A Rua António Maria Cardoso do Chiado Terrasse e do São Luiz Cine

O Chiado Terrasse na Rua António Maria Cardoso em 1911 (Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Chiado Terrasse na Rua António Maria Cardoso em 1911
(Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

Chiado Terrasse e São Luiz Cine são os nomes dos dois cinemas que no séc. XX encheram de gente a Rua António Maria Cardoso, uma resposta toponímica ao Ultimato Inglês de 1890, tal como as vizinhas Rua Paiva de Andrada e Rua Vítor Cordon.

O Chiado Terrasse foi o primeiro cinema especialmente construído de raiz  para esse efeito em Lisboa, em 1908. Já o São Luiz Cine, nascido em 1928, tem uma história de vida mais atribulada. Ainda esta artéria se denominava Rua do Tesouro Velho e o espaço nasceu em 1893 como Teatro Dona Amélia, que a partir do ano seguinte passou também a a dispor do Cinematographo. Com a implantação da República foi rebatizado como Teatro da República e em 1928 foi adaptado para cinema, com a designação de São Luiz Cine e, assim reabriu com  Metropolis, de Fritz Lang, como primeiro filme em cartaz.

A Rua António Maria Cardoso, antes de ser designada como tal em 1890, passou por diversas denominações, todas ligadas ao Paço dos Bragança. Antes do Terramoto de 1 de novembro de 1755 era esta a «rua do Postigo do Duque» por ter a porta do Duque de Bragança aberta na muralha fernandina, e depois foi ganhando novas denominações como  «rua do picadeiro» por via da proximidade ao picadeiro do Paço dos Braganças , «rua do Tesouro» ou «rua Velha do Tesouro» ou «rua do Tesouro Velho», por mor do tesouro da Casa de Bragança arrecadado no mesmo palácio até que, quase no final do século XIX, quando era mais conhecida por Rua do Tesouro Velho e já depois da urbanização deste arruamento nos moldes que hoje ainda encontramos,  o Edital municipal de 6 de fevereiro de 1890 crismou-a como Rua António Maria Cardoso, ao mesmo tempo que também atribuía a Rua Paiva de Andrada e a Rua Vítor Cordon, homenageando assim a edilidade, ainda em vida, três conceituados exploradores da África Portuguesa de então,  cerca de um mês  depois da entrega em 11 de janeiro de 1890 do Ultimato britânico que exigia a Portugal a retirada das forças militares chefiadas por Serpa Pinto do território compreendido entre as colónias de Moçambique e Angola.

António Maria Cardoso, «Ilustração Portuguesa», 21 de abril de1889

António Maria Cardoso, Ilustração Portuguesa, 21 de abril de 1889

António Maria Cardoso (Lisboa/05.05.1849- 17.11.1900/Lisboa)  ingressou na Armada em 1862, atingindo o posto de capitão-de-fragata em 1895 e no decorrer dessa carreira militar desempenhou o cargo de governador dos distritos de Inhambane e de Quelimane, em Moçambique. Em 1882 explorou as terras de Mussila com João de Azevedo Coutinho, e em 1888, com Vítor Cordon, participou na expedição do Niassa, durante a qual catorze régulos prestaram vassalagem à soberania portuguesa. António Maria Cardoso regressou a Lisboa em 1890, ano do Ultimato Inglês, e foi eleito deputado para além de ter sido agraciado com as comendas das ordens de Torre e Espada, de Nª Sª da Conceição, de Cristo e de S. Bento de Aviz, e ainda com a medalha de ouro de serviços prestados no Ultramar.

Nesta arruamento existiu também até ao 25 de Abril de 1974 a sede da PIDE/DGS, um edifício de cinco andares arrendado à Casa de Bragança, e que por isso foi palco das únicas 5 mortes ocorridas no 25 de Abril. Após essa data instalou a sua sede nesta rua a Associação de Ex-Presos Políticos Antifascistas (AEPPA) que então propôs à edilidade a alteração do topónimo para Rua da Leva da Morte, alteração não concretizada de acordo com as normas seguidas de não alterar toponímia já consolidada na cidade, a não ser em caso de «Necessidade de eliminação dos nomes afrontosos para a população, pela sua última ligação ao antigo regime», como sucedeu com a Avenida 28 de Maio que passou a ser a Avenida das Forças Armadas, por Edital municipal de 30 de dezembro de 1974.

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua do naturalista José Anchieta

Placa Tipo II - Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Artur Matos)

Placa Tipo II – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Artur Matos)

A antiga Rua da Figueira passou por Edital de 07/09/1885 a ser a Rua Anchieta, em homenagem ao naturalista José Anchieta, e o mesmo Edital municipal atribuiu nas proximidades também os topónimos Rua Capelo (antes Rua e Travessa da Parreirinha), Rua Ivens (ex-Rua de São Francisco) e Rua Serpa Pinto (ex-Rua Nova dos Mártires), todos referentes a exploradores dos territórios africanos.

Refira-se que Hermenegildo Capelo, Roberto Ivens e Alexandre Serpa Pinto conheceram José Anchieta na sua casa de Caconda, entre janeiro e fevereiro  de 1878.

José Alberto de Oliveira Anchieta (Setúbal/09.10.1832 – 14.09.1897/Chicambi- Angola), nascido em Setúbal mas logo batizado em Lisboa, na freguesia da Encarnação (hoje Freguesia da Misericórdia), foi um naturalista do séc. XIX que desenvolveu as suas investigações em África, sendo de salientar que em 1864-1865 fez por sua iniciativa e a suas expensas a exploração de Cabinda até ao rio Quilo, e entre 1866 e 1897, ao serviço do Museu de Lisboa, por  100 mil reis mensais (o que era uma quantia modesta na época), viajou por Angola colecionando espécies zoológicas e botânicas que enviava para Portugal para Barbosa du Bocage. Muitas das espécies de anfíbios, aves,  cobras, lagartos, mamíferos e peixes descritos por ele eram desconhecidos pelo que foram nomeados com a designação anchietae relativa ao seu apelido. Apenas deixou um texto publicado: «Traços geológicos da África Ocidental Portuguesa», impresso em  1885 na Tipografia Progresso de Benguela.

Antes, Anchieta frequentara o Colégio Militar, a Universidade de Coimbra (1852-1853) e a Escola Politécnica, sendo que apenas teve aprovações na cadeira de Zoologia (em 1853-1854 e em 1865-1866). Em 1854 seguira Félix de Brito Capelo para Cabo Verde estudando a natureza local e, em Santo Antão, prestou auxílio às vítimas de uma epidemia de cólera, o que o terá motivado a estudar Medicina em Londres e Paris, provavelmente em 1856 e 1857. Supõe-se também que José Anchieta terá usado a fotografia para documentar os seus trabalhos de investigação, já que em carta de 18 de julho de 1870 a Barbosa du Bocage lhe solicitou uma máquina fotográfica melhor do que a que possuía e Serpa Pinto narrou que ele tinha equipamento fotográfico em casa.

José Anchieta foi sócio da Academia de Ciências de Lisboa e a partir de 1876, também da Sociedade de Geografia de Lisboa que o galardoou com duas medalhas de ouro nos anos de 1879 e de 1883.

O Occidente, 30.11.1897

O Occidente, 30.11.1897

A Rua Capelo nascida com a Rua Ivens

Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias)

A quinhentista Rua da Parreirinha, que também foi  Travessa da Parreirinha, passou a Rua Capelo pelo Edital municipal de 7 de setembro de 1885, em conformidade com as resoluções da Câmara de 3 do mesmo mês que incluíam também um programa para festejar a chegada a Lisboa dos exploradores Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens que ocorreria daí a dias, a 16 de setembro, em que após o desembarque no Arsenal da Marinha, seriam iluminados os edifícios municipais e teriam Capelo e Ivens uma recepção no Salão Nobre dos Paços do Concelho de Lisboa.

