A Avenida Ribeira das Naus acolhe a Festa da Diversidade nas Festas de Lisboa’19

A construção da Avenida da Ribeira das Naus, cerca de 1953
(Foto: Judah Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

No próximo sábado, dia 29 de junho, a partir das 16 horas, no âmbito das Festas de Lisboa’19, a Avenida da Ribeira das Naus vai acolher a Festa da Diversidade que neste 2019 celebra os seus 20 anos, e se estende para o domingo.

Organizada  pela associação SOS Racismo a Festa da Diversidade procura trazer para o espaço público o trabalho de muitas associações e artistas da periferia ou sem a visibilidade que merecem, procurando ultrapassar qualquer tipo de discriminação, de preconceito, de racismo, xenofobia, homofobia e machismo, pelo que vai receber o final da Marcha LGBT, ao mesmo tempo que neste espaço público lisboeta acolhe vários saberes, sabores e sons do mundo, com dignidade, respeito e igualdade, contribuindo para o diálogo intercultural.

A Avenida da Ribeira das Naus, tal como a paralela Rua do Arsenal, partilham a mesma origem: o Arsenal da Marinha, descendente das tercenas de D. Manuel I. Foi sobre a doca seca do Arsenal da Marinha, atulhada em 1939, que se construiu a Avenida da Ribeira das Naus, topónimo que foi atribuído pelo Edital municipal de 22 de junho de 1948 e no final desse mesmo ano, em 29 de dezembro, a edilidade lisboeta colocou nesta Avenida uma lápide onde se podia ler «Neste local construíram-se as naus que descobriram novas terras e novos mares e levaram a todo o mundo o nome de Portugal».

A Ribeira de Lisboa era a zona marginal do Tejo, entre a Praça do Município e a Igreja da Conceição Velha, até com D. Manuel I ser o local das tercenas onde se construíam os navios necessários, a ponto de o rei  ter mandado construir o seu Paço mesmo ao lado para melhor verificar esses trabalhos. O terramoto de 1755 destruiu esse importante complexo naval mas a sua reconstrução iniciou-se logo em 1759, sob o traçado de Eugénio dos Santos.  Por isso o local foi conhecido como Ribeira das Naus, nome extensivo ao Arsenal da Ribeira das Naus (depois  Arsenal Real da Marinha e a partir de 1910, apenas Arsenal da Marinha). Em 1936, o Arsenal começou a ser transferido para as instalações navais do Alfeite e terminou a sua laboração em 1939, altura em que se começou a construir a Avenida da Ribeira das Naus.

Refira-se que no mesmo ano de 1948, pelo Edital municipal de 29 de Abril, cerca de dois meses antes do que consagrou a Avenida da Ribeira da Naus, foram atribuídos em Belém, onde em 1940 havia decorrido a Exposição do Mundo Português, mais topónimos evocativos do antigo Império Português, a saber, a Praça do Império, a Avenida da Índia, as Praças de Goa, de Damão e de Dio, a Rua Soldados da Índia, assim como topónimos que recordavam  figuras ligadas à Expansão Portuguesa, como navegadores – Avenida Dom Vasco da Gama, Rua Dom Cristóvão da Gama, Rua Dom Jerónimo Osório, Rua Fernão Mendes Pinto -, representantes das autoridades de Portugal – Rua Dom Lourenço de Almeida, Rua Tristão da Cunha – , historiadores da época – Rua Damião de Góis, Rua Fernão Lopes de Castanheda -, bem como cientistas – Rua Duarte Pacheco Pereira – e missionários – Rua São Francisco Xavier – e o próprio rei dessa época do Império Português com a Praça Dom Manuel I.

