Mais 12 vilas de Moçambique como topónimos de Olivais Sul, desde 1971

Freguesia dos Olivais - Placa Tipo IV (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia dos Olivais – Placa Tipo IV
(Foto: Sérgio Dias)

Pelo Edital de 26 de março de 1971, doze vilas de Moçambique passaram a ser topónimos da Célula E de Olivais Sul, a exemplo do que sucedia noutras células da recente urbanização de Olivais Sul : em 1967 foram 15 cidades e vilas de Moçambique na Célula B, a que se juntaram  em 1969 as denominações de Angola na Célula C, somando-se em 1970 os nomes da Guiné, Cabo Verde, Índia e Timor na Célula D, para finalmente se arribar a 1971 e acolher  mais estas designações de vilas moçambicanas nos arruamentos da Célula E.

Aliás, durante as décadas de 60 e 70 do século XX, foram os arruamentos dos Olivais Sul crismados com nomes de povoações da Angola, Guiné, Cabo Verde, Moçambique, Índia e Timor, enquanto nos Olivais Norte se fixaram os nomes dos mortos ao serviço da pátria em combate.

As povoações de Moçambique escolhidas para este Edital ficaram todas com a categoria de ruas e foram elas Chibuto, Dondo, Ibo, Macia, Manhiça, Manjacazé, Marracuene, Mocímboa da Praia, Montepuez, Vila Alferes Chamusca, Vila Fontes e Vila Sena.

Traço de nesta altura os presidentes das câmaras municipais serem nomeados pelo governo e a política deste exaltar a manutenção das colónias a todo o custo, também encontramos uma Rua do Dondo na Parede,  uma Rua de Macia em Leiria, uma Rua e uma Travessa de Marracuene no Porto ,bem como uma Rua de Marracuene em Santo António dos Olivais de Coimbra.

Freguesia dos Olivais - Placa Tipo IV (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia dos Olivais – Placa Tipo IV
(Foto: Sérgio Dias)

Quinze cidades e vilas de Moçambique na toponímia de Olivais Sul desde 4 de julho de 1967

Freguesia dos Olivais - Placa Tipo IV (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia dos Olivais – Placa Tipo IV
(Foto: Sérgio Dias)

Pelo Edital de 4 de julho de 1967, 14 cidades e vilas de Moçambique passaram a ser topónimos da Célula B de Olivais Sul. Os restantes núcleos desta recente urbanização de Olivais Sul foram também tendo a sua toponímia preenchida com os nomes de cidades e vilas dos países que nessa época eram as «colónias ultramarinas». Assim, em 1969, a Célula C recebeu denominações de Angola. No ano seguinte foi a Célula D a ter nomes da Guiné e em 1971, mais designações de terras moçambicanas foram distribuídas pelos arruamentos da Célula E.

Desta feita, em 1967, foram colocadas na Célula B de Olivais Sul a Avenida Cidade de Lourenço Marques, a Praça de Bilene e a Praça de Chinde, a Rua de Baixo Limpopo, a Rua Cidade da Beira, a Rua Cidade de Inhambane, a  Rua Cidade de João Belo, a Rua Cidade de Nampula, a Rua Cidade de Porto Amélia, a Rua Cidade de Quelimane, a Rua Cidade de Tete, a Rua Cidade de Vila Cabral, a Rua de Vila Pery, a Rua de Manica e a  Rua de Matola.

Em 1961 começara em Angola a Guerra Colonial, conflito armado que em 1963 se alargou à Guiné, e em 1964 se estendeu a Moçambique. Lisboa crescia nessa época com novas urbanizações na zona dos Olivais e logo, com novos arruamentos, que a edilidade lisboeta cujo Presidente era nomeado pelo Governo utilizou para consagrar nomes de militares mortos na Guerra Colonial nos Olivais Norte, enquanto nos Olivais Sul, distribuiu os nomes de cidades e vilas dos países em que queria manter o domínio colonial.

