A Rua Áurea da Livraria Rodrigues e de Camões organizado por Régio

(Imagem: © CER)

A Livraria Rodrigues, que era também Sociedade Editorial e Livreira, fundada em 1863 e sediada nos nºs 186-188 da Rua Áurea, publicou a poesia lírica de Camões numa edição organizada por José Régio, que também redigiu uma introdução e colocou notas que facilitassem a compreensão do poeta Luís Vaz de Camões para o público em geral.

A Livraria Rodrigues foi até aos anos sessenta do séc. XX uma editora de livros escolares, graças a uma gráfica instalada na sua retaguarda.

José Régio foi também um antologista em cuja obra se  incluem várias, sendo esta Luís de Camões publicada em 1944, na coleção «As melhores páginas da Literatura Portuguesa» da lisboeta Livraria Rodrigues. Refira-se que no mesmo ano, mas na Portugália da Rua do Carmo, vieram a lume As Mais Belas Líricas Portuguesas, também com seleção, prefácio e notas de José Régio.

Régio organizou mais antologias publicadas de 1945 a 1967. Com Alberto de Serpa organizou Poesia de Amor (1945), para a portuense Livraria Tavares Martins;  Alma Minha Gentil (1957), antologia de poesia de amor portuguesa, assim como Na Mão de Deus (1958), antologia de poesia religiosa portuguesa, ambas para a Livraria Portugália. A solo, organizou e prefaciou Poesia de Ontem e de Hoje Para o Nosso Povo Ler (1956), para a Campanha Nacional de Educação de Adulto e a partir de 1958 organizou e anotou para a lisbonense editora Artis dezanove antologias:  Os mais belos sonetos de Camões (1958); Os mais belos sonetos de Bocage, A mais bela écloga portuguesa: Crisfal  e As mais belas poesias de Rodrigues Lobo (todas em 1959); As mais belas poesias trovadorescas e As mais belas poesias de Tomás Gonzaga (em 1960); As mais belas poesias de Sá de Miranda e As mais belas poesias de António Ferreira (em 1961); Cancioneiro Geral de Garcia de Resende As mais belas poesias de Diogo Bernardes (em 1962); As mais belas redondilhas de Camões, As mais belas poesias de Frei Agostinho da Cruz e As mais belas canções e odes de Camões (todas as três em 1963); Os mais belos cantos de Gonçalves Dias e As mais belas poesias gongóricas (1964); As mais belas poesias de Castro Alves (1965); As mais belas poesias de Olavo Bilac e Os mais belos sonetos de Antero (1966) e As mais belas poesias de Bernardim Ribeiro (1967).

Vulgarmente conhecida como Rua do Ouro, a Rua Áurea,  é uma das artérias da Baixa pombalina que consta da Portaria de 5 de Novembro de 1760, aquela que  inaugurou em Lisboa a prática da atribuição de nomes de ruas por documento oficial e, assim, é o primeiro diploma de toponímia.

D. José I fez publicar a Portaria na qual se estabelece a denominação dos arruamentos da Baixa lisboeta, reconstruída com ruas largas sob o plano moderno de Eugénio dos Santos e Carlos Mardel«entre as Praças do Comercio e a do Rocîo», ao mesmo tempo que regulamenta a distribuição dos ofícios e ramos do comércio pelas diferentes 14 artérias: «Rua Nova d’El Rey [hoje, Rua do Comércio], Rua Augusta, Rua Áurea, Rua Bella da Rainha [hoje, Rua da Prata], Rua Nova da Rainha [hoje, Rua dos Fanqueiros], Rua dos Douradores, Rua dos Correeiros, Rua dos Sapateiros, Rua de S. Julião, Rua da Conceição, Rua de S. Nicolau, Rua da Victoria, Rua da Assumpção e Rua de Santa Justa». Para a Rua Áurea determinava que nela se instalassem os ourives da cidade e que nas lojas que sobrassem ficassem relojoeiros e os volanteiros, aqueles que vendiam artigos variados.

Recorde-se também que Lisboa da 2ª metade do século XVI já tinha uma Rua Nova dos Ourives, também denominada Rua dos Ourives do Ouro ou Rua Ourivesaria do Ouro. Fora aberta sobre um antigo esteio do Tejo que D. João II mandou parcialmente tapar e supõe-se que se situava na área hoje ocupada pelas ruas de São Nicolau e de São Julião.

