João de Barros das Décadas da Ásia numa artéria do antigo Bairro Rolão

Freguesia de Alcântara                                     (Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O autor de Décadas da Ásia, João de Barros, está desde o final do séc. XIX perpetuado numa rua do antigo Bairro Rolão, a ligar a Calçada da Tapada à Rua Aliança Operária. Foi pela deliberação camarária de 8 de julho de 1892 que a Rua nº 1 do Bairro Rolão passou a ser a Rua João de Barros, tal como as outras artérias próximas levaram as designações de nomes da literatura nacional através da Rua Gil Vicente, a Rua Filinto Elísio, a Rua Bocage (que viveu com esta denominação até 29/02/1988) e a Rua Soares de Passos.

Busto no Jardim de São Pedro de Alcântara        (Foto: Artur Inácio Bastos, 1967, Arquivo Municipal de Lisboa)

O homenageado é João de Barros (Viseu/c. 1496 – 20.10.1570/Pombal), cronista, historiador e alto funcionário da coroa portuguesa no reinado de D. João III que nos deixou as quatro Décadas da Ásia (1552 – 1615),  obra dedicada à conquista e colonização da Índia pelos portugueses, assim concretizando a sua ideia de escrever uma história dos portugueses no Oriente, tanto mais que foi tesoureiro da Casa da Índia de 1525 a 1528, para além de a partir de 1532 e até 1568, ter sido o feitor das Casas da Índia e de Mina, quando Lisboa era um empório a nível europeu com todo o comércio estabelecido com o Oriente. A primeira saiu em 1552, a segunda no ano seguinte e a terceira em 1563, sendo que a quarta Década foi completada por João Baptista Lavanha  e publicada em Madrid, em 1615.  Mais tarde, Diogo de Couto foi encarregado de as continuar e publicou mais nove sendo que a totalidade das 14 só foi publicada de 1778 a 1788, em Lisboa. Esta obra fundamental de João de Barros tem um precioso manancial de informações sobre os portugueses na Ásia e podem ser consideradas o princípio da  historiografia moderna em Portugal.

Filho bastardo do nobre Lopo de Barros, João de Barros foi educado na corte de D. Manuel I e com outros moços-fidalgos, aprendeu latim, matemática e humanidades e em 1522 foi para capitão da fortaleza de São Jorge da Mina por vontade de D. João III, a quem dedicara antes o romance de cavalaria Crónica do Imperador Clarimundo  que exalta as origens imaginárias da casa real portuguesa. Em 1540 também publicou a sua Gramática da Língua Portuguesa, acompanhada de diversos diálogos morais para ajudar ao ensino da Língua materna.

Aquando da peste em Lisboa em 1530 e o terramoto do ano seguinte, João de Barros esteve refugiado na sua quinta, próxima de Pombal, e escreveu  biografias como O Panegírico de D. João III. A ela regressou depois de no início de 1568 ter sofrido um acidente vascular cerebral, pelo que foi dispensado das suas funções na Casa da Índia, recebendo do rei D. Sebastião um título de fidalguia e uma tença régia, e aí veio a falecer em 1570, tendo sido sepultado na capela de Santo António, na Quinta dos Claros.

Casou com Maria de Almeida, 3.ª Senhora da Quinta de São Lourenço, de quem teve cinco filhos e três filhas.

Em Lisboa, João de Barros está também representado no Jardim de São Pedro de Alcântara e nas figuras exteriores do Padrão dos Descobrimentos.

Freguesia de Alcântara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Anúncios

Prof. Veiga Ferreira, o arqueólogo Do Paleolítico ao Romano, numa Rua do Lumiar

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O  Professor Veiga Ferreira, o arqueólogo autor do programa de televisão Do Paleolítico ao Romano, está desde 1998 na toponímia de uma Rua da Freguesia do Lumiar: na artéria formada pelo Impasse A entre a Rua Prof. Aires de Sousa e a Azinhaga das Galhardas mais a Rua A, entre a Rua Prof. Barbosa Sueiro e a Rua Prof. Pinto Peixoto.

Octávio Reinaldo Santos da Veiga Ferreira (Lisboa/28.03.1917 – 14.04.1997/Lisboa) foi um arqueólogo, geólogo e paleontólogo, precursor da prática da interdisciplinaridade, que se dedicou especialmente ao período Calcolítico e ao Campaniforme – patente desde logo no seu primeiro artigo: «Acerca da Cultura do vaso campaniforme em Portugal» (1954)-, tendo ficado particularmente conhecido do público pela sua obra de síntese «Portugal pré-histórico – seu enquadramento no Mediterrâneo» (1981), sucesso que repetiu no ano seguinte ao apresentar na RTP o programa intitulada «Do Paleolítico ao Romano», a que se seguiu o programa com o título «Os Romanos Entre Nós» (1983).

Licenciado em Engenharia Técnica de Minas (1941), consegue o seu primeiro trabalho, em topografia, em regime de tarefa para a Câmara Municipal de Lisboa e em 1942 passou a trabalhar para a Comissão Reguladora do Comércio de Metais, assim como decidiu frequentar o curso de Pré-História  de  Henri Breuil, na Faculdade de Letras de Lisboa, onde conheceu George Zbyszewski com quem viria a desenvolver  um longo e frutuoso trabalho de campo que começou na estação arqueológica de Vila Pouca (Monsanto).  Em março de 1944 ingressou como técnico na Direção Geral de Minas e Serviços Geológicos de onde transitará em 1950, a convite de Zbyszewski, para os Serviços Geológicos de Portugal. Com José Formosinho e Abel Viana trabalhou na escavação a partir de 1945 da necrópole de Caldas de Monchique, demonstrando pela 1ª vez a evolução arquitetónica e de artefatos do Neolítico médio até ao Calcolítico, a partir do que publicou o seu 1º trabalho de arqueologia: «A estação pré-histórica do Buço Preto ou Esgravatadoiro», em 1946.

