A Rua Francisco Cortês Pinto, do Laboratório Sanitas e da AIP

Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Por sugestão da Lispolis, os arruamentos do Pólo Tecnológico de Lisboa receberam nomes de industriais, banqueiros e investigadores, sendo assim que a Rua G do Pólo Tecnológico de Lisboa foi denominada Rua Francisco Cortês Pinto, com a legenda «Industrial/1885 – 1974», pelo Edital municipal de 24 de setembro de 2009, para homenagear o fundador do Laboratório Sanitas e Presidente da AIP.

Pelo mesmo Edital, assim também como pelo Edital municipal de 02/10/2009, a edilidade colocou nas restantes Ruas do local os nomes dos industriais António Champalimaud (Rua A) e Carlos Alves (Rua I),  do banqueiro Cupertino de Miranda (Ruas C e D), do  precursor das modernas teorias de economia e finanças Carlos Morato Roma (Rua J ) e das médicas Cesina Adães Bermudes (Ruas E e F) e Laura Ayres (Rua H).

Francisco Cortez Pinto (Leiria/12.02.1885 – 30.07.1974/Lisboa) foi um major médico de carreira, que teve consultório no nº 24 da Rua Dom João V e que em 1911 fundou, com o farmacêutico Horácio Pimentel,  a firma Cortês Pinto Pimentel, Lda., a proprietária do Laboratório Sanitas que sempre teve sede em Lisboa e se tornou uma importante indústria de produtos farmacêuticos.  Nesta área, a partir de 1939, foi também o 1º Presidente da Direção do Grémio Nacional dos Industriais de Especialidades Farmacêuticas.

Como industrial, Cortez Pinto exerceu cargos dirigentes em empresas dos setores metalúrgico, elétrico, do papel, do mobiliário metálico, da banca e dos seguros tendo também até aos seus 89 anos de vida desempenhado vários funções na direção da AIP  – a Associação Industrial Portuguesa cujos primeiros estatutos datam de 1837 – a partir do triénio de 1924- 1926, tendo sido Presidente da AIP no período de 1941 a 1960, qualidade em que logo no primeiro mandato a AIP adquiriu uma nova sede na Avenida da Liberdade. Em 1949, recuperou os pavilhões da Exposição do Mundo Português e transformou-os na FIP – Feira das Indústrias Portuguesas, a antecessora da Feira Internacional de Lisboa de 1957 , construída de raiz na Junqueira segundo o traço dos arqºs  Francisco Keil do Amaral, Alberto José Pessoa e Hernâni Gandra, de que mais tarde será Presidente.

Acresce que Francisco Cortez Pinto, licenciado em Medicina pela Universidade de Coimbra, chefiou o Laboratório de Bacteriologia e Análises do Hospital Militar da Estrela, assim como os serviços de saúde da coluna enviada a Cassinga e Evale (1915-1916),  tal como foi diretor do Hospital-Ambulância de Fauquembergues e dos serviços de saúde do Batalhão de Infantaria 24, ambos na  Flandres (1917).

Refira-se ainda que este leiriense foi membro do Rotary Club of Lisbon e doou à sua cidade-natal no 4º Centenário de Elevação a cidade (1945) o grupo escultórico A caminho da feira de Anjos Teixeira , tendo sido distinguido  em 5 de outubro de 1932 com o grau de Comendador da Ordem do Mérito (Classe do Mérito Industrial), bem como em 1975, a título póstumo,  foi condecorado pelo governo polaco pelo seu apoio aos judeus  polacos perseguidos pelo nazismo ao disponibilizar uma casa-refúgio em Caxias.

Freguesia de Carnide
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua da Quinta do Cabrinha e a Fábrica Cabrinha

Freguesia de Alcântara

A Quinta do Cabrinha, cujo topónimo radica num antepassado de D. Francisco Manuel de Melo, passou esse nome alguns séculos mais tarde à Fábrica Cabrinha da Companhia Lisbonense de Algodões  e ambas criaram no lugar a memória para fazer nascer a Rua da Quinta do Cabrinha em 1999, através do  Edital municipal de 9 de fevereiro, no arruamento situado entre a Avenida de Ceuta e a Rua da Fábrica da Pólvora.

