo Ferreira inventou tanto que «reinaldices» passou a ser sinónimo de notícias falsas entre os jornalistas da época.

A partir de 1926  passou a residir no Porto e escreveu para a ABC e para O Primeiro de Janeiro,  para além de colaborar com o semanário O Domingo Ilustrado e a  revista Ilustração. Em Lisboa, ocorreu então o célebre assassinato de Maria Alves (em março de 1926) e Reinaldo aventou nos jornais que o culpado seria o ex-empresário e amante da vítima, Augusto Gomes e acertou. Ainda na imprensa, usou o pseudónimo Repórter X e fundou o semanário Homens & Factos do Dia (1929), O Jornal do Repórter X (1929), O Repórter X (1930-1933), e o semanário X (1934).

Foi também autor de inúmeras novelas e romances, sobretudo policiais e de espionagem,  como a novela Impossível (1929), previu como seriam Lisboa e Porto no ano 2000, escreveu a peça O Homem que Mudou de Cor, que foi um êxito em 1935, o mesmo ano em que prematuramente faleceu com 38 anos, num prédio do  Largo do Directório (hoje é o Largo de São Carlos).

Na sua vida pessoal, Reinaldo casou com Lucília, de quem teve  Yolanda, e Edgar Reinaldo (que ficará conhecido como Reinaldo Ferreira Filho. Separados a partir de 1928, passou a viver com Carmen Cal no ano seguinte, de quem se separou em 1935, e de quem tivera o filho Oswaldo. Em finais de 1932, foi internado para uma cura de desintoxicação e meses depois revelou nas páginas do Repórter X, a sua morfinomania, dando depois à estampa Memórias de um ex-morfinómano (1933).

Reinaldo Ferreira e as suas histórias inspiraram o filme Repórter X, de José Nascimento, estreado em 1987, assim como para além de Lisboa, também Corroios (concelho do Seixal) o acolheu na sua toponímia.

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

Pedro Bandeira Freire, fundador do Quarteto, numa Rua do Lumiar

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Com a legenda «Fundador do Cinema Quarteto/1939 – 2008», ficou Pedro Bandeira Freire a ser o topónimo da Rua Particular à Alameda das Linhas de Torres, desde a publicação do Edital municipal de 17 de março de 2017.

O cinéfilo Pedro Bandeira Freire, que fundou o Cinema Quarteto em 1975, ficou assim perpetuado na artéria da Freguesia do Lumiar que une a Alameda das Linhas de Torres à Rua Fernando Vaz, nas proximidades de diversos topónimos ligados ao Cinema, que ali foram sendo atribuídos desde que a Rua da Tobis Portuguesa ali nasceu em 1993.

Pedro Bandeira Freire (Lisboa/02.08.1939 – 16.04.2008/Lisboa), aluno do Colégio Militar, foi uma figura marcante da cultura lisboeta, que com o escritor Almeida Faria como sócio  fundou o cinema Quarteto, o primeiro complexo de quatro salas em Lisboa e no país,  com 716 lugares, em 21 novembro de 1975, no nº 16 da Rua Flores do Lima, traçado pelo Arqt.º Nuno San-Payo.

O Quarteto que usava  justamente o slogan «4 Salas / 4 Filmes», graças à programação de Pedro Bandeira Freire divulgou o mais importante cinema europeu e americano dos anos 70 e deu a conhecer em Portugal realizadores como Scorsese, Godard ou Fassbinder. Na memória dos lisboetas ficaram a exibição de A Religiosa (1967) de Jacques Rivette, um dos mais espantosos sucessos cinematográficos do pós 25 de Abril e o 2º maior êxito do Quarteto; a estreia de Martin Scorcese em Portugal com  Taxi Driver  , a partir de 15 de abril de 1977; o All That Jazz (1980) de Bob Fosse, em exclusivo e nas quatro salas, o maior êxito de sempre do Quarteto; até às maratonas de 24 horas de cinema.

