O maestro jorgense Francisco Lacerda numa rua de Campo de Ourique

Freguesia de Campo de Ourique                                                     (Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Francisco Lacerda, o maestro açoriano da Ilha de São Jorge, que fora discípulo do maestro Freitas Gazul,  voltou a juntar-se ao seu mestre na toponímia de Campo de Ourique ao passar o ser o topónimo da Rua Projetada à Rua Freitas Gazul, pelo Edital municipal de 1 de agosto de 2005.

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Francisco Inácio da Silveira de Sousa Pereira Forjaz de Lacerda (Ilha de S. Jorge – Ribeira Seca/11.05.1869 -18.06.1934/Lisboa) recebeu a primeiras lições de música de seu pai, João Caetano Pereira de Sousa e Lacerda, aos 4 anos e construiu-se como um compositor e musicólogo que veio a ser o primeiro chefe de orquestra português a alcançar renome internacional, trabalhando em França e na Suíça.

Já em 1886, na Terceira, onde frequentava o Liceu, compôs a mazurka Uma Garrafa de Cerveja, dedicada ao amigo Luiz da Costa e nesse mesmo ano passou a  residir na cidade do Porto, para frequentar o curso de Medicina. Ao mesmo tempo, fazia estudos musicais com António Maria Soller, que o aconselhou a estudar no Conservatório de Lisboa e ele assim procedeu,  tendo sido aluno de Freitas Gazul e logo no ano de conclusão do seu curso, sido professor dessa escola de artes, de 1891 a 1895, sendo nesse último ano que partiu para Paris, como bolseiro da Coroa (foi a 1ª bolsa oficial de música em Portugal), para se aperfeiçoar no Conservatório e depois na então nova Schola Cantorum, em piano, órgão e composição, onde se tornou discípulo e também amigo de Vincent d’Indy que o incentivou a revelar a sua vocação para chefe de orquestra em 1900 e o escolheu para seu substituto na classe de orquestra, sendo inegável  a influência da escola francesa nas suas composições e no seu estilo de direção musical.

De 1904 a 1913, dirigiu concertos em França, nomeadamente, no Casino de La Baule e no Kursaal de Montreux, sendo o primeiro chefe de orquestra português a alcançar renome internacional. Por isso, foi a sua obra escassa como compositor, mesmo que de alta qualidade e dela se destacam os poemas para orquestra Almourol, Alcácer e Epitáfio para um Herói, as Trovas para canto e piano ou orquestra, a música de cena para A Intrusa de Maeterlinck, os bailados Danse du voile e Três Danças Rítmicas,  peças para órgão, piano, guitarra, trios e quartetos de cordas ou Anteriana, Trente Six Histoires e Petites histoires pour amuser l’enfant d’un artiste, bem como a Canção do Berço para o Centenário do Nascimento de Almeida Garrett (1899).

Consideremos ainda Francisco de Lacerda como professor de direção de orquestra;  fundador em 1905 da Association des Concerts Historiques de Nantes, que dirigiu até 1908;  estudioso do folclore que se dedicou  à recolha de música tradicional açoriana (em 1899-1900 e de 1913 a 1921); bem como quando viveu em Lisboa a partir de 1921, foi conferencista e fundador  de Uma Hora de Arte (1922) dedicada aos operários, assim como no ano seguinte da Pró-arte, com Eugénio de Castro, Afonso Lopes Vieira, Carlos Malheiro Dias e Raúl Lino, bem como da  Filarmónica de Lisboa que se apresentou em concertos em Lisboa e no Porto. Regressou a França  entre 1925 e 1928, para voltar a dirigir os Grands Concerts Classiques de Marseille e ser chefe de orquestra em Paris, Marselha, Nantes, Toulouse e Angers.

Impedido de reger por motivos de saúde (tuberculose pulmonar), voltou a Lisboa em 1928, onde organizou as iniciativas musicais da representação portuguesa na Exposição Ibero-Americana de Sevilha de 1929, para além de se dedicar à composição, ao estudo do folclore e da música antiga portuguesa, tendo o resultado das suas recolhas pelo país sido publicado postumamente como Cancioneiro Musical Português. Quando buscou cura nos ares da Madeira ainda presidiu à Comissão das Festas da Cidade do Funchal (1932).

Foi agraciado com o 1º  prémio da Revue Musical (1904) pela Danse du Voile; Ordre National de la Légion d’ Honneur (1905); como Oficial da Ordem de Santiago (1910) e a Medalha de Serviços Distintos da Cruz Vermelha (1920) pelos serviços prestados «na grippe pneumonica de 1918» na ilha de S. Jorge.

O seu nome está presente num Museu açoriano da sua ilha natal, desde 1991, assim como também na toponímia da Calheta e na de Velas (São Jorge), assim como na de Alhos Vedros.

