A Rua e a Travessa da família de mercadores Possolo

Rua do Possolo em 1969, destacando-se o pombalino Palacete dos Condes de Sabrosa
(Foto: Casa Fotográfica Garcia Nunes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Os Possolo  eram uma família de mercadores italianos que de acordo com Norberto de Araújo ergueram o seu Palácio a meio da artéria que hoje conhecemos como Rua do Possolo, à esquina da antiga Travessa das Almas, dando azo a que no último quartel do séc. XIX a Câmara lisboeta renomeasse as  Rua e Travessa da Boa-Morte como Rua e Travessa do Possolo.

A Rua  e a Travessa do Possolo foram topónimos atribuídos pela deliberação camarária de 30 de novembro de 1882 e consequente Edital de 4 de dezembro, para substituir as anteriores denominações de Rua e Travessa da Boa-Morte: «A rua da Boa Morte e a Travessa da Boa Morte no bairro occidental d’esta cidade passem a ter a denominação de Rua do Possollo e Travessa do Possollo.»  Refira-se ainda que a Travessa da Boa-Morte havia sido antes a Travessa dos Burros, até à publicação do Edital do Governo Civil de Lisboa de 5 de agosto de 1867.

O sítio da Boa Morte incluía os topónimos Rua Direita da Boa Morte (hoje Rua do Patrocínio), Rua do Possolo, Rua Possidónio da Silva, Rua de Sant’Ana e Rua de Santo António à Estrela, derivando o nome da existência no local do Convento da Congregação do Senhor da Boa Morte e Caridade, construído em 1736 e demolido em 1835.

Freguesias da Estrela e de Campo de Ourique – Placa de azulejo no pombalino Palacete dos Condes de Sabrosa
(Foto: Mário Marzagão)

Segundo Norberto de Araújo, os Possolo foram uma família de ricos negociantes italianos do séc. XVII, que  ali residiram no seu palácio erguido cerca de 1730,  com 8 varandas  e um portal brasonado na esquina da Travessa das Almas, mas que já se encontrava em ruínas na época em que o olisipógrafo escreveu – anos 30 do séc. XX- , conforme ele menciona.

Mais pormenores sobre a família devem-se sobretudo a apenas uma fonte: António de Portugal de Faria que escreveu Genealogia da Familia “Possollo” (impresso em 1892), que numa 2ª edição acrescentou (1673 a 1896). Segundo ele, a quinta Possolo foi edificado após o terramoto de 1755 por Nicolau Possolo, educado em Génova onde se dedicava ao comércio e se veio estabelecer em Portugal, tendo casado com a sua prima Joana Maria Eusébia Germack. Moravam no Largo do Corpo Santo e possuíam uma quinta na Lapa, sendo que, segundo o mesmo autor,  «Tinha relações de verdadeira amisade com El Rei D. João V que costumava ir visital’o passando com elle bocados de cavaqueira na sua quinta à Rua de Sant’Anna em Lisboa, que era n’aquella epoca o rendez-vous favorito da aristocracia.» Sucedeu-lhe o filho Nicolau Possolo (nascido em 11 de maio de 1757) que se tornou oficial maior do Conselho da rainha e abastado negociante de vinhos e casou com Maria do Carmo Correia de Magalhães Botelho de Morais Freirão Callabre, tendo o casal tido pelo menos 14 filhos, sendo o terceiro Francisca de Paula Possolo da Costa (1783 – 1838), conhecida como escritora, tendo a família residido até 1790 na Rua de Santana à Lapa.

Pela documentação do Arquivo Municipal ficamos a saber que em 1904 foram comprados terrenos para o alargamento das Travessas do Possolo e das Almas, intenção que havia sido aprovada na sessão de Comissão Administrativa Municipal de 7 de julho de 1891. Em 1929, o engº António Emídio Abrantes traçou o prolongamento da Travessa do Possolo ligando esta com a Calçada das Necessidades.

Refira-se finalmente que na esquina da Rua do Possolo  com a Rua de Santana à Lapa está ainda hoje o Palacete dos Condes de Sabrosa, construído no 3º quartel do séc. XVIII, de arquitetura pombalina  e com um exuberante revestimento de azulejos policromados da Fábrica de Campolide, traçados pelo desenho de João Rodrigues.

