Toponomenclatura do passado rural: as Azinhagas

Azinhaga da Cidade – Freguesias de Santa Clara e do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias/NT)

Em Lisboa existem hoje 52 azinhagas, nas freguesias da coroa periférica da cidade que foram aquelas que se mantiveram como espaço rural durante mais tempo, como caminhos entre as suas quintas muradas, fixando nestas azinhagas topónimos derivados do nome dos sítios, das suas características, do nome das quintas próximas, do nome de moradores ou do nome de mosteiros ou das ordens que os ocupavam, sendo as freguesias de Marvila e do Lumiar as que mais azinhagas possuem no presente.

Azinhaga é uma palavra que deriva da árabe az-zinaiqa, com o significado de rua estreita e que é toponomenclatura para um caminho rústico estreito, ladeado de muros ou sebes altas, o que denota que as  as azinhagas de Lisboa são memórias da ruralidade que marcou as zonas onde se encontram.

Começando pelo norte de Lisboa, na Freguesia de Santa Clara estão 8 azinhagas: a do Beco, a dos Milagres, a da Póvoa, a do Reguengo, a do Rio [da Ameixoeira que o Intendente Pina Manique mandou desentulhar em 1781], a de Santa Susana, a da Torrinha e a Azinhaga das Galinheiras, no sítio das Galinheiras que cerca de 1950 recebeu o bairro camarário das Galinheiras para receber os desalojados dos terrenos do Aeroporto. Conta ainda com mais uma azinhaga partilhada com a Freguesia do Lumiar: a Azinhaga da Cidade.

Passando para a Freguesia do Lumiar, nela persistem mais 10 azinhagas: a de Entremuros, a da Fonte Velha, a do Frade, a do Jogo da Bola [a mencionar uma ocupação de lazer com bola que não seria ainda o futebol], a das Lajes, a da Musgueira, a do Poço de Baixo, a do Porto, a das Travessas e a dos Ulmeiros.

Azinhaga da Torre do Fato – Freguesias do Lumiar e de Carnide – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias/NT)

Mas o Lumiar tem  mais duas azinhagas que partilha com Carnide –  a Azinhaga dos Lameiros e a Azinhaga da Torre do Fato – e ainda, mais uma que reparte com Alvalade que é a Azinhaga das Galhardas.

A Freguesia de Carnide tem no seu território 8 azinhagas: a dos Cerejais, a das Cerejeiras, a da Cova da Onça, a das Freiras e a das Carmelitas- ambas referentes às monjas do Convento de Santa Teresa – , a da Fonte, a do Serrado,  e a Azinhaga da Luz, atribuída por  Edital municipal de 4 de março de 1974 ao arruamento de ligação entre a Azinhaga do Serrado e a Azinhaga das Carmelitas.

Alvalade conta com duas azinhagas – a Azinhaga dos Barros e a Azinhaga das Murtas – para além de ter a Azinhaga da Fonte do Louro partilhada com as freguesias do Areeiro e da Penha de França. A Penha de França conta ainda com a Azinhaga do Alto do Varejão.

Já a Freguesia de Marvila é a que tem mais azinhagas, num total de 11 : a dos Alfinetes, a do Armador, a do Baptista,  a do Ferrão, a da Maruja, a do Poço de Cortes, a da Quinta do Alfenim, a do Vale Fundão, a das Veigas, a Azinhaga da Troca (cujo topónimo foi oficializado pelo Edital de 24/10/1938) e a Azinhaga da Bela Vista (atribuída pelo Edital municipal de 27/11/2012 para fixar o troço ainda remanescente da azinhaga original).  Marvila reparte ainda com a Freguesia do Beato mais duas azinhagas: a do Planeta e a da Salgada.  Por seu lado, o Beato tem outras duas azinhagas: a da Bruxa e a do Carrascal (atribuída pelo Edital de 16/01/1970 para distinguir os dois troços que tinham deixado de estar ligados ficando no outro o topónimo Calçada do Carrascal).

Finalmente, na Freguesia dos Olivais, existem 3 azinhagas: a da Alagueza fixada pela memória da população, e a da Quinta das Courelas e a   do Casquilho, ambas atribuídas pelo Edital municipal de 25/07/2001, para perpetuar a Quinta de que fez parte e no segundo caso, para oficializar o topónimo pelo qual era conhecida.

