Via, villa agrícola, necrópole e santuário romanos em Poço de Cortes

Entres as freguesias de Olivais e Marvila, mais especificamente na zona de Chelas, nas proximidades da Azinhaga do Poço de Cortes, foram encontrados vestígios romanos de uma via, bem como de uma villa agrícola com necrópole e um pequeno santuário rural, do séc.II e III.

Na época romana, Chelas ficava no agers de Olisipo. A posição estratégia da cidade romana junto ao largo estuário do mais extenso rio da Península Ibérica, contribuiu para o seu desenvolvimento económico. Numa das vias romanas de Olisipo, conforme já menciona A. Vieira da Silva em 1944, estava um marco miliário «encravado numa parede da igreja do mosteiro de Chelas». Neste itinerário de Lisboa a Santarém, pela margem norte do Tejo, a primeira milha situava-se, provavelmente, junto à Calçada da Cruz da Pedra, de onde prosseguiria para a Estrada de Chelas, tocando depois em Poço de Cortes, onde se regista a necrópole e o que parece ser um pequeno santuário rural, continuando para Sacavém, talvez local de uma mutatio (estação de  paragem e muda, indispensável ao bom funcionamento das vias romanas).

É também no sítio de Poço de Cortes, a cerca de 1400 metros a nordeste da Quinta da Bela Vista, que quando em junho e julho de 1944 se procedia à construção de uma avenida de ligação do Aeroporto com o Poço do Bispo –  justamente no sítio onde já no séc. XVII havia aparecido uma lápide funerária romana que se encontraram mais vestígios romanos. Sobre estas descobertas de Poço de Cortes, logo em 1944, o Engº Vieira da Silva publicou na Revista Municipal nº 20-21 o artigo «Uma estação lusitano-romana no sítio de Poço de Côrtes», revelando a existência de uma cripta funerária de forma circular, com 9, 60 metros de diâmetro, com pilares que pareciam sustentar a cobertura, para além de ossos humanos, restos de cerâmicas e três pequenas aras e um columbário (estes 4 últimos achados foram em 8 de julho para o jardim do Palácio Galveias), assim como uma urna cenerária de calcário, em formato de meio ovo, que em 21 de julho também seguiu para o jardim do Galveias. O engº Vieira da Silva defendeu que este monumento funerário seria neolítico e teria sido reaproveitado pelos romanos.

Ainda no mesmo ano de 1944 mas na sua Epigrafia de Olisipo, A. Vieira da Silva refere que «conjecturou Borges de Figueiredo que teve o lugar de Chelas por início uma casa de campo ou vila dum rico cidadão de Olisipo, pertencente à tribu Galéria, com o nome de Júlio.»

As aras encontradas em Poço de Cortes

© CML | DPC | NT e CAL – Centro de Arqueologia de Lisboa | 2019

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Da Azinhaga da Ponte Velha à Rua das Laranjeiras em 1919

Excerto da planta municipal de maio de 1905

A Azinhaga da Ponte Velha, na Palma de Baixo, passou em 1919 a ter categoria de Rua e a denominação de Rua das Laranjeiras, por referência à Estrada das Laranjeiras onde começava, por via do Edital municipal de 19 de julho desse ano.

Esta decisão foi aprovada por unanimidade na reunião 10 de julho da Comissão Executiva da CML, a partir da proposta do Vereador Augusto César de Magalhães Peixoto, «Considerando que tal denominação [ a de Azinhaga ] não se coaduna com as construções que actualmente possue, e que a tornam hoje uma via pública moderna», tanto mais que já em 1905 a Azinhaga da Ponte Velha havia sido alargada conforme planta municipal. O sítio da Ponte Velha situava-se no extremo da Estrada das Laranjeiras. Já o topónimo Laranjeiras, nesta zona de Lisboa está ligado à famosa Quinta das Laranjeiras.

A Rua das Laranjeiras hoje
Freguesia de São Domingos de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Denominada inicialmente Quinta de Santo António, a Quinta das Laranjeiras, de Estêvão Augusto de Castilho, tem como referência mais antiga conhecida a data de 1671. No final do séc. XVII já era de Manuel da Silva Colaço e  em 1760 pertencia a Luís Garcia Bívar. Sabe-se que depois foi propriedade de Francisco Azevedo Coutinho, até em 1779 ser adquirida pelo Desembargador Luís Rebelo Quintela que em 1802, com um Palácio novo, a deixou de herança ao seu sobrinho,  Joaquim Pedro de Quintela (1801-1869), o 2º Barão de Quintela e 1º Conde de Farrobo.

