A Estrada e a Travessa da Senhora dos Prazeres da Fonte Santa

Estrada dos Prazeres - Freguesias de Campo de Ourique e Estrela (Foto: Sérgio Dias)

Estrada dos Prazeres – Freguesias de Campo de Ourique e Estrela
(Foto: Sérgio Dias)

A Estrada e a Travessa dos Prazeres são topónimos nascidos por via da Ermida de Nossa Senhora dos Prazeres, que se tornou uma toponímia muito difundida na zona a partir do séc. XVI , com o aparecimento de Nossa Senhora dos Prazeres na Fonte Quente, que assim passou a ser a Fonte Santa.

A Estrada dos Prazeres situa-se defronte do Cemitério dos Prazeres, entre a antiga Parada dos Prazeres (hoje, Praça São João Bosco) e a Rua Maria Pia, nas freguesias da Estrela e Campo de Ourique. Por volta do século XVI, aqui existia uma Quinta, com uma fonte cujas águas tinham virtudes curativas, conhecida como Fonte Quente. Depois de 1514, surgiu a crença de que Nossa Senhora aparecera na dita fonte e ganhou o epíteto de Fonte Santa (colocada na Travessa Possidónio da Silva nas primeiras décadas do séc. XX, hoje Rua Coronel Ribeiro Viana). Conta ainda a tradição que Nossa Senhora terá pedido para que ali fosse construída uma capela onde ela fosse venerada sob o título de Nossa Senhora dos Prazeres. Assim, foi erguida a Ermida de Nossa Senhora dos Prazeres e o topónimo passou também à  quinta, então propriedade do Conde da Ilha do Príncipe. Na planta de 1857 de Filipe Folque,  a que hoje conhecemos como Estrada dos Prazeres surge com uma extensão maior e a designação de Caminho atrás dos Prazeres.

Por ocasião da peste de 1569 foi improvisado um refúgio para enfermos na Quinta dos Prazeres, situação repetida de 1599 a 1603, tendo chegado a acolher cerca de 20.000 doentes de peste. Mais tarde, a quinta foi dividida e na parte que pertencia ao Conde de Lumiares, descendente do Conde da Ilha do Príncipe, que incluía a Ermida e uma casa nobre, construiu-se em 1833 o Cemitério dos Prazeres. A Ermida de Nossa Senhora dos Prazeres ainda serviu durante algum tempo para ritos fúnebres do Cemitério mas foi encerrada em 1873 e reaberta após restauro em 1887, mas no séc. XX acabou por ser adquirida para passar a ser a Taberna do João da Ermida, conforme relato de Norberto de Araújo.

Já a Travessa dos Prazeres que hoje encontramos na freguesia de Campo de Ourique reduzida a um arruamento sem saída que começa junto ao nº 229 da Rua Saraiva de Carvalho, foi atribuída por deliberação camarária de 24 de dezembro de 1903 e edital de dia 29, no espaço que corria então  da Rua Saraiva de Carvalho ao Largo dos Prazeres. Na planta do Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque, de 1858, a mesma via pública é denominada Rua do Forno, tal como acontece na planta da Cidade de 1911. Mas terá sido também conhecida como Travessa da Liberdade.

Estrada dos Prazeres - Freguesias de Campo de Ourique e Estrela (Planta: Sérgio Dias)

Estrada dos Prazeres – Freguesias de Campo de Ourique e Estrela
(Planta: Sérgio Dias)

 

Santa Maria da Luz em 4 artérias de Carnide

Freguesia de Carnide (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Carnide
(Planta: Sérgio Dias)

Carnide acolhe a Azinhaga, o Largo e a Travessa da Luz, bem como a Estrada da Luz que divide com São Domingos de Benfica, em homenagem a Santa Maria da Luz por mor de uma ermida ali erguida no séc. XV.

Largo da Luz - Freguesia de Carnide (Foto: Sérgio Dias)

Largo da Luz – Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias)

Segundo uma lenda, Nossa Senhora terá aparecido sucessivas vezes, aureolada de luz, a um natural de Carnide, de seu nome Pêro Martins, provavelmente da carreira das armas, prometendo livrá-lo do cativeiro e, recomendando-lhe que de regresso a Carnide erigisse na Fonte da Machada uma ermida dedicada a Santa Maria da Luz, cuja imagem encontraria perto daquele local. Pêro Martins acabou por ser libertado e regressado a Portugal em 1463 dirigiu-se às cercanias da Fonte da Machada e encontrou a imagem de Nossa Senhora da Luz, pelo que se empenhou em recolher as contribuições dos seus vizinhos, bem como a licença do Bispo de Lisboa, para construir a ermida, na qual a imagem foi solenemente entronizada no dia 8 de setembro de 1464.

D. Afonso V, o Bispo de Lisboa e alguns fidalgos fizeram logo parte da Irmandade da ermida. Pêro Martins foi nela sepultado em 14 de março de 1466. A ermida veio depois a ser anexada à igreja de São Lourenço de Carnide, cujo pároco ficou com o encargo de manter o culto e de dar continuidade às festividades religiosas em honra de Nossa Senhora da Luz, a 8 de setembro, as quais persistiram até aos nossos dias, tal como a Feira da Luz, realizada no Largo da Luz desde o século XVI.

Travessa da Luz - Freguesia de Carnide (Foto: Sérgio Dias)

Travessa da Luz – Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias)

Em 1862, quando Carnide pertencia à  Câmara Municipal de Belém, o Largo da Luz era designado como Praça da Luz. Em 1970, foram instaladas as primeiras cabines telefónicas do Largo e nos dias de hoje está contido entre a Estrada do Paço Lumiar, a Azinhaga das Carmelitas e a Estrada da Luz.

Azinhaga da Luz - Freguesia de Carnide (Foto: Sérgio Dias)

Azinhaga da Luz – Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias)

Na Planta Topográfica de Lisboa de 1908, de Júlio Silva Pinto e Alberto de Sá Correia, são referenciados o Largo da Luz, a Estrada da Luz, o Real Colégio Militar, a Quinta de Nossa Senhora da Luz e a Azinhaga da Luz. No entanto, a Azinhaga da Luz foi oficializada pelo Edital municipal de 4 de março de 1974  como o arruamento de ligação entre a Azinhaga do Serrado e a Azinhaga das Carmelitas.

