O Príncipe dos Poetas Brasileiros numa Praça de Arroios

A Praça Olegário Mariano em 1964
(Foto: Artur João Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Praça Olegário Mariano foi um topónimo sugerido à edilidade lisboeta pelo Diário de Notícias, na sua edição de 15 de dezembro de 1958, para homenagear o poeta brasileiro que vinte anos antes fora eleito o Príncipe dos Poetas Brasileiros, igualmente conhecido como Poeta das Cigarras e como João da Avenida, enquanto cronista.

O Edital municipal de 4 de maio de 1959 colocou o topónimo na artéria até aí era identificada como Praceta da Rua Pascoal de Melo, cinco anos após o homenageado deixar de ser o embaixador do Brasil em Portugal.

Óleo sobre tela de 1928, por Candido Portinari, na Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras

Olegário Mariano Carneiro da Cunha (Recife/24.03.1889- 28.11.1958/Rio de Janeiro) foi um poeta, político e diplomata brasileiro que em 1938 foi eleito, num  concurso promovido pela revista Fon-Fon,  como Príncipe dos Poetas Brasileiros. Inicialmente parnasianista e simbolista, iniciou a sua vida literária aos 22 anos com Angelus, publicado em 1911. Depois, nos 23 livros seguintes adquiriu uma tendência intimista e ficou conhecido como o Poeta das Cigarras  por serem um de seus temas favoritos. Além da obra poética editada em livros a partir de 1911, e enfeixada nos dois volumes de Toda uma vida de poesia (1957), Olegário Mariano também publicou sob o pseudónimo de João da Avenida, durante anos, nas revistas Careta e Para Todos,  crónicas mundanas em versos humorísticos que mais tarde foram reunidas em dois livros sob os títulos Ba-ta-clan (1924) e Vida, caixa de brinquedos (1937). Em 23 de dezembro de 1926 sucedeu a Mário de Alencar na cadeira 21 da Academia Brasileira de Letras.

Nascido no mesmo ano da Proclamação da República (1889), filho de Olegária Carneiro da Cunha e de José Mariano Carneiro da Cunha, ambos heróis pernambucanos da Abolição da Escravatura e da República, também Olegário Mariano se sentiu motivado pela política tendo sido deputado à Assembleia Constituinte de 1934 e em 1937 à Câmara dos Deputados.

A sua ligação a Portugal começou em 1940, como ministro plenipotenciário nos Centenários de Portugal, seguida da sua nomeação como delegado da Academia Brasileira na Conferência Interacadémica de Lisboa para o Acordo Ortográfico de 1945 e finalmente, foi o embaixador do Brasil em Portugal nos anos de 1953 e 1954.

Na sua carreira desempenhou ainda as funções de inspetor do ensino secundário e censor de Teatro, de secretário de embaixada na Bolívia, de tabelião de  notas e oficial do 4.° Ofício de Registro de Imóveis do Rio de Janeiro.

E resta-nos deixar um poema do seu tema predileto:

Cigarra

Figurinha de outono!
Teu vulto é leve, é sensitivo,
Um misto de andorinha e bogari.
Num triste acento de abandono,
A tua voz lembra o motivo
De uma canção que um dia ouvi.

Quando te expões ao sol, o sol te impele
Para o rumor, para o bulício e tu, sorrindo,
Vibras como uma corda de guitarra…
É que o sol, quando queima a tua pele,
Dá-te o grande desejo boêmio e lindo
De ser flor, de ser pássaro ou cigarra

Cigarra cor de mel. Extraordinária!
Cigarra! Quem me dera
Que eu fosse um velho cedro adusto e bronco,
E tu, nessa alegria tumultuária,
Viesses pousar sobre o meu tronco
Ainda tonta do sol da primavera.

Terias glórias vegetais sendo vivente.
Mas um dia de lívidos palores,
Tu, cigarra, que vieste não sei donde,

Morrerias de fome lentamente
No teu leito de liquens e de flores
No aconchego sutil da minha fronde.

E eu, na dor de perder-te, no abandono,
Sem ter roubado dessa mocidade,
Do teu corpo de flor um perfume sequer,
Morreria de tédio e de saudade…
Figurinha de Outono!
Cigarra que o destino fez mulher!

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

 

O Carrasco num Pátio

Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Eduardo Portugal, sem data, Arquivo Municipal de Lisboa)

Para além do Beco do Carrasco, junto à Rua do Poço dos Negros, Lisboa tem também um Pátio do Carrasco  que nasce junto ao Largo do Limoeiro e até julho de 1974, também na proximidade da cadeia que também usava essa toponímia de árvore.

Segundo Luís Pastor de Macedo, o Pátio do Carrasco aparece referido pela primeira vez em 1689. Antes, teria sido conhecido como Pátio do Limoeiro ( por volta de 1630), Pátio do Terreiro do Limoeiro (1682) e Pátio Defronte do Limoeiro (1686). Mais informa o olisipógrafo que antes de 1888, lhe começou a ser dado o nome de Pátio do Gama mas tal topónimo não vingou na memória do local.