É com este último que o Palácio da Quinta passou a ser famoso e identificado como Palácio Farrobo. O 2º Barão de Quintela deu-lhe a divisa OTIA TUTA (Toda prazeres). Os bailes, os festejos e eventos artísticos ocorridos nesta propriedade do 1º Conde de Farrobo, que passou também a incluir o Teatro das Laranjeiras ou Teatro Tália – construído em 1820 para 560 espectadores-, geraram a expressão popular «farrobodó». No ano da morte Joaquim Pedro de Quintela, ano de 1869, o Palácio das Laranjeiras foi comprado pelo Monteiro dos Milhões, o capitalista António Augusto Carvalho Monteiro, e em 1874, foi vendido ao fidalgo espanhol Duque de Abrantes e Liñares. Três anos depois, a propriedade foi adquirida pelo comendador José Pereira Soares que também comprou as adjacentes Quintas das Águas Boas e dos Barbacenas e que 1888 vendeu uma casa na Estrada das Laranjeiras para o Serviço de Incêndios em 1892 vendeu outra, para um posto de limpeza.

Em 1903, o conjunto da propriedade foi comprado pelo Conde Burnay, que  em 1904 arrendou os jardins das Laranjeiras e das Águas Boas ao Jardim Zoológico, que assim foi inaugurado em 28 de maio de 1905. Em 1940, o Palácio das Laranjeiras e toda a restante propriedade rústica e urbana foi adquirida aos herdeiros da condessa de Burnay pelo Ministério das Colónias e desde aí vários serviços ministeriais foram lá instalados.

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

 

A Azinhaga das Carmelitas do Mosteiro de Santa Teresa do séc. XVII

Freguesia de Carnide
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Azinhaga das Carmelitas que hoje se estende do Largo da Luz à Travessa do Pregoeiro, guarda a memória das monjas do seiscentista Convento de Santa Teresa de Jesus, que se encontra no n.º 45 da Rua do Norte, em Carnide.

Em 1907, de acordo com a planta de Silva Pinto, esta Azinhaga ligava a Quinta das Carmelitas à Quinta das Camareiras.

O Convento de Santa Teresa de Jesus de Carnide, também conhecido por Convento de Santa Teresa de Jesus da Ordem das Carmelitas Descalças e de Santo Alberto foi fundado em 1642 pela Infanta D. Micaela Margarida de Sant’Ana (1582 – 1663), filha natural do Imperador da Alemanha, Mateus de Habsburgo, destinado a freiras Carmelitas Descalças e existiu com tal fito até 1891, ano do falecimento da última freira, Madre Matilde Maria de São José.

Neste Convento de Santa Teresa de Jesus se recolhiam muitas donzelas e viúvas de famílias da nobreza da época usufruindo deste complexo com igreja de uma só nave, cozinha, refeitório e dependências rurais, numa grande propriedade que em 1640 havia sido doada por António Gomes da Mata, Correio-mor do Reino, justamente para se proceder à edificação. D.  Micaela era sobrinha de D. João IV e ficou responsável por receber em 1650, a Infanta D. Maria (1644-1693), filha natural de D. João IV, até aí educada pelo Secretário de Estado, António de Cavide, que acabou por vestir o o hábito das carmelitas, no ano da morte do seu pai (1656). Esta Infanta impulsionou a conclusão das obras do Convento de Santa Teresa e da igreja, entre 1663 e 1667, assim como a ornamentação de todo o edifício com diversas pinturas, peças de ourivesaria e alfaias.

Freguesia de Carnide
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Esta Azinhaga das Carmelitas sofreu um alinhamento no início do século XX já que para esse efeito a Câmara Municipal de Lisboa comprou um terreno a José Nunes dos Reis Guimarães, conforme escritura de 9 de novembro de 1910 e ele oferecera outro em 1906 para se alinhar a Azinhaga do Serrado, onde pretendia construir um grupo de barracas.

