A Rua de Casimiro Freire, o mecenas das Escolas Móveis João de Deus, no Bairro dos Aliados

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

Casimiro Freire, o mecenas republicano que em 1882 fundou a  Associação de Escolas Móveis pelo Método de João de Deus, dá nome a uma rua do Bairro dos Aliados, com a legenda «Apóstolo da Instrução Popular/Século XIX», desde junho de 1926.

Casimiro Freire foi fixado na Rua nº 5 do Bairro dos Aliados à Rua Carvalho Araújo, nos terrenos do antigo Areeiro também conhecido como Quinta do Bacalhau, pela deliberação camarária de 12 de junho de 1926 e edital de dia 25 do mesmo mês. Pelo mesmo edital foi também homenageado, na Rua nº 4,  João de Menezes , um «Precursor do Regime Republicano/Século XIX».

Casimiro Freire (Sertã – Pedrogão Pequeno/08.10.1843 – 20.10.1918/Lisboa) era um comerciante e industrial cuja prosperidade o tornou num mecenas da alfabetização. Assim, publicou em 29 e 30 de março de 1881, no jornal O Século, um artigo intitulado «A instrução do povo e a monarquia», onde se insurgia contra a incúria dos governos monárquicos no combate ao analfabetismo e propunha que fossem enviados aos mais recônditos lugares de Portugal missões de alfabetização de professores habilitados que ensinassem a ler e a escrever. Numa época em que 80% da população portuguesa era iletrada, Casimiro Freire fundou em 18 de maio de 1882, com João de Deus, a Associação das Escolas Móveis pelo Método de João de Deus e em 1897 publicou também em folheto uma representação à Câmara dos Deputados intitulada A Instrução do Povo e o Método de João de Deus. Acompanharam-no nessa iniciativa personalidades, como João de Barros, Bernardino Machado, Jaime Magalhães Lima, Francisco Teixeira de Queiroz, Ana de Castro Osório e Homem Cristo, entre outros. Cedeu a João de Deus, um primeiro andar dos armazéns onde trabalhava, no Largo do Terreiro do Trigo, para ser a sede da Associação de Escolas Móveis pelo Método de João de Deus.

Mais tarde, em 1915, por decreto de 5 de junho do Ministro da Instrução Pública, Sebastião Magalhães Lima, foi encarregue da catalogação e organização do Museu Bibliográfico, Pedagógico e Artístico João de Deus, serviço que concluiu em 30 de junho de 1916. E por decreto de 23 de dezembro de 1916, também lhe foi destinada a guarda e conservação do museu até à sua instalação definitiva junto ao Jardim-Escola João de Deus, na Avenida Álvares Cabral.

Republicano desde 1862, foi em 1876 um dos fundadores do primeiro Centro Republicano com Oliveira Marreca e Sousa Brandão entre outros, e em 1899, a partir da comissão paroquial republicana da freguesia de Santa Isabel foi eleito para o diretório do Partido Republicano Português. Em 1884 foi eleito vereador por Lisboa, mas o apuramento na Câmara Municipal não lhe confirmou a votação mas já em 1911 foi o mais votado da Junta Consultiva do Partido Republicano. Colaborou também na imprensa republicana, nomeadamente no Democracia (1873) – jornal dirigido por Elias Garcia -, e no Vanguarda.

Casou com Maria Madalena Battaglia, sogra de João de Deus, no segundo casamento desta, e com ela residiu nº 20 C-1º da Rua das Gaivotas.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do Presidente da CML, Portugal Durão, no Bairro da Bélgica

Freguesia das Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

Albano Augusto Portugal Durão,  o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa de 1923 a 1925, passou a ser o topónimo das Ruas C e G do Bairro da Bélgica, com a legenda «Insigne Colonial/1871 – 1925», desde a publicação do Edital de 30 de junho de 1926.