Sempre amante de cinema, Pedro Bandeira Freire realizou a curta-metragem Os Lobos (1978) e o episódio televisivo O Lobisomem (1979); foi ator no Passarinho da Ribeira (1959) de Augusto Fraga e em A Bela e a Rosa (1983) de Lauro António, assim como em A Crónica dos Bons Malandros (1984), de Fernando Lopes, a partir do livro homónimo de Mário Zambujal; bem como argumentista de A Balada da Praia dos Cães (1987) de José Fonseca e Costa, a partir do romance de José Cardoso Pires; para além de ter sido crítico de cinema a partir dos anos 60,  jurado em festivais de cinema nacionais e estrangeiros, como o Internationale Filmfestspiele Berlin, colaborador da imprensa, rádio e televisão – escreveu textos para o concurso da RTP A Visita da Cornélia (1977)-, tendo exercido inclusivamente funções de consultor de cinema na RTP.

Sempre ligado à cultura de Lisboa e conhecido pelo seu sentido de humor, Pedro Bandeira Freire também  fundou a Livraria Opinião e escreveu vários livros de poesia –  como A Cidade e a Criação (1973), A linguagem do gesto (1974), Do Olhar à Palavra (1975) -, o romance Boca a boca (1998), e peças de teatro, publicadas quase na totalidade na colecção de teatro da SPA (Sociedade Portuguesa de Autores) – como O Embaixador Sem Medo (1974), As Lágrimas e os Tubarões Assinalados (1975)-Teatro, Nome de Jogo (1975) que foi Prémio Nacional da SPA ou a comédia musical Felizardo e Companhia. Modas e Confecções (1978) com Raul Solnado -, escreveu letras de canções para nomes como Simone de Oliveira e ainda deixou o volume de memórias Entrefitas e Entretelas (2007).

Pedro Bandeira Freire foi pai de Diogo, a criança que todos lembramos num cartaz do 25 de Abril a colocar um cravo no cano de uma G3.

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A Rua Chianca de Garcia, o realizador de «Aldeia da Roupa Branca»

Freguesia de Marvila
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Chianca de Garcia, o realizador de Aldeia da Roupa Branca, está desde 1984 como topónimo da Freguesia de  Marvila, tal como Artur Duarte, outro cineasta alfacinha, nas Rua L 2 e  Rua L 3 da Zona L de Chelas, pelo Edital municipal de 28 de fevereiro de 1984, tendo ambos resultado de sugestão da Cinemateca Portuguesa que a edilidade lisboeta consagrou.

Eduardo Augusto Chianca da Silva Garcia (Lisboa/14.05.1898 – 28.01.1983/Rio de Janeiro- Brasil), para além de cineasta foi também dramaturgo e jornalista, pelo que mesmo depois de se radicar no Brasil no ano de 1940, de lá continuou a enviar as suas crónicas para o  vespertino Diário de Lisboa.

Chianca de Garcia lançou em 1928, com António Lopes Ribeiro e Boto de Carvalho, a revista Imagem, em cujas páginas o segundo se bateu pelo cinema sonoro em Portugal e o primeiro acabou por dirigir a 2ª série da publicação. Como representante da imprensa cinematográfica, Chianca integrou a Comissão que em 1930 estudou e apresentou ao Ministério do Interior a proposta de criação de um estúdio para a produção de fonofilmes e para a resolução do «problema cinematográfico nacional», sendo em 1932,  um dos fundadores da Tóbis Portuguesa.

