Cavaleiro de Oliveira

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Francisco de Oliveira, conhecido como Cavaleiro de Oliveira, funcionário da Coroa no século XVIII e escritor proibido pela Inquisição, é desde a publicação do Edital municipal de 17 de outubro de 1924 o topónimo de uma Rua de Arroios que hoje une a Rua Morais Soares à Praça Olegário Mariano.

Note-se que já Camilo o pretendera biografar mas foi na primeira metade do séc. XX que a sua biografia foi publicada por Jordão de Freitas, Aquilino Ribeiro e o Prof. Gonçalves Rodrigues, com acesas polémicas nessa época.

Francisco Xavier de Oliveira (Lisboa/21.05.1702 – 18.10.1783/Hackey – Inglaterra), filho de José de Oliveira e Sousa e de Isabel da Silva Neves, ficou conhecido como Cavaleiro de Oliveira por tradução de Chevalier d’Oliveira, nome que ele a si próprio atribuiu depois de ter sido feito Cavaleiro da Ordem de Cristo, em 11 de dezembro de 1729. O seu pai fora Contador dos Contos do Reino e Secretário em embaixadas, como a de Utreque e de Viena, o que facilitou que fosse admitido como funcionário do Tribunal dos Contos do Reino, na qualidade de Oficial, aos 14 anos. Como a sua família, Francisco Xavier de Oliveira era bastante considerado em Lisboa. Em 25 de fevereiro de 1730 casou com Ana Inês de Almeida.

Em 1734 foi destacado para substituir o seu pai que falecera, como Secretário da Embaixada Portuguesa em Viena. Contudo, desde o início o embaixador Conde de Tarouca não o apreciou e fez antes seu Secretário um arquiteto milanês, dispensando-o oficialmente uns três anos depois, em 1737. No ano seguinte, em 26 de junho de 1738 casou em Viena com Maria Eufrosina de Puechberg Enzing. Passou seis anos a tentar exercer a função de secretário da embaixada portuguesa e reclamou mas nunca foi empossado, por razões nunca expostas.

Em 1740, arruinado, partiu para a Holanda, onde começou a publicar, em francês, assumindo-se como escritor sem mecenas: Memoires de Portugal (1741), Memórias das viagens de Francisco Xavier de Oliveira (1741), 3 tomos de Cartas Familiares, Históricas, Políticas e Críticas: Discursos Sérios e Jocosos (1741- 1742), e Viagem à ilha do amor escripta a Philandro (1744) que é comum aceitar-se como uma tradução livre de uma obra de 1664, anónima mas atribuída ao abade Paul Tallemant.

Em 1744 fixou residência de exilado em Londres e um pouco antes, o Inquisidor Frei Manuel do Rosário proibiu a entrada de todos os seus livros em Portugal. O embaixador português em Londres, o futuro Marquês de Pombal, também não simpatizou com ele e o Cavaleiro de Oliveira fez amizade com um pastor anglicano que lhe permitiu sobreviver economicamente. Casou numa igreja anglicana em 1 de fevereiro de 1746, com Françoise Hammon, de origem luterana, e abjurou da fé católica em junho de 1746. Pouco depois do nascimento de uma filha, foi preso por dívidas e cumprida a pena (21 meses e dez dias) passou a receber uma pensão do Príncipe de Gales.

Em 1751 publicou Amusement Périodique, traduzido em 1922 por Aquilino Ribeiro como Recreação Periódica, no qual traçou um conjunto de traços anedóticos sobre a corte portuguesa de D. João V e fez proposições heréticas para a Fé católica e a Inquisição. Após o Terramoto de 1755 defendeu que foi um castigo divino em Discours pathétique au sujet des calamités présentes arrivées en Portugal. Adressé à mes compatriotes et en particulier a Sa Majesté Très-Fidèle Joseph I, Roi de Portugal (1756), obra com tradução inglesa no mesmo ano e a proibição de leitura e circulação pelo Santo Ofício – por denúncia do dr. Joaquim Pereira da Silva Leal, membro da Academia Real da História – que acabou por se estender a todas as suas obras. O Cavaleiro de Oliveira, dito herege, foi condenado a ser queimado em estátua, no mesmo auto da fé de 20 de setembro de 1761 em Lisboa, em que o padre Gabriel Malagrida padeceu a horrível morte pela fogueira. No ano seguinte respondeu com Le Chevalier d’Oliveyra brulé en effigie comme hérétique. Comment et Pourquoi? Anecdotes et Réflexions sur ce Sujet, données au Public par lui-même. Já em 1757 havia respondido com Suite du Discours Pathétique: ou Réponse aux Objections et aux Murmures que cet Ecrit s’est attiré à Lisbonne. Adressée aux Portugais par le Chevalier d’Olyveira, Auteur du Discours qu’il défend. Em 1767, usando um anagrama dele próprio dá a lume Reflexões de Félix Vieyra Corvina de Arcos, Cristão Velho Ulissiponense, com uma forte crítica à Inquisição, a práticas da Igreja e em defesa da liberdade de consciência.

Muito se falou também da sua vida galante, tanto mais que ele próprio se vangloriou nos seus escritos do seu amor por uma freira de Santa Mónica, uma cigana e uma judia que chegou a ser presa pela Inquisição.

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Franklin

Benjamin Franklin
(Imagem de domínio público)

A Rua Franklim estava identificada como Rua nº 1 do Bairro América, urbanização então de construção recente na Quinta das Marcelinas à Rua do Vale de Santo António, quando a deliberação camarária em 25 de novembro de 1918 decidiu atribuir-lhe um topónimo referente a uma personalidade americana e ficando a ligar a Rua Fernão de Magalhães à Rua dos Cortes Reais, embora o Edital só tenha sido publicado 6 anos depois, em 17 de outubro de 1924.

