O Jardim dos Jacarandás da Expo 98

Freguesia do Parque das Nações
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O Jardim dos Jacarandás nasceu com a Expo 98 e desde a publicação do Edital municipal de 16 de setembro de 2009 que este espaço verde de 2.500 metros quadrados que vai da Alameda dos Oceanos à Rua de Moscavide é parte integrante da freguesia lisboeta do Parque das Nações.

Freguesia do Parque das Nações
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Jardim dos Jacarandás caracteriza-se por ser uma zona arborizada que com situações de desníveis, tradicionais em Lisboa, resolvidas com plantações e muros. Por outro lado, guarda na memória o nome popular de várias espécies de árvores dos géneros Jacarandá-da-Bahia, Jacarandá-do-pará, Jacandará-africano, sendo o Jacarandá-mimoso o mais comum e que em Lisboa é possível encontrar, por exemplo, no Parque Eduardo VII, no Largo do Carmo ou ainda nas Avenidas 5 de Outubro ou Dom Carlos I.

Ainda herança da Expo 98 existe também o Passeio dos Jacarandás, que liga a Rua de Moscavide ao Passeio dos Fenícios, assim integrando também os primeiros 102 topónimos oficializados pelo Edital municipal de 16 de setembro de 2009, a que se juntaram mais 60 oficializados pelo Edital municipal de 06/05/2015.

A realização da Expo 98, subordinada ao tema “Os oceanos: um património para o futuro”, implantou para o evento uma toponímia ligada aos oceanos, aos Descobrimentos Portugueses, aos aventureiros marítimos da literatura e banda desenhada mundial, a figuras de relevo para Portugal, a escritores portugueses ou obras de sua autoria e ainda alguns ligados à botânica, como este Jardim dos Jacarandás.

O topónimo Jacarandás também surge em Portugal numa Rua de Brejos de Azeitão e noutra em Albufeira.

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Jardim Ferreira de Mira, o médico do Instituto Rocha Cabral

Freguesia de Benfica
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Médico fisiologista da Faculdade de Medicina de Lisboa e historiador da medicina portuguesa, que a partir de 1922 fundou e dirigiu o Instituto Rocha Cabral, Ferreira de Mira dá o seu nome a um jardim lisboeta de Benfica, próximo do Hospital da Luz, 63 anos após o seu falecimento, através da deliberação camarária de 26 de outubro de 2016 e consequente Edital de 10 de novembro, a partir da sugestão do Prof. José Pedro Sousa Dias enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia em representação da Universidade de Lisboa.

Em 1926 na Ilustração Portuguesa

Mathias Boleto Ferreira de Mira (Montijo – Canha/21.02.1875 – 07.03.1953/Lisboa), formado na  Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa em 1898 e discípulo de Mark Athias, foi um médico e professor universitário que também fundou e dirigiu o Instituto Bento da Rocha Cabral a partir de 1922. Começou por exercer medicina no Hospital da Misericórdia da vila de Canha, mas veio viver para Lisboa em 1910 e dois anos depois era já  professor de Fisiologia, na então nova Faculdade de Medicina de Lisboa, a que mais tarde somou a regência da cadeira de Química.

Como investigador científico, Ferreira de Mira teve a oportunidade de fundar e dirigir a partir de 1922 um Instituto de Investigação na área das Ciências Biológicas, com o nome de um transmontano que no Brasil ficou multimilionário –  Bento da Rocha Cabral (1847-1921)- e que  no seu testamento deixou as verbas necessárias para o efeito com a indicação de quem o devia dirigir. O Instituto de Investigação Científica de Bento da Rocha Cabral ficou instalado na casa adquirida e reconstruída em 1902 pelo benemérito e que até aí lhe servira de morada em Lisboa, no nº 14 da Calçada Bento Rocha Cabral – assim denominada desde 1924 já que antes era a Calçada da Fábrica da Louça – e começou a realizar investigação a partir de 1925 com quatro investigadores: o próprio Matias Boleto Ferreira de Mira, o seu filho Manuel Ferreira de Mira (falecido em 1929), Luís Simões Raposo – na toponímia da freguesia do Lumiar desde 25/10/1989- e Fausto Lopo de Carvalho- na toponímia da freguesia de Marvila desde  04/11/1970-, que na década seguinte conseguiu dominar a tuberculose em Portugal. Foi este Instituto que acolheu as primeiras investigações com animais que permitiram a Egas Moniz a descoberta da angiografia e o desenvolvimento da angiopneumografia em conjunto com Almeida Lima e Lopo de Carvalho. Também aqui trabalho como investigadora a  primeira portuguesa doutorada em ciências biológicas, a fitopatologista Matilde Bensaúde.