No começo do séc. XX, como mostram as plantas de Silva Pinto, era esta ainda uma zona rural com o Cerrado das Carmelitas e um ror de quintas como a Quinta das Carmelitas, a Quinta das Canas, a Quinta do Gaupers, a Quinta da Horta Nova, a Quinta do Marquês de Dentro, a Quinta do Marquês de Fora, a Quinta do Monte Alegre, a Quinta de Nossa Senhora da Luz, a Quinta Nova, a Quinta do Pascal, a Quinta da Ponte, a Quinta da Praça, a Quinta do Pregoeiro, e tendo arruamentos como os seguintes topónimos: Azinhaga das Carmelitas, Azinhaga da Fonte, Azinhaga da Luz, Estrada da Luz,  Largo do Jogo da Bola, Largo da Luz,  Largo da Pimenteira, Rua Direita, Rua do Machado, Rua da Mestra, Rua das Parreiras, Rua da Ponte, Rua do Seminário,Travessa do Cascão e Travessa do Pregoeiro.

 

A Azinhaga de um Jogo com Bola

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

No Paço do Lumiar, ainda hoje permanece a Azinhaga do Jogo da Bola, a ligar a Alameda Mahatma Gandhi ao Largo de São Sebastião, como memória da ruralidade desta zona outrora, antes mesmo de ser parte da cidade de Lisboa.

Referências escritas à Azinhaga do Jogo da Bola surgem em  1907 na planta Topográfica de Lisboa de Júlio Silva Pinto e Alberto de Sá Correia, a correr junto à Quinta dos Ingleses, à Azinhaga e Quinta da Torre do Fato, à Estrada de Telheiras e à Quinta de Santo António.

O jogo da bola evocado neste topónimo deve provavelmente ser o jogo da pela, um antepassado do ténis,  cuja prática aproveitava terrenos amplos ao ar livre usando uma bola de cortiça forrada a flanela que era batida com a mão nua. Mais tarde, passaram a usar-se umas luvas e raquetes especiais.O jogo da pela uma das  atividades de lazer dos nobres e dos burgueses nos séculos XVIII e XIX.

Na cidade de Lisboa, já antes do Terramoto de 1755 existia uma Calçada do Jogo de Pela na freguesia do Socorro, a ligar a Rua da Palma à Rua do Arco da Graça e que é a mesma artéria que existe hoje sob a administração das freguesias de Arroios e de Santa Maria Maior. Também na freguesia de Carnide encontramos hoje a Travessa e o Largo do Jogo da Bola,  junto ao Palácio dos Condes de Carnide, que segundo Adélia Maria Caldas Carreira na sua comunicação nas 4ªs Jornadas de Toponímia de Lisboa «É provável que esse terreno, enquanto ainda parte integrante da Quinta, constituísse o local escolhido para as práticas desportivas dos proprietários e respectivos convidados, especialmente para o jogo da bola ou da péla.»

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Azinhaga da Torre do Fato

Freguesias de Carnide e do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Azinhaga da Torre do Fato ainda hoje sobrevive estendendo-se desde a Rua Fernando Namora à Estrada do Paço do Lumiar, derivando o topónimo da dita Azinhaga do nome da Quinta da Torre do Fato.

Freguesias de Carnide e do Lumiar – Placa Tipo IV
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Tradicionalmente, as azinhagas que acompanhavam os limites de uma Quinta ganhavam a denominação dessa Quinta, tal como acontece aqui embora se desconheça a origem da Torre do Fato. O que sabemos é que no séc. XVIII, em 1775, na então freguesia de São João Batista do Lumiar, o proprietário da Quinta Torre do Fato era João Caetano de Abreu. No século XIX, a Quinta era a casa de campo da família de Bernardo de Sá Nogueira, Barão (1833), Visconde (1834) e primeiro Marquês de Sá da Bandeira (1854), sendo que no jornal Gazeta de Lisboa deparamos em 13 de agosto de 1823 com o anúncio de «Quem quizer comprar a uva das vinhas, pero e maçã da quinta da Torre do fato, à Luz; falle com os donos da mesma quinta, ou em Lisboa na rua da Gloria nº 41 terceiro andar».  Seis anos depois, em 16 de maio de 1829, publicitava-se o arrendamento da Quinta fazendo saber que «arrenda-se as casas com mobilia, e a quinta da Torre do fato, no sitio da Luz, tem pomar, vinhas e duas courellas de vinha annexas, olivedo, lagar, adêga, forno para cozer pão, cavalharice, palheiro, e commodos para huma grande familia; ha de principiar o arrendamento no primeiro de Junho proximo: fale-se a Paulo José Nunes, em Lisboa na rua dos Algibebes nº 78». Ainda em 1832, o mesmo periódico insere um anúncio de  Ayres de Sá Nogueira, na sua «quinta da Torre do Fáto, perto da Luz»  para contratar quem lhe administrasse uma quinta agrícola em Santarém.