Esta Rua da Quinta do Cabrinha foi um novo arruamento de Lisboa do final do séc. XX, a funcionar como um bairro, construído por iniciativa municipal entre 1998 e 1999, para realojamento de famílias oriundas do Casal Ventoso, num contexto de renovação e qualificação da cidade.

Mas indo ao século XVII vemos Alcântara, no Reguengo de Algés e próxima da cidade de Lisboa, a acolher a família real em 1605 e consequentemente, seguiram a instalação de várias quintas de nobres, como a dos Saldanhas, as de Diogo Mendonça e dos Caldas, a dos Carvalhos (depois chamada do Fiúza) e a Quinta do Cabrinha,  de D. Francisco Manuel de Melo (Lisboa/1608 – 1666/Alcântara – Lisboa), localizada na margem da ribeira de Alcântara,  na qual faleceu em 1666 este nobre, político e escritor, conhecido autor de Apólogos Dialogais ou de O Fidalgo Aprendiz.

O antepassado de Francisco Manuel de Melo de nome Antão Rodrigues da Câmara,  filho bastardo de Rui Gonçalves da Câmara e neto de João Gonçalves Zarco, era Cabrinha de alcunha, tal como sucedeu com Francisco de Mello Manuel da Câmara, que governou o Maranhão de 1806 a 1809,  por ser muito moreno e nestas alcunhas se originou o nome pela qual a Quinta de Alcântara acabou por ficar conhecida, segundo Edgar Prestage no seu D. Francisco Manuel de Mello – Esboço Biographico,  publicado em 1914 pela Universidade de Coimbra.

Em 1690, começou a ser construída próxima da Quinta do Cabrinha a Fábrica da Pólvora,  por iniciativa de Carlos de Sousa e Azevedo. A obra foi acabada em 1728 por António Cremer, que era então o Intendente da Pólvora do Reino. Esta indústria cessou as suas funções  após o Terramoto de 1755 passando a laboração para a Fábrica de Barcarena. Por outro lado, entre os séculos XVII e XVIII, nos terrenos da Quinta do Cabrinha foi criado o Páteo 149,  num edifício da Quinta, para acolher quem trabalhava na Fábrica.

Já em meados do século XIX, em 1874, foi instalada na Quinta a Fábrica de Chitas da Companhia Lisbonense de Estamparia e Tinturaria de Algodões, em dois edifícios imponentes, que foi designada Fábrica Cabrinha. Para os seus operários, que segundo o Inquérito Industrial de 1881 eram 65,  foi construído em 1878 um conjunto de habitações de três pisos, ao longo de 150 metros,  sob o nome de Vila Cabrinha. Esta situação foi também mencionada por Edgar Prestage: «Do lado esquerdo da estrada que vae de Alcântara a Sete-Rios encontramos uma quinta extensa plantada com oliveiras e chamada “do Cabrinha”, que é propriedade da Estamparia lá installada; foi comprada, ao que nos disseram, ao Sr. Joaquim José Anjos ha trinta e cinco annos [por volta de 1879] . » Mais tarde, esta Fábrica passará a ser propriedade da Sociedade Têxtil do Sul.

Freguesia de Alcântara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Fábrica das Sedas que saiu de duas Ruas e ficou numa Travessa de Lisboa

A Travessa da Fábrica das Sedas, hoje na Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Fábrica das Sedas, manufactura joanina, cujo processo de instalação começou cerca de 1730, com a chegada a Lisboa do francês Robert Godin, deu nome como Rua Direita da Fábrica das Sedas ao arruamento onde estava instalada até passar a ser uma parte da Rua da Escola Politécnica, ao mesmo tempo que estava como Rua da Fábrica das Sedas numa artéria paralela à Rua do Arco de São Mamede, bem como no Alto de São Francisco, próximo da Fábrica pombalina das Amoreiras numa Travessa que é a única via que ainda hoje preserva a memória da Fábrica na toponímia de Lisboa.