A Estrada da Luz foi sendo alargada no decorrer dos tempos, mas sobretudo no período de 1915 a 1919, com a a edilidade  a comprar e permutar várias parcelas de terreno necessárias para o efeito, sendo que em 1919 Branca da Gonta Colaço e o seu marido, Jorge Colaço, cederam mesmo um terreno para o alargamento. Hoje, a Estrada da Luz vai da  Estrada das Laranjeiras à Avenida General Norton de Matos.

Já a Travessa da Luz, foi uma atribuição por Edital municipal de 9 de junho de 1928, à antiga Travessa das Bruxas, com o propósito de apagar um topónimo que deve ter sido considerado menos próprio. Em 1972 foi arborizada e ajardinada e hoje liga a Estrada da Luz à Rua Fernando Namora.

Estrada da Luz - Freguesias de Carnide e de São Domingos de Benfica (Foto: Sérgio Dias)

Estrada da Luz – Freguesias de Carnide e de São Domingos de Benfica
(Foto: Sérgio Dias)

 

As Cruzes da Toponímia de Lisboa

Rua das Flores de Santa Cruz em 1907 quando era Rua das Flores do Castelo (Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua das Flores de Santa Cruz em 1907 quando era denominada como Rua das Flores do Castelo
(Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

Diz-se que cada um carrega a sua cruz mas Lisboa dos nossos dias carrega 25 na sua toponímia, sendo 2 cruzes simples, dois becos com as suas cruzes, uma calçada, uma estrada, um largo, um pátio e mais 6 ruas e 7 travessas com cruz,  uma rua com cruzeiro e a Rua do Crucifixo. O cristianismo espalhou vários tipos de cruzeiros e cruzes nas ruas, nas estradas ou nos caminhos, de materiais diversos, pedra ou madeira e foram abundantes na cidade de Lisboa, tendo desaparecido progressivamente com as várias modificações urbanísticas que a cidade sofreu ao longo dos tempos.

Já publicámos a Rua de Santa Cruz do Castelo e o Largo de Santa Cruz dos Castelo, mas não a Rua das Flores de Santa Cruz  que era a Rua das Flores do Castelo até o Edital do Governo Civil de 1 de setembro de 1859 a tornar Rua das Flores de Santa Cruz. Todos estes três topónimos recebem o nome da vizinhança à igreja de Santa Cruz da Alcáçova, depois chamada de Santa Cruz do Castelo, que já aparece mencionada num documento de 25 de maio de 1168 e que segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo « Assentou neste lugar a mesquita moura, sagrada logo depois da Conquista, e onde entrou, em procissão e cortejo real, Afonso Henriques, na tarde de 25 de Outubro de 1147».

Cruzes da Sé (Foto: Mário Marzagão, 2012)

Cruzes da Sé
(Foto: Mário Marzagão, 2012)

Ainda na freguesia de Santa Maria Maior, um pouco mais abaixo encontramos as Cruzes da Sé,  a fazer a ligação do Largo da Sé com a Rua de São João da Praça e como tal nas costas da Sé. De acordo com Luís Pastor de Macedo,  já aparece referida num livro de óbitos de 1690 e no século XVIII, « Fugitivamente deu-se o nome de Largo da Caridade a uma parte das Cruzes da Sé, naturalmente a que ficava e fica diante da ermida. Hoje, e desde há muitíssimos anos, mas depois do advento do regime republicano, está nela instalada a Junta de Freguesia da Sé e S. João da Praça.»

Já em São Vicente está a Cruz de Santa Helena, entre o Largo do Outeirinho da Amendoeira e a Calçada de São Vicente, designação que deverá ser anterior ao Terramoto de 1755. Tal como o Beco de Santa Helena, a Cruz de Santa Helena referem-se a uma viúva beatificada como Santa Helena, a quem um oficial romano, de nome Constâncio Cloro, se uniu e assim  nasceu Constantino, o primeiro imperador cristão. Diz-se também que Santa Helena foi em peregrinação à Terra Santa e que encontrou a verdadeira Cruz do Salvador.

Em becos, temos o Beco da Cruz, que liga a Rua da Cruz dos Poiais à Rua da Paz, em resultado do Edital do Governo Civil de Lisboa de 01/09/1859 que transformou o Beco das Cabras em Beco da Cruz pela proximidade à Rua da Cruz dos Poiais e, para evitar a confusão com o outro Beco das Cabras existente em Lisboa, mencionado nas descrições paroquiais anteriores ao terramoto de 1755 na freguesia da Stª Marinha, o qual a partir do Edital de 17/10/1924 se passou a denominar Beco dos Lóios. Já entre a Rua da Regueira e a Rua do Castelo Picão encontramos o Beco das Cruzes , sabendo-se que este arruamento já ostentava este topónimo em 1770, por constar nas plantas e descrições das freguesias de Lisboa desse ano.

A Calçada da Cruz da Pedra na década de 40 do séc. XX (Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Calçada da Cruz da Pedra na década de 40 do séc. XX
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

E a ligar a Rua da Madre de Deus à Rua de Santa Apolónia, deparamos com a Calçada da Cruz da Pedra, que deve ter começado por ser Cruz de Pedra. Luís Pastor de Macedo, avança que «referindo-se ao dístico desta serventia pública diz Gomes de Brito: aliás Cruz de Pedra, memória das muitos cruzeiros que se levantavam por Lisboa, e nela existentes, averiguadamente, desde o século XV. Efectivamente, a mais antiga referência a esta rua, que até agora encontrámos, ao anunciar-nos o falecimento de Diogo Lopes Sequeira, sucedido em 28 de Janeiro de 1593, diz-nos que ele era morador á cruz de pedra da madre de Ds.(…). Em 1647 ainda se dizia que fulano morava em o caminho de chellas por cima da Cruz de Pedra, mas desde então e até aos nossos dias, a cruz deixou de ser de pedra e passou a ser da pedra. (…) Quanto à sua existência, propriamente como arruamento, não devia ser muito anterior ao citado ano de 1593.» E Norberto de Araújo acrescenta que «Foi este o caminho de Trânsito para se entrar em Lisboa; o traçado da linha primitiva dos caminhos-de-ferro limitou-se, afinal, a acompanhar esta estrada de conveniência. A muralha desta artéria, sobre o rio, foi construída entre 1769 e 1770, onde ficava o forte da Cruz da Pedra.»

