Os correspondentes José Régio e Jorge de Sena na toponímia de Lisboa

Na Livraria Leitura, no Porto, (da esquerda para a direita) Eugénio de Andrade, José Régio e Jorge de Sena (Foto: © CER)

José Régio tinha mais 18 anos que Jorge de Sena (que na Presença assinava como Teles de Abreu) mas tal não impediu que os dois escritores tivessem trocado inúmera correspondência ao longo da vida de ambos, que foi reunida por Mécia de Sena e editada pela primeira vez em 1986, tal como ambos se encontram homenageados na toponímia de Lisboa através da Avenida José Régio e da Rua Jorge de Sena.

Cinco meses após o seu falecimento, Jorge de  Sena  foi colocado como topónimo da Rua A da Quinta de Santa Clara à Ameixoeira, na  Freguesia de Santa Clara, enquanto na Rua B ficava Vitorino Nemésio, ambos através de Edital municipal de 20 de novembro de 1978.

De seu nome completo Jorge Cândido Alves Rodrigues Telles Grilo Raposo de Abreu de Sena (Lisboa/02.11.1919 – 04.06.1978/Santa Barbara – E.U.A.), que este ano cumpre o centenário de nascimento, foi um engenheiro de formação que se distinguiu com escritor e professor universitário, ensaísta e historiador da cultura, pelo que desde 2009 os seus restos mortais passaram a repousar em Lisboa, num jazigo do Cemitério dos Prazeres.

Em  março de 1938 era Jorge de Sena um Cadete da Escola Naval quando em foi demitido da Marinha por motivos políticos, tema que ele abordará em Sinais de fogo. Em 1944 concluiu a sua licenciatura em Engenharia Civil na Universidade do Porto e foi depois trabalhar para a Junta Autónoma de Estradas, de 1948 a 1959. Mas nesse mesmo ano de 1959, por causa da ditadura, partiu para o exílio e nunca mais regressou a Portugal a não ser para participação em eventos. Fixou-se no Brasil, receando as perseguições políticas resultantes de uma falhada tentativa de golpe de estado, a 11 de março desse ano, em que esteve envolvido.

No Brasil, Jorge de Sena exerceu como engenheiro e professor de engenharia  em algumas universidades, mas em paralelo doutorou-se em Letras, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara (em São Paulo) em 1964, momento a partir do qual fez uma reconversão profissional e se dedicou ao ensino da literatura. Em 1965, partiu com Mécia de Sena e os nove filhos de ambos, para os Estados Unidos da América, por temor do golpe militar ocorrido no Brasil no ano anterior e aí foi docente na Universidade de Wisconsin, onde se tornou  professor catedrático em 1967, passando depois para a Universidade de Santa Barbara (1970), onde também exerceu funções do diretor do Departamento de Espanhol e Português e do Programa de Literatura Comparada.

Na sua obra literária estreou-se em 1942  com Perseguição e construiu uma obra multifacetada que soma mais de vinte coletâneas de poesia, uma tragédia em verso, uma dezena de peças em um ato, mais de 30 contos, uma novela e um romance, cerca de 40 volumes dedicados à crítica e ao ensaio – com destaque para os estudos sobre Camões e Pessoa-, à história e à teoria literária e cultural -com trabalhos pioneiros sobre o Maneirismo-, ao teatro, ao cinema e às artes plásticas, sem esquecer que traduziu duas antologias gerais de poesia, da Antiguidade Clássica aos Modernismos do século XX assim como autores de ficção como Faulkner, Hemingway, Graham Greene, teatro de Eugene O’Neill e ensaios de Chestov. Do conjunto da sua obra, destacamos os títulos As evidências (1955), Metamorfoses (1963), Peregrinatio ad loca infecta (1969), O Indesejado (1951), Novas andanças do demónio (1966), Os Grão-Capitães (1976), O físico prodigioso(1977) e Sinais de fogo (1979). O seu espólio foi doado pela família à Biblioteca Nacional em 2009.

Jorge de Sena foi ainda cofundador do grupo de teatro Os Companheiros do Páteo das Comédias, em 1948, e colaborador, nesse mesmo ano, de António Pedro, no programa de teatro radiofónico Romance Policial, no Rádio Clube Português; conferencista; crítico de teatro e de literatura em diversos jornais e revistas; comentador de cinema; diretor de publicações como os Cadernos de Poesia e coordenador editorial da revista Mundo Literário; consultor literário da Livros do Brasil (em Lisboa) e da Editora Agir (no Rio de Janeiro).

 

Rua Jorge de Sena na Freguesia de Santa Clara

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Nóbrega e Sousa de «Vocês Sabem Lá» e a «underground» Rádio Quântica no MURO’19

 

O compositor Nóbrega e Sousa,  funcionário da Emissora Nacional e autor de Vocês Sabem Lá e a Rádio Quântica, uma rádio online do underground português marcam presença  na 3ª edição do Festival de Arte Urbana de Lisboa, o MURO’19, que no Lumiar, nos Bairros da Música e da Cruz Vermelha vai exibir arte urbana e sonoridades inspiradas pela toponímia local.

A emitir online desde 1 de novembro de 2015-  em https://www.radioquantica.com/ -, a Rádio Quântica é uma estação de rádio, uma plataforma comunitária para artistas do underground português se fazerem ouvir. Fundada pelos artistas portugueses Photonz e Violet, ambos com 12 anos combinados de experiência em rádio local, nacional e online, em conjunto com um grupo de artistas e crews. Esta estação de rádio online é a manifestação de um movimento não-local que se desenha há alguns anos e que inclui DJs, editoras, crews, músicos, colecionadores, agitadores culturais e ativistas de igualdade de origem portuguesa ou lusófona. Anos de colaborações na promoção de festas, lançamento de música, presença em festivais, gravações de guest mixes e uma apreciação mútua  deu sentido a uma plataforma que junta estas pessoas da cultura portuguesa.