Matias Ferreira de Mira foi também um membro dirigente da Sociedade Portuguesa de Biologia e, sobretudo nos jornais e revistas Luta de Brito Camacho, Diário de Notícias e Seara Nova, escreveu dezenas de artigos de vulgarização científica, na área da biologia e de outras ciências, assim como redigiu livros didáticos como Lições de Químico-Fisiologia elementar, Exercícios de Química Fisiológica (com Mark Athias) ou Manual de Química Fisiológica. Também deu dezenas de conferências sobre temas científicos e foi o autor da  História da Medicina Portuguesa (1947) e de biografias como a de Brito Camacho (1942), com Aquilino Ribeiro.

Ferreira de Mira foi também um cidadão empenhado na política tendo sido vereador da Câmara Municipal de Lisboa, com o pelouro da Instrução Primária, a partir de 1912, assim como foi  deputado da Primeira República, de 1922 a 1925, por Santarém, eleito com António Tavares Ferreira, Ginestal Machado e João Teixeira de Queiroz Vaz Guedes.

Matias Ferreira de Mira está também presente na toponímia da Charneca da Caparica.

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua das Pedras Alvas ou das Pedralvas

Freguesia de Benfica
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Rua das Pedralvas guarda a memória da Quinta das Pedralvas, que por seu lado retira o nome do Sítio das Pedralvas, topónimo que parece nascer da junção de pedras alvas numa única palavra e por isso, uma lembrança de património geológico de Lisboa, sendo certo que os topónimos derivados de «pedra» são bastante frequentes na Galiza e em Portugal.

O lugar das Pedralvas está referenciado em Benfica desde o século XVIII. A construção do Aqueduto das Águas Livres provocou em Lisboa um constante  aumento demográfico e Benfica viu nascer novos lugares como Adeão de Baixo, Adeão de Cima, Alfarrobeira, Bom Nome, Borel, Buraca, Calhau, Correia, Estrada da Luz,  Feiteira, Mira, Penedo, Porcalhota, Presa, Salgado, Venda Nova e Pedralvas. Em dezembro de 1887, o sítio das Pedralvas tal como a Estrada de Benfica, a Estrada da Luz, a Estrada de Carnide e a Estrada de Alfarrobeira, foram repavimentados. No início do século XX, as Pedralvas tinha também um afamado retiro «fora de portas» onde se cantava fado.

Por escritura de 18 de março de 1950, a edilidade comprou a Quinta das Pedralvas a Bernardino José Borges e durante dez anos, de 1963 a 1973, nesse espaço do Sítio das Pedralvas foi construído o Bairro da Quinta das Pedralvas, ao abrigo do Programa PER (Programa Especial de Realojamento), tendo sido contratados pela edilidade para esse efeito os empreiteiros José Matias, António da Silva, SOTEPREL – Sociedade Técnica de Projectos e Empreitadas Lda., Socite – Sociedade Técnica de Construções e Empreitadas Lda., José Ribeiro, João Cândido da Silva Júnior, Francisco Filipe Coelho e António Augusto Freire.

Em 1967, por Edital municipal de 14 de junho foram atribuídos topónimos a dois dos seus arruamentos, cabendo à Rua A da Quinta das Pedralvas a denominação Rua das Pedralvas e à Rua B a designação Rua Almirante Campos Rodrigues.

Em 1978 a Rua das Pedralvas cresceu de tamanho por lhe ter sido acrescentada o arruamento que fazia a ligação desta Rua com a Rua E.

Em Portugal, as Pedralvas surgem também como topónimo de uma Rua e de uma Travessa em Almargem do Bispo (Sintra), asssim como da Horta das Pedralvas no Corval (em Reguengos de Monsaraz). No singular, o topónimo surge no sítio da Pedralva em Vila do Bispo, numa Rua e numa Travessa de Vila Nova de Paiva (Viseu), numa Escadaria da Nazaré, num Caminho de Afife (Viana do Castelo) e numa freguesia de Braga.

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Jardim do ensaísta Eduardo Prado Coelho, nos Olivais

Freguesia dos Olivais
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O ensaísta,  crítico literário, cronista  e professor universitário Eduardo Prado Coelho, autor de Tudo o que não escrevi, e falecido há 11 anos, dá o seu nome a um jardim dos Olivais, junto à Avenida Dr. Francisco Luís Gomes desde o ano passado, por via da publicação do Edital municipal de 19 de junho de 2017.

Eduardo Prado Coelho em 1998
(Foto: Nacho Doce, Arquivo Municipal de Lisboa)

Eduardo de Almeida do Prado Coelho (Lisboa/29.03.1944 – 25.08.2007/Lisboa), filho de  Dália dos Reis de Almeida e do Prof. Jacinto Prado Coelho – também presente na toponímia de Lisboa – licenciou-se em Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa e nesta mesma universidade fez o seu doutoramento com a tese «A Noção de Paradigma nos Estudos Literários» para se tornar um professor universitário e ensaísta cuja obra mais destacada foi o seu diário Tudo o que não escrevi (1992).

Enquanto docente exerceu na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, entre 1970 e 1983, e partir do ano seguinte no Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade Nova de Lisboa. Foi ainda professor convidado no Curso de Comunicação Social e Cultural da Universidade Lusófona, de mestrados do ISCTE e ainda do Departamento de Estudos Ibéricos da Universidade da Sorbonne, Paris III (1988).

Eduardo Prado Coelho desempenhou ainda funções públicas como Diretor-Geral de Acção Cultural do Ministério da Cultura (1975 e 1976), conselheiro cultural na Embaixada de Portugal em Paris (entre 1989 e 1998), comissário de Literatura e Teatro na Europália Portuguesa (1990), diretor do Instituto Camões em Paris (1997 e 1998) e comissário da participação portuguesa no Salon du Livre (2000). Por outro lado, também integrou o Conselho Diretivo do Centro Cultural de Belém, o Conselho Superior do ICAM – Instituto do Cinema, Audiovisual e Multimédia,  o Conselho de Opinião da RDP e da RTP, para além de como colaborador do Centro Nacional de Cultura ter organizado os encontros Um Livro um Autor.

Da sua vasta colaboração em jornais e revistas refira-se a sua crónica diária no Público – «O Fio do Horizonte» – durante dez anos até à data da sua morte, tendo sido colaborador deste jornal desde o primeiro número. Dos seus ensaios destacam-se O Reino Flutuante A Palavra Sobre a Palavra (ambos em 1972), A Letra Litoral : ensaios sobre a literatura e seu ensino (1978), Os Universos da Crítica : paradigmas nos estudos literários (1982), Vinte anos de cinema português : 1962-1982 (1983), A Mecânica dos Fluidos : literatura, cinema, teoria e A “nouvelle critique” em Portugal (ambos em 1984), A Noite do Mundo (1988), O Cálculo das Sombras (1997), assim como no ano de 2004 O Fio da Modernidade, Diálogos sobre a fé com D. José Policarpo, Dia Por Ama, com Ana Calhau e A Razão do Azul, para em  2006 sair Nacional e Transmissível.

Na sua vida pessoal foi viveu com Maria Eduarda Colares – com quem teve uma filha, a jornalista Alexandra Prado Coelho – , Teresa Coelho, Maria da Conceição Caleiro e Maria Manuel Viana.

Foi galardoado com o Prémio P.E.N. Clube Português de Ensaio (1985), o Grande Prémio de Literatura Autobiográfica da Associação Portuguesa de Escritores (1996), a Medalha de Mérito Cultural (1997) o Grande Prémio de Crónica João Carreira Bom e o Prémio Arco-íris da Associação ILGA Portugal (ambos em 2004), para além de integrar a toponímia de Albufeira, Amora (Seixal) e Carnaxide.

[Agradecemos a  Maria Manuel Viana a gentil validação de texto]

Freguesia dos Olivais
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

A Rua da Cascalheira das pedreiras de calcário

Freguesia de Alcântara
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Esta Rua da Cascalheira, que deve ter nascido em  Alcântara do século XIX e hoje encontramos a unir a Rua da Cruz a Alcântara à Travessa dos Surradores, revela o património geológico da zona com as suas pedreiras de calcário.

Freguesia de Alcântara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Este topónimo foi fixado na memória de Lisboa em data que se desconhece mas que se deve situar no final do século XIX. No Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque, de 1857, aparece pela primeira vez mapeada uma Travessa da Cascalheira, sobre a qual encontramos nos anos de 1891 a 1893, documentos de expropriação de terrenos para o alargamento desta artéria. Ora como no documento de 11 de setembro de 1891 se refere mesmo «alargamento da Travessa da Cascalheira, próximo à Rua do Alvito e Travessa dos Surradores», fica-nos a certeza de que é este o mesmo arruamento que se passará a designar por Rua da Cascalheira.

O nome gerou-se por via das pedreiras de calcário cretácicos – a pedra ornamental mais usada na cidade de Lisboa – que existiam no vale de Alcântara e que favoreceram a instalação de fornos de cal nesta zona, a partir do séc. XVIII. O Sítio da Cascalheira surge como topónimo num documento  de 6 de dezembro de 1890, «plantas com indicação de várias ruas particulares, integradas na viação pública por deliberação camarária»  e estendia-se até à atual freguesia de Campolide, na qual encontramos num roteiro de ruas de 1941 o Alto da Cascalheira, no fim da Rua do Garcia. Refira-se que esta Rua do Garcia teve mais tarde o seu topónimo acrescentado com «à Cascalheira» e na qual, desde 1934 estava sediado o Clube Atlético da Cascalheira, cuja qualidade na prática do futebol terá originado a frase «Não jogas nada! Vai mas é pró Cascalheira!»

 

As Ruas dos rios do Bairro Padre Cruz, em Carnide

A inauguração oficial do Bairro Padre Cruz
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Inúmeros rios portugueses, ou partilhados com Espanha, estão ainda hoje presentes na toponímia da freguesia de Carnide, por via do Bairro Padre Cruz, desde a publicação municipal do Edital municipal de 8 de agosto de 1961.

Foi o Decreto nº 4137, de 25 de maio de 1918 que iniciou em Portugal a prática do Estado ter a incumbência de promover habitação social. A I República designou-os Bairros Sociais e o Estado Novo tornou-os Bairros de Casas Económicas. Ao longo do século XX, estes bairros foram construídos principalmente em zonas periféricas da cidade, na periferia do tecido urbano consolidado. A sua toponímia, maioritariamente numérica, contribuiu para solidificar a sua identidade de bairro social ao definir «fronteiras» interiores e exteriores: as primeiras criavam um sentimento de inclusão entre os seus habitantes mas as segundas, estigmatizavam-os  relativamente aos restantes lisboetas, fomentando uma lógica de exclusão.

Entre 1958 e 1960, a Câmara Municipal de Lisboa adquiriu a Quinta da Pentieira ou do Alto da Pentieira, no extremo norte da freguesia de Carnide, para criar o Bairro Municipal Padre Cruz. Começou por ser um bairro de casas desmontáveis, conhecido como Bairro de Lusalite, para realojar algumas famílias oriundas do bairro da Quinta da Calçada e  atingidas pelas obras da Cidade Universitária, neste local que era considerado um bairro provisório até à construção das casas de alvenaria. Depois,  na primeira metade da década de 60, iniciou-se a construção do Bairro de Alvenaria para realojar os moradores que já moravam nas casas de lusalite e também para alojar funcionários da Câmara Municipal de Lisboa.

Neste caso, em vez de toponímia numérica que até aí era característica dos bairros sociais de Lisboa este Bairro Antigo, de ruas direitas e paralelas, recebeu nos seus 37 arruamentos antes nomes de rios, fixados pelo Edital municipal nº 150/61.

Conforme se pode ler na ata da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa, de 24 de julho de 1961, este órgão consultivo propôs denominar os 37 arruamentos do «Bairro de Casas para Pobres em Carnide» com geotopónimos, concretamente com nomes de rios portugueses, como então se aprendiam a decorar na escola primária frente a um mapa de Portugal.

Seis anos depois, em 1967, foi colocado em frente à Igreja do Bairro Padre Cruz, um busto do Padre Cruz, da autoria do escultor Martins Correia, e procedeu-se à inauguração oficial do Bairro Municipal Padre Cruz, com a presença do então Presidente da Câmara, António Vitorino França Borges.

Freguesia de Carnide
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

A Rua do Alviela a lembrar a Estação Elevatória dos Barbadinhos

Freguesia de São Vicente
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

No dia seguinte à inauguração do Reservatório de Água dos Barbadinhos, abastecido pelo rio Alviela, a Câmara Municipal deliberou atribuir a Rua do Alviela junto à Calçada dos Barbadinhos, o que se concretizou dois dias depois através da publicação do Edital Municipal de 6 de outubro de 1880, assinado pelo presidente José Gregório Rosa Araújo e que refere claramente «(…) que a communicação ultimamente aberta entre a calçada dos Barbadinhos e o edificio da companhia das aguas, onde se acha o deposito das aguas do Alviella, seja denominada RUA DO ALVIELLA«.

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

No séc. XIX, o aumento demográfico na cidade de Lisboa com população que emigrou para a capital em busca de trabalho fez com a água do  Aqueduto das Águas Livres se tornasse insuficiente. Por isso, de  1871 e 1880, foi construído o aqueduto do Alviela, preparado para transportar água captada a 114 km a norte de Lisboa, originária das nascentes dos Olhos de Água do rio Alviela. No extinto Convento dos Barbadinhos Italianos foi instalado o Reservatório final da água transportada, que tomou o nome do mosteiro. Junto do Reservatório dos Barbadinhos foi construída uma estação elevatória a vapor, destinada a bombear água do aqueduto do Alviela para a cidade de Lisboa,  inaugurada no dia 3 de outubro de 1880. No dia seguinte, 4 de outubro, a edilidade lisboeta deliberou atribuir o topónimo Rua do Alviela e no dia 6, publicou o respetivo Edital.

Esta Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos funcionou entre 1880 e 1928. Em 2010, o edifício da estação elevatória a vapor foi classificado como CIP – Conjunto de Interesse Público e nele se preservam as antigas máquinas a vapor e bombas, testemunhos do património industrial. A Estação dos Barbadinhos hoje acolhe a exposição permanente do Museu da Água e o Arquivo Histórico da EPAL.

Para além deste Rua do Alviela na freguesia de São Vicente, existiu também uma Rua do Rio Alviela, na Freguesia de Carnide, atribuída como a toponímia das restantes artérias do antigo Bairro Padre Cruz pelo Edital municipal de 8 de agosto de 1961, na Rua 2 do Bairro Municipal Padre Cruz.  Em vez da tradicional toponímia numérica que se usava para distinguir os Bairros Sociais de Lisboa neste caso usou-se o nome dos rios portugueses. Desde o ano 2000 que este arruamento foi extinto por via das remodelações da zona.

O sítio do Ferragial em três artérias lisboetas

Rua do Ferragial – Freguesias de Santa Maria Maior e da Misericórdia
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O quinhentista sítio do Ferragial, denominação que evoca uma planta de pasto, permaneceu no casco velha da cidade em três topónimos: a Calçada, a Rua e a Travessa, todos com a administração repartida pelas freguesias de Santa Maria Maior e Misericórdia.

Hoje, a Calçada do Ferragial liga o Largo do Corpo Santo à Rua Vítor Cordon, a Rua do Ferragial vai da Calçada do Ferragial até à Rua do Alecrim – ainda em 1908 na planta de Silva Pinto e Correia de Sá é mencionada como Rua do Ferragial de Baixo- , e a Travessa do Ferragial une a Calçada do Ferragial à Rua Vítor Cordon, sendo esta última aquela que não foi fixada naturalmente na memória da cidade mas atribuída por Edital do Governo Civil de Lisboa de 7 de novembro de 1874 ao Beco da Linheira, a partir de uma proposta do vereador Francisco Margiochi aprovada na edilidade lisboeta em 17 de agosto de 1874.

Ferragial provém do latim farrago e serve para designar o campo onde se cultivam cereais que ceifados verdes e antes de espigar servem de pasto para animais.