Encontramos repetições destes topónimos no nosso país, particularmente em Corroios (Seixal), zona que nessa década começou a crescer urbanisticamente, já que em 1940 tinha 884 habitantes e em 1960 já eram 2481.  A toponímia de Corroios inclui a Rua Cidade de Lourenço Marques , a Rua Cidade da Beira, a Rua Cidade de João Belo, a  Rua Cidade de Porto Amélia, a Rua Cidade de Quelimane, a Rua Cidade de Tete e a Praceta Cidade de Nampula. Lourenço Marques surge também numa Avenida da Amadora e em Ruas de Carcavelos, São Domingos de Rana, Odivelas, Prior Velho (Loures), Bragança e Ermesinde. A Cidade da Beira surge também em Ruas do Porto, Coimbra, Prior Velho, Montijo, Barreiro, Charneca da Caparica e Setúbal, para além de Quelimane surgir no Prior Velho, Carcavelos, Oeiras,  Azeitão, assim como a Rua Cidade de Nampula estar também presente em Vila Nova de Gaia, no Bombarral, Prior Velho, Odivelas, Oeiras, Barreiro  e a Rua Cidade de Tete em Amiais de Baixo (Santarém).

Freguesia dos Olivais - Placa Tipo IV (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia dos Olivais – Placa Tipo IV
(Foto: Sérgio Dias)

 

A Rua do Caribe e o Passeio do Cantábrico no Parque das Nações

Rua do Caribe - Freguesia do Parque das Nações (Foto: Sérgio Dias)

Rua do Caribe – Freguesia do Parque das Nações
(Foto: Sérgio Dias)

O Caribe da América Central e o mar Cantábrico da costa norte de Espanha são topónimos da Freguesia do Parque das Nações.

A Rua do Caribe une a Alameda dos Oceanos ao Passeio do Báltico enquanto o Passeio do Cantábrico vai da Avenida do Índico à Avenida da Boa Esperança mas ambos foram oficializados pela Câmara Municipal de Lisboa através do Edital de 16/09/2009, assim como mais 100 topónimos.  No âmbito da requalificação urbana resultante da Expo 98 «Os Oceanos: um património para o futuro», o espaço veio a tornar-se  território administrativo do concelho de Lisboa já com prédios construídos pelo que causaria transtornos e custos aos residentes a mudança dos topónimos pelo que a edilidade lisboeta oficializou-os.

Esta herança toponímica que Lisboa acolheu integra referências aos oceanos, aos Descobrimentos Portugueses, aos aventureiros marítimos de diversas nacionalidades, quer na literatura quer na banda desenhada, assim como figuras de relevo para Portugal, escritores portugueses ou obras suas de alguma forma ligadas ao mar e ainda, alguns biotopónimos.

Passeio do Cantábrico - Freguesia do Parque das Nações (Foto: Sérgio Dias)

Passeio do Cantábrico – Freguesia do Parque das Nações
(Foto: Sérgio Dias)

O Caribe ou Caraíbas denomina uma vasta área geográfica e cultural na América Central, abrangendo tanto o mar do Caribe como as suas ilhas e estados insulares. Também foram denominadas Antilhas ou Índias ocidentais mas toda a região tem uma cultura própria que funde características africanas, ameríndias e europeias de várias origens.

O mar Cantábrico situa-se no Atlântico, banhando a costa norte de Espanha e sudoeste de França, banhando a Costa Verde, onde ficam localizadas cidades como Gijon e Santander e onde se registam a existência de portos desde o período romano. Apesar das suas características geográficas de ventos fortes, provocando vagas alterosas, tem sido um elemento de ligação entre os países do norte da Europa e a Península Ibérica. O seu nome tem origem nos romanos, que o designaram como Sinus Kantabrorun, que significa «oceano dos Cantábros».

Rua do Caribe e Passeio do Cantábrico - Freguesia do Parque das Nações (Planta: Sérgio Dias)

Rua do Caribe e Passeio do Cantábrico – Freguesia do Parque das Nações
(Planta: Sérgio Dias)

Mem de Sá, 3º governador do Brasil, numa Rua de Alvalade

Freguesia de Alvalade                                                                                                                 (Foto: Sérgio Dias)

Mem de Sá, governador do Brasil de 1556 a 1572, está desde a publicação do Edital de 29 de janeiro de 1979 fixado numa Rua de Alvalade, com a legenda «Governador do Brasil/Século XVI».