Freguesia de Santa Maria Maior e Misericórdia

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A PIDE/DGS e a Rua António Maria Cardoso

Na manhã de 25 de abril de 1974
(Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

Duas tentativas de ocupação da sede da PIDE/DGS, na Rua António Maria Cardoso, foram feitas pelas tropas do Movimento das Forças Armadas no dia 25 de abril mas só às 09H46 do dia seguinte se verificou a rendição, sendo o edifício então ocupado por forças do Exército e da Marinha. Ainda no dia 25 a multidão aglomerou-se na artéria e tanto depois das 13H30 como cerca das 20 horas os agentes da polícia política abriram fogo e causaram 4 mortos e dezenas de feridos. 

O decreto-lei n.º 171/74, datado de 25 de abril de 1974, assinado pelo Presidente da Junta de Salvação Nacional, António de Spínola, extinguiu a PIDE/DGS. Contudo, a sede da polícia política – de nome de código Moscovo – na Rua António Maria Cardoso nº 22 –  um edifício de cinco andares arrendado à Casa de Bragança -, só na manhã do dia 26 de abril foi ocupada por forças do Exército e da Marinha após a rendição dessa força cerca das 9:45 horas. Também foi do dia 26 de abril, já de noite e à luz de archotes, que começaram a ser libertados os presos políticos e a sair da prisão de Caxias (Pequim).

A tomada da sede da PIDE/DGS teve várias etapas: a mal sucedida operação inicial dos fuzileiros, na manhã de dia 25; o cerco mantido, sobretudo por forças do Regimento de Cavalaria 3 de Estremoz e depois reforçado com fuzileiros; a aglomeração de populares na Rua António Maria Cardoso a cantar o Hino Nacional e dar vivas aos militares a que atiradores da PIDE/DGS reagiram depois das 13:30 e depois das 20 horas com rajadas de metralhadora e granadas de mão de que resultaram 45 feridos e quatro mortos ( Fernando Gesteiro, empregado de escritório de 18 anos; João Arruda, estudante de 20 anos; Fernando dos Reis, um soldado de 24 anos que estava de licença na cidade e José Barnetto, natural de Vendas Novas com 37 anos de idade); a rendição da PIDE/DGS na manhã de dia 26, pouco depois das 9 e meia da manhã, ao capitão-tenente Costa Correia, da Marinha e major Campos Andrada, de Cavalaria do Exército.

A Rua António Maria Cardoso, antes de ser assim designada em 1890 passou por diversas denominações, todas ligadas ao Paço dos Bragança. Antes do Terramoto de 1 de novembro de 1755 era esta a «rua do Postigo do Duque» por ter a porta do Duque de Bragança aberta na muralha fernandina, e depois, foi ganhando novas denominações como  «rua do picadeiro» por via da proximidade ao picadeiro do Paço dos Braganças , «rua do Tesouro» ou «rua Velha do Tesouro» ou «rua do Tesouro Velho», por mor do tesouro da Casa de Bragança arrecadado no mesmo palácio até que, quase no final do século XIX, quando era mais conhecida por Rua do Tesouro Velho e já depois da urbanização deste arruamento nos moldes que hoje ainda encontramos,  o Edital municipal de 6 de fevereiro de 1890 crismou-a como Rua António Maria Cardoso, ao mesmo tempo que também atribuía a Rua Paiva de Andrada e a Rua Vítor Cordon, homenageando assim a edilidade, ainda em vida, três conceituados exploradores da África Portuguesa de então,  cerca de um mês  depois da entrega em 11 de janeiro de 1890 do Ultimato britânico que exigia a Portugal a retirada das forças militares chefiadas por Serpa Pinto do território compreendido entre as colónias de Moçambique e Angola.

António Maria Cardoso (Lisboa/05.05.1849- 17.11.1900/Lisboa)  ingressara na Armada em 1862, atingindo o posto de capitão-de-fragata em 1895 e no decorrer dessa carreira militar também desempenhou o cargo de governador dos distritos de Inhambane e de Quelimane, em Moçambique. Em 1882 explorou as terras de Mussila com João de Azevedo Coutinho, e em 1888, com Vítor Cordon, participou na expedição do Niassa, durante a qual catorze régulos prestaram vassalagem à soberania portuguesa. António Maria Cardoso regressou a Lisboa em 1890, ano do Ultimato Inglês, e foi eleito deputado para além de ter sido agraciado com as comendas das Ordens de Torre e Espada, de Nª Sª da Conceição, de Cristo e de S. Bento de Aviz e ainda, com a medalha de ouro de serviços prestados no Ultramar.