Azinhaga de Santa Susana
(Foto: Rui Mendes)

 

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Santa Maria da Luz em 4 artérias de Carnide

Freguesia de Carnide (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Carnide
(Planta: Sérgio Dias)

Carnide acolhe a Azinhaga, o Largo e a Travessa da Luz, bem como a Estrada da Luz que divide com São Domingos de Benfica, em homenagem a Santa Maria da Luz por mor de uma ermida ali erguida no séc. XV.

Largo da Luz - Freguesia de Carnide (Foto: Sérgio Dias)

Largo da Luz – Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias)

Segundo uma lenda, Nossa Senhora terá aparecido sucessivas vezes, aureolada de luz, a um natural de Carnide, de seu nome Pêro Martins, provavelmente da carreira das armas, prometendo livrá-lo do cativeiro e, recomendando-lhe que de regresso a Carnide erigisse na Fonte da Machada uma ermida dedicada a Santa Maria da Luz, cuja imagem encontraria perto daquele local. Pêro Martins acabou por ser libertado e regressado a Portugal em 1463 dirigiu-se às cercanias da Fonte da Machada e encontrou a imagem de Nossa Senhora da Luz, pelo que se empenhou em recolher as contribuições dos seus vizinhos, bem como a licença do Bispo de Lisboa, para construir a ermida, na qual a imagem foi solenemente entronizada no dia 8 de setembro de 1464.

D. Afonso V, o Bispo de Lisboa e alguns fidalgos fizeram logo parte da Irmandade da ermida. Pêro Martins foi nela sepultado em 14 de março de 1466. A ermida veio depois a ser anexada à igreja de São Lourenço de Carnide, cujo pároco ficou com o encargo de manter o culto e de dar continuidade às festividades religiosas em honra de Nossa Senhora da Luz, a 8 de setembro, as quais persistiram até aos nossos dias, tal como a Feira da Luz, realizada no Largo da Luz desde o século XVI.

Travessa da Luz - Freguesia de Carnide (Foto: Sérgio Dias)

Travessa da Luz – Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias)

Em 1862, quando Carnide pertencia à  Câmara Municipal de Belém, o Largo da Luz era designado como Praça da Luz. Em 1970, foram instaladas as primeiras cabines telefónicas do Largo e nos dias de hoje está contido entre a Estrada do Paço Lumiar, a Azinhaga das Carmelitas e a Estrada da Luz.

Azinhaga da Luz - Freguesia de Carnide (Foto: Sérgio Dias)

Azinhaga da Luz – Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias)

Na Planta Topográfica de Lisboa de 1908, de Júlio Silva Pinto e Alberto de Sá Correia, são referenciados o Largo da Luz, a Estrada da Luz, o Real Colégio Militar, a Quinta de Nossa Senhora da Luz e a Azinhaga da Luz. No entanto, a Azinhaga da Luz foi oficializada pelo Edital municipal de 4 de março de 1974  como o arruamento de ligação entre a Azinhaga do Serrado e a Azinhaga das Carmelitas.

A Estrada da Luz foi sendo alargada no decorrer dos tempos, mas sobretudo no período de 1915 a 1919, com a a edilidade  a comprar e permutar várias parcelas de terreno necessárias para o efeito, sendo que em 1919 Branca da Gonta Colaço e o seu marido, Jorge Colaço, cederam mesmo um terreno para o alargamento. Hoje, a Estrada da Luz vai da  Estrada das Laranjeiras à Avenida General Norton de Matos.

Já a Travessa da Luz, foi uma atribuição por Edital municipal de 9 de junho de 1928, à antiga Travessa das Bruxas, com o propósito de apagar um topónimo que deve ter sido considerado menos próprio. Em 1972 foi arborizada e ajardinada e hoje liga a Estrada da Luz à Rua Fernando Namora.

Estrada da Luz - Freguesias de Carnide e de São Domingos de Benfica (Foto: Sérgio Dias)

Estrada da Luz – Freguesias de Carnide e de São Domingos de Benfica
(Foto: Sérgio Dias)

 

Os Altos das 7 colinas de Lisboa

Alto das Conchas em 1964 (Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Alto das Conchas em 1964
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Lisboa com as suas 7 colinas encontrou nos Altos uma referência  de fácil localização que foi usada na toponímia mais antiga da cidade e a partir da qual advieram ruas ou travessas com o mesmo nome subsistindo hoje os vinte topónimos oficiais seguintes.