A Rua Áurea no Natal de 1959
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

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A quinhentista Travessa da Queimada e a novela regiana «Davam grandes passeios aos domingos»

Capa da 1ª edição de Davam grandes passeios aos domingos, na Editorial Inquérito, o nº 40 da Coleção Novelas, em 1941
(Imagem:  © CER)

No 1º andar direito do nº 23 da Travessa da Queimada esteve instalada a Editorial Inquérito responsável pelas primeiras edições de quatro obras de José Régio: o ensaio Em torno da expressão artística (1940), a novela  Davam Grandes Passeios aos Domingos (1941), o romance O Príncipe com Orelhas de Burro (1942), e a peça A Salvação do Mundo (1954).

Nessa época, a Editorial Inquérito imprimia as suas edições na tipografia Libanio da Silva, sediada ali próximo, na Travessa do Fala Só, junto à Calçada da Glória.  Já o nº 23 da Travessa da Queimda é o Palácio Rebelo Palhares, do séc. XVII, que pertenceu ao 1º. Conde Almeida Araújo e onde, para além da Editorial Inquérito, se albergaram os jornais Diário Ilustrado (1872-1910), Correio da Europa (1902) e A Bola, a partir de 1945.

A Travessa da Queimada, que se alonga desde o antigo Largo de São Roque, hoje Largo Trindade Coelho, até à Rua da Atalaia é um arruamento quinhentista que marca o limite da 1ª fase de urbanização da Vila Nova de Andrade, futuro Bairro Alto de São Roque, que decorreu de 1513 a 1518, partindo das Portas de Santa Catarina para poente e subindo até esta Travessa da Queimada, que primitivamente foi qualificada como rua, mas também terá sido designada como Travessa dos Poiais. Salienta-se que a modernidade da urbanização do Bairro Alto aqui se revelou por ser construída em quadrícula, com um traçado de ruas ortogonal, antes de Lisboa sequer pensar vir a ter  a Baixa pombalina.

Sobre a origem deste topónimo a explicação mais verosímil é a do olisipógrafo Vieira da Silva que o faz derivar do nome de uma certa fidalga, Ana Queimada, que em meados do séc. XVI tinha  naquele local  aforado um chão aos frades de São Roque, para construir moradias nobres.

 

O nº 23 da Travessa da Queimada
(Foto: Cláudia Michele Damas e Sousa, 2012, Arquivo Municipal de Lisboa)

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O Largo do Nautilius das «Vinte mil léguas submarinas»

Freguesia do Parque das Nações
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Largo do Nautilius, no Parque das Nações, liga a Rua Pedro e Inês ao Passeio de Ulisses e foi um dos 102 topónimos oficializados pelo Edital municipal de 16 de setembro de 2009, após a reconversão da zona da EXPO 98 em Parque das Nações e a sua integração no território do concelho de Lisboa.

Nautilius é o nome de um submarino movido a electricidade, ficcionado por Júlio Verne em 1869, como protagonista da sua obra Vinte mil léguas submarinas (no original, Vingt mille lieues sous les mers). O livro foi originalmente publicado em forma de uma série no periódico Magasin d’Éducation et de Récréation, de março de 1869 a junho de 1870. O enredo situa-se em 1866 quando o capitão Nemo que construiu o Nautilius convida a expedição do professor Pierre Aronnax, especialista em  criaturas marinhas, a fazer a bordo uma jornada pelo fundo dos oceanos na qual vão percorrer vinte mil léguas.

Este topónimo é uma herança da Expo 98, subordinada ao tema “Os oceanos: um património para o futuro”, na qual os arruamentos do evento foram denominados  com topónimos ligados aos oceanos, aos Descobrimentos Portugueses, aos aventureiros marítimos da literatura e banda desenhada mundial, a figuras de relevo para Portugal, a escritores portugueses ou obras de sua autoria ligadas ao mar e ainda mais alguns ligados à botânica.