Bairro América passou a conter os seguintes topónimos: «Que se denomine Bairro America, o bairro em construção na Quinta das Marcelinas na rua do Vale de Santo Antonio e que os respectivos arruamentos tenham as designações seguintes: o nº 1, rua Franklin; o nº 2, rua Washington [o primeiro presidente dos Estados Unidos da América]; o nº3, rua Ruy Barbosa [político e jornalista brasileiro que defendia o princípio da igualdade das nações]; o nº 4, rua Bolivar [Simon Bolívar que combateu o domínio espanhol na América do Sul, comandando as revoluções que promoveram a independência da Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia]; a nº 5, rua do Costa Reais [refere-se à Rua dos Cortes Reais, família de navegadores portugueses que empreenderam navegações para o continente americano]; o nº 6, rua Fernão de Magalhães  [o primeiro navegador a fazer uma viagem de circum-navegação], e o nº7, rua Alvaro Fagundes [navegador português do século XVI que explorou a costa austral da Terra Nova]. Deliberação camararia de 25 de Novembro de 1918». Acrescente-se que os arruamentos Rua Bolivar e Rua Álvaro Fagundes nunca tiveram execução prática, embora, em 1971, o nome de Álvaro Fagundes tenha regressado para a toponímia lisboeta para dar nome à Rua C, à Rua General Justiniano Padrel.

Estadista, cientista e escritor norte-americano Benjamim Franklin (Boston/17.01.1706 – 17.04.1790/Filadélfia), lutou contra a escravatura e fez mesmo o Memorial para a sua abolição enquanto Presidente da Sociedade Pensilvaniana para além do seu papel preponderante na independência dos Estados Unidos da América. Franklin foi o porta-voz dos colonos junto dos ingleses; integrou a Comissão redatorial da Declaração da Independência; foi membro da Convenção para redigir a Constituição Nacional (1787); e assinou com a Grã-Bretanha o Tratado de Versalhes que reconhecia a independência das 13 colónias norte-americanas.

Benjamim Franklin foi ainda um cientista: demonstrou a identidade do raio e da electricidade e inventou o «para-raios», para além de ter sido compositor gráfico, publicado jornais (The New-England Courant), ter sido escritor (Poor Richard’s Almanac)  e o 1º representante do realismo norte-americano (O Sermão do pai Abraão).

Através da observação sistemática e da experimentação, após ter escrito sobre terramotos (1737), Franklin deu particular impulso às áreas da eletricidade e da meteorologia. No âmbito da primeira alcançou várias descobertas, nomeadamente, a existência de cargas positiva e negativa, demonstrou que os raios são um fenómeno de natureza elétrica, inventou o «para-raios», pesquisou sobre eletricidade estática, sendo também responsável pela criação de termos técnicos que são ainda utilizados, como «bateria» e «condensador». No domínio da meteorologia, abriu caminho a grandes avanços posteriores ao contribuir, através da observação, para a interpretação do desenvolvimento dos diferentes fenómenos atmosféricos no planeta terra, defendendo a teoria de que o movimento do tempo atmosférico depende das diferenças de pressão, facto que é considerado por muitos como a base da moderna meteorologia.

A sua intensa atividade em todos estes domínios foi influenciada pelo pensamento liberal e humanista e pelos debates científicos e políticos que então decorriam na Europa, para onde viajava com frequência, já anunciadores do princípio do primado da razão defendida pelo Iluminismo desde os finais do século XVII. Assim, B. Franklin, tal como Thomas Jefferson (1743-1826), estão entre as personalidades mais influentes e decisivas para o surgimento e afirmação do Iluminismo americano.

 

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Newton

Busto de Newton na Academia das Ciências de Lisboa
(Foto: António da Silva Fernandes Duarte © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

 

A Rua Newton, proposta na reunião de Câmara de 17 de agosto de 1916 como Rua Lord Byron, no Edital de 24 do mesmo mês, passou antes a homenagear Newton, ficando assim perpetuada no Bairro de Inglaterra uma personalidade inglesa incontornável na área das ciências e do pensamento científico.

Isaac Newton (Woolsthorpe/25.12.1642 ou 04.01.1643 – 20.03.1726 ou 31.03.1727/Kensington), descobriu a Lei da Gravidade, a fórmula do Binómio, a lei da viscosidade e a natureza corpuscular da luz. Foi um cientista reconhecido como físico, matemático, astrónomo, alquimista, filósofo e teólogo, considerado por muitos como o pai da ciência moderna pelas suas descobertas notáveis.

Ao estudar no Trinity College de Cambridge, onde concluiu a sua formação em 1665, contactou com obras de Euclides, Descartes, J. Kepler, G. Galilei, entre outros, autores que se viriam a revelar decisivos, tendo mesmo dado continuidade aos trabalhos iniciados por Galilei, nomeadamente através do método experimental e desenvolvendo a teoria heliocêntrica. A interrupção forçada do seu percurso académico devido à peste negra que assolou Inglaterra e levou ao encerramento da universidade entre 1665 e 1667, revelou-se profícua para Newton pois corresponde ao período mais produtivo em termos das suas descobertas: o teorema binominal, o cálculo, a lei da gravidade (que ficará para sempre associada à descrição da suposta maçã que lhe caiu sobre a cabeça, facto que despertou a sua curiosidade para a sua compreensão) e, ainda, a natureza das cores.