Nóbrega e Sousa, compositor famoso por canções como Sol de Inverno ou Vocês sabem Lá, é o topónimo dado à Rua B da Malha 3 do Alto do Lumiar que liga a Rua Vasco Gonçalves à Avenida Carlos Paredes através do Edital municipal de 15 de dezembro de 2003. A inauguração oficial ocorreu no  Dia Mundial da Música de 2004, em conjunto com a Alameda da Música e as Ruas Adriana de Vecchi, Arminda Correia, Belo Marques, Luís Piçarra, Shegundo Galarza e Tomás Del Negro.

O cagaréu Carlos de Melo Garcia Correia Nóbrega e Sousa (Aveiro/04.11.1913 – 04.04.2001/Lisboa) desde a sua primeira valsa editada pela Sasseti, em 1933, durante muitas décadas contribuiu para o êxito da música ligeira portuguesa. Por insistência do seu pai ainda trabalhou 2 anos como escriturário na Câmara Municipal de Lisboa mas depois dedicou-se a uma carreira musical, quer em  programas em direto das rádios, quer no teatro de revista, quer em canções para filmes portugueses, somando mais de 500 canções da sua autoria, nos mais diversos géneros e ritmos, desde valsas a fado, das marchas ao rock, a maior parte delas gravadas comercialmente em Portugal, mas também em Espanha, Brasil, França, Itália, Inglaterra, Argentina ou Estados Unidos da América e que foram sucessos nas vozes de Amália Rodrigues, António Calvário, Madalena Iglésias, Maria de Fátima Bravo, Maria de Lurdes Resende, Simone de Oliveira e de Tony de Matos, entre outras. De 1940 a novembro de 1974 Nóbrega e Sousa foi também funcionário da Emissora Nacional, primeiro como Assistente de Programas Musicais e depois, como Chefe da Secção de Programas Ligeiros.

Nóbrega e Sousa foi distinguido com um Óscar da Casa da Imprensa para o melhor compositor de Música Ligeira (em 1962 e 1963); venceu o Festival da Canção por 3 vezes (1965, 1970 e 1979), com Sol de Inverno, Onde vais rio que eu canto e Sobe sobe balão sobe; ganhou o 1º Prémio da Grande Marcha de Lisboa em dois anos seguidos (1968 e 1969), com Lisboa dos Milagres e Lisboa dos Manjericos; para além de ter sido agraciado com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (1998) quando cumpria 70 anos de carreira e, em novembro de 2000 pela sua obra e como morador durante 35 anos na freguesia, na Rua Tomás da Anunciação, foi homenageado pela Junta de Santo Condestável (já extinta e absorvida pela Junta de Freguesia de Campo de Ourique).

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Rua Jaime Lopes Dias

Jaime Lopes Dias em 1949 (ao centro)
(Foto: Firmino Marques da Costa, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua Jaime Lopes Dias, topónimo atribuído por Edital de 3 de outubro de 1991 a um arruamento da freguesia do Lumiar

Jaime dos Santos Lopes Dias (1890-1977), funcionário público e da Câmara Municipal de Lisboa, jurista, jornalista e etnógrafo. Fez parte de dezenas de associações, nacionais e estrangeiras, entre as quais a Academia das Ciências de Lisboa, a Associação dos Arqueólogos Portugueses, o Instituto de Coimbra, a Sociedade de Geografia de Lisboa, Société de Etnologie Française, e Asociación de los Amigos del Arte (Argentina). Natural do Vale da Senhora da Póvoa, concelho de Penamacor, estudou em Castelo Branco e Coimbra, licenciando-se em Direito na Universidade desta cidade em 1912. Desde a licenciatura até 1936 desempenhou vários cargos em Penamacor, Idanha a Nova e Castelo Branco: oficial do Registo Civil, Administrador de Concelho, Vereador (em Idanha a Nova), Juiz, Secretário Geral do Governo Civil do Distrito de Castelo Branco. Em 1936 veio para Lisboa como adjunto do Director Geral da Administração Política e Civil do Ministério do Interior, ministério onde se manteve até 1938, ano em que foi nomeado Director dos Serviços Centrais e Culturais da Câmara Municipal de Lisboa.

Ao longo da vida, foi autor de centenas de títulos e colaborador em publicações periódicas como, por exemplo, o Diário de Notícias, O Século, Diário de Coimbra, Panorama, Terras Portuguesas. Fundou os jornais Povo de Idanha (1914) e A província (1921) e dirigiu o Boletim da Casa das Beiras, a Revista das beiras e a Revista Municipal da Câmara Municipal de Lisboa. Escreveu obras sobre matérias de Direito, nomeadamente a edição revista e anotada do Código de Direito Administrativo de 31 de Dezembro de 1936. Mas o seu grande interesse foi a etnografia, principalmente a da sua terra natal. Editou, em 11 volumes, Etnografia da Beira (1926-1971), ainda hoje obra de referência sobre os usos e costumes desta região portuguesa. Publicou ainda Pelourinhos e forcas no Distrito de Castelo Branco (1935), A Beira Baixa, seu folclore, sua história e suas riquezas (1936), Cortiças da Beira Baixa (1947), ou A Beira Baixa e o seu teatro popular na obra de Gil Vicente (1959), entre tantos outros. Manteve sempre a ligação às origens, desempenhando cargos na Santa Casa da Misericórdia de Idanha a Nova, batendo-se pela construção da barragem do rio Ponsul ou pela criação de uma linha férrea que servisse a vila. Legou a sua biblioteca à Câmara Municipal de Castelo Branco, o que se veio a concretizar já depois da sua morte. Presentemente a Biblioteca desta cidade tem o nome de Jaime Lopes Dias.

Fez parte da Associação dos Jardins-Escolas João de Deus, tendo sido presidente da Assembleia Geral e tendo colaborado com João de Deus Ramos na obra O Livro de Capa Verde: selecta para a gente moça (1948).