Refira-se que o mesmo edital municipal atribuiu também a Rua Ivens, a Rua Anchieta e a Rua Serpa Pinto, somando assim 4 topónimos referentes a exploradores dos territórios africanos.

Hermenegildo Carlos de Brito Capelo (Palmela/04.02.1841 – 04.05.1917/Lisboa), oficial da Marinha Portuguesa, notabilizou-se pelas suas explorações em África no último quartel do séc. XIX, tendo logo em 1871 sido enviado numa expedição à Guiné, e com Serpa Pinto e Roberto Ivens explorou em 1877 os territórios entre Angola e Moçambique e as bacias hidrográficas do Zaire e do Zambeze, tendo o êxito desta expedição dado o encargo de uma segunda viagem para encontrar uma via de comunicação entre Angola e Moçambique. Destas iniciativas ficaram dois relatos, da autoria de Capelo e Ivens, publicados como De Angola à Contracosta (da travessia entre Angola a costa do Índico) e De Benguela às Terras de Iaca. Após 1885 Capelo foi também vice-presidente do Instituto Ultramarino, ministro plenipotenciário junto do Sultão de Zanzibar e delegado do governo num congresso de Bruxelas, presidente da Comissão Cartográfica e organizador de uma Carta Geográfica de Angola.

A Rua Capelo foi durante muitos anos a morada do Governo Civil de Lisboa, no que em tempos fora um edifício do Convento de São Francisco.

PLaca Tipo II - Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Sérgio Dias)

Placa Tipo II – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior

Freguesia de Santa Maria Maior

A Rua do Joaquim que era Paiva de Andrada

Placa Tipo II - Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Artur Matos)

Placa Tipo II – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Artur Matos)

A Rua Paiva de Andrada, tal como a paralela Rua António Maria Cardoso, foram ambas atribuídas junto com a Rua Vítor Cordon, pouco menos de um mês após o Ultimato Inglês, pelo Edital de 06/02/1890 que realça que «importa perpetuar na memória dos povos e através das gerações os nomes dos que lidam com abnegação e valor pela grandeza da pátria, e renovam hoje em terras de África o brilho das nossas melhores tradições».

De acordo com Luís Pastor Macedo, esta artéria  « Existia já, com o nome de rua do Outeiro, no terceiro quartel do século XV (…) A elevação do terreno que originou o nome da serventia podia ser a que, muito mais tarde, impôs a colocação de um lanço de escadas para comunicar, nos nossos dias, a rua Paiva de Andrada com o largo do Directório [ hoje, Largo de São Carlos] .»

O alfacinha Joaquim Carlos Paiva de Andrada (Lisboa/29.11.1846 – 22.04.1928/Paris) foi um militar que de acordo com o Edital de 1890 «tem empenhado esforços enérgicos para explorar as regiões entre o Limpopo e o Zambeze, e reforçar com a ocupação efectiva os nossos antigos direitos históricos à posse das mesma regiões» precisando mesmo que «aquele brioso oficial repetidas vezes as percorreu, contribuindo para debelar o poderio e aprisionar a pessoa do rebelde Bonga e para assegurar a lealdade à corôa de Portugal do poderoso régulo Gungunhana [Ngungunyane]».

Pastor de Macedo acrescenta ainda que Paiva de Andrada chegou ao  posto de general de divisão, foi  governador de Tete e Quelimane, percorrendo a Zambézia e promovendo a constituição das companhias concessionárias que antecederam a de Moçambique. 

Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Artur Matos)

Freguesia de Santa Maria Maior 
(Foto: Artur Matos)

Freguesia de Santa Maria Maior (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)

Roberto Ivens, de Angola a uma rua do Chiado

Freguesia de Santa Maria Maior - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

Ramalho Ortigão foi cronista da revista Brasil-Portugal (1899 – 1914), quinzenário ilustrado que a partir da implantação da República mostrou a sua feição monárquica, cuja sede se situava no nº 52 da Rua Ivens.