A Comissão de Melhoramentos do Bairro da Bélgica sugeriu à autarquia lisboeta em 10 de maio de 1926  que fossem atribuídos nos arruamentos do seu Bairro topónimos alusivos à Bélgica, seguindo o exemplo do sucedido dez anos antes no Bairro de Inglaterra, em 1916. E assim, o Edital municipal de 30/06/1926 aí fixou os belgas Cardeal Mercier (arcebispo primaz da Bélgica que em 1915 publicou uma Carta Pastoral incitando ao patriotismo) – na Rua E do Bairro do Bélgica –  e General Leman (heróico defensor de Liège) – na Rua D – , colocando nas restantes artérias Tomás Cabreira (republicano que foi ministro das Finanças em 1914), o então último Presidente da CML  (Albano Augusto Portugal Durão que presidiu à edilidade de 1923 a 1925) e ainda, a Rua Costa Goodolfim e a Rua Visconde de Menezes, que neste local nunca passaram do papel.

Cerca de 6 anos mais tarde, pelo Edital camarário de 12/03/1932, foi dado à Rua A o nome Rua Dr. Álvaro de Castro, em homenagem àquele que comandara o Corpo Expedicionário Português a partir de 1916 e se demitira aquando da vitória de Sidónio Pais.

Rua Portugal Durão Albano

Albano Augusto Portugal Durão (Sertã/22.03.1871 – 13.11.1925/Lisboa) assentou praça na Marinha  em 1887 e em 1918, já era capitão-tenente. No decurso da sua vida militar, participou em campanhas em terras de África, como  o reconhecimento dos territórios de Milange, Namulia e Lomue, bem como desempenhou cargos civis de relevo, como o de administrador dos Transportes Marítimos do Estado e da Companhia da Zambézia, para além de diretor de Minas em Tete (Moçambique), e ainda, como membro do Conselho Fiscal do Banco Industrial Português.

Republicano membro do Partido Democrático, iniciou-se na política como ministro da Agricultura de Bernardino Machado, em 1921, sendo exonerado a seu pedido em 19 de maio. No ano seguinte foi eleito deputado por Lisboa, funções que exerceu até 1925, e sendo também Ministro de António Maria da Silva nos seus 2º e 3º governos, na pasta das Finanças ( de 6 de fevereiro a 26 de agosto de 1922, por ter pedido a demissão ) e depois, na dos Negócios Estrangeiros, entre 1 de julho e 1 de agosto de 1925. Portugal Durão foi também Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, no período de 5 de abril de 1923 até à sua morte em 13 de novembro de 1925.

Ainda no âmbito da participação de Portugal na I Guerra Mundial, Portugal Durão foi vogal da Comissão Executiva da Conferência da Paz e foi agraciado com a comenda da ordem Militar de Avis (1919).

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Franklim do Bairro América

Freguesia de São Vicente (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de São Vicente
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Franklim estava identificada como Rua nº 1 do Bairro América, urbanização então de construção recente na Quinta das Marcelinas à Rua do Vale de Santo António, quando a deliberação camarária em 25 de novembro de 1918 decidiu atribuir-lhe um topónimo referente a uma personalidade americana e ficando a ligar a Rua Fernão de Magalhães à Rua dos Cortes Reais, embora o Edital só tenha sido publicado 6 anos depois, em 17 de outubro de 1924.

O Bairro América passou a conter os seguintes topónimos: «Que se denomine Bairro America, o bairro em construção na Quinta das Marcelinas na rua do Vale de Santo Antonio e que os respectivos arruamentos tenham as designações seguintes: o nº 1, rua Franklin; o nº 2, rua Washington [ o primeiro presidente dos Estados Unidos da América]; o nº3, rua Ruy Barbosa [político e jornalista brasileiro que defendia o princípio da igualdade das nações]; o nº 4, rua Bolivar [Simon Bolívar que combateu o domínio espanhol na América do Sul, comandando as revoluções que promoveram a independência da Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia]; a nº 5, rua do Costa Reais [refere-se à Rua dos Cortes Reais, família de navegadores portugueses que empreenderam navegações para o continente americano]; o nº 6, rua Fernão de Magalhães  [o primeiro navegador a fazer uma viagem de circum-navegação], e o nº7, rua Alvaro Fagundes [navegador português do século XVI que explorou a costa austral da Terra Nova]. Deliberação camararia de 25 de Novembro de 1918». Acrescente-se que os arruamentos Rua Bolivar e Rua Álvaro Fagundes nunca tiveram execução prática, embora, em 1971, o nome de Álvaro Fagundes tenha regressado para a toponímia lisboeta para dar nome à Rua C, à Rua General Justiniano Padrel.