Por ser um homem reservado e sem grande empatia social, as suas descobertas e trabalhos foram divulgados e conhecidos pela comunidade científica através do seu professor Isaac Barrow, o que chamou a atenção da Royal Society que na época era a instituição mais importante neste domínio.

Foi em 1668 que Newton inventou o telescópio refletor e não refrator como os existentes até então, que ficou conhecido como o “telescópio newtoniano”. Três anos depois publica a sua primeira obra intitulada Métodos das Fluxões. Foi, porém, o livro seguinte, publicado em 1687 em 3 volumes, que foi reconhecido e considerado um dos mais importantes na área científica – Principia (Philosophiae Naturalis Principia Matematica) – onde descreveu a lei da gravitação universal e as suas três Leis (Lei da Inércia, Lei Fundamental da Dinâmica, Lei da Ação-Reação) que fundamentam a mecânica clássica. Os seus estudos em torno da luz e da ótica foram o tema de um outro livro, Optica (1704), que foi escrito numa linguagem mais acessível alcançando assim um maior número de leitores. Também as suas pesquisas no domínio da matemática, em 1707, foram alvo de publicação – Aritmética Universal.

Newton também foi Professor em Cambridge, a partir de 1667; um dos dois membros da Universidade no Parlamento, em janeiro de 1689; presidente da Royal Society a partir de 1703 e reeleito ano após ano até falecer; e, o primeiro cientista a receber a honra de ser armado cavaleiro (Sir) pela rainha Ana, em 1705. Precursor do culto da razão e do espírito crítico e sustentando o seu conhecimento na experimentação, características indissociáveis do Iluminismo, o impacto do trabalho realizado por Isaac Newton foi muito para além do seu próprio tempo, alcançando grande impacto na história da ciência.

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José Régio e a Rua António Botto

Estudo de José Régio sobre a obra de António Botto, publicado em 1938

José Régio saudou a edição de Ciúme de António Botto em artigo publicado no Diário de Lisboa de 21 de julho de 1934 e quatro anos mais tarde publicaria um ensaio sobre este escritor intitulado António Botto e o Amor, significativamente dedicado a Fernando Pessoa que foi o primeiro a descobrir aquele poeta e a mostrar a sua originalidade poética.

Em Lisboa, António Botto só será fixado na toponímia da cidade 42 anos após o seu falecimento, por Edital de 29 de agosto de 1991, na Rua C da Urbanização do Alto do Chapeleiro, quando foram dados nomes aos arruamentos desta urbanização.

António Botto em O Domingo Ilustrado, 30 de agosto de 1925

António Tomás Botto (Abrantes/17.08.1897 – 16.03.1959/Rio de Janeiro) distinguiu-se como poeta, a partir da publicação de Canções, em 1921. Desde 1908 que António Botto vivia em Lisboa com a família, no bairro de Alfama, razão para um poema seu estar afixado junto à Fonte do Poeta na Rua da Judiaria, no qual se pode ler «esta fonte que fala na surdina de qualquer coisa que eu não sei ouvir».

Botto começou por trabalhar em algumas livrarias e desde os tempos da Orpheu que participava em tertúlias da capital onde Pessoa circulava e avançou para o mundo da literatura, com as coletâneas poéticas Trovas (1917), Cantigas de Saudade (1918), Cantares (1919), Canções do Sul (1920) embora seja Canções, de 1921, a sua obra mais polémica pelo carácter abertamente homossexual e que também o tornou mais conhecido, com várias edições revistas e acrescentadas pelo autor entre 1921 e 1932. Fernando Pessoa gostou desta obra e até publicou a 2ª edição na sua efémera editora Olisipo, para além de a ter traduzido para inglês em 1930.

Entretanto, Botto conseguiu trabalho como funcionário público e começou por ser colocado em Angola em 1924, para regressar no ano seguinte para exercer funções no Governo Civil de Lisboa, de onde transitará em 1937 para o Arquivo Geral de Registo Criminal e Policial, do qual será demitido, conforme o Diário do Governo de 9 de novembro de 1942, de acordo com um conceito de «falta de idoneidade moral». Contudo, entre 1923 e 1959, Botto publicou  13 livros de poesia como Motivos de Beleza (1923), Dandismo (1928), Ciúme (1934), Fátima – Poema do Mundo (1955) e Ainda Não se Escreveu (1959). Além da poesia, António Botto produziu também ficção, em obras como António (1933), Isto Sucedeu Assim (1940), Ele Que Diga se Eu Minto (1945),  assim como literatura infantil em Os Contos de António Botto (1942) e a peça de teatro Alfama (1933), a que acresce ter colaborado com Fernando Pessoa numa Antologia de Poemas Portugueses Modernos.

Emigrou para o Brasil em agosto de 1947, com a sua mulher de sempre Carminda Silva, depois de realizar vários recitais de poesia em Lisboa e no Porto para angariar o dinheiro necessário para a viagem. Nesse país, sobreviveu escrevendo artigos e colunas em jornais portugueses e brasileiros, participando em programas de rádio e organizando récitas de poesia até que em 4 de março de 1959 foi atropelado por um automóvel do governo quando atravessava a Avenida Copacabana (no Rio de Janeiro), em consequência do qual acabou por falecer alguns dias mais tarde.

Na sua vida pessoal, apesar de assumido homossexual, Botto foi casado com Carminda Rodrigues até ao final da sua vida e escreveu « O casamento convém a todo o homem belo e decadente».