Após as 20 horas de 25 de abril de 1974
(Foto: Vida Mundial, 3 de maio de 1974)

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O 25 de Abril e a Avenida Ribeira das Naus ou do Arsenal

A Avenida da Ribeira das Naus foi o palco de momentos tensos na manhã de 25 de Abril de 1974, com o pelotão de RC 7 às 7H30 horas, a fragata Almirante Gago Coutinho posicionada no Tejo às 9 horas e as tropas do major Pato Anselmo cerca de meia hora depois a confrontarem-se com os militares do Movimento das Forças Armadas.

As forças da EPC – Escola Prática de Cavalaria comandadas pelo capitão Maia (como nesse dia foi denominado) assumiram o controlo da Praça do Comércio e artérias adjacentes antes das 6 da manhã. Às 7:30 horas chegou à Avenida da Ribeira das Naus um pelotão de reconhecimento Panhard do RC 7 – Regimento de Cavalaria 7, comandado pelo  tenente-coronel Ferrand de Almeida que acabou por se render meia hora depois. Às 9 horas, tomou posição intimidatória no Tejo a  fragata Almirante Gago Coutinho mas até ao meio-dia, quando se afastou para o Mar da Palha, nunca abriu fogo. A artilharia do Movimento das Forças Armadas, estacionada no Cristo-Rei, também recebeu ordens do Posto de Comando para afundar a fragata caso esta abrisse fogo. A partir das 9:35 horas dois carros de combate M47, comandados pelo major Pato Anselmo, tomaram posições na Avenida da Ribeira das Naus e outros dois na Rua do Arsenal, mas cerca de uma hora depois essas tropas passaram-se para o Movimento dos Capitães, graças ao civil e ex-alferes miliciano Fernando Brito e Cunha. De seguida,  o brigadeiro Junqueira dos Reis dirigiu as tropas  que lhe restavam da Rua do Arsenal para a Avenida da Ribeira das Naus e ordenou ao alferes miliciano Fernando Sottomayor (do RC 7) que abrisse fogo sobre Salgueiro Maia mas este recusou obedecer pelo que foi detido. Repetiu a ordem ao cabo apontador José Alves Costa mas este fechou-se dentro do carro de combate. O oficial-general foi então para a Rua do Arsenal mas todos os cabos se recusaram a abrir fogo. Às 10:20, o capitão Tavares de Almeida, o major Jaime Neves e os alferes milicianos Maia Loureiro e David e Silva negociaram a rendição do major Pato Anselmo na Avenida da Ribeira das Naus, e esta acabou por acontecer.

Tanto a Avenida da Ribeira das Naus como a Rua do Arsenal foram palco de acontecimentos tensos no dia 25 de Abril de 1974. Também ambos os topónimos partilham a mesma origem: o Arsenal da Marinha, descendente das tercenas de D. Manuel I.

A doca seca do Arsenal da Marinha foi atulhada em 1939 para permitir a construção da Avenida da Ribeira das Naus, paralela à Rua do Arsenal. Este novo arruamento teve topónimo atribuído em 1948, pelo Edital municipal de 22 de junho.

A zona marginal do Tejo, entre a Praça do Município e a Igreja da Conceição Velha, era a Ribeira até que com D. Manuel I passou a ser o local das tercenas onde se construíram os navios necessários, a ponto de o rei  ter mandado construir o seu Paço mesmo ao lado para melhor verificar esses trabalhos. O terramoto de 1755 destruiu esse importante complexo naval mas a sua reconstrução iniciou-se logo em 1759, sob o traçado de Eugénio dos Santos.  Durante muito tempo o local foi conhecido como Ribeira das Naus, sendo extensivo ao Arsenal da Ribeira das Naus, depois designado Arsenal Real da Marinha e a partir de 1910 ficou apenas Arsenal da Marinha. Em 1936, o Arsenal começou a ser transferido para as instalações navais do Alfeite e terminou a sua laboração em 1939 quando se começou a construir a Avenida da Ribeira das Naus.