Na zona de Caselas também terá havido uma Calçada da Cruz que hoje identificamos como Estrada da Cruz, entre a  Estrada de Caselas e a Rua Horta e Silva. Foi pelo Edital municipal de 16/01/1929 que a Estrada Velha de Caselas passou a denominar-se Estrada da Cruz. No entanto, em 1908, a Planta da Cidade de Júlio Silva Pinto e Alberto de Sá Correia menciona-a como Calçada da Cruz e em 1959, o Decreto-Lei nº 42 142 que regista a nova divisão administrativa da cidade de Lisboa, na delimitação da então novel Freguesia de São Francisco Xavier designa-a como Calçada da Cruz.

Um pouco mais à direita, no Bairro Social de Caselas deparamos com a Rua da Cruz a Caselas, entre a Rua da Igreja e a Rua Sam Levy (que nasceu do Edital municipal de 15/12/1997 num troço da Estrada de Caselas, compreendido entre a Avenida das Descobertas e a Rua da Cruz a Caselas) .

Em Benfica, apresenta-se o Largo da Cruz da Era  na confluência da Travessa do Açougue em Benfica, Largo Ernesto da Silva, Rua República da Bolívia e a Travessa da Cruz da Era que une a Estrada de Benfica ao Largo da Cruz da Era e que já aparece mencionada em 1908 na planta de Júlio Silva Pinto e Alberto de Sá Correia. Em ambos os casos a Era pode ser uma memória rural de «Hera» como aconteceu com a Rua e a Travessa da Hera, na freguesia da Misericórdia, cuja grafia foi em determinada altura modificada.

Pátios da toponímia oficial temos o Pátio da Cruz, na freguesia de Santa Maria Maior, junto ao nº 15 da Rua da Galé.

Passando às Ruas, apresenta-se na freguesia de Alcântara a Rua da Cruz a Alcântara, nascida entre a Rua do Alvito e a Rua de São Jerónimo (a partir de 21/06/1926 Rua Feliciano de Sousa), que era a Rua da Cruz até o Edital municipal de 08/06/1889 lhe acrescentar «a Alcântara».

Rua da Cruz dos Poiais entre 1898 e 1908 (Foto : Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua da Cruz dos Poiais entre 1898 e 1908
(Foto : Arquivo Municipal de Lisboa)

Existiam três ruas da Cruz em Lisboa, quando o Edital do Governo de Civil de Lisboa de 01/09/1859 as diferenciou como Rua da Cruz dos Poiais, Rua da Cruz da Carreira e Rua da Cruz de Santa Apolónia.

Rua da Cruz dos Poiais, está entre a Rua dos Poiais de São Bento e a Rua de São Marçal, na freguesia da Misericórdia. Segundo Norberto de Araújo a Rua da Cruz dos Poiais também se chamou Rua dos Cardeais. A Cruz  perpetuada é a Cruz da Esperança, erguida na confluência de quatro artérias – a Rua dos Poiais de São Bento, a Calçada da Estrela, a Rua da Paz (que já existia em 1602 com o nome de Travessa da Peixeira) e a Rua da Cruz dos Poiais -,  sendo uma das muitas cruzes demarcatórias que havia pela cidade, onde as vereações aguardavam as novas dos Reis de Portugal para a simbólica entrega das chaves da cidade.

Rua da Cruz da Carreira, na freguesia de Arroios, entre a Rua Gomes Freire e a Travessa de São Bernardino, é anterior ao  terramoto de 1755 segundo Norberto de Araújo que acrescenta «Tomemos de novo pela Rua da Cruz da Carreira – assim chamada em memória de uma cruz demarcatória, e ao mesmo tempo piedosa, que aqui existiu ainda no começo do século passado [o autor refere-se ao século XIX], como tantas em Lisboa -, e passemos por Gomes Freire (a saudosa Carreira dos Cavalos, campestre e arrabaldina) à Estefânia de hoje.»

Sobre a Rua da Cruz de Santa Apolónia, na freguesia de São Vicente, entre a Calçada dos Barbadinhos e a Rua do Vale de Santo António, esclarece Norberto de Araújo o seguinte «Pois estamos no alto da Calçada de Santa Apolónia; sai-nos, agora, à esquerda, a velha Rua da Cruz de Santa Apolónia, que leva à Rua do Mirante. Era esta artéria, que se continuava, directa, da Calçada da Cruz da Pedra, o caminho natural, por Santa Clara e Paraíso, para a Porta da Cruz, uma das importantes entradas de Lisboa, aberta na muralha de D. Fernando, o que já por mais de uma vez tenho assinalado.(…)»

O cruzeiro da Ajuda encontra-se no Museu do Carmo, mas no local permanece a Rua do Cruzeiro, nas freguesias da Ajuda e de Alcântara que antes da publicação do Edital municipal de 08/06/1889 era a Rua Direita do Cruzeiro, embora também se encontrem registos de que terá também sido denominado por Calçada do Cruzeiro, nomeadamente no Roteiro das Ruas de Lisboa de 1890.

O já mencionado Edital do Governo de Civil de Lisboa de 01/09/1859 também acrescentou a quatro Travessas da Cruz em Lisboa um indicador de localização, passando a designarem-se como Travessa da Cruz de Soure (Misericórdia), Travessa da Cruz do Torel (Santo António e Arroios), Travessa da Cruz do Desterro ( por união da Travessa da Cruz e da Travessa Nova da Bica do Desterro, em Arroios) e Travessa da Cruz aos Anjos (Arroios). Mais tarde, pelo Edital do Governo de Civil de Lisboa de 05/08/1867, também a Travessa de Santana, entre a  Travessa da Cruz do Desterro e a Travessa das Salgadeiras passou a ser a Travessa de Santana da Cruz (Arroios).

E por último, na freguesia da Estrela, junto à Travessa dos Brunos, existe a Travessa da Cruz da Rocha que terá sido o antigo Beco dos Brunos. De acordo com a informação municipal nº 121/2ª/O, a planta da cidade de 1910  identifica esta artéria como Beco dos Brunos.