Freguesias da Estrela e de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias)

O pedido de alteração da Calçada da horta do Cabra

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

Alguns moradores  da Calçada do Cabra solicitaram a alteração do topónimo após o 25 de Abril mas por ser um topónimo tradicional não foi modificado.

Logo na 2ª reunião da Comissão Municipal de Toponímia após o 25 de Abril, em 20 de dezembro de 1974, surgiu uma carta de vários moradores da Calçada do Cabra solicitando a alteração do topónimo, tendo a Comissão pedido ao seu vogal Fernando Castelo Branco um parecer sobre a origem do topónimo. Na 4ª reunião, em 5 de março de 1975, deu então o seu parecer final: «Trata-se de um topónimo tradicional que não deve, por isso, ser alterado».

Freguesia da Misericórdia – Placa Tipo II
(Foto: Mário Marzagão, 2011)

A Calçada do Cabra, confinada entre a Rua de São Boaventura e a Rua Nova do Loureiro, deriva do nome ou alcunha de um proprietário do local que Júlio de Castilho mencionou na sua Lisboa Antiga – O Bairro Alto da seguinte forma: «Por aí, era no século XVIII, sabe Deus desde quando, a Horta do Cabra. Hoje a Travessa da Horta [A Travessa da Horta liga a Rua da Academia das Ciências à Rua Eduardo Coelho], comunicando o do Areu com a dos Cardais (modernamente denominada Eduardo Coelho) é o vestígio derradeiro do campo de nabiças e feijoais do antigo Cabra, sujeito cuja personalidade se sumiu na voragem dos Invernos».

Acrescente-se que segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo, a Travessa da Horta seria do começo do séc. XIX e, «Chamou-se, antes, a Travessa do Cabra, por motivo da existência ali de umas casas, com horta, de um sujeito daquela alcunha ou apelido». Fica a dúvida se as terras do Cabra se estendiam desta Travessa até à Calçada do Cabra ou não. Contudo, nas memórias paroquiais anteriores ao Terramoto de 1755 da freguesia de Nª Srª das Mercês é referida a Horta do Cabra.

Certo é encontrarmos o topónimo Calçada do Cabra no traçado de alteração de um prédio com os nºs 3 e 4, aprovado em 19 de maio de 1852, assim como em 1856 no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa, de Filipe Folque.

Pelo menos de 1898 a 1924 lá existiu a Tipografia do Dia ou Oficina Tipográfica ou Typographia Calçada do Cabra.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

O Largo do Calhariz e a exposição de 1916 de Amadeu Sousa Cardoso

O Largo do Calhariz no início do séc. XX (Foto: Alexandre Cunha, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Largo do Calhariz no início do séc. XX
(Foto: Alexandre Cunha, Arquivo Municipal de Lisboa)

De 4 a 18 de Dezembro de 1916 Amadeu de Sousa Cardoso expôs em Lisboa 113 obras, acompanhadas de um manifesto de Almada Negreiros, na sede da Liga Naval de Lisboa, no Palácio Calhariz-Palmela, no Largo Calhariz, no espaço que nos dias de hoje é uma agência da Caixa Geral de Depósitos.

O Largo do Calhariz é um troço da seiscentista Estrada da Horta Navia, também denominada Estrada de Santos e este topónimo deriva da residência no local dos Morgados do Calhariz, conforme relata Norberto Araújo«Encontramos-nos na artéria conhecida em tôda a Lisboa pelo “Calhariz”, rua e sítio dêste título, e que tem origem no Palácio dos Sousas Calharizes, como diz o vulgo e como se encontra em livros antigos. É este edifício, à direita, com um pequeno jardim adjacente, e que ocupa todo o quarteirão confinado entre as Ruas do Calhariz, da Atalaia, Travessa das Mercês e Rua da Rosa.»