No séc. XX, na  planta de Júlio Silva Pinto de 1907 está identificada a Quinta e a Azinhaga da Torre do Fato. De 1922 a 1924 encontramos  permutas de terrenos entre a Câmara Municipal de Lisboa e Manuel Gomes, para alargamento da Azinhaga da Torre do Fato e da Estrada de Telheiras de Cima. E em 1970 sabemos que a Clínica Psiquiátrica de São José das Irmãs Hospitaleiras estava em 1970 já instalada na Quinta da Torre do Fato.

Freguesias de Carnide e do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Azinhaga do Reguengo da Charneca

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Azinhaga do Reguengo que se estende desde  terras próximas da Azinhaga das Galinheiras até ao concelho de Loures guarda a memória dos domínios do Rei naquela zona: o reguengo da Charneca.

Depois da Reconquista de Lisboa aos mouros, o território ao redor de Lisboa, o Termo de Lisboa, ficou na propriedade do Rei que, de seguida, fez dele doações a nobres e às ordens militares e religiosas, embora tenha conservado na sua posse vastos domínios que se denominavam reguengos. Reguengo ou realengo era a qualificação jurídica dos lugares conquistados dependentes diretamente da autoridade do rei, eram as terras cujo senhor era o próprio rei.

Concretamente, o reguengo da Charneca ainda no século XVII continuava na posse dos Duques de Bragança e é dele e da sua  Quinta do Reguengo que o topónimo Azinhaga do Reguengo guarda memória até aos nossos dias.

A extinção dos reguengos foi feita pelas leis de organização da administração e da fazenda pública de Mouzinho da Silveira em 1832. Em 1906 ainda a planta de Júlio Silva Pinto mostrava tanto a Quinta como a Azinhaga do Reguengo.

Freguesia de Santa Clara (Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Azinhaga e a Calçada da Quinta do Carrascal

Freguesia do Beato
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Quinta do Carrascal que se estendia desde a Picheleira à Rua do Sol a Chelas deu chão para o nascimento da Azinhaga e da  Calçada do Carrascal.

Nesta Quinta que surge já na planta de 1909 de Júlio Silva Pinto,  predominavam carrascos – seriam árvores parecidas com o carvalho ou antes oliveiras da variedade carrasca, já que o Beato era desde o séc. XII uma zona de vinhas e olivais?… – , sendo o arruamento próximo a Azinhaga do Carrascal, seguindo a tradição das Azinhagas ganharem o nome da Quinta que lhe era mais próxima. Dada o acentuado declive de uma parte do seu traçado parte da Azinhaga também foi conhecida por Calçada do Carrascal.

Assim, quando em finais de 1969 a Azinhaga ficou dividida em dois troços distintos, por obras na zona, a Câmara acolheu a  sugestão de António Fontes Laranjeira, morador no local, ficando ambos os topónimos como explicita o Edital municipal nº 14/70, de 16 de janeiro de 1970: « tendo em vista a circunstância de a Azinhaga do Carrascal, também designada vulgarmente por Calçada do Carrascal, se encontrar, actualmente, dividida em dois troços distintos, o que torna difícil a sua conveniente identificação, resolvi (…) que o troço do citado arruamento compreendido entre a Calçada da Picheleira e a Rua Frei Fortunato de São Boaventura, mantenha a denominação de Azinhaga do Carrascal e o troço compreendido entre a Rua do Sol a Chelas e a Rua Eng.º Maciel Chaves, passe a denominar-se Calçada do Carrascal.»

Entre a Azinhaga do Carrascal e a Azinhaga da Picheleira também se ergueu um bairro destinado desde 1927 a habitações económicas e que em 1933  os seus arruamentos receberam os seguintes topónimos : Rua Capitão Roby, Rua Frederico Perry Vidal, Rua Frei Fortunato de São Boaventura e Rua de Silveira Peixoto.

Freguesia do Beato
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

Toponomenclatura do passado rural: as Azinhagas

Azinhaga da Cidade – Freguesias de Santa Clara e do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias/NT)

Em Lisboa existem hoje 52 azinhagas, nas freguesias da coroa periférica da cidade que foram aquelas que se mantiveram como espaço rural durante mais tempo, como caminhos entre as suas quintas muradas, fixando nestas azinhagas topónimos derivados do nome dos sítios, das suas características, do nome das quintas próximas, do nome de moradores ou do nome de mosteiros ou das ordens que os ocupavam, sendo as freguesias de Marvila e do Lumiar as que mais azinhagas possuem no presente.