Travessa da Cruz do Desterro em 1903 (Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

Travessa da Cruz do Desterro em 1903
(Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

Da Estrada dos Marcos ao Largo e à Rua

Freguesia da Ajuda - Placa Tipo IV (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Ajuda – Placa Tipo IV
(Foto: Sérgio Dias)

Estrada dos Marcos, na  freguesia da Ajuda, foi oficializada pela Câmara Municipal de Lisboa através de edital de 26/09/1916, com mais cerca de cinquenta topónimos da freguesia, herdados em 1886 do antigo concelho de Belém,  como o próprio Edital esclarece: «Faço saber que a Comissão Executiva desta Câmara, usando das atribuições que lhe confere o nº 26 do artº 94º da Lei nº 88 de 7 de Agosto de 1913, em sua sessão de 21/09/1916, tendo em consideração o justo pedido da Junta de Freguesia da Ajuda, sobre a nomenclatura das ruas da mesma freguesia e que não existe no arquivo municipal documento algum pelo qual se possa certificar a data da denominação das referidas vias públicas, que pertenceram ao extinto Concelho de Belém, visto que quando da sua anexação ao de Lisboa não foi entregue a escrituração comprovativa das deliberações referentes a essa nomenclatura (…)»

Trinta e três anos depois começou-se a elaborar o plano de urbanização que a partir da Estrada dos Marcos faria derivar outros dois topónimos nas proximidades, no Bairro do Alto da Ajuda: o Largo dos Marcos e a Rua dos Marcos.

Freguesia da Ajuda - Placa Tipo IV (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Ajuda – Placa Tipo IV
(Foto: Sérgio Dias)

A Comissão Consultiva Municipal de Toponímia, na sua reunião de 19 de outubro de 1949, agendou deslocações aos bairros das Casas Económicas da Encarnação, das Terras do Forno (a Belém), do Alto da Ajuda, de Caselas, da Calçada dos Mestres,  do Alto da Serafina e da Madre de Deus, no sentido de decidir sobre a sua toponímia. Os trabalhos prosseguiram a 3 de novembro após visita aos bairros de Caselas, do Alto da Ajuda e das Terras do Forno, e de acordo com o parecer da Comissão o Edital municipal de 15/03/1950 atribuiu às artérias centrais do Bairro do Alto da Ajuda as denominações Rua dos Marcos e Largo dos Marcos  e às restantes ruas denominações numéricas. O mesmo Edital determinou idêntico procedimento para o Bairro do Alto da Serafina, o Bairro da Calçada dos Mestres, o Bairro de Caselas, o Bairro da Encarnação e o Bairro das Terras do Forno.

A Estrada, a Rua e o Largo dos Marcos - Freguesia da Ajuda

A Estrada, a Rua e o Largo dos Marcos – Freguesia da Ajuda

 

 

Os Altos das 7 colinas de Lisboa

Alto das Conchas em 1964 (Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Alto das Conchas em 1964
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Lisboa com as suas 7 colinas encontrou nos Altos uma referência  de fácil localização que foi usada na toponímia mais antiga da cidade e a partir da qual advieram ruas ou travessas com o mesmo nome subsistindo hoje os vinte topónimos oficiais seguintes.

O Alto das Conchas, em Marvila, georrefencia a posição altaneira do lugar de Conchas e deve ter sido fixado por abundarem no local vestígios fósseis de conchas de moluscos do Miocénico de Lisboa (há cerca de 24 milhões de anos). Já em documentos do séc. XII aparece referido o sítio de Concha, onde o Mosteiro de São Vicente de Fora e a Ordem do Templo tinham vinhas. E no séc. XIII são mencionados os lugares de Chelas e Conchas. Em documentos municipais encontramos a primeira referência em 1899, num documento sobre o alinhamento da Calçada do Perdigão que inclui o Alto das Conchas e também a Quinta das Conchas e a Quinta das Conchinhas.

Na Freguesia de Santa Clara, encontramos a Rua do Alto do Chapeleiro, atribuída  por Edital de 29/08/1991 à Rua A da Urbanização do Alto do Chapeleiro, a partir de uma sugestão da vogal da Comissão Municipal de Toponímia Drª Salete Salvado, de modo a preservar a toponímia tradicional da zona. De igual forma, no Lumiar, na urbanização erguida na antiga Quinta dos Alcoutins foi atribuído por Edital de 02/10/2009 o topónimo Rua do Alto dos Alcoutins na Rua E1 da Quinta dos Alcoutins.

Alto do Varejão em 1944 (Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Alto do Varejão em 1944
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

E se virarmos para a Freguesia da Penha de França, para além da Parada do Alto de São João, encontramos vários topónimos relacionados com o Alto do Varejão.

De acordo com Norberto de Araújo «Vamos entrar no Alto do Varejão, sítio da encosta arrabaldina começado a povoar tìmidamente depois do Terramoto, e desenvolvido há já cem anos [o autor escreveu na década de 30 do séc. XX]; é sem dúvida o avô urbano desta área que por aí acima sobe até ao Alto de S. João. Estes terrenos fizeram parte da Cêrca do Mosteiro de Santos-o-Novo, na sua orla do lado nascente; é um aglomerado popular, com algum pitoresco triste, e no qual a principal artéria – a Rua Lopes (indeciso nome) – se prolongou já na urbanização dos últimos oito anos a ligar com o novo bairro, hoje já arruado e edificado, mas ainda sem designação oficial, tal as suas ruas, e que se situa a sul da rotunda do Alto de S. João, entre as Avenidas Jacinto Nunes (por concluir) e Afonso III, esta de bem triste aspecto. (…) A única artéria, já com designação que não seja a das letras A ou B, é a Rua Lopes, prolongada do trôço velho do Alto do Varejão. (Não sei qual fôsse a orígem deste dístico; não creio que ele advenha de um almirante Sequeira Verejão, do tempo de D. João IV, como foi aventado por um erudito respeitável).» Já Luís Pastor de Macedo aponta que «O Varejão que encontrámos morando nestas paragens – na sua quinta de Chelas – foi Diogo de Varejão, filho de Pedro Fernandes, que em 31 de Março de 1599 se casou com Joana Veltim, filha de João Veltim, ao tempo já defunto. Trinta e cinco anos depois, D. Isabel, a Varejoa, era moradora “nas suas casas da cruz da pedra” onde, Ana Pinta, sua sobrinha, faleceu em 7 de Janeiro de 1634. Nenhuma outra pessoa da família Varejão encontrámos vivendo nestes sítios. Teria sido pois aquele Diogo de Varejão o que deu o seu nome ao local?»

Hoje, oficialmente, o Alto do Varejão tem início no Largo de Santos-O-Novo e termina na Rua Lopes. Começa na Rua Lopes a Azinhaga do Alto do Varejão que termina na Praceta do Alto Varejão, fazendo esta a ligação do Alto do Varejão à Travessa do Alto Varejão, que une a Praceta do Alto do Varejão à Calçada das Lajes. Há ainda o Caminho do Alto do Varejão que se estende da Azinhaga do Alto Varejão à Rua Henrique Barrilaro Ruas.