O Alto das Conchas, em Marvila, georrefencia a posição altaneira do lugar de Conchas e deve ter sido fixado por abundarem no local vestígios fósseis de conchas de moluscos do Miocénico de Lisboa (há cerca de 24 milhões de anos). Já em documentos do séc. XII aparece referido o sítio de Concha, onde o Mosteiro de São Vicente de Fora e a Ordem do Templo tinham vinhas. E no séc. XIII são mencionados os lugares de Chelas e Conchas. Em documentos municipais encontramos a primeira referência em 1899, num documento sobre o alinhamento da Calçada do Perdigão que inclui o Alto das Conchas e também a Quinta das Conchas e a Quinta das Conchinhas.

Na Freguesia de Santa Clara, encontramos a Rua do Alto do Chapeleiro, atribuída  por Edital de 29/08/1991 à Rua A da Urbanização do Alto do Chapeleiro, a partir de uma sugestão da vogal da Comissão Municipal de Toponímia Drª Salete Salvado, de modo a preservar a toponímia tradicional da zona. De igual forma, no Lumiar, na urbanização erguida na antiga Quinta dos Alcoutins foi atribuído por Edital de 02/10/2009 o topónimo Rua do Alto dos Alcoutins na Rua E1 da Quinta dos Alcoutins.

Alto do Varejão em 1944 (Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Alto do Varejão em 1944
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

E se virarmos para a Freguesia da Penha de França, para além da Parada do Alto de São João, encontramos vários topónimos relacionados com o Alto do Varejão.

De acordo com Norberto de Araújo «Vamos entrar no Alto do Varejão, sítio da encosta arrabaldina começado a povoar tìmidamente depois do Terramoto, e desenvolvido há já cem anos [o autor escreveu na década de 30 do séc. XX]; é sem dúvida o avô urbano desta área que por aí acima sobe até ao Alto de S. João. Estes terrenos fizeram parte da Cêrca do Mosteiro de Santos-o-Novo, na sua orla do lado nascente; é um aglomerado popular, com algum pitoresco triste, e no qual a principal artéria – a Rua Lopes (indeciso nome) – se prolongou já na urbanização dos últimos oito anos a ligar com o novo bairro, hoje já arruado e edificado, mas ainda sem designação oficial, tal as suas ruas, e que se situa a sul da rotunda do Alto de S. João, entre as Avenidas Jacinto Nunes (por concluir) e Afonso III, esta de bem triste aspecto. (…) A única artéria, já com designação que não seja a das letras A ou B, é a Rua Lopes, prolongada do trôço velho do Alto do Varejão. (Não sei qual fôsse a orígem deste dístico; não creio que ele advenha de um almirante Sequeira Verejão, do tempo de D. João IV, como foi aventado por um erudito respeitável).» Já Luís Pastor de Macedo aponta que «O Varejão que encontrámos morando nestas paragens – na sua quinta de Chelas – foi Diogo de Varejão, filho de Pedro Fernandes, que em 31 de Março de 1599 se casou com Joana Veltim, filha de João Veltim, ao tempo já defunto. Trinta e cinco anos depois, D. Isabel, a Varejoa, era moradora “nas suas casas da cruz da pedra” onde, Ana Pinta, sua sobrinha, faleceu em 7 de Janeiro de 1634. Nenhuma outra pessoa da família Varejão encontrámos vivendo nestes sítios. Teria sido pois aquele Diogo de Varejão o que deu o seu nome ao local?»

Hoje, oficialmente, o Alto do Varejão tem início no Largo de Santos-O-Novo e termina na Rua Lopes. Começa na Rua Lopes a Azinhaga do Alto do Varejão que termina na Praceta do Alto Varejão, fazendo esta a ligação do Alto do Varejão à Travessa do Alto Varejão, que une a Praceta do Alto do Varejão à Calçada das Lajes. Há ainda o Caminho do Alto do Varejão que se estende da Azinhaga do Alto Varejão à Rua Henrique Barrilaro Ruas.