Música – Revista de Artes, 1 de setembro de 1924

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A Rua do flautista e compositor sacro Dom Pedro Cristo

Freguesia de Alvalade
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Domingos de seu nome secular, Dom Pedro de Cristo por escolha, exímio flautista e compositor sacro coimbrão da passagem do séc. XVI para o XVII, quando o Mosteiro de Santa Cruz era um centro de produção musical, cujo 4º centenário da morte passa este ano, está homenageado numa Rua de Alvalade desde a publicação do Edital municipal de 14 de junho de 1950.

Era a Rua 36 do Sítio de Alvalade situada na confluência das Ruas Domingos Bomtempo e Filipe de Magalhães, ambos compositores, tanto mais que a Câmara alfacinha colocou pelo mesmo Edital de 1950 mais 7 topónimos de músicos no Bairro: Rua Alexandre Rey Colaço (Rua 35), Rua Carlos de Seixas (Rua 38), Rua Domingos Bomtempo (Rua 37), Rua Duarte Lobo (Rua 34-A), Rua Filipe Magalhães (Rua 40), Rua Frei Manuel Cardoso (Rua 34) e Rua Viana da Mota (Rua 35-A).

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

De seu nome Domingos (Coimbra/c. 1545 a 1551 – 16.12.1618/Coimbra) e filho de António Nunes e Isabel Pires, ao tomar o hábito  de monge de Santo Agostinho em 4 de setembro de 1571 escolheu ser Pedro de Cristo. Destacou-se como um excelente executante de flauta e de fagote renascentista, assim como de harpa e ainda um celebrado cantor e professor de música.  Foi o mais célebre compositor de música sacra do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra e mestre de capela a partir de 1597. Produziu vasta obra vocal polifónica de 3 a 6 vozes, com motetos, responsórios, salmos, missas, hinos, paixões, lamentações, cânticos e vilancicos espirituais (denominados chansonetas no Mosteiro). As suas obras conservam todo o elevado sentido espiritual da oração cantada mas moldada na polifonia do Renascimento. Permaneceu também algum tempo no mosteiro-irmão de São Vicente de Fora, em Lisboa. Quando faleceu era cantor-mor do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, cargo em que sucedera a D. Francisco Castelhano.

Existe em Coimbra um Coro com o seu nome desde 1970 e também integra a toponímia de Coimbra e de Fernão Ferro.

A Rua Dom Pedro de Cristo em 1961
(Foto: Artur João Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua do Casimiro, compositor dos teatros lisboetas oitocentistas

Freguesia da Estrela
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Joaquim Casimiro, um compositor que começou na música sacra para depois enveredar na criação para o universo teatral lisboeta do século XIX, está desde 1925 imortalizado numa Rua que liga a Rua do Olival à  Rua Maestro António Taborda.

Foi pelo Edital municipal de 8 de junho de 1925 que a Rua nº 1 do novo Bairro da Lapa passou a ter topónimo: Rua Joaquim Casimiro. O mesmo documento municipal inclui no mesmo Bairro novo da Lapa outros dois topónimos ligados à música: a Rua Maestro António Taborda (na Rua nº 2) e a Rua Santos Pinto (na Rua nº 3).

Joaquim Casimiro num medalhão nos Paços do Concelho de Lisboa

O lisboeta Joaquim Casimiro Júnior (Lisboa/30.12.1802 – 28.12.1862/Lisboa), filho de Joaquim Casimiro da Silva (1767-1860), músico e copista da Casa Real e do Teatro São Carlos, também se tornou músico, primeiro como organista e depois, como compositor. Aos 5 anos, começou nas lições de Rodrigues Palma. Dos 6 aos 9, frequentou a aula dos frades do Carmo onde teve educação primária e religiosa. Seguiu então para a aula de música da Sé de Lisboa, com o mestre José Gomes  e  Frei António, sendo que com este último teve aulas de canto que lhe permitiu depois ingressar na Irmandade de Santa Cecília e concorrer com sucesso ao lugar de soprano na Real Capela da Bemposta.

Em pouco tempo, Casimiro começou também a fazer acompanhamentos ao órgão para o coro de um hospício de frades, situado na antiga Carreira dos Cavalos (hoje, Rua Gomes Freire), função que se estendeu pouco depois à Real Capela da Bemposta, como organista substituto. Apoiado por D. João VI, tornou-se discípulo do Mestre da Capela Real, Frei José Marques da Silva, aprofundando os conhecimentos de órgão e composição e aos 24 anos concorreu a primeiro organista da Capela e ganhou o lugar, uma orquestra completa e um coro. Ao longo da sua vida criou 97 peças de música sacra, como as matinas de Santa Luzia, as de Reis, missas, responsórios, ofícios e um credo para vozes e orquestra, das quais se salientam Grandiosa Missa (1830),  Missa dita da Arruda (1835), Missa a 4 Vozes (1850), Kirie e Gloria para Quinta Feira Sancta (1856), Septenário das Dores de Nossa Senhora (1865) e Miserere (1886).