Por solicitação da Secção de Escrivania da CML para atribuição de topónimos aos arruamentos ainda sem nomenclatura própria, a Comissão Municipal de Toponímia deu parecer favorável a que a Rua 4.2 do Novo Bairro das Fonsecas (junto à Avenida General Norton de Matos) passasse a designar-se Rua Mem de Sá, o que se concretizou pelo Edital municipal de 29/01/1979, que também colocou na Rua 4.3 do Novo Bairro das Fonsecas, a Rua Dom Luís da Cunha, em homenagem a este diplomata do séc. XVII-XVIII.

mem-de-sa-caraMem de Sá (Coimbra/c. 1504 – 02.03.1572/Baía- Brasil), meio-irmão do poeta Sá de Miranda (1481 – 1558) por parte do pai, Gonçalo Mendes de Sá, cónego da Sé de Coimbra, formou-se em Leis pela Universidade de Salamanca (1526) e  em 1532 tornou-se juiz desembargador da Casa dos Agravos da Suplicação. Foi nomeado como 3º Governador-geral do Brasil em 23 de julho de 1556 e distinguiu-se por transferir a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro dos morros de Cara de Cão e do Pão de Açúcar onde o seu sobrinho Estácio de Sá a fundara, para junto do morro do Castelo, em 1 de março de 1567, por motivos de defesa. Mem de Sá também reorganizou a administração, incentivou a produção açucareira e o comércio, avançando com a penetração nos sertões e a pacificação dos índios, quer com o apoio aos Jesuítas para a sua política de aldeamentos quer por guerra contra os índios revoltosos, para além de ter organizado 2 expedições para expulsar os franceses (1567). Também estimulou o tráfico de escravos africanos para o Brasil ao mesmo tempo que decretava leis que protegiam da escravidão os indígenas já catequizados e combateu a antropofagia.

Mem de Sá governou até ao ano da sua morte, 1572. D. Luís de Vasconcelos foi enviado em 1570 para ser seu sucessor,  mas foi morto na viagem no decorrer de um ataque de corsários franceses e quem lhe sucedeu foi Salvador Correia de Sá.

Para além de Lisboa, Mem de Sá tem artérias homónimas nas cidades brasileiras de Belo Horizonte, Camoina Grande, Criciúma, Cuiabá, Eunapolis, Manaus, Maringá, Mogi Guaçu, Niterói, Osasco, São Miguel do Oeste, São Paulo, Vitória da Conquista e uma Avenida no Rio de Janeiro.

Freguesia de Alvalade (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

 

Os três bandeirantes da toponímia de Lisboa em Belém

Freguesia de Belém (Planta: Sérgio Dias)

Em 1976, na zona de Belém, pelo Edital municipal de 30 de dezembro,  foram atribuídos 3 topónimos todos referentes a bandeirantes que exploraram os limites do território brasileiro, todos com a legenda «Bandeirante/Século XVII»:  a Rua António Raposo Tavares, a  Rua Luís Pedroso de Barros e a Rua Luís Castanho de Almeida.

Bandeirantes eram os indivíduos que no Brasil, a partir do séc. XVI, integravam as bandeiras – expedições destinadas a explorar o território brasileiro e da América do sul na época colonial, em busca de riquezas minerais ou indígenas para escravizar -, também conhecidos como bandeiristas ou sertanistas e que permitiram a expansão territorial do Brasil além dos limites impostos pelo Tratado de Tordesilhas. Como esta ocupação estava muito ligada a São Paulo, no Brasil o termo bandeirante é também sinónimo de paulista e ainda, de pioneiro.

Pelo mesmo Edital de 1976 a edilidade decidiu atribuir nestes arruamentos da zona do Restelo construídos pela EPUL,  nomes de  navegadores que se distinguiram no século XV como foi o caso do navegador e mercador italiano Alvisse Cadamosto e dos navegadores portugueses Diogo de Teive, Diogo de Silves, Gonçalo de Sintra, Pedro de Sintra, João Dias,  Vicente Dias e ainda, do missionário na Ásia, Padre Bento de Góis.