Entre 1727 e 1730, o tecelão francês Robert Godin, chegou a a Lisboa para estabelecer fábricas de seda. Com o também francês e especialista no fabrico de sedas Sibert fez um requerimento a D. João V em 1731 para a instalação de uma fábrica de sedas  saindo o  alvará real de fundação apenas em 13 de fevereiro de 1734, com privilégios concedidos por 20 anos, como a exclusividade da manufactura de tecidos de seda e a obrigação de instruir aprendizes portugueses na arte das sedas. Foi lavrada  em 5 de outubro desse mesmo ano a escritura da sociedade de capitais da fábrica e Godin que não havia entrado com capitais, tinha direito a  15% dos lucros e a um salário anual de 480$00. A Fábrica foi construída segundo o risco de Carlos Mardel, com uma planta  longitudinal em L, ocupando todo um quarteirão, o do topo do Largo do Rato e ficou concluída em 1741, nos terrenos da Quinta do Morgado dos Soares de Noronha à Cotovia. O Imóvel está classificado como de Interesse Público pelo Decreto n.º 5/2002, de 19 de fevereiro de 2002.

Troço da antiga Rua Direita da Fábrica das Sedas em 1898
(Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

Esta Real Fábrica das Sedas joanina tornou-se georreferência da toponímia local através da Rua Direita da Fábrica das Sedas. Ou seja, o topónimo é posterior a 1741  e durou até o Edital do Governo Civil de Lisboa de 1 de setembro de 1859 que determinou que esta artéria, tal como a Rua da Patriarcal Queimada, passassem a ser uma só sob a  denominação de Rua da Escola Politécnica, a nova referência forte da zona.

Esta Real Fábrica das Sedas permaneceu sob a administração privada, até 1750, ano da insolvência da Fábrica das Sedas e consequente passagem a propriedade do Estado, por Decreto de 14 de maio de 1750. Já com Pombal adquiriu a designação de Real Fábrica das Sedas do Rato a partir de 1757 e por Alvará de 22 de setembro de 1758, o fundador da Companhia da Fábrica das Sedas, Robert Godin, foi nomeado como quinto diretor.

Em data também posterior à instalação da Fábrica surgiu paralela à Rua do Arco a São Mamede, uma Rua da Fábrica das Sedas, no Bairro dos trabalhadores da Fábrica e assim ficou até 1968, ano em que o Edital municipal de 10 de maio a transformou em Rua Maestro Pedro de Freitas Branco, por ter sido a artéria de residência desse compositor.

Em 1759, o Decreto de 14 de março aprovou a edificação do Bairro das Águas Livres para o estabelecimento dos fabricantes de seda incorporados na Real Fábrica pombalina, cujo epíteto de Real Colégio de Manufacturas Nacionais demonstrava que a Real Fábrica das Sedas para além de manufaturas de seda se dedicava a dar aulas aos aprendizes. Registou-se ainda a instalação de um conjunto de Fábricas Anexas  de cartas de jogar, botões, lençaria, chapéus, cutelaria, fundição de metais, pentes, relógios, serralharia, tapeçaria, tecidos e louça. É neste conjunto que o Marquês idealiza o jardim de amoreiras, cuja arborização com 331 amoreiras junto à fábrica das sedas (hoje Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva), se conclui em 1771. Em volta da praça da fábrica, a   Praça das Amoreiras, foram rasgadas diversas ruas, onde foram edificados prédios de estrutura pombalina, destinados a residências dos fabricantes que trabalhavam na fiação e aos aprendizes que trabalhavam com eles.

A Fábrica de Tecidos de Seda na Praça das Amoreiras, em 1961
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

É neste conjunto urbanístico que surge o bloco de edifícios da designada Travessa da Fábrica das Sedas, a unir a Rua de São Francisco de Sales à Travessa da Légua da Póvoa.  Esta Travessa da Fábrica das Sedas aparece depois mencionada  na planta de Filipe Folque de julho de 1857 e num requerimento de 22 de outubro de 1877, de diversos proprietários e moradores no Alto de S. Francisco e da Travessa da Fábrica das Sedas, solicitando  providências para melhorar aquele local, uma vez que não existia canalização e os despejos se faziam para a rua.

A retirada da família real e de parte da nobreza para o Brasil, devido às invasões francesas de 1807, a abertura dos portos brasileiros e a permissão de fabrico de sedas no Brasil em 1808,  bem como o tratado de comércio com a Inglaterra de 1810, conduziram à decadência da fábrica e à sua venda em hasta pública, decretada pela portaria de 27 de julho de 1835 e  na segunda metade do século XIX o edifício foi destinado pelos seus proprietários a novas utilizações, comerciais e particulares.