Em 29 de outubro de 1965 os seus restos mortais foram trasladados para Lisboa por via aérea, mas só em 11 de novembro de 1966 foram depositados no Cemitério do Alto de São João, cerimónia a que assistiram  José Régio, Ferreira de CastroDavid Mourão-Ferreira, Luís Amaro e Natália Correia, entre outros, encontrando-se no jazigo 1285.

Freguesia de Santa Clara

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Os correspondentes José Régio e Jorge de Sena na toponímia de Lisboa

Na Livraria Leitura, no Porto, (da esquerda para a direita) Eugénio de Andrade, José Régio e Jorge de Sena (Foto: © CER)

José Régio tinha mais 18 anos que Jorge de Sena (que na Presença assinava como Teles de Abreu) mas tal não impediu que os dois escritores tivessem trocado inúmera correspondência ao longo da vida de ambos, que foi reunida por Mécia de Sena e editada pela primeira vez em 1986, tal como ambos se encontram homenageados na toponímia de Lisboa através da Avenida José Régio e da Rua Jorge de Sena.

Cinco meses após o seu falecimento, Jorge de  Sena  foi colocado como topónimo da Rua A da Quinta de Santa Clara à Ameixoeira, na  Freguesia de Santa Clara, enquanto na Rua B ficava Vitorino Nemésio, ambos através de Edital municipal de 20 de novembro de 1978.

De seu nome completo Jorge Cândido Alves Rodrigues Telles Grilo Raposo de Abreu de Sena (Lisboa/02.11.1919 – 04.06.1978/Santa Barbara – E.U.A.), que este ano cumpre o centenário de nascimento, foi um engenheiro de formação que se distinguiu com escritor e professor universitário, ensaísta e historiador da cultura, pelo que desde 2009 os seus restos mortais passaram a repousar em Lisboa, num jazigo do Cemitério dos Prazeres.

Em  março de 1938 era Jorge de Sena um Cadete da Escola Naval quando em foi demitido da Marinha por motivos políticos, tema que ele abordará em Sinais de fogo. Em 1944 concluiu a sua licenciatura em Engenharia Civil na Universidade do Porto e foi depois trabalhar para a Junta Autónoma de Estradas, de 1948 a 1959. Mas nesse mesmo ano de 1959, por causa da ditadura, partiu para o exílio e nunca mais regressou a Portugal a não ser para participação em eventos. Fixou-se no Brasil, receando as perseguições políticas resultantes de uma falhada tentativa de golpe de estado, a 11 de março desse ano, em que esteve envolvido.

No Brasil, Jorge de Sena exerceu como engenheiro e professor de engenharia  em algumas universidades, mas em paralelo doutorou-se em Letras, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara (em São Paulo) em 1964, momento a partir do qual fez uma reconversão profissional e se dedicou ao ensino da literatura. Em 1965, partiu com Mécia de Sena e os nove filhos de ambos, para os Estados Unidos da América, por temor do golpe militar ocorrido no Brasil no ano anterior e aí foi docente na Universidade de Wisconsin, onde se tornou  professor catedrático em 1967, passando depois para a Universidade de Santa Barbara (1970), onde também exerceu funções do diretor do Departamento de Espanhol e Português e do Programa de Literatura Comparada.

Na sua obra literária estreou-se em 1942  com Perseguição e construiu uma obra multifacetada que soma mais de vinte coletâneas de poesia, uma tragédia em verso, uma dezena de peças em um ato, mais de 30 contos, uma novela e um romance, cerca de 40 volumes dedicados à crítica e ao ensaio – com destaque para os estudos sobre Camões e Pessoa-, à história e à teoria literária e cultural -com trabalhos pioneiros sobre o Maneirismo-, ao teatro, ao cinema e às artes plásticas, sem esquecer que traduziu duas antologias gerais de poesia, da Antiguidade Clássica aos Modernismos do século XX assim como autores de ficção como Faulkner, Hemingway, Graham Greene, teatro de Eugene O’Neill e ensaios de Chestov. Do conjunto da sua obra, destacamos os títulos As evidências (1955), Metamorfoses (1963), Peregrinatio ad loca infecta (1969), O Indesejado (1951), Novas andanças do demónio (1966), Os Grão-Capitães (1976), O físico prodigioso(1977) e Sinais de fogo (1979). O seu espólio foi doado pela família à Biblioteca Nacional em 2009.

Jorge de Sena foi ainda cofundador do grupo de teatro Os Companheiros do Páteo das Comédias, em 1948, e colaborador, nesse mesmo ano, de António Pedro, no programa de teatro radiofónico Romance Policial, no Rádio Clube Português; conferencista; crítico de teatro e de literatura em diversos jornais e revistas; comentador de cinema; diretor de publicações como os Cadernos de Poesia e coordenador editorial da revista Mundo Literário; consultor literário da Livros do Brasil (em Lisboa) e da Editora Agir (no Rio de Janeiro).

 

Rua Jorge de Sena na Freguesia de Santa Clara

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Nóbrega e Sousa de «Vocês Sabem Lá» e a «underground» Rádio Quântica no MURO’19

 

O compositor Nóbrega e Sousa,  funcionário da Emissora Nacional e autor de Vocês Sabem Lá e a Rádio Quântica, uma rádio online do underground português marcam presença  na 3ª edição do Festival de Arte Urbana de Lisboa, o MURO’19, que no Lumiar, nos Bairros da Música e da Cruz Vermelha vai exibir arte urbana e sonoridades inspiradas pela toponímia local.