A partir de 1950, com Leonel Trindade , diretor do Museu Regional de Torres Vedras, fez durante mais de 20 anos prospecção arqueológica e descobriram, por exemplo, as necrópoles pré-históricas de Cabeço da Arruda, Cova da Moira e Serra da Vila. A partir de 1952 foi destacado pelos Serviços Geológicos para trabalhar nos concheiros mesolíticos de Muge, com Jean Roche. Com Abel Viana e Ruy Freire de Andrade investigou os testemunhos da mineração romana de Aljustrel, em 1954, e a partir deste ano, em equipa com Zbyszewski, fez a arqueologia da antiga cidade romana de Egitania, durante 15 anos. Em 1957, com Fernando Almeida, escavou diversos dólmens da Beira Baixa; com Albuquerque e Castro e Abel Viana, estendeu os estudos do Megalitismo à bacia do Vouga; com  Camarate França estudou o monumento Calcolítico de Samarra (em Sintra) e com Afonso do Paço, as estações pré-históricas de Fontalva (Alto Alentejo) . Da colaboração com Vera Leisner e George Zbyszewski resultaram dados do dólmen de Casaínhos (Loures), da sepultura da Praia das Maçãs (Sintra), dos hipogeus de Palmela, dos monumentos megalíticos de Trigache e A-da-Beja (1959) e as primeiras datas de radiocarbono de megálitos portugueses (1963).

Ainda na década de sessenta, publicou as pinturas rupestres da serra dos Louções a que juntará as insculturas rupestres de Mora em 1977 e da Citânia de Santa Luzia em 1981. Com Camarate França e Jean Roche avançou no estudo do Paleolítico Superior,  na Gruta das Salemas e na Gruta Nova da Columbeira, a do 1º dente de neandertal descoberto. No ano de 1964 editou o 1º estudo monográfico sobre o povoado fortificado calcolítico do Zambujal (Torres Vedras) e dedicou memórias necrológicas a Abel Viana (1964), Afonso do Paço (1968 e 1970), Maxime Vaultier (1970) e Joaquim Fontes (1971). Em 11 de maio de 1965 doutorou-se na Sorbonne com a tese «La culture du vase campaniforme au Portugal», sob orientação de Jean Piveteau. Em 1967, com outros professores, fundou a Associação de Estudos Arqueológicos e Etnológicos, onde ministrou cursos livres a partir de 1972: Introdução à Arqueologia e Especialização em Pré-História. De 1968 a 1972, com Vítor Guerra, inventariou os monumentos megalíticos da Figueira da Foz  e em 1969 publicou a Correspondência epistolar entre Martins Sarmento e Nery Delgado.

Nos anos 70, publicou  o monumento do Escoural, com Manuel Farinha dos Santos, enquanto no Pai Mogo (Lourinhã), com K. Spindler, escavou a única tholos calcolítica em Portugal. De 1967 até 1973 foi conservador de Arqueologia do Museu dos Serviços Geológicos, a título gratuito, pelo que publicou o Guia descritivo da Sala de Arqueologia do Museu dos Serviços Geológicos (1982). Em 1971 foi Vice-Presidente da Associação de Arqueólogos Portugueses e de 1973 a 1976 foi Arqueólogo-Consultor da Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais e escavou o acampamento neolítico de Cabrosa (1976) e da tholos de Tituaria, em Mafra (1978). Nesta década aumentou também a sua atividade como docente, através de um curso de iniciação à Arqueologia Pré-Histórica no Museu de Etnologia Dr. Joaquim Manso e de um curso piloto do Património Cultural de Prospeção Arqueológica de pós-graduação para licenciados, ambos em 1976, assim como dois anos depois foi convidado pelo Prof. Oliveira Marques para ser professor de Pré-História da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Nascido em Alcântara, Octávio Veiga Ferreira viveu grande parte da sua infância em Terrugem, até aos 11 anos se fixar em Lisboa. Aos 15 acompanhou as escavações de Manuel Heleno na necrópole pré-histórica de Carenque.  Na sua vida particular, casou com Maria Luísa Fernandes Bastos em 1941. Dela teve 2 filhas – Seomara (1942) e Ana Maria (1945) – cujo padrinho foi o Doutor Zbyszewski. Em 1945 subscreveu as listas de apoio do MUD – Movimento de Unidade Democrática , o que lhe custou ser chamado a prestar declarações na PIDE e o congelamento das promoções nos 16 anos seguintes, isto é, até 1962.

No território nacional, o Prof. Veiga Ferreira só está homenageado na toponímia de Lisboa mas foi agraciado com as Medalhas de Mérito de Rio  Maior e de Cascais, a Medalha de Ouro do Oeiras e com um monumento inspirado num cromeleque no jardim de Rio Maior.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

A Praça António Baião que durante 40 anos dirigiu a Torre do Tombo

Freguesia de Benfica
(Foto: Ortofotomapa de Lisboa Interativa editado pelo NT do DPC)

O historiador António Baião, que durante 40 anos dirigiu a Torre do Tombo, está desde 2004 perpetuado na toponímia de Benfica, numa Praça, que antes era identificada como Praça B à Travessa Sargento Abílio. Aconteceu pelo Edital Municipal de 18 de novembro de 2004, que neste bairro também atribuiu o Largo Ernesto Soares (era o Largo A) e a Praça Laranjo Coelho (era a Praça C), tributo a outros dois historiadores.