Refira-se que Cassiano Branco viveu no nº 7-7A desta Travessa da Fábrica das Sedas, numa moradia que ele próprio traçou.

A Travessa da Fábrica das Sedas, hoje na Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua da Fábrica das Moagens Aliança na Rua de Xabregas

Freguesia do Beato                                                                      (Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Fábrica de Moagens a Vapor Aliança, nascida em 1870, na então Rua Direita de Xabregas, dá nome a uma artéria da Freguesia do Beato desde 2004, a Rua da Fábrica das Moagens, num conjunto de arruamentos em que a edilidade quis perpetuar a memória das fábricas desta zona oriental de Lisboa.

A Fábrica Aliança, como era conhecida, ficou perpetuada na Rua da Fábrica das Moagens,  topónimo dado à Rua A e à Rua C à Rua Carlos Botelho, pelo Edital de 10 de fevereiro de 2004, o mesmo que  atribuiu a Rua da Fábrica de Estamparia (Rua B e Rua F), o  Largo da Fábrica de Fiação de Xabregas (Rua D),  o Largo da Fábrica de Tecidos Oriental ( Rua E ) e a Rua da Fábrica de Tecidos Lisbonenses (Rua G).

A Rua de Xabregas em 1871, numa planta municipal

Propriedade de João Luiz de Sousa & Filho, a Fábrica de Moagens a Vapor Aliança estabeleceu-se em 1870 na Rua de Xabregas,  junto ao viaduto ferroviário,  num edifício de três andares expressamente construído para o efeito como um edifício-máquina, para permitir  a moagem de trigo austro-húngara, um processo mecanizado a vapor disposto em andares, de amplos salões travejados a ferro, com um mecanismo de rolos de porcelana, ferro fundido ou aço, produzindo uma fina e alva.  Este novo sistema de moagem terá sido inventado entre 1821 e 1832, ou na Suíça ou na Hungria, mas o seu nome deve-se a terem sido os húngaros e os austríacos os primeiros a usá-lo e a difundi-lo, por exemplo, nas Exposições Universais de Viena (1873) e Paris (1874). Em 1898, a Fábrica de Moagens a Vapor Aliança empregava 50 operários.

Os mesmos proprietários tinham desde 1877 mais uma fábrica, para produção de massas alimentícias, na Rua do Barão, próxima da Rua de São João da Praça. A Fábrica Aliança  acabará  por integrar-se na Nova Companhia Nacional de Moagem em 1908 e a partir de dezembro de 1919 na Companhia Industrial de Portugal e Colónias, SARL que comercializava as marcas Nacional e Napolitana.

Freguesia do Beato
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua do industrial da CUF, Alfredo da Silva

Freguesia da Ajuda
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O empresário e industrial Alfredo da Silva, sobretudo conhecido pela sua obra na CUF, desde a publicação do Edital municipal de 21 de dezembro de 1960 que dá o seu nome à Rua D à Quinta do Almargem ou à Calçada da Boa-Hora, com a legenda «Industrial/1871 – 1942», oito anos após o ofício nº 485/52 do Sindicato Nacional dos Comercialistas solicitar a inclusão do nome de Alfredo da Silva na toponímia de Lisboa.

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Alfredo da Silva (Lisboa/30.06.1871 – 22.08.1942/Sintra) era filho de um rico comerciante de Lisboa, Caetano Isidoro da Silva,  com casa comercial e morada no n.º 185 da Rua Bela da Rainha [Rua da Prata desde novembro de 1910], e de Emília Augusta Laymée Ferreira, de ascendência francesa, pelo que estudou no Liceu Francês até à morte do seu pai em 1885. Dois anos depois matriculou-se no Curso Superior de Comércio do Instituto Industrial e Comercial de Lisboa,  sendo que em 1890 já detinha o encargo de gerir a herança da família e três anos depois, em 1893,  era por herança acionista um dos administradores do Banco Lusitano e da Companhia Aliança Fabril (CAF), que fabricava sabões e velas em Alcântara e de que era administrador Henry Burnay.