Refira-se ainda que no mesmo ano de 1948, pelo Edital de 29 de Abril, foram atribuídos mais topónimos evocativos do antigo Império Português, mas em Belém, onde em 1940 havia decorrido a Exposição do Mundo Português. Foram atribuídos a Praça do Império, a Avenida da Índia, a Praça de Goa, a Praça de Damão, a Praça de Dio, a Rua Soldados da Índia, assim como topónimos de figuras ligadas à Expansão Portuguesa, como navegadores – Avenida Dom Vasco da Gama, Rua Dom Cristóvão da Gama, Rua Dom Jerónimo Osório, Rua Fernão Mendes Pinto -, representantes das autoridades de Portugal – Rua Dom Lourenço de Almeida, Rua Tristão da Cunha – , historiadores da época – Rua Damião de Góis, Rua Fernão Lopes de Castanheda -, bem como cientistas – Rua Duarte Pacheco Pereira – e missionários – Rua São Francisco Xavier – e o próprio rei dessa época do Império Português com a Praça Dom Manuel I. Refira-se que ainda em 1948, a 29 de dezembro, a edilidade lisboeta colocou uma lápide nesta Avenida da Ribeira das Naus na qual se podia ler «Neste local construíram-se as naus que descobriram novas terras e novos mares e levaram a todo o mundo o nome de Portugal».

(Foto: Flama, 3 de maio de 1974)

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A 2ª senha do 25 de Abril, a Rádio Renascença e a Rua Ivens

Em 1960
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

A 2ª senha, para continuação do golpe de Estado militar foi dada à meia-noite e vinte do dia 25 de abril, com a canção “Grândola, Vila Morena”, de José  Afonsono programa “Limite” da Rádio Renascença, antecedida pela leitura da sua primeira quadra previamente gravada por Leite de Vasconcelos e posta no ar por Manuel Tomás.

Naquela época, a Rádio Renascença estava instalada no nº 14 da Rua Ivens, num prédio que se estendia também pela Rua Capelo. Ambos os topónimos tinham nascido cerca de 89 anos antes, através do Edital municipal de 7 de setembro de 1885, em conformidade com as resoluções da Câmara de dia 3 do mesmo mês, que incluíam também um programa para festejar a chegada a Lisboa dos exploradores Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens que ocorreria daí a dias, a 16 de setembro, mencionando que após o desembarque no Arsenal da Marinha seriam iluminados os edifícios municipais e feita uma recepção no Salão Nobre dos Paços do Concelho de Lisboa a Capelo e Ivens.

Refira-se que o mesmo Edital atribuiu também a Rua Anchieta e a Rua Serpa Pinto, somando assim 4 topónimos referentes a exploradores dos territórios africanos na mesma zona do Chiado. A Rua de São Francisco passou a ser a Rua Ivens, a Travessa da Parreirinha mudou para Rua Capelo, a Rua da Figueira tornou-se a Rua Anchieta e a Rua Nova dos Mártires converteu-se em Rua Serpa Pinto.

O homenageado Roberto Ivens (Açores-Ponta Delgada/12.06.1850 – 28.01.1898/Dafundo), filho de Margarida Júlia de Medeiros Castelo Branco e de Robert Breakspeare Ivens, foi um oficial da Marinha que em 1877, com Hermenegildo Capelo e Alexandre Serpa Pinto, recebeu  o encargo de explorar os territórios compreendidos entre Angola e Moçambique, nomeadamente, estudando as bacias hidrográficas do Zaire e do Zambeze. Com Capelo levou a cabo duas expedições, em 1877-1880 e em 1884-1885, conhecidas através dos relatos De Benguela às Terras de Iaca (1881) e De Angola à Contracosta (1886). Acresce que através dos seus cadernos e desenhos, Ivens foi também o repórter da época em África.