A emitir online desde 1 de novembro de 2015-  em https://www.radioquantica.com/ -, a Rádio Quântica é uma estação de rádio, uma plataforma comunitária para artistas do underground português se fazerem ouvir. Fundada pelos artistas portugueses Photonz e Violet, ambos com 12 anos combinados de experiência em rádio local, nacional e online, em conjunto com um grupo de artistas e crews. Esta estação de rádio online é a manifestação de um movimento não-local que se desenha há alguns anos e que inclui DJs, editoras, crews, músicos, colecionadores, agitadores culturais e ativistas de igualdade de origem portuguesa ou lusófona. Anos de colaborações na promoção de festas, lançamento de música, presença em festivais, gravações de guest mixes e uma apreciação mútua  deu sentido a uma plataforma que junta estas pessoas da cultura portuguesa.

Nóbrega e Sousa, compositor famoso por canções como Sol de Inverno ou Vocês sabem Lá, é o topónimo dado à Rua B da Malha 3 do Alto do Lumiar que liga a Rua Vasco Gonçalves à Avenida Carlos Paredes através do Edital municipal de 15 de dezembro de 2003. A inauguração oficial ocorreu no  Dia Mundial da Música de 2004, em conjunto com a Alameda da Música e as Ruas Adriana de Vecchi, Arminda Correia, Belo Marques, Luís Piçarra, Shegundo Galarza e Tomás Del Negro.

O cagaréu Carlos de Melo Garcia Correia Nóbrega e Sousa (Aveiro/04.11.1913 – 04.04.2001/Lisboa) desde a sua primeira valsa editada pela Sasseti, em 1933, durante muitas décadas contribuiu para o êxito da música ligeira portuguesa. Por insistência do seu pai ainda trabalhou 2 anos como escriturário na Câmara Municipal de Lisboa mas depois dedicou-se a uma carreira musical, quer em  programas em direto das rádios, quer no teatro de revista, quer em canções para filmes portugueses, somando mais de 500 canções da sua autoria, nos mais diversos géneros e ritmos, desde valsas a fado, das marchas ao rock, a maior parte delas gravadas comercialmente em Portugal, mas também em Espanha, Brasil, França, Itália, Inglaterra, Argentina ou Estados Unidos da América e que foram sucessos nas vozes de Amália Rodrigues, António Calvário, Madalena Iglésias, Maria de Fátima Bravo, Maria de Lurdes Resende, Simone de Oliveira e de Tony de Matos, entre outras. De 1940 a novembro de 1974 Nóbrega e Sousa foi também funcionário da Emissora Nacional, primeiro como Assistente de Programas Musicais e depois, como Chefe da Secção de Programas Ligeiros.

Nóbrega e Sousa foi distinguido com um Óscar da Casa da Imprensa para o melhor compositor de Música Ligeira (em 1962 e 1963); venceu o Festival da Canção por 3 vezes (1965, 1970 e 1979), com Sol de Inverno, Onde vais rio que eu canto e Sobe sobe balão sobe; ganhou o 1º Prémio da Grande Marcha de Lisboa em dois anos seguidos (1968 e 1969), com Lisboa dos Milagres e Lisboa dos Manjericos; para além de ter sido agraciado com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (1998) quando cumpria 70 anos de carreira e, em novembro de 2000 pela sua obra e como morador durante 35 anos na freguesia, na Rua Tomás da Anunciação, foi homenageado pela Junta de Santo Condestável (já extinta e absorvida pela Junta de Freguesia de Campo de Ourique).

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Rua Jaime Lopes Dias

Jaime Lopes Dias em 1949 (ao centro)
(Foto: Firmino Marques da Costa, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua Jaime Lopes Dias, topónimo atribuído por Edital de 3 de outubro de 1991 a um arruamento da freguesia do Lumiar

Jaime dos Santos Lopes Dias (1890-1977), funcionário público e da Câmara Municipal de Lisboa, jurista, jornalista e etnógrafo. Fez parte de dezenas de associações, nacionais e estrangeiras, entre as quais a Academia das Ciências de Lisboa, a Associação dos Arqueólogos Portugueses, o Instituto de Coimbra, a Sociedade de Geografia de Lisboa, Société de Etnologie Française, e Asociación de los Amigos del Arte (Argentina). Natural do Vale da Senhora da Póvoa, concelho de Penamacor, estudou em Castelo Branco e Coimbra, licenciando-se em Direito na Universidade desta cidade em 1912. Desde a licenciatura até 1936 desempenhou vários cargos em Penamacor, Idanha a Nova e Castelo Branco: oficial do Registo Civil, Administrador de Concelho, Vereador (em Idanha a Nova), Juiz, Secretário Geral do Governo Civil do Distrito de Castelo Branco. Em 1936 veio para Lisboa como adjunto do Director Geral da Administração Política e Civil do Ministério do Interior, ministério onde se manteve até 1938, ano em que foi nomeado Director dos Serviços Centrais e Culturais da Câmara Municipal de Lisboa.