Rua António Raposo Tavares - Freguesia de Belém (Foto: Sérgio Dias)

Rua António Raposo Tavares – Freguesia de Belém
(Foto: Sérgio Dias)

António Raposo Tavares (Portugal – São Miguel do Pinheiro/c. 1598 – 1658/S. Paulo – Brasil) , que ficou na Rua R 8 da Zona do Restelo, entre a Rua Álvaro Esteves e a Rua Gonçalo Velho Cabral, foi aos 20 anos para o Brasil, com o seu pai Fernão Vieira Tavares, que governava a Capitania de São Vicente, em São Paulo. Após a morte de seu pai, em 1622, Raposo Tavares participou em bandeiras para capturar índios, na tentativa de escravizá-los. Em 1630, expulsou os jesuítas espanhóis de Guaíra para ampliar a demarcação territorial portuguesa. De volta a São Paulo, em 1633, foi nomeado juiz ordinário da Capitania de São Vicente, mas desistiu do cargo, partindo noutra expedição em 1638, no decorrer da qual expulsou os jesuítas espanhóis da cidade de Tapes. De 1639 a 1642, integrou  as bandeiras paulistas, a pedido de Salvador Correia de Sá, para expulsar os holandeses do estado da Baía e Pernambuco. A sua última jornada como bandeirante começou em  1648, rumo à Amazónia, em busca de prata no território espanhol e regressou em 1651, falecendo 7 anos depois.

Rua Luís Pedroso de Barros - Freguesia de Belém (Foto: Sérgio Dias)

Rua Luís Pedroso de Barros – Freguesia de Belém
(Foto: Sérgio Dias)

Luís Pedroso de Barros (Brasil – S. Paulo/ c. 1608 – c. 1662/Peru), foi fixado na Rua R 9 da Zona do Restelo, entre a Rua Álvaro Esteves e a Rua Gonçalo Velho Cabral, e era também ele um bandeirante, irmão de um bandeirante famoso, Valentim Pedroso de Barros. Em 1639 participou com o seu irmão na expedição para expulsar os holandeses da Baía e Pernambuco, sob o comando de António Raposo Tavares, levando muitos índios da sua propriedade. Em 1656 partiu na bandeira ao sertão dos índios serranos, na Bolívia de hoje e, segundo Pedro Taques, terá falecido em 1662 nos desertos  do Peru. Foi casado com a irmã da sua cunhada, ambas da Baía e ambas a saberem ler e escrever.

Luís Castanho de Almeida (Brasil – S. Paulo/c. 1620 – 1672/Matto Grosso dos Goyazes- Brasil), que deu nome à Rua T 2 da Zona do Restelo, entre a Avenida da Ilha da Madeira e a Rua Gonçalo Velho Cabral, foi um especialista em capturar índios que faleceu de uma flechada numa revolta, quando no sertão de Guanicuns ia para capturar índios. Segundo Pedro Taques «era um valente sertanista que tinha penetrado várias vezes o sertão a conquistar bárbaros gentios, e fez última entrada em 1671, levando somente dois filhos legítimos e dois bastardos, com um corpo de Carijós, chamados naqueles tempos administrados, os quais, não acomodando-se com a vida penosa de fomes e outras necessidades, se uniram todos para matarem a seu administrador Luiz Castanho e aos filhos».

Rua Luís Castanho de Almeida - Freguesia de Belém (Foto: Sérgio Dias)

Rua Luís Castanho de Almeida – Freguesia de Belém
(Foto: Sérgio Dias)

 

 

Repúblicas do Paraguai e da Bolívia em ruas do Lumiar e de Benfica

Rua República do Paraguai                                                                                                  (Foto: Sérgio Dias)

Na década de setenta do século XX, em retribuição das homenagens toponímicas concedida no Paraguai e na Bolívia à cidade capital portuguesa, Lisboa incluiu na sua toponímia a Rua da República do Paraguai (1972) e a Rua da República da Bolívia (1975).