O Pátio do Carrasco por Alfredo Roque Gameiro

Sobre a origem do topónimo sugere ainda Pastor de Macedo que «O nome do pátio indica-nos que seria ali a morada dos carrascos em casa paga pelo rei, ou revela sòmente a estada temporária de qualquer daqueles executores da Justiça? Não sabemos responder; no entanto, talvez que o nome primitivo de Pátio do Limoeiro, dê a este estabelecimento penal a aparência de proprietário do pátio ou de algumas das suas casas, aparência que mais se acentua depois de sabermos que entre o edifício da cadeia e o pátio corria um passadiço, que também comunicava com a Igreja de S. Martinho. Neste caso seria muito natural que uma daquelas casas fosse a residência oficial do carrasco.»  Pastor de Macedo acrescenta a nota de que no ano de 1706, dois carrascos morreram às mãos dos sentenciados.

Na zona do Limoeiro existia desde 1168 a igreja de São Martinho, em frente ao chamado Paço-a-Par de São Martinho, e ambos os edifícios estavam ligados por um arco sobre a rua. Por isso, quando em 1383 o Conde Andeiro  foi morto no Paço, o seu corpo  foi depositado na Igreja. O rei D. Manuel I mandou transformar este Paço em Casa da Suplicação e Casa do Cível, que assim passaram a coexistir com a Cadeia que já estava instalada no Limoeiro desde o séc. XV, no reinado de D. João II. Na 1ª metade do séc. XVIII, a cadeia sofreu alterações segundo um plano traçado pelo Arqº Volkmar Machado e  após o Terramoto de 1755 teve de ser reconstruída, sendo certo que entre 1758 e 1760, dos habitantes de S. Martinho 490 eram presos da Cadeia do Limoeiro.

Luís Pastor de Macedo anotou ainda que moraram neste Pátio, em 1756, José Carlos Freire (cantor da Igreja de S. Nicolau) e António Rodrigues (alcaide do bairro do Limoeiro), assim como  depois de 1846, Ana Gertrudes, mãe da Severa. No decorrer do séc. XIX, alguns documentos apontam para a falta de salubridade do local já que com data de 6 de setembro de 1854 encontramos um parecer  do delegado inspetor do Distrito Oriental Sanitário sobre uma vistoria ao Pátio do Carrasco, a solicitar que a Câmara promova limpezas regulares de modo a cessar o foco de infeção, assim como em 29 de outubro de 1857 o subdelegado do Círculo do Castelo solicita a limpeza de um saguão e o desentupimento dos desaguadouros do Pátio do Carrasco.

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

O Carrasco num Beco

Freguesia da Misericórdia
(Foto: José Vicente| Departamento de Património Cultural)

O algoz, executor último de uma pena de morte, está também inscrito na toponímia de Lisboa através do Beco do Carrasco, artéria que existe pelo menos desde 1733 e se abre junto ao nº 77 da Rua do Poço dos Negros, hoje território da Freguesia da Misericórdia.

Francisco Santana, na sua comunicação às 3ªs jornadas de Toponímia de Lisboa, em 1998, recordou a este propósito que «Ligado à morte e, mais, agente dela, o carrasco foi e é também objecto de sentimentos contraditórios: as sociedades pedem-lhe que exerça uma função que consideram necessária mas desprezam-no por a exercer. Mas vá lá, isso não levou a que desaparecessem como topónimos o Beco do Carrasco, ao Poço dos Negros, e o Pátio do Carrasco, ao Largo do Limoeiro». Os carrascos, pagos  pelo Estado, foram muitas vezes também homens que haviam sido eles próprios condenados à forca, que viram sua pena comutada tendo sido profissão. De acordo com o investigador Luís Farinha «A pena de morte é cada vez mais rara, fora do período das Invasões Francesas e da Guerra Civil, de 1826 e 1833. Nesses períodos era mais fácil o carrasco justificar a sua própria existência. A partir os anos 1840, as notícias são caricatas nesse sentido, porque não há carrasco, o carrasco desiste, não há pessoas que estejam dispostas a fazer aquele trabalho.» Com a abolição da pena de morte em Portugal em 1 de julho de 1867 deixou também de existir esta profissão.

Freguesia da Misericórdia – Placa de azulejo
(Foto: José Vicente| Departamento de Património Cultural)

O Beco do Carrasco  fixa neste arruamento um seu morador que exercia essa função. É um topónimo já firmado em 1733 nos registos paroquiais, dado que conforme relata Luís Pastor de Macedo foi neste Beco do Carrasco,  da então Freguesia de Santa Catarina de Monte Sinai,  que em 3 de outubro de 1733, nasceu Diogo Inácio de Pina Manique, filho de Pedro Damião de Pina Manique e Helena Inácia de Faria, personalidade que se viria a notabilizar como Intendente-Geral da Polícia do reinado de D. Maria I, orientado para a repressão das ideias oriundas da Revolução Francesa, designadamente através da proibição de circulação de livros e perseguição a diversos intelectuais.