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A Rua António Maria Cardoso do Chiado Terrasse e do São Luiz Cine

O Chiado Terrasse na Rua António Maria Cardoso em 1911 (Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Chiado Terrasse na Rua António Maria Cardoso em 1911
(Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

Chiado Terrasse e São Luiz Cine são os nomes dos dois cinemas que no séc. XX encheram de gente a Rua António Maria Cardoso, uma resposta toponímica ao Ultimato Inglês de 1890, tal como as vizinhas Rua Paiva de Andrada e Rua Vítor Cordon.

O Chiado Terrasse foi o primeiro cinema especialmente construído de raiz  para esse efeito em Lisboa, em 1908. Já o São Luiz Cine, nascido em 1928, tem uma história de vida mais atribulada. Ainda esta artéria se denominava Rua do Tesouro Velho e o espaço nasceu em 1893 como Teatro Dona Amélia, que a partir do ano seguinte passou também a a dispor do Cinematographo. Com a implantação da República foi rebatizado como Teatro da República e em 1928 foi adaptado para cinema, com a designação de São Luiz Cine e, assim reabriu com  Metropolis, de Fritz Lang, como primeiro filme em cartaz.

A Rua António Maria Cardoso, antes de ser designada como tal em 1890, passou por diversas denominações, todas ligadas ao Paço dos Bragança. Antes do Terramoto de 1 de novembro de 1755 era esta a «rua do Postigo do Duque» por ter a porta do Duque de Bragança aberta na muralha fernandina, e depois foi ganhando novas denominações como  «rua do picadeiro» por via da proximidade ao picadeiro do Paço dos Braganças , «rua do Tesouro» ou «rua Velha do Tesouro» ou «rua do Tesouro Velho», por mor do tesouro da Casa de Bragança arrecadado no mesmo palácio até que, quase no final do século XIX, quando era mais conhecida por Rua do Tesouro Velho e já depois da urbanização deste arruamento nos moldes que hoje ainda encontramos,  o Edital municipal de 6 de fevereiro de 1890 crismou-a como Rua António Maria Cardoso, ao mesmo tempo que também atribuía a Rua Paiva de Andrada e a Rua Vítor Cordon, homenageando assim a edilidade, ainda em vida, três conceituados exploradores da África Portuguesa de então,  cerca de um mês  depois da entrega em 11 de janeiro de 1890 do Ultimato britânico que exigia a Portugal a retirada das forças militares chefiadas por Serpa Pinto do território compreendido entre as colónias de Moçambique e Angola.

António Maria Cardoso, «Ilustração Portuguesa», 21 de abril de1889

António Maria Cardoso, Ilustração Portuguesa, 21 de abril de 1889

António Maria Cardoso (Lisboa/05.05.1849- 17.11.1900/Lisboa)  ingressou na Armada em 1862, atingindo o posto de capitão-de-fragata em 1895 e no decorrer dessa carreira militar desempenhou o cargo de governador dos distritos de Inhambane e de Quelimane, em Moçambique. Em 1882 explorou as terras de Mussila com João de Azevedo Coutinho, e em 1888, com Vítor Cordon, participou na expedição do Niassa, durante a qual catorze régulos prestaram vassalagem à soberania portuguesa. António Maria Cardoso regressou a Lisboa em 1890, ano do Ultimato Inglês, e foi eleito deputado para além de ter sido agraciado com as comendas das ordens de Torre e Espada, de Nª Sª da Conceição, de Cristo e de S. Bento de Aviz, e ainda com a medalha de ouro de serviços prestados no Ultramar.