Entretanto, surge a  guerra civil e Casimiro alistou-se como voluntário das tropas de D. Miguel, compôs o Novo Hino Realista Militar (1830) e a sua lealdade ao regente absolutista valeu-lhe a prisão. Na época, a ópera usada pelo Teatro São Carlos era quase exclusivamente a italiana e Joaquim Casimiro traçou o intuito de ser  compositor teatral e foi assim que se estreou em 1841, no Teatro do Salitre, com a farsa Os cegos fingidos, relançando a sua carreira. Com a vitória liberal de 1834, o compositor deixou a Real Capela da Bemposta e só mais tarde será provido num dos lugares  da Sé, com uma remuneração bastante inferior.

Ao longo de 21 anos, de 1841 a 1862, escreveu 209 partituras para dramas, comédias, operetas, farsas, revistas e mágicas para os teatros da Lisboa de oitocentos, das quais se destacam O Peão Fidalgo (1842) no Teatro do Salitre; a farsa lírica O ensaio da Norma (1849) ou a peça fantástica A Filha do Ar (1856) no Teatro do Ginásio; A assinatura em branco e a ópera cómica A batalha de Montereau, ambas no Teatro de D. Fernando em 1850, onde na temporada de 1850/51 foi o diretor musical; a opereta Ópio e Champanhe (1854) no Teatro da Rua dos Condes; a comédia mágica A Lotaria do Diabo (1858) no Teatro de Variedades (antigo Salitre) ou É perigoso ser rico (1862) no  Teatro de D. Maria II. Refira-se  que além da música de cena que criava Joaquim Casimiro também integrou como instrumentista as orquestras dos teatros de Lisboa.

Em 1857 voltará a ser organista permanente da Sé e no ano seguinte, mestre de capela para além de, por outro lado, formar cantores e músicos em aulas particulares, dirigir o periódico musical Semanário Harmónico e exercer diversos cargos na Irmandade de Santa Cecília, no Montepio Filarmónico, na Associação Música 24 de Junho e na Academia Melpomenense, de que foi um dos fundadores e maestro, sendo suas as obras da Semana Santa na Igreja de S. Nicolau, em 1851.

Na sua vida pessoal foi a partir de 1853 pai de Angelina Vidal, também presente na toponímia lisboeta.

No reconhecimento póstumo de Joaquim Casimiro encontramos um medalhão com o seu retrato em perfil nos Paços do Concelho de Lisboa, para além da homenagem toponímica que também se encontra em Aldeia Galega da Merceana (Alenquer), Queluz e Sesimbra.

Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua da fadista Maria do Carmo Torres no Bairro das Marias

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Maria do Carmo Torres foi uma  das cantadeiras mais queridas do público nos anos 30 e 40 do século passado e está perpetuada desde o ano 2000 no Bairro da Cruz Vermelha, popularmente conhecido como Bairro das Marias, em resultado da sua toponímia.

Através do edital camarário de 5 de julho de 2000 Maria do Carmo Torres ficou na Rua A à Rua Maria Carlota, juntamente com mais duas outras fadistas: Maria Alice (Ruas B e C) e Maria José da Guia (Rua com início na Rua Pedro Queirós Pereira e fim na Rua Maria Carlota), todos por sugestão de Appio Sottomayor enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia.

O Bairro da Cruz Vermelha ganhou o epíteto de Bairro das Marias, dado a sua toponímia comportar o nome das senhoras da secção auxiliar feminina da Cruz Vermelha de cuja iniciativa nasceu em janeiro de 1967 o Bairro Municipal da Cruz Vermelha, para albergar as famílias cujas barracas tinham ardido em 1962, todas Marias de primeiro nome e a que ainda se juntou a Rua das Duas Marias, a Rua das Três Marias, a Rua das Quatro Marias, a Rua das Cinco Marias e o Largo das Seis Marias.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Maria do Carmo Alves Torres foi uma cantadeira do fado nascida na piscatória vila algarvia da Fuzeta (Olhão), no dia 8 de janeiro de um dos primeiros anos do século XX,  que ainda em bebé foi morar para Setúbal e seguiu o percurso de trabalhar numa fábrica de conservas de peixe, que como ela conta no jornal Guitarra de 21/08/1934 «(…) fui para o trabalho, nas conservas, onde cheguei a ser alguém, com muita gente sob as minhas ordens. Quantas vezes aos serões, para entreter o pessoal, que escabeceava com sono, me sentava a um canto da fábrica cantando o Fado, entretendo o pessoal e patrões, entretendo-me a mim própria, que já tanto adorava o Fado».

Mas, em paralelo, fazia teatro amador e foi assim que aos 19 anos ( supõe-se que seja à roda de 1926) se estreou como intérprete  do garoto das filhoses numa revista de amadores levada à cena no Salão Recreio do Povo, em Setúbal, de onde seguiu para outra revista no Casino de Setúbal, onde imitou o conhecido pescador António Gouga, tendo sido obrigada pelos aplausos a cantar 7 vezes seguidas e depois, passou para outra no Casino Estoril.