Quando passou a residir em Lisboa, Lopes Dias começou igualmente a escrever sobre aspectos da vida lisboeta, dentro da sua linha de investigador etnográfico. Trouxe a lume Festas e divertimentos da cidade de Lisboa: da Independência à Restauração (1940), Grades de Lisboa (1947), Uma tradição lisboeta que revive: os tronos a Santo António (1949), Natal Português (1957). Publicou ainda um útil estudo O brasão de armas da cidade de Lisboa (1943) três anos após a fixação desta insígnia pela Comissão de Heráldica da Associação de Arqueólogos Portugueses. Nesse mesmo ano publicou O Museu da Cidade de Lisboa e em 1953 Vinte e Cinco anos da vida de uma capital. Colaborou na obra Lisboa Oito séculos de História, com o capítulo “Lisboa de hoje. A cidade de amanhã”.

Foi membro da Comissão Municipal de Toponímia desde a sua criação em 1943, juntamente com Pastor de Macedo e Augusto Vieira da Silva, até 1960.

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Rua Eduardo Bairrada

Rua Eduardo Bairrada, topónimo atribuído por Edital 29 de Fevereiro de 1988 a um arruamento da freguesia da Ajuda

Eduardo Martins Bairrada (1930 – 1987), arquitecto da Câmara Municipal de Lisboa, ilustrador, e olisipógrafo. Membro do Grupo de Amigos do Museu de Marinha, do qual foi secretário da direcção. Membro da Academia de Marinha e da Academia Nacional de Belas Artes, onde ocupou a cadeira nº 14, que já fora de Gustavo de Matos Sequeira. Foi director do Gabinete de Estudos Olisiponenses, quando este serviço ganhou autonomia do Museu da Cidade (hoje Museu de Lisboa). Dividiu a sua actividade profissional entre os projectos de arquitectura, e a ilustração. Como arquitecto da Câmara colaborou com diversos artistas, especialmente com os irmãos Leopoldo e Domingos Soares Branco, no enquadramento de várias esculturas, como, por exemplo, no Monumento a Gago Coutinho e Sacadura Cabral, junto à Torre de Belém, o monumento ao professor Santos Andrea, na praça com o mesmo nome, e no monumento a Sá Carneiro, na antiga praça do Areeiro. Fez o projecto arquitectónico do Pátio Alfacinha, na Ajuda. Desenhou a Medalha de Mérito da Academia Nacional de Belas Artes e colaborou na ilustração do livro de Beatriz Berrini Eça de Queiroz. Palavra e imagem. Nos anos 80 publicou diversos estudos: Arquitecto Rosendo Carvalheira; um filho adoptivo de Alexandre Herculano (1981); A Academia de Belas Artes no cinquentenário da sua fundação (1983); Antecedentes da Academia Nacional de Belas Artes no prémio Valmor de arquitectura da cidade de Lisboa (1984); Prémios Valmor: 1902-1952 (publicado em 1988), entre outros.

Mas o seu grande contributo para o estudo e conhecimento do património de Lisboa, seria a sua obra Empedrados Artísticos: a arte da calçada-mosaico, patrocinada pela Câmara Municipal, e editada em 1985. Observador atento, Bairrada dedicou anos a recolher informação sobre a calçada portuguesa, procurando colmatar o que ele considerou ser uma falha nos estudos patrimoniais. A obra, que é ainda hoje uma referência para o conhecimento desta arte portuguesa, apresenta um levantamento feito à época de quase todos os empedrados artísticos da cidade, através das fotografias de Karin Monteiro e de Manuel Cabral, e de desenhos do próprio Bairrada. Na primeira parte do livro faz a história do uso da pedra no pavimento de ruas desde D. Manuel I até ao século XIX, destacando a importância do tenente general Eusébio Pinheiro Furtado que pela primeira vez a utilizou no Castelo de S. Jorge. Traça um estudo sobre a arte e técnica de calcetar e um panorama da evolução do calcetamento artístico nas praças e largos da cidade, bem com a sua divulgação para os passeios e entradas de residências e negócios, estudando as diferenças da utilização da pedra no espaço interior e no exterior. Refere-se também aos custos associados a esta arte e às resistências encontradas na sua utilização. Pormenoriza ainda as questões de linguagem associadas ao trabalho de calceteiro e as assinaturas utilizadas por estes profissionais para a identificação da sua obra. O levantamento, propriamente dito está organizado através de 15 itinerários por ele traçados, e pacientemente percorridos, como ele próprio afirmou, nos seus percursos diários entre a casa e o trabalho. Este inventário, como já referido, é feito através de fotografia e de alguns desenhos, acompanhados de uma pequena legenda. No final da obra Bairrada organizou os índices por motivos decorativos (que ele desenha), glossário, moradas e freguesias, permitindo uma rápida localização de cada exemplar.

Não estamos, portanto, na presença de um olisipógrafo “generalista”, isto é, a sua obra não é dedicada a uma história da cidade mas a um aspecto do seu património o qual até então não tinha merecido a devida atenção quer por parte dos investigadores, quer por parte do público. A acção de Eduardo Martins Bairrada na defesa da calçada portuguesa fez-se sentir ainda na sua insistência na criação de uma Escola de Calceteiros, a qual viria de facto a ser planeada em 1985 e criada em 1986. Apesar de ter estado alguns anos encerrada, a Escola de Calceteiros da Câmara Municipal de Lisboa, encontra-se ainda hoje em funcionamento formando novos profissionais desta arte, permitindo a sua preservação.