Nesta arruamento existiu também até ao 25 de Abril de 1974 a sede da PIDE/DGS, um edifício de cinco andares arrendado à Casa de Bragança, e que por isso foi palco das únicas 5 mortes ocorridas no 25 de Abril. Após essa data instalou a sua sede nesta rua a Associação de Ex-Presos Políticos Antifascistas (AEPPA) que então propôs à edilidade a alteração do topónimo para Rua da Leva da Morte, alteração não concretizada de acordo com as normas seguidas de não alterar toponímia já consolidada na cidade, a não ser em caso de «Necessidade de eliminação dos nomes afrontosos para a população, pela sua última ligação ao antigo regime», como sucedeu com a Avenida 28 de Maio que passou a ser a Avenida das Forças Armadas, por Edital municipal de 30 de dezembro de 1974.

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua do naturalista José Anchieta

Placa Tipo II - Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Artur Matos)

Placa Tipo II – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Artur Matos)

A antiga Rua da Figueira passou por Edital de 07/09/1885 a ser a Rua Anchieta, em homenagem ao naturalista José Anchieta, e o mesmo Edital municipal atribuiu nas proximidades também os topónimos Rua Capelo (antes Travessa da Parreirinha), Rua Ivens (ex-Rua de São Francisco) e Rua Serpa Pinto (ex-Rua Nova dos Mártires), todos referentes a exploradores dos territórios africanos.

Refira-se que Hermenegildo Capelo, Roberto Ivens e Alexandre Serpa Pinto conheceram José Anchieta na sua casa de Caconda, entre janeiro e fevereiro  de 1878.

José Alberto de Oliveira Anchieta (Setúbal/09.10.1832 – 14.09.1897/Chicambi- Angola), nascido em Setúbal mas logo batizado em Lisboa, na freguesia da Encarnação (hoje Freguesia da Misericórdia), foi um naturalista do séc. XIX que desenvolveu as suas investigações em África, sendo de salientar que em 1864-1865 fez por sua iniciativa e a suas expensas a exploração de Cabinda até ao rio Quilo, e entre 1866 e 1897, ao serviço do Museu de Lisboa, por  100 mil reis mensais (o que era uma quantia modesta na época), viajou por Angola colecionando espécies zoológicas e botânicas que enviava para Portugal para Barbosa du Bocage. Muitas das espécies de anfíbios, aves,  cobras, lagartos, mamíferos e peixes descritos por ele eram desconhecidos pelo que foram nomeados com a designação anchietae relativa ao seu apelido. Apenas deixou um texto publicado: «Traços geológicos da África Ocidental Portuguesa», impresso em  1885 na Tipografia Progresso de Benguela.

Antes, Anchieta frequentara o Colégio Militar, a Universidade de Coimbra (1852-1853) e a Escola Politécnica, sendo que apenas teve aprovações na cadeira de Zoologia (em 1853-1854 e em 1865-1866). Em 1854 seguira Félix de Brito Capelo para Cabo Verde estudando a natureza local e, em Santo Antão, prestou auxílio às vítimas de uma epidemia de cólera, o que o terá motivado a estudar Medicina em Londres e Paris, provavelmente em 1856 e 1857. Supõe-se também que José Anchieta terá usado a fotografia para documentar os seus trabalhos de investigação, já que em carta de 18 de julho de 1870 a Barbosa du Bocage lhe solicitou uma máquina fotográfica melhor do que a que possuía e Serpa Pinto narrou que ele tinha equipamento fotográfico em casa.

José Anchieta foi sócio da Academia de Ciências de Lisboa e a partir de 1876, também da Sociedade de Geografia de Lisboa que o galardoou com duas medalhas de ouro nos anos de 1879 e de 1883.

O Occidente, 30.11.1897

O Occidente, 30.11.1897

A Rua Capelo nascida com a Rua Ivens

Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias)

A quinhentista Rua da Parreirinha, que também foi  Travessa da Parreirinha, passou a Rua Capelo pelo Edital municipal de 7 de setembro de 1885, em conformidade com as resoluções da Câmara de 3 do mesmo mês que incluíam também um programa para festejar a chegada a Lisboa dos exploradores Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens que ocorreria daí a dias, a 16 de setembro, em que após o desembarque no Arsenal da Marinha, seriam iluminados os edifícios municipais e teriam Capelo e Ivens uma recepção no Salão Nobre dos Paços do Concelho de Lisboa.