Freguesia do Parque das Nações
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua Flores do Lima nascida a 7 de julho e o Quarteto das 4 salas e 4 filmes

O cinema Quarteto, na Rua Flores do Lima, em 1977 (Foto: Vasques, Arquivo Municipal de Lisboa9

O cinema Quarteto, na Rua Flores do Lima, em 1977
(Foto: Vasques, Arquivo Municipal de Lisboa)

A obra Flores do Lima  da autoria de Diogo Bernardes, impressa em 1597,  deu origem em 1961 à Rua Flores do Lima que justamente tem entrada a partir da Rua Diogo Bernardes,  no Bairro de São Miguel da Freguesia de Alvalade, e na qual esteve sediado de 1975 até 2007 o cinema Quarteto, obra do empenhado Pedro Bandeira Freire para toda a cidade.

A Rua Diogo Bernardes foi atribuída pelo Edital municipal de 6 de março de 1952 e nove anos mais tarde,  os moradores de um arruamento paralelo à Avenida Estados Unidos da América cujo acesso se fazia a partir dessa artéria pediram a atribuição de denominação ao mesmo, tendo a Comissão Municipal de Toponímia proposto «que o referido arruamento se denomine: Rua Flores do Lima, porque Flores do Lima é o título de um livro da autoria de Diogo Bernardes, que teve várias edições», o que se veio a verificar pelo Edital municipal de 7 de julho de 1961.

Freguesia de Alvalade (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias)

O cinema Quarteto,obra do Arqt.º Nuno San-Payo, foi inaugurado no nº 16 da Rua Flores do Lima em 21 novembro de 1975, com 716 lugares e apresentando-se como o 1º complexo de salas de Lisboa,  característica justamente realçada  no slogan que usava: «4 Salas / 4 Filmes.». Foi gerido pelo cinéfilo Pedro Bandeira Freire, garantindo uma atmosfera de cinefilia com exibições exclusivas. Ficaram memoráveis as famosas maratonas de 24 horas de cinema, a exibição de A Religiosa (1967) de Jacques Rivette, um dos mais espantosos sucessos do pós 25 de Abril e o 2º maior êxito do Quarteto, o ter dado a conhecer em Portugal o realizador Martin Scorcese com Taxi Driver  (a partir de 15 de abril de 1977),e a estreia de All That Jazz (1979) de Bob Fosse, em exclusivo e nas quatro salas, sendo o maior êxito de sempre deste cinema, propriedade de Pedro Bandeira Freire e do seu sócio, o escritor Almeida Faria. O Quarteto albergou ainda numa das suas salas, em 1981, a Cinemateca, devido a um incêndio que destruiu o edifício da Rua Barata Salgueiro.

Encerrou no dia 16 de novembro de 2007, por ordem da Inspecção-Geral das Actividades Culturais (IGAC) que invocou falhas de segurança, sobretudo no combate a incêndios. Pedro Bandeira Freire faleceu 5 meses depois, a 16 de abril de 2008, aos 68 anos de idade. Em 2014, o edifício passou para a Igreja da Plenitude de Cristo, de protestantes evangélicos.

Freguesia de Alvalade (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)

A «Orpheu» na Toponímia de Lisboa, no centenário da revista

nº 1 capa de Pacheko

O nº 1 (janeiro-fevereiro-março de 1915) com capa de Pacheko

Passa este ano o centenário da Orpheu, uma revista trimestral de literatura editada em Lisboa,  dada a lume a 21 de março de 1915, em resultado do plano de Fernando Pessoa  e Mário de Sá Carneiro, e que apesar da escassez de números publicados – apenas 2, já que o 3º foi cancelado por falta de financiamento – teve um papel fundamental na afirmação do modernismo português e o seu vanguardismo inspirou movimentos literários subsequentes de renovação da literatura portuguesa, sendo mesmo considerada o marco inicial do Modernismo em Portugal.

Dessa Geração d’Orpheu que colaborou na feitura da revista, a toponímia de Lisboa fixou Fernando Pessoa – numa Rua e numa Avenida-, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros  (no nº 1 e previsto para o nº 3 com a sua A Cena do Ódio),  Alfredo Guisado, Camilo Pessanha e  Amadeu de Sousa Cardoso (todos os três previstos por Fernando Pessoa para surgirem no nº3).