Alto do Penalva em 1946 (Foto: Fernando Martinez Pozal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Alto do Penalva em 1946
(Foto: Fernando Martinez Pozal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Já o Alto do Penalva, espaço sem saída e com início junto ao nº 51 da Rua da Mãe d’Água, na Freguesia de Santo António, seria o Alto do Marquês de Penalva segundo Luís Pastor de Macedo, que adianta «Vêmo-lo mencionar pela primeira vez no ano de 1826 (Livro VII de óbitos, fl.254- Encarnação). O nome adviera-lhe da circunstância do Marquês de Penalva ter morado ali – no prédio nºs. 20 e 22 da praça do Rio de Janeiro [Praça do Príncipe Real]. Nos verbetes da Câmara Municipal declara-se que esta serventia pública se denominou também pátio da Evarista o que, ainda não achámos confirmado por qualquer outra via.» E Norberto de Araújo acrescenta que «Um pouco antes de 1755, neste alto cômoro da Cotovia, sobranceiro sôbre a ponta do Salitre e portas de Valverde – mais largo para norte do que é hoje, depois de urbanizado – existia apenas o Palácio dos Penalvas, à esquina das actuais Escadinhas da Mai d’Água, e ao fundo do curto Arco do Evaristo. (…) A propriedade mais antiga do sítio é o Palácio do Conde de Penalva, erguido em 1738 pela Condessa D, Joana Rosa de Menezes. Situa-se hoje no fundo extremo da Rua da Conceição da Glória, nº 11, e tinha seu pátio e jardins voltados para o alto da Cotovia, já nos Moinhos de Vento, no tempo em que tudo isto era descampado, e em que, por consequência, o Palácio, isolado, avultava no que foi depois a Patriarcal. Ainda hoje, nas traseiras do Arco do Evaristo, há uma travessa sem saída “Pátio do Conde de Penalva”, por trás dos prédios da extrema da Rua D. Pedro V, e à qual se encosta o muro dos jardins, parte rústica da antiga Casa Penalva.» 

Ainda na Freguesia de Santo António existe o Alto de São Francisco junto ao nº 19 da Rua João Penha, tal como na Freguesia da Estrela fica o Alto da Cova da Moura que liga a Travessa do Chafariz das Terras à Rua Maestro António Taborda.

Alto do Carvalhão em 1961 (Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Alto do Carvalhão em 1961
(Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Seguimos para Campolide, para o Alto do Carvalhão, para as terras do Carvalhão, alcunha de Sebastião José de Carvalho e Melo.  Segundo Norberto de Araújo, estes terrenos eram de Sebastião José de Carvalho e Melo, ainda antes de ser Marquês de Pombal e Conde de Oeiras, pelo que  do Carvalhão «(…) derivaram os nomes da Rua actual (da direita) que leva à Cruz das Almas, e da ladeira (à esquerda) só há poucos anos (1933) edificada em forma, e que leva a D. Carlos Mascarenhas.» Por escritura de 21/02/1920 sabemos que neste ano no Alto do Carvalhão estavam a ser construídas ruas por Gustavo de Araújo Santos Moreira e que dois anos depois (escritura de 27/01/1924), o mesmo individuo obteve licença para abertura e construção de ruas nos terrenos sitos no Alto do Carvalhão cedendo 2571,25 m2 de terreno à Câmara Municipal de Lisboa. A pavimentação das ruas ocorreu dez anos depois como prova a escritura de adjudicação da empreitada de pavimentação das ruas do Alto do Carvalhão a Emílio Hidalgo datada de 22/05/1934.

Em Benfica, fica um topónimo que acumula duas georreferências: o Alto da Boavista. Começa na Estrada da Buraca e termina na rotunda onde confluem a Estrada do Calhariz de Benfica, a do Monsanto e a Rua da Portela. E em São Domingos de Benfica, o arruamento denominado Alto dos Moinhos tem início na Rua Cidade de Rabat e não tem saída. Este outeiro suave fica a norte da chamada Serra de Monsanto e entre ambos os altos fica o vale que conhecemos como Estrada de Benfica.

Já em Belém, encontramos o Alto de Caselas no Bairro de Caselas e um pouco mais abaixo estão as Escadinhas do Alto do Restelo, topónimo atribuído pelo Edital de 30/07/1999 ao arruamento construído em escadaria, entre o lote 5 e o lote 9 da Urbanização da Encosta do Restelo. E daqui, virando para a direita, deparamos com a Estrada do Forte do Alto do Duque, topónimo  evocativo da quinta do Duque do Cadaval que existia já no séc. XVII e onde em 1717 D. João V vinha com alguma frequência e em cujos terrenos viria a ser construído em 1865 o Forte do Alto do Duque. Este arruamento já era vulgarmente designado por Estrada do Forte do Alto do Duque e a CML através do seu edital de 24/04/1986 oficializou o topónimo nesta via entre a Avenida das Descobertas ( junto ao Colégio de S. José) e a Estrada Militar. Já desde o Edital de 29/04/1948 a Rua IV do plano de Urbanização da Encosta da Ajuda se tornara a Rua do Alto do Duque, unindo a Avenida Dom Vasco da Gama à Rua Dom Jerónimo Osório.

Na próxima segunda publicaremos um artigo sobre o Alto do Longo, no Bairro Alto.

O Alto do Duque em 1941 (Foto:Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Alto do Duque em 1941
(Foto:Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua Aboim Ascensão, benemérito da 1ª creche e 1º lactário lisboetas

Rua Aboim Ascensão - Freguesia de Alvalade (Foto: Sérgio Dias)

Rua Aboim Ascensão – Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias)

O Arqº Miguel Ventura Terra projetou o primeiro lactário e a primeira creche lisboeta, no Largo do Museu de Artilharia, nº 2, uma iniciativa do Coronel Rodrigo António Aboim Ascensão que para o efeito fundara a Associação Protetora da Primeira Infância e em Lisboa dá nome a uma Rua (que antes foi Azinhaga) e a uma Travessa.

Aboim Ascensão fundou em 1901 a Associação Protetora da Primeira Infância (APPI) e no ano seguinte o Ministério das Obras Públicas doou-lhe uma sede e terreno, tendo sido traçado por  Ventura Terra o plano de requalificação do edifício Sede e a construção da Vacaria que permitira leite sempre fresco para a criação do 1º lactário e 1ª creche alfacinhas.

Contudo, Aboim Ascensão só 30 anos após esta fundação e um ano após o seu falecimento passou a integrar a toponímia de Lisboa. Em Alvalade, existia uma Azinhaga dos Coruchéus que por Edital municipal de 30/12/1931 passou a ser designada como  Azinhaga Aboim Ascensão e no ano seguinte, o Edital de 03/11/1932 mudou-lhe a categoria para Rua. Dezoito anos depois a Rua Aboim Ascensão foi aumentada já que o Edital de 14/06/1950 incluiu a Rua Luís Augusto Palmeirim neste arruamento. E vinte anos mais tarde, a artéria ganhou a legenda « Benemérito/1859 – 1930», de acordo com um parecer da Comissão Municipal de Toponímia na sua reunião de 15/05/1970, que foi homologado pelo Presidente da CML, à época o General França Borges.

Muito próximo, no arruamento paralelo ao Campo Grande entre a Rua Aboim Ascensão e a Rua Afonso Lopes Vieira,  e com a mesma legenda, existe também a Travessa Aboim Ascensão que era antes a Rua Ferreira de Castro, atribuída pelo Edital municipal de 04/12/1981. No entanto, a Associação dos Amigos de Ferreira de Castro, solicitou à CML que a homenagem se concretizasse em arruamento de maior dignidade, tendo a Comissão Municipal de Toponímia dado parecer favorável pelo que Ferreira de Castro seguiu para a Rua “E” da Malha N1 de Chelas  e ali ficou a Travessa Aboim Ascensão, desde o Edital de 28/02/1984.

A APPI no Largo do Museu de Artilharia, em 1902/03 (Foto: Paulo Guedes, Arquivo Municipal de Lisboa)

A APPI no Largo do Museu de Artilharia, em 1902/03
(Foto: Paulo Guedes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rodrigo António Aboim de Ascensão (Faro/23.08.1859 – 22.01.1930/?) foi um oficial do exército que desenvolveu a sua carreira sobretudo na Guarda Fiscal onde ingressou em 1877 mas também se dedicou à filantropia. Foi coronel da Guarda Fiscal e fundador em Lisboa do Cofre da Previdência da Guarda Fiscal e do Museu das Apreensões (depois, Museu Aduaneiro), bem como fundador da Associação Protetora da Primeira Infância (1901) que instituiu vários lactários na capital e da Associação de Beneficência e Instrução do Campo Grande (1907), para as crianças em idade escolar. Em 1931, por iniciativa de um grupo de amigos foi erigido um busto seu  em bronze, da autoria de Raul Xavier, no jardim da APPI.

Após a sua morte, deixou em testamento um legado para fundar em Faro, sua terra natal, a instituição que foi designada como Refúgio Aboim Ascensão, de apoio social para crianças e idosos, o que se concretizou em 1932. Rodrigo Aboim de Ascensão foi distinguido com as comendas da Ordem de Benemerência e de Isabel, a Católica, e com as ordens de Santiago de Espada e de São Bento de Avis.

Freguesia de Alvalade (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)

Frutas na Toponímia de Lisboa

Rua Direita da Ameixoeira - Placa Tipo II - Freguesia de Santa Clara (Foto: Sérgio Dias)

Rua Direita da Ameixoeira – Placa Tipo II – Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias)

A toponímia de Lisboa perpetua diversas frutas, através dos nomes de árvores de fruta que são memórias rurais da cidade de Lisboa: a ameixoeira, a amendoeira, a cerejeira, a figueira, a laranjeira, o limoeiro e a pereira.  E estas memórias resultam de muitos séculos em que era o povo que dava nomes aos lugares para os identificar distintamente dos outros, até a Portaria de 27/09/1843 pela primeira vez atribuir esta prerrogativa ao Governo Civil, tendo o de Lisboa publicado o 1º edital de matéria toponímica em 1 de setembro de 1859.

A Ameixoeira foi até ao século XX uma freguesia de carácter rural e quando fez o seu brasão (em 1993) integrou nele duas verdes ameixoeiras (também denominadas ameixeiras ou ameixieiras). O topónimo do sítio passou para a Estrada da Ameixoeira (freguesias de Santa Clara e Lumiar) e para a Rua Direita da Ameixoeira (Santa Clara). A Estrada da Ameixoeira une a Rua Alexandre Ferreira ao Largo do Ministro e até 1928, por ser um  lugar retirado, nela se realizaram dezenas de duelos, como o que opôs Afonso Costa ao Conde de Penha Garcia, em 14 de julho de 1908. Já Rua Direita era a designação comum usada para a rua principal de um lugar e assim aconteceu com a Rua Direita da Ameixoeira, que assim já assim era denominada vulgarmente até ser oficializada pelo Edital municipal de 16/06/1928, que procedeu de igual forma para os outros topónimos antigos do lugar como o Largo do Ministro, o Largo do Terreiro, o Beco dos Ferreiros e a Travessa de Santo António.

Contudo, a origem do topónimo Ameixoeira poderá não ser a árvore da ameixa. Sabe-se que em 1147 por altura da reconquista de Lisboa, a Ameixoeira tinha o nome latino de Muchinis. No séc. XIII, aparece como Moyxieira e até ao séc. XVII era conhecida como Mixoeira (derivada de um nome mouro: Mixio ou Mixo), mas também era denominada como Ameijoeira (pela quantidade de ameijoas fósseis no local) e ainda como Funchal (pela tradição de numa batalha entre mouros e cristãos em que estes últimos encontraram uma imagem de Nossa Senhora escondida num funchal).

Com amendoeira Lisboa guarda quatro topónimos: o Beco e a Rua da Amendoeira (Freguesia de Santa Maria Maior), mais o Beco do Outeirinho da Amendoeira (Santa Maria Maior) e o Largo do Outeirinho da Amendoeira (São Vicente).

Luís Pastor de Macedo refere que «Actualmente [década de quarenta do séc. XX], existe apenas um beco com o nome de Amendoeira. Fica na freguesia do Socorro, começando e terminando, depois de fazer uma curva, na rua com o mesmo nome.» Norberto de Araújo aponta as raízes rurais:  «A Amendoeira é uma nesga estreita de casas pequenas e onde, à direita, e a meio, se encontra um quintal, restos silvestres da Mouraria antiga, sobre os quais se debruça um muro que pertence ao pátio do Coleginho.» Serão assim topónimos anteriores ao terramoto de 1755 e tanto mais que as descrições paroquiais de Lisboa referem  «rua da Amendoeyra» na freguesia de Nª Srª do Socorro, «rua da Amendoeira» na «freguezia de S.George» ou «freguezia de S. Jorze», e depois outra vez como rua da Amendoeira na freguesia de Nª Srª do Socorro. Ainda segundo Pastor de Macedo, na Rua da Amendoeira morou no séc. XIX Ana Gertrudes, conhecida pela alcunha da Barbuda, a mãe da Severa. 

O Beco do Outeirinho da Amendoeira, que se desdobra em escadas da Rua do Vigário ao Beco dos Paus, de acordo com Luís Pastor de Macedo, radica em que « O outeiro que no diminutivo originou o nome deste beco, supomos vê-lo num documento do ano de 1465: “… a Johane anes almocreue e assua molher Catarina aluarez moradores em a dicta cidade [de Lisboa] na freguesia santo steuam emprazaromlhes huma casa térrea q elles [os Clérigos Ricos] han hu chamam o outeiro hu esta ho hulmeiro com huu quintall q tem diante e huua palmeira e huua parreira, etc.» Nas plantas da freguesia após a remodelação paroquial de 1780 já aparece em Santo Estêvão «o becco intitullado o Outeiro da Amendoeira».

Já o Largo do Outeirinho da Amendoeira, que vai do Campo de Santa Clara à Cruz de Santa Helena, teria sido a Rua do Arco Pequeno segundo Norberto Araújo: « Sigamos agora por esta rua, que é o princípio do largo do Outeirinho da Amendoeira, antiga do Arco Pequeno, sob o muro do Pátio de S. Vicente; assentou aqui o Postigo do Arcebispo, da muralha de D. Fernando, depois configurado num arco, desaparecido há relativamente poucos anos[em relação à década de quarenta do séc. XX].» 

Calçadinha da Figueira - Freguesia do Lavaodois (Foto: Mário Marzagão)

Calçadinha da Figueira – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Mário Marzagão)

Na Freguesia de Carnide, onde ainda sobrevivem alguns dos antigos traços da ruralidade do sítio, encontramos a Azinhaga dos Cerejais e a Azinhaga das Cerejeiras, sendo que a própria categoria de Azinhaga denota a sua origem rural.

Da árvore dos figos, para além da Praça da Figueira e do Poço do Borratém, Lisboa guarda ainda em Alfama a Calçadinha da Figueira, que liga a Calçadinha de São Miguel à Rua Norberto de Araújo, como herança da presença árabe na cidade. No levantamento de 1858 de Filipe Folque a Calçadinha da Figueira aparece identificada como Calçada da Figueira.

No norte da cidade, a Quinta das Laranjeiras de Estêvão Augusto de Castilho, fez nascer o topónimo Laranjeiras cuja referência mais antiga data de 1671 e daí se gerou tanto a Estrada como a Rua das Laranjeiras, sendo que esta última antes do Edital municipal de  19/07/1919 se designava Azinhaga da Ponte Velha.

Já no lado ocidental de Lisboa, na Freguesia da Ajuda, temos uma Rua do Laranjal nascida como tal há quase 100 anos. Primeiro, foi Rua da Paz, a que o Edital municipal de 18 de junho de 1889 acrescentou «à Ajuda» e depois, o Edital municipal de 26 de setembro de 1916 tornou-a Rua do Laranjal.

Travessa da Laranjeira - Freguesia da Misericórdia (Foto: Sérgio Dias)

Travessa da Laranjeira – Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

E em plena Bica deparamos com a Travessa da Laranjeira, que como a sua paralela Travessa do Sequeiro fixa memórias rurais do local. Pastor de Macedo refere que «O padre Carvalho da Costa, em 1712, dá-lhe o nome de ‘travessa do Laranjeiro’ (…) Supomos porém, que se trata duma gralha tipográfica da ‘Corografia Portuguesa’, depois copiada, irreflectidamente pelo autor do ‘Mapa de Portugal’» e ainda segundo este olisipógrafo foi nesta artéria que nasceu o jornalista Eduardo Fernandes, conhecido como Esculápio.