Refira-se que o mesmo edital municipal atribuiu também a Rua Ivens, a Rua Anchieta e a Rua Serpa Pinto, somando assim 4 topónimos referentes a exploradores dos territórios africanos.

Hermenegildo Carlos de Brito Capelo (Palmela/04.02.1841 – 04.05.1917/Lisboa), oficial da Marinha Portuguesa, notabilizou-se pelas suas explorações em África no último quartel do séc. XIX, tendo logo em 1871 sido enviado numa expedição à Guiné, e com Serpa Pinto e Roberto Ivens explorou em 1877 os territórios entre Angola e Moçambique e as bacias hidrográficas do Zaire e do Zambeze, tendo o êxito desta expedição dado o encargo de uma segunda viagem para encontrar uma via de comunicação entre Angola e Moçambique. Destas iniciativas ficaram dois relatos, da autoria de Capelo e Ivens, publicados como De Angola à Contracosta (da travessia entre Angola a costa do Índico) e De Benguela às Terras de Iaca. Após 1885 Capelo foi também vice-presidente do Instituto Ultramarino, ministro plenipotenciário junto do Sultão de Zanzibar e delegado do governo num congresso de Bruxelas, presidente da Comissão Cartográfica e organizador de uma Carta Geográfica de Angola.

A Rua Capelo foi durante muitos anos a morada do Governo Civil de Lisboa, no que em tempos fora um edifício do Convento de São Francisco.

PLaca Tipo II - Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Sérgio Dias)

Placa Tipo II – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior

Freguesia de Santa Maria Maior

A Rua do Joaquim que era Paiva de Andrada

Placa Tipo II - Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Artur Matos)

Placa Tipo II – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Artur Matos)

A Rua Paiva de Andrada, tal como a paralela Rua António Maria Cardoso, foram ambas atribuídas junto com a Rua Vítor Cordon, pouco menos de um mês após o Ultimato Inglês, pelo Edital de 06/02/1890 que realça que «importa perpetuar na memória dos povos e através das gerações os nomes dos que lidam com abnegação e valor pela grandeza da pátria, e renovam hoje em terras de África o brilho das nossas melhores tradições».

De acordo com Luís Pastor Macedo, esta artéria  « Existia já, com o nome de rua do Outeiro, no terceiro quartel do século XV (…) A elevação do terreno que originou o nome da serventia podia ser a que, muito mais tarde, impôs a colocação de um lanço de escadas para comunicar, nos nossos dias, a rua Paiva de Andrada com o largo do Directório [ hoje, Largo de São Carlos] .»

O alfacinha Joaquim Carlos Paiva de Andrada (Lisboa/29.11.1846 – 22.04.1928/Paris) foi um militar que de acordo com o Edital de 1890 «tem empenhado esforços enérgicos para explorar as regiões entre o Limpopo e o Zambeze, e reforçar com a ocupação efectiva os nossos antigos direitos históricos à posse das mesma regiões» precisando mesmo que «aquele brioso oficial repetidas vezes as percorreu, contribuindo para debelar o poderio e aprisionar a pessoa do rebelde Bonga e para assegurar a lealdade à corôa de Portugal do poderoso régulo Gungunhana [Ngungunyane]».

Pastor de Macedo acrescenta ainda que Paiva de Andrada chegou ao  posto de general de divisão, foi  governador de Tete e Quelimane, percorrendo a Zambézia e promovendo a constituição das companhias concessionárias que antecederam a de Moçambique. 

Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Artur Matos)

Freguesia de Santa Maria Maior 
(Foto: Artur Matos)

Freguesia de Santa Maria Maior (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)

Roberto Ivens, de Angola a uma rua do Chiado

Freguesia de Santa Maria Maior - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

Ramalho Ortigão foi cronista da revista Brasil-Portugal (1899 – 1914), quinzenário ilustrado que a partir da implantação da República mostrou a sua feição monárquica, cuja sede se situava no nº 52 da Rua Ivens.