O Palácio dos Sousa Calhariz foi mandado erigir em 1703 pelo senhor do Morgado do Calhariz, D. Francisco de Sousa Calhariz (1631- 1711). Sofreu em 1842-44 restauros e ampliações da responsabilidade do arqº Giuseppe Cinatti, a mando de  D. Pedro da Sousa Holstein, 1º duque de Palmela e conde de Calhariz.  De 1952  até 1961 voltou a ter obras, traçadas pelo arqº Cândido Teixeira de Melo, e uma anexação ao Palácio Sobral, isto após os Morgados do Calhariz, entretanto mais conhecidos como Duques de Palmela, o terem vendido em 1947 à Caixa Geral de Depósitos para lhe servir de sede, a que sucedeu também em 1969 a obra do arco de ligação entre os dois palácios sobre a Rua da Rosa.

Amadeo em data entre 1908 e 1918

Amadeo em data entre 1908 e 1918

Antes desta venda passaram pelo Palácio do Bairro Alto várias instituições em regime de inquilinato, nomeadamente, a Academia Real de Fortificação (em 1796 e 1811 ou 1803 a 1806); a Câmara Eclesiástica no andar nobre (até 1830); a Contadoria Fiscal da Tesouraria Geral das Tropas ( na década de 30 do séc. XIX); a Companhia de Ferro (após as obras de 1842-1844); no nº33 o Talho nº 138 (em 1878) que depois será a Barbearia Calharix Lda. (1933 – 1944);o Ministério dos Negócios Estrangeiros (de 1882 a 1892),   o estabelecimento de Luiz Vítor Rombert nos nº 30 a 32 (a partir de 1908) que foi trespassado a Casimiro Braga em  1942  e era de H. Santos  de 1945 a 1948; a Liga Naval Portuguesa (1914- 1929); a firma A. Figueiredo e Compª no nº 34 (1914) que depois será de A. Lopes Maia (1927 – 1947); o estabelecimento de móveis Paixão Carvalho Lda.nos nº 27 e 28 (1928-1945);  a firma de Marques e Rodrigues no nº30 (1930) e no nº29 o estabelecimento de Luiz Borges  (1929 -1931) que depois será a sede do Automóvel Clube de Portugal (1935 – 1956).

Freguesia da Misericórdia (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua dos três Condes e dos três Cinemas

O cinema Olympia depois de 1910 (Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

O cinema Olympia depois de 1910, na Rua dos Condes
(Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

Os Condes de Castelo Melhor, da Ericeira e de Povolide, cujos palácios se erguiam nesta zona, justificaram a aplicação do topónimo Rua dos Condes ainda antes do Terramoto de 1755 a esta artéria que no século XX passou a ser a morada de 3 cinemas: o Condes, o Odeon e o Olympia.

O cinema Condes nos anos 50 do séc. XX (Foto: Salvador de Almeida Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

O cinema Condes nos anos 50 do séc. XX
(Foto: Salvador de Almeida Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

O primeiro cinema da Rua dos Condes foi o Olympia que abriu portas em  22 de abril de 1911. Nas proximidades já ali existia um Teatro, embora não o primitivo de 1765 que foi demolido em 1882 mas o novo erguido em 1888 por iniciativa de Francisco de Almeida Grandela. Em 1915, o edifício foi adquirido pela Castello Lopes Filmes que em 1920 abriu o cinema Condes, demolido na década de 50 para dar lugar a um novo Condes que fechou como cinema em 1997. Finalmente, no dia 21 de setembro de 1927 foi inaugurado o Odeon, que em 1931 foi modernizado firmando-se como um exemplar de Art Deco.

A Rua dos Condes  já surge referida nos registos paroquiais da freguesia de São José anteriores ao Terramoto de 1755. No entanto, sobre a origem do topónimo os olisipógrafos divergem. De acordo com Gomes de Brito, tal topónimo é a evocação do 2º e do 3º condes da Ericeira, respetivamente D. Fernando (27.11.1614 – 22.06.1699) e D. Luís de Menezes (22.07.1632 – 26.05.1690), ambos militares e historiadores que ali moraram no palácio dos Condes da Ericeira, construído em 1539. Já Norberto de Araújo, cuja opinião partilhamos,  sugere que o topónimo radica nos diversos palácios de vários condes existentes naquela zona, afirmando: «Neste quarteirão ocupado por vários prédios, entre a Rua dos Condes e a Travessa de Santo Antão, é que se erguia, até 1755, o Palácio primitivo dos Condes de Castelo Melhor. No chão do quarteirão seguinte até à Anunciada, levantava-se o Palácio dos Condes da Ericeira, também destruído e incendiado por ocasião do terramoto. E na Rua das Portas de Santo Antão, onde está o Ateneu Comercial, ficava o Palácio dos Condes de Povolide. Deriva destas circunstâncias o dar-se o nome de Rua dos Condes à serventia que intersetava estas propriedades».