Ao longo da vida, foi autor de centenas de títulos e colaborador em publicações periódicas como, por exemplo, o Diário de Notícias, O Século, Diário de Coimbra, Panorama, Terras Portuguesas. Fundou os jornais Povo de Idanha (1914) e A província (1921) e dirigiu o Boletim da Casa das Beiras, a Revista das beiras e a Revista Municipal da Câmara Municipal de Lisboa. Escreveu obras sobre matérias de Direito, nomeadamente a edição revista e anotada do Código de Direito Administrativo de 31 de Dezembro de 1936. Mas o seu grande interesse foi a etnografia, principalmente a da sua terra natal. Editou, em 11 volumes, Etnografia da Beira (1926-1971), ainda hoje obra de referência sobre os usos e costumes desta região portuguesa. Publicou ainda Pelourinhos e forcas no Distrito de Castelo Branco (1935), A Beira Baixa, seu folclore, sua história e suas riquezas (1936), Cortiças da Beira Baixa (1947), ou A Beira Baixa e o seu teatro popular na obra de Gil Vicente (1959), entre tantos outros. Manteve sempre a ligação às origens, desempenhando cargos na Santa Casa da Misericórdia de Idanha a Nova, batendo-se pela construção da barragem do rio Ponsul ou pela criação de uma linha férrea que servisse a vila. Legou a sua biblioteca à Câmara Municipal de Castelo Branco, o que se veio a concretizar já depois da sua morte. Presentemente a Biblioteca desta cidade tem o nome de Jaime Lopes Dias.

Fez parte da Associação dos Jardins-Escolas João de Deus, tendo sido presidente da Assembleia Geral e tendo colaborado com João de Deus Ramos na obra O Livro de Capa Verde: selecta para a gente moça (1948).

Quando passou a residir em Lisboa, Lopes Dias começou igualmente a escrever sobre aspectos da vida lisboeta, dentro da sua linha de investigador etnográfico. Trouxe a lume Festas e divertimentos da cidade de Lisboa: da Independência à Restauração (1940), Grades de Lisboa (1947), Uma tradição lisboeta que revive: os tronos a Santo António (1949), Natal Português (1957). Publicou ainda um útil estudo O brasão de armas da cidade de Lisboa (1943) três anos após a fixação desta insígnia pela Comissão de Heráldica da Associação de Arqueólogos Portugueses. Nesse mesmo ano publicou O Museu da Cidade de Lisboa e em 1953 Vinte e Cinco anos da vida de uma capital. Colaborou na obra Lisboa Oito séculos de História, com o capítulo “Lisboa de hoje. A cidade de amanhã”.

Foi membro da Comissão Municipal de Toponímia desde a sua criação em 1943, juntamente com Pastor de Macedo e Augusto Vieira da Silva, até 1960.

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Rua Eduardo Bairrada

Rua Eduardo Bairrada, topónimo atribuído por Edital 29 de Fevereiro de 1988 a um arruamento da freguesia da Ajuda

Eduardo Martins Bairrada (1930 – 1987), arquitecto da Câmara Municipal de Lisboa, ilustrador, e olisipógrafo. Membro do Grupo de Amigos do Museu de Marinha, do qual foi secretário da direcção. Membro da Academia de Marinha e da Academia Nacional de Belas Artes, onde ocupou a cadeira nº 14, que já fora de Gustavo de Matos Sequeira. Foi director do Gabinete de Estudos Olisiponenses, quando este serviço ganhou autonomia do Museu da Cidade (hoje Museu de Lisboa). Dividiu a sua actividade profissional entre os projectos de arquitectura, e a ilustração. Como arquitecto da Câmara colaborou com diversos artistas, especialmente com os irmãos Leopoldo e Domingos Soares Branco, no enquadramento de várias esculturas, como, por exemplo, no Monumento a Gago Coutinho e Sacadura Cabral, junto à Torre de Belém, o monumento ao professor Santos Andrea, na praça com o mesmo nome, e no monumento a Sá Carneiro, na antiga praça do Areeiro. Fez o projecto arquitectónico do Pátio Alfacinha, na Ajuda. Desenhou a Medalha de Mérito da Academia Nacional de Belas Artes e colaborou na ilustração do livro de Beatriz Berrini Eça de Queiroz. Palavra e imagem. Nos anos 80 publicou diversos estudos: Arquitecto Rosendo Carvalheira; um filho adoptivo de Alexandre Herculano (1981); A Academia de Belas Artes no cinquentenário da sua fundação (1983); Antecedentes da Academia Nacional de Belas Artes no prémio Valmor de arquitectura da cidade de Lisboa (1984); Prémios Valmor: 1902-1952 (publicado em 1988), entre outros.

Mas o seu grande contributo para o estudo e conhecimento do património de Lisboa, seria a sua obra Empedrados Artísticos: a arte da calçada-mosaico, patrocinada pela Câmara Municipal, e editada em 1985. Observador atento, Bairrada dedicou anos a recolher informação sobre a calçada portuguesa, procurando colmatar o que ele considerou ser uma falha nos estudos patrimoniais. A obra, que é ainda hoje uma referência para o conhecimento desta arte portuguesa, apresenta um levantamento feito à época de quase todos os empedrados artísticos da cidade, através das fotografias de Karin Monteiro e de Manuel Cabral, e de desenhos do próprio Bairrada. Na primeira parte do livro faz a história do uso da pedra no pavimento de ruas desde D. Manuel I até ao século XIX, destacando a importância do tenente general Eusébio Pinheiro Furtado que pela primeira vez a utilizou no Castelo de S. Jorge. Traça um estudo sobre a arte e técnica de calcetar e um panorama da evolução do calcetamento artístico nas praças e largos da cidade, bem com a sua divulgação para os passeios e entradas de residências e negócios, estudando as diferenças da utilização da pedra no espaço interior e no exterior. Refere-se também aos custos associados a esta arte e às resistências encontradas na sua utilização. Pormenoriza ainda as questões de linguagem associadas ao trabalho de calceteiro e as assinaturas utilizadas por estes profissionais para a identificação da sua obra. O levantamento, propriamente dito está organizado através de 15 itinerários por ele traçados, e pacientemente percorridos, como ele próprio afirmou, nos seus percursos diários entre a casa e o trabalho. Este inventário, como já referido, é feito através de fotografia e de alguns desenhos, acompanhados de uma pequena legenda. No final da obra Bairrada organizou os índices por motivos decorativos (que ele desenha), glossário, moradas e freguesias, permitindo uma rápida localização de cada exemplar.