De seu nome completo António Eduardo Simões Baião (Ferreira do Zêzere/10.10.1878 – 21.05.1961/Lisboa), dirigiu o Arquivo Nacional da Torre do Tombo, de 10 de março de 1908 até 1948, local onde trabalhava desde 18 de dezembro de 1902, como segundo conservador. É aqui que nasce enquanto investigador e erudito, servindo-se dos acervos da Torre do Tombo e da Academia das Ciências de Lisboa, tendo começado por publicar estudos sobre Herculano e sobre o Visconde de Santarém.

De forma complementar, evidenciou-se com os seus estudos sobre a inquisição como A Inquisição em Portugal e no Brasil (1906), os três volumes de Episódios Dramáticos da Inquisição Portuguesa (1919-1938) e os dois volumes de A Inquisição de Goa (1929-1930), bem como sobre os seus antecessores à frente da Torre do Tombo, especializando-se no que designou como A Infância da Academia (1788-1794) que publicou em 1934.

Refiram-se ainda as suas biografias O Matemático Pedro Nunes e a sua Família (1915) e a Biografia do Santo Condestável (1952) e com Pedro de AzevedoO Arquivo da Torre do Tombo (1905).

António Baião também acumulou durante alguns anos  as funções de diretor da Torre do Tombo com as de auditor administrativo do distrito de Lisboa e de professor do ensino técnico. Entre 1903 e 1905 foi director da Revista Pedagógica, dedicando-se a temas da área das ciências da educação, para além de ao longo da sua vida ter colaborado na revista Serões (1901-1911), nos Anais das bibliotecas, arquivo e museus municipais (1931-1936) e no Boletim cultural e estatístico (1937).

Foi sócio efetivo (1920) da Academia das Ciências de Lisboa, tendo chegado a vice-secretário geral e a diretor dos Portugaliae Monumenta Historica, para além de ter sido sócio fundador da Academia Portuguesa de História, na refundação de 1936, onde foi 2º vice-presidente, 1º vice-presidente e presidente interino.

Filho dos proprietários António Simões Baião e de Emília Cotrim de Carvalho Baião, formou-se Bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra em 12 de junho de 1900, tendo sido contemporâneo de Emídio Navarro, de Afonso Lopes Vieira e de Laranjo Coelho e depois até 1902 foi professor do ensino secundário no Liceu de Santarém. Sobre a sua terra natal publicou ainda A Vila e Concelho de Ferreira do Zêzere (1918) e Dois altos funcionários da Casa do Infante D. Henrique no Concelho de Ferreira do Zêzere; um monteiro-mor e outro seu vedor (1960).

O seu nome foi dado à Biblioteca Municipal de Ferreira do Zêzere e está também na toponímia de Almada e de Ferreira do Zêzere.

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua do filho de Luciano Cordeiro, Cordeiro de Sousa

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Desde a publicação do Edital municipal de 4 de março de 1974 que o historiador Cordeiro de Sousa, filho de Luciano Cordeiro (também presente na toponímia lisboeta), é o topónimo do arruamento de ligação entre as Avenidas da República e Cinco de Outubro, a norte do viaduto do caminho de ferro, com a legenda «Historiador/1886 – 1968».

Freguesia das Avenidas Novas – Placa Tipo IV
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

José Maria Cordeiro de Sousa (Lisboa/15.02.1886 – 01.0.1968/Lisboa), filho do fundador da Sociedade de Geografia e do embrião da Carris Luciano Cordeiro (também homenageado na toponímia lisboeta desde 1902), de quem aliás escreveu uma biografia em 1936, destacou-se como  historiador, arqueólogo e epigrafista, pelo seu prazer e conhecimento em ler inscrições antigas.

A epigrafia era uma sua paixão particular pelo que publicou Algumas siglas e abreviaturas usadas nas inscrições portuguesas desde o fim do século XII até o principio do século XIX (1926), Inscrições sepulcrais da Sé de Lisboa (1927), Apontamentos de epigrafia portuguesa (1928), Inscrições portuguesas de Lisboa (séculos XII a XIX) em 1941 e a Colectânea olisiponense (1953) que a CML republicou em 1982. Ainda na olisipografia destaque-se A igreja paroquial de São João Baptista do Lumiar : breves apontamentos para a sua história (1920), Registo da freguesia de Nossa Senhora da Encarnação do Lugar da Ameixoeira de 1540 a 1604 (1930), Inscrições portuguesas do Museu do Carmo (1936), A inscrição da Bica do Andaluz (1944), A sigla do mestre Gomes Martins nas ruínas do Carmo (1949), Santa Justa (1949), O oratório de Telheiras : breves notas para a sua história (1955).

Para além da sua paixão pela História e o conhecimento do passado era funcionário do Ministério da Agricultura e exerceu vários cargos públicos. Cordeiro de Sousa dirigiu também a Revista de Arqueologia e publicou artigos de especialidade e estudos históricos em revistas de arte e arqueologia, ou até em jornais, como o Diário de Notícias. Foi autor de variadíssimas publicações e ensaios relacionados com as suas áreas de estudo e investigação, como por exemplo, Nota descritiva e histórica da cidade Tomar (1903),  Epigrafia Torreana (1937) ou Fontes medievais da história torreana : alguns documentos do Arquivo Nacional da Torre do Tombo (1957).

Foi ainda sócio correspondente da Academia de História de Madrid e da Academia Portuguesa de História, agraciado com a Cruz Vermelha de Mérito, a Comenda do Mérito Industrial e o grau de Cavaleiro da Legião de Honra de França.