De acordo com Luís Pastor de Macedo, « Já no “Sumário” encontramos, em 1551, na freguesia dos Mártires as ruas de Cima e do Ferregial. O “Itinerario lisbonense” descrimina bem: Ferregial de Baixo, a primeira à direita, subindo pela rua do Alecrim e termina na Calçada do Ferregial; Ferregial de Cima, a última à direita, entrando na rua de S. Francisco da Cidade, da parte do Chiado e termina ao tesouro velho

Nas suas Peregrinações em Lisboa, o olisipógrafo Norberto de Araújo descreve o sítio da seguinte forma: «Já te disse que a Rua do Ferregial quinhentista corria do lado norte de Vítor Cordon de hoje; para perpectuar o nome nas aproximações topográficas ficaram na reedificação do sítio a Rua do Ferregial de Cima, que assim se chamou até 1890 a Rua Vítor Cordon, a incaracterística Rua do Ferregial de Baixo, que é esta que conduz ao Alecrim, a Calçada do Ferregial, que liga Vítor Cordon, num ângulo recto, à Calçada. (…) Correu por aqui ao fundo, em linha que não tenho possibilidade de situar por palavras e referências, o lanço sul da muralha da Cêrca nova de D. Fernando, que desde o Postigo do Duque de Bragança, sensivelmente na extrema sul da actual Rua António Maria Cardoso (esplanada) obliquava, com seus arcos (ou postigos) das Fontaínhas, do Corpo Santo e dos Cobertos, para tomar o caminho paralelo à rua do Arco dos Cobertos (Rua do Arsenal) e seguir por aí fora, sempre paralela ao mar».

Ainda segundo Luís Pastor de Macedo, a Travessa do Ferragial também terá sido chamada Calçadinha do Arroz.

Rua, Calçada e Travessa do Ferragial – Freguesias de Santa Maria Maior e da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Brotero do jardim Botânico da Ajuda, várias vezes na toponímia de Lisboa

Freguesia da Ajuda
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Félix de Avelar Brotero, médico que preferiu dedicar-se à botânica e assim dirigiu o Jardim Botânico da Ajuda, começou por ter Rua em Lisboa na freguesia de Alcântara no final do séc. XIX e em 1916, também passou a dar nome a uma artéria da Ajuda e depois, foi também o nome do Jardim do Alto de Santo Amaro em Alcântara.

Por deliberação camarária de 8 de julho de 1892 passou a existir em Alcântara,  na Rua 6 do Bairro Rolão ou de Santo Amaro, a Rua Avelar Brotero. Já no séc. XX, o Edital municipal de 26 de setembro de 1916, alterou o topónimo Rua da Paz para Rua Brotero, considerando a localização desta entre o Largo da Paz e o Jardim Botânico que Brotero dirigira. Nos anos 80 do séc. XX, perante a manifesta escassez de novos arruamentos na cidade, a edilidade alterou pelo Edital de 7 de setembro de 1987 a Rua Avelar Brotero para Rua Pedro Calmon, passando a existir apenas uma rua dedica a Brotero em Lisboa, a da Ajuda, à qual em 1992 foi aditada a legenda «Félix de Avelar Brotero / Médico e Botânico/1744 – 1828», a partir da sugestão de um munícipe para se identificar  convenientemente o antropónimo.

Ainda em Alcântara, no início do séc. XX, o Jardim do Alto de Santo Amaro, sito na Rua Filinto Elísio- que antes de 8 de julho de 1892 era a Rua 2 do Bairro Rolão ou de Santo Amaro-, foi denominado Jardim Avelar Brotero mas tal resolução nunca tornou oficial o topónimo do Jardim. A CML aumentou o número de bancos deste espaço verde nos anos 50, a pedido dos moradores da zona e a última remodelação do Jardim aconteceu no ano passado.

Freguesia da Ajuda – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Nascido Félix da Silva de Avelar (Loures – Santo Antão do Tojal/25.11.1744 – 04.08.1828/Lisboa), pela forte amizade que o ligava a Filinto Elísio (Francisco Manuel do Nascimento) e pelo ardor com que se dedicava à ciência tornou-se suspeito para o Santo Ofício e para fugir à polícia de Pina Manique, emigrou para Paris em 1778, com Filinto Elísio. Durante os 12 anos de permanência em Paris, fez os principais estudos de história natural e doutorou-se na Escola de Medicina de Reims, assim como adotou o apelido de Brotero, que significa amante dos mortais (pela junção do grego brothos com eros). Publicou o Compêndio Botânico em 1788, em Paris.