A Rua Ivens foi fixada por Edital municipal de 07/09/1885 na Rua de São Francisco, e Norberto Araújo nas suas Peregrinações em Lisboa refere que « Esta Rua Ivens não existia [antes do Terramoto de 1755] , nem em desenho irregular que fôsse; a Rua Anchieta é com pequena rectificação, a Rua da Figueira, mas já a Rua Serpa Pinto só forçadamente se adapta ao traçado da antiga Rua da Metade, (…)». Note-se que pelo mesmo Edital foram também dados nas proximidades os topónimos Rua Capelo, Rua Anchieta e Rua Serpa Pinto, todos referentes a exploradores dos territórios africanos.

Roberto Ivens (Açores-Ponta Delgada/12.06.1850 – 28.01.1898/Dafundo), a quem este arruamento perpetua a memória, foi filho de Margarida Júlia de Medeiros Castelo Branco e de Robert Breakspeare Ivens e oficial da Marinha que juntamente com Hermenegildo Capelo e Alexandre Serpa Pinto recebeu em 1877,  o encargo de explorar os territórios compreendidos entre Angola e Moçambique, estudando, nomeadamente, as bacias hidrográficas do Zaire e do Zambeze. Com Capelo levou a cabo duas expedições, em 1877/80 e  em 1884/85, conhecidas através dos relatos De Benguela às Terras de Iaca (1881) e De Angola à Contracosta (1886). Some-se a isto que com os seus cadernos e desenhos, Ivens foi também o repórter da época em África.

A Rua Ivens em 1962 (Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua Ivens em 1962
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Freguesia de Santa Maria Maior

Freguesia de Santa Maria Maior

A Avenida de Vasco da Gama que partiu de Belém para a Índia

Freguesia de Belém (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Belém
(Foto: Sérgio Dias)

A Avenida Dom Vasco da Gama entra no roteiro toponímico lisboeta de Luís Dourdil  por estar sediada nesta artéria de Belém a Galeria Triângulo 48, onde entre 1993 e 2000 decorreram várias exposições póstumas do pintor.

Esta Avenida que liga a Avenida das Descobertas à Praça de Dom Manuel I, cujo topónimo foi atribuído por Edital de 29 de abril de 1948 na Avenida A e B do plano de Urbanização da Encosta da Ajuda, como a maioria dos restantes topónimos ( dezasseis) deste Edital, fixa nesta zona da cidade de cuja praia partiram outrora as naus de Vasco da Gama algumas figuras e lugares relacionados com a Expansão Portuguesa, a saber: a  Avenida da Índia, a Praça de Damão, a Praça de Dio e a Praça de Goa, Rua Soldados da Índia, a Rua Dom Lourenço de Almeida, a Rua Dom Cristóvão da Gama, a Rua Tristão da Cunha, a Rua Dom Jerónimo Osório, a Rua Fernão Mendes Pinto,a Rua Duarte Pacheco Pereira, a Rua São Francisco Xavier, a Rua Damião de Góis, a Rua Fernão Lopes de Castanheda, a Praça Dom Manuel I e a Praça do Império.

Vasco da Gama,  filho do marinheiro de D. João II Estêvão da Gama, irmão de Paulo da Gama e pai de Cristóvão da Gama, nasceu em Sines por volta de 1468, e notabilizou-se como o navegador que estabeleceu o caminho marítimo para a Índia. A sua frota partiu da praia do Restelo, em Belém, a 8 de julho de 1497,  e regressou a Lisboa em agosto de 1499. Vasco da Gama realizou uma nova viagem em 1502 voltando carregado de especiarias em 1504 e, foi reconhecido por D. João III que o nomeou vice-rei da Índia em 1524, onde chegou em setembro e aí acabou por falecer em dezembro.