Alto do Penalva em 1946 (Foto: Fernando Martinez Pozal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Alto do Penalva em 1946
(Foto: Fernando Martinez Pozal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Já o Alto do Penalva, espaço sem saída e com início junto ao nº 51 da Rua da Mãe d’Água, na Freguesia de Santo António, seria o Alto do Marquês de Penalva segundo Luís Pastor de Macedo, que adianta «Vêmo-lo mencionar pela primeira vez no ano de 1826 (Livro VII de óbitos, fl.254- Encarnação). O nome adviera-lhe da circunstância do Marquês de Penalva ter morado ali – no prédio nºs. 20 e 22 da praça do Rio de Janeiro [Praça do Príncipe Real]. Nos verbetes da Câmara Municipal declara-se que esta serventia pública se denominou também pátio da Evarista o que, ainda não achámos confirmado por qualquer outra via.» E Norberto de Araújo acrescenta que «Um pouco antes de 1755, neste alto cômoro da Cotovia, sobranceiro sôbre a ponta do Salitre e portas de Valverde – mais largo para norte do que é hoje, depois de urbanizado – existia apenas o Palácio dos Penalvas, à esquina das actuais Escadinhas da Mai d’Água, e ao fundo do curto Arco do Evaristo. (…) A propriedade mais antiga do sítio é o Palácio do Conde de Penalva, erguido em 1738 pela Condessa D, Joana Rosa de Menezes. Situa-se hoje no fundo extremo da Rua da Conceição da Glória, nº 11, e tinha seu pátio e jardins voltados para o alto da Cotovia, já nos Moinhos de Vento, no tempo em que tudo isto era descampado, e em que, por consequência, o Palácio, isolado, avultava no que foi depois a Patriarcal. Ainda hoje, nas traseiras do Arco do Evaristo, há uma travessa sem saída “Pátio do Conde de Penalva”, por trás dos prédios da extrema da Rua D. Pedro V, e à qual se encosta o muro dos jardins, parte rústica da antiga Casa Penalva.» 

Ainda na Freguesia de Santo António existe o Alto de São Francisco junto ao nº 19 da Rua João Penha, tal como na Freguesia da Estrela fica o Alto da Cova da Moura que liga a Travessa do Chafariz das Terras à Rua Maestro António Taborda.

Alto do Carvalhão em 1961 (Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Alto do Carvalhão em 1961
(Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Seguimos para Campolide, para o Alto do Carvalhão, para as terras do Carvalhão, alcunha de Sebastião José de Carvalho e Melo.  Segundo Norberto de Araújo, estes terrenos eram de Sebastião José de Carvalho e Melo, ainda antes de ser Marquês de Pombal e Conde de Oeiras, pelo que  do Carvalhão «(…) derivaram os nomes da Rua actual (da direita) que leva à Cruz das Almas, e da ladeira (à esquerda) só há poucos anos (1933) edificada em forma, e que leva a D. Carlos Mascarenhas.» Por escritura de 21/02/1920 sabemos que neste ano no Alto do Carvalhão estavam a ser construídas ruas por Gustavo de Araújo Santos Moreira e que dois anos depois (escritura de 27/01/1924), o mesmo individuo obteve licença para abertura e construção de ruas nos terrenos sitos no Alto do Carvalhão cedendo 2571,25 m2 de terreno à Câmara Municipal de Lisboa. A pavimentação das ruas ocorreu dez anos depois como prova a escritura de adjudicação da empreitada de pavimentação das ruas do Alto do Carvalhão a Emílio Hidalgo datada de 22/05/1934.

Em Benfica, fica um topónimo que acumula duas georreferências: o Alto da Boavista. Começa na Estrada da Buraca e termina na rotunda onde confluem a Estrada do Calhariz de Benfica, a do Monsanto e a Rua da Portela. E em São Domingos de Benfica, o arruamento denominado Alto dos Moinhos tem início na Rua Cidade de Rabat e não tem saída. Este outeiro suave fica a norte da chamada Serra de Monsanto e entre ambos os altos fica o vale que conhecemos como Estrada de Benfica.

Já em Belém, encontramos o Alto de Caselas no Bairro de Caselas e um pouco mais abaixo estão as Escadinhas do Alto do Restelo, topónimo atribuído pelo Edital de 30/07/1999 ao arruamento construído em escadaria, entre o lote 5 e o lote 9 da Urbanização da Encosta do Restelo. E daqui, virando para a direita, deparamos com a Estrada do Forte do Alto do Duque, topónimo  evocativo da quinta do Duque do Cadaval que existia já no séc. XVII e onde em 1717 D. João V vinha com alguma frequência e em cujos terrenos viria a ser construído em 1865 o Forte do Alto do Duque. Este arruamento já era vulgarmente designado por Estrada do Forte do Alto do Duque e a CML através do seu edital de 24/04/1986 oficializou o topónimo nesta via entre a Avenida das Descobertas ( junto ao Colégio de S. José) e a Estrada Militar. Já desde o Edital de 29/04/1948 a Rua IV do plano de Urbanização da Encosta da Ajuda se tornara a Rua do Alto do Duque, unindo a Avenida Dom Vasco da Gama à Rua Dom Jerónimo Osório.

Na próxima segunda publicaremos um artigo sobre o Alto do Longo, no Bairro Alto.

O Alto do Duque em 1941 (Foto:Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Alto do Duque em 1941
(Foto:Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Frutas na Toponímia de Lisboa

Rua Direita da Ameixoeira - Placa Tipo II - Freguesia de Santa Clara (Foto: Sérgio Dias)

Rua Direita da Ameixoeira – Placa Tipo II – Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias)

A toponímia de Lisboa perpetua diversas frutas, através dos nomes de árvores de fruta que são memórias rurais da cidade de Lisboa: a ameixoeira, a amendoeira, a cerejeira, a figueira, a laranjeira, o limoeiro e a pereira.  E estas memórias resultam de muitos séculos em que era o povo que dava nomes aos lugares para os identificar distintamente dos outros, até a Portaria de 27/09/1843 pela primeira vez atribuir esta prerrogativa ao Governo Civil, tendo o de Lisboa publicado o 1º edital de matéria toponímica em 1 de setembro de 1859.