Os nomes que não ficaram perpetuados na cidade foram José Pacheko (arquiteto e responsável gráfico da Orpheu que desenhou a 1ª capa), António Ferro (editor dos 2 números e que foi nome de rua em Lisboa desde 14/06/1967 até 28/07/1975, altura em que passou a denominar-se Rua Luís de Freitas Branco), Armando Côrtes Rodrigues (nº1), Ângelo de Lima (poeta marginal, internado em Rilhafoles desde 1900, integrou o nº 2), Eduardo Guimarães (poemas no nº 2), Luís de Montalvor (diretor para Portugal e poema na nº 2), Raul Leal (novela na nº2), Ronald de Carvalho (diretor para o Brasil), Santa-Rita Pintor (artista plástico futurista publicado no nº 2), Violante de Cysneiros (pseudónimo de Armando Cortes-Rodrigues cujos poemas apareceram no nº2),  e Albino de Meneses, Augusto Ferreira Gomes, C. Pacheco (outro heterónimo de Pessoa), Carlos Parreira, Castelo de Morais e D. Tomás de Almeida (todos previstos para o nº3).

Outros arruamentos alfacinhas ligados à  Orpheu são a Rua da Oliveira ao Carmo, em cujo nº 10 se estabelecia a Tipografia do Comércio que imprimia a revista, a Rua Áurea onde a redação estava sediada, na Livraria Brasileira, no nº 190, mesmo que mencionada na publicação pela denominação vulgar de Rua do Ouro e, ainda a morada do diretor do 1º número que era o nº 17 do Caminho do Forno do Tijolo (desde a publicação do Edital de 17/10/1924 que é a Rua Angelina Vidal).

A Orpheu, destinada a Portugal e Brasil, introduziu em Portugal o movimento modernista, associando importantes nomes das letras e das artes e conforme carta de Fernando Pessoa  para Armando Cortes-Rodrigues «Somos o assunto do dia em Lisboa; sem exagero lho digo (…) O escândalo maior tem sido causado pelo “16” do Sá-Carneiro e a “Ode Triunfal”. Até o André Brun nos dedicou um número das “Migalhas”».

Em julho de 1915, Alfredo Guisado e António Ferro anunciaram publicamente o seu afastamento da revista por divergências políticas com Fernando Pessoa, aliás, Álvaro de Campos. Mário de Sá-Carneiro também partiu para Paris de onde em 13 de setembro seguinte escreveu a Pessoa para informar que o seu pai não podia continuar o mecenato involuntário da revista e assim se esfumou o 3º número da revista.

Recorde-se que a Portugal Futurista, publicada em Novembro de 1917 e dirigida por Carlos Filipe Porfírio, continuou a tradição vanguardista e provocadora de Orpheu, com trabalhos dos seus colaboradores, designadamente Álvaro de Campos, Almada Negreiros, Amadeu de Sousa Cardoso, Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Raul Leal e Santa-Rita Pintor.  A importância da Orpheu começou a ser reconhecida pela segunda geração modernista nas páginas da revista Presença, publicada de 1927 a 1940, em Coimbra. Em 1984, foi publicado o terceiro número da Orpheu, , que devia ter saído em Outubro de 1917, compilado por Arnaldo Saraiva.

O nº 2 (abril-maio-junho de 1915)

O nº 2 (abril-maio-junho de 1915)

A Rua da Menina do Mar no Dia Mundial da Criança

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Como hoje é o Dia Mundial da Criança evocamos a Rua Menina do Mar, na Freguesia do Parque das Nações, topónimo que regista o título de um livro infantil de Sophia de Mello Breyner Andresen.

A Rua Menina do Mar, que vai da Rua Sinais de Fogo à Avenida Fernando Pessoa, perpetua A Menina do Mar, um dos livros infantis de Sophia de Mello Breyner Andresen, publicado em 1958, com ilustrações de Sara Afonso, no qual a autora aproveitou a ideia de uma história que lhe tinha sido contada por sua mãe e à qual foi acrescentando pormenores conforme as perguntas dos filhos, para quem criou a história. Sophia que adorava o mar considerou que essa menina era para si o símbolo da felicidade máxima, porque vivia no mar, com as algas e os peixes. Uma grande parte do texto é composta pelo relato das aventuras vividas pelos amigos para alcançarem o seu sonho: a ânsia de atingirem a liberdade plena, pois qualquer um deles tinha barreiras físicas que os impediam de serem completamente livres.