Rua Franklim BenjaminEstadista, cientista e escritor norte-americano Benjamim Franklin (Boston/17.01.1706 – 17.04.1790/Filadélfia), lutou contra a escravatura e fez mesmo o Memorial para a sua abolição enquanto Presidente da Sociedade Pensilvaniana para além do seu papel preponderante na independência dos Estados Unidos da América. Franklin foi o porta-voz dos colonos junto dos ingleses; integrou a Comissão redatorial da Declaração da Independência; foi membro da Convenção para redigir a Constituição Nacional (1787); e assinou com a Grã-Bretanha o Tratado de Versalhes que reconhecia a independência das 13 colónias norte-americanas.

Benjamim Franklin foi ainda um cientista: demonstrou a identidade do raio e da electricidade e inventou o pára-raios, para além de ter sido compositor gráfico, publicado jornais (The New-England Courant), ter sido escritor ( Poor Richard’s Almanac) e o 1º representante do realismo norte-americano ( O Sermão do pai Abraão).

Freguesia de São Vicente (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Washington no Bairro América

Freguesia de São Vicente (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de São Vicente
(Foto: Sérgio Dias)

A 25 de novembro de 1918, ou seja 14 dias após a assinatura do armistício de Compiègne que põe fim à  I Guerra Mundial, e no ano seguinte ao da entrada dos Estados Unidos da América no conflito já que haviam declarado guerra à Alemanha em abril de 1917, a Câmara Municipal de Lisboa deliberou que o novo bairro que estava a ser construído na Quinta das Marcelinas se denominasse Bairro América e que todas as suas artérias tivessem como topónimos figuras ligadas ao continente americano.

E assim foram atribuídos os seguintes topónimos : «Que se denomine Bairro America, o bairro em construção na Quinta das Marcelinas na rua do Vale de Santo Antonio e que os respectivos arruamentos tenham as designações seguintes: o nº 1, rua Franklin [Benjamin Franklin, estadista norte-americano fulcral na independência das 13 colónias inglesas para a construção dos estados americanos]; o nº 2, rua Washington; o nº3, rua Ruy Barbosa [político e jornalista brasileiro que defendia o princípio da igualdade das nações]; o nº 4, rua Bolivar [Simon Bolívar que combateu o domínio espanhol na América do Sul, comandando as revoluções que promoveram a independência da Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia]; a nº 5, rua do Costa Reais [refere-se à Rua dos Cortes Reais, família de navegadores portugueses que empreenderam navegações para o continente americano]; o nº 6, rua Fernão de Magalhães [o primeiro navegador a fazer uma viagem de circum-navegação], e o nº7, rua Alvaro Fagundes[navegador português do século XVI que explorou a costa austral da Terra Nova]. Deliberação camararia de 25 de Novembro de 1918». Acrescente-se que os arruamentos Rua Bolivar e Rua Álvaro Fagundes nunca tiveram execução prática, embora, em 1971, o nome de Álvaro Fagundes tenha regressado para a toponímia lisboeta para dar nome à Rua C à Rua General Justiniano Padrel.

O respetivo Edital desta deliberação municipal só foi publicado em 17 de Outubro de 1924, «Por não terem sido publicados, em devido tempo, os respectivos editais, e por cumprir a esta Comissão Executiva dar execução ás deliberações do Senado Municipal».

Freguesia de São Vicente (Foto: Artur Matos)

Freguesia de São Vicente
(Foto: Artur Matos)

O homenageado da Rua Washington é George Washington (Westmoreland/22.02.1732 –  14.12.1799/Mount-Vernon), o 1º Presidente dos Estados Unidos da América, uma federação de estados republicanos, unanimemente eleito na convenção de Filadélfia de 13 de maio de 1787 e que desempenhou esse cargo até 1797, porque se recusou a aceitar um 3º mandato, sendo o seu nome dado à capital federal dos Estados Unidos da América em 1790.  Ainda em 1918, mas anterior a este topónimo, já que foi no mês de setembro, o Edital municipal de dia 24 havia consagrado em Lisboa outro Presidente dos Estados Unidos da América, com a Avenida Presidente Wilson, perpetuando aquele que foi o presidente americano de 1911 a 1921, ou seja, o que presidiu no decorrer da I Guerra Mundial e também por isso Prémio Nobel da Paz em 1919.

