Amanhã, inauguração do Jardim Mário Soares

O Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, vai proceder amanhã, às 13:00, à inauguração do Jardim Mário Soares.

 

“ Mário Soares é o maior político português do século XX”, disse o seu rival, nas eleições presidenciais de 1986, Diogo Freitas do Amaral. Para Mário Soares, a política era uma vontade e uma vocação, um prazer e uma paixão. E foi-lhe um destino! A sua voz tonou-se, nos momentos em que tudo se jogava, a voz do País – e dizia a palavra Liberdade. Foi fundador e garante da democracia portuguesa, dando o seu nome ao que melhor a prefigurou e configurou. É o rosto do Portugal democrático e europeu. A sua morte apareceu na Imprensa de todo o mundo. Foi o fim de uma grande vida livre.

Nasceu em Lisboa, a 7 de Dezembro de 1924. Do pai, João Soares, ministro da I República, intelectual e pedagogo, recebeu o gosto idealista da política e da cultura. Da mãe, Elisa Nobre Baptista, herdou o senso prático e o realismo.

A Guerra Civil de Espanha foi o seu despertar político. Estudou em colégios, terminando o liceu no Colégio Moderno, fundado pelo pai. Em 1942, ao entrar na Universidade de Lisboa, já tinha uma posição política clara: era antifascista. Licenciou-se em História e Filosofia. Depois, em Direito. Viveu intensamente a II Guerra Mundial, lutando pela vitória dos Aliados. Quando ela aconteceu, organizou grandes manifestações, mas Salazar aguentou-se.

Casou com Maria de Jesus Barroso em 1949, quando estava preso. Tiveram dois filhos: João e Isabel. O MUD Juvenil e o MUD iniciaram-no como dirigente político. Preso 13 vezes, foi deportado em S. Tomé e esteve exilado em França. Participou em todos os grandes combates contra a ditadura. Após o assassinato de Humberto Delgado pela PIDE, foi o advogado da família. Em 1950, tinha-se distanciado do Partido Comunista, iniciando uma travessia do deserto que o levaria, mais tarde, à fundação da ASP e, em 1973, do PS.

Com o 25 de Abril de 1974, regressou a Portugal, no Comboio da Liberdade. Trazia, na bagagem, um Partido, uma rede de relações internacionais, uma ideia para o país. Visitou os seus amigos, que chefiavam muitos governos  na Europa, para obter o reconhecimento da Revolução. Foi ministro dos Negócios Estrangeiros do I e II Governos Provisórios, abrindo Portugal ao mundo. Iniciou as conversações para a descolonização, mas esse processo, logo a seguir, ficou nas mãos do MFA e do PCP.

À medida que se tornava claro que os comunistas queriam tomar o poder, Soares liderou um PS que se opôs firmemente à tentação totalitária. Depois da vitória socialista nas eleições para a Assembleia Constituinte, em Abril de 1975, ergueu a legitimidade democrática acima da legitimidade revolucionária. A unicidade sindical foi rejeitada; o “caso República” levou o país à rua e os socialistas saíram do governo; o comício da Fonte Luminosa foi o símbolo maior da luta contra Vasco Gonçalves e Cunhal. Malraux disse então que, em Portugal, pela primeira vez na história, os mencheviques derrotaram os bolcheviques. Soares tornara-se uma figura mundial.

Em 1976, o PS ganhou as eleições legislativas e ele foi primeiro- ministro do I e II Governos Constitucionais: salvou o país da banca rota, construiu o Estado de Direito, lançou os fundamentos do Estado Social, pediu a adesão à CEE. A seguir, fez oposição à AD, mas celebrou acordos para tornar Portugal uma democracia civilista e europeia. Voltou a chefiar o Governo (IX). Em 1985, assinou o Tratado de Adesão de Portugal à CEE. Contrariando uma ideia falsa, os governos de Soares foram os mais reformistas e eficazes, tomando decisões fundamentais para a economia e a sociedade.

Em 1986, depois de uma dura campanha, que começou, para ele, com previsões baixíssimas nas sondagens, foi eleito Presidente da República, o primeiro civil, após 60 anos. Em 1991, foi reeleito com mais de 70% dos votos. O seu estilo e as Presidências Abertas permanecem como uma maneira contemporânea de fazer política e de olhar o Estado. Nesses anos, o lugar da cultura foi o primeiro.