Azinhaga é uma palavra que deriva da árabe az-zinaiqa, com o significado de rua estreita e que é toponomenclatura para um caminho rústico estreito, ladeado de muros ou sebes altas, o que denota que as  as azinhagas de Lisboa são memórias da ruralidade que marcou as zonas onde se encontram.

Começando pelo norte de Lisboa, na Freguesia de Santa Clara estão 8 azinhagas: a do Beco, a dos Milagres, a da Póvoa, a do Reguengo, a do Rio [da Ameixoeira que o Intendente Pina Manique mandou desentulhar em 1781], a de Santa Susana, a da Torrinha e a Azinhaga das Galinheiras, no sítio das Galinheiras que cerca de 1950 recebeu o bairro camarário das Galinheiras para receber os desalojados dos terrenos do Aeroporto. Conta ainda com mais uma azinhaga partilhada com a Freguesia do Lumiar: a Azinhaga da Cidade.

Passando para a Freguesia do Lumiar, nela persistem mais 10 azinhagas: a de Entremuros, a da Fonte Velha, a do Frade, a do Jogo da Bola [a mencionar uma ocupação de lazer com bola que não seria ainda o futebol], a das Lajes, a da Musgueira, a do Poço de Baixo, a do Porto, a das Travessas e a dos Ulmeiros.

Azinhaga da Torre do Fato – Freguesias do Lumiar e de Carnide – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias/NT)

Mas o Lumiar tem  mais duas azinhagas que partilha com Carnide –  a Azinhaga dos Lameiros e a Azinhaga da Torre do Fato – e ainda, mais uma que reparte com Alvalade que é a Azinhaga das Galhardas.

A Freguesia de Carnide tem no seu território 8 azinhagas: a dos Cerejais, a das Cerejeiras, a da Cova da Onça, a das Freiras e a das Carmelitas- ambas referentes às monjas do Convento de Santa Teresa – , a da Fonte, a do Serrado,  e a Azinhaga da Luz, atribuída por  Edital municipal de 4 de março de 1974 ao arruamento de ligação entre a Azinhaga do Serrado e a Azinhaga das Carmelitas.

Alvalade conta com duas azinhagas – a Azinhaga dos Barros e a Azinhaga das Murtas – para além de ter a Azinhaga da Fonte do Louro partilhada com as freguesias do Areeiro e da Penha de França. A Penha de França conta ainda com a Azinhaga do Alto do Varejão.

Já a Freguesia de Marvila é a que tem mais azinhagas, num total de 11 : a dos Alfinetes, a do Armador, a do Baptista,  a do Ferrão, a da Maruja, a do Poço de Cortes, a da Quinta do Alfenim, a do Vale Fundão, a das Veigas, a Azinhaga da Troca (cujo topónimo foi oficializado pelo Edital de 24/10/1938) e a Azinhaga da Bela Vista (atribuída pelo Edital municipal de 27/11/2012 para fixar o troço ainda remanescente da azinhaga original).  Marvila reparte ainda com a Freguesia do Beato mais duas azinhagas: a do Planeta e a da Salgada.  Por seu lado, o Beato tem outras duas azinhagas: a da Bruxa e a do Carrascal (atribuída pelo Edital de 16/01/1970 para distinguir os dois troços que tinham deixado de estar ligados ficando no outro o topónimo Calçada do Carrascal).

Finalmente, na Freguesia dos Olivais, existem 3 azinhagas: a da Alagueza fixada pela memória da população, e a da Quinta das Courelas e a   do Casquilho, ambas atribuídas pelo Edital municipal de 25/07/2001, para perpetuar a Quinta de que fez parte e no segundo caso, para oficializar o topónimo pelo qual era conhecida.

Azinhaga de Santa Susana
(Foto: Rui Mendes)

 

Santa Maria da Luz em 4 artérias de Carnide

Freguesia de Carnide (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Carnide
(Planta: Sérgio Dias)

Carnide acolhe a Azinhaga, o Largo e a Travessa da Luz, bem como a Estrada da Luz que divide com São Domingos de Benfica, em homenagem a Santa Maria da Luz por mor de uma ermida ali erguida no séc. XV.

Largo da Luz - Freguesia de Carnide (Foto: Sérgio Dias)

Largo da Luz – Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias)

Segundo uma lenda, Nossa Senhora terá aparecido sucessivas vezes, aureolada de luz, a um natural de Carnide, de seu nome Pêro Martins, provavelmente da carreira das armas, prometendo livrá-lo do cativeiro e, recomendando-lhe que de regresso a Carnide erigisse na Fonte da Machada uma ermida dedicada a Santa Maria da Luz, cuja imagem encontraria perto daquele local. Pêro Martins acabou por ser libertado e regressado a Portugal em 1463 dirigiu-se às cercanias da Fonte da Machada e encontrou a imagem de Nossa Senhora da Luz, pelo que se empenhou em recolher as contribuições dos seus vizinhos, bem como a licença do Bispo de Lisboa, para construir a ermida, na qual a imagem foi solenemente entronizada no dia 8 de setembro de 1464.

D. Afonso V, o Bispo de Lisboa e alguns fidalgos fizeram logo parte da Irmandade da ermida. Pêro Martins foi nela sepultado em 14 de março de 1466. A ermida veio depois a ser anexada à igreja de São Lourenço de Carnide, cujo pároco ficou com o encargo de manter o culto e de dar continuidade às festividades religiosas em honra de Nossa Senhora da Luz, a 8 de setembro, as quais persistiram até aos nossos dias, tal como a Feira da Luz, realizada no Largo da Luz desde o século XVI.

Travessa da Luz - Freguesia de Carnide (Foto: Sérgio Dias)

Travessa da Luz – Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias)

Em 1862, quando Carnide pertencia à  Câmara Municipal de Belém, o Largo da Luz era designado como Praça da Luz. Em 1970, foram instaladas as primeiras cabines telefónicas do Largo e nos dias de hoje está contido entre a Estrada do Paço Lumiar, a Azinhaga das Carmelitas e a Estrada da Luz.

Azinhaga da Luz - Freguesia de Carnide (Foto: Sérgio Dias)

Azinhaga da Luz – Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias)

Na Planta Topográfica de Lisboa de 1908, de Júlio Silva Pinto e Alberto de Sá Correia, são referenciados o Largo da Luz, a Estrada da Luz, o Real Colégio Militar, a Quinta de Nossa Senhora da Luz e a Azinhaga da Luz. No entanto, a Azinhaga da Luz foi oficializada pelo Edital municipal de 4 de março de 1974  como o arruamento de ligação entre a Azinhaga do Serrado e a Azinhaga das Carmelitas.

A Estrada da Luz foi sendo alargada no decorrer dos tempos, mas sobretudo no período de 1915 a 1919, com a a edilidade  a comprar e permutar várias parcelas de terreno necessárias para o efeito, sendo que em 1919 Branca da Gonta Colaço e o seu marido, Jorge Colaço, cederam mesmo um terreno para o alargamento. Hoje, a Estrada da Luz vai da  Estrada das Laranjeiras à Avenida General Norton de Matos.

Já a Travessa da Luz, foi uma atribuição por Edital municipal de 9 de junho de 1928, à antiga Travessa das Bruxas, com o propósito de apagar um topónimo que deve ter sido considerado menos próprio. Em 1972 foi arborizada e ajardinada e hoje liga a Estrada da Luz à Rua Fernando Namora.

Estrada da Luz - Freguesias de Carnide e de São Domingos de Benfica (Foto: Sérgio Dias)

Estrada da Luz – Freguesias de Carnide e de São Domingos de Benfica
(Foto: Sérgio Dias)

 

Os Altos das 7 colinas de Lisboa

Alto das Conchas em 1964 (Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Alto das Conchas em 1964
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Lisboa com as suas 7 colinas encontrou nos Altos uma referência  de fácil localização que foi usada na toponímia mais antiga da cidade e a partir da qual advieram ruas ou travessas com o mesmo nome subsistindo hoje os vinte topónimos oficiais seguintes.

O Alto das Conchas, em Marvila, georrefencia a posição altaneira do lugar de Conchas e deve ter sido fixado por abundarem no local vestígios fósseis de conchas de moluscos do Miocénico de Lisboa (há cerca de 24 milhões de anos). Já em documentos do séc. XII aparece referido o sítio de Concha, onde o Mosteiro de São Vicente de Fora e a Ordem do Templo tinham vinhas. E no séc. XIII são mencionados os lugares de Chelas e Conchas. Em documentos municipais encontramos a primeira referência em 1899, num documento sobre o alinhamento da Calçada do Perdigão que inclui o Alto das Conchas e também a Quinta das Conchas e a Quinta das Conchinhas.