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Rua Irisalva Moita

Rua Irisalva Moita, topónimo atribuído a um arruamento da freguesia do Lumiar por Edital de 17 de Março de 2017

Irisalva Constância da Nóbrega Neves Moita (1924-2009), olisipógrafa, arqueóloga, funcionária da Câmara Municipal de Lisboa. Licenciada em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, dedicou-se à Arqueologia, e à Museologia. Começou a sua actividade profissional como bolseira do Instituto de Alta Cultura (de 1951 a 1974), onde procedeu a trabalhos arqueológicos e históricos pioneiros sobre a cultura dolménica e, posteriormente, em 1959, sobre a cultura castreja, em território nacional, tendo em vista o levantamento das respectivas cartas arqueológicas. Em simultâneo frequenta o estágio para Conservadores Adjuntos de Museus, Palácios e Monumentos Nacionais, que conclui em 1955 defendendo a dissertação a “Ante-projecto para a Secção de Arqueologia do futuro Museu Etnológico do Dr. Leite de Vasconcelos”. Em 1954, ocupou brevemente o lugar de Conservadora dos Museus Municipais da Câmara Municipal de Lisboa, ao qual regressa em 1958 e onde permanecerá até à sua reforma em 1994, tendo passado em 1971, ao cargo de Conservadora Chefe. Foi membro de várias instituições culturais, entre as quais, da Associação Portuguesa de Museologia, do Centro Nacional de Cultura, da Academia Nacional de Belas Artes e do Grupo Amigos de Lisboa, do qual foi vice-presidente em 1990. Colaborou na obra Monumentos e edifícios notáveis do distrito de Lisboa, editada pela Junta Distrital de Lisboa, com dezenas de entradas e, entre outros, na Revista Municipal; em Olisipo: Boletim do Grupo Amigos de Lisboa, Revista de Portugal, Revista Ocidente, e Arqueólogo Português.

O seu grande contributo para um aprofundado conhecimento de Lisboa está ligado ao carácter inovador das suas escavações em solo urbano. Em 1959 conduz uma prospecção de terreno e sondagens arqueológicas, em Vila Pouca, na Serra de Monsanto, concluindo que se tratava de um povoado neolítico. No ano seguinte com o início dos trabalhos para a abertura da estação de Metro no Rossio, Irisalva Moita é nomeada responsável pela recolha e identificação dos vestígios do Hospital Real de Todos-os-Santos, naquela que é considerada a sua primeira grande intervenção em solo urbano. Em 1961, o mesmo ocorre na Praça da Figueira, sendo Irisalva a responsável pelo trabalho no cemitério luso-romano posto a descoberto. É ainda por insistência sua que a autarquia decide suspender os trabalhos em 1962, permitindo que uma outra equipa tivesse tempo para aprofundar a investigação arqueológica. Anos mais tarde, entre 1965 e 1967, Irisalva Moita voltaria a terreno urbano, para dar continuidade às escavações do Teatro Romano, na Rua de S. Mamede. Na impossibilidade de poder proceder à conclusão da escavação (uma vez que as ruínas se estendiam sob propriedades privadas que o município não conseguiu adquirir) Irisalva Moita protegeu a área escavada deixando-a preservada de modo a que mais tarde se pudesse a ela retornar. O que de facto aconteceu a partir do início do século XXI. Esta é aliás uma das suas mais conhecidas facetas: a constante devoção à defesa da preservação do património histórica de Lisboa quer como cidadã, quer como membro de diversas Comissões, entre as quais a Municipal de Arte e Arqueologia, a de Preservação do Património Arquitectónico, Artístico e Urbanístico, a de Defesa do Património Cultural e Ambiental ou a de Estética Citadina.

Para além da Arqueologia, Irisalva Moita desenvolveu uma notável actividade como museóloga, sendo da sua autoria o programa para o Museu da Cidade (actual Museu de Lisboa) no Palácio Pimenta, adquirido pela Câmara em 1962 mas que só abriria ao público em 1979. Já em 1958 apresentara um plano para o Museu Etnológico Dr. Leite de Vasconcelos, e em 1970, numa conferência no Museu de Arte Antiga, apresenta Fundamentos dum museu de Lisboa, defendendo ao longo da vida a criação e reestruturação de museus regionais e locais. Representou os museus na dependência das autarquias no grupo Museus da UNESCO, foi vogal da Comissão Organizadora do Instituto de Salvaguarda do Património Cultural e Natural, e representante dos Museus Municipais no Conselho Consultivo do Instituto Português do Património Cultural. Enquanto dirigiu os Museus Municipais de Lisboa, planeou, organizou e coordenou dezenas de exposições e os respectivos catálogos dos quais devemos salientar O Povo de Lisboa (1979), Lisboa e o Marquês de Pombal (1982), Lisboa Quinhentista. A imagem e a vida na cidade (1983) e D. João V e o Abastecimento de Água a Lisboa (1990). Em 1994, coordenou a edição de O livro de Lisboa para o qual redige dois capítulos (“Das origens pré-históricas ao domínio romano” e “Lisboa no século XVI”), o qual viria a ser a sua última grande obra, mas que veio colmatar uma enorme lacuna na bibliografia olisiponense, até então ainda muito dependente dos primeiros olisipógrafos. Ao reunir num único volume, a colaboração de diversos especialistas, e alternando textos gerais com textos que apresentam casos específicos para cada época, mais uma vez Irisalva Moita deu o seu pioneiro contributo para a renovação dos Estudos Olisiponenses.