Após o suicídio do seu filho de 16 anos a castiça intérprete acabou por fixar-se em Lisboa, no 2º andar do n.º 119 da Travessa dos Fiéis de Deus, para esquecer  essa perda. Teve depois uma filha a que chamou Maria Carolina Relvas. Na capital, trabalhava como empregada de balcão no Café-Restaurante Sul-América e um dia em que acabou por substituir a cantadeira Maria Virgínia, o diretor Mendes Leal e Alfredo Madeira proporcionaram-lhe a aquisição do carteira profissional.

A partir daí, cantou o fado em todos os retiros da capital, nas esperas de touros do Campo Pequeno, nos teatros e salões de festas dos cinemas, em festas de caridade e nas particulares como as da Condessa de Ficalho, bem como até na então denominada Emissora Nacional. Ficou célebre a sua presença nas peças Adeus, Artur! no Teatro Variedades ou O Chico do Intendente exibida em 1936 no Teatro Apolo. Do seu reportório foram sucessos O SonhoMaria da Graça,  Não Me PersigasMaria da EsperançaCarta em Verso, Fado da Amora e O Que é de Mais Faz Mal, sendo Adriano Reis o seu letrista favorito. A partir de 1934, integrou a Embaixada do Fado, organizada por Maria do Carmo Alta e dirigida por Alberto Reis, que se exibiu no Porto e fez uma digressão pelo Brasil, Argentina e Uruguai, incluindo o guitarrista Armandinho, Berta Cardoso, Branca Saldanha, Lina Duval, Filipe Pinto, Joaquim Pimentel e Eugénio Salvador, entre outros.

Cantou nas diversas casas especializadas de fado lisboetas como o Retiro da Severa (Rua António Maria Cardoso, n.º 5), o Solar da Alegria (Praça da Alegria, n.º 56, num prédio já desaparecido), o Café Luso (no n.º 27 da Avenida da Liberdade, de onde passou em 01/11/1939 para o n.º 131 da mesma Avenida e ainda mais tarde, para a Travessa da Queimada, n.º 8), o Café Mondego (Rua da Barroca, 124), o Retiro dos Marialvas (Rua da Barroca, 122 a 126), a Adega da Lucília (Rua da Barroca, 54) antes de se chamar O Faia e o Solar do Marceneiro (ao fundo da Calçada de Carriche).

No final de 1944 apadrinhou a estreia artística de Deolinda Rodrigues e cerca de 7 anos depois,  após 1951, e acordo com o estudioso do fado Eduardo Sucena retirou-se do fado, para casa de uma irmã, e faleceu nessa mesma década em Leça do Bailio.

O compositor barroco Marques Lésbio numa Travessa de Benfica

Freguesia de Benfica
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O compositor barroco António Marques Lésbio ficou numa Travessa do Calhariz de Benfica, com a legenda «Compositor musical/1639-1709», pela publicação do Edital municipal de 18 de junho de 1926, substituindo a anterior denominação não oficial de  Travessa dos Namorados.

Nos arruamentos circundantes ficaram também figuras do século XIX, republicanas ou ligadas ao liberalismo como o General Sousa Brandão num Largo – um combatente das Campanhas da Liberdade de 1833-, protagonistas da revolução republicana do 31 de Janeiro de 1891, no Porto, como o Abade Pais, o Sargento Abílio e o ator Miguel Verdial (todos em Travessas), bem como dedicadas às artes como os escritores Pato Moniz – desterrado pela Vilafrancada de 1823-, José Agostinho de Macedo e Curvo Semedo ( num Beco, numa Travessa e num Largo) e o pintor Francisco Rezende (numa Travessa), autor da tela Camões salvando os Lusíadas (1867).

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

António Marques Lésbio (Lisboa/1639-21 ou 27.11.1709/Lisboa) foi um lisboeta que passou a sua vida inteira na cidade de Lisboa, famoso sobretudo pelos seus vilancicos –  o vilancico barroco ou cantata-vilancico foi uma das principais formas poético-musicais da música sacra barroca na Península Ibérica – , sobretudo os de Natal e de Reis, bem como por outra música barroca que compôs, como salmos, um miserere, lamentações para a Semana Santa, responsórios e motetes.

Os vilancicos repercutiram-se no seu nome já que nascido António Marques, acrescentou-lhe o nome Lésbio, referente à ilha grega de Lesbos, associada à origem da poesia lírica, que ele quis colar a si mesmo. Publicou numerosos vilancicos – espanhóis e portugueses – e musicou a maioria deles, sendo os primeiros de cerca de 1660, sendo certo que até nós chegou o seu próprio Victimae Paschalis laudes para a celebração da Páscoa ou o poema A Estrela de Portugal, o feliz nascimento da Sereníssima Infanta (1669), dedicado ao nascimento da princesa Isabel Luísa Josefa de Bragança.