Depois, Soares continuou presente. Interveio, falou, escreveu, agiu. Animou a Fundação Mário Soares. Fez da defesa do ambiente uma grande causa. Foi Presidente da Comissão Mundial Independente dos Oceanos. Opôs-se á guerra do Iraque, que considerou um desastre para o Ocidente. Foi deputado no Parlamento Europeu. Perdeu as eleições presidenciais de 2006, mas o estado do País, da Europa e do Mundo nos anos seguintes deu razão ao que Soares dissera na campanha eleitoral.

Figura portuguesa, europeia e mundial, Mário Soares exerceu os mais altos cargos e recebeu as maiores distinções. Isso nunca o acomodou. Lutou sempre até ao fim: denunciou, previu, preveniu, advertiu, propôs. Tinha orgulho nos livros que escreveu e nos combates que travou. Nele, a política e a liberdade eram uma da outra e, as duas, inseparáveis da vida e do que a torna grande.

José Manuel dos Santos

 

 

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A longa Avenida de Cabo Ruivo a Marechal Gomes da Costa

Freguesias do Parque das Nações, dos Olivais, de Marvila e de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Um troço da 2ª Circular que começava em Cabo Ruivo foi conhecido como Avenida de Cabo Ruivo até oficialmente ganhar o nome de Avenida Marechal Gomes da Costa, no ano de 1966, mas ambos os topónimos, o popular e o oficial, continuaram até hoje na boca dos lisboetas.

Conforme se pode observar na planta de Lisboa de Júlio Silva Pinto existia em 1907 uma Quinta de Cabo Ruivo. Em 1944, o arqtº municipal Perez Fernandez realizou um estudo arquitetónico para o viaduto da 2ª circular em Cabo Ruivo e a partir de 1960 começou a execução do troço da 2ª Circular no lanço da rotunda da Praça do Aeroporto e Cabo Ruivo

E pelo Edital de 27 de maio de 1966, um longo troço da 2ª Circular que começava em Cabo Ruivo, na Avenida Marginal (Rua Cintura do Porto de Lisboa) e terminava na Praça do Aeroporto passou a ser a Avenida Marechal Gomes da Costa. Este topónimo resultou de uma sugestão da Liga dos Combatentes da Grande Guerra e do filho do homenageado, 37 anos após o falecimento do Marechal, e 40 anos menos um dia depois do golpe de Estado de 28 de maio de 1926 de que Gomes da Costa foi um dos mentores para de seguida ser Presidente da República, de 17 de junho a 9 de julho de 1926.

Freguesias do Parque das Nações, dos Olivais, de Marvila e de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

De seu nome completo Manuel de Oliveira Gomes da Costa (Lisboa/14.01.1863 – 17.12.1929/Lisboa)  foi um militar que após um interregno iniciado em 1921 regressou à politica no 28 de maio de 1926, lançando em Braga o grito «Às armas, Portugal!» e comandando as tropas que do norte chegaram a Lisboa.  Em 17 de junho um golpe de Estado depôs o comandante Mendes Cabeçadas e foi Gomes da Costa que assumiu a presidência da República nesse mesmo dia, da qual também acabou por ser deposto, em 9 de julho, por outro golpe de Estado.

O Marechal Gomes da Costa na Praça do Comércio em 1926
(Foto: Amadeu Ferrari, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua de São Francisco de Paula e a Rua Presidente Arriaga

A Rua de São Francisco de Paula cerca de 1910
(Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua Presidente Arriaga, homenagem ao 1º Presidente da República Portuguesa constitucionalmente eleito, no arruamento onde ele residira e de onde saiu o seu funeral em 1917, foi um topónimo atribuído pela edilidade lisboeta em 1920, embora para os mais antigos seja ainda conhecida como Rua de São Francisco de Paula por via da Igreja da mesma invocação.

A artéria começou por ser a Rua Direita de São Francisco, topónimo derivado da Igreja de São Francisco de Paula ali fundada em 1719 por  Frei Ascenso Vaquero. Em 1753 e 1754, Frei Francisco de Paula era o Vigário Geral do Convento de São Francisco de Paula e o templo teve obras de melhoramentos, segundo o traçado do arqº Inácio de Oliveira Bernardes e torres atribuídas a Diogo Azzolini,  a expensas de D. Mariana Vitória, mulher de D. José I, cujo túmulo da oficina de Machado de Castro foi colocado na capela-mor e está classificado como Monumento Nacional.