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Rua Prof. Mário Chicó

Rua Prof. Mário Chicó, topónimo atribuído a um arruamento da freguesia do Lumiar por Edital de 27 de Fevereiro de 1978

Mário de Sousa Tavares Chicó (1905-1966), historiador de Arte, conservador de museu e professor universitário. O seu apelido Chicó foi por ele adoptado em homenagem ao seu avô adoptivo, Manuel Rodrigues Chicó, natural de Goa, engenheiro agrónomo que trabalhou nas propriedades agrícolas da Casa Cadaval, em Évora. Terá sido também por influência deste avô que Mário Chicó, após o Liceu, se decidiu a frequentar a Escola Agrícola de Coimbra, curso que viria a abandonar e a trocar pelo de Direito, na mesma Universidade, até finalmente, ingressar e completar o Curso de Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras de Lisboa (1935). Entre 1937 e 1939 foi bolseiro do Instituto de Alta Cultura, o que lhe permitiu frequentar o Instituto de Arte e Arqueologia da Universidade de Paris, e de estudar Arqueologia Medieval. A sua obra escrita revela bem o interesse por este período tendo publicado Remarques sur le choeur de l´église Sainte Marie de la Victoire Batalha (1940), A arquitectura da Idade Média em Portugal (1944), A catedral de Évora na Idade Média (1946), A arquitectura gótica em Portugal (1954), entre outros. Em 1942 colaborou na História da Arte em Portugal com diversos outros historiadores e em 1959 planeou e dirigiu um inovador Dicionário da Pintura Universal em colaboração com José-Augusto França e Artur Nobre Gusmão. Concorreu ao lugar de director do Museu Regional de Évora, que venceu em 1943, aqui permanecendo até à sua morte. A partir de 1946, ingressou na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa como professor da cadeira de Estética e História da Arte, tendo sido convidado a leccionar em várias universidades europeias e brasileiras. Em 1951 concretiza um outro projecto de investigação, obtendo o apoio da Junta das Missões Geográficas e Investigações Coloniais, viajando até à Índia para estudar a arquitectura de influência portuguesa naquela parte do Mundo. Foi o primeiro presidente da mesa da assembleia geral da Associação Portuguesa de Museologia, e pertenceu à Academia Nacional de Belas Artes.

O seu contributo para o conhecimento da história de Lisboa prende-se sobretudo com a sua carreira de Conservador de Museu, curso que fez em 1940 após o seu regresso do estrangeiro. É a Mário Chicó que a Câmara Municipal de Lisboa recorre para o projecto de criação de um museu municipal. A ideia de criar um espaço museológico dedicado à história da cidade fora lançada em 1909, e muito tenuemente executada em 1922, numa sala da Associação dos Arqueólogos Portugueses. O projecto de um museu de Lisboa, arrancou definitivamente por proposta do vereador Pereira Coelho, de 1935, destinando-se-lhe o Palácio da Mitra, adquirido pela autarquia em 1930. A adaptação do Palácio a Museu Municipal foi entregue a Mário Chicó, conservador dos Museus Municipais, o qual, consciente que seria uma morada provisória (como aliás tinha sido afirmado pela própria Câmara na proposta que apresentou à Junta Nacional de Educação, organismo da tutela), e das dificuldades em expor todas as espécies, optou por um circuito expositivo de acordo com a tipologia das peças (pinturas, gravuras, cerâmica, etc.) em detrimento de uma exposição cronológica, ao mesmo tempo que procurava valorizar o próprio edifício. No entanto, Mário Tavares Chicó deixou delineado um outro projecto para um futuro museu municipal que se pretendia edificar de raiz. Neste projecto, o museu deveria ter as seguintes secções: História e Geografia Locais, Arqueologia, Artes Plásticas, Estampas e Desenhos, Artes Decorativas, Etnografia, Medalhas, Sala de Exposições Temporárias, Biblioteca Olisiponense, Arquivo Municipal e Arquivo Fotográfico.

É de facto, Mário Tavares Chicó o primeiro a propor a criação de um núcleo arquivístico dedicado exclusivamente à fotografia, destinado a preservar a colecção inicial de fotografias que a Câmara possui, datadas de 1898-1908, e que constituem o seu núcleo antigo, bem como as fotografias que eram então tiradas, fosse para efeitos de propaganda da cidade, fosse para efeitos de recolha de imagens do património lisboeta. Desde o início da sua carreira de historiador de Arte Chicó utilizara a fotografia para documentar os seus trabalhos, valorizara a importância da fotografia para o estudo do património e deu destaque aos fotógrafos que com ele colaboraram como co-autores. Apesar desta sua proposta inicial, o Arquivo Fotográfico só abriria ao público, na década de 60 do século XX.

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Rua Julieta Ferrão

Em 1952, na inauguração da exposição sobre D. João da Câmara
(Foto: Firmino Marques da Costa, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua Julieta Ferrão, topónimo atribuído a um arruamento da freguesia das Avenidas Novas por Edital de 10 de Agosto de 1978

Julieta Bárbara Ferrão (1899-1974), conservadora dos Museus Municipais da Câmara Municipal de Lisboa. Pertenceu à Sociedade Nacional de Belas Artes, à Cruzada das Mulheres Portuguesas, à Associação Feminina Portuguesa para a Paz e ao Grupo Amigos de Lisboa. A vida de Julieta Ferrão está intimamente ligada à do museu Rafael Bordalo Pinheiro uma vez que era afilhada e sobrinha por afinidade de Artur Ernesto Santa Cruz Magalhães, coleccionador da obra daquele artista, colecção iniciada em 1895.