No ano seguinte, em 19 de abril de 1894, casou-se com Maria Cristina Resende Dias de Oliveira, tendo como padrinho o banqueiro João Baptista Dotti, um dos principais acionistas da CAF. A filha nascida desse casamento – Amélia de Resende Dias de Oliveira da Silva- casará com Manuel Augusto José de Mello, o genro que depois comandará a CUF, empresa que pertencerá por esta aliança familiar ao Grupo Mello.

Henry Burnay era administrador da CAF mas também da CUF (Companhia União Fabril) e após um incêndio da primeira, conjugou a sua vontade com a de Alfredo da Silva para a fusão das duas, união que foi formalizada em 22 de abril de 1898 sob o nome de CUF e que se desenvolveu produzindo adubos em grande escala, aproveitando a ideia do Estado potenciar o cultivo de cereais no Alentejo.

Acionista da Carris também por herança paterna, Alfredo da Silva foi convidado pela empresa em 1892 a fazer uma visita a algumas cidades da Europa para estudo dos melhores sistemas de tracção mecânica, tendo o seu relatório apontado para o que viriam a ser os Eléctricos da Carris, tendo o primeiro circulado no dia 31 de agosto de 1901 da Praça do Comércio a Algés.  Alfredo da Silva  foi diretor da Carris entre 1896 e 1899, com Zófimo Consiglieri Pedroso e Carlos Krus.

Alfredo da Silva diversificou os seus negócios em várias áreas e tornou-se um dos industriais mais ricos de Portugal. Esteve na criação da Tabaqueira do Poço do Bispo (1927) e na produção de tecidos para sacas de adubos, arrecadou a exploração do Porto de Lisboa no Estaleiro da Rocha do Conde de Óbidos (1936),  entrou na navegação e nos territórios africanos para controlar o transporte e matérias-primas, comprou o Banco Totta e a Companhia de Seguros Império, investiu na metalurgia.

Como diversos industriais do final do séc. XIX e principio do séc. XX, também Alfredo da Silva  se mostrou interessado em fixar os seus trabalhadores nas cercanias das suas fábricas, através da construção de  bairros operários, mercearias, padarias e até posto médico, de que foi exemplo maior o Barreiro, onde instalou fábricas de adubos a partir de 1907, assim como chegou mesmo a abrir uma escola para ambos os sexos em 1927. Todavia Alfredo da Silva geriu a CUF à distância quando se refugiou em Espanha e França após ter sido vitima de três atentados fracassados, tendo o último sido de outubro de 1921 e a sua ausência de Portugal até 1927.

Envolveu-se na política  ao ser eleito deputado  regenerador em 1906 e apoiante de João Franco; ao apoiar Sidónio Pais (1918) e depois o Estado Novo, tendo conquistado um lugar na Câmara Corporativa logo em 1935 e opôs-se frontalmente à lei das 8 horas de trabalho diário. No ano seguinte, conseguiu que fosse adjudicada à CUF a concessão do Estaleiro da Rocha Conde de Óbidos que será o embrião da Lisnave.

Alfredo Silva foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem Civil do Mérito Agrícola e Industrial (1932), como Sócio Honorário do Ginásio Clube Figueirense (1933) e com a atribuição do seu nome a agrupamentos escolares do Barreiro e de Rio de Mouro, bem como uma Avenida no Barreiro e outra em Rio de Mouro (no Bairro da Tabaqueira), assim como ruas em  Alfragide e São Domingos de Rana.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

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A Calçada Agostinho de Carvalho, o industrial das Olarias do séc. XVII

Freguesias de Santa Maria Maior e de São Vicente
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Agostinho de Carvalho, industrial de cerâmica do séc. XVII no Bairro das Olarias, ficou com o seu nome gravado na Calçada onde viveu, entre a Rua das Olarias e a Rua do Terreirinho.

Luís Pastor de Macedo, citando o Dicionário Bibliográfico de Inocêncio Francisco da Silva, afirma que Agostinho de Carvalho foi um importante industrial de cerâmica que casou em 1618 com Bárbara Fernandes, ano em que vivia no arruamento que depois tomou o seu nome: a Calçada Agostinho de Carvalho, então ainda com a partícula «de». Segundo Pastor de Macedo «a calçada aparece já com o nome que hoje tem em 1637 [na Notícia histórica do bairro das Olarias do padre António Lourenço Farinha], mas de facto sem a partícula “de”, como já observara G. de B. [Gomes de Brito] encontrar-se mencionada no “Itinerário Lisbonense” de 1804.»