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A olisipógrafa Irisalva Moita numa Rua da antiga Quinta dos Alcoutins

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Irisalva Moita, a olisipógrafa e arqueóloga que durante mais de 20 anos dirigiu o Museu da Cidade de Lisboa, sempre trabalhando empenhadamente e com paixão pelo património de Lisboa, está na toponímia de uma artéria da antiga Quinta dos Alcoutins, na Freguesia do Lumiar, desde março do ano passado.

A Rua Irisalva Moita ficou na  Rua A à Quinta dos Alcoutins pelo Edital municipal de 17 de março de 2017 e pelo mesmo documento a edilidade colocou nos outros arruamentos da urbanização personalidades ligadas à cultura da cidade e do país, como o artista plástico Joaquim Rodrigo (Ruas B e B1), e os professores universitários padre Manuel Antunes (Rua I) e Isabel Magalhães Colaço (Rua C).

Irisalva Moita em 1960
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

De acordo com Ana Cristina Leite (revista Rossio nº 1, maio de 2013), Irisalva Constância de Nóbrega Nunes Moita (Angola – Lubango/21.05.1924 – 13.06. 2009/Lisboa) distinguiu-se como arqueóloga, historiadora, olisipógrafa e museóloga. Desde muito nova que vivia em Lisboa, onde em 1949 se licenciou em Ciências Históricas e Filosóficas. Um dos seus primeiros interesses foi a arqueologia e como bolseira do Instituto de Alta Cultura, em Arqueologia, desde 1952, trabalhou em diversas escavações, tanto em Moura e Pavia como na Beira Alta. Associada ao Centro de Etnologia Peninsular,  de 1959 a 1972, levou a cabo um levantamento exaustivo dos castros portugueses. Irisalva Moita foi ainda pioneira das escavações arqueológicas em contexto urbano, como lhe aconteceu em Lisboa na do Hospital Real de Todos-os-Santos, por ocasião das obras do Metropolitano de Lisboa, em 1960, sendo a primeira grande ação de salvaguarda do património arqueológico urbano, bem como na Necrópole Romana na Praça da Figueira, no Teatro Romano (1966/67) na Rua de São Mamede e Rua da Saudade e na Casa dos Bicos.

Acresce que enquanto trabalhava no terreno como arqueóloga, ao longo dos anos 50,  Irisalva deu também aulas no ensino secundário e fez o curso de Conservador de Museus (1953/55) no Museu Nacional de Arte Antiga. A partir de 1958, após ingressar no quadro definitivo dos Museus Municipais de Lisboa, de que virá a ser conservadora-chefe de 1971 a 1994, Irisalva Moita centrou os seus interesses na olisipografia, através da história e do património da capital, construindo-se como figura de referência da Olisipografia.

Das exposições que concretizou no Palácio dos Coruchéus e no Palácio Pimenta, destaquem-se as do VIII centenário da chegada a Lisboa das Relíquias de São Vicente (1973),  santo sobre cujo culto em todo o país investigara; O Culto de Santo António, na região de Lisboa; Lisboa Quinhentista: a imagem e a vida na cidade (1979), uma mostra sobre o povo de Lisboa, tipos, ambiente, modos de vida, divertimentos e mentalidade; Lisboa e o Marquês de Pombal (1982), produzida no bicentenário da morte do Marquês de Pombal;  Azulejos de Lisboa ( 1984) na qual estiveram expostos muitos dos azulejos da coleção do Museu da Cidade, a segunda maior do país ;  Faianças de Rafael Bordalo Pinheiro (1985) ou até O abastecimento de água no tempo de D. João V (1990).  E para além dos catálogos de exposições, a vastíssima obra da Dr.ª Irisalva Moita, para além da coordenação d’ O Livro de Lisboa (1998), onde assinou os artigos «Das origens pré-históricas ao domínio romano: origens pré e proto-históricas» e «Lisboa no séc. XVI: a cidade e o ambiente», está quase toda dispersa por revistas da especialidade e atas de congressos.

Irisalva Moita sonhou criar uma área específica dedicada ao azulejo no Museu de Lisboa mas não chegou a concretizá-la. Como conservadora-chefe dirigiu o Museu da Cidade, o Antoniano e o de Rafael Bordalo Pinheiro, tendo transformado o modesto museu que existia no Palácio da Mitra no Museu de Lisboa, a partir do programa que elaborou entre 1973 e 1975, com um discurso cronológico e evolutivo da cidade.

Foi homenageada com a Medalha de Ouro da Cidade de Lisboa no Dia Internacional dos Museus de 2008, assim como com a Ordem do Infante D. Henrique (2005), no grau de Grande Oficial.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

Estácio da Veiga, o algarvio arqueólogo oitocentista, numa artéria da Penha de França

Freguesia da Penha de França
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O algarvio Sebastião Philippes Estácio Martins da Veiga, autor da Carta Arqueológica do Algarve de 1878, deu nome em 1933 a uma artéria lisboeta do Monte Alperche, ostentando a legenda «Arqueólogo e Escritor/1828 – 1891».

O mesmo Edital de 18 de julho de 1933 que atribuiu a Rua Estácio da Veiga como topónimo da Rua nº 4 do Olival do Monte Alperche à Penha de França, a unir a Rua Cesário Verde à Rua Conde de Monsaraz, também fixou neste Bairro os seguintes topónimos:  Rua Carlos Ribeiro (Rua nº 3), Rua Cesário Verde (Rua nº 2), Rua Conde de Monsaraz (Rua nº 1), Rua Martins Sarmento (Rua nº 5), Rua Néry Delgado (Rua nº 6), Rua Padre Sena de Freitas (Rua nº 8) e Rua Visconde de Juromenha (Rua nº 7).

O homenageado é Sebastião Philippes Estácio Martins da Veiga (Tavira/06.05.1828 – 07.12.1891/Lisboa), engenheiro de minas que trabalhou como oficial de secretaria da Sub-Inspecção Geral dos Correios e Postas do Reino e que se tornou arqueólogo e etnólogo, tendo reunido um pequeno museu no Algarve que acabou por constituir o núcleo inicial do Museu Etnológico Leite de Vasconcelos e que hoje é Museu Nacional de Arqueologia.

Sebastião Estácio da Veiga formado no Liceu de Faro e na Escola Politécnica de Lisboa, após fortes cheias ocorridas no Algarve, foi encarregado pelo  gabinete de Fontes Pereira de Melo, em 1876, de fazer o levantamento dos vestígios arqueológicos que ficaram a descoberto, tanto nesta região como no Alentejo e daqui nasceu a sua Carta Arqueológica do Algarve (1878), tendo os  resultados preliminares destas suas campanhas sido apresentados dois anos depois, no Congresso Internacional de Antropologia e de Arqueologia Pré-Histórica e nesse mesmo ano de 1880 fundou o Museu Arqueológico do Algarve, com um significativo acervo, nas instalações da Academia Real das Belas Artes, por despacho do Ministro do Reino. Em 1894, o espólio arqueológico do Museu de Estácio da Veiga transita para o Museu Etnográfico Português, fundado no ano anterior por Leite de Vasconcelos.

Estácio da Veiga destacou-se na vanguarda do panorama intelectual europeu da época, como pioneiro da investigação arqueológica, científica e sistemática,  com o seu incontornável contributo,  sendo de realçar a  sua identificação da necrópole megalítica de Alcalar, um conjunto de monumentos funerários do séc. III a. C., assim como as primeiras referências aos menires da Vila do Bispo.

Da obra publicada de Estácio da Veiga, para além dos artigos n’O Arqueólogo Português, destacamos Plantas da Serra de Monchique Observadas Nesse Ano (1866), Romanceiro do Algarve (1870), A Tábula de Bronze de Aljustrel, (1876), Memórias das Antiguidades de Mértola, (1877), Projecto de Legenda Simbólica para a Elaboração e Interpretação da Carta de Arqueologia Histórica do Algarve (1885), Antiguidades Monumentais do Algarve (1886-1891) e Programa para a Instituição dos Estudos Arqueológicos em Portugal (1891), para além de uma obra poética de gosto arcádico-romântico que deixou inédita e a Câmara Municipal de Tavira deu à estampa no ano 2000 sob o título de Poesias (ou banalidades poéticas).

Estácio da Veiga foi membro da Academia das Ciências de Lisboa, Real Academia de História de Madrid, Instituto Arqueológico de Roma, Sociedade Francesa de Arqueologia, a Academia Belga de Arqueologia e Instituto Arqueológico e Geográfico de Pernambuco.

Tal como seu pai, José Agostinho Estácio da Veiga, teve o foro de fidalgo Cavaleiro da Casa Real e foi casado com  Adelaide Lucotte, sendo a sua mais extensa biografia da autoria de sua bisneta, Maria Luísa Estácio da Veiga Pereira.

A Universidade do Algarve instituiu em 2016 o Prémio Estácio da Veiga para a melhor dissertação de mestrado em Pré-História e Evolução Humana, no âmbito da interdisciplinaridade da Arqueologia e demais Ciências e Estácio da Veiga está também perpetuado na toponímia de Agualva (Sintra), Amora (Seixal), Albufeira, Aljezur, Amadora, Faro, Loulé, Olhão, Portimão, São Brás de Alportel e Tavira.

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Diogo de Macedo das Tágides da Fonte Monumental da Alameda, numa Rua do Rego

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Diogo de Macedo, o autor do grupo escultórico do Tejo e das Tágides da Fonte Monumental da Alameda Dom Afonso Henriques, ficou consagrado numa Rua do Bairro do Rego desde 1965, zona em cuja toponímia já se encontravam diversos artistas plásticos.

Na reunião da Comissão de Arte e Arqueologia municipal de 31 de outubro de 1962 foi sugerido pelo Sr. Acúrsio Pereira a atribuição do nome do escultor Diogo de Macedo, falecido três anos antes, a uma artéria da capital, oportunidade que se concretizou quando um requerimento da Domus Nostra – Residência de Estudantes solicitou denominação para o arruamento projetado à Rua Jorge Afonso, que pelo Edital municipal de 11 de março de 1965 passou a ser a Rua Diogo de Macedo, definida entre e Avenida Álvaro Pais e a Praça Nuno Gonçalves.

Freguesia das Avenidas Novas – Placa Tipo IV
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Diogo Cândido de Macedo (Vila Nova de Gaia- Mafamude/22.11.1889 – 19.02.1959/Lisboa), o autor do conjunto das Tágides da Fonte Monumental da Alameda Dom Afonso Henriques, nasceu no Largo de São Sebastião, em Mafamude, e faleceu na sua casa em Lisboa, no n º 110 da Avenida António Augusto de Aguiar.