A Ameixoeira foi até ao século XX uma freguesia de carácter rural e quando fez o seu brasão (em 1993) integrou nele duas verdes ameixoeiras (também denominadas ameixeiras ou ameixieiras). O topónimo do sítio passou para a Estrada da Ameixoeira (freguesias de Santa Clara e Lumiar) e para a Rua Direita da Ameixoeira (Santa Clara). A Estrada da Ameixoeira une a Rua Alexandre Ferreira ao Largo do Ministro e até 1928, por ser um  lugar retirado, nela se realizaram dezenas de duelos, como o que opôs Afonso Costa ao Conde de Penha Garcia, em 14 de julho de 1908. Já Rua Direita era a designação comum usada para a rua principal de um lugar e assim aconteceu com a Rua Direita da Ameixoeira, que assim já assim era denominada vulgarmente até ser oficializada pelo Edital municipal de 16/06/1928, que procedeu de igual forma para os outros topónimos antigos do lugar como o Largo do Ministro, o Largo do Terreiro, o Beco dos Ferreiros e a Travessa de Santo António.

Contudo, a origem do topónimo Ameixoeira poderá não ser a árvore da ameixa. Sabe-se que em 1147 por altura da reconquista de Lisboa, a Ameixoeira tinha o nome latino de Muchinis. No séc. XIII, aparece como Moyxieira e até ao séc. XVII era conhecida como Mixoeira (derivada de um nome mouro: Mixio ou Mixo), mas também era denominada como Ameijoeira (pela quantidade de ameijoas fósseis no local) e ainda como Funchal (pela tradição de numa batalha entre mouros e cristãos em que estes últimos encontraram uma imagem de Nossa Senhora escondida num funchal).

Com amendoeira Lisboa guarda quatro topónimos: o Beco e a Rua da Amendoeira (Freguesia de Santa Maria Maior), mais o Beco do Outeirinho da Amendoeira (Santa Maria Maior) e o Largo do Outeirinho da Amendoeira (São Vicente).

Luís Pastor de Macedo refere que «Actualmente [década de quarenta do séc. XX], existe apenas um beco com o nome de Amendoeira. Fica na freguesia do Socorro, começando e terminando, depois de fazer uma curva, na rua com o mesmo nome.» Norberto de Araújo aponta as raízes rurais:  «A Amendoeira é uma nesga estreita de casas pequenas e onde, à direita, e a meio, se encontra um quintal, restos silvestres da Mouraria antiga, sobre os quais se debruça um muro que pertence ao pátio do Coleginho.» Serão assim topónimos anteriores ao terramoto de 1755 e tanto mais que as descrições paroquiais de Lisboa referem  «rua da Amendoeyra» na freguesia de Nª Srª do Socorro, «rua da Amendoeira» na «freguezia de S.George» ou «freguezia de S. Jorze», e depois outra vez como rua da Amendoeira na freguesia de Nª Srª do Socorro. Ainda segundo Pastor de Macedo, na Rua da Amendoeira morou no séc. XIX Ana Gertrudes, conhecida pela alcunha da Barbuda, a mãe da Severa. 

O Beco do Outeirinho da Amendoeira, que se desdobra em escadas da Rua do Vigário ao Beco dos Paus, de acordo com Luís Pastor de Macedo, radica em que « O outeiro que no diminutivo originou o nome deste beco, supomos vê-lo num documento do ano de 1465: “… a Johane anes almocreue e assua molher Catarina aluarez moradores em a dicta cidade [de Lisboa] na freguesia santo steuam emprazaromlhes huma casa térrea q elles [os Clérigos Ricos] han hu chamam o outeiro hu esta ho hulmeiro com huu quintall q tem diante e huua palmeira e huua parreira, etc.» Nas plantas da freguesia após a remodelação paroquial de 1780 já aparece em Santo Estêvão «o becco intitullado o Outeiro da Amendoeira».

Já o Largo do Outeirinho da Amendoeira, que vai do Campo de Santa Clara à Cruz de Santa Helena, teria sido a Rua do Arco Pequeno segundo Norberto Araújo: « Sigamos agora por esta rua, que é o princípio do largo do Outeirinho da Amendoeira, antiga do Arco Pequeno, sob o muro do Pátio de S. Vicente; assentou aqui o Postigo do Arcebispo, da muralha de D. Fernando, depois configurado num arco, desaparecido há relativamente poucos anos[em relação à década de quarenta do séc. XX].» 

Calçadinha da Figueira - Freguesia do Lavaodois (Foto: Mário Marzagão)

Calçadinha da Figueira – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Mário Marzagão)

Na Freguesia de Carnide, onde ainda sobrevivem alguns dos antigos traços da ruralidade do sítio, encontramos a Azinhaga dos Cerejais e a Azinhaga das Cerejeiras, sendo que a própria categoria de Azinhaga denota a sua origem rural.

Da árvore dos figos, para além da Praça da Figueira e do Poço do Borratém, Lisboa guarda ainda em Alfama a Calçadinha da Figueira, que liga a Calçadinha de São Miguel à Rua Norberto de Araújo, como herança da presença árabe na cidade. No levantamento de 1858 de Filipe Folque a Calçadinha da Figueira aparece identificada como Calçada da Figueira.

No norte da cidade, a Quinta das Laranjeiras de Estêvão Augusto de Castilho, fez nascer o topónimo Laranjeiras cuja referência mais antiga data de 1671 e daí se gerou tanto a Estrada como a Rua das Laranjeiras, sendo que esta última antes do Edital municipal de  19/07/1919 se designava Azinhaga da Ponte Velha.

Já no lado ocidental de Lisboa, na Freguesia da Ajuda, temos uma Rua do Laranjal nascida como tal há quase 100 anos. Primeiro, foi Rua da Paz, a que o Edital municipal de 18 de junho de 1889 acrescentou «à Ajuda» e depois, o Edital municipal de 26 de setembro de 1916 tornou-a Rua do Laranjal.

Travessa da Laranjeira - Freguesia da Misericórdia (Foto: Sérgio Dias)

Travessa da Laranjeira – Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

E em plena Bica deparamos com a Travessa da Laranjeira, que como a sua paralela Travessa do Sequeiro fixa memórias rurais do local. Pastor de Macedo refere que «O padre Carvalho da Costa, em 1712, dá-lhe o nome de ‘travessa do Laranjeiro’ (…) Supomos porém, que se trata duma gralha tipográfica da ‘Corografia Portuguesa’, depois copiada, irreflectidamente pelo autor do ‘Mapa de Portugal’» e ainda segundo este olisipógrafo foi nesta artéria que nasceu o jornalista Eduardo Fernandes, conhecido como Esculápio.