Animatógrafo, 24 de março de 1941

Como cineasta, Chianca de Garcia começou ainda no tempo do mudo, com Ver e Amar (1930). A sua obra cinematográfica prosseguiu com  Trevo de Quatro Folhas (1936) e Rosa do Adro (1938). E em 1939, consegue o seu maior sucesso com Aldeia da Roupa Branca (1939), protagonizada por Beatriz Costa, com argumento seu, planificação de José Gomes Ferreira e diálogos de Ramada Curto. Depois de radicado no Brasil, no Rio de Janeiro, são da sua autoria e dessa época as películas Pureza (1940)- a partir de um romance de José Lins do Rego – , a comédia 24 horas de sonho (1941) e o nunca concluído A Portuguesinha que pretendia fazer com Beatriz Costa. Chianca foi ainda um dos pioneiros da televisão brasileira e foi o realizador televisivo da telenovela Coração Delator (1953) para a TV Tupi.

Ainda no cinema, colaborou na realização de A Canção de Lisboa (1933) de Cottinelli Telmo – o 1º filme sonoro realizado em Portugal -, dirigiu a produção de As Pupilas do Senhor Reitor (1935) de Leitão de Barros e foi o argumentista de Appassionata (1954) do cineasta brasileiro Fernando Barros.

No teatro, com Norberto Lopes escreveu a peça A Filha do Lázaro (1923), que subiu ao palco do Politeama. Em 1937, com Tomás Ribeiro Colaço, também escreveu a revista Água Vai!, representada no Trindade. No Brasil, também foi responsável pela montagem de diversos espectáculos no Casino da Urca, no Rio de Janeiro e, por indicação de Óscar Niemeyer, organizou um cortejo histórico comemorativo do quarto centenário da Baía para a cerimónia de inauguração da cidade de Brasília (21 de abril de 1960).

Chianca de Garcia é também topónimo dos concelho de Almada, Seixal e Sintra.

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Artur Ramos, o primeiro realizador da RTP, numa Rua de Santa Clara

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Artur Ramos, o primeiro realizador efetivo da televisão portuguesa, três anos passados sobre o seu falecimento passou a dar nome a uma artéria do Vale da Ameixoeira, na Freguesia de Santa Clara.

A Rua Artur Ramos foi fixada no arruamento projetado junto à Quinta da Atalaia à Rua 6B do Vale da Ameixoeira, por intermédio do Edital municipal de 16 de setembro de 2009, com a legenda «Encenador e Realizador/1926 – 2006». Pelo mesmo Edital foram perpetuados em ruas do Vale da Ameixoeira mais dois nomes ligados ao teatro, a saber, a atriz Glicínia Quartin e o compositor de teatro de revista Frederico de Brito.

O lisboeta Artur Manuel Moreira Ramos (Lisboa/20.11.1926 – 09.01.2006/Lisboa) foi o primeiro realizador efetivo da televisão portuguesa e o responsável pelas emissões experimentais da RTP, em Palhavã, logo em 1956. A partir de 1951, cursara Realização e Montagem do IDHEC, em Paris, com uma bolsa do governo francês, cuja prova final foi a sua curta-metragem Le Bel indiférent (1954) e no ano seguinte trabalhou na televisão francesa como assistente de realização. Como cineasta,  sobressaiem os seus filmes Pássaros de Asas Cortadas (1962) e A Noite e a Madrugada (1983), a partir das obras de Luiz Francisco Rebello e Fernando Namora, bem como a série adaptada para a RTP de Retalhos da Vida de Um Médico (de 1978 a 1980), tal como Resposta a Matilde (1986) em colaboração com Diniz Machado.  Foi ainda o cineasta autor da média-metragem Before Breakfast  (1961) de E. O’Neill para a ORTF; de L’ Anglaise (1963) para a Paris Match Television; da curta Tragédia do Monte Pereira (1975); de séries de 3 episódios para a RTP: a documental Um Passeio pelo Teatro Português (1987) e A Relíquia (1987) de Eça de QueirozBâton e Vem aí o Pai Natal (ambas em 1988).