Na sua juventude, frequentava a oficina do vizinho Fernandes Caldas, mestre santeiro e imaginário, com quem aprendeu os rudimentos do desenho e modelação. Em 1902 ingressou no curso de Escultura da Academia Portuense de Belas Artes que concluiu em 1911, sendo  aluno de Desenho de José Brito e Marques de Oliveira e de António Teixeira Lopes, em Escultura. Nesse mesmo ano de 1911 partiu para Paris, onde frequentou as Academias de Montparnasse, sendo influenciado pelos escultores Bourdelle e Rodin. Em 1913 participou no Salão dos Artistas Franceses, esculpiu o busto de bronze de Camilo Castelo Branco, fez a sua primeira exposição individual, no Porto, e conseguiu o 3º prémio com a maqueta para um monumento a Camões, apresentada em Paris.

Regressou a Portugal em 1914, sendo de destacar a sua participação na I Exposição de Humoristas e Modernistas  no Porto – com desenhos assinados sob o pseudónimo de Maria Clara-, a sua Menção Honrosa de Escultura na 12ª Exposição da SNBA (ambas em 1915) e na Exposição dos Fantasistas (1916), também no Porto. Casou-se em 1919 e no ano seguinte voltou a fixar-se em Paris, fase de que se salienta o grupo escultórico L’Adieu ou Le pardon (1920).

Em 1926, estabeleceu-se definitivamente em Lisboa e publicou a sua primeira obra, 14, Cité Falguière, as suas memórias parisienses. Produziu os bustos de Sarah Afonso (1927), António Botto (1928), Antero de Quental  (1929) e Mário Eloy (1932) e em 1929, conseguiu a 2ª Medalha em Escultura na Exposição anual da SNBA. Entre estas décadas de 20 e de 30 editou as suas primeiras obras, colaborou em jornais e revistas, como no Ocidente. E de 1939 a 1940 executou o conjunto Tejo e quatro Tágides para a Fonte Monumental da Alameda Dom Afonso Henriques, bem como as esculturas do pórtico do Museu Nacional de Arte Antiga.

A sua cuja obra está representada no Museu do Chiado- Museu Nacional de Arte Contemporânea, Soares dos Reis (Porto), Casa-Museu Camilo Castelo Branco (S. Miguel de Seide), Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian,  Museu do Abade de Baçal (Bragança), Museu Grão Vasco (Viseu), Museu João de Deus, Museu José Malhoa (Caldas da Rainha), Museu Nacional João de Castilho (Tomar), Museu Santos Rocha (Figueira da Foz).

Em 1941, após enviuvar renunciou à escultura e passou a dedicar-se à escrita de biografias de artistas, estudos e  prefácios de catálogos de exposições de que se salientam as monografias sobre Columbano (1952), Domingos Sequeira (1956), Mário Eloy e Machado de Castro (1958). Deixou inúmeros artigos em publicações como o Boletim da Academia Nacional de Belas-ArtesContemporâneaMocidade Portuguesa Feminina, Mundo Gráfico, Mundo Literário, OcidentePanorama ou The Connoisseur. Diogo de Macedo esteve também ligado à Academia Nacional de Belas Artes, primeiro como  vogal (1938) e depois como secretário (1948).

A  partir de 1945 e até ao final da vida, dirigiu o Museu Nacional de Arte Contemporânea (hoje Museu do Chiado), onde iniciou a prática de o abrir diariamente ao público, com entrada independente pela Rua Serpa Pinto, a que somou um programa de exposições temporárias e pequenas monografias editadas pelo museu sobre artistas representativos da sua coleção.

Em 1946 voltou a casar,  com Eva Botelho Arruda, e dois anos depois foi incumbido pelo Ministério das Colónias de dirigir e acompanhar uma exposição itinerante de Artes por Angola e Moçambique. Em 1949, promoveu também uma Semana Cultural Portuguesa em Santiago de Compostela. Nos anos cinquenta foi convidado a organizar os processos de classificação dos imóveis de interesse público e voltou a a apresentar obras suas na Bienal de Veneza (1950) ou no Pavilhão Português da Exposição Internacional de Bruxelas (1958).

Em sua homenagem,  a Escola Secundária de Olival, em Vila Nova de Gaia, passou a designar-se Escola Secundária Diogo de Macedo (em 1995) e ficou também perpetuado na toponímia do Porto, de Mafamude e de Santa Marinha (Vila Nova de Gaia), da Arrentela (Seixal) e de Sesimbra.

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Praça do arquiteto do Cine-Teatro Tivoli

Freguesia de Marvila
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Entre a Rua Luís Cristino da Silva e a Rua Keil do Amaral fica a Praça dedicada ao arquiteto que traçou o cinema Tivoli para a Avenida da Liberdade, a Praça  Raúl Lino, acolhida em Marvila desde  a publicação do Edital municipal de 20 de agosto de 1985.

Raúl Lino da Silva (Lisboa/21.11.1879-13.07.1974/Lisboa) foi estudar para a Grã-Bretanha desde os  10 anos de idade, por orientação de seu pai,  tendo seguido depois para Hannover, na Alemanha, a partir de 1893, onde trabalhou no atelier do historiador e arquiteto Albrecht Haupt (1852-1932). Regressado a Portugal em 1897, Raúl Lino desenhou numerosas obras ao longo da sua vida, cerca de 700, de que que se salientam as seguintes para Lisboa:

  • o modelo de Jardim-Escola João de Deus (1909) e o edifício  da Avenida Álvares Cabral, 69 (1918);
  • os arranjos das instalações dos animais no Jardim Zoológico de Lisboa (1912), na Quinta das Laranjeiras;
  • a loja Gardénia (1917) no nº 54 da Rua Garrett;
  • o Cine-Teatro Tivoli (1918 – 1924) que desde 2015 é  Monumento de Interesse Público;
  • a moradia na Rua Castilho nº 64 a 66, que foi Prémio Valmor  em 1930 (já demolida);
  • as alterações ao antigo Picadeiro Régio/Museu dos Coches (1940) e o Pavilhão do Brasil na Exposição do Mundo Português (1940).