Freguesia de São Vicente (Foto: Sérgio Dias, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua Washington na esquina com a Rua do Mato Grosso em 1975
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Freguesia de São Vicente (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do republicano poeta Milton de Paraíso Perdido

Freguesias de Arroios e Penha de França (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias de Arroios e Penha de França
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Poeta Milton, no Bairro de Inglaterra, nasceu há 100 anos na Rua Margarida do antigo Bairro Brás Simões –  referindo o nome do comerciante e proprietário daquelas terras e daquela urbanização -, pelo Edital de 29 de agosto de 1916, que também atribuiu a Rua Cidade de Cardiff, a Rua Cidade de Liverpool, a Rua Cidade de Manchester e a Rua Newton.

Sabe-se também as ruas Poeta Milton, dos Remédios, de São Gens, de Santiago, da Saudade, Barão de Sabrosa, Cavalheiro de Oliveira e Calçada da Graça foram de novo pavimentadas em 1934, graças a adjudicação da edilidade  a Artur Fernandes Alves Ribeiro em 24 de maio desse ano.

John Milton (Londres/09.12.1608 – 08.11.1674/Londres), poeta e defensor da República Inglesa é o inscrito nesta rua do Bairro de Inglaterra, paralela à Rua Newton, entre a Rua Cidade de Liverpool e a Rua Cidade de Manchester.

John Milton foi um poeta, polemista republicano, intelectual e funcionário público da Comunidade da Inglaterra sob Oliver Cromwell, servindo como ministro de línguas estrangeiras.  Licenciado pela Christ’s College da Universidade de Cambridge em 1629 e com mestrado de artes em 1632, escreveu panfletos de controversas teológicas (1639) mas 15 dias após a implantação da República publicou uma defesa do acto de execução de Carlos I e outros panfletos que lhe valeram a fama europeia de polemista (1649). Ainda em 1649, foi nomeado Secretário de línguas estrangeiras do Conselho de Estado e apesar de cegar em 1652, cumpriu os seus deveres até à abdicação de Ricardo Cromwell em 1659.  Após a Restauração (1661)  continuou a defender a república e a criticar a monarquia para além de se dedicar ao trabalho literário, com elegias latinas, opúsculos, alegações a favor da liberdade de Imprensa, alguns sonetos e o grande  poema épico Paradise Lost (1667), publicado em 10 volumes.

Freguesias de Arroios e Penha de França (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias de Arroios e Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua de Sir Newton que esteve para ser de Lord Byron

Freguesia de Arroios (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Newton, começou por ser proposta na reunião de Câmara de 17 de agosto de 1916 como Rua Lord Byron mas no Edital de 24 do mesmo mês passou antes a homenagear Newton, sendo os restantes arruamentos do bairro denominados Rua Cidade de Cardiff, Rua Cidade de Liverpool, Rua Cidade de Manchester e Rua Poeta Milton, ficando assim perpetuadas no Bairro de Inglaterra uma personalidade inglesa das área das ciências e outra da área das letras, para além de três cidades do Reino Unido.

A Rua Newton, que vai da Rua Cidade de Liverpool à Rua de Moçambique, era a Rua Aurora do antigo Bairro Brás Simões, comerciante e proprietário das terras que urbanizou e que crismou as artérias com nomes de familiares seus, como era costume na época antes de entregar os seus arruamentos particulares à Câmara em 13 de outubro de 1913, o que permitiu à edilidade pelo Edital de 24 de agosto de 1916 passar também a Rua Maria Gouveia a Rua Cidade de Cardiff , a Rua José de Sousa a Rua Cidade de Liverpool, a Rua Isabel Leal a Rua Cidade de Manchester e a Rua Margarida a Rua Poeta Milton.