Artur Ramos também fez uma carreira muito importante de realizador de teatro televisivo. Para a RTP, logo em 1957, começa a especializar-se em teatro televisivo e escolheu obras de Tchekhov, Garrett, Anselmo Lopes Vieira, Bernard Shaw, Calderón de la Barca, Carlos Selvagem, Cervantes, Claude Spaak, Gervásio Lobato, Gil Vicente, João Pedro de Andrade, John Synge, Lope de Vega, Maeterlinck, Mark Twain, Miguel Barbosa, Oscar Wilde, Pierre Barbier, Teresa Rita,  Thortnton Wilder. Em 1958, realizou também a experiência inédita de transmitir peças teatrais em direto de cenários naturais , com o Amor Posto à Prova  de Marivaux na escadaria do Seminário dos Olivais e, O Doente Imaginário de Molière no Palácio Centeno.

Como encenador, Artur Ramos fundou as companhias teatrais GAT-Grupo de Ação Teatral e a do Teatro Maria Matos, para além de se ter destacado  por ter sido quem primeiro estreou em Portugal Os Dias Felizes, de Samuel Beckett, no ano de 1968. Trabalhou para o Teatro Nacional em 1961, 1967 e 1969; para Solnado no Teatro Villaret em 1965 e 1966; bem como na dramaturgia de ópera, no Grupo Experimental de Ópera de Câmara (1963, 1968 e 1969) que fundou. Em 1972, foi proibida a sua A Mãe, bem como Auschwitz, Oratório em 11 cantos foi retirada de cena pela PIDE. No ano seguinte, ganhou o 1º prémio do concurso da FNAT, com o Retábulo do Flautista, pelo Grupo Teatro da Oliva (de São João da Madeira), de imediato proibida pela censura. Voltou ao teatro a partir de 1977, para encenar nos Bonecreiros, no Teatro da Bugiganga, na Casa da Comédia, no Teatro Nacional, no Grupo de Teatro de Campolide já estabelecido em Almada, no Teatro São Carlos, na Companhia Teatro Estúdio de Lisboa e no Teatro Experimental de Cascais.

Como cidadão, Artur Ramos aderiu ao PCP em 1957, o que lhe valeu em 1961 o despedimento político da RTP, justificado pelo pacifismo da realização da peça O Herói e o Soldado de Bernard Shaw. Em 1969, na primavera marcelista, regressou à RTP como free-lancer e assim realizou mais peças, de António Chiado, Francisco Manuel de Melo, Gil Vicente, Mrozeck, Paddy Chayeefsky, Reginald Rose, A. Miller, Manuel da Fonseca e Brecht. Após o 25 de Abril, foi nomeado Diretor de Programa da RTP, até agosto desse ano, passando depois a dirigir o Departamento de Programas Teatrais. Após o 25 de novembro de 1975 voltou a ser despedido da RTP por motivos políticos e reintegrado em 1986, por sentença judicial.

Este lisboeta, que foi pai de outra cara conhecida da televisão portuguesa – Helena Ramos -, estudou no Liceu Camões e licenciou-se em Filologia Germânica na Faculdade de Letras de Lisboa. Foi ainda crítico de teatro na Seara Nova, tradutor, dirigente da Sociedade Portuguesa de Autores e professor das Escolas de Teatro e Cinema do Conservatório Nacional (1982) e de um curso na Escola de Teatro do Centro Cultural de Évora (1986).

Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

Tobis, a fábrica do cinema português, numa Rua do Lumiar

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Tobis Portuguesa, desde 1932 instalada no Lumiar, na Quinta das Conchas,  também passou a ser um topónimo dessa freguesia da cidade, desde a publicação do Edital municipal de 6 de janeiro de 1993.

O arruamento onde tinha sede a Tobis Portuguesa, a Praça J da Urbanização da Tobis Portuguesa, passou em 1985 a ter topónimo: Praça Bernardino Machado. Oito depois anos depois foi atribuída a Rua da Tobis Portuguesa, no arruamento que antes era identificado como Rua A à Rua Luís Pastor de Macedo.