Na Freguesia de Santa Clara, encontramos a Rua do Alto do Chapeleiro, atribuída  por Edital de 29/08/1991 à Rua A da Urbanização do Alto do Chapeleiro, a partir de uma sugestão da vogal da Comissão Municipal de Toponímia Drª Salete Salvado, de modo a preservar a toponímia tradicional da zona. De igual forma, no Lumiar, na urbanização erguida na antiga Quinta dos Alcoutins foi atribuído por Edital de 02/10/2009 o topónimo Rua do Alto dos Alcoutins na Rua E1 da Quinta dos Alcoutins.

Alto do Varejão em 1944 (Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Alto do Varejão em 1944
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

E se virarmos para a Freguesia da Penha de França, para além da Parada do Alto de São João, encontramos vários topónimos relacionados com o Alto do Varejão.

De acordo com Norberto de Araújo «Vamos entrar no Alto do Varejão, sítio da encosta arrabaldina começado a povoar tìmidamente depois do Terramoto, e desenvolvido há já cem anos [o autor escreveu na década de 30 do séc. XX]; é sem dúvida o avô urbano desta área que por aí acima sobe até ao Alto de S. João. Estes terrenos fizeram parte da Cêrca do Mosteiro de Santos-o-Novo, na sua orla do lado nascente; é um aglomerado popular, com algum pitoresco triste, e no qual a principal artéria – a Rua Lopes (indeciso nome) – se prolongou já na urbanização dos últimos oito anos a ligar com o novo bairro, hoje já arruado e edificado, mas ainda sem designação oficial, tal as suas ruas, e que se situa a sul da rotunda do Alto de S. João, entre as Avenidas Jacinto Nunes (por concluir) e Afonso III, esta de bem triste aspecto. (…) A única artéria, já com designação que não seja a das letras A ou B, é a Rua Lopes, prolongada do trôço velho do Alto do Varejão. (Não sei qual fôsse a orígem deste dístico; não creio que ele advenha de um almirante Sequeira Verejão, do tempo de D. João IV, como foi aventado por um erudito respeitável).» Já Luís Pastor de Macedo aponta que «O Varejão que encontrámos morando nestas paragens – na sua quinta de Chelas – foi Diogo de Varejão, filho de Pedro Fernandes, que em 31 de Março de 1599 se casou com Joana Veltim, filha de João Veltim, ao tempo já defunto. Trinta e cinco anos depois, D. Isabel, a Varejoa, era moradora “nas suas casas da cruz da pedra” onde, Ana Pinta, sua sobrinha, faleceu em 7 de Janeiro de 1634. Nenhuma outra pessoa da família Varejão encontrámos vivendo nestes sítios. Teria sido pois aquele Diogo de Varejão o que deu o seu nome ao local?»

Hoje, oficialmente, o Alto do Varejão tem início no Largo de Santos-O-Novo e termina na Rua Lopes. Começa na Rua Lopes a Azinhaga do Alto do Varejão que termina na Praceta do Alto Varejão, fazendo esta a ligação do Alto do Varejão à Travessa do Alto Varejão, que une a Praceta do Alto do Varejão à Calçada das Lajes. Há ainda o Caminho do Alto do Varejão que se estende da Azinhaga do Alto Varejão à Rua Henrique Barrilaro Ruas.

Alto do Penalva em 1946 (Foto: Fernando Martinez Pozal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Alto do Penalva em 1946
(Foto: Fernando Martinez Pozal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Já o Alto do Penalva, espaço sem saída e com início junto ao nº 51 da Rua da Mãe d’Água, na Freguesia de Santo António, seria o Alto do Marquês de Penalva segundo Luís Pastor de Macedo, que adianta «Vêmo-lo mencionar pela primeira vez no ano de 1826 (Livro VII de óbitos, fl.254- Encarnação). O nome adviera-lhe da circunstância do Marquês de Penalva ter morado ali – no prédio nºs. 20 e 22 da praça do Rio de Janeiro [Praça do Príncipe Real]. Nos verbetes da Câmara Municipal declara-se que esta serventia pública se denominou também pátio da Evarista o que, ainda não achámos confirmado por qualquer outra via.» E Norberto de Araújo acrescenta que «Um pouco antes de 1755, neste alto cômoro da Cotovia, sobranceiro sôbre a ponta do Salitre e portas de Valverde – mais largo para norte do que é hoje, depois de urbanizado – existia apenas o Palácio dos Penalvas, à esquina das actuais Escadinhas da Mai d’Água, e ao fundo do curto Arco do Evaristo. (…) A propriedade mais antiga do sítio é o Palácio do Conde de Penalva, erguido em 1738 pela Condessa D, Joana Rosa de Menezes. Situa-se hoje no fundo extremo da Rua da Conceição da Glória, nº 11, e tinha seu pátio e jardins voltados para o alto da Cotovia, já nos Moinhos de Vento, no tempo em que tudo isto era descampado, e em que, por consequência, o Palácio, isolado, avultava no que foi depois a Patriarcal. Ainda hoje, nas traseiras do Arco do Evaristo, há uma travessa sem saída “Pátio do Conde de Penalva”, por trás dos prédios da extrema da Rua D. Pedro V, e à qual se encosta o muro dos jardins, parte rústica da antiga Casa Penalva.» 

Ainda na Freguesia de Santo António existe o Alto de São Francisco junto ao nº 19 da Rua João Penha, tal como na Freguesia da Estrela fica o Alto da Cova da Moura que liga a Travessa do Chafariz das Terras à Rua Maestro António Taborda.

Alto do Carvalhão em 1961 (Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Alto do Carvalhão em 1961
(Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Seguimos para Campolide, para o Alto do Carvalhão, para as terras do Carvalhão, alcunha de Sebastião José de Carvalho e Melo.  Segundo Norberto de Araújo, estes terrenos eram de Sebastião José de Carvalho e Melo, ainda antes de ser Marquês de Pombal e Conde de Oeiras, pelo que  do Carvalhão «(…) derivaram os nomes da Rua actual (da direita) que leva à Cruz das Almas, e da ladeira (à esquerda) só há poucos anos (1933) edificada em forma, e que leva a D. Carlos Mascarenhas.» Por escritura de 21/02/1920 sabemos que neste ano no Alto do Carvalhão estavam a ser construídas ruas por Gustavo de Araújo Santos Moreira e que dois anos depois (escritura de 27/01/1924), o mesmo individuo obteve licença para abertura e construção de ruas nos terrenos sitos no Alto do Carvalhão cedendo 2571,25 m2 de terreno à Câmara Municipal de Lisboa. A pavimentação das ruas ocorreu dez anos depois como prova a escritura de adjudicação da empreitada de pavimentação das ruas do Alto do Carvalhão a Emílio Hidalgo datada de 22/05/1934.

Em Benfica, fica um topónimo que acumula duas georreferências: o Alto da Boavista. Começa na Estrada da Buraca e termina na rotunda onde confluem a Estrada do Calhariz de Benfica, a do Monsanto e a Rua da Portela. E em São Domingos de Benfica, o arruamento denominado Alto dos Moinhos tem início na Rua Cidade de Rabat e não tem saída. Este outeiro suave fica a norte da chamada Serra de Monsanto e entre ambos os altos fica o vale que conhecemos como Estrada de Benfica.

Já em Belém, encontramos o Alto de Caselas no Bairro de Caselas e um pouco mais abaixo estão as Escadinhas do Alto do Restelo, topónimo atribuído pelo Edital de 30/07/1999 ao arruamento construído em escadaria, entre o lote 5 e o lote 9 da Urbanização da Encosta do Restelo. E daqui, virando para a direita, deparamos com a Estrada do Forte do Alto do Duque, topónimo  evocativo da quinta do Duque do Cadaval que existia já no séc. XVII e onde em 1717 D. João V vinha com alguma frequência e em cujos terrenos viria a ser construído em 1865 o Forte do Alto do Duque. Este arruamento já era vulgarmente designado por Estrada do Forte do Alto do Duque e a CML através do seu edital de 24/04/1986 oficializou o topónimo nesta via entre a Avenida das Descobertas ( junto ao Colégio de S. José) e a Estrada Militar. Já desde o Edital de 29/04/1948 a Rua IV do plano de Urbanização da Encosta da Ajuda se tornara a Rua do Alto do Duque, unindo a Avenida Dom Vasco da Gama à Rua Dom Jerónimo Osório.

Na próxima segunda publicaremos um artigo sobre o Alto do Longo, no Bairro Alto.

O Alto do Duque em 1941 (Foto:Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Alto do Duque em 1941
(Foto:Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)