Não estamos, portanto, na presença de um olisipógrafo “generalista”, isto é, a sua obra não é dedicada a uma história da cidade mas a um aspecto do seu património o qual até então não tinha merecido a devida atenção quer por parte dos investigadores, quer por parte do público. A acção de Eduardo Martins Bairrada na defesa da calçada portuguesa fez-se sentir ainda na sua insistência na criação de uma Escola de Calceteiros, a qual viria de facto a ser planeada em 1985 e criada em 1986. Apesar de ter estado alguns anos encerrada, a Escola de Calceteiros da Câmara Municipal de Lisboa, encontra-se ainda hoje em funcionamento formando novos profissionais desta arte, permitindo a sua preservação.

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Rua Irisalva Moita

Rua Irisalva Moita, topónimo atribuído a um arruamento da freguesia do Lumiar por Edital de 17 de Março de 2017

Irisalva Constância da Nóbrega Neves Moita (1924-2009), olisipógrafa, arqueóloga, funcionária da Câmara Municipal de Lisboa. Licenciada em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, dedicou-se à Arqueologia, e à Museologia. Começou a sua actividade profissional como bolseira do Instituto de Alta Cultura (de 1951 a 1974), onde procedeu a trabalhos arqueológicos e históricos pioneiros sobre a cultura dolménica e, posteriormente, em 1959, sobre a cultura castreja, em território nacional, tendo em vista o levantamento das respectivas cartas arqueológicas. Em simultâneo frequenta o estágio para Conservadores Adjuntos de Museus, Palácios e Monumentos Nacionais, que conclui em 1955 defendendo a dissertação a “Ante-projecto para a Secção de Arqueologia do futuro Museu Etnológico do Dr. Leite de Vasconcelos”. Em 1954, ocupou brevemente o lugar de Conservadora dos Museus Municipais da Câmara Municipal de Lisboa, ao qual regressa em 1958 e onde permanecerá até à sua reforma em 1994, tendo passado em 1971, ao cargo de Conservadora Chefe. Foi membro de várias instituições culturais, entre as quais, da Associação Portuguesa de Museologia, do Centro Nacional de Cultura, da Academia Nacional de Belas Artes e do Grupo Amigos de Lisboa, do qual foi vice-presidente em 1990. Colaborou na obra Monumentos e edifícios notáveis do distrito de Lisboa, editada pela Junta Distrital de Lisboa, com dezenas de entradas e, entre outros, na Revista Municipal; em Olisipo: Boletim do Grupo Amigos de Lisboa, Revista de Portugal, Revista Ocidente, e Arqueólogo Português.

O seu grande contributo para um aprofundado conhecimento de Lisboa está ligado ao carácter inovador das suas escavações em solo urbano. Em 1959 conduz uma prospecção de terreno e sondagens arqueológicas, em Vila Pouca, na Serra de Monsanto, concluindo que se tratava de um povoado neolítico. No ano seguinte com o início dos trabalhos para a abertura da estação de Metro no Rossio, Irisalva Moita é nomeada responsável pela recolha e identificação dos vestígios do Hospital Real de Todos-os-Santos, naquela que é considerada a sua primeira grande intervenção em solo urbano. Em 1961, o mesmo ocorre na Praça da Figueira, sendo Irisalva a responsável pelo trabalho no cemitério luso-romano posto a descoberto. É ainda por insistência sua que a autarquia decide suspender os trabalhos em 1962, permitindo que uma outra equipa tivesse tempo para aprofundar a investigação arqueológica. Anos mais tarde, entre 1965 e 1967, Irisalva Moita voltaria a terreno urbano, para dar continuidade às escavações do Teatro Romano, na Rua de S. Mamede. Na impossibilidade de poder proceder à conclusão da escavação (uma vez que as ruínas se estendiam sob propriedades privadas que o município não conseguiu adquirir) Irisalva Moita protegeu a área escavada deixando-a preservada de modo a que mais tarde se pudesse a ela retornar. O que de facto aconteceu a partir do início do século XXI. Esta é aliás uma das suas mais conhecidas facetas: a constante devoção à defesa da preservação do património histórica de Lisboa quer como cidadã, quer como membro de diversas Comissões, entre as quais a Municipal de Arte e Arqueologia, a de Preservação do Património Arquitectónico, Artístico e Urbanístico, a de Defesa do Património Cultural e Ambiental ou a de Estética Citadina.

Para além da Arqueologia, Irisalva Moita desenvolveu uma notável actividade como museóloga, sendo da sua autoria o programa para o Museu da Cidade (actual Museu de Lisboa) no Palácio Pimenta, adquirido pela Câmara em 1962 mas que só abriria ao público em 1979. Já em 1958 apresentara um plano para o Museu Etnológico Dr. Leite de Vasconcelos, e em 1970, numa conferência no Museu de Arte Antiga, apresenta Fundamentos dum museu de Lisboa, defendendo ao longo da vida a criação e reestruturação de museus regionais e locais. Representou os museus na dependência das autarquias no grupo Museus da UNESCO, foi vogal da Comissão Organizadora do Instituto de Salvaguarda do Património Cultural e Natural, e representante dos Museus Municipais no Conselho Consultivo do Instituto Português do Património Cultural. Enquanto dirigiu os Museus Municipais de Lisboa, planeou, organizou e coordenou dezenas de exposições e os respectivos catálogos dos quais devemos salientar O Povo de Lisboa (1979), Lisboa e o Marquês de Pombal (1982), Lisboa Quinhentista. A imagem e a vida na cidade (1983) e D. João V e o Abastecimento de Água a Lisboa (1990). Em 1994, coordenou a edição de O livro de Lisboa para o qual redige dois capítulos (“Das origens pré-históricas ao domínio romano” e “Lisboa no século XVI”), o qual viria a ser a sua última grande obra, mas que veio colmatar uma enorme lacuna na bibliografia olisiponense, até então ainda muito dependente dos primeiros olisipógrafos. Ao reunir num único volume, a colaboração de diversos especialistas, e alternando textos gerais com textos que apresentam casos específicos para cada época, mais uma vez Irisalva Moita deu o seu pioneiro contributo para a renovação dos Estudos Olisiponenses.