Freguesia do Lumiar (Planta: Sério Dias)

Rua da República do Paraguai – Freguesia do Lumiar
(Planta: Sério Dias)

A Rua da República do Paraguai foi atribuída pelo Edital municipal de 18 de setembro de 1972 nos arruamentos da Urbanização do Colégio de S. João de Brito (à Alameda das Linhas de Torres ou à Estrada da Torre) designados por Rua O, Rua G, Rua C, Rua III e Ligação G-O, que passaram a constituir um único arruamento, na Freguesia do Lumiar. Pretendeu deste modo a edilidade lisboeta retribuir a homenagem da cidade de Assunção (Asunción), capital da República do Paraguai, que incluiu Lisboa na sua toponímia, numa artéria paralela a París, Londres e Berlín.

Já em 14 de agosto de 1975 foi atribuída a Rua da República da Bolívia no troço da  Estrada do Poço do Chão (Quinta da Granja) compreendido entre a Rua da Quinta do Charquinho, a Rua Dr. Pereira Bernardes e o Largo da Cruz da Era, na Freguesia de Benfica. O topónimo nasceu também de uma questão de reciprocidade como se pode constatar nas Atas da Comissão Municipal de Toponímia, em que na reunião de 22 de dezembro de 1974 se refere uma «Carta da Embaixada de Portugal em La Paz, solicitando que num clima de reciprocidade, se dê a um arruamento de Lisboa o nome da República da Bolívia», bem como na de 22 de julho de 1975 são mencionados os «Ofícios da Embaixada de Portugal na Bolívia e do Ministério dos Negócios Estrangeiros, dando conhecimento de já ter sido deliberado pela Municipalidade de La Paz dar o nome de “República de Portugal” a um arruamento dessa cidade, solicitando que a Câmara de Lisboa retribua essa homenagem», sendo a Calle Portugal paralela à da Venezuela, Bolivia, Colombia, Costa Rica, Argentina e Uruguay.

Freguesia de Benfica (Planta: Sérgio Dias)

Rua da República da Bolívia – Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias)

Recorde-se também que na época da criação do Bairro América, por deliberação camarária de 25 de novembro de 1918 e edital de 17 de outubro de 1924, a rua nº 4 foi denominada Rua Bolivar, em homenagem a Simon Bolívar que combateu o domínio espanhol na América do Sul, comandando as revoluções que promoveram a independência da Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia, ficando este último país com o seu nome. No entanto, tanto a Rua Bolivar como a Rua Álvaro Fagundes desse mesmo Edital de 1924 nunca tiveram execução prática.

Rua República da Bolívia – Freguesia de Benfica                                                     (Foto: Sérgio Dias)

 

A Rua Cervantes e o Autoparque Madrid

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Rua Cervantes - Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Rua Cervantes – Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

A ligar a Avenida João XXI à Avenida de Madrid encontramos hoje a Rua Cervantes, atribuída em 1948, hoje paralela ao Autoparque Madrid, um topónimo de 2001.

A Rua Cervantes resultou da publicação do Edital municipal de 29 de julho de 1948, fixada no arruamento identificado então como Rua D2 da Zona compreendida entre a Alameda Dom Afonso Henriques e a Linha Férrea de Cintura. Este Edital resultou da procura da edilidade lisboeta de imprimir algum cosmopolitismo à cidade, com doze topónimos, todos ligados a personalidades de cariz internacional ou a cidades europeias e brasileiras, onde couberam os nomes dos cientistas europeus Pasteur e Marconi, do inventor americano Edison, dos escritores Vítor Hugo (francês), Afrânio Peixoto e João do Rio (brasileiros), bem como Avenidas para Madrid, Paris e Rio de Janeiro, uma praça para Londres, para além da Avenida João XXI que homenageia o único Papa português.

A Rua Cervantes e o Autoparque Madrid - Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

A Rua Cervantes e o Autoparque Madrid – Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

O castelhano Miguel de Cervantes Saavedra (Alcalá de Henares/29(?).09.1547 – 22 ou 23 (?).04.1616/Madrid) foi um romancista, dramaturgo, poeta, soldado e cobrador de impostos, autor do famoso D. Quixote de la Mancha, considerado o primeiro romance moderno, que teve licença de impressão em 26 de setembro de 1604 e alcançou um êxito enorme com 9 edições em 1605: duas em Madrid, três em Lisboa (sem o consentimento do autor) e duas em Valência.