@ NewtonIsaac Newton (Woolsthorpe/25.12.1642 ou 04.01.1643 – 20.03.1726 ou 31.03.1727/Kensington), por muitos considerado o pai da ciência moderna, descobriu a Lei da Gravidade, a fórmula do Binómio, a lei da viscosidade e a natureza corpuscular da luz. Foi um cientista reconhecido como físico, matemático, astrónomo, alquimista, filósofo e teólogo. A sua Principia (Philosophiae Naturalis Principia Matematica), publicada em 1687, onde descreveu a lei da gravitação universal e as suas três Leis – Lei da Inércia, Lei Fundamental da Dinâmica, Lei da Ação-Reação – que fundamentam a mecânica clássica, é reconhecida como das mais influentes na história da ciência.

Newton também foi Professor em Cambrigde, a partir de 1667; um dos dois membros da Universidade no Parlamento, em janeiro de 1689; presidente da Royal Society a partir de 1703 e reeleito ano após ano até falecer; e o primeiro cientista a receber a honra de ser armado cavaleiro (Sir) pela rainha Ana, em 1705.

Freguesia de Arroios (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias)

 

A centenária Rua Cidade de Manchester

Freguesias de Arroios e de Penha de França (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias de Arroios e de Penha de França
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Cidade de Manchester nasceu com o Bairro de Inglaterra há 100 anos, pelo Edital de 29 de agosto de 1916, assim como a Rua Cidade de Cardiff, a Rua Cidade de Liverpool, a Rua Newton e a Rua Poeta Milton, sendo significativo ser neste mesmo ano de 1916 que Portugal se aliou à Inglaterra e por isso a Alemanha declarou guerra a Portugal.

A começar na Rua da Penha de França e a terminar na Rua Newton, a Rua Cidade de Manchester era até à publicação do Edital municipal de 29/07/1916 a Rua Isabel Leal do antigo Bairro Brás Simões, edificado pelo comerciante José Brás Simões de Sousa em terras suas, nas encostas da Penha de França.

Manchester é uma cidade do Noroeste da Inglaterra, que se desenvolveu e prosperou aquando da Revolução Industrial já que  aqui foi aplicada a máquina a vapor à indústria têxtil pela primeira vez em 1789. E foi por via da indústria têxtil que no século XIX se tornou a segunda cidade inglesa. Manchester como as outras duas cidades do Reino Unido colocadas na toponímia de Lisboa representavam nesse tempo da I Guerra Mundial exemplos de cidades modernas e a sua inclusão na capital do nosso país reforçava diplomaticamente a antiga aliança de Portugal com Inglaterra.

A Cidade de Manchester nos anos 10 do séc. XX (Foto: s/a, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Cidade de Manchester nos anos 10 do séc. XX
(Foto: sem autor, Arquivo Municipal de Lisboa)

Freguesias de Arroios e de Penha de França (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias de Arroios e de Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua da Cidade dos Beatles em Lisboa

Freguesias de Arroios e de Penha de França (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias de Arroios e de Penha de França
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Cidade de Liverpool nasceu há cem anos, pelo Edital municipal de 29 de agosto de 1916, no Bairro de Inglaterra, cujos topónimos se relacionam todos com o Reino Unido, a saber: a Rua Cidade de Liverpool, a Rua Cidade de Cardiff,  a Rua Cidade de Manchester, a Rua Newton e a Rua Poeta Milton. Foi neste mesmo ano de 1916 que Portugal se aliou à Inglaterra e a Alemanha declarou guerra ao nosso país.

A Rua Cidade de Liverpool, que liga a Rua Poeta Milton à  Avenida Almirante Reis, era até aí uma rua privada, a Rua José de Sousa do antigo Bairro Brás Simões,  provavelmente uma homenagem a um familiar do construtor do Bairro de Brás Simões, José Brás Simões de Sousa, um grande comerciante de Lisboa e proprietário destas terras.

Sabemos que o o antigo Bairro Brás Simões foi construído no final do século XIX e início do século XX, para se tornar Bairro de Inglaterra em 1916, bem como que em 1934 a Rua Cidade de Liverpool foi pavimentada, numa empreitada que também incluiu a Rua Cidade de Cardiff, a Rua Newton, a Rua Enfermeiras da Grande Guerra, a Rua Heróis de Quionga, a Rua Triângulo Vermelho, a Calçada do Poço dos Mouros, a Rua Augusto José Vieira, a Rua Borges Graínha, a Rua Carrilho Videira, a Rua Feio Terenas, a Rua Heliodoro Salgado e a Rua Sebastião Saraiva Lima,  de acordo com a escritura de adjudicação existente no Arquivo Municipal de Lisboa.