Sabe-se também que em 1668 era mestre dos músicos de câmara do rei e que a partir daí foi ocupando vários cargos na corte: ensino dos moços do coro da Capela Real (1669), escrivão dos Contos (1680), bibliotecário da grandiosa Real Biblioteca de Música (1692) e finalmente, mestre da Capela Real (nomeado a 15 de janeiro de 1698, sucedendo a Filipe da Madre de Deus). Refira-se que a proibição dos vilancicos em 1724 e a destruição da Biblioteca Real de Música com o terramoto de Lisboa de 1755, contribuíram para o desconhecimento da maioria da sua obra.

Lésbio integrava a Academia dos Singulares de Lisboa, uma academia literária à semelhança das italianas, fundada em Lisboa em 1663. Está também presente numa Praceta da Arrentela (Seixal) e numa Rua de Évora.

A Travessa de Marques Lésbio em 1967
(Foto: João H. Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua do maestro Tavares Belo que regeu a Orquestra RTP no 1º Festival da Canção

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Na urbanização da antiga Quinta de Santa Susana e dos Castelinhos nasceu a Rua Tavares Belo – maestro e compositor que regeu a Orquestra RTP no 1º Festival da Canção (1964) -, como topónimo da Rua Projetada à Estrada de São Bartolomeu, por via do Edital municipal de 3 de dezembro de  2012.

Nas proximidades já existia desde 2001 a Rua Fernando Cabral, a homenagear também um maestro.

Armando Alberto Tavares Belo (Faro/20.11.1911 – 13.12.1993/Cascais), foi um maestro e compositor que se distinguiu especialmente na área da música ligeira, tendo composto para e/ou acompanhado artistas como Alice Amaro, Anita Guerreiro, Beatriz Costa, Corina Freire, Deolinda Rodrigues, Laura Alves, Luís Piçarra, Madalena Iglésias, Maria ClaraMaria de Lourdes Resende, Max ou Simone de Oliveira, entre outros.

Praticamente autodidata, salvo umas aulas particulares de música que teve até aos 9 anos, profissionalizou-se  aos 17 anos como pianista, no Café Montanha de Faro, para depois integrar orquestras que trabalhavam no Casino da Figueira da Foz,  Casino Estoril e no lisboeta Maxime. De 1946 e até 1974, foi o regente principal da Orquestra de Variedades da Emissora Nacional, convidado que foi pelo maestro Belo Marques para o substituir. Tavares Belo também criou uma orquestra de swing que nos  anos 40 e 50 conseguiu assinalável êxito. Em 1964, dirigiu a Orquestra da RTP no 1º Festival RTP da Canção e três anos depois, no Olympia de Paris, dirigiu a orquestra das Olimpíadas da Canção, com artistas portugueses, como Amália Rodrigues e Carlos Paredes. Compôs ainda obras de cariz erudito, de que são exemplo dois concertos para piano e orquestra, assim como as bandas sonoras dos filmes Duas Causas (1952) e Rosa de Alfama (1953), ambos de Henrique Campos, bem como música para 15 histórias infantis de Odette de Saint-Maurice.

O maestro Tavares Belo foi agraciado com o grau de Oficial da Ordem do Infante D. Henrique e as medalhas de Mérito Municipal das cidades de Lisboa e  de Faro. Está também presente na toponímia de Faro, Fernão Ferro e Parede.

Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Largo Madalena Perdigão no Bairro patrocinado pela Gulbenkian

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Madalena Perdigão que dirigiu o Serviço de Música da Gulbenkian de 1957 e até 1974, dá o seu nome a um Largo do Bairro das Furnas, junto ao Largo Calouste Gulbenkian, desde a publicação do Edital municipal de 21 de agosto de 1990, tendo a edilidade aceite a sugestão da Associação de Moradores do Bairro das Furnas e colocado a legenda «Dinamizadora da Cultura e das Artes/1923 – 1989».

Já antes havia sido atribuído naquele Bairro o Largo Calouste Gulbenkian, através da publicação do Edital municipal de 20 de agosto de 1985, no largo principal do Bairro das Furnas, também por proposta da Associação de Moradores. Em ambos os largos a sugestão à Câmara foi uma forma de agradecimento dos residentes, por ter sido a Fundação Calouste Gulbenkian que comparticipou a execução deste Bairro que permitiu o realojamento das famílias das casas abarracadas que ali residiam há 40 anos.

Madalena Perdigão em 1967 na inauguração da Avenida Calouste Gulbenkian
(Foto: João Marques Oliveira, Arquivo Municipal de Lisboa)

Nascida Maria Madalena Bagão da Silva Biscaia (Figueira da Foz/28.04.1923 – 05.12.1989/Lisboa), licenciou-se em Matemática (1944) em Coimbra e também concluiu o Curso Superior de Piano (1948) do Conservatório Nacional, seguindo depois estudos de aperfeiçoamento em Paris, sido solista em concertos com a Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, dirigida pelo Maestro Pedro de Freitas Branco, para além de ter tido um programa radiofónico na Emissora Nacional, intitulado A música e os seus sortilégios.