Cervantes enquanto soldado, lutou em Itália (1569), combateu na Batalha de Lepanto (1571), nas Jornadas de Tunes e da Goleta (1573), foi feito cativo por corsários em Argel (1575 – 1580), onde conheceu Manuel de Sousa Coutinho (Frei Luís de Sousa), de quem aliás narrou os amores em Trabajos de Pérsiles y Sesinanda (1616). Regressado a Espanha passou a ser cobrador de impostos e veio para Portugal em 1581 para conseguir entrar na corte de Filipe II de Espanha e I de Portugal, tendo ficado em Lisboa até 1583 e escrito  a ideia «Para festas Milão, para amores Lusitânia».

Em 2001, pelo Edital municipal de 3 de janeiro, o espaço compreendido entre a Avenida de Madrid, Rua Cervantes e Avenida João XXI passou a denominar-se Autoparque Madrid, referindo-se o topónimo à artéria onde se abre o Autoparque, uma nova categoria de via pública essencialmente destinada ao parqueamento automóvel cuja denominação corresponde sempre ao nome da artéria que lhe dá acesso.

Autoparque Madrid - Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Autoparque Madrid – Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

 

Praça D. Pedro IV, antes D. Pedro e ainda antes Rossio

Em 1925 (Foto: Manuel Tavares, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Praça de Dom Pedro em 1925
(Foto: Manuel Tavares, Arquivo Municipal de Lisboa)

Aquela artéria lisboeta que no presente todos conhecemos vulgarmente por Rossio já no séc. XVIII se denominava Praça do Rossio, e há pouco mais de 180 anos, por decreto governamental de 31/10/1836, passou a designar-se Praça de Dom Pedro, a qual foi alterada pelo Edital municipal de 26 de março de 1971 para Praça Dom Pedro IV.

A reunião da Comissão Municipal de Toponímia de 19 de março de 1971 é esclarecedora ao pronunciar-se «sobre a forma como devem ser escritos os letreiros toponímicos»,  sendo do parecer «Que a nomenclatura da Praça de D. Pedro seja alterada para: Praça de D. Pedro IV», pelo simples motivo de «Já que assim consta dos letreiros ali afixados há longo tempo e ainda porque dessa forma melhor se identifica a figura histórica homenageada».

(Foto: Rui Mendes)

(Foto: Rui Mendes)

O homenageado é D. Pedro I do Brasil e IV de Portugal, que recebeu os cognomes de O Libertador e Rei Soldado, de seu nome completo Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Serafim de Bragança e Bourbon (Palácio de Queluz/12.10.1798 – 14.09.1834/Queluz), filho de D. João VI e da sua esposa, D. Carlota Joaquina. Tendo a coroa portuguesa fugido das invasões francesas residiu no Brasil entre 1807 e 1831. Por força da Revolução Liberal de 1820 no Porto os seus pais regressaram a Portugal e foi nomeado regente em 1821. No ano seguinte, declarou a independência do Brasil, face ao domínio português. Assim, foi D. Pedro I, o primeiro imperador do Brasil, no período de 7 de setembro de 1822 (O grito do Ipiranga) a 7 de abril de 1831, ano em que abdicou para assumir a coroa portuguesa, como D. Pedro IV, em defesa dos direitos da sua filha, D. Maria da Glória, que virá a ser a rainha D. Maria II (Rio de Janeiro/04.04.1819 – 15.11.1853/Lisboa), e que significativamente dá nome ao Teatro instalado na Praça D. Pedro IV, tendo este aberto as suas portas em 13 de abril de 1846, durante as comemorações do 27.º aniversário da rainha D. Maria II .

Como D. Pedro IV aparece entre os topónimos de Felgueiras,  Queluz e Valongo, enquanto como D. Pedro I surge no Brasil na Baía, em Goiânia, Minas Gerais, Paraíba ou Rio de Janeiro.