Para além deste registo o topónimo Beco do Carrasco surge em mais documentos do séc. XVIII, como as descrições paroquiais imediatamente anteriores ao Terramoto de 1755, bem como nas plantas da remodelação paroquial de 1770 e posteriores em que aparece como a artéria paralela à Rua Marcos Marreiros (ou Barreiro ou Marreyro) e à Rua João Brás (ou João Braz), com a diferença de que estas duas artérias surgem já em documentos seiscentistas, mencionadas à Rua da Cruz de São Bento que era então a Rua dos Poços dos Negros que hoje conhecemos. Recordemos  que na passagem do séc. XVI para o XVII foi encomendado um plano de urbanização dos arruamentos da Bica, da Boa Vista e Poço dos Negros ao arquiteto contemporâneo Teodósio de Frias que escolheu uma tipologia da malha regular ordenada por eixos direccionais que articularam a zona com o exterior, formando um traçado em forma de espinha, mais solto na zona do Poço dos Negros/Boa Vista.

Lisboa comporta ainda um Pátio do Carrasco, junto ao Largo do Limoeiro, que amanhã será o tema do nosso artigo.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias| NT do Departamento de Património Cultural)

 

 

A Rua dedicada a Gilberto Freyre do luso-tropicalismo

Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias)

Por proposta do Sr. Appio Sottomayor e do Prof. Esteves Pereira, enquanto membros da Comissão Municipal de Toponímia, foi atribuído o nome de Gilberto Freyre em Lisboa, o que se concretizou pelo Edital municipal de 26/12/2001 na Rua M4 da Zona M de Chelas, em Marvila, sendo também atribuída a Rua Jorge Amado nas proximidades, fazendo com que no presente a Rua Gilberto Freyre una a Rua Jorge Amado à Avenida Vergilio Ferreira.

Gilberto Freyre (Brasil-Recife/15.04.1900 – 18.01.1987/Recife-Brasil) foi um sociólogo brasileiro que se distinguiu pela criação do conceito de luso-tropicalismo: uma natural e inata capacidade de adaptação dos portugueses aos trópicos teria permitido uma miscigenação cultural de índios, negros e lusos sendo essa a característica da colonização portuguesa.  Politicamente, esta tese teve grandes repercussões no Brasil por valorizar o papel importante dos índios e negros na formação da sociedade brasileira.

A sua obra mais conhecida é Casa Grande & Senzala (1933), onde traçou um quadro da fusão de raças e das heranças culturais com base luso-africana e o modo como esta fusão contribuiu para a identidade brasileira, pelo que recebeu elogios de Roland Barthes e Fernand Braudel.

Foi na sequência de uma visita a Cabo Verde, Guiné, São Tomé, Angola, Moçambique e Goa,  a convite do governo português, que Gilberto Freyre lançou o conceito de tropicalismo e luso-tropicalismo expresso nas suas obras O mundo que o português criou (1940),  O luso e o trópico (1961), Arte, ciência e trópico (1962), Homem, cultura e trópico (1962), A Amazónia brasileira e uma possível lusotropicologia (1964), para além de em 1966 ter iniciado um Seminário de Tropicologia que dirigiu até à sua morte.

Refira-se ainda que Gilberto Freyre se exilou em Portugal de 1930 a 1933, acompanhando o governador de Pernambuco, de quem era secretário particular, na fuga provocada pela Revolução de Outubro de 1930, que colocou Getúlio Vargas no poder.

Freguesia de Marvila (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do político liberal Rodrigo da Fonseca

A Rua Rodrigo da Fonseca em data entre 1898 e 1908                                                                                  (Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

Na antiga Azinhaga do Vale de Pereiro está desde 1884 fixado o político liberal Rodrigo da Fonseca, pela deliberação camarária de  28 de fevereiro e consequente Edital de 4 de março, na artéria que hoje se estende da Rua do Salitre à Rua Marquês de Fronteira.

Rodrigo da Fonseca Magalhães (Condeixa-a-Nova/24.07.1787-11.05.1858/Lisboa), ainda quando estudante em Coimbra, abraçou a carreira militar alistando-se no  Batalhão Académico sob o comando do lente de Matemática Tristão de Oliveira, para combater as invasões francesas de 1807. Dez anos depois, em 1817, sendo tenente e estando implicado na conspiração de Gomes Freire, abandonou o exército e refugiou-se no Brasil onde foi secretário do seu antigo comandante Luís do Rego Barreto e a partir de 1821, da Junta Governativa organizada após a Revolução Liberal do Porto. Ainda nesse ano de 1821, fundou o primeiro jornal político de Pernambuco, o Aurora Pernambucana.

Regressou a Portugal em 1822 com o general Luís do Rego Barreto de quem já era então genro, mas após o triunfo da Vilafrancada foram ambos deportados para a Figueira da Foz. Em 1824, Rodrigo da Fonseca obteve licença para morar em Viana do Castelo mas  em 1828, após se recusar a aderir à causa da monarquia absoluta de D. Miguel teve de se refugiar em Inglaterra, tendo embarcado com o seu amigo Silva Carvalho. Em Londres apresentou-se a Pedro de Sousa Holstein, futuro Duque de Palmela, que liderava a emigração constitucional portuguesa, sendo colocado na secretaria da embaixada, encarregue de dirigir os jornais liberais Aurora e Paquete de Portugal. 