Ao longo da sua vida Cruz Magalhães reuniu originais, objectos pessoais, correspondência e periódicos de Bordalo, decidindo criar de raiz um museu dedicado ao artista. Assim, a partir de 1813 começa a criar o museu cujo plano inicial incluía três salas para a exposição da colecção, uma escola primária feminina e uma casa para a professora. Desde o início que Julieta participa no projecto ajudando o padrinho principalmente na aquisição de peças e convencendo outros coleccionadores a doá-las. A sua formação escolar fizera-se no ensino particular, tendo ainda aulas de violino e de escultura com Raul Xavier e crescera num ambiente imbuído de ideais republicanos, fazendo amizade com muitas das figuras femininas republicanas conhecidas, como Sara Benoliel, Ana de Castro Osório, Maria Lamas e Elina Guimarães, por exemplo. O museu é inaugurado a 6 de Agosto de 1916, tendo apenas as 3 salas previstas no projecto. Num dos registos de Ferrão assinala-se que em pouco mais de 4 anos, o museu recebera mais de 7000 visitantes e rendera uma quantia considerável que fora distribuída por várias associações filantrópicas, entre as quais a Cruz Vermelha e a Cruzada das Mulheres Portuguesas. Desde o início, Julieta Ferrão está à frente da instituição em parceria com Cruz de Magalhães e rapidamente se apercebe que o museu teria de crescer. Em 1919 contava já 9 salas e a ideia da escola feminina fora abandonada. Em 1920, cria-se o Grupo de Amigos Defensores do museu, do qual foi secretária, substituindo Cruz Magalhães sempre que necessário. Em 1922 publica a 1ª monografia sobre o museu, embora, já antes disso tivesse colaborado em vários periódicos. Em simultâneo, não descura a sua aprendizagem, tornando-se assinante de várias revistas europeias da especialidade, como, por exemplo, a Museum, ou a Musées et Monuments, ao mesmo tempo que realiza algumas viagens pela Europa conhecendo outros museus.

Em 1924, Cruz Magalhães doa o museu à Câmara Municipal, sendo condição da doação a manutenção de Julieta Ferrão como sua directora. Integrada nos quadros de pessoal da edilidade, Julieta dava assim início a uma carreira formal de conservadora. Dizia de si própria que sofria de “doença bordaliana, ou seja, de rafaelite aguda”, tal a sua dedicação ao museu e à figura de Bordalo. A sua obra será um reflexo dessa “doença”: Rafael Bordalo Pinheiro e a Crítica (1924); Guia do Museu Rafael Bordalo Pinheiro (1927) Rafael Bordalo Pinheiro e a Faiança das Caldas (1933). Nos seus relatórios sobre o museu não deixa de fazer uma análise crítica às necessidades do mesmo: pugna pela instalação de um alarme de incêndios, por uma maior segurança, pelo aumento de pessoal, e sobretudo pela aquisição de peças ainda em vida do último pintor que trabalha com o mestre Bordalo. Paralelamente organiza exposições, colabora em periódicos, como o Modas e Bordados, A Capital, O Século, Diário de Notícias, e Revista Municipal, entre muitos outros. Apesar de já exercer a função de conservadora de museu, ingressa no primeiro curso de Conservador, organizado por João Couto, director do Museu Nacional da Arte Antiga.

Em 1942 a Câmara Municipal, no seguimento de uma reorganização dos Serviços Culturais, cria o Serviço dos Museus Municipais, sendo Julieta Ferrão a primeira mulher a desempenhar esse cargo. A sua obra alarga-se para além de Rafael publicando Lisboa, Lisbon, Lisbonne (1952), A conquista de Lisboa por um caldense (1955), Vieira Lusitano (1956), colabora na Nova Colecção da Arte Portuguesa (1956) e Há 70 Anos (1962) ao mesmo tempo que organiza ou colabora na organização de dezenas de exposições dos museus municipais. Em 1969 reforma-se por ter atingido a idade máxima. Mas a Câmara viria a convidá-la, no ano seguinte, para integrar a Comissão Municipal de Toponímia, cargo que desempenhou até à sua morte e mais uma vez sendo a primeira mulher a integrar a comissão.

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Rua Norberto de Araújo

Revista Municipal nº 55, 4º trimestre de 1952

Rua Norberto Araújo, topónimo atribuído a uma arruamento da freguesia de Santa Maria Maior por Edital de 22 de Junho de 1956

Norberto Moreira de Araújo (1889 -1952), jornalista, funcionário do Ministério das Finanças, poeta, escritor e olisipógrafo. Em 1904, entra na Imprensa Nacional como aprendiz de tipógrafo, tendo sido o melhor aluno do seu curso, ao mesmo tempo que prossegue os seus estudos. Frequenta o Curso Superior de Letras, mas não concluiu a licenciatura. Iniciou-se como jornalista, em 1913, colaborando no jornal Sport Lisboa. Profere algumas conferências na Imprensa Nacional sobre a arte tipográfica, posteriormente publicadas, e que lhe valeram a recomendação do então director da Imprensa, Luís Derouet, para ingressar na redacção de O Mundo, em 1916. Como jornalista, colaborou, entre outros, no Repórter X: semanário de grandes reportagens, no Animatógrafo, na Ilustração Portuguesa, no A Manhã, no Diário de Notícias, no Século da Noite, e no Diário de Lisboa, jornal onde se manteve desde 1922 até à sua morte e onde assinava a coluna “Páginas de quinta feira”, dedicada a temas variados que iam desde a cultura, os casos de rua até à cidade de Lisboa e à defesa do seu património. Através dos seus artigos defendeu a manutenção e a renovação do Bairro de Alfama contra a campanha higienista que propunha a sua demolição, bateu-se pela realização anual da Feira do Livro, pela regularidade das exposições de Arte na Sociedade Nacional de Belas Artes, apoiou a iniciativa de Leitão de Barros para a realização das marchas populares, e a 31 de Agosto de 1934, propôs a abertura de uma cadeira de Estudos Olisiponenses na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Ideia que Pastor de Macedo transforma em proposta apresentada em Sessão de Câmara a 6 de Setembro e que é aprovada, funcionando a cadeira durante alguns anos das décadas de 30-40. A par deste interesse pela sua cidade natal, Norberto de Araújo fez reportagens de grande fôlego, como o acompanhamento de duas visitas presidenciais (de António José de Almeida ao Brasil em 1922 e de Carmona a Espanha em 1929), a do Ano Santo de 1925 em Roma (onde entrevista o Papa Pio IX e Mussolini), a do julgamento de Alves dos Reis (1839) e a da visita da Rainha D. Amélia ao Panteão de S. Vicente (1945).