No último quartel do séc. XIX a Calçada Agostinho de Carvalho passou a ter  passeios e valetas (1880) e um cano de esgoto ligado ao cano da Rua do Benformoso (1887). De 10 de novembro de 1890 a 12 de outubro de 1912, a artéria foi alinhada,  desde a Rua do Terreirinho até à Rua das Olarias, tendo para o efeito a Câmara Municipal de Lisboa trocado terrenos com  Joaquina Amélia dos Santos de que se lavrou escritura em 3 de fevereiro de 1910.

O olisipógrafo Luís Pastor de Macedo acrescenta ainda que «Nesta serventia pública aparece em 1698, o “pátio dos órfãos”, que depois passou à categoria de beco. Deve ser o actual beco do Alegrete, que se abre defronte do nº 21 e não tem saída.»

Freguesias de Santa Maria Maior e de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Praceta CUF onde existiu a fábrica de Alcântara

Freguesia de Alcântara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Na Urbanização Alcântara Nascente, onde existiu a fábrica da CUF (Companhia União Fabril) a partir da segunda metade do séc. XIX e até a sua laboração ter sido transferida para o Barreiro, local onde hoje permanece uma das suas chaminés como  memória do lugar, também a edilidade lisboeta guardou este património industrial através do topónimo Praceta CUF.

Foi por  deliberação camarária de 10 de setembro e consequente Edital municipal de 23 de setembro de 2008 que o Jardim B à Rua das Fontaínhas, da Urbanização Alcântara Nascente, passou a denominar-se Praceta CUF, tal como o Jardim A passou a ser a Praceta Teófilo Ferreira.

Esta urbanização edificada junto à Rua das Fontaínhas, no terreno onde foi  outrora  a Fábrica da CUF, manteve no local uma chaminé da antiga indústria, razão para a Câmara Municipal de Lisboa manter a memória deste património no local também com a atribuição do topónimo.

A CUF em 1904
(clicar para ver imagem maior)

A Companhia União Fabril foi fundada em Lisboa, com um capital de 200 contos de réis,  recebendo em 1865 o alvará de licenciamento para a produção de sabões, de velas de estearina e óleos vegetais. Trinta e três anos depois, em 1898, Alfredo da Silva (1871 – 1942), administrador da Companhia Aliança Fabril (CEF), promoveu a fusão desta empresa com a CUF e avançou para a produção de adubos em grande escala. Também nesta data entrou para o património da CUF a Fábrica Sol, situada na Avenida 24 de Julho.

Alfredo da Silva continuou um forte ritmo de expansão da CUF e a 19 de setembro de 1908 inaugurou uma fábrica na pequena vila piscatória do Lavradio, onde iniciou a produção de ácidos, transformando óleo de bagaço de azeitona para o fabrico de sabões, começando aqui a sua incursão no Barreiro.

Na década de trinta, a CUF tinha fábricas em Lisboa, Barreiro, Alferrarede, Soure, Canas de Senhorim e Mirandela, de indústria ligeira e pesada, somando um  gigantesco conglomerado empresarial que no início de 1974 contava com A Tabaqueira do Poço do Bispo (desde 1927), o Banco Totta & Açores e mais um outro para Angola e outro para Moçambique, três Companhias de Seguros, várias sociedades financeiras e  empresas de construção, para além do Grupo Desportivo da CUF que competia nas principais divisões nacionais e no mais alto patamar do futebol português. A CUF foi o maior grupo empresarial privado em Portugal e em 1975, foi nacionalizado e extinto, sendo que em 1997, como pertença do Grupo José de Mello, voltou a usar o nome CUF.

Freguesia de Alcântara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

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A Rua da Fábrica da Pólvora de Alcântara

Freguesia de Alcântara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Fábrica de Pólvora que no local funcionou depois de 1690 – e sobre a qual mandou D. João V  construir outra maior – originou a fixação no local da Rua da Fábrica da Pólvora, que hoje une a Rua da Cruz a Alcântara à Avenida de Ceuta.