Este topónimo é uma herança da Expo 98,  que subordinada ao tema «Os oceanos: um património para o futuro» nomeou os arruamentos do evento com topónimos ligados aos oceanos, aos Descobrimentos Portugueses, aos aventureiros marítimos da literatura e banda desenhada mundial, a figuras de relevo para Portugal, a escritores portugueses ou obras de sua autoria e ainda alguns ligados à botânica. Com a reconversão da zona em Parque das Nações foram estes 102 topónimos oficializados pelo Edital de 16/09/2009.

Também a autora Sophia de Mello Breyner Andresen dá nome a um miradouro em Lisboa, na freguesia de São Vicente, antes conhecido como Miradouro da Graça, desde o Edital 13/11/2008.

Sophia

Sophia de Mello Breyner Andresen

No Dia Mundial do Livro, a Jangada de Pedra no Parque das Nações

jangada de pedra

Neste Dia Mundial do Livro e Direitos de Autor discorremos sobre a Rua Jangada de Pedra, na Freguesia do Parque das Nações, que evoca o livro de José Saramago com esse título, publicado em 1986.

A Rua Jangada de Pedra, que nasce na Avenida Fernando Pessoa, refere-se a uma obra de José Saramago, publicada em 1986, no qual se conta a separação geográfica da Península Ibérica do resto da Europa, acontecimento sem explicação científica, precedido de outros quatro acontecimentos igualmente sobrenaturais que unem as personagens Joana Carda, Joaquim Sassa, José Anaiço e Maria Guavaira, Pedro Orce e Cão, os quais vão percorrer uma longa jornada em busca de algo que lhes tire das almas o tormento de se sentirem culpados pelo ocorrido.

Esta artéria nasceu com a realização da Expo 98, subordinada ao tema «Os oceanos: um património para o futuro», na qual foram nomeados os arruamentos do evento com topónimos ligados aos oceanos, aos Descobrimentos Portugueses, aos aventureiros marítimos da literatura e banda desenhada mundiais, a figuras de relevo para Portugal, a escritores portugueses ou obras de sua autoria e, ainda alguns ligados à botânica. Com a reconversão da zona em Parque das Nações foram estes 102 topónimos oficializados pelo Edital de 16/09/2009 e, a Rua Jangada de Pedra é um deles.

Esta área da cidade de Lisboa comporta ainda mais 6 topónimos que evocam livros de autores portugueses, a saber: a Rua do Adeus Português (poema de Alexandre O’Neill, 1950) , a Rua Corsário das Ilhas (Vitorino Nemésio, 1956), a Rua Finisterra (Carlos de Oliveira, 1978), a Rua Gaivotas em Terra (David Mourão-Ferreira, 1959), a Rua Menina do Mar (Sophia de Mello Breyner Andresen, 1958) e  a Rua Sinais de Fogo (Jorge de Sena, 1979).

 

A Rua Fernão Mendes Pinto no 400º aniversário da publicação em Lisboa da Peregrinação

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Neste ano em que se celebra o 400º aniversário da publicação em Lisboa da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, recordamos a rua do seu autor, inscrita na Freguesia de Belém, na Rua XIV do plano de Urbanização da Encosta da Ajuda, desde 1948, a ligar a Avenida da Índia à Praça Dom Manuel I.

O Edital de 29 de Abril de 1948 foi o primeiro da edilidade lisboeta a fixar em Belém as memórias dos lugares e figuras relacionados com a Expansão Portuguesa , orientação que se manterá nas décadas seguintes e se alargará à então freguesia contígua de São Francisco Xavier. Assim, por este mesmo Edital e nesta mesma freguesia de Belém de cuja praia partiram as naus para a Índia no final do séc. XV, foram também atribuídos os topónimos Avenida da Índia, Praça de Damão, Praça de Dio, Praça de Goa, Praça do Império, Rua Damião de Góis, Rua Dom Cristóvão da Gama, Rua Dom Jerónimo Osório, Rua Dom Lourenço de Almeida, Praça Dom Manuel I, Avenida Dom Vasco da Gama, Rua Duarte Pacheco Pereira, Rua Fernão Lopes de Castanheda, Rua São Francisco Xavier, Rua Soldados da Índia, Rua Tristão da Cunha.