Já o limoeiro trouxe um Largo e uma Rua do Limoeiro, ambos na freguesia de Santa Maria Maior. Supõe-se que o sítio do Limoeiro  aluda a uma árvore no local mas o Largo do Limoeiro está indubitavelmente ligado a uma cadeia que aí funcionava desde o tempo de  D. João II e cujos cárceres encerraram gente como poeta Correia Garção (em 1771), o poeta Bocage (1797), o pintor Domingos Sequeira (1808) e o escritor Almeida Garrett (1827) mas que desde dezembro de 1979 acolhe as instalações do Centro de Estudos Judiciários.

Finalmente, a Travessa da Pereira, na Freguesia de São Vicente, «Data dos fins do século XVIII (1799) e foi aberta na quinta do Alcaide Fidalgo», de acordo com Pastor de Macedo que ainda acrescenta que « aqui nasceu em 3 de Novembro de 1828 o actor Isidoro e aqui viveu, segundo parece, aí pelos meados do século passado [séc. XIX], o desiquilibrado José Maria Leal de Gusmão , autor do poema Rei só Deus, e que foi um dos excêntricos relacionados por Luiz Augusto Palmeirim. A qualificação que primitivamente deram a esta serventia foi a de rua».

Travessa da Pereira - Freguesia de São Vicente (Planta: Sérgio Dias)

Travessa da Pereira – Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)

O Ferrão tinha uma Quinta e, a Quinta tinha uma Azinhaga

As azinhagas lisboetas são memórias toponímicas do passado rural do espaço urbano que hoje é Lisboa e, esta Azinhaga do Ferrão, que une o Largo das Conchas à Rua Artur Duarte, é hoje um pequeno troço do que foi outrora, antes da construção da Rua Artur Duarte.

azinhaga do ferrao 1

 Freguesia de Marvila

Como a maioria das azinhagas recebeu o seu nome da proximidade a uma Quinta – já que eram o caminho entre elas -,  sendo neste caso à Quinta do Ferrão, também conhecida como Quinta dos Ciprestes, uma das quintas de comerciantes e industriais que se começaram a instalar em Marvila no séc. XIX e, que já encontramos referida na Planta Topográfica de Lisboa, de 1907-1908, de Júlio Silva Pinto e Alberto Correia de Sá.

A Azinhaga do Ferrão surge referida na edição de 1941 do Guia das Ruas de Lisboa da Tipografia Gonçalves e, após a constituição da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa  em 1943, foi uma nomenclatura aprovada por esta Comissão na sua reunião de 14.11.1944. O cunho rural vai continuar a caracterizar o arruamento até hoje, e por exemplo, em 1956, encontramos uma escritura de compra de uma courela na Azinhaga do Ferrão, a Adelaide da Conceição Ferreira Ovelheira.

A azinhaga da quinta de Ana Joaquina Salgado

Freguesia de Marvila

Lisboa cidade capital do país ainda guarda muito das suas memórias rurais, nomeadamente nas 58 azinhagas que nela sobrevivem e, a Azinhaga da Salgada é uma delas.

Nesta artéria que hoje se estende da Rua da Quinta dos Ourives ao Alto das Conchas está a entrada para a Quinta da Salgada ou Salgadas, uma referência histórica de Marvila, mais precisamente do sítio do Alto das Conchas ou Alto de Chelas, pelo que esta Azinhaga da Salgada, foi também por vezes referida como Azinhaga das Salgadas ou Azinhaga das Conchas. O seu nome é recolhido na Quinta mais próxima, como era costume acontecer para nomear as azinhagas, que eram os caminhos rurais entre as quintas. Sabemos também que no final do século XIX, este arruamento foi alargado mediante um projeto camarário de Augusto César dos Santos, Alberto Pedro da Silva e do condutor de obras Pedro Joyce, datado de 14 de Outubro de 1899.

A Quinta da Salgada, também conhecida como Quinta das Conchas, é uma construção de palácio, ermida e jardins do século XVIII cuja origem toponímica radica no nome daquela que foi a sua proprietária, D. Ana Joaquina Salgado. Segundo um auto de habilitação de herdeiros de 1790, existente na Torre do Tombo, D. Ana Joaquina Salgado,  era natural do Recife (Brasil) e filha do mestre de campo José Vaz Salgado e de D. Teresa Maria de Jesus, casada com o capitão António Pinheiro Salgado, com quem teve o filho José Pinheiro Salgado.

Pela proximidade, a edilidade também atribuiu em 1999 o Largo da Quinta das Salgadas, pelo Edital de 7 de Dezembro.

Freguesia de Marvila