Norberto de Araújo dedicou à cidade muito do seu tempo e saber, tendo feito parte da Comissão Executiva das Festas de Lisboa de 1935 e organizado o Cortejo das Marchas Populares (tendo chegado a redigir a letra de para algumas delas); sendo sócio fundador do Grupo Amigos de Lisboa e assumindo a responsabilidade da decoração do Pavilhão de Lisboa na Exposição do Mundo Português, em 1940.

Como jornalista, os seus colegas e críticos são unânimes em afirmar que Araújo trouxe um novo estilo ao jornalismo, “repórter de frase curta, palavra solta, liberta da ganga da retórica” (palavras de Baptista Bastos), sem se prender em compromissos políticos. Como olisipógrafo, manteve estas mesmas características, que lhe granjearam grande número de leitores. Para além de milhares de artigos, e de algumas dezenas de conferências, foi autor das pequenas monografias Lisboa, o Castelo de S. Jorge e Itinerários turísticos de Lisboa, destinadas aos turistas. Escreveu ainda Legendas de Lisboa (1943), reunindo diversos textos sobre locais típicos de Lisboa; Casas da Câmara de Lisboa, em co-autoria com Pastor de Macedo, e que é um dos estudos mais completos sobre a câmara e os locais onde se estabeleceu; e de Inventário de Lisboa (1944-1956), concluído por Durval Pires de Lima, onde se pretendia fazer o levantamento de todo o património lisboeta.

Mas a sua obra mais conhecida intitula-se Peregrinações em Lisboa, editada a partir de 1938, resultado do seu profundo conhecimento físico da cidade e de um intenso labor de pesquisa documental. Como o título indica, Norberto de Araújo, traça percursos por Lisboa, descrevendo-os, narrando as suas histórias, desvendando os seus segredos. Num tom muito coloquial, como em conversa com o seu “dilecto Amigo”, figura imaginária a quem ele narra tudo o que sabe, e na qual o leitor se revê, as Peregrinações são ainda hoje, uma obra incontornável para quem quer conhecer a cidade.

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Rua Gustavo de Matos Sequeira

Gustavo de Matos Sequeira em 1947
(Foto: Ferreira da Cunha, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua Gustavo de Matos Sequeira, topónimo atribuído a um arruamento da freguesia de Santo António por Edital de 22 de Janeiro de 1963

Gustavo Adriano de Matos Sequeira (1880-1962), funcionário público, autor, jornalista e olisipógrafo. Iniciou a sua carreira de jornalista em 1905. Foi funcionário das Alfândegas até 1931 quando foi compulsivamente afastado da função pública por ter sido acusado pela PIDE de ter ajudado à introdução de armas no país, do que foi ilibado. Passa a colaborar mais activamente em diversas publicações periódicas, fazendo crítica teatral (especialmente de teatro de revista) e escrevendo sobre Lisboa. Foi também autor teatral de revistas, tradutor e adaptador de peças teatrais, poeta e escreveu a letra da conhecida Marcha dos Marinheiros. Desempenhou ainda funções de Comissário do Governo junto do Teatro Nacional (1917-1936) e foi eleito presidente do Sindicato dos Profissionais da Imprensa (1931). Pertenceu a várias instituições culturais, entre as quais a Associação dos Arqueólogos Portugueses, a Academia das Ciências, a Academia da História e o Grupo Amigos de Lisboa, do qual foi um dos fundadores.

A sua primeira obra sobre Lisboa, foi publicada por Júlio de Castilho (de quem seria amigo a partir de então) numa das suas obras. Era um longo texto sobre a paróquia e igreja de S. Mamede, entregue ao Mestre em 1903 que sobre ele afirmou: “trabalho (…) tão conscienciosamente feito, tão metódico, e tão exacto que o entendi reproduzi-lo textualmente.” Para além de artigos avulsos em publicações periódicas, Matos Sequeira publicou a partir de 1916 as suas obras mais conhecidas: Depois do Terramoto: subsídios para a história dos bairros ocidentais (1916-1933) e O Carmo e a Trindade: subsídios para a história de Lisboa (1933-1941). No entanto a sua actividade como olisipógrafo estendeu-se muito para além destas duas monografias, sendo autor de centenas de títulos sob a forma de artigos, conferências, opúsculos, livros, e peças teatrais, quer a solo, quer em colaboração com outros olisipógrafos. Saliente-se ainda a curiosa edição que fez, em 1925, de Relação de vários casos notáveis e curiosos sucedidos em tempo na cidade de Lisboa e em outras terras de Portugal (…) onde à moda de setecentos reúne pequenos artigos sobre notícias e casos ocorridos, que tinha vindo a encontrar no meio das suas investigações.

Organizou ou colaborou em diversas actividades ou eventos culturais, como a Exposição Olisiponense, no Museu do Carmo (1914), na reconstituição de um mercado seiscentista no Largo de S. Domingos (1926), na reconstituição da Lisboa Antiga, na cerca do Convento das Francesinhas (1935), na Exposição do Mundo Português (1940). Em 1945 dá início a um dos seus mais originais projectos: a criação de uma maquete da cidade pré-pombalina. A maquete foi por ele planeada, histórica e artisticamente dirigida, e executada com a colaboração do pintor Martins Barata e do artista modelador Ticiano Violante. Reúne mais de 10 000 edifícios em miniatura e reproduzia a cidade entre Santa Apolónia e S. Paulo. Foi publicamente apresentada na Exposição Iconográfica e Bibliográfica Comemorativa da Reconstrução da Cidade depois do Terramoto de 1755, tornando-se na sua peça central. Dois anos mais tarde a Câmara Municipal de Lisboa incumbiu-o ainda de fazer o prolongamento da maquete até à zona de Alcântara. Para este trabalho, Matos Sequeira recorreu ainda ao desenho de plantas topográficas da cidade, muitas das quais se encontram (juntamente com o seu espólio) à guarda do Gabinete de Estudos Olisiponenses. São plantas em papel vegetal, por vezes, muito toscamente desenhadas, a lápis de carvão, esferográfica, lápis de cor, mas com uma precisão de localização e de explicação de arruamentos e edifícios já desaparecidos, que resultaram das suas inúmeras pesquisas em arquivos e bibliotecas, confrontadas com o trabalho de campo, e que lhe permitiram traçar um fiel retrato da Lisboa pré-terramoto.