O cinema Odeon em 1960 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

O cinema Odeon em 1960, na Rua dos Condes
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

Freguesia de Santo António (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Maestro Pedro de Freitas Branco na rua onde viveu

Freguesia de Santo António (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

Pedro de Freitas Branco, que hoje faria hoje 120 anos, foi acolhido como topónimo na antiga Rua da Fábrica das Sedas, arruamento onde o maestro viveu muitos anos , na sequência de um pedido da Juventude Musical Portuguesa e do Sindicato Nacional dos Músicos.

Foi cinco anos após o falecimento do músico que o Edital municipal de 10 de maio de 1968 atribuiu o topónimo Rua Maestro Pedro de Freitas Branco, com a legenda «1896 – 1963», na Rua da Fábrica das Sedas, a unir a Rua Gustavo de Matos Sequeira à  Rua da Escola Politécnica.

Pedro António da Costa de Freitas Branco (Lisboa/31.10.1896 – 24.03.1963/Lisboa) nasceu na Calçada da Quintinha e viveu  a maior parte da sua vida no nº 23 da Rua Fábrica das Sedas, onde veio a falecer. Aos 7 anos iniciou-se no violino para além de ter estudado harmonia e contraponto com Tomás Borba e o seu irmão Luís de Freitas Branco. Em 1924, abandonou o curso de engenharia no Instituto Superior Técnico para se dedicar à música e foi estagiar regência de orquestra em Londres (1925-1927). De regresso,  fundou em 1928 a Companhia Portuguesa de Ópera Lírica, no Teatro São João do Porto e notabilizou-se como chefe de orquestra nos Concertos Sinfónicos de Lisboa, no Tivoli (1928 a 1932).  E após o convite do próprio Maurice Ravel, em 1932, para dirigir em Paris o concerto nº 1 do compositor alcançou renome internacional e fixou-se em Paris, de 1933 a 1937, para dirigir diversas orquestras francesas e europeias.

Pedro de Freitas Branco somou ainda o trabalho na Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, desde a sua criação em 1934, tendo-a dirigido até falecer. Acumulou ainda com a regência de Ópera no Teatro Nacional de São Carlos, tanto mais que nos anos 40 e 50, também nessa área fez carreira internacional, com  cantores como Beniamino Gigli, Giuseppe di Steffano e Victoria de los Angeles, ou instrumentistas como o pianista Wilhelm Kempff. Também até 1961 dirigiu igualmente a Orquestra Sinfónica de Lisboa, à frente da qual estreou em Portugal muitas obras de compositores do século XX como Bartók, Luigi Dallapiccola, Paul Hindemith,  Prokofiev, Ravel, Richard Strauss e Stravinski.

Escreveu ainda o livro História da Música Popular em Portugal (1947), revelando a história e a dinamização cultural criada pelas filarmónicas, bandas civis e sociedades de recreio portuguesas. E ainda editou gravações históricas, como a do Concerto para Violoncelo em ré menor, de Edouard Lallo, com Guilhermina Suggia e a London Symphony Orchestra (1946) e aquelas em que perpetuou compositores portugueses como Luís de Freitas Branco e Viana da Mota, mas só dois receberam o Grand Prix du Disque da Academia Charles Cros: em 1954 com obras de Maurice Ravel e em 1962 com obras de Manuel de Falla.

Pedro de Freitas Branco, casado com a pianista Marie Antoinette Levêque, foi ainda agraciado com a Ordem de Sant’iago da Espada no grau de Cavaleiro (1931) e de Comendador (1939). Também a Câmara Municipal de Lisboa, mesmo antes de o colocar na toponímia da cidade, já no ano anterior o homenageara através da colocação de uma lápide no prédio onde ele vivera na então Rua da Fábrica das Sedas.