Voltou de vez ao nosso país após o desembarque de D. Pedro IV no Mindelo, sendo então diretor-geral do Ministério dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça e administrador da Imprensa Nacional. Foi também deputado pelo Minho (1934); fundador com António Pereira dos Reis e redator do Revista; Ministro dos Negócios do Reino do Duque de Saldanha (1835)  período em que criou por decreto o Instituto de Ciências Físicas e Matemáticas em Lisboa mas revogado após protestos da Universidade de Coimbra e queda do governo, repetindo a pasta no governo do 1º Conde de Bonfim (1839) embora tenha contribuído para a sua queda defendeu no parlamento que não podia governar sem a liberdade da imprensa, voltando à pasta em 1851-1856 outra vez com o Marechal Saldanha; Ministro dos Negócios Estrangeiros (1841) no governo de Joaquim António de Aguiar; Conselheiro de Estado (1842); e ainda Par do Reino (1847).

Tendo fixado a sua residência em Lisboa na Rua dos Navegantes, onde veio a falecer, Rodrigo da Fonseca foi ainda sócio emérito da Academia Real das Ciências de Lisboa, sócio do Conservatório Real de Lisboa e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil. Recusou títulos nobiliárquicos mas mesmo assim foi galardoado como fidalgo cavaleiro da Casa Real (2 de agosto de 1835), com a grã-cruz da Ordem de Cristo, o grau de cavaleiro da Ordem da Torre e Espada, a Cruz n.º 4 das Campanhas da  Guerra Peninsular e a medalha britânica de 7 ações.

Freguesias de Santo António, Avenidas Novas e Campolide (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias de Santo António, Avenidas Novas e Campolide
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

A Rua Cervantes e o Autoparque Madrid

email-2017

Rua Cervantes - Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Rua Cervantes – Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

A ligar a Avenida João XXI à Avenida de Madrid encontramos hoje a Rua Cervantes, atribuída em 1948, hoje paralela ao Autoparque Madrid, um topónimo de 2001.

A Rua Cervantes resultou da publicação do Edital municipal de 29 de julho de 1948, fixada no arruamento identificado então como Rua D2 da Zona compreendida entre a Alameda Dom Afonso Henriques e a Linha Férrea de Cintura. Este Edital resultou da procura da edilidade lisboeta de imprimir algum cosmopolitismo à cidade, com doze topónimos, todos ligados a personalidades de cariz internacional ou a cidades europeias e brasileiras, onde couberam os nomes dos cientistas europeus Pasteur e Marconi, do inventor americano Edison, dos escritores Vítor Hugo (francês), Afrânio Peixoto e João do Rio (brasileiros), bem como Avenidas para Madrid, Paris e Rio de Janeiro, uma praça para Londres, para além da Avenida João XXI que homenageia o único Papa português.

A Rua Cervantes e o Autoparque Madrid - Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

A Rua Cervantes e o Autoparque Madrid – Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

O castelhano Miguel de Cervantes Saavedra (Alcalá de Henares/29(?).09.1547 – 22 ou 23 (?).04.1616/Madrid) foi um romancista, dramaturgo, poeta, soldado e cobrador de impostos, autor do famoso D. Quixote de la Mancha, considerado o primeiro romance moderno, que teve licença de impressão em 26 de setembro de 1604 e alcançou um êxito enorme com 9 edições em 1605: duas em Madrid, três em Lisboa (sem o consentimento do autor) e duas em Valência.

Cervantes enquanto soldado, lutou em Itália (1569), combateu na Batalha de Lepanto (1571), nas Jornadas de Tunes e da Goleta (1573), foi feito cativo por corsários em Argel (1575 – 1580), onde conheceu Manuel de Sousa Coutinho (Frei Luís de Sousa), de quem aliás narrou os amores em Trabajos de Pérsiles y Sesinanda (1616). Regressado a Espanha passou a ser cobrador de impostos e veio para Portugal em 1581 para conseguir entrar na corte de Filipe II de Espanha e I de Portugal, tendo ficado em Lisboa até 1583 e escrito  a ideia «Para festas Milão, para amores Lusitânia».

Em 2001, pelo Edital municipal de 3 de janeiro, o espaço compreendido entre a Avenida de Madrid, Rua Cervantes e Avenida João XXI passou a denominar-se Autoparque Madrid, referindo-se o topónimo à artéria onde se abre o Autoparque, uma nova categoria de via pública essencialmente destinada ao parqueamento automóvel cuja denominação corresponde sempre ao nome da artéria que lhe dá acesso.

Autoparque Madrid - Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Autoparque Madrid – Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

 

A Rua de Lacerda e Almeida das fronteiras do Brasil e primeiras longitudes de África

Freguesia da Penha de França (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Penha de França
(Foto: Sérgio Dias)

No troço do Caminho de Baixo da Penha entre a Avenida General Roçadas e a Rua Jacinto Nunes está desde a publicação do Edital de 23 de março de 1954 a Rua Dr. Lacerda e Almeida, em homenagem ao matemático que integrou a comissão de delimitação das fronteiras do Brasil com a Bolívia e a Venezuela e enquanto governador de Tete, em Moçambique, procedeu a uma exploração onde definiu as primeiras longitudes em África.