Já o limoeiro trouxe um Largo e uma Rua do Limoeiro, ambos na freguesia de Santa Maria Maior. Supõe-se que o sítio do Limoeiro  aluda a uma árvore no local mas o Largo do Limoeiro está indubitavelmente ligado a uma cadeia que aí funcionava desde o tempo de  D. João II e cujos cárceres encerraram gente como poeta Correia Garção (em 1771), o poeta Bocage (1797), o pintor Domingos Sequeira (1808) e o escritor Almeida Garrett (1827) mas que desde dezembro de 1979 acolhe as instalações do Centro de Estudos Judiciários.

Finalmente, a Travessa da Pereira, na Freguesia de São Vicente, «Data dos fins do século XVIII (1799) e foi aberta na quinta do Alcaide Fidalgo», de acordo com Pastor de Macedo que ainda acrescenta que « aqui nasceu em 3 de Novembro de 1828 o actor Isidoro e aqui viveu, segundo parece, aí pelos meados do século passado [séc. XIX], o desiquilibrado José Maria Leal de Gusmão , autor do poema Rei só Deus, e que foi um dos excêntricos relacionados por Luiz Augusto Palmeirim. A qualificação que primitivamente deram a esta serventia foi a de rua».

Travessa da Pereira - Freguesia de São Vicente (Planta: Sérgio Dias)

Travessa da Pereira – Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)

Outros temperos da toponímia de Lisboa

Campo das Cebolas - Placa Tipo II - Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Mário Marzagão)

Campo das Cebolas – Placa Tipo II – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Mário Marzagão)

Nos outros temperos presentes na toponímia de Lisboa, que não as especiarias ou o azeite a que já nos referimos, registamos as cebolas para cozinhar os caracóis, as pataniscas de bacalhau, os peixinhos da horta, a meia desfeita ou o bacalhau à Brás, bem como o louro usado para fazer pipis, iscas com elas ou ervilhas com ovos escalfados.

Na confluência da Rua da Alfândega, Rua dos Bacalhoeiros, Rua do Cais de Santarém e a  Avenida Infante Dom Henrique fica o Campo das Cebolas que, de acordo com Gomes de Brito, «Era antigamente Rua direita da Ribeira. (…) Comquanto no Tombo da Cidade (1755), venha designado sob o nome de Rua direita da Ribeira, já a planta de J. Nunes Tinoco (1650), o menciona com o título actual.» Como Campo das Cebolas também aparece já na descrição paroquial da freguesia de «Santa Maria Mayor» anterior ao terramoto de 1755 e, como «rua da praya, ou Campo das Cebollas», na planta da freguesia de São João da Praça após a remodelação paroquial de 1770. Este topónimo deve ter tido origem no comércio local de produtos hortícolas já que desde os fins do séc. XV o mercado de víveres anteriormente sediado no Terreiro do Paço [é Praça do Comércio desde 1760] foi transferido para a Praça da Ribeira Velha.

Beco do Loureiro - Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Sérgio Dias)

Beco do Loureiro – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias)

Já o louro surge em 6 arruamentos. Comecemos pela Rua Nova do Loureiro, na Freguesia da Misericórdia, assim designada pelo Edital do Governo Civil de Lisboa de 05/08/1867 e que até aí se denominava Rua do Loureiro, denotando as raízes rurais dos local onde também pontificam a Rua da Vinha e a Calçada do Cabra.

A seguir temos o Beco do Loureiro, na Freguesia de Santa Maria Maior, a estender-se do Pátio do Peneireiro à Rua de Guilherme Braga e que já aparece mencionado nas descrições paroquiais anteriores ao Terramoto de 1755, na freguesia de Santo Estêvão de Alfama.

Nas imediações temos a Rua do Loureiro, a ligar a Rua de Guilherme Braga à Rua das Escolas Gerais, artéria que já  aparece referida nas descrições paroquiais anteriores ao Terramoto de 1755, na freguesia do Salvador e após a remodelação paroquial de 1780, surge sucessivamente nas freguesias de S. Miguel, de Santo Estêvão e de novo, na freguesia do Salvador.

Rua da Quinta do Loureiro- Freguesia de Campo de Ourique (Foto: Sérgio Dias)

Rua da Quinta do Loureiro- Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Sérgio Dias)

Se rumarmos à Freguesia da Estrela, encontramos a Estrada do Loureiro, topónimo que deriva da sua proximidade à antiga Quinta do Loureiro que ali existia, razão também para o Edital municipal de 19/10/2001 atribuir ali, num novo arruamento, o topónimo Rua da Quinta do Loureiro (Freguesia de Campo de Ourique). A Quinta do Loureiro situava-se no Vale de Alcântara, e segundo a informação de Luís Pastor de Macedo esta quinta existia pelo menos desde o final do século XVII, pois em 1718 o seu proprietário António de Albuquerque Coelho de Carvalho afirmava estar ela na posse de sua família há oitenta anos conforme consta do Livro dos Prazos da Freguesia de São Pedro de Alcântara. A Quinta do Loureiro deve ter existido até ao início do século XX, uma vez que aparece referenciada na planta realizada em 1856-58 por Filipe Folque e mais tarde, numa planta de 1910, assim como na «Planta da Cidade» de 1948, do Instituto Geográfico e Cadastral, encontramos referências toponímicas relativas à Quinta do Loureiro como o Caminho da Quinta do Loureiro e a Estrada do Loureiro. A Estrada do Loureiro começava na Rua Capitão Afonso Pala e corria em paralelo com a Rua Possidónio da Silva e a Rua Maria Pia. Nos antigos terrenos da Quinta do Loureiro surgiu uma nova urbanização de 14 lotes de habitação para realojamento do Casal Ventoso, então designados por Empreendimentos Ceuta Norte, que receberam os primeiros inquilinos em  abril de 2001 e nesta nova urbanização surgiu um novo arruamento no prolongamento da Rua Costa Pimenta, paralelo à Avenida de Ceuta, com início na Rua Costa Pimenta e final na Rua do Arco do Carvalhão que é a Rua da Quinta do Loureiro.

Freguesia de Santo António - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

A Travessa do Loureiro, na Freguesia de Santo António, liga a Rua do Passadiço à Rua de Santa Marta, e aparece referida como Rua do Loureiro já na planta da freguesia de Santa Joana, após a remodelação paroquial de 1780, passando a  surgir como Travessa em 1857,  no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque.