Freguesia de Santo António (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

A aldeia do Alto do Longo do Bairro Alto

O Alto do Longo nos anos 80 (Foto: Artur Pastor, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Alto do Longo nos anos 80
(Foto: Artur Pastor, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Alto do Longo fica no Bairro Alto, no cimo da Rua de O Século, e é um topónimo anterior ao Terramoto, derivado de um morador local, talvez mesmo o avô de Alexandre Herculano, que perpetua uma espécie de aldeia dentro da cidade, embora nos dias de hoje se configure quase como uma espécie de condomínio fechado.

O Alto do Longo estende-se entre a Rua de O Século e a Travessa do Conde de Soure, na freguesia da Misericórdia. Segundo Norberto de Araújo é anterior ao Terramoto de 1755 e existem referências de que nos séculos XVI e XVII era ocupado por quintas e casas de cariz rural. A zona do Alto do Longo e Moinhos de Vento (a Rua D. Pedro V que corre em paralelo  foi antes a Rua do Moinho de Vento) mantinha um ambiente semirrural e semi-urbano, como uma transição entre a cidade e o campo. Poderá ter sido designada também como rua do Longo, já que em 1852 a encontramos num prospeto de aumento de um prédio com uma trapeira no n.º 11. Também em 1857, a carta  topográfica de Lisboa de Filipe Folque para além de referir o Alto do Longo menciona também um beco do Alto do Longo. E na sessão de Câmara de 13 de dezembro de 1860 o vereador Vaz Rans clamou pela demolição das «baiucas indecentes» do arruamento.

Sobre a origem do topónimo será provavelmente de um morador do local. Norberto de Araújo sugere que há quem adiante tratar-se de um quarto avô materno de Alexandre Herculano, João Francisco de seu nome e homem de alta estatura com a alcunha de Longuo, que ali viveu 2ª metade do séc. XVII, tendo falecido em 1669.

Alto do Longo - Freguesia da Misericórdia

Alto do Longo – Freguesia da Misericórdia

A Rua de Maria Joana Arriaga que morou neste arruamento

Freguesia da Estrela (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Estrela
(Foto: Sérgio Dias)

A Casa de Jacinto Cândido, traçada em  1902 pelo Arqº Ventura Terra e demolida no correr dos tempos, existiu na Rua da Arriaga, topónimo que relembra a primeira moradora da artéria, uma filha de Guilherme Street de Arriaga.

De acordo com Luís Pastor de Macedo,  a primeira casa construída nesta rua, a que nos nossos dias correspondem os números de polícia 31 a 37, pertenceu a uma filha de Guilherme Street de Arriaga e Cunha Brum da Silveira (Lisboa/13.10.1834 – 27.02.1898/Lisboa), 2º Visconde e 1º Conde de Carnide (decreto real de 20/03/1890), e assim terá sido esta moradora que deu azo à fixação do topónimo no séc. XIX. Segundo Norberto Araújo chamava-se Maria Joana Aniceta Francisca de Arriaga, opinião que Gomes de Brito corrobora referindo o Almanach de 1812.

A Rua da Arriaga foi aberta nos terrenos da Quinta de Buenos Aires, que se estendia desde a Rua do Olival até à Cruz de Buenos Aires. Era propriedade de Guilherme Street de Arriaga e Cunha Brum da Silveira, filho primogénito e herdeiro de José Street de Arriaga Brum da Silveira (1805 -1885), 1º visconde de Carnide. As primeiras referências escritas à Rua da Arriaga estão no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque, de 1856, assim como numa planta referente ao estado da artéria de Francisco Goullard, de julho de 1884.

 

Freguesia da Estrela (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

O Beco e a Travessa da Ferrugenta

A Travessa da Ferrugenta - Freguesia da Ajuda (Foto: Sérgio Dias)

A Travessa da Ferrugenta – Freguesia da Ajuda
(Foto: Sérgio Dias)

Na Ajuda, um Beco e uma Travessa colocam uma mulher, Ferrugenta de alcunha, na toponímia desta Freguesia.