Já em 1949 e depois em 1953,  a Comissão Municipal de Toponímia foi do parecer que se denominassem os arruamentos do Vale Escuro com topónimos relacionados com figuras que em África cumpriram a política portuguesa, quer por obra governativa quer por delimitação de fronteiras. E assim para além da Rua Dr. Lacerda e Almeida os outros topónimos sugeridos foram a Praça Aires de Ornelas, a Rua Artur de Paiva, a Avenida Coronel Eduardo Galhardo, a Rua Francisco Pedro Curado, a Praça João de Azevedo Coutinho, o Largo General Pereira de Eça, a Avenida Mouzinho de Albuquerque, a Praça Paiva Couceiro , a Rua Teixeira Pinto e a Rua Eduardo Costa.

Francisco José de Lacerda e Almeida (Brasil – São Paulo/22.08.1750 – 18.10.1798/Cazambe-Moçambique), filho de José António de Lacerda (de Leiria) e de Francisca de Almeida (de São Paulo) concluiu o curso de matemática na Universidade de Coimbra em 1776 e no ano seguinte concluiu o doutoramento, conseguindo em 1778 ser convidado para o serviço do Estado, como geógrafo, astrónomo e matemático. Neste contexto, integrou os trabalhos de demarcação das fronteiras entre Portugal e Espanha (1779), resultantes da assinatura do Tratado de Santo Ildefonso e seguiu depois para o Brasil (1780) para a delimitação das fronteiras com a Bolívia e a Venezuela, para além de ter executado levantamentos que podem ser classificadas como geográficos, para obter dados geodésicos, destinados a apoiar a cartografia da região. Fez ainda uma viagem de investigação dos rios Cuiabá, Paraguai, Taquari, Cochim, Camampoan, Pardo, parte do Paraná e todo o Tieté e regressou a Lisboa em 1790. 

Em setembro do ano seguinte passou a docente de Matemática na Real Academia dos Guarda-Marinhas, funções que exerceu até partir  para Moçambique em maio de 1797. Nesta época de explorações científicas, dentro do espírito do Iluminismo, Lacerda e Almeida queria seguir o curso do Zambeze, até à zona da nascente, para aí procurar a nascente do Cunene, que corria para a costa ocidental e iniciou a expedição em 3 de julho de 1798, no decorrer da qual contraiu malária, chegando o «Geral de Tete», como era conhecido, já bastante debilitado ao Cazembe em outubro, onde veio a falecer.  A sua expedição foi a  primeira a determinar longitudes em África por métodos astronómicos rigorosos, tendo os seus registos sido publicados em 1844 (Diário da viagem de Moçambique para os rios de Senna [na Zambézia] feita pelo governador dos mesmos rios Dr. Francisco José de Lacerda e Almeida).

Supõe-se que tenha sido eleito membro da Academia de Ciências de Lisboa, em 1791 ou 1795, mas nem todos os autores estão de acordo nesta questão.

Para além da rua que lhe foi dedicada em Lisboa 156 anos após o seu falecimento, o seu nome também se tornou topónimo na cidade Pontes e Lacerda no Estado do Mato Grosso (homenagem a Silva Pontes e Lacerda e Almeida); no Rio Lacerda e Almeida no Estado de Rondônia; na Ilha Lacerda e Almeida no Rio Paraná; assim como uma povoação moçambicana na margem direita do Zambeze recebeu em 1893 o nome de Lacerdónia.

 

Freguesia da Penha de França (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

 

.

Os últimos topónimos atribuídos em 1916

Freguesias de Arroios e Penha de França (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias de Arroios e Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

O último Edital municipal de toponímia de 1916 foi publicado no dia 27 de novembro e incluiu 6 topónimos: dois relacionados com o topónimo Penha de França em dois locais distintos da cidade, três de conselheiros já sediados em Arroios aos quais foi retirado esse título,  e um referente a heróis da I Guerra Mundial numa artéria repartida entre a Penha de França e Arroios.

De acordo com as deliberações da sessão de câmara de 23/11/1916, o vereador Manuel Joaquim dos Santos apresentou uma solicitação da Junta de Freguesia de Arroios para que fossem alterados alguns topónimos de forma a «que se instaure um processo de expropriação de uma parcela de terreno na quinta do Fole à estrada da Penha de França e se passe a dar denominação de rua da Penha de França, à rua da Penha de França (á Escola Politecnica) a de calçada da Penha de França, á rua Conselheiro Carrilho a de Antonio Pereira Carrilho, à rua Conselheiro Monteverde a de rua Achiles Monteverde, à Rua Conselheiro Morais Soares, a de rua Morais Soares, e á do Caracol da Penha, a de rua dos Herois do Kionga», o que foi aprovado por unanimidade.