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Rua Prof. Mário Chicó

Rua Prof. Mário Chicó, topónimo atribuído a um arruamento da freguesia do Lumiar por Edital de 27 de Fevereiro de 1978

Mário de Sousa Tavares Chicó (1905-1966), historiador de Arte, conservador de museu e professor universitário. O seu apelido Chicó foi por ele adoptado em homenagem ao seu avô adoptivo, Manuel Rodrigues Chicó, natural de Goa, engenheiro agrónomo que trabalhou nas propriedades agrícolas da Casa Cadaval, em Évora. Terá sido também por influência deste avô que Mário Chicó, após o Liceu, se decidiu a frequentar a Escola Agrícola de Coimbra, curso que viria a abandonar e a trocar pelo de Direito, na mesma Universidade, até finalmente, ingressar e completar o Curso de Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras de Lisboa (1935). Entre 1937 e 1939 foi bolseiro do Instituto de Alta Cultura, o que lhe permitiu frequentar o Instituto de Arte e Arqueologia da Universidade de Paris, e de estudar Arqueologia Medieval. A sua obra escrita revela bem o interesse por este período tendo publicado Remarques sur le choeur de l´église Sainte Marie de la Victoire Batalha (1940), A arquitectura da Idade Média em Portugal (1944), A catedral de Évora na Idade Média (1946), A arquitectura gótica em Portugal (1954), entre outros. Em 1942 colaborou na História da Arte em Portugal com diversos outros historiadores e em 1959 planeou e dirigiu um inovador Dicionário da Pintura Universal em colaboração com José-Augusto França e Artur Nobre Gusmão. Concorreu ao lugar de director do Museu Regional de Évora, que venceu em 1943, aqui permanecendo até à sua morte. A partir de 1946, ingressou na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa como professor da cadeira de Estética e História da Arte, tendo sido convidado a leccionar em várias universidades europeias e brasileiras. Em 1951 concretiza um outro projecto de investigação, obtendo o apoio da Junta das Missões Geográficas e Investigações Coloniais, viajando até à Índia para estudar a arquitectura de influência portuguesa naquela parte do Mundo. Foi o primeiro presidente da mesa da assembleia geral da Associação Portuguesa de Museologia, e pertenceu à Academia Nacional de Belas Artes.

O seu contributo para o conhecimento da história de Lisboa prende-se sobretudo com a sua carreira de Conservador de Museu, curso que fez em 1940 após o seu regresso do estrangeiro. É a Mário Chicó que a Câmara Municipal de Lisboa recorre para o projecto de criação de um museu municipal. A ideia de criar um espaço museológico dedicado à história da cidade fora lançada em 1909, e muito tenuemente executada em 1922, numa sala da Associação dos Arqueólogos Portugueses. O projecto de um museu de Lisboa, arrancou definitivamente por proposta do vereador Pereira Coelho, de 1935, destinando-se-lhe o Palácio da Mitra, adquirido pela autarquia em 1930. A adaptação do Palácio a Museu Municipal foi entregue a Mário Chicó, conservador dos Museus Municipais, o qual, consciente que seria uma morada provisória (como aliás tinha sido afirmado pela própria Câmara na proposta que apresentou à Junta Nacional de Educação, organismo da tutela), e das dificuldades em expor todas as espécies, optou por um circuito expositivo de acordo com a tipologia das peças (pinturas, gravuras, cerâmica, etc.) em detrimento de uma exposição cronológica, ao mesmo tempo que procurava valorizar o próprio edifício. No entanto, Mário Tavares Chicó deixou delineado um outro projecto para um futuro museu municipal que se pretendia edificar de raiz. Neste projecto, o museu deveria ter as seguintes secções: História e Geografia Locais, Arqueologia, Artes Plásticas, Estampas e Desenhos, Artes Decorativas, Etnografia, Medalhas, Sala de Exposições Temporárias, Biblioteca Olisiponense, Arquivo Municipal e Arquivo Fotográfico.

É de facto, Mário Tavares Chicó o primeiro a propor a criação de um núcleo arquivístico dedicado exclusivamente à fotografia, destinado a preservar a colecção inicial de fotografias que a Câmara possui, datadas de 1898-1908, e que constituem o seu núcleo antigo, bem como as fotografias que eram então tiradas, fosse para efeitos de propaganda da cidade, fosse para efeitos de recolha de imagens do património lisboeta. Desde o início da sua carreira de historiador de Arte Chicó utilizara a fotografia para documentar os seus trabalhos, valorizara a importância da fotografia para o estudo do património e deu destaque aos fotógrafos que com ele colaboraram como co-autores. Apesar desta sua proposta inicial, o Arquivo Fotográfico só abriria ao público, na década de 60 do século XX.

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