Freguesia de Belém (Foto: José Carlos Baptista)

Freguesia de Belém
(Foto: José Carlos Batista)

Fernão Mendes Pinto (Montemor-o-Velho/entre 1510 e 1514 – 08.08.1583/Almada) foi uma figura emblemática da Expansão Portuguesa pelas enormes aventuras que viveu a partir de 1537 como soldado, marinheiro, comerciante, pirata, feitor, diplomata e, inúmeras vezes cativo, quando foi pela Índia e  de Meca à Mongólia e do Tibete ao Japão.

Deixou-nos o relato fantástico dessas façanhas na sua Peregrinação, cujos 226 capítulos são um contributo indispensável para o conhecimento da Expansão Portuguesa no Oriente , que redigiu entre 1569 e 1578 (esta última data está referida na própria obra).

Quando Fernão Mendes Pinto regressou a Portugal, em 1558, depois de 21 anos por terras do Oriente, esperava recompensa mas durante quatro anos e meio a Coroa não despachara o seu pedido e por volta de 1562, foi viver para a «Outra Banda». Tornou-se proprietário de uma quinta no lugar de Palença, próximo do Pragal, com casa de habitação, courelas de vinho e de semeadura, onde viveu com sua mulher Maria Correia de Brito, cerca de 30 anos mais nova, e de quem teve filhas. E terá sido nesta casa que começou a escrever a Peregrinação, embora haja que defenda que foi na tranquilidade na Quinta de Vale do Rosal dos Jesuítas, na Charneca da Caparica. Certo é que a obra só viria a ser publicada 31 anos após a morte de seu autor, em 1614, em Lisboa, por Pedro Craesbeeck, a expensas de Belchior de Faria «Cavaleyro da casa del Rey nosso Senhor» que foi o mecenas da impressão.

Placa Tipo IV (Foto: José Carlos Batista)

Placa Tipo IV
(Foto: José Carlos Batista)

[ Se tiver curiosidade de ler a Peregrinação original basta seguir este link da Biblioteca Nacional:  http://purl.pt/82/3/#/4 ]

Se bem me lembro da Rua Corsário das Ilhas

Freguesia do Parque das Nações

Freguesia do Parque das Nações (Foto: Sérgio Dias)

Parafraseando o título de um programa televisivo de Vitorino Nemésio, se bem me lembro… a Rua Corsário das Ilhas é um dos 102 topónimos lisboetas herdados da realização da Expo 98, que perpetua uma obra do escritor e professor universitário Vitorino Nemésio.

A Rua Corsário das Ilhas, que nasce na Avenida Fernando Pessoa, guarda a memória do título de um livro de crónicas de Vitorino Nemésio, publicado em 1956, que mistura a autobiografia e a crónica de viagem. A partir do momento em que entrou na universidade, Nemésio só voltou às suas ilhas açorianas de nascimento em duas viagens, que classificou como “corsos” e cujo relato constituem este volume, mostrando o autor desterrado na sua terra natal pela violenta carga emocional que o regresso lhe provocava.

A Expo 98, subordinada ao tema “Os oceanos: um património para o futuro”, nomeou os arruamentos do evento com topónimos ligados aos oceanos, aos Descobrimentos Portugueses, aos aventureiros marítimos da literatura e banda desenhada mundial, a figuras de relevo para Portugal, a escritores portugueses ou obras de sua autoria e , também alguns ligados à botânica. E com a reconversão desta zona em Parque das Nações foram oficializados pela edilidade lisboeta 102 topónimos, através do Edital de 16/09/2009.

Neste conjunto dos 102 topónimos figuram outros títulos de livros de autores portugueses e que são  a Rua Finisterra (Carlos de Oliveira), a Rua do Adeus Português (Alexandre O’Neill) , a Rua Gaivotas em Terra (de David Mourão-Ferreira), a Rua Sinais de Fogo (de Jorge de Sena), a Rua Jangada de Pedra (de José Saramago) e, a Rua Menina do Mar (de Sophia de Mello Breyner Andresen).