Freguesia de Belém - Placa Tipo 2 (Foto: José Carlos Batista)

Freguesia de Belém – Placa Tipo 2
(Foto: José Carlos Batista)

 

A Rua Cidade de Bolama nos Olivais Sul

Freguesia dos Olivais - Placa Tipo IV (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia dos Olivais – Placa Tipo IV
(Foto: Sérgio Dias)

Nas décadas de 60 e 70 do século XX, após a eclosão da guerra colonial, a edilidade lisboeta crismou os então novos arruamentos dos Olivais com nomes de militares mortos em combate assim como com os nomes de cidades e vilas que então pertenciam ao Império Português.

Neste contexto,  a Rua D2 com o Impasse DG, abrangendo os lotes 377 a 379, 382 a 387 e os lotes 389 a 393 passou a designar-se por Rua Cidade de Bolama e o mesmo edital de 11 de julho de 1970 perpetuou ainda nesta zona de Olivais Sul duas outras cidades da Guiné – Rua Cidade de Bissau e Rua Cidade de Bafatá –, e ainda, a Rua Cidade da Praia (de Cabo Verde), a Rua Cidade de Margão (Índia) e a Praça Cidade de Dili ( em Timor).

Antes, pelo Edital de 04/07/1967 , haviam sido colocadas na toponímia as seguintes povoações  moçambicanas: Baixo Limpopo, Bilene, Chinde, Cidade da Beira, Cidade de Inhambane, Cidade de João Belo, Cidade de Lourenço Marques,  Cidade de Nampula, Cidade de Porto Amélia, Cidade de Quelimane, Cidade de Tete, Cidade de Vila Cabral, Manica, Matola e a Vila Pery. De igual forma, o Edital de 10/04/1969 inseriu povoações de Angola: Rua Cidade de Benguela, Rua Cidade de Cabinda, Praça Cidade de Carmona, Rua Cidade de Gabela, Rua Cidade de Lobito, Avenida Cidade de Luanda, Rua Cidade do Luso, Rua Cidade de Malange, Rua Cidade de Moçamedes, Rua Cidade de Nova Lisboa, Rua Cidade de Novo Redondo, Rua Cidade de Porto Alexandre,  Praça Cidade de Salazar e Rua Cidade de São Salvador.

Mais tarde, o Edital de 09/02/1971, para corresponder a um pedido dos CTT para melhor destrinçar artérias ainda inseriu a Cidade de Negage, sendo escolhida esta cidade de Angola para manter a temática das artérias circundantes.

Edital de 11.07.1971

Edital de 11.07.1970


Rua Cidade de Bolama

A Rua Vitor Cordon que foi Ferragial de Cima e Nª Srª dos Mártires

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior (Foto: Toze Ribeiro)

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior
(Foto: Toze Ribeiro)

A Rua Vítor Cordon que começa no cimo da Calçada de São Francisco e termina na Rua António Maria Cardoso, foi «antes Rua do Ferregial de Cima, e nos séculos velhos – com traçado diferente, é claro – Rua de Nossa Senhora dos Mártires» segundo o olisipógrafo Norberto Araújo.

Pelo edital de 06/02/1890 a edilidade lisboeta decidiu homenagear nas suas ruas os nomes de Vítor Cordon, Paiva de Andrada e António Maria Cardoso, justificando «quanto importa perpetuar na memória dos povos e através das gerações os nomes dos que lidam com abnegação e valor pela grandeza da pátria, e renovam hoje em terras de África o brilho das nossas melhores tradições» dado que «os serviços destes nossos compatriotas na pacífica e completa realização do vasto plano de reivindicação elaborado pelo gôverno da metrópole são de ordem tal, que até arrancaram aos próprios inimigos um insuspeito e valiosíssimo testemunho de admiração».

Já cinco anos antes, através do edital de 7 de setembro, a Câmara atribuíra na mesma freguesia (então  dos Mártires) os topónimos Rua Anchieta, Rua Capelo, Rua Ivens e Rua Serpa Pinto, todos referentes a exploradores dos territórios africanos. Contudo, as figuras homenageadas em 2 de fevereiro de 1890 têm relação direta com o Ultimato Inglês como está escrito no documento: «em resultado das injustificáveis exigências do governo inglês, compreendidas no Ultimatum de 11 de janeiro passado e apenas escudadas no direito da força, inutilizados ficam em grande parte os trabalhos destes três beneméritos da Pátria, cabendo-lhes, além do quinhão na dor comum a todos os portugueses, a dor quiçá mais intensa, de ver perdido o fruto de tantas privações e tão grandes trabalhos».

Francisco Maria Vítor Cordon (Estremoz/15.03.1851 – 15.08.1901/Mafra) iniciou a sua carreira militar em África em 1876, integrado na expedição encarregada de construir o caminho-de-ferro de Ambaca. Em Angola exerceu as funções de chefe do serviço telegráfico (18979), de governador do Ambriz (1882) e de Novo Redondo (1884). Em 1888-89 procedeu à exploração e ocupação efetiva do interior de Moçambique, de Zumbo a Quelimane, assinando termos de vassalagem com os diversos régulos. Foi proclamado benemérito da Pátria em 1890. O próprio edital municipal a ele se refere exaltando «o êxito completo e brilhante da expedição de Francisco Maria Vítor Córdon, que partindo do Zumbo e seguindo os cursos do Panhane e de parte do Umfuli, subiu depois o Sanhate até à sua foz, percorrendo assim toda a região, designadas nas cartas do Marquês de Sá da Bandeira, como fronteira oriental da província de Moçambique ao sul do Zambeze, (…) Recordando ainda os trabalhos e privações suportadas animosamente com risco da saúde e da vida no decurso destas brilhantes expedições e exemplificadas entre tantos no facto ocorrido com Vítor Córdon, alimentando-se durante 45 dias com carne de búfalo em putrefacção e uns pequenos e miseráveis bolos de farinha de milho; (…).»

A título de curiosidade mencionamos o facto de o prédio com o nº1, no qual está instalada no presente a sede da CGTP-IN, de acordo com Norberto Araújo, ter sido antes, a FNAT – Fundação Nacional da Alegria pelo Trabalho e outrora, o local do Palácio dos Vilas Francas.

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior

Dom Aleixo Corte Real e Angola, Moçambique, Guiné e Timor em Lisboa

Freguesia dos Olivais (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia dos Olivais
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Dom Aleixo Corte Real, nascida em 1971 na Célula D de Olivais Sul, na Rua D5 com o Impasse DJ, pelo Edital municipal de 15 de março, com a legenda «Herói de Timor», junto com mais um topónimo dedicado a um «Herói da Guiné» e mais 6 referentes a vilas da Guiné são um dos exemplos do uso dos novos arruamentos da Freguesia dos Olivais para perpetuar terras e figuras do Império Colonial Português após o deflagrar da Guerra Colonial.

Após o eclodir da guerra colonial em Fevereiro de 1961, em Angola, as atribuições toponímicas da cidade de Lisboa passaram também a consagrar os militares mortos «ao serviço da pátria nas províncias ultramarinas», sobretudo na zona norte dos Olivais, enquanto que na zona sul dos Olivais se fixavam os nomes de povoações da Guiné, de Angola e de Moçambique.

Dom Aleixo Corte-Real (Timor- Ainaro/1886 – 1943/Timor), opôs-se desde o início à invasão japonesa de Timor no decorrer da II Guerra Mundial, tendo mesmo lutado contra as tropas japonesas e as Colunas Negras acabando capturado em 1943 e fuzilado com toda a sua família.

Dom Aleixo Corte-Real nascera como o nome de Nai-Sesu,  mas este nobre timorense converteu-se ao Catolicismo e nesta fé se batizou em 1931, tomando então o nome de Aleixo. Ainda jovem, em 1911, combateu junto com os portugueses uma coluna de sublevados, comandada pelo Liurai Dom Boaventura. Em 1934 deslocou-se a Portugal, juntamente com mais 8 timorenses, para participar na Exposição Colonial do Porto. Depois, no decorrer da II Guerra Mundial,  em 1942, os japoneses invadiram a ilha de Timor onde estavam estacionadas algumas companhias australianas que ofereceram resistência, contando com o apoio de alguma população timorense. As Colunas Negras (milícias timorenses armadas pelos japoneses) semearam o terror entre a população civil até ao final da ocupação que durou três anos e, Dom Aleixo Corte-Real que desde o início se opôs à invasão japonesa, acabou fuzilado.

Finda a II Guerra Mundial o Estado Novo tornou Dom Aleixo uma figura de promoção colonial do regime português através da exaltação de que fora morto por se ter mantido fiel a Portugal, recusando-se a entregar a bandeira portuguesa que escondera e, em Ainaro foi erguido um monumento a este herói timorense para além de o nome de Dom Aleixo ter sido dado a um dos seis subdistritos do distrito de Díli.

Edital nº coiso e tal

Edital nº 73/71

0 rua dom aleixo

Freguesia dos Olivais

 

A Avenida Gomes Pereira já nascida em Benfica alfacinha

Em 1968  (Foto: Arnaldo Madureira)

Em 1968 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Avenida Gomes Pereira  é uma artéria que deve ter nascido na passagem do século XIX para o XX, após a Freguesia de Benfica transitar do domínio da Câmara Municipal de Belém para o da edilidade lisboeta, em homenagem a um militar então ainda vivo que havia participado na prisão de Gungunhana (Ngungunyane) em 1895.

Benfica era um sítio essencialmente rural até às décadas de 40 e 50 do século XX, altura em que cresceu urbanisticamente com o loteamento de quintas e espaços agrícolas, tendo como eixo principal a velha Estrada de Benfica. Porém,  tinha uma carreira de Omnibus desde 1852 e comboio a partir de 1887.

De 1852 a 1885 Benfica fazia parte do município de Belém e, só em 1885 passou a integrar o concelho de Lisboa. Treze anos depois encontramos um documento (de 14/12/1898) em que uma Joaquina de Azevedo Gomes Pereira faz uma escritura de cedência da Quinta de Marrocos para a Avenida Gomes Pereira. E no ano de 1900 (4 de abril) essa mesma Joaquina assina outra escritura para entregar à CML a Avenida Gomes Pereira.

Mais tarde, em 1908, na Planta Topográfica de Lisboa, de Júlio Silva Pinto e Alberto de Sá Correia, já aparece referido este arruamento como Rua Gomes Pereira. Em 1943, após a formação da Comissão Consultiva Municipal de Toponímia, esta começou por proceder a um levantamento e revisão da toponímia alfacinha e registou a Avenida Gomes Pereira mantendo este topónimo  e, passados 14 anos, na reunião de 4 de junho de 1957, avançou mesmo que este topónimo passasse a ter como legenda  «1856-1926».

E assim chegamos ao alfacinha Guilherme Augusto Gomes Pereira (Lisboa/20.01.1856-1926), nascido na então freguesia de Santo André, filho de João Carlos Gomes Pereira e de Maria Evaristo Conceição Couto e, irmão mais novo de José Carlos Gomes Pereira (nascido a 07.01.1849) que também foi militar. Foi um major de Infantaria que protagonizou as campanhas de África que culminaram em 1895 com o combate de Chaimite e a prisão de Gungunhana. Aliás, toda a sua carreira se distingue por cargos exercidos em África, nos países que na época eram colónias portuguesas, quer como chefe dos concelhos de Porto Alexandre e de Humpata (1900), quer como comandante militar interino das Terras de Lourenço Marques (1897) ou, secretário geral interino do governo de Moçambique (1893) e até governador do Distrito de Angola (1892) e da Ilha do Príncipe (1898).

A Avenida Gomes Pereira, a partir de 1913, também acolheu nos seus nºs 15 a 19 a antiga Fábrica de Malhas Simões.

(Foto: João H. Goulart, s/d, Arquivo Municipal de Lisboa)

(Foto: João H. Goulart, s/d, Arquivo Municipal de Lisboa)

Freguesia de Benfica

Freguesia de Benfica