A Travessa foi herdada do Concelho de Belém após a sua extinção, em 18 de junho de 1885, e que a Câmara Municipal de Lisboa oficializou 31 anos depois, pelo Edital de 26/09/1916, embora num documento municipal de 10/11/1897 sobre a canalização de esgoto na zona da Ajuda já apareça mencionada como Travessa da Ferrugenta. O Beco pode ter surgido depois e assimilado a mesma denominação por proximidade.

De acordo com Teresa Sancha Pereira, na sua comunicação «A Toponímia durante a I República» apresentada nas II Jornadas de Toponímia de Lisboa, a Ferrugenta era uma antiga moradora do local, Leonor Maria, padeira de Sua Majestade, que assim ficou conhecida por ter enviuvado de um homem cujo apelido era Ferrugento. A proximidade destas artérias à Real Barraca de 1755, ao Paço velho (onde em 1777 faleceu D. José I) e depois Palácio da Ajuda (a partir do plano de 1802) também parece ajudar a revelar porque foram aqui fixados estes topónimos.

Se analisarmos os registos paroquiais da Ajuda encontramos três Leonor Maria no final do séc. XVIII : uma que casou em 1798 com João Simões (Livro: 12-C, Folha: 46), outra que casou em 1798 com José Rodrigues (Livro: 12-C, Folha: 68) e uma terceira que em 1799 casou com Joaquim António da Silva (Livro: 12-C, Folha: 96).

Certo é que o topónimo existia como Travessa da Ferrugenta em 1832 já que o jornal  Gazeta de Lisboa de 28 de abril desse ano, publicitou uma arrematação de propriedades da artéria que faz quina para a travessa da Ferrugenta , nº 24 a 27.

Contudo, Appio Sottomayor no seu artigo «Toponímia de Lisboa, essa nossa familiar», publicado na revista Aldraba de 29 de novembro de 2014, defende antes que «Assim, existiu há muito na Ajuda uma loja de ferro-velho. O povo chamava-lhe o ferrugento. Como o proprietário morresse e ficasse a viúva a gerir, a Ferrugenta ganhou foros de personalidade e ainda hoje lá existem a travessa e o beco da Ferrugenta.» E nos registos paroquiais da Ajuda encontramos um Joaquim de Abreu Ferrugento que em 7 de março de 1812 casou com D. Maria Rita (Livro: 13-C, Folha: 344).

Fica-nos a pergunta : seria a Ferrugenta uma padeira ou a herdeira de uma loja de ferro-velho?…

Freguesia da Ajuda (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Eduardo Coelho, fundador do Diário de Notícias, na artéria onde viveu

Freguesia da Misericórdia (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

Eduardo Coelho, o fundador do Diário de Notícias, foi perpetuado com o seu nome na artéria lisboeta em que viveu, no Bairro Alto de todos os jornais, e participou no Cozinheiro dos Cozinheiros (1870) de Paulo Plantier através do envio da receita de Ovos Verdes à Figueirense.

Foi quando o Conde Ottolini era Presidente da Câmara Municipal de Lisboa que por Edital municipal de 18/12/1893 a Rua dos Cardais de Jesus, onde o jornalista viveu, se passou a denominar Rua Eduardo Coelho, com a legenda «Fundador do Diário de Notícias / 1835 – 1889». Contudo, 32 anos depois, quando era Portugal Durão o Presidente da edilidade alfacinha, também um Edital de 15 de junho de 1925 da Comissão Executiva da Câmara registou que na sessão de 20 de fevereiro desse ano se havia deliberado que a alameda de São Pedro de Alcântara se passasse a denominar-se alameda Eduardo Coelho, tanto mais que era o local onde desde 29 de dezembro de 1904 se encontrava o monumento à memória do jornalista – com busto e estátua de Costa Mota (tio) e pedestal de Álvaro Machado – custeado por subscrição pública promovida pelo Diário de Notícias e porém, o espaço continuou a ser vulgarmente conhecido como Jardim de São Pedro de Alcântara.