A Rua da Fábrica da Pólvora em 1856, na planta de Filipe Folque

Em 1653, um Decreto régio  de 19 de fevereiro, de D. Pedro II,  ordenava ao Senado da Câmara que não impedisse o fabrico de pólvora, necessária para as conquistas e naus da Índia e procurasse eleger lugares para a construção da fábrica. E de acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo, nesta rua que segue lateralmente o espaço que foi a Ribeira de Alcântara começou a ser construída em 1690, por Carlos Sousa e Azevedo, uma rudimentar fábrica de pólvora. Depois D. João V mandou construir outra maior no mesmo lugar, acabada em 1728 por António Cremer que era então o intendente da Pólvora do Reino. Após o Terramoto de 1755 cessou a sua atividade e o fabrico de pólvora foi transferido para a antiga Fábrica da Ribeira de Barcarena, que datava do século XVII e  abastecia o exército português, tanto mais que tinha sido reedificada entre 1725 e 1729, sendo depois alargada e remodelada com materiais da fábrica de Alcântara.

O secretário de estado, Diogo de Mendonça Corte Real emitiu um aviso ao Senado municipal, com data de 23 de abril de  1735, para que fosse consertado um lanço da calçada que vai a ponte de Alcântara até à Fábrica da Pólvora, para que as carroças que a transportavam não corressem riscos devido aos grandes atoleiros aí existentes.

Após a remodelação paroquial de 1770, a Rua da Fábrica da Pólvora aparece na descrição e planta da nova freguesia de São Pedro em Alcântara, correspondendo ao aumento demográfico na zona após o Terramoto. E pelo Edital de 3 de outubro de 1919, as portas com os nºs 142  e seguintes até ao nº 147, situadas num troço da via pública a que antigamente o vulgo dava o nome de Largo dos Tanques, foram desanexadas da Rua da Cruz em Alcântara onde estavam indevidamente e foram incorporadas na Rua da Fábrica da Pólvora.

Esta Rua da Fábrica da Pólvora teve também durante alguns anos como morador, o escritor D. Francisco Manuel de Melo, na sua Quinta do Cabrinha, que nela faleceu em 13 de outubro de 1666. No séc. XIX, foi esta artéria também a morada da Fábrica de Chitas ou Fábrica da Cabrinha, instalação fabril ampliada em 1874.

Freguesia de Alcântara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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Olarias em beco, escadinhas, largo e rua

Rua das Olarias –
Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O sítio das Olarias guarda a memória dos oleiros desta zona, reforçada ainda por quatro topónimos:  o Beco das Olarias (freguesia de Santa Maria Maior ), as Escadinhas das Olarias ( freguesias de Santa Maria Maior e de  Arroios ), o Largo das Olarias (freg. de Santa Maria Maior e São Vicente ) e a Rua das Olarias ( freg. de Santa Maria Maior , São Vicente e Arroios ).

Por ordem cronológica, o Largo das Olarias que vai do Largo do Terreirinho à Rua dos Lagares, bem com a Rua das Olarias que une o  Largo das Olarias às Escadas do Monte, são os primeiros topónimos que se fixaram no local. A meio do século XIX, por Edital de 1 de setembro de 1859, o Governo Civil de Lisboa resolveu substituir a denominação Beco das Amoreiras por Beco das Olarias, considerando que o arruamento começa junto ao nº 54 do Largo das Olarias. E no último quartel do séc. XIX, o Edital municipal de 4 de dezembro de 1883 colocou o topónimo Escadinhas das Olarias para substituir o  Beco dos Emprenhadores, o qual de acordo com Luís Pastor de Macedo, «(…) desde 1748 [ visto no Prazo nº 64 da Freguesia dos Anjos], pelo menos, esta serventia denominou-se beco dos Empenhadores», a ligar a Rua das Olarias à Rua do Benformoso.