No século XX, a zona da Quinta das Conchas foi a mais utilizada pela então nascente indústria cinematográfica portuguesa. Em 1920 foi nela fundada a Caldevilla Film, que produziu por exemplo, Os Faroleiros (1922) e As Pupilas do Senhor Reitor (1924), ambos de Maurice MariaudDoze anos mais tarde, em 1932, a Tobis Portuguesa adquiriu parte da Quinta das Conchas para aí edificar os seus estúdios. Esta companhia cinematográfica nasceu em 3 de junho de 1932, com sede no n.º 141 da Avenida de Liberdade e estúdios em construção na Quinta das Conchas.

Tobis é acrónimo de Ton-Bild Syndikat (Sindicato do Som e Imagem) e a fábrica do cinema português tinha como nome completo Companhia Portuguesa de Filmes Sonoros Tobis Klangfilm. Foi criada para gerar e apoiar cinema nacional, bem como para garantir uma uniformidade de processos com a Europa, ao nível do som e da imagem, e assim também combater o poderio norte-americano na indústria cinematográfica. A empresa contou com um capital inicial de 1 milhão de escudos,  dividido em 20.000 ações de cinquenta escudos cada uma, tendo sido inteiramente subscrito.

Nas suas instalações da Quinta das Conchas foi criado o 1º estúdio de cinema sonoro em Portugal e produzidos alguns dos mais emblemáticos filmes portugueses das décadas de 30, 40 e 50 do século XX, com inesquecíveis atores como António Silva, Vasco Santana, Ribeirinho ou Beatriz Costa, sendo de salientar, por ordem cronológica, os seguintes filmes produzidos pela Tobis cujos direitos são  propriedade sua (o chamado Catálogo Tobis): A Canção de Lisboa (1933) de Cottinelli Telmo; As Pupilas do Senhor Reitor (1935),  Varanda dos Rouxinóis (1939) e  Ala-Arriba (1942), de Leitão de Barros;  João Ratão (1940) de Jorge Brum do Canto; O Costa do Castelo (1943), A Menina da Rádio (1944), O Leão da Estrela (1945) e O Grande Elias (1950), todos de Artur Duarte,  assim como Benilde ou a Virgem-Mãe (1970) de Manoel de Oliveira. O último filme produzido pela Tobis foi A Crónica dos Bons Malandros (1984), realizado por Fernando Lopes.

O conjunto de instalações da Tobis seguiram o traçado ao Arqtº Jacinto Bettencourt para o edifício do laboratório –  o dos serviços administrativos e da revelação das películas cinematográficas  – e o do Arqtº Jorge Segurado para o estúdio de filmagens.

Refira-se ainda que em 1939 a Lisboa Filmes – outra empresa cinematográfica- transfere as suas instalações para a Quinta dos Ulmeiros, também no Lumiar e, em 1955, acaba por se fundir com a Tobis Portuguesa.

Os cineastas Pedro Efe e Manuel Mozos realizaram em 2010 um documentário sobre esta fábrica do cinema português, intitulado Tobis Portuguesa.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

Cineastas e cinéfilos de Lisboa

Cineastas e cinéfilos de Lisboa é o tema deste mês  na Toponímia de Lisboa, a trazer o cinema para a ribalta de dezembro.

No conjunto dos artigos deste tema poderemos ver na cidade de Lisboa os  dois núcleos principais de topónimos ligados aos realizadores de Cinema: um, na freguesia do Lumiar, pela proximidade à Quinta das Conchas onde no século XX nasceram estúdios de cinema e a Tóbis; e um outro, em Marvila, por ser também uma zona de novos arruamentos a partir da última década do século XX. Na Freguesia de Santa Clara também existe um núcleo mais recente de atores e encenadores que também trabalharam em cinema.

Falta destacar que aparecerão dois cinéfilos importantes e que recentemente foram acolhidos na toponímia de Lisboa: Pedro Bandeira Freire, o fundador do mítico Cinema Quarteto, e Gérard Castello-Lopes que também se distinguiu como um excelente fotógrafo.