Monumento a Eduardo Coelho, inaugurado a 29 de dezembro de 1904 (Foto: Rui Mendes)

Monumento a Eduardo Coelho, inaugurado a 29 de dezembro de 1904
(Foto: Rui Mendes)

José Eduardo Coelho (Coimbra/ 23.04.1835 – 14.05.1889/Lisboa) ficou órfão de pai aos 13 anos e a foi mãe mandou-o para Lisboa, para conseguir emprego, já que sozinha não conseguia sustentar a prole de onze filhos, onde se incluía Adolfo Coelho (também nome de rua na Freguesia da Penha de França, desde a publicação do Edital de 13/05/1949). Na capital, Eduardo Coelho começou por trabalhar no comércio mas depois, a exemplo de seu pai, foi aprender o ofício de tipógrafo e mais tarde, em 1857, até ingressou na Imprensa Nacional.

A partir de 1858, Eduardo Coelho viveu principalmente do jornalismo, escrevendo notícias, editando correspondência dos leitores e matérias de correspondentes da província e ainda como crítico de teatro, em jornais como O Conservador, Gazeta de Portugal e Revolução de Setembro, sendo que neste último foi durante 3 anos o responsável pelo noticiário e que António Rodrigues Sampaio, o diretor do jornal, nem sequer depois da fundação do Diário de Notícias quis exonerar Eduardo Coelho do cargo de noticiarista do jornal, pelo que teve de acumular os dois cargos durante algum tempo. Foi também redator principal e diretor da Crónica dos Teatros (1861) e em 29 de dezembro de 1864, com Quintino Antunes, fundou o Diário de Notícias, tendo também sido o primeiro diretor do jornal, cargo que exerceu até ao seu falecimento. Procurou fazer um jornal segundo o modelo de sucesso surgido noutros países, como o  Petit Journal parisiense, um jornal popular dirigido a todos os públicos, e não apenas às elites, que por isso alargou as notícias do mundo também para a vida social quotidiana, através do relato de crimes, de incêndios, de casos pessoais ou competições desportivas, para além de diminuir o preço do jornal, contrabalançando esse custo com grandes tiragens e captação de publicidade.

Também algum rendimento conseguia como escritor de peças teatrais, romances e folhetins.  Quando ainda trabalhava no comércio lisboeta estreara-se na literatura com a publicação dos versos sarcásticos O Livrinho dos Caixeiros (1852) e continuou essa vocação ao longo da sua vida com obras como Opressão e Liberdade (1862-1871), Amor aos Bofetões (1865) ou Portugal Cativo (1884).

Eduardo Coelho fez ainda assessoria política, nomeadamente como secretário dos políticos José Estêvão e António Feliciano de Castilho e foi um dos fundadores da Sociedade de Geografia de Lisboa.

Para remate de artigo servimos Ovos Verdes à Figueirense, como Eduardo Coelho os fez para Paulo Plantier:

(declaração prévia) – Não me condecoro com a glória de inventar uma receita. declara-o para descanso das cinzas venerandas de Vatel, e tranquilidade de alguns cozinheiros meus amigos, que, aliás, não tinham de que assustar-se com a minha concorrência. cada qual no seu ofício. Homero, segundo a afirmação preciosa de um escritor francês, foi o primeiro que no mundo coligiu os preceitos da arte culinária; Sócrates ensinou os gregos a comer, temperando as comidas como o mais apetitoso dos sais, o sal ático, o sal do espírito com que Platão também adubava as suas ceias; Nereo de Chio soube preparar um congro digno dos deuses; o grande , e imortal Apício, que sucumbiu à pavorosa ideia de poder morrer de fome, tendo as algibeiras recheadas de  de ouro, inventou numerosos pratos e tentadores molhos que legaram o seu nome a esta sua remotíssima posteridade de cozinheiros e comilões. Até Lamprias, o próprio Lamprias, o predecessor feliz do inventor de Nabob, compôs um molho, cujo cheiro chegou até nós. Eu, mísero de mim, sem poder ganhar prestígio destes eleitos da mesa e da cozinha, de quem Desaugiers dizia: “Un cuisiner, quand je dine, /Me semble un être divin./Qui du fond de sa cuisine/Gouverne le genre humain.”

Limito-me a contar como se fazem os Ovos verdes à figueirense, pitéu delicioso, que os leitores saborearão com ditíssima explicação. Mãos ao tacho!