Apesar da precisão científica que a sua obra nos oferece, o seu estilo de escrita é cativante, abandonando o tom académico, utilizando um estilo jornalístico e quase intimista que o levou muitas vezes a descrever em pormenor acontecimentos, ou aspectos da vida social e diária da cidade, que permitem ao seu leitor visualizar uma Lisboa já desaparecida.

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Rua Gomes de Brito

Olisipo, outubro de 1943

Rua Gomes de Brito, topónimo atribuído por Edital de 16 de Setembro de 2009 a um arruamento da freguesia de Marvila

José Joaquim Gomes de Brito (1843 – 1923), jornalista, funcionário da Câmara Municipal de Lisboa, olisipógrafo, foi autor prolífico, redigindo diversos elogios históricos, pareceres sobre a indústria e o comércio, e escrevendo sobre a cidade de Lisboa. Assinou quer com o seu nome, quer sob pseudónimo (Brás Fogaça, Um português obscuro, Nullius, Petintal de Alfama, G. de B.). Foi sócio fundador da Sociedade de Geografia de Lisboa (1875), participou na criação da Sociedade dos Jornalistas e Escritores Portugueses e na Comissão do primeiro mausoléu de Alexandre Herculano (1880). Cursou Belas Artes, mas por influência de Alexandre Herculano, de quem viria a ser discípulo e amigo, licenciou-se em Letras, onde conheceu os irmãos Bordalo Pinheiro. Participou num grupo de teatro amador, ao qual pertencia Rafael Bordalo Pinheiro, vindo a colaborar com este n’O Binóculo (1870) e n’O Calcanhar de Achilles (1870). Publicou artigos na Revista de Educação e Ensino, no Correio Nacional, n’O Occidente, O Commercio de Portugal e o Diário de Notícias, entre outros. Como olisipógrafo, publicou o primeiro trabalho em 1880, A Rua de S. Tomé, publicado no jornal A Revolução de Setembro. Mais de dez anos depois, atendendo à sua vida profissional que o impediu de se dedicar à olisipografia, dá início à publicação de várias obras sobre a cidade: Lisboa de 1578 a 1583: cartas de Filipe Sassetti(…) (1893); O prior de S. Nicolau (…) (1893); Os remolares: o que fossem, onde e quando começariam a ser denominação de um sítio de Lisboa (1899); Os Itinerários de Lisboa (1899-1900); Archeologia musical (1904); Tenças testamentárias da Infanta D. Maria (1907); Notícia de livreiros e impressores em Lisboa na segunda metade do século XVI (1911). Neste último ano, publicou ainda Lisboa do passado, Lisboa dos nossos dias, reunindo num único volume alguns dos artigos dispersos em várias publicações.

Já reformado, prosseguiu os seus trabalhos, embora muito limitado nas suas deslocações, após ter partido uma perna nas escadas dos Paços do Concelho de Lisboa. No entanto, tal não o impediu de trabalhar naqueles que viriam a ser os seus grandes contributos para a história e a olisipografia. Em 1914, foi publicado o seu aprofundado estudo sobre Alexandre Herculano para o Diccionario Bibliographico Português de Inocêncio F. da Silva e Brito Aranha, que viria a ocupar todo o volume XXI.

Em 1923, terminou, pouco antes de falecer, o comentário e as notas à edição do manuscrito anónimo, Estatística de Lisboa de 1552, ao qual atribuiu novo título (Tratado da majestade, grandeza e abastança da cidade de Lisboa, na 2ª metade do século XVI) e cujo autor conseguiu identificar como sendo João Brandão (de Buarcos). Augusto Vieira da Silva conta no discurso que fez em homenagem a Gomes de Brito em sessão da Academia Portuguesa da História, um episódio passado entre os dois a propósito desta obra. Vieira da Silva narra como Gomes de Brito sempre o auxiliou nas suas investigações, quer emprestando-lhe livros da sua biblioteca, quer partilhando o seu conhecimento. No entanto, quando Vieira da Silva o indagou sobre a autoria da Estatística Brito remeteu-se ao silêncio, não querendo revelar o que tinha descoberto antes da edição das anotações. Mas não se esqueceu Gomes de Brito deste episódio. O Gabinete de Estudos Olisiponenses possui o exemplar da Estatística de Vieira da Silva com a seguinte dedicatória, assinada por António Baião, testamenteiro de Gomes de Brito e datada de 14 de Novembro de 1923, isto é um mês após a morte do olisipógrafo: “Exemplar oferecido ao Exmº Sr. A. Vieira da Silva, como homenagem ao seu valioso auxílio para a publicação desta obra e por expressa determinação do anotador e comentador, J.J. Gomes de Brito, antes do seu falecimento.”

A última grande obra da sua autoria publicada por António Baião, é certamente a mais conhecida: As Ruas de Lisboa: notas para a história das vias públicas lisbonenses. Editada em 1935, ela resulta do facto de António Baião, ter sido amigo e o herdeiro do espólio de Gomes de Brito, o qual ao longo da vida recolhera as informações necessárias para a realização do livro, reunindo verbetes sobre topónimos lisboetas. Baião prosseguiu o trabalho de Brito dando-lhe forma de livro, organizado alfabeticamente, tal como as fichas de Brito. Trabalho incompleto e com entradas de dimensões muito variáveis, As Ruas de Lisboa, são, porém, um trabalho inovador. Até então nunca tinha sido impressa uma obra exclusivamente dedicada à toponímia urbana. Gomes de Brito é justamente considerado o fundador dos estudos toponímicos de Lisboa.

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