 

A Rua José Rodrigues Miguéis de Saudades para a Dona Genciana

Freguesia de Benfica
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

José Rodrigues Miguéis, autor do conto «Saudades para a Dona Genciana», desde o ano seguinte ao seu falecimento tem o seu nome inscrito na toponímia de Lisboa, numa artéria da freguesia de Benfica, a unir a Estrada de Benfica à Rua Prof. José Sebastião e Silva.

A Rua José Rodrigues Miguéis ficou na Rua C à Estrada de Benfica através do Edital municipal de 1 de junho de 1981, em resultado da Proposta nº 198/80, subscrita pelos vereadores do Partido Socialista, aprovada por unanimidade na reunião camarária de 5 de novembro de 1980.

José Claudino Rodrigues Miguéis (Lisboa/09.12.1901 – 28.10.1980/Nova Iorque – E.U.A. ), nascido no nº 13 da Rua da Saudade, filho de uma beirã e de um galego republicano, formou-se em Direito pela  pela Universidade de Lisboa em 1924 e exerceu a advocacia, foi delegado do Ministério Público e professor do ensino secundário oficial e particular. Em 1933 licenciou-se em Ciências Pedagógicas na Universidade Livre de Bruxelas após o que, com Raúl Brandão, dirigiu um conjunto inacabado de Leituras Primárias, obra que nunca viria a ser aprovada pelo governo. Impedido de ser docente em Portugal, expatriou-se em 1935 para os Estados Unidos da América, voltando esporadicamente a Portugal e em 1942 adquiriu a nacionalidade americana. A partir desse ano e durante cerca de dez anos, exerceu funções de Assistant Editor das Seleções do Reader’s Digest, para além de colaborar regularmente na imprensa de Lisboa e se dedicar à tradução de obras de Stendhal, Carson McCullers, Erskine Caldwell ou F.Scott Fitzgerald.

Como escritor, a sua obra configura sínteses originais do presencismo e do neorrealismo, com mestria no uso da ironia e do humor. As suas novelas e contos fizeram de Rodrigues Miguéis uma referência obrigatória e um dos melhores no género: Páscoa Feliz (1932) – Prémio da Casa da Imprensa – retrato da desagregação mental do sujeito até ao limite da loucura e do crime; Onde a Noite se Acaba (1946), sobre a dissolução do sujeito associada a elementos fantásticos;  Léah e Outras Histórias (1958) – o primeiro Prémio Camilo Castelo Branco – onde se inclui  «Saudades para a Dona Genciana», considerada a obra-prima da ficção migueisiana, em que Dona Genciana representa o espaço humano da Avenida (Almirante Reis) e esta é a cidade de Lisboa; Um Homem Sorri à Morte – Com Meia Cara (1959), experiência autobiográfica; Gente da Terceira Classe (1962), sobre a condição do imigrante. Foi ainda publicado Pass(ç)os Confusos (1982), uma reedição do livro de contos Comércio com o Inimigo (1973), com um conjunto de narrativas antes publicadas na imprensa.

Publicou também 6 romances:  Uma Aventura Inquietante (1958), policial que denuncia as arbitrariedades da Justiça, antes publicado – entre 1934 e 1936- no jornal O Diabo, sob o pseudónimo de Ch. Vander Bosh; A Escola do Paraíso (1960), centrada na infância do herói entre o fim da Monarquia e os alvores da República; Nikalai! Nikalai! (1971), sobre uma comunidade de russos brancos em Bruxelas que pretende repor no trono o czar Nikalai; O Milagre segundo Salomé (1975), fresco da sociedade lisboeta com a degradação dos sonhos republicanos que culminaria no 28 de maio de 1926; O Pão Não Cai do Céu (1981), antes saído como folhetim no Diário Popular, focado no cigano como herói e símbolo unificador da luta pela terra e pela liberdade na planície alentejana; Idealista no Mundo Real (1986) que problematiza as contradições de um jovem magistrado colaborador da Seara Nova em busca da sua identidade ideológica e social.