Liverpool fundada em 1207 e a cidade onde nasceu a banda The Beatles é uma cidade do noroeste da Inglaterra, no lado norte do estuário do Mersey. A grande peste de 1664 e o grande incêndio de 1666 em  Londres fez com que muitos mercadores se mudassem para Liverpool e o seu porto prosperou. Por exemplo, em 1869 a galera da Armada Real Portuguesa Pero de Alenquer foi construída nos estaleiros ingleses W.H. Potter & Co., em Liverpool, e  a 13 de setembro de 1916,  quando pertencia à casa armadora de Lisboa J. Alves da Silva bateu contra uma mina e explodiu.

Freguesias de Arroios e de Penha de França (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias de Arroios e de Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Cidade de Cardiff no Bairro de Inglaterra, nascido há 100 anos

Freguesias de Arroios e de Penha de França (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias de Arroios e de Penha de França
(Foto: Sérgio Dias)

Há cem anos, pelo Edital municipal de 29 de agosto de 1916, nasceu o Bairro de Inglaterra no que antes era designado como Bairro Brás Simões, traduzido em topónimos todos relacionados com a Inglaterra, a saber: a Rua Cidade de Cardiff, a Rua Cidade de Liverpool, a Rua Cidade de Manchester, a Rua Newton e a Rua Poeta Milton.

O Edital saiu em resultado da aprovação da proposta em sessão de Câmara de 17 de agosto de 1916, ficando a Rua Cidade de Cardiff na que era antes denominada como Rua Maria Gouveia do Bairro Brás Simões.

Recorde-se que em  fevereiro de 1916 a Inglaterra, país aliado de Portugal desde o casamento de D. João I com D. Filipa de Lencastre, pediu ao nosso país que fizesse o apresamento de todos os navios alemães que estavam ancorados na costa portuguesa e assim feito a Alemanha respondeu com declaração oficial de guerra a Portugal em 9 de março de 1916, não obstante os combates entre Portugal e a Alemanha em terras africanas já ocorrerem  desde setembro de 1914, tanto na fronteira sul de Angola como na fronteira norte de Moçambique.

O Bairro de Inglaterra nas encostas nascentes de Monte Agudo e colinas da Penha de França tomou o espaço do Bairro de Brás Simões, de José Brás Simões de Sousa um grande comerciante de Lisboa e proprietário destas terras que em 13 de outubro de 1913 entregou os seus arruamentos particulares à Câmara Municipal de Lisboa. O antigo nome do bairro derivava do nome do seu proprietário, e os topónimos das artérias referem-se a familiares do mesmo, como já antes acontecera no Bairro Andrade e era costume na época.

Antes, por volta do século XVI e até ao século XIX, eram prados onde ovelhas apascentavam e lugar de pequenos moinhos. Só a partir de finais do século XIX é que nesta zona se construiu primeiro o Bairro Andrade e depois, o Bairro Brás Simões que se tornaria o Bairro de Inglaterra em 1916, sendo a mudança do nome do bairro um efeito da I Grande Guerra e das alianças que Portugal firmou nesse contexto.

Cardiff é a capital do País de Gales desde 20 de dezembro de 1955 e em 1916 era uma cidade portuária como Liverpool, detendo o seu porto a maioria do trânsito de carvão no mundo.

Freguesias de Arroios e de Penha de França (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias de Arroios e de Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

 

As Avenidas dedicadas a António José de Almeida

António José de Almeida e o marechal Joffre durante a homenagem aos soldados mortos na Grande Guerra 1921 sa

António José de Almeida e o marechal Joffre em 1921, durante a homenagem aos soldados mortos na Grande Guerra (Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

António José de Almeida era Chefe de Governo quando Portugal entrou na I Grande Guerra e Presidente da República no ano em que foi assinada a paz em Versailles sendo homenageado na toponímia alfacinha no mesmo ano em que faleceu, naquela que hoje conhecemos como Avenida Guerra Junqueiro, embora decorridos quatro anos tenha passado para o local onde hoje encontramos a Avenida de António José de Almeida.