Assim, a Estrada da Penha de França passou a Rua da Penha de França  e importa esclarecer a origem do topónimo Penha de França neste local. António Simões, um escultor de imagens sacras ou imaginário, como se dizia na sua época, encontrando-se perdido em Alcácer Quibir fez promessa de que se voltasse a Portugal fabricaria várias imagens de Nossa Senhora e lhes daria um destino condigno. De regresso,  chamou Senhora da Penha de França (uma invocação de um santuário de Salamanca) à última imagem que produziu  e esta foi inicialmente colocada na Igreja da Vitória da Baixa lisboeta até o escultor ter erguido uma Ermida,  no Monte Alperche, em terrenos de Afonso Torres de Magalhães, onde a dita imagem de Nossa Senhora da Penha de França se acolheu em 1597, apesar da Ermida ter ficado concluída apenas no ano seguinte. Passados seis anos, em 1604, começou a construir-se no local uma nova Igreja, maior e com Casa Conventual, concluída em 1635 e que acabou por estender o nome da Senhora da Penha de França a todo o sítio, até chegar a ser também o da própria freguesia.

Pormenor da planta de Filipe Folque de 1857 (Arquivo Municipal de Lisboa)

Pormenor da planta de Filipe Folque de 1857
(Arquivo Municipal de Lisboa)

Ora já existia uma Rua da Penha de França nas proximidades da Rua da Escola Politécnica,  o que causaria equívocos caso existissem duas na cidade pelo que foi aprovado que esta passasse a designar-se como Calçada da Penha de França em 1916, embora de seguida tenha sido a Calçada João do Rio e hoje a encontremos como Calçada Engº Miguel Pais (desde a publicação do Edital municipal de 23/12/1948). Nesta artéria, quando ainda era designada como Rua da Penha de França, nasceu Maria Matos em 1886.

Já António Pereira Carrilho, Aquiles Monteverde e Morais Soares ficaram sem o título de conselheiro no enunciado dos topónimos, trocado que foi pelos seus próprios nomes, uma vez que na  I República era característico eliminar da toponímia referências à monarquia e o título de conselheiro era atribuído pelo soberano, tradicionalmente aos magistrados do Supremo Tribunal, mas também concedido a quem tivesse prestado serviços honrosos ao país.

Antonio Pereira Carrilho, Diário Ilustrad, 19 de março de 1880

António Pereira Carrilho, Diário Ilustrado, 19 de março de 1880

António Pereira Carrilho, a cujo topónimo acresceu mais tarde a legenda «Notável Economista e Jornalista/1835 – 1903 » por parecer da Comissão Municipal de Toponímia de 03/03/1960, antes de ser Rua do Conselheiro Pereira Carrilho era um troço da antiga Estrada de Circunvalação. O homenageado é António Maria Pereira Carrilho (Lisboa/10.10.1835 – 16.11.1903/Paris) que se notabilizou como Diretor Geral da Contabilidade Pública e Secretário Geral do Ministério da Fazenda, responsável por elaborar o Orçamento Geral do Estado ao serviço de diversos Governos e os explicar na Câmara dos Deputados. Carrilho desempenhou também a função de Presidente do Conselho de Administração da Real Companhia dos Caminhos-de-Ferro e também foi recompensado com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo. Fundou ainda O Economista em 1880 e colaborou com os jornais Diário Mercantil do Porto, Gazeta do Povo, Opinião O Progressista. Esta figura do rotativismo liberal foi ainda diversas vezes deputado a partir de 1875 e par do reino em 1902 e 1903.

aquiles-monteverde-livroAquiles Monteverde, cujo topónimo recebeu mais tarde a legenda «Escritor Didáctico e Diplomata/ 1803 – 1881» por parecer da Comissão Municipal de Toponímia de 19/04/1960, antes de ser Rua do Conselheiro Monteverde (Edital de 14/02/1882) era a Travessa Cruz do Tabuado. Perpetua o nome de Emílio Aquiles Monteverde (Lisboa/09.06.1803 – 07.01.1881/Lisboa), funcionário público desde que em 1821 começou como adido à legação portuguesa de Madrid, tendo chegado a secretário geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros em 1869 e antes, em 1850 foi galardoado com o título de conselheiro, a comenda da Ordem de Cristo e a de Cavaleiro da Torre e Espada. Foi também o autor Manual Enciclopédico para uso das Escola de Instrução Primária, no último quartel do séc. XIX, aprovado pela Junta Consultiva de Instrução Pública, sendo cada edição de dezenas e centenas de milhares de exemplares.

Finalmente, sobre a Rua Morais Soares e a Rua dos Heróis de Quionga, basta aqui carregar nos seus nomes sublinhados para ser dirigido para os artigos que já publicámos sobre eles.

A Rua do Inspetor de Incêndios Carlos José Barreiros

Freguesia de Arroios (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Carlos José Barreiros, com a legenda «Inspector de Incêndios», foi atribuída por edital municipal de 26 de setembro de 1916 no que era o troço da Estrada das Amoreiras que ligava o Largo de Arroios ao do Leão, a partir de uma proposta do vereador Augusto de Magalhães Peixoto, para  homenagear o funcionário camarário que se destacou como Inspetor de Incêndios.

Desconhecem-se as datas de nascimento e morte de Carlos José Barreiros, embora se possa calcular que tenha falecido antes de 1901, ano da atribuição da Rua Tomás Ribeiro, já que para a construção dessa artéria encontramos um documento municipal de expropriação de terrenos aos herdeiros de Carlos José Barreiros, com datas entre 1894 e 1908.