A Rua Ivens foi fixada por Edital municipal de 07/09/1885 na Rua de São Francisco, e Norberto Araújo nas suas Peregrinações em Lisboa refere que « Esta Rua Ivens não existia [antes do Terramoto de 1755] , nem em desenho irregular que fôsse; a Rua Anchieta é com pequena rectificação, a Rua da Figueira, mas já a Rua Serpa Pinto só forçadamente se adapta ao traçado da antiga Rua da Metade, (…)». Note-se que pelo mesmo Edital foram também dados nas proximidades os topónimos Rua Capelo, Rua Anchieta e Rua Serpa Pinto, todos referentes a exploradores dos territórios africanos.

Roberto Ivens (Açores-Ponta Delgada/12.06.1850 – 28.01.1898/Dafundo), a quem este arruamento perpetua a memória, foi filho de Margarida Júlia de Medeiros Castelo Branco e de Robert Breakspeare Ivens e oficial da Marinha que juntamente com Hermenegildo Capelo e Alexandre Serpa Pinto recebeu em 1877,  o encargo de explorar os territórios compreendidos entre Angola e Moçambique, estudando, nomeadamente, as bacias hidrográficas do Zaire e do Zambeze. Com Capelo levou a cabo duas expedições, em 1877/80 e  em 1884/85, conhecidas através dos relatos De Benguela às Terras de Iaca (1881) e De Angola à Contracosta (1886). Some-se a isto que com os seus cadernos e desenhos, Ivens foi também o repórter da época em África.

A Rua Ivens em 1962 (Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua Ivens em 1962
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Freguesia de Santa Maria Maior

Freguesia de Santa Maria Maior

A Avenida de Vasco da Gama que partiu de Belém para a Índia

Freguesia de Belém (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Belém
(Foto: Sérgio Dias)

A Avenida Dom Vasco da Gama entra no roteiro toponímico lisboeta de Luís Dourdil  por estar sediada nesta artéria de Belém a Galeria Triângulo 48, onde entre 1993 e 2000 decorreram várias exposições póstumas do pintor.

Esta Avenida que liga a Avenida das Descobertas à Praça de Dom Manuel I, cujo topónimo foi atribuído por Edital de 29 de abril de 1948 na Avenida A e B do plano de Urbanização da Encosta da Ajuda, como a maioria dos restantes topónimos ( dezasseis) deste Edital, fixa nesta zona da cidade de cuja praia partiram outrora as naus de Vasco da Gama algumas figuras e lugares relacionados com a Expansão Portuguesa, a saber: a  Avenida da Índia, a Praça de Damão, a Praça de Dio e a Praça de Goa, Rua Soldados da Índia, a Rua Dom Lourenço de Almeida, a Rua Dom Cristóvão da Gama, a Rua Tristão da Cunha, a Rua Dom Jerónimo Osório, a Rua Fernão Mendes Pinto,a Rua Duarte Pacheco Pereira, a Rua São Francisco Xavier, a Rua Damião de Góis, a Rua Fernão Lopes de Castanheda, a Praça Dom Manuel I e a Praça do Império.

Vasco da Gama,  filho do marinheiro de D. João II Estêvão da Gama, irmão de Paulo da Gama e pai de Cristóvão da Gama, nasceu em Sines por volta de 1468, e notabilizou-se como o navegador que estabeleceu o caminho marítimo para a Índia. A sua frota partiu da praia do Restelo, em Belém, a 8 de julho de 1497,  e regressou a Lisboa em agosto de 1499. Vasco da Gama realizou uma nova viagem em 1502 voltando carregado de especiarias em 1504 e, foi reconhecido por D. João III que o nomeou vice-rei da Índia em 1524, onde chegou em setembro e aí acabou por falecer em dezembro.

Freguesia de Belém - Placa Tipo 2 (Foto: José Carlos Batista)

Freguesia de Belém – Placa Tipo 2
(Foto: José Carlos Batista)