Entrou para a recém-criada Fundação Calouste Gulbenkian com 34 anos de idade, em fevereiro de 1958 e até 1974 dirigiu o seu Serviço de Música, onde criou o seu 1º plano de atividades, os Festivais Gulbenkian de Música (1958-1970), a Orquestra (1962), o Coro (1964) e o Ballet (1965). Em 1967, foi Madalena Perdigão a representante da Gulbenkian na cerimónia de inauguração da Avenida Calouste Gulbenkian. Entre 1971 e 1974, acumulou o trabalho da Fundação com a presidência da Comissão Orientadora da Reforma do Conservatório Nacional, a convite do ministro Veiga Simão, onde realizou uma das maiores reformas da instituição, com reformulação do ensino do teatro e da música e a criação da Escola de Dança, da Escola Superior de Cinema e da Escola-Piloto de Formação de Professores de Educação pela Arte. De 1978 a 1984, convidada pelo ministro Sottomayor Cardia, dirigiu o Gabinete Coordenador do Ensino Artístico do Ministério da Educação para definir uma proposta de um Plano Nacional de Educação Artística. Entre 1977 e 1983, fez parte da Direção da Associação Portuguesa de Educação Musical (APEM), onde organizou os Encontros de Musicologia, cursos e congressos, entre outras iniciativas. Em 1983, organizou o 1º Festival Internacional de Música de Lisboa, iniciativa de Francisco Lucas Pires e pertenceu à Direção do Conselho Português da Música. Em 1984, regressou à Gulbenkian, para criar o ACARTE- Serviço de Animação, Criação Artística e Educação pela Arte que dirigiu até 1989, ao mesmo tempo que criou o CAI – Centro Artístico Infantil da Fundação Gulbenkian, tendo concretizado 3 edições  dos Encontros ACARTE – Novo Teatro/Dança da Europa (1987, 1988 e 1989).

Madalena Perdigão foi em 1987 eleita  membro do Comité Européenne d’Experts de Eurocreation, da Agence Française des Iniciatives de la Jeunesse en Europe, em Paris, para além de ter sido distinguida em  1988 com o prémio «Mulheres da Europa», que reconhecia o papel de uma mulher ou grupo de mulheres de um dos países da CEE que tivesse contribuído, nos dois anos antecedentes, para fazer progredir a União Europeia e ainda foi condecorada com a Ordem do Infante D. Henrique e as insígnias da Ordem do Cavaleiro da Legião Francesa.

Na sua vida pessoal,  Madalena Biscaia adotou o nome de Madalena Farinha, por casamento em 1956 com João Farinha, doutorado em Matemática e professor assistente da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra. Estando ambos em Paris, ele como bolseiro da Gulbenkian e ela do Instituto de Alta Cultura, ele faleceu subitamente em setembro de 1957.  Ao relatar a situação ao presidente da Fundação Gulbenkian, Madalena foi por este convidada a trabalhar e será com ele, José de Azeredo Perdigão, que se casará a  6 de novembro de 1960, adotando o nome Madalena de Azeredo Perdigão. Vítima de cancro, trabalhou até ao seu último dia de vida.

 

As Ruas dos irmãos Andrade em Alvalade

António e Francisco de Andrade na capa de «A Comédia Portuguesa» de 15 de junho de 1889

Os irmãos e cantores líricos António e Francisco de Andrade dão ambos os seus nomes a ruas paralelas, do Bairro de Alvalade, antes identificadas como Ruas 57 e 58, desde a publicação do Edital municipal de 20 de outubro de 1955, a partir de uma sugestão enviada à edilidade numa carta de Jorge Freire Garcia, de 9 de setembro de 1947.

Esse mesmo Edital de 1955 colocou no bairro mais personalidades ligadas à música, como o barítono Dom Francisco de Sousa Coutinho (Rua 56), a violoncelista Guilhermina Suggia (Rua 59) e o compositor Rodrigues Cordeiro (Praceta III da Rua 59 ou Praceta à Rua 58), em consonância com a sugestão do olisipógrafo Luís Pastor de Macedo, então vice-presidente da Câmara, aceite pela Comissão Municipal de Toponímia na reunião de 20 de julho de 1955, para que no sítio de Alvalade se perpetuassem personalidades ligadas às Letras e às Artes, nomeadamente, na música e na pintura.

Ambos os irmãos Andrade são lisboetas que estudaram declamação com José Romano e D. Luís da Costa, assim como música com Joaquim Casimiro, Manuel Carreira e Arturo Pontecchi ( o principal maestro do Teatro São Carlos) e seguiram uma  carreira lírica, partindo ambos para Itália, em 1881, para estudarem com o tenor Corrado Miraglia e o barítono Sebastiano Ronconi.