Em 1758, no Cartulário de Plantas e Edifícios da Nova Cidade depois do Terramoto já encontramos alçados de Manuel da Maia para a Rua Nova de São Francisco de Paula que é a denominação que encontramos ainda em 1854 em documentos municipais de prospetos de prédios.

Em 1857 e 1858, na planta de Filipe Folque e em prospetos de prédios o arruamento surge designado como Rua Direita de São Francisco de Paula, situação que se mantém de 1879 a 1881 na planta de  Francisco e César Goullard,  num auto de vistoria a uma chaminé e no levantamento topográfico de Francisco Goullard.

Terá sido no final da década de oitenta do séc. XIX que o topónimo passou a ser Rua de São Francisco de Paula, já que  assim está mencionada em 1887 num orçamento para substituição da cantaria e reconstrução do empedrado dos passeios e valetas da rua, bem como no romance Os Maias de Eça de Queirós, publicado em 1888,  como morada da Casa do Ramalhete.

Em 1920, três anos após o falecimento de Manuel José de Arriaga Brum da Silveira (Horta/08.07.1840 – 05.03.1917/Lisboa) nesta artéria onde morava, a Câmara Municipal de Lisboa atribuiu a Rua Presidente Arriaga, por deliberação camarária de 28 de abril e Edital municipal de 18 de maio, com a a extensa  legenda de «Primeiro Presidente da República Portuguesa Eleito pela Assembleia Nacional Constituinte em 24 de Agosto de 1911/Nasceu em 08.07.1840 e Morreu em 05.03.1917».

Freguesia da Estrela
(Foto: José Carlo Batista)

A Avenida Sidónio Pais que esteve para ser trocada por outra figura republicana

Avenida Sidónio Pais – Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

A Avenida Sidónio Pais foi uma das artérias que após o 25 de Abril recebeu diversos pedidos de alterações, nomeadamente que fosse Avenida Doutor Afonso Costa, e parte dela chegou a ser, no papel, a Avenida Bernardino Machado.

Logo na 2ª reunião da Comissão Municipal de Toponímia após o 25 de Abril, em 20 dezembro de 1974, foi analisada uma carta do cidadão Alberto Bastos Flores na qual este solicitava que a Avenida Sidónio Pais passasse a ter a Doutor Afonso Costa como denominação. De igual modo, apontava mais pedidos de alterações e sugeria como possíveis futuros topónimos lisboetas os nomes de Abel Salazar, António Sérgio,  Catarina Eufémia, Cuba, Ferreira de Castro e Jaime Cortesão, tendo a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa registado e respondido que «irá considerá-las na devida oportunidade. Entretanto, entende desde já pertinente que o topónimo Praça do Ultramar seja alterado para Praça das Novas Nações, justificando dessa forma, os topónimos que a rodeiam, como Rua de Timor, Rua de Angola, Rua de Moçambique e outros.»

Em relação ao nome de Afonso Costa, um dos Primeiros Ministros da I República, no tempo da Presidência de Bernardino Machado, a 2ª Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa pós-25 de Abril, na sua reunião de 29 de junho de 1976, sugeriu que fosse o topónimo para o arruamento situado a Norte do Parque Eduardo VII, entre a Avenida Sidónio Pais e a Rua Castilho ( que desde 1982 é a Alameda Cardeal Cerejeira), mas já após as eleições autárquicas que colocaram Aquilino Ribeiro Machado como o 1º Presidente eleito da CML após o 25 de Abril, a Comissão de Toponímia sugeriu que ficasse antes num arruamento com maior extensão «que, partindo da Praça do Areeiro segue para Nascente e é vulgarmente designada por prolongamento da Avenida João XXI», que antes havia estado pendente para ser a Avenida Humberto Delgado.

Também na reunião de 6 de julho de 1976, a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa indicou o troço da Avenida Sidónio Pais compreendido entre a Avenida Afonso Costa e a Rua Marquês de Fronteira para ser a  Avenida Bