A Rua do guitarrista Jaime Santos das unhas postiças

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Nascido em Alfama, escolheu o nome artístico de Jaime Santos e este guitarrista  a quem é atribuída a invenção das unhas postiças está desde 20o8 inscrito na toponímia de Lisboa, numa Rua da freguesia de Santa Clara.

Por via do Edital municipal de 3 de julho de 2008 Jaime Santos ficou na Rua 4 (arruamento projetado ao Bairro das Galinheiras), zona onde já estavam a fadista Berta Cardoso (na Rua 3) e a pintora Maluda (Rua 1) a quem Carlos Zel dedicou um fado – pelo anterior Edital de 27 de abril de 2007 -, levando como companhia no seu Edital os compositores Wenceslau Pinto  (Rua 5) e Carlos Rocha (Rua 6), este último o autor de Sempre que Lisboa canta.

Jaime Tiago dos Santos (Lisboa/01.06.1909 – 04.07.1982/Lisboa), nasceu na então freguesia de Santa Engrácia, em Alfama, e escolheu o nome artístico de Jaime Santos, sendo um popular guitarrista sobretudo nas década de quarenta e cinquenta do séc. XX e sendo-lhe atribuída a invenção das unhas postiças que permitiram maior resistência e melhor sonoridade.

Aos 12 anos era aprendiz de marceneiro mas já dava os primeiros passos na viola, bandolim e violino, em festas populares. Porém, o seu sogro Georgino de Sousa terá influenciado a trocar para a guitarra, instrumento onde teve como referência Armandinho, por quem tinha uma enorme admiração, e com o qual manteve amizade. Em 1944, foi convidado a fazer parte do Conjunto Português de Guitarras de Martinho da Assunção, de que também faziam parte António Couto (guitarra), Alberto Correia (baixo) e o próprio Martinho da Assunção (viola). Por volta de 1945 acompanhou Amália Rodrigues no início da sua carreira internacional, tanto em Portugal, como nos E.U.A. e México, até ao ano de 1955, tendo ainda participado com ela no filme O Fado (1947), assim como na produção francesa, Les Amants du Tage (1954). Além disso, protagonizou ainda com Amália uma das curta-metragens de Augusto Fraga sobre Fado, que tomou como base o famoso quadro de 1910 do pintor José Malhoa dedicado ao Fado (1948).

Jaime Santos trabalhou em conjunto com grandes nomes da poesia popular, como João Linhares Barbosa, Francisco Radamanto ou Frederico de Brito criando muitos fados clássicos, interpretados por nomes como Amália, Carlos Ramos, Carlos do Carmo, Estela Alves, Fernanda Maria,  Lucília do Carmo   e Manuel de Almeida.

A partir de 1963 começou a construir os seus próprios instrumentos e deixou uma profícua discografia de instrumentais. Foi ainda o principal guitarrista de algumas das melhores casas de fado lisboetas como a Adega Machado (de Armando Machado), a Adega Mesquita, O Faia (de Lucília do Carmo), Lisboa à Noite (de Fernanda Maria), o Luso, A Tipoia (de Adelina Ramos) ou A Toca (de Carlos Ramos).

Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua do mestre de música Marcos Portugal

Freguesias da Misericórdia e de Santo António
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Mestre de Música de princesas e príncipes, Marcos Portugal ficou perpetuado na antiga Rua da Conceição, a ligar a Praça das Flores à Rua da Imprensa Nacional, num dos primeiros Editais municipais de toponímia após a implantação da República.

Pelo Edital de municipal de 7 de agosto de 1911, junto com mais 43 topónimos, a antiga Rua da Conceição que pelo Edital do Governo Civil de 01/09/1859 se tornara Rua de Nossa Senhora da Conceição passou a ser a Rua Marcos Portugal, com a legenda «Músico Compositor/1762-1830». Todavia, após a criação da Comissão Municipal de Toponímia na edilidade lisboeta, em 1943, foi esta Comissão de parecer que a legenda fosse  suprimida, na sua reunião de 16/12/1946, o que foi homologado pelo Presidente da Autarquia em 20/12/1946.

O homenageado é Marcos António da Fonseca Portugal (Lisboa/24.03.1762 – 07.01.1830/Rio de Janeiro) que se distinguiu como organista, maestro e prolífico compositor, com mais de 70 obras dramáticas, cerca de 40 óperas e mais de 140 obras religiosas, tendo ficado conhecido no estrangeiro como Marco Portogallo.

Marcos António estudou composição desde os 9 anos, com João de Sousa Carvalho, no Seminário da Patriarcal de Lisboa, assim como canto e órgão. A partir de 1782, Marcos Portugal iniciou uma longa colaboração com a Família Real, desde a encomenda de música religiosa para as festividades nas Capelas Reais. Aliás, as suas 3 obras sacras mais conhecidas mantiveram-se no repertório durante cerca de um século: a Missa Grande (c. 1790), as Matinas da Conceição (1802) e o Te Deum (1802). De 1783 a 1792  foi organista e compositor da Sé Patriarcal de Lisboa, acumulando com o lugar de Mestre de Música do Teatro do Salitre, a partir de 1784 ou 1785, onde compôs vários entremezes, óperas portuguesas com libretos italianos traduzidos e elogios para festejar os aniversários de Pessoas Reais.

Em 1792 partiu para Itália, onde compôs 21 óperas, cujo sucesso rapidamente lhe granjeou fama internacional. Depois de uma breve visita a Lisboa em 1795, voltou em 1800, época em que se tornou professor dos príncipes, mestre do Seminário da Patriarcal e maestro do Real Teatro de S. Carlos até ao Carnaval de 1807, ano em que se destacou pela enorme quantidade de obras religiosas que compôs utilizando os 6 órgãos de Mafra, numa altura em que o Príncipe Regente (futuro D. João VI) e a corte residiam no Palácio.

Em novembro de 1807, quando as tropas de Napoleão entraram na capital portuguesa, Marcos Portugal permaneceu em Lisboa, reescrevendo a ópera Demofoonte para o aniversário do Imperador francês a 15 de agosto de 1808 e depois, até janeiro de 1811, foi intermitentemente maestro no Real Teatro de S. Carlos. O Príncipe Regente chamou-o para o Rio de Janeiro, onde a Família Real residia desde março de 1808 e para lá foi em 11 de junho de 1811, nomeado Mestre de Música de Suas Altezas Reais e Compositor Real oficial. Dedicado sobretudo à música religiosa, recebeu a Comenda da Ordem de Cristo em 1820, na data de aniversário do Príncipe Pedro. Quando a Corte portuguesa retornou a Lisboa, em 1821, Marcos manteve-se ao serviço do seu aluno, o Príncipe Pedro, que viria a ser D. Pedro I, o Imperador do Brasil, pelo que em setembro de 1822 compôs o Hino da Independência do Brasil e a 10 de dezembro de 1824 foi confirmado como Mestre de Música das princesas.

Freguesias da Misericórdia e de Santo António
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua do violinista Luís Barbosa no Beato

Freguesia do Beato (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Beato
(Foto: Sérgio Dias)

O alfacinha Luís Barbosa, considerado o melhores violinista da sua geração, dá nome a uma artéria do  Beato desde 1979, com a legenda «Músico/1887 – 1952».

A Rua Luís Barbosa nasceu do Edital municipal de 19/06/1979 no arruamento de ligação à Rua Dr. Manuel Espírito Santo, situado entre os Impasse 2 e 3. Este Edital fixou os topónimos dos arruamentos da Quinta do Ourives, colocando também o nome do bibliotecário e historiador António Joaquim Anselmo e figuras das artes como o escultor Faustino José Rodrigues, o pintor José Rodrigues e o barítono Francisco de Andrade (arruamento entretanto desaparecido e bem, já que desde a publicação do Edital de 20/10/1955 este cantor lírico estava fixado numa artéria de Alvalade).

José Luiz Barbosa (Lisboa/23.05.1887 – 03.10.1952/Lisboa),  começou os seus estudos musicais com o seu pai, com menos de 4 anos de idade e aos 5 já ganhava a vida tocando em cafés. A condessa de Edla, viúva de D. Fernando, protegeu-o custeando a despesa com o seu ingresso como aluno do Conservatório de Lisboa, mas este viu-se forçado a interrompê-los, dos 8 aos 17 anos, voltando a prosseguir os estudos depois com o professor e violinista Júlio Cardona, que foi o seu grande mestre, tendo também recebido lições do professor do Conservatório Alexandre de Bettencourt de Vasconcelos. Ficaram memoráveis as suas interpretações, com orquestras dirigidas por David de Sousa, Joaquim Fernandes Fão, Viana da Mota ou Pedro de Freitas Branco, dos difíceis concertos de Marc Bruch, Mendelssohn, Paganini, Saint-Saens e Tartini. A sua composição para violino e piano Romance, uma deliciosa peça de encore, característica do repertório dos violinistas concertistas do princípio do séc. XX, ficou também muito conhecida e curiosamente, Luís Barbosa casou com uma sua discípula que depois optou por ser pianista e os seus filhos foram o violinista Vasco Barbosa e a pianista Grazie Barbosa.

Luís Barbosa fez parte do Quarteto de Cordas da Emissora Nacional, com o qual interpretou praticamente todo o reportório clássico para esta formação e com o violoncelista Fernando Costa interpretou, em primeira audição em Portugal, o duplo concerto de Brahms para violino e violoncelo.

Luiz Barbosa foi ainda professor, tendo sido seus discípulos nomes como César Lobo, Fausto Caldeira, Herberto de Aguiar e foi agraciado com a Ordem de Sant’iago da Espada em 5 de outubro de 1928.

Freguesia do Beato (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Beato
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua Francisco Baía que foi de Alvalade para São Domingos de Benfica

Freguesia de São Domingos de Benfica (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Foto: Sérgio Dias)

Francisco Baía, pianista e professor do Conservatório de Música de Lisboa, teve direito a ser nome de rua em Lisboa por duas vezes: primeiro em Alvalade (1970) e depois, em São Domingos de Benfica (1971).

Conforme a Ata da reunião da Comissão Municipal de Toponímia de 23 de dezembro de 1970 (Ata nº 98), face a um «Despacho de Sua Excelência o Presidente [ o Engº Santos e Castro] solicitando parecer sobre a transferência do topónimo que consagrou o nome de José Malhoa, para um arruamento de maior categoria» a Comissão considerou  que «num futuro próximo a Rua O da Malha Um de Chelas será uma das mais importantes artérias de Lisboa, a Comissão, tendo em vista o despacho de Sua Excelência o Presidente, sugere que a mesma passe a denominar-se Avenida José Malhoa/Pintor/1855 – 1933 e que a actual Rua José Malhoa (em Alvalade) e o seu prolongamento constituam um único arruamento que se denominará Rua Francisco Baía/1861 – 1931

Contudo, na Ata seguinte, a Ata nº 99, e sem referir  justificação alguma, a Rua José Malhoa passou antes a ser a Rua General Pimenta de Castro e, a Rua Francisco Baía foi para a Freguesia de São Domingos de Benfica por via do Edital municipal de 9 de fevereiro de 1971, colocada na Rua D à Rua dos Soeiros, a ligar hoje a  Rua dos Soeiros à Rua Maestro Jaime Silva (Filho).

Partitura de Francisco Baía editada cerca de 1800 (Foto: Biblioteca Nacional)

Partitura de Francisco Baía editada cerca de 1889- 1891
(Foto: Biblioteca Nacional)

Francisco Jorge de Sousa Baía (Funchal/1861 – 1931/Lisboa) foi um pianista e professor da Escola de Música do Conservatório de Lisboa, até à sua aposentação. Foram suas alunas Elisa Baptista de Sousa Pedroso e Cândida de Freitas, entre outros.

Francisco Baía foi também um valor da música portuguesa para piano, tendo publicado diversas partituras como A Brisa : fado para piano (cerca de 1889 a 1891) dedicada a Alexandre Rey ColaçoQuermesse: valsa para piano dedicada à Real Associação das Creches, Fado Chic (cerca de 1900),  Fadinho Liró (1900) dedicado à sua filha Maria do Carmo, Preâmbulo em Sol bemol : para piano (1907). Foi também um compositor de teatro musical .

Em 1918, junto com Tomás Borba e Augusto de Oliveira Machado foi Delegado do Conservatório de Lisboa para eleger o senador eleito pelas artes visuais, música e teatro ao Congresso da Nova República, de Sidónio Pais, em que foi eleito Júlio Dantas.

Freguesia de São Domingos de Benfica (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Santos Pinto, compositor do Hino a Saldanha

Freguesia da Estrela (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Estrela
(Foto: Sérgio Dias)

Com a legenda «Escritor Musical/1815 – 1860» foi fixado em 1925 o nome do alfacinha Francisco dos Santos Pinto na Rua nº 3 do então Novo Bairro da Lapa, um compositor, violinista e trompista  que politicamente era um liberal ferrenho tendo por isso composto um Hino ao Marechal Saldanha em 1851.

Por esse mesmo Edital municipal de 8 de junho de 1925 foram também dados nomes de compositores às Ruas nº 1 e nº 2 do mesmo Bairro, a saber, a Rua Joaquim Casimiro – homenageando neste caso um miguelista ferrenho de meados do século XIX e rival de Santos Pinto-, e a Rua Maestro António Taborda, que desenvolveu a sua carreira na Banda de Música da Guarda Nacional Republicana.

Santos Pinto Francisco dosFrancisco António Norberto dos Santos Pinto (Lisboa/06.06.1815 – 30.01.1860/Lisboa) começou desde cedo a ganhar a vida através da música, recebendo para cantar em festas de igreja. Aprendeu a tocar violino, trompa e clarim. Iniciou os seus estudos musicais com Teotónio Rodrigues, cantor da Capela da Bemposta, estudou violino com José Maria Morte e trompa com Justino José Garcia, mestre de banda das Reais Cavalariças, a que Santos Pinto viria também a pertencer em 1830, com apenas 15 anos. No início das guerras civis de 1832 era Francisco santos Pinto primeiro corneta na Banda da Guarda Real da Polícia. Estudou Harmonia com Eleutério Franco Leal, e mais tarde, com Manuel Joaquim Botelho. Pela mesma altura, mas um pouco depois, integrou a orquestra do Teatro de São Carlos até que em 1838 se estreou como compositor do bailado Adoração do Sol e no ano seguinte, era clarim supranumerário na orquestra da Real Câmara.

A partir de 1845 ficou como o compositor (mais ou menos permanente) do recém-inaugurado Teatro de D. Maria, para o qual irá compor cinco anos depois, A casa misteriosa, uma espécie de ópera cómica. Ainda nesse ano, aquando da visita do pianista Franz Lizt a Lisboa, Santos Pinto dedicou-lhe a sua 8ª Sinfonia (ou Abertura), fazendo-se mesmo retratar com a partitura num quadro que hoje se encontra no Museu da Música em Lisboa. A partir de 1849 iniciou também funções de docente do Real Conservatório de Lisboa, onde foi seu discípulo Guilherme Cossoul, como professor de Instrumentos de Latão e, em 1857, alcançou a  coroa de glória da sua carreira ao passar a ser o maestro diretor do São Carlos.

Francisco dos Santos Pinto foi um autor sobretudo de teatro cómico, de opereta, de teatro musical, de revista, fundando a sua carreira no entretenimento musical de grande apelo público. Compôs música para mais de 20 bailados e musicou cerca de 30 peças teatrais, tal como escreveu 35 aberturas para orquestra e algumas peças de música sacra e hinos patrióticos como a Marcha que compôs em homenagem aos voluntários da Carta (1844). Santos Pinto foi bastante interventivo na vida social e política do seu tempo, manifestando-se como simpatizante do Cartismo e da Maçonaria, não apenas ao compor hinos alusivos a ambos, para além das  Odes Maçónicas, o que se prende também com o ter sido fundador de duas importantes instituições musicais paramaçónicas: a Associação Musica 24 de Junho e a Academia Melpomenense.

Freguesia da Estrela (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua da Constança que era a pianista Nina

Freguesia de Benfica (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Benfica
(Foto: Sérgio Dias)

A pianista Constança Marques Pereira que preferia ser conhecida como Nina Marques Pereira, está perpetuada numa artéria de Benfica, na sequência de uma sugestão do jornal O Século, tendo sido fixada na  Rua Projetada à Avenida Gomes Pereira pela publicação do Edital municipal de 25/10/1971, com a legenda «Pianista/1911 – 1968».

nina-marques-pereira

De seu nome completo Constança Carlota Prazeres Marques Pereira (Goa/21.02.1911 – 25.08.1968/Lisboa), arribou a Lisboa em 1928 e concluiu o Curso Superior do Conservatório Nacional com 20 valores, em 1931, tendo sido aluna do mestre António Duarte da Costa Reis. Foi depois bolseira do Instituto de Alta Cultura em Paris, onde fez o Curso de Virtuosidade como discípula  de Alfred Corlot.

Tornou-se uma pianista muito aclamada, sobretudo como solista da Orquestra Sinfónica Nacional, sob a regência dos maestros Pedro de Freitas Branco, Pedro Blanc ou Jaime Silva (Filho). Tocou em Paris, Londres, Lourenço Marques e outras cidades africanas, nos Açores,na Madeira, no Conservatório do Porto, no Rivoli, na Sociedade de Música de Câmara, no São Carlos, no Trindade de Lisboa ou no Pavilhão dos Desportos, a convite da Câmara Municipal de Lisboa.  Deu ainda concertos em Espanha, Suíça, Bélgica e Holanda, privilegiando sempre os compositores nacionais como Domingos Bomtempo, Francisco António de Almeida ou Viana da Mota.

Na rádio, executou para a Emissora Nacional as 32 sonatas de Beethoven e também transcrições para piano de obras de cravistas portugueses, assim como também cumpriu vários contratos com a BBC londrina. Em paralelo com a sua carreira de pianista, Nina  organizou também Festivais de Música no Funchal (1964), em Lisboa (1966) e no Porto (1967) para além de ter abraçado o projeto de ensino artístico Pássaro Azul, no Parque Infantil das Necessidades, dirigido por Fernanda de Castro, onde foi  uma das professoras como Arminda Correia (na Música), Águeda Sena e Ana Máscolo (na Dança),   Eunice Muñoz e Carmen Dolores  (Teatro) ou Sarah Afonso (Pintura), entre outras.

Foi distinguida com os Prémios Oficial do Conservatório (1932), Beethoven(1933), Viana da Mota  e o Oficialato da Ordem de Santiago da Espada (1967).

Faleceu na sua casa na Rua Padre António Vieira, nº 1 – r/c esqº, em Lisboa.

Freguesia de Benfica (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

A Rua de Gazul discípulo de Cossoul

Freguesia de Campo de Ourique (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Sérgio Dias)

Francisco Freitas Gazul, compositor da passagem do séc. XIX para o XX e discípulo de Guilherme Cossoul, está perpetuado numa rua de Campo de Ourique, desde a publicação do Edital municipal de 02/06/1958 que o colocou na Rua Projetada à Rua Gervásio Lobato, ficando a ligar a Rua Sampaio Bruno à Estrada dos Prazeres, a partir de uma solicitação da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses.

Freitas Gazul em O Palco - Revista Teatral, 5 de maio de 1912

Freitas Gazul em O Palco – Revista Teatral, 5 de maio de 1912

Francisco de Freitas Gazul (Lisboa/30.09.1842  – 20.10.1925/Lisboa), filho do músico Francisco Gazul, distinguiu-se como professor de música, violoncelista, contrabaixista, bem como maestro e compositor de música litúrgica, de câmara e  de operetas.  A partir de 1856, estudou no Conservatório de Lisboa  Rudimentos Musicais com Filipe Real (recebeu a medalha de ouro), Violoncelo com João Jordani e também com Guilherme Cossoul, assim como Harmonia, Contraponto e Fuga com  Monteiro d’ Almeida, pelo que não se estranha que depois se tenha feito professor de Rudimentos Musicais na mesma Escola, sendo de realçar que Viana da Mota foi seu aluno.

Quando Guilherme Cossoul foi nomeado diretor da Orquestra de São Carlos, em 1859, chamou Freitas Gazul para seu assistente. Em 1867  ficou em primeiro lugar na vaga para 2º violoncelo nas óperas e 1º nos bailados. Em 1875 esteve como maestro-ensaiador no Teatro de São João (no Porto), onde ensaiou e dirigiu várias óperas como Linda de Charmonix, Guilherme Tell, Barbeiro de Sevilha, Baile de Máscaras, Othello ou a Traviata. Regressado a Lisboa passou a trabalhar no Teatro da Rua dos Condes, onde musicou operetas e várias paródias.  Como compositor, destaquem-se a sua 2ª Sonata (1870), a Sonatina e La Première Jeunesse.  Francisco Palha contratou-o depois para o Teatro da Trindade, para compor música para várias operetas. Destaque-se ainda que Freitas Gazul compôs um hino à Carta, já que era partidário de Costa Cabral, bem como uma ópera em quatro actos, Frei Luís de Sousa, a partir do texto homónimo de Almeida Garrett que subiu ao palco do São Carlos em 19 de março de 1891.

Freitas Gazul foi ainda autor de dois livros, um de exercícios de solfejo e outro de rudimentos musicais, sendo o primeiro ainda usado nos dias de hoje nas bandas de música. Existiu em Lisboa uma Sociedade Filarmónica Francisco Freitas Gazul.

Freguesia de Campo de Ourique (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do criador do Fado Armandinho

Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias)

Armando Freire, guitarrista de fado e criador do Fado Armandinho, que Artur Paredes muito considerava usando para isso a imagem de que era uma renda tudo o que ele tocava, está desde 2005 presente na toponímia de Lisboa a partir de uma proposta de Appio Sottomayor, enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa.

A proposta de Appio Sottomayor foi aprovada por unanimidade na reunião da Comissão Municipal de Toponímia de 2 de maio de 2005, tendo ainda a Comissão emitido parecer de que a homenagem se estendesse aos fadistas Fernando Farinha e Fernando Maurício, e assim estas propostas foram aprovadas em sessão de câmara de 20 de maio de onde resultou o consequente Edital municipal de 01/08/2005 que fixou a Rua Armandinho na   Via 2 à Rua do Vale Formoso de Cima, junto com a Rua Fernando Farinha (Via 5 à Via 3 à Rua do Vale Formoso de Cima)  e a Rua Fernando Maurício (Via 3 à Rua do Vale Formoso de Cima), todos próximos e todos na freguesia de Marvila onde já estava colocado o primeiro fadista a aparecer na toponímia de Lisboa: Alfredo Duarte (Marceneiro).

armandinho_0001-2Armandinho tinha como nome de registo civil Armando Augusto Salgado Freire (Lisboa/11.10.1891-21.12.1946/Lisboa)  e nasceu no Pátio do Quintalinho junto à Rua das Escolas Gerais, tendo-se distinguido como excelente executante da guitarra portuguesa, criador de estilos e compositor de fados que se tornaram imortais tais como o Fado Armandinho (a sua primeira composição, de 1910), o Fado do Bacalhau (para teatro de revista), o Fado do Cívico (para a  revista Torre de Babel em 1917), o Fado Conde da Anadia, o Fado Estoril, o Fado Fontalva, o Fado Peniche (que se tornou um hino para os que aí estavam presos), o Fado Mayer ou o Fado São Miguel (composto nos Açores no Natal de 1933), entre muitos outros. Armandinho fez a ponte entre duas eras do Fado: a do séc. XIX de conotação marginal e trágica e a do séc. XX de grande popularidade do género.

Em 1914, já Armandinho tocava de ouvido e tornou-se discípulo do célebre Luís Petrolino após o que se estreou como guitarrista profissional no Olímpia Club, na Rua dos Condes, embora tenha mantido em paralelo outros trabalhos  como sapateiro, operário da Companhia Nacional de Fósforos, servente do Casão Militar ou fiscal do Mercado da Ribeira.

O seu estilo fez escola e nela se filiaram outros grandes nomes como Carvalhinho, Fontes Rocha, Jaime Santos, José António Sabrosa, José Marques Piscalareta,  José Nunes, Raúl Nery ou Salvador Freire. As suas interpretações na guitarra tinham tal força que inspiraram ao poeta Silva Tavares as seguintes quadras:

A guitarra – alma da raça,
Amante do meu carinho,
Tem mais perfume e desgraça
Nas mãos do nosso Armandinho.
Benditos os dedos seus
Que arrancam assim gemidos
Tal como se a voz de Deus
Falasse aos nossos ouvidos.

Armandinho, considerado génio da guitarra portuguesa pelo seu dedilhar exímio, acompanhou inúmeras vozes fadistas das décadas de vinte e trinta do séc. XX, quer em palcos, quer em casas de fado como o Solar da Alegria ou o Café Luso, quer em gravações discográficas, como Adelina Ramos, Alberto Costa,  Ângela Pinto, Berta Cardoso, Madalena de Melo, Maria do Carmo Torres, Maria Vitória ou a Santa do Fado Ercília Costa.  Foi dos primeiros a realizar digressões artísticas fora de Portugal nos anos 20 do séc. XX e percorreu também  casas particulares, como as da Família Burnay, Fontalva ou Castelo Melhor.

Em 1926, Armandinho fez a primeira gravação em Portugal em microfone de bobine eléctrica móvel, tendo gravado 6 composições. E dois anos depois, gravou um conjunto de Fados, variações em tons diferentes e uma marcha, no Teatro São Luiz, para um 78 rpm. Refira-se ainda que Armandinho foi em 1927  um dos membros fundadores da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses, onde procedeu à  recolha de muitas melodias de Fado indexadas pelos seus autores o que permite nos nossos dias termos acesso a essas melodias. Em 1930, Armandinho também abriu o seu próprio espaço no Parque Mayer, o Salão Artístico de Fados, onde tocou durante alguns anos.

Armandinho faleceu na sua casa, na Travessa das Flores, junto ao Campo de Santa Clara, tendo o  jornal Guitarra de Portugal feito capa do sucedido sob a ideia do Fado de luto.

Freguesia de Marvila (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias)

Filipe Duarte, compositor da opereta Severa e do Fado da Ceguinha, numa Rua do Lumiar

Freguesia do Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

Filipe Duarte, compositor de opereta e de revista, muito querido do público de Lisboa nas primeiras décadas do século XX, sobretudo pela «Canção da Ceguinha» da opereta O Fado (1910)  e pela opereta A Severa (1923), ficou perpetuado numa artéria alfacinha do Lumiar quatro anos após o seu falecimento.

Foi pelo Edital municipal de 31/03/1932 que Filipe Duarte deu nome à Rua B do Bairro Jardim. Pelo mesmo Edital o Bairro Jardim também ganhou a Avenida Ventura Terra (Avenida nº 6) e a Rua Branco Rodrigues (Rua A). Todavia, como na época as decisões sobre atribuições de topónimos era tomadas a partir de plantas a crescente urbanização do Bairro acabou por fazer desaparecer a Rua deste último, que renasceu como topónimo em 1976, na artéria onde havia residido.

O Palco - Revista Teatral, 05.03.1912

O Palco – Revista Teatral, 05.03.1912

Filipe Duarte (Lisboa/01.07.1855-08.07.1928/Lisboa), cursou o Conservatório de Lisboa onde estudou Violino, Composição e Direção de Orquestra. Em 1875, foi regente fundador da Academia de Alunos do Conservatório de Lisboa mas no ano seguinte,  devido a dificuldades económicas,  tornou-se profissional da música como ocarinista, enquanto membro da Sociedade de Concertos de Ocarinas, que partiu numa digressão pela América do Sul.

De regresso, iniciou em 1881 a sua carreira de maestro na Orquestra do Club Guilherme Cossoul e no ano seguinte,  a 10 de novembro, estreou-se como solista de violino no Teatro Nacional de São Carlos. Em 1884  foi um dos membros fundadores da Real Academia de Amadores de Música, onde permaneceu como professor e regente de orquestra até ao fim da vida.

Filipe Duarte compôs principalmente música para revistas e operetas, entre as quais se destacam a sua primeira opereta  A Lancha Favorita (levada à cena no antigo Clube do Calvário), bem como Agulhas e Alfinetes ( 1895, Teatro da Rua dos Condes), Nicles (1901), O Fado (1910, Teatro Apolo),  A Leiteira d’Entre-Arroios (1920, Teatro São Luiz),  A Mouraria (1925, Teatro Apolo), firmando-se como uma personalidade de relevo no teatro de revista na viragem do século, tendo-se destacado de outros compositores da mesma época pelo carácter popular das suas criações, com enorme sucesso e aplauso do grande público.

Dois casos reveladores da popularidade da criação musical de Filipe Duarte foram a «Canção da Ceguinha» da opereta em 4 atos O Fado (1910)  e a opereta A Severa (1923).  A última foi musicada por Filipe Duarte, com libreto de Júlio Dantas e André Brun, a partir da peça homónima de Dantas e o êxito foi tal que Leitão de Barros pegou no conjunto para fazer o primeiro filme sonoro português, com o mesmo nome e tendo André Brun como assistente. Ainda em 2015, o Teatro Ibérico repôs esta opereta. Já a «Canção da Ceguinha» da opereta  O Fado, com letra de Bento Faria, foi cantada por Zulmira Miranda e compreendia um total de seis quadras, sendo as duas primeiras assim:

Sou ceguinha de nascença!
Isto assim não é viver!
Minha tristeza é imensa,
Quem me dera já morrer!

Porque assim fui condenada,
Se não fiz mal a ninguém?
Vivo em trevas sepultada
Não conheço pai nem mãe.

Este tema tornou-se muito popular e também era conhecido como «Fado do Ceguinho», «Fado dos Cegos», « Fado da Ceguinha» ou «A Ceguinha» e na primavera de 1928 foi gravado na voz de António Menano sob o título «Fado do Ceguinho» e em outubro desse mesmo ano, como «Fado dos Cegos» foi gravado por Armando Goes e de acordo com um ensaio de Júlio Dutra Andrade, a canção era popularíssima na Ilha do Faial, como canção maternal de embalar, rivalizando com o antigo «Papão Feio».

O aplaudido Filipe Duarte foi ainda colaborador da Revista do Conservatório Real de Lisboa e vogal do conselho da arte musical da mesma instituição e, curiosamente, o seu falecimento no ano 1928 coincidiu com o desaparecimento da opereta dos palcos portugueses.

Freguesia do Lumiar Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
Planta: Sérgio Dias)

A Rua da violoncelista Adriana de Vecchi, da Fundação Musical Amigos das Crianças

Freguesia do Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

Adriana de Vecchi, violoncelista que com o seu marido, o também violoncelista Fernando Costa, criou a Fundação Musical Amigos das Crianças, dá o seu nome a uma rua do Alto do Lumiar, onde se concentra um pólo de topónimos ligados à música desde o Dia da Música de 2004.

A Rua Adriana de Vecchi, com início na Rua Shegundo Galarza e fim na Rua Ferrer Trindade,  foi atribuída por Edital Municipal de 15/12/2003 no arruamento identificado como Rua A da Malha 7 e Rua 7.11 mais a Rua 7.12 do Alto do Lumiar. Pelo mesmo Edital e na mesma zona foram atribuídos mais 6 topónimos –  Rua Luís Piçarra, Rua Nóbrega e Sousa, Rua Belo Marques, Rua Shegundo Galarza, Rua Tomás Del Negro e Rua Arminda Correia – que junto com a Alameda da Música foram inaugurados no dia 1 de Outubro de 2004,  formando um Bairro da Música nesta zona da cidade.

adriana-de-vecchi

Adriana de Vecchi e Costa (Viana do Castelo/14.09.1896 – 1995), filha de mãe italiana e de pai português, foi educada em Itália a partir dos 2 anos, tendo estudado piano e violoncelo no Conservatório de Turim para além de ter concluído o curso de Pedagogia pelo método da educadora Maria Montessori.

Em Lisboa conheceu aquele que viria a ser o seu marido,  o violoncelista Fernando Costa, e com ele gerou em 29 de junho de 1953 a Fundação Musical Amigos das Crianças, com o apoio de Sofia Abecassis, que disponibilizou salas da sua residência no nº 97 da Rua Saraiva de Carvalho para o efeito, depois de ouvir no Museu João de Deus a conferência de Adriana «O Ensino da Música na infância e a sua projecção no futuro», em 15 de junho desse ano. Essa escola de música começou com aulas de violoncelo dadas por Adriana de Vecchi, aulas de piano por Abreu Mota, aulas de violino por Lamy Reis e aulas de Canto Coral por Jaime Silva. Adriana criou ainda material didático para ensino de música a crianças em idade pré-escolar. A Fundação desempenhou assim um papel pioneiro em Portugal no ensino da música desde a infância.

Rapidamente os alunos começaram a apresentar-se em concertos em Lisboa, tanto em bairros camarários como em cerimónias oficiais. Adriana de Vecchi criou ainda, com o apoio da  Câmara Municipal de Lisboa, as Tardes Culturais para a Infância, na Estufa Fria, a que assistiram em 8 de maio de 1959 o presidente da Câmara Municipal de Lisboa e o Rei Humberto de Itália. Organizou também as Jornadas de Divulgação Musical um pouco por todo o país, conseguindo assim, em 1960, a 1ª apresentação de uma orquestra na Madeira.

Também foi a partir da Escola de Música da Fundação que foi gerada a Orquestra Juvenil de Instrumentos de Arco da FMAC, dirigida por Fernando Costa, da qual saíram na década de 60 os primeiros jovens para os quadros da Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, que mais tarde seria a Orquestra Sinfónica da RDP, enquanto outros alunos integraram a Orquestra Gulbenkian e a Orquestra Sinfónica Portuguesa. No âmbito do ensino artístico especializado a  Fundação também celebrou protocolos com várias escolas como a Josefa de Óbidos e a Manuel da Maia, em Lisboa.

A Fundação fundada por Adriana de Vecchi que hoje se designa por Academia Musical dos Amigos das Crianças, com sede no 1.º andar do n.º 19 da Rua Dom Luís I, já editou três discos – Canções Tradicionais Portuguesas, Cantar o Natal e Clássicos Madeirenses – publicou a partitura do Quarteto em Lá menor de Fernando Costa, e um livro sobre a Nova Técnica de Contrabaixo, de Álvaro Silva.

A Fundação Musical Amigos das Crianças foi condecorada com a Medalha de Mérito Cultural ( 1985) e reconhecida como Instituição de Utilidade Pública (1992), enquanto Adriana de Vecchi foi agraciada com a Medalha de Música e a Comenda da Ordem de Instrução Pública (1984), bem como com o título de Cavaleiro da Ordem de Mérito da República Italiana.

Freguesia do Lumiar (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)