A crónica surgiu em É Proibido Apontar – Reflexões de um Burguês I (1964), O Espelho Poliédrico (1973), As Harmonias do Canelão – Reflexões de um Burguês II (1974) e, postumamente,  Aforismos & Desaforismos de Aparício (1996) que reuniu textos publicados no Diário Popular sob o título de Tablóides. As suas obras foram traduzidas em alemão, checo, francês, inglês, italiano, polaco e russo.

Desde os anos vinte do séc. XX que colaborou na imprensa portuguesa. Com Bento de Jesus Caraça dirigiu O Globo, semanário que viria a ser proibido pela censura em 1933 e ao longo da vida foi colaborador da Seara Nova, da Revista de Portugal e dos jornais Alma Nova, O Diabo, Diário Popular, Diário de Lisboa e República.

Foi também membro eleito da Hispanic Society of America (1961) e académico correspondente da Academia das Ciências de Lisboa (1976), tendo sido agraciado como Grande-Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada (1979) e, em 1998, Diana Andringa conseguiu finalmente realizar o documentário «José Rodrigues Miguéis — Um homem do povo na história da República» para a RTP, que esteve previsto para 1980.

José Rodrigues Miguéis é também topónimo nos concelhos de Almada, Amadora, Entroncamento, Gondomar, Montijo, Odivelas, Ovar, Póvoa de Varzim, Seixal, Sesimbra e Sintra.

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua António Alçada Baptista de «Os Nós e os Laços»

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

António Alçada Baptista, autor do romance  Os Nós e os Laços e escritor que se definiu pelas palavras liberdade e afeto, é topónimo de uma Rua da Urbanização Benfica Stadium,  na freguesia de São Domingos de Benfica, desde a publicação do Edital municipal de 30 de abril de 2014, com a legenda «Escritor/1927 – 2008».

Alçada Baptista fixou-se como topónimo na Urbanização Benfica Stadium pelo Edital nº 33/2014 e pelo nº 34/2014, do mesmo dia 30 de abril de 2014, ficaram também no mesmo bairro a poetisa Natércia Freire e a investigadora de literatura portuguesa Luciana Stegagno Picchio, tendo aliás a inauguração oficial dos três topónimos ocorrido em simultâneo, no dia 29 de janeiro de 2016.

António Alfredo da Fonseca Tavares Alçada Baptista (Covilhã/29.01.1927 – 07.12.2008/Lisboa) foi um dos grandes divulgadores da cultura portuguesa, tendo também contribuído para ela como escritor, editor e militante do Centro Nacional de Cultura desde o  início dos anos 50 à primeira década do século XXI. Enquanto escritor, foi sobretudo romancista mas também ensaísta. Da sua relevante obra literária, destacam-se os seus dois tomos de O Tempo nas PalavrasPeregrinação Interior (1971 e 1982), Conversas com Marcello Caetano (1973), O Anjo e a Esperança (1982), a sua estreia como romancista em Os Nós e os Laços (1983), que recebeu o Prémio Literário Município de Lisboa (1985) e o Prémio P.E.N. Clube Português de Novelística (1986), bem como Catarina ou o Sabor da Maçã (1988) ou Tia Suzana, Meu Amor (1989), assim como O Riso de Deus (1994), a obra de memórias A Pesca à Linha (1998), O Tecido do Outono (1999) ou A Cor dos Dias (2003).