A moradia na Rua Castilho nº 64 a 66 que foi Prémio Valmor  em 1930
(Foto: Paulo Guedes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Fora da capital refira-se a sua autoria  na casa Montsalvat para o pianista Alexandre Rey Colaço (1901), no Monte Estoril; no Solar dos Patudos para José Relvas (1904); na Casa da Quinta da Comenda no Outão (1909); o Sanatório de Sousa Martins  (1907) na Guarda; na Casa do Cipreste (1907-1913), em Sintra, para si próprio; na Pérgola em Penacova (1918); na Casa de Santa Maria (1918) em Cascais; na Casa dos Penedos (1920) em Sintra;  no Cine-Teatro Curvo Semedo (1923) em Montemor-o-Novo; na Casa do Soar de Cima (1925) em Viseu; na Quinta das Romeiras em Câmara de Lobos (1933); ou nos Paços do Concelho de Setúbal (1938).

Raúl Lino foi ainda autor de numerosos textos teóricos sobre  arquitetura, como A Nossa Casa (1918), A casa portuguesa (1929), Casas portuguesas (1933) e L´évolution de l´ architecture domestique au Portugal (1937), neles revelando a sua principal preocupação de criar uma arquitetura integrada na paisagem, assente na  ideia de que só o conhecimento do terreno sobrevaloriza os valores tradicionais da pura arquitetura portuguesa, procurando assim conciliar a arquitetura erudita com a tradição popular.

Raúl Lino foi agraciado com o Prémio Valmor e Municipal de Arquitectura de 1930, o Prémio José de Figueiredo  de 1948 e a Comenda da Ordem Militar de Cristo (1941). Também integrou o júri do prémio Valmor em 1931, que premiou o edifício da Rua Infantaria 16, da autoria dos arquitetos Miguel Jacobethy Rosa e António Reis Camelo.

Para além do seu traço de arquiteto, Raúl Lino também desempenhou cargos como  Chefe da Repartição de Estudos e Obras em Monumentos da Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (entre 1936 e 1949),  Superintendente Artístico dos Palácios Nacionais a partir de 1938 e ainda, Diretor dos Monumentos Nacionais a partir de 1949.

Raúl Lino foi ainda membro fundador da Academia Nacional de Belas Artes em 1932 e seu presidente a partir de 1967. Refira-se também que a produção artística de Raúl Lino inclui o design de mobiliário, painéis, azulejos e porcelanas; a cenografia (sobretudo no São Carlos e com Almada Negreiros) e a programação cultural, principalmente para o cinema Tivoli onde exibiu, entre outros, filmes de Fritz Lang e de Chaplin, para além de colaborar em publicações como a Atlantida, Homens Livres, Ilustração ou a Revista Municipal de Lisboa.

Na vida pessoal, escolheu viver numa casa na Avenida António Augusto de Aguiar e teve duas filhas: Isolda Lino Norton de Matos e Maria Cristina Lino Pimentel . O seu espólio foi doado pela família, em 1989, à Fundação Calouste Gulbenkian.

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua do arquiteto e vereador da Câmara Municipal de Lisboa Perez Fernandez

Freguesia de Benfica
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Inácio Perez Fernandez, arquiteto e vereador da edilidade lisboeta, autor da Escola Primária da Rua Eugénio de Castro, está desde o ano do seu falecimento homenageado numa artéria a freguesia de Benfica.

Foi pelo Edital de 29 de dezembro de 1989 que a Rua D do Estudo de Urbanização Realojamento da Buraca passou a ser a Rua Perez Fernandez, estendendo-se desde a junção da Rua do Bom Pastor com a Rua da Vila de São Martinho até à Travessa Sargento Abílio.

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Ignácio Thomaz Perez Fernandez (Barcelona/29.12.1910 – 02.11.1989/Lisboa), radicado em Lisboa a partir dos 3 anos de idade, após concluir o curso de Arquitetura Civil na Escola de Belas Artes de Lisboa em 1934, assim como o estágio obrigatório de dois anos que fez com o Arqº Cristino da Silva, tornou-se  a partir de 1938 arquiteto da Câmara Municipal de Lisboa, sob orientação do Engº Duarte Pacheco que depois o fez entrar na Junta Autónoma das Estradas (JAE), onde participou nos  estudos para a construção da Marginal do Estoril. Trinta anos mais tarde, no cargo de chefe de gabinete da JAE, transitou para o Concelho Superior de Obras Públicas, onde foi Inspetor de Obras Públicas até atingir a idade da reforma, 12 anos mais tarde.

Na CML, ainda convite do Engº Duarte Pacheco, juntamente com Arqº Faria da Costa e o Arqº Étienne de Gröer, integrou um gabinete municipal para estudos de urbanização, onde trabalhou com o Arqº Francisco Keil do Amaral e no qual foram elaborados estudos para o Bairro do Restelo (1938/40) e para Alvalade ( 1945), Bairro onde também foi o autor da Escola Primária da Rua Eugénio de Castro.

Ainda em Lisboa, o primeiro prédio que projetou foi o nº 34 da Avenida Defensores de Chaves, tendo também traçado conjuntos urbanos que ladeiam as Praças António Sardinha e Aniceto do Rosário na Penha de França assim como no Largo Dr. António Viana à Rua Silva Carvalho. Concebeu ainda diversas moradias incluindo a sua própria no nº 29 da Rua Dom Francisco de Almeida, assim como um edifício industrial da Volvo na  Rua José Estêvão e duas instalações industriais e um conjunto habitacional no Vale Escuro para além de ter elaborado a remodelação do Palácio da Rosa (1960).