Regressou a Lisboa no ano de 1790, tendo sido logo nomeado lente de Botânica e Agricultura na Universidade de Coimbra, em 1791 e que manteve até 1807, acumulando com a direção do Jardim Botânico da Universidade e publicou Flora Lusitanica (1804). As invasões francesas alcançaram Coimbra em 1807 e Brotero veio refugiar-se em Lisboa e só lá voltou para ser jubiliado, o que sucedeu por Carta Régia de 27 de abril e Decreto de 16 de agosto de 1811. Passou então a dirigir o Real Museu e Jardim Botânico da Ajuda, reabilitando o Jardim Botânico e elaborando o seu catálogo. Da sua investigação, resultaram também as suas obras Phytographia Lusitaniae selectior – em 2 tomos- 1816 e 1827 – e a História Natural dos Pinheiros, Larices, e Abetos (1827).

Em 1821, Félix Avelar Brotero foi eleito deputado às Cortes Constituintes pela Estremadura, tendo participado  na discussão da lei dos cereais, onde exortou os agricultores a cultivarem centeio e trigo, para que fosse possível produzir pão para toda a população e a um preço acessível à bolsa de todos mas 4 meses depois pediu dispensa, pela idade avançada (77 anos) e foi-lhe concedida. Faleceu aos 83 anos de idade na sua casa, na Calçada do Galvão, em Alcolena, em Belém.

Brotero foi homenageado com a atribuição do seu nome a várias plantas, como é o caso da Brotera ovata e da Brotera trinervata e está também na toponímia de Coimbra, do seu concelho natal – em Loures, Santo António dos Cavaleiros e Santo Antão do Tojal-, da Amadora, do Barreiro, Carnaxide, Custóias, Mafra, Matosinhos, Montijo, Odivelas (em Ramada e em Caneças), do Porto, Santa Maria da Feira, Seixal e Setúbal.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O património natural na toponímia de Lisboa

Dedicamos o mês de agosto ao património natural incluído na toponímia de Lisboa, como seja o património geológico cuja memória ficou na Rua das Pedralvas ou na Cascalheira, o património fluvial com os cais ou as ruas com nomes de rios de Portugal, o património vegetal que são os jardins da cidade – quer integrem ou não a toponímia oficial de Lisboa – e ainda, os animais que estão inscritos na toponímia da cidade, bem como figuras ligadas ao património natural.

No âmbito da toponímia que inscreve património natural de Lisboa já antes publicámos artigos sobre:
1- Alto das Conchas
2- Os Altos das 7 colinas de Lisboa
3- Beco da Pedreira da Caneja
4- Boqueirão
5- Boqueirão da Praia da Galé
6- Cais do Tojo
7- Calçada de Carriche
8- Combros de Lisboa
9- Da Rua das Acácias à Azinhaga dos Ulmeiros
10- Escadinhas da Praia
11- Jardim Adão Barata
12- Jardim Alfredo Keil
13- Jardim Alice Cruz
14- Jardim Amália Rodrigues
15- Jardim Amélia Carvalheira
16- Jardim Amnistia Internacional
17- Jardim Prof. António de Sousa Franco
18- Jardim Bento Martins
19- Jardim Ducla Soares
20- Jardim Elisa Baptista de Sousa Pedroso
21- Jardim Fernanda de Castro
22- Jardim Fernando Pessa
23- Jardim Prof. Francisco Caldeira Cabral
24- Jardim Irmã Lúcia
25- Jardim Jorge Luis Borges
26- Jardim Luís Ferreira
27- Jardim Maria da Luz Ponces de Carvalho
28- Jardim de Maria de Lourdes Sá Teixeira
29- Jardim Mário Soares
30- Jardim Nove de Abril
31- Jardim Tristão da Silva
32- Largo das Palmeiras
33- Largo do Rio Seco
34- Limoeiro
35- Lisboa do caminho, do casal, do sítio, do terreiro e do outeiro
36- Rua da Amendoeira
37- Rua do Alecrim
38 – Rua do Jardim Botânico
39- Rua Paul Choffat
40- Rua da Praia do Bom Sucesso
41- Rua da Praia de Pedrouços
42- Ruas do Sol
43- Sete Rios
44- A toponímia dos corvos ao boi formoso por amanhã ser Dia Mundial do Animal
45- Toponomenclatura da água: os Cais, os Boqueirões e o Regueirão de Lisboa
46- Toponomenclatura de espaços verdes: os Jardins e os Parques
47- Travessa da Praia