Finalmente, no sítio do Chão do Loureiro, cuja primeira referência data de 1464 num livro de Emprazamentos, deparamos na Freguesia de Santa Maria Maior com o Largo do Chão do Loureiro e a Travessa do Chão do Loureiro. Se sobre o Largo desconhecemos a data da sua fixação na memória da cidade já sabemos sobre a Travessa que era o Beco do Chão do Loureiro até o Edital municipal de 04/12/1882 lhe mudar a categoria. De acordo com Luís Pastor de Macedo, na sua Lisboa de Lés a Lés, «Talvez tivesse sido a travessa que C. R. de Oliveira indica em 1551 com o mesmo nome. Em 1756 era a calçada ou calçadinha do Chão do Loureiro, em 1827 era as escadinhas da mesma denominação e por fim passou para a categoria de beco.»

Largo e Travessa do Chão do Loureiro - Freguesia de Santa Maria Maior (Planta: Sérgio Dias)

Largo e Travessa do Chão do Loureiro – Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)

A Estrada da Quinta das Laranjeiras

FReguesias das Avenidas Novas e de São Domingos de Benfica (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias das Avenidas Novas e de São Domingos de Benfica
(Foto: Sérgio Dias)

A obra de Luís Dourdil está representada na Embaixada do Brasil em Lisboa, razão para incluirmos o arruamento que lhe dá morada, a Estrada das Laranjeiras, neste roteiro toponímico alfacinha do pintor.

Refira-se ainda que Dourdil esteve presente em exposições no Brasil, como na de Arte Portuguesa Contemporânea em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro (1976).

Este extenso arruamento que vai da  Avenida dos Combatentes até à Estrada da Luz tem o seu topónimo nascido da Quinta das Laranjeiras.

A Quinta das Laranjeiras foi inicialmente denominada Quinta de Santo António. No final do séc. XVII pertencia a Manuel da Silva Colaço, passando em 1760 para Luís Garcia Bívar e, mais tarde, para Francisco Azevedo Coutinho a quem, em 1779,  a adquiriu o Desembargador Luís Rebelo Quintela, por 24 contos e, assim se tornou em 1802 herança de Joaquim Pedro Quintela, seu sobrinho e 1º barão de Quintela. O Palácio das Laranjeiras ou Palácio Farrobo ganhará fama pelas festas no seu salão de baile revestido de espelhos  e pelo seu teatro para 560 espectadores (construído em 1820), com o 2º Barão de Quintela e 1º Conde de Farrobo, na 2ª metade do século XIX.

Em 1904 o Jardim Zoológico passou a ocupar grande parte dos terrenos da Quinta das Laranjeiras e, a sua inauguração foi a 28 de Maio de 1905, continuando o palácio e a sua zona ajardinada privativa, na posse da família Burnay. Em 1940 o Estado adquiriu aos herdeiros da condessa de Burnay toda a propriedade rústica e urbana.

Refira-se ainda que na documentação municipal encontramos um requerimento de 1889 de alguns proprietários e inquilinos de prédios situados na Estrada das Laranjeiras a pedir a construção de um cano geral de esgoto bem como uma escritura de 1920 de expropriação de um prédio para permitir o alargamento da artéria a que se segue outra de 1928 para  cedência de terreno da Quinta das Laranjeiras para o mesmo efeito.

A cidade de Lisboa acolhe ainda uma Rua das Laranjeiras que se inicia na Estrada das Laranjeiras, e que tomou este topónimo pela proximidade, por Edital de 19/07/1919, já que até aí era a Azinhaga da Ponte Velha.

Freguesia de qualquer coisa

Freguesias das Avenidas Novas e de São Domingos de Benfica

A Estrada da Torre do Lumiar

Em 1963 (Foto: Artur Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

Em 1963 (Foto: Artur Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Estrada da Torre é um  topónimo antigo da Freguesia do Lumiar cuja data de fixação na memória de Lisboa se desconhece embora seja provável que advenha do sítio da Torre do Lumiar, assim já denominado e conhecido no séc. XVI.

No séc. XVI a documentação da época a par da Torre do Lumiar menciona outros novos lugares como Chão do Meirinho, Vale do Forno, Mejam Frio, Poço do Ouro ou Ribeiro do Porto. De acordo com as Memórias Paroquias de 1758 o sítio ou lugar da Torre do Lumiar tinha nesse ano 19 fogos e 104 habitantes, bem como uma Ermida de Nª Srª do Livramento.

Esta artéria acolhe a sede da Junta de Freguesia do Lumiar. E na freguesia do Lumiar existem mais 5 Estradas:  da Ameixoeira, do Desvio, do Lumiar, do Paço do Lumiar e de Telheiras.

Freguesia do Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)

A Estrada do apóstolo-mártir

Placa Tipo II (Foto: José Carlos Batista)

Placa Tipo II
(Foto: José Carlos Batista)

A Estrada de São Bartolomeu, entre a Ameixoeira e o Largo dos Defensores da República, oficialmente consignada por deliberação camarária de 1 de Outubro de 1891 e respectivo edital do dia 12 seguinte, deve o seu nome à antiga paróquia local de São Bartolomeu da Charneca, cujo registo mais antigo está datado de 1583, confinando os seus limites com as freguesias de Nossa Senhora da Encarnação das Ameixoeiras, São João Baptista do Lumiar, Santa Maria dos Olivais, Santos Reis do Campo Grande e Santiago de Camarate.

Supõe-se que deve ter existido um ermida dedicada ao apóstolo-mártir, anterior à igreja de São Bartolomeu que só foi edificada em 1685 e que, provavelmente, terá sido esta construída no mesmo lugar da primitiva sede da paróquia dedicada ao Espírito Santo, tantos mais que algumas pias de água benta, algumas lápides sepulcrais com inscrições góticas e o cruzeiro manuelino no adro argumentam em favor desta hipótese.

De acordo com uma informação da antiga Repartição de Urbanização e Expansão da CML, de 26/02/1963, a Estrada de São Bartolomeu também foi por vezes denominada como Estrada da Ameixoeira à Charneca ou Estrada da Charneca. Lisboa tem hoje na sua toponímia um total de 40 Estradas.

Freguesia de Santa Clara (Foto: José Carlos Batista)

Freguesia de Santa Clara
(Foto: José Carlos Batista)