Beco das Olarias –
Placa de azulejo
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O jornalista e olisipógrafo Norberto de Araújo retrata este sítio da seguinte forma : «Olarias – a palavra o diz – corresponde ao aglomerado de fabricantes de louças de barro, de que esta raiz ou encosta do Monte era fértil. (…) Quando Afonso Henriques tomou Lisboa já por aqui andavam, é claro, os mouros pois deles eram a Cidade e os subúrbios. Por este sítio cultivavam-se terras, em hortas frescas (as almuinhas) e em olivais, que haviam de dar os Lagares (de azeite e não de vinho), e abriam-se barrocais de greda, no desenvolvimento da arte de olaria e cerâmica seguimos para o vale que deu a Mouraria , e da passagem que havia de ser dos Cavaleiros para nascente, isto é: para o sopé da encosta da praça e do Monte, numa planície de relativa extensão, ficou um subúrbio de oleiros, e de cujas primeiras dinastias há vagas noticias, as suficientes para se saber que existiram. No século XVI, no seu começo, o sítio era caracterizadamente dos oleiros, certo como era que pelo primeiro Foral dado a Lisboa em 1179, tempos finais do primeiro Afonso era livre o fabricar “ollas” tanto como o fabricar pão. (…) A urbanização do sitio começou por 1498, em arrabalde definido, depois de D. Manuel tomar conta do “Almocovar” ou cemitério dos mouros (na encosta do Monte do lado da Bombarda), (…) Os lagares foram desaparecendo lei inevitável da urbanização lenta; as olarias resistiram e chegavam no tempo dos Felipes, de Espanha, e, pelo século XVII dentro, ao seu apogeu. Na terceira década de seiscentos havia por aqui oitenta artífices oleiros. Só no século XVIII, com a criação de fábricas já em grande, “modernas”, e com outros horizontes industriais, as olarias entraram em declínio (…)  Presentemente, e desde há três dezenas de anos [Norberto de Araújo escreve em 1938-1939], das olarias do sítio das Olarias não restam vestígios, sendo delas uma reminiscência, aliás importante, a, já citada atrás, Fábrica da Viúva Lamego, no Intendente, que, encostada à Bombarda, fazia parte da área; em 1885 havia ainda duas ou três olarias na Calçada Agostinho de Carvalho, e que agonizavam no começo do nosso século [século XX].»

Freguesias de Santa Maria Maior, de Arroios e de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua dos Industriais de 1891

Freguesias da Estrela e da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua dos Industriais nasceu do Edital municipal de 18 de novembro de 1891 na  «Rua Transversal que corre de Nascente para Poente entre a Rua Dom Carlos I e o Caminho Novo».

Esta artéria que hoje liga a  Avenida Dom Carlos I à Rua das Francesinhas tem um topónimo cuja explicação é incerta. Podemos formular a hipótese de este topónimo se relacionar com a crescente industrialização da zona ribeirinha da Boavista – Santos – Janelas Verdes no séc. XIX, nomeadamente com  fábricas de cerâmica, de gás ou de pregos e tintas, com carpintarias e serralharias e com habitação operária, e se decidiu exaltar este fomento industria nesta artéria nova que se acabava de rasgar. Acresce que por documentos municipais sabemos que cinco anos antes, em 1886, diversos industriais moravam na Rua de São Paulo, que é relativamente próxima, o que também poderia ter influenciado a escolha do topónimo.

Certo é que Eugénio do Nascimento Cotrim, proprietário neste arruamento desde 1890 bem como do lote nº 3 da Rua José Estevão  desde 1885, solicitou à autarquia lisboeta que a via tivesse denominação, em 28 de outubro de 1891. Foi esta informação que o vereador António Francisco da Costa Lima levou à sessão de câmara de 14 de novembro seguinte, tendo para o efeito proposto que se designasse Rua dos Industriais, o que a Câmara aprovou.

Entre março e agosto de 1890 a artéria que viria a ser denominada Rua dos Industriais foi vendida em talhões a Domingos Francisco de Assis, Ernesto Eduardo Cotrim, Eugénio Nascimento Cotrim, Guilherme Coutinho, Henriqueta Emília da Gama Guimarães e Pedro Henrique da Gama Guimarães. Ainda antes da atribuição do topónimo pela CML, entre 28 de outubro e 6 de novembro de 1891, foram colocados no arruamentos três candeeiros de coluna novos. Após a via ser denominada como Rua dos Industriais houve mais compradores de talhões no arruamento, a saber ,  Nuno dos Anjos Rangel  e Sofia Carolino Tavares Teles (ambos em 1893), bem como Frederico Pereira Palha com sua esposa Maria Luísa Seixas (em 1895).

Freguesias da Estrela e da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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