Cerca de quinze dias após o falecimento de António José de Almeida decidiu a edilidade, pela deliberação camarária de 07/11/1929 e o edital de 12/11/1929 que a  a Avenida 12 do Novo Bairro no seguimento da Avenida Almirante Reis (hoje, Avenida Guerra Junqueiro) se denominasse Avenida Dr. António José de Almeida. Mas em 1933, pela deliberação camarária de 13 e edital de 18 de julho passou a Avenida António José de Almeida a ser no prolongamento da Avenida Miguel Bombarda, entre a Avenida dos Defensores de Chaves e a Avenida de Manuel da Maia, onde ainda hoje a encontramos, sendo ao mesmo tempo Guerra Junqueiro colocado no arruamento que antes levava o nome do antigo Presidente da República. Acresce que conforme um parecer da Comissão de Toponímia na sua reunião de 13/04/1951, homologado pelo Vice-presidente da edilidade, foi acrescentada a partícula «de», sendo desde então Avenida de António José de Almeida.

Freguesias das Avenidas Novas e do Areeiro - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias das Avenidas Novas e do Areeiro – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

António José de Almeida defendeu a participação de Portugal na Guerra logo em 1914, caso a Inglaterra o desejasse, posição sintetizada na frase «Vamos até onde for preciso, mas sendo preciso!». Foi Chefe do Governo da União Sagrada e Ministro das Colónias (1916-1917) e depois, como Presidente da República (1919-1923) – o único da I República a cumprir integralmente o seu mandato -, participou com o marechal Joffre na homenagem aos soldados mortos na Grande Guerra em 1921 e deu andamento à transladação dos restos mortais dos soldados portugueses mortos na Flandres.

Monumento a António José de Almeida, na Avenida do mesmo nome, em 1937 (Foto: Fernando Martinez Pozal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Monumento a António José de Almeida, na Avenida do mesmo nome, em 1937
(Foto: Fernando Martinez Pozal, Arquivo Municipal de Lisboa)

António José de Almeida (Penacova – Vale da Vinha/27.07.1866 – 31.10.1929/Lisboa), formado em Medicina pela Universidade de Coimbra (1895) aderiu logo nessa época ao Partido Republicano e em 23 de março de 1890 publicou na folha académica Ultimatum o artigo «Bragança, o último», que lhe custou a pena de três meses de prisão. Exerceu medicina em Angola e depois, em São Tomé e Príncipe até 1903, após o que estagiou em Paris e regressou a Lisboa onde abriu o seu primeiro consultório, na Baixa, primeiro na Rua Áurea, que depois transferiu para Largo do Camões nº 6 – 1º (hoje, Praça Dom João da Câmara), onde ganhou fama de médico dos pobres.

Contudo, a sua carreira política foi a que  mais importância ganhou na sua vida. Foi eleito deputado pelo círculo oriental de Lisboa (1906) e integrou a Maçonaria (1907) ainda antes da proclamação da República, tendo depois exercido as funções de Ministro do Interior do Governo Provisório (1910-1911), formado o Partido Republicano Evolucionista (24 de fevereiro de 1912), sido Chefe do Governo da chamada «União Sagrada» e Ministro das Colónias (1916-1917) e ainda Presidente da República (1919-1923), sendo de destacar o seu papel na reforma do ensino superior, sobretudo no estudo da medicina  e  na criação das Universidades de Lisboa e do Porto, bem como a sua visita ao Brasil em setembro de 1922 por ocasião do Centenário da sua independência de que Luís Derouet fez reportagem: Duas Pátrias – O que foi a visita do Sr. Dr. António José de Almeida ao Brasil.

António José de Almeida ainda colaborou em vários periódicos e fundou a revista Alma Nacional (1909) e o diário República (1911). Foi também ele que proferiu um discurso no funeral de Rafael Bordalo Pinheiro (1905), e postumamente, em 1934, foram coligidos os seus principais artigos e discursos e publicados em 3 volumes sob o título Quarenta anos de vida literária e política. Três anos mais tarde,  em 31 de dezembro de 1937, foi inaugurada uma estátua a homenageá-lo, da autoria do escultor Leopoldo de Almeida e do arquiteto Pardal Monteiro, na Avenida com o seu nome.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas e do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)