Como editor, apostou na aventura editorial da sua «casa de reflexão e poesia», a Moraes Editora, que dirigiu de 1957 a 1972, tendo contribuído para a revelação ou divulgação de autores portugueses, como Vitorino Nemésio, Sophia de Mello Breyner Andresen, Jorge de Sena, Alexandre O’Neill, Pedro Tamen, Ruy Belo, António Ramos Rosa, e estrangeiros, como Emmanuel Mounier ou Jean-Marie Domenach. Também a partir desta editora publicava a  revista Concilium, dirigida por Helena Vaz da Silva. Acresce que os livros que a Moraes publicava eram frequentemente apreendidos, causando elevados prejuízos à editora, que acabaria por falir em 1980.

Como jornalista, fundou e dirigiu a revista O Tempo e o Modo, de 1963 a 1969, cujo corpo redatorial era maioritariamente constituído por católicos contestatários da relação entre a Igreja e o Estado Novo, mas também por democratas de outras áreas de esquerda, de que se recordam Pedro Tamen, Nuno Bragança, João Bénard da Costa ou Mário Soares, Salgado Zenha ou Jorge Sampaio.  Entre fevereiro de 1977 e abril de 1978, foi director do jornal diário Dia, sucedendo a Vitorino Nemésio e, entre 1992 e 2006, escreveu crónicas para a revista Máxima. Antes de dirigir O Dia, foi colaborador regular de A Capital, conforme recorda Appio Sottomayor que ainda acrescenta que «Era aliás frequente a sua presença na redacção, então situada na Travessa do Poço da Cidade. Entregava os originais, conversava e, regra geral, almoçava com alguns jornalistas.»

Licenciado pela Faculdade de Direito de Lisboa, onde ingressara em 1945, esteve desde jovem ligado aos chamados católicos progressistas. Advogado de formação foi advogado de defesa de presos políticos nos Tribunais Plenários. Em março de 1957, foi um dos 72 advogados de Lisboa e do Porto que assinaram uma representação ao ministro da Presidência pedindo um «inquérito à PIDE». Em 1958, apoiou a candidatura do general Humberto Delgado à Presidência da República. Em 1959 assinou, com outros oposicionistas, um documento em que se pedia a Salazar que por ocasião da sua última lição em Coimbra, «se verifique também o seu afastamento da vida política». Em 1961, foi candidato em Castelo Branco na lista da Oposição tal como em 1969, na lista da CDE. Entre 1971 e 1974, foi assessor para a Cultura do então ministro da Educação Nacional, Veiga Simão.

Na Secretaria de Estado da Cultura, onde entrou em 1980, chefiou os trabalhos de criação do Instituto Português do Livro, de que foi presidente até 1986, desenvolvendo as relações culturais com os países lusófonos, designadamente Cabo Verde, Moçambique e Brasil, bem como a estimulação da Rede Nacional de Biblioteca Públicas, o patrocínio da reedição de clássicos da literatura portuguesa e a organização do Dicionário Cronológicos dos Autores Portugueses. Foi presidente das Comemorações do Cinquentenário da Morte de Fernando Pessoa (1985) e da Comissão de Avaliação do Mérito Cultural, administrador e consultor da Fundação Oriente ( a partir de 1996), presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, de 1988 a 1998. A sua dedicação à cultura da língua portuguesa valeu-lhe a indigitação para adido cultural de Portugal no Brasil.

Na sua vida pessoal, casou em 1950 com Maria José de Magalhães Coutinho Guedes de quem teve sete filhos e residiu em Lisboa na Rua de São Marçal.

Foi sócio da Academia das Ciências de Lisboa e membro correspondente da Academia Brasileira de Letras, bem como agraciado com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo (1983) e a Grã-Cruz da Ordem do Infante (1995), Medalha de Mérito Municipal da Covilhã (1999) e, postumamente, com a Medalha de Honra da Sociedade Portuguesa de Autores (2009) e a criação do Prémio António Alçada Baptista de Literatura Memorialista e Autobiográfica, a que acresce que, para além de Lisboa, também em Almada, na Urbanização da Quinta do Gil da Charneca da Caparica é topónimo de uma Rua.

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)