Freguesia de Santa Maria Maior (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua de Lacerda e Almeida das fronteiras do Brasil e primeiras longitudes de África

Freguesia da Penha de França (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Penha de França
(Foto: Sérgio Dias)

No troço do Caminho de Baixo da Penha entre a Avenida General Roçadas e a Rua Jacinto Nunes está desde a publicação do Edital de 23 de março de 1954 a Rua Dr. Lacerda e Almeida, em homenagem ao matemático que integrou a comissão de delimitação das fronteiras do Brasil com a Bolívia e a Venezuela e enquanto governador de Tete, em Moçambique, procedeu a uma exploração onde definiu as primeiras longitudes em África.

Já em 1949 e depois em 1953,  a Comissão Municipal de Toponímia foi do parecer que se denominassem os arruamentos do Vale Escuro com topónimos relacionados com figuras que em África cumpriram a política portuguesa, quer por obra governativa quer por delimitação de fronteiras. E assim para além da Rua Dr. Lacerda e Almeida os outros topónimos sugeridos foram a Praça Aires de Ornelas, a Rua Artur de Paiva, a Avenida Coronel Eduardo Galhardo, a Rua Francisco Pedro Curado, a Praça João de Azevedo Coutinho, o Largo General Pereira de Eça, a Avenida Mouzinho de Albuquerque, a Praça Paiva Couceiro , a Rua Teixeira Pinto e a Rua Eduardo Costa.

Francisco José de Lacerda e Almeida (Brasil – São Paulo/22.08.1750 – 18.10.1798/Cazambe-Moçambique), filho de José António de Lacerda (de Leiria) e de Francisca de Almeida (de São Paulo) concluiu o curso de matemática na Universidade de Coimbra em 1776 e no ano seguinte concluiu o doutoramento, conseguindo em 1778 ser convidado para o serviço do Estado, como geógrafo, astrónomo e matemático. Neste contexto, integrou os trabalhos de demarcação das fronteiras entre Portugal e Espanha (1779), resultantes da assinatura do Tratado de Santo Ildefonso e seguiu depois para o Brasil (1780) para a delimitação das fronteiras com a Bolívia e a Venezuela, para além de ter executado levantamentos que podem ser classificadas como geográficos, para obter dados geodésicos, destinados a apoiar a cartografia da região. Fez ainda uma viagem de investigação dos rios Cuiabá, Paraguai, Taquari, Cochim, Camampoan, Pardo, parte do Paraná e todo o Tieté e regressou a Lisboa em 1790. 

Em setembro do ano seguinte passou a docente de Matemática na Real Academia dos Guarda-Marinhas, funções que exerceu até partir  para Moçambique em maio de 1797. Nesta época de explorações científicas, dentro do espírito do Iluminismo, Lacerda e Almeida queria seguir o curso do Zambeze, até à zona da nascente, para aí procurar a nascente do Cunene, que corria para a costa ocidental e iniciou a expedição em 3 de julho de 1798, no decorrer da qual contraiu malária, chegando o «Geral de Tete», como era conhecido, já bastante debilitado ao Cazembe em outubro, onde veio a falecer.  A sua expedição foi a  primeira a determinar longitudes em África por métodos astronómicos rigorosos, tendo os seus registos sido publicados em 1844 (Diário da viagem de Moçambique para os rios de Senna [na Zambézia] feita pelo governador dos mesmos rios Dr. Francisco José de Lacerda e Almeida).

Supõe-se que tenha sido eleito membro da Academia de Ciências de Lisboa, em 1791 ou 1795, mas nem todos os autores estão de acordo nesta questão.

Para além da rua que lhe foi dedicada em Lisboa 156 anos após o seu falecimento, o seu nome também se tornou topónimo na cidade Pontes e Lacerda no Estado do Mato Grosso (homenagem a Silva Pontes e Lacerda e Almeida); no Rio Lacerda e Almeida no Estado de Rondônia; na Ilha Lacerda e Almeida no Rio Paraná; assim como uma povoação moçambicana na margem direita do Zambeze recebeu em 1893 o nome de Lacerdónia.

 

Freguesia da Penha de França (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

 

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