Tome-se uma dúzia de ovos e cozam-se. Depois de cozidos cortem-se ao meio e tirem-se-lhes as gemas, conservando inteiras as metades das claras. Pique-se muito miúdo uma cebola, e uma porção equivalente de salsa, deitando-se-lhe uma ou duas colheres de pão ralado, pimenta e algumas pedras de sal. Aloure-se isto num tacho ou frigideira com manteiga de vaca. Amasse-se depois com as gemas dos ovos e com esta massa encham-se as claras. Descanse-se um momento, já que Deus também descansou ao sétimo dia, e respire-se, não de modo que se sopre e espalhe a farinha de trigo que deve estar já preparada, para se dissolver em gema de ovo, a fim de passar as claras recheadas por essa dissolução, para as pôr a corar na frigideira com manteiga de vaca, deitando-as com a face do recheio para baixo. Tiram-se apenas estiverem coradas, e profira-se o “eureka!”, que estão prontos os ovos verdes. Deitem-se estes então num prato coberto, ou numa travessa, e derrame-se-lhe por cima um molho de vinagre destemperado com água, ligeiramente engrossado ao lume com algumas pitadas de farinha e temperado com uma folha de louro. Enfeite-se o prato com vários raminhos de salsa, e… comam-se.

 

Freguesia da Misericórdia (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

Rua da Rosa nas Memórias do Contencioso

Freguesia da Misericórdia

Freguesia da Misericórdia

Nas suas Memórias do Contencioso (1980), Fernando Assis Pacheco publicou o poema «Rua da Rosa, Lisboa: O pombo», que nos remete para essa artéria do Bairro Alto cujo nome radica nas partilhas da família Andrade.

A empresa do Descobrimentos que fez muitos portugueses seguirem a rota dos ventos fez também, no regresso, aumentar o número de gentes em Lisboa e, particularmente, no então recente traçado do Bairro Alto, onde se insere a Rua da Rosa.

Gomes de Brito, olisipógrafo e antigo Chefe do Arquivo Geral da Câmara,  defende na sua obra Ruas de Lisboa que já em 1597, existia a  chamada Rua das Rosas das Partilhas.

Sabido é que a Vila Nova de Andrade, depois designada Bairro Alto de S. Roque, começou a ser loteada em 1513. A Rua da Rosa, cortando o bairro no sentido sul-norte e, até há bem pouco tempo servindo de linha divisória entre as Freguesias de Santa Catarina e da Encarnação, constitui a fronteira de uma urbanização de palácios e edifícios populares em coexistência, sendo estes últimos construídos desde o início do bairro a leste daquela via, e os palácios ou edifícios com jardins sempre voltados a oeste. E esta Rua da Rosa  foi também a linha de divisão de propriedades entre os irmãos da família Andrade, nas partilhas que fizeram. Ainda em 1620-30, dos bens de Miguel Leitão de Andrade fazia parte a zona entre a Rua da Rosa e a Rua Formosa (hoje, Rua de O Século).

memórias do contencioso raa1964

E terminamos com  o poema de Fernando Assis Pacheco:

Se o galo gala o pombo pomba? este pombava
ao sol das três da tarde lisboeta num passeio da Rua da Rosa
senhor de si não digo nem arrogante mas com alguns direitos v g do apetite
pombava enquanto carros subiam em segunda aí está cauteloso
o peito inflado as penas do rabo num leque amorável sendo
nele tudo isto «a procura de Deus derramado na urbe» a vinte e dois anos e meio
do fim do mundo
ó futurólogos que me não largais

preciso para o voyeur: pombava e dançava e nos intervalos
céleres da dança pombava ainda apesar de tudo obsequioso
com a fêmea não fosse ela sôbolos pneus que rodam
rua acima ficar-se como a amiga de Ignacio Morel (in Ramón J. Sender)

igual a mim quando pombo ia pombando este pois que se trata
de a buscar sempre mesmo repetida
de uma geração a outra aquilo que é soberbo o amor a novidade

Freguesia da Misericórdia (Planta : Sérgio Dias)

Freguesia da Misericórdia
(Planta : Sérgio Dias)