Rua António Andrade – Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Assim, a Rua António Andrade homenageia o tenor António de Andrade e Silva (Lisboa/13.04.1854 – 18.12.1942/Lisboa), nascido na Rua dos Calafates – que no último dia do ano de 1885 passou a ser Rua do Diário de Notícias-, que após a sua especialização em Itália acabou por aí fazer a sua estreia como cantor lírico, na ópera Favorita de Donizetti. Criou os famosos papéis de Roberto em Le Villi de Puccini (1884) e Aben-Afan em Donna Bianca de Alfredo Keil (1888). Pisou os principais teatros europeus, de Lisboa e Porto até Sampetersburgo e Moscovo, na sua época áurea de 1882 a 1892.  Interrompeu a sua carreira em 1900 devido a surdez. Foi agraciado com uma uma sala inteira na exposição intitulada Noites em São Carlos , no Teatro São Carlos, durante o mês de novembro de 2013. Integra também a toponímia de Corroios.

Rua Francisco Andrade – Freguesia de Alvalade
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Rua Francisco Andrade homenageia o irmão mais novo de António de Andrade, o barítono Francisco Augusto de Andrade e Silva (Lisboa/11.01.1859 – 08.12.1921/Berlim – Alemanha), que partiu para Itália em 1881 e acabou por fazer a sua estreia como cantor lírico em dezembro de 1882, em San Remo, na ópera Aida de Verdi. Ficou célebre o seu desempenho no papel de Don Giovanni na ópera homónima de Mozart, tendo mesmo sido pintado no desempenho dessa personagem por Max Slevogt em 1912 (na  Alte Nationalgalerie em Berlim), pintor que o retratou mais algumas vezes a partir de 1903. Francisco d’Andrade cantou em 6 línguas, atuou nos principais teatros europeus durante 35 anos de vida artística, sendo a sua última aparição em público n’ O Barbeiro de Sevilha, como Figaro, no Coliseu dos Recreios de Lisboa, em 1918. Quando Portugal entrou na Primeira Guerra Mundial, em 1916, ele teve que sair da Alemanha onde residia há largos anos e onde só voltou em 1919. Faz parte da toponímia de Almada, Charneca da Caparica, Estoril e Fernão Ferro.

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua do compositor basco Shegundo Galarza

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Shegundo Galarza, compositor basco que com a sua orquestra de violinos esteve presente na televisão portuguesa desde o seu começo e celebrizou o restaurante Mónaco, está desde o ano do seu falecimento perpetuado numa artéria da Freguesia do Lumiar, no núcleo dedicado à toponímia musical.

A Rua Shegundo Galarza, que termina junto à Rua Ferrer Trindade, foi o topónimo dado à junção da Rua B com a  Rua 7.1 do Alto do Lumiar num único arruamento. Tal aconteceu através da publicação do Edital municipal de 15 de dezembro de 2003, que nas proximidades atribuiu também a ruas os nomes dos compositores Belo Marques e Nóbrega e Sousa, dos cantores Luís Piçarra e Arminda Correia e da violoncelista Adriana de Vecchi.

Shegundo Ramón Galarza Arace (Espanha – Guipuzcoa/07.09.1924 – 04.01.2003/Lisboa), maestro e compositor de origem basca, filho único de um comerciante, desde 1948 começou a residir em Lisboa e em mais de 50 anos de carreira deixou uma marca de qualidade na música ligeira portuguesa.

Concluiu o conservatório de Bilbau,  ganhou um prémio de piano e aos 18 anos começou a percorrer a Europa em concertos. Chegou a Portugal aos 24 anos e a partir de 25 de novembro de 1948 passou a atuar diariamente no Casino Estoril, até maio de 1950. Nessa década tocou ainda em diversos restaurantes portugueses, de Luanda, da então Lourenço Marques (hoje Maputo), de Joanesburgo (1952 -1954) até se estabelecer no Restaurante Mónaco (novembro de 1956 a 1974), de que era sócio com o empresário galego Manuel Outerelo Costa, e que em Portugal introduziu o jantar dançante.

Em paralelo, integrou as mais prestigiadas orquestras ligeiras portuguesas e teve a sua e um conjunto em nome próprio. Logo em 1956, a RTP convidou-o, por via do maestro José Atalaya, a protagonizar um programa semanal, com a sua orquestra de violinos, que atingiu 100 emissões e ao longo da sua carreira colaborou com a RTP em programas de música e em arranjos musicais de várias longas metragens e de centenas de documentários.

Gravou os seus 3 primeiros discos para a editora Melodia (1951) com temas de Frederico Valério e seus, mostravam desde logo os vários mundos do músico, que sempre acompanhou as tendências internacionais do seu tempo; mais 6 para a editora Decca  (1952 -1954), assinou a gravação de 4 com a editora Estoril, gravação Fado Rossio para a Fonomat, de Lisboa,  em 1959. Como solista ou com a sua orquestra de violinos, gravou cerca de 50 discos em em Portugal e em Espanha, para editoras como a Alvorada, Belter, Estoril, Marfer, Orfeu, RCA, Roda e Voz do Dono. Em 1996, Shegundo Galarza gravou um disco em que interpretava, ao piano, temas como Lisboa Antiga, Madeira, Açores, Moçambique, Aldeia da Roupa Branca e em 2001 editou Sorrisos do Tempo.

Como orquestrador trabalhou para o Festival Eurovisão da Canção ou da OTI – tendo dirigido a orquestra da Eurovisão para Playback de Carlos Paião (1981) – e trabalhado com outros inúmeros artistas como Amália, Cândida Branca FlorDoutor Lello Minsk, Frei Hermano da Câmara, Herman José, Jorge Fontes, José Cid, Lara Li, Madalena Iglésias, Marco Paulo, Maria da Fé, Maria de Lurdes Resende, Max, Natália de Andrade, Paulo de Carvalho, Quim Barreiros, TonichaTony de Matos ou Tozé Brito.

Na sua vida pessoal, foi pai da enfermeira Teresa Galarza (1952) e do também músico Ramón Galarza (1957).

Shegundo Galarza foi homenageado com uma festa dos 50 anos de carreira em Portugal (1998) no Casino Estoril e está presente também na toponímia de Paço de Arcos.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

O Largo do 1º Mestre das Filarmónicas Portuguesas, Rodrigues Cordeiro

Freguesia de Alvalade
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A partir da proposta do então Vice-Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Luís Pastor de Macedo, nasceu o Largo Rodrigues Cordeiro, em Alvalade, para guardar a memória do primeiro Mestre das Filarmónicas Portuguesas,  que ainda no séc. XIX dedicou grande parte da sua vida a ensinar diversos instrumentos, nas sociedades filarmónicas do país.

Foi pelo Edital de 20 de outubro de 1955 que se fixou junto à Rua Guilhermina Suggia o Largo Rodrigues Cordeiro, arruamento antes identificado como Praceta III da Rua 59 ou Praceta à Rua 58 do Sítio de Alvalade. O mesmo edital atribuiu naquele bairro os nomes da violoncelista Guilhermina Suggia (Rua 59), dos irmãos cantores líricos António (Rua 57) e Francisco Andrade (Rua 58) e ainda, do barítono Dom Francisco de Sousa Coutinho (Rua 56).

João Rodrigues Cordeiro (Brasil- Rio de Janeiro/1826 – 11.05.1881/Lisboa) foi um compositor musical, filho do médico português Rodrigues Curto que veio para Lisboa com apenas 2 anos. Ainda jovem perdeu o pai, o que conduziu a dificuldades para a sua família, tendo sido um protetor que lhe pagou os estudos na Escola Médica de Lisboa, onde se inscrevera em 1842, mas da qual acabou por desistir para se matricular em 1844 no Conservatório de Lisboa, onde frequentou as classes de contrabaixo e de harmonia, tendo sido aluno de contrabaixo de João Jordani.

Como instrumentista podia sustentar-se e começou logo a tocar em orquestras e a ensinar nas sociedades de amadores, acabando por ser conhecido como o primeiro mestre das filarmónicas portuguesas. As suas composições espalharam-se pelas bandas filarmónicas e militares, de Portugal e do Brasil, sendo muito estimado no meio filarmónico e muito requisitado pelos seus preços convidativos.

A banda filarmónica foi criada no meio militar no decorrer do séc. XVIII mas no século XIX adquiriu uma identidade própria, em termos orgânicos e de repertório, dando origem ao desenvolvimento do «movimento filarmónico», com a criação de dezenas de bandas filarmónicas civis, a partir dos meios urbanos e expandindo-se para a periferia. Ainda na primeira metade do séc. XIX, Lisboa viu nascer diversas sociedades musicais, com pequenas orquestras e as primeiras bandas civis, como a Academia Philarmonica (1838), a Sociedade Philarmonica Portuguesa (1840), a Academia Melponense (1846), a Academia Philarmonica Lusitana (1848), a Sociedade Recreação Philarmonica (1842), a Academia Apollinea Lisbonense (1846) e a Academia Philarmonica Lisbonense (1850). As sociedades filarmónicas protagonizaram essa onda de democratização da cultura musical, através dos eventos frequentados pela burguesia nos espaços públicos ao ar livre, onde se podiam encontrar grupos com diferentes origens sociais.

Rodrigues Cordeiro teve uma produção musical considerável em que também somou aberturas para orquestras, solos para diversos instrumentos, música para igreja, música de baile, marchas, hinos, trechos para piano e canto, música para comédias e dramas teatrais e ainda, a opereta Qual dos três? representada no Teatro Ginásio em 1870.  Sabe-se que foi para entrar a Associação Musica 24 de Junho que em 1864 criou Fantasia para contrabaixo.

O seu nome foi também perpetuado, postumamente, numa dessas associações para quem mais trabalhou: na Sociedade Filarmónica João Rodrigues Cordeiro, fundada em 4 de março de 1896 no nº 46 da Rua da Fé.

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)