A Câmara Municipal de Lisboa criou a primeira Companhia de Bombeiros em 1834, conhecida como Companhia do Caldo e do Nabo, no mesmo ano em que estabeleceu uma tabela codificada dos toques a rebate. E dezassete anos depois (1851), publicou um novo Regulamento do Serviço de Incêndios. Antes de 1868, Carlos José Barreiros foi nomeado inspetor de incêndios e foi segundo uma proposta sua que os serviços de incêndio passaram a ser uma Repartição da Câmara, resolução que foi publicada em 1867. Recorde-se que no ano anterior Carlos José Barreiros havia publicado o Itinerário para os socorros dos incendios em Lisboa.

Em 18 de outubro de 1868, junto com o vereador Isidro Viana, que detinha o Pelouro dos Incêndios, Carlos José Barreiros participou numa reunião  no edifício da Abegoaria Municipal, na qual se deu corpo à formação da Companhia de Voluntários Bombeiros (CVB), sob a divisa Humanitas, vita nostra tua est, presidida por Guilherme Cossoul, e que mais tarde se denominaria Associação dos Bombeiros Voluntários de Lisboa (ABVL), tendo o seu primeiro quartel funcionado numa casa arrendada na Travessa de André Valente e a sede instalada na Travessa do Carvalho, também em espaço arrendado.

Carlos José Barreiros deu ainda à estampa, através da Tipographia Universal, Incendios: estado do serviço em 1870 (1871) e O incendio da Travessa da Palha: memória dedicada à Exma. Câmara Municipal de Lisboa (1887), sendo que todas suas obras revolucionaram o sistema de organização do combate aos incêndios e tornaram mais eficazes os serviços de luta contra o fogo na cidade de Lisboa. No seu relatório sobre o serviço no ano de 1870 louvou os bombeiros voluntários: «Ocupando-me de bombeiros não posso terminar sem aproveitar o ensejo de pagar o devido tributo de homenagem e reconhecimento à Humanitária Associação que sob modesto titulo de Bombeiros Voluntários tantos e tão apreciáveis serviços tem feito a esta cidade nos dois últimos anos. Alguns dos sócios, que têm procurado instruir-se, já são bombeiros tão aptos como os homens de profissão, e não só se chegam para o fogo, mas como batem-se com tanto acerto e tanto sangue frio como eles. (…) No nosso país é uma ideia apenas nascente, mas prometedora, porque já tem adquirido incontestáveis direitos não só aos aplausos, mas como a bênção do público.»

Em 4 de junho de 1880, Carlos José Barreiros fundou o Montepio de S. Carlos, que no ano seguinte aprovou os seus primeiros estatutos, nos quais são estabelecidos os critérios para atribuição de subsídios, pensões, enterros e legados a que os sócios têm direito. Mais tarde, os bombeiros, em homenagem ao seu fundador resolveram alterar o título da instituição para Associação dos Socorros Mútuos Carlos José Barreiros dos Bombeiros Municipais de Lisboa, que depois passou a Real Associação de Socorros Mútuos Carlos José Barreiros.

Sabe-se também que José Barbosa Leão que em 1864 fundara o Jornal de Lisboa, cedeu pouco depois  sociedade a Carlos José Barreiros, que acabou por ficar com a propriedade exclusiva do jornal.

Os Bombeiros Voluntários da Ajuda, fundados em 1881, deram ao seu quartel na Praça da Alegria, o nome de Carlos José Barreiros.

Freguesia de Arroios (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Avenida do mestre da guitarra portuguesa Carlos Paredes

Freguesia do Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

Como se fosse o braço de uma guitarra portuguesa está a Avenida Carlos Paredes, sendo o corpo do instrumento os arruamentos com topónimos ligados à música, de ambos os lados, e a Alameda da Música um dedo a tanger as cordas.

O que quer dizer mais prosaicamente que o mestre da guitarra portuguesa Carlos Paredes ficou perpetuado na freguesia do Lumiar, na Avenida 2 do Plano de Urbanização no Alto do Lumiar através da publicação do Edital municipal de 06/10/2005,  junto à Alameda da Música e de outras ruas com topónimos de compositores, instrumentistas e cantores, sendo a primeira vez que um nome ligado à Música foi consagrado numa avenida de Lisboa.

carlos-paredes

Carlos Paredes (Coimbra/16.02.1925 – 23.07.2004/Lisboa), símbolo ímpar da cultura portuguesa e um dos seus grandes guitarristas, nasceu filho, neto e bisneto de grandes vultos da guitarra portuguesa – Artur, Gonçalo e António Paredes -, o que o influenciou a estudar  este instrumento logo a partir dos 4 anos. Veio residir para Lisboa aos 9 anos, estudou no Liceu Passos Manuel e num colégio particular e aos 18 anos fez o exame de admissão ao Curso industrial do Instituto Superior Técnico, onde frequentou o primeiro ano.

Em 1949, aos 24 anos, apresentou-se em parceria com o seu pai no programa semanal deste na Emissora Nacional e nesse mesmo ano tornou-se funcionário do Hospital de São José, como arquivista de radiografias. Em 1958 aderiu ao Partido Comunista Português e por denúncia de colegas de trabalho, foi preso pela PIDE no dia 26 de setembro acusado de ser militante comunista, sendo libertado 18 meses depois e expulso da função pública, pelo que trabalhou alguns anos como delegado de propaganda médica.

E contudo, Carlos Paredes tornar-se-á uma figura nacional e até reconhecida internacionalmente, como executante, compositor e um dos grandes responsáveis pela divulgação e popularidade da guitarra portuguesa, o que lhe granjeou os epítetos de O Mestre da guitarra portuguesa e O homem dos mil dedos. Usou uma guitarra de Coimbra e a afinação do Fado de Coimbra mas a sua vida em Lisboa inspirou-lhe e marcou inúmeras das suas composições.

A sua discografia soma os singles  Mudar de Vida, António Marinheiro e Balada de Coimbra (todos em 1972); os EP’s Carlos Paredes (1957), Porto Santo, Divertimento e  Variações em Ré Menor (todos em 1968); bem como os álbuns Guitarra Portuguesa (1967), Movimento Perpétuo (1971), Carlos Paredes-Meister der portugiesischen Guitarre (1977, na RDA), O Oiro e o Trigo (1980, na RDA), Concerto em Frankfurt (1983), Espelho de Sons ( 1988), Na Corrente (1996), Canção para Titi (2000). Acrescem ainda os seguintes: acompanhou Ary dos Santos a declamar poemas (1969) ; foi  produtor, diretor musical e acompanhador em Meu País (1971) da cantora Cecília de Melo; É preciso um País (1974), música com poemas de Manuel Alegre declamados pelo poeta; colabora em Que Nunca Mais (1975) de Adriano Correia de OliveiraInvenções Livres (1986) em dueto com o piano de António Vitorino de Almeida; Dialogues (1990) em dueto com o contrabaixista de jazz Charlie Haden; participação especial no disco dos Madredeus, gravado ao vivo no Coliseu dos Recreios (1992).

Para o cinema entrou  em 1960, ao compor a banda sonora da curta-metragem Rendas de Metais Preciosos de Cândido Costa Pinto, a que seguiu dois anos depois o êxito de Os Verdes Anos para o realizador Paulo Rocha, de que sairá também um EP no mesmo ano de 1962. E durante está década foi pródigo em ligar-se ao cinema novo português ao compor para filmes de outros cineastas como Pierre Kast (P.X.O., 1962), Jorge Brun do Canto (Fado corrido, 1964), Manoel de Oliveira (As pinturas do meu irmão Júlio,1965), Paulo Rocha (Mudar de vida, 1966), António de Macedo (Crónica do esforço perdido, 1966), José Fonseca e Costa (A cidade, 1968; The Columbus route, 1969), Manuel Guimarães (Tráfego e estiva, 1968) ou Augusto Cabrita ( Na corrente, documentário para a RTP, 1969). Em 1974 o próprio Pier Paolo Pasolini o convidou para musicar um filme seu mas a morte do realizar inviabilizou o intento.

Mas Paredes também compôs para teatro: na histórica encenação de Fernando Gusmão para o Teatro Moderno de Lisboa (1964);nas Bodas de Sangue do CITAC; em A Casa de Bernarda Alba pelo Teatro Experimental de Cascais; em O avançado centro morreu ao amanhecer encenada pelo Grupo de Teatro de Campolide (1971), mantendo até 1977 colaboração com este Grupo; O Avarento produzida pelo Teatro Na Caixa (1984).  Vasco Wallenkamp    também usou a    música de Paredes para criar o bailado Danças para Uma Guitarra (1982).

Após o 25 de Abril de 1974, Carlos Paredes  foi reintegrado nos quadros do Hospital de S. José e o anúncio televisivo diário das primeiras eleições livres para a Assembleia Constituinte tinha música sua.

A última actuação em público de Carlos Paredes foi em Outubro de 1993, na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, acompanhado por Luísa Amaro.

Ao longo da sua carreira acumulou o Prémio da Casa da Imprensa como Solista (1961), o  Prémio da Casa da Imprensa para Música Ligeira e o Prémio Consagração de Carreira (1981), o  Troféu Nova Gente, o Troféu Prestígio do Jornal Sete e  o Prémio Bordalo da Casa da Imprensa (todos em 1984 ), o  Prémio Antena Um em 1987 e em 1988, bem como feito Comendador da Ordem Militar de Santiago da Espada (1992), Pedro Jóia gravou Variações Sobre Carlos Paredes (2001), a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira instituiu um prémio com o seu nome (2002) e  em junho de 2003, a Universal lançou um disco de homenagem intitulado Movimentos Perpétuos: Música para Carlos Paredes, para além de Mísia ter lançado Canto (2003), composto por canções expressamente escritas para músicas de Carlos Paredes.

Uma doença do sistema nervoso central diagnosticada em dezembro de 1993 impediu-o de tocar durante os últimos 11 anos da sua vida, tendo sido decretado um dia de Luto Nacional aquando do seu falecimento e sepultado no Talhão dos Artistas do Cemitério dos Prazeres. Postumamente,  Edgar Pêra dedicou-lhe o filme Movimentos Perpétuos: Tributo a Carlos Paredes (2006).

Freguesia do Lumiar (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)