Em 1949, um grupo de arquitetos modernos ligados ao grupo Iniciativas Culturais Arte e Técnica (ICAT), como Keil do Amaral, Inácio Peres Fernandes, Dário Vieira e João Simões, venceram as eleições para a direção do Sindicato Nacional dos Arquitetos, mas o governo impôs o afastamento de Keil do Amaral e entre 1951 e 1959, Perez Fernandez foi o presidente do Sindicato.

Em 1973 foi um dos fundadores do Partido Socialista e nessa qualidade foi Vereador da CML na Presidência de Aquilino Ribeiro Machado, no biénio de 1977/1979, sendo Vice-Presidente.

Freguesia de Benfica
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O arqº José Daniel Santa Rita numa Rua de Telheiras

Desde 2005 que a Rua Daniel Santa Rita perpetua este arquiteto autor de um percurso de cerca de cinquenta anos, também como  mestre das novas gerações de arquitetos da cidade, numa artéria de Telheiras, na freguesia do Lumiar.

Foi pelo Edital municipal de 16 de fevereiro de 2005 que a Rua Daniel Santa Rita, com a legenda «Arquitecto/1929 – 2001», foi atribuída ao arruamento identificado como Rua B de Telheiras Norte III, junto à Rua Frederico George e Rua Francisco da Conceição Silva.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O arquiteto José Daniel Santa Rita Fernandes (Lisboa/1929 -26.05.2001) deixou a sua marca de modernidade tanto na área da Arquitetura e do Urbanismo como do Design de Mobiliário e de Exposições, após concluir o curso de Arquitetura na Escola do Porto em 1951 regressando à Escola de Belas Artes de Lisboa para defender tese em 1960. Foi considerado um dos autores da chamada Geração Moderna do pós-guerra, tendo procurado um caminho renovado para a Arquitetura portuguesa, distanciando-se de uma certa ortodoxia do Movimento Moderno Internacional, particularmente nas suas intervenções com longa incidência nas décadas de 50, 60 e 70 do século XX.

De 1951 a 1961 trabalhou associado ao arqº Conceição e Silva, e também com Sena da Silva projetaram o pavilhão da Feira de Lausanne de 1957, assim como de 1961 a 1974 fez equipa com Duarte Nuno Simões.

Este inconfundível arquiteto da cidade de Lisboa integrou os quadros técnicos do Gabinete Técnico de Habitação e dos Serviços Culturais da Câmara Municipal de Lisboa, entre 1960 e 1981, podendo salientar-se entre as suas obras as suas habitações para realojamento na Célula F de Olivais Sul (1962-1965), o Plano de Recuperação da Praça da Viscondessa dos Olivais (1962-1969), os ateliers de escultura na Rua Cidade do Lobito (1970-1974) ou o projeto elaborado com Manuel Vicente de conjunto habitacional e rua comercial coberta nas Olaias (1973), para além de ter traçado diversos mercados, nomeadamente o de Campo de Ourique e o do Bairro de Santos (1981-1984, com Rosário Venade e Alberto de Oliveira), na década de 80 do séc. XX.

Ainda nesta cidade de Lisboa, em equipa com Rosário Venade e Fernando Seixas elaborou o conjunto Casal Ventoso-Sete Moinhos para a Operação SAAL do Vale de Alcântara (1975-1976), assim como foi coautor com Manuel Vicente  da reconstrução da Casa dos Bicos (1982 – 1983), no âmbito da XVII Exposição Europeia de Arte, Ciência e Cultura. Também com Rosário Venade criou dois edifícios de habitação, comércio e escritórios para a Tobis Portuguesa (1984) e um edifício residencial na Rua de Campolide, para a EPUL (1986-1992).

Também com o seu filho, o arquiteto João Santa-Rita, produziu vasta obra na passagem da década de 80 para a de 90 do séc. XX, com quem foi sócio fundador da Santa-Rita Arquitectos Ld.ª em 1990, quer no campo da recuperação e modernização de espaços e equipamentos comerciais – Euroleasing, Amoreiras (1989)-,  quer no âmbito de infraestruturas, como a remodelação da Estação de Metropolitano Rotunda I (1992-1996) e da criação da Estação de Cabo Ruivo (1995-1997), destacando-se ainda a reconversão dos Estaleiros da Rocha de Conde de Óbidos e de um palacete do séc. XIX no nº 90 do Campo dos Mártires da Pátria (1991-1996), a intervenção patrimonial no Largo Júlio de Castilho/Museu do Traje  e sobretudo, a reconversão em Alfama para a Casa do Fado e da Guitarra Portuguesa (1992-1997), a que se pode juntar ainda um edifício na Alameda dos Oceanos no Parque das Nações.

Por outro lado, José Santa Rita foi também professor universitário, de Geografia Urbana (1999-2000) e de Deontologia e Ética da Arquitetura e de Economia da Construção (2000-2001) do primeiro curso de Arquitetura da Universidade Lusófona, tendo sido também docente da Universidade Autónoma de Lisboa Luís de Camões.

Fez parte da Direção da Revista Arquitectura e publicou inúmeros artigos em várias revistas de Arquitetura e na imprensa não especializada, assim como se dedicou à investigação de contextos histórico-urbanos bem expressos na obra percursora de história de urbanismo Abrantes Cidade, Análise Crítica, editada pela Câmara Municipal de Abrantes em 1966. José Daniel Santa Rita desempenhou ainda funções nos Corpos Gerentes do Sindicato Nacional dos Arquitetos e da Associação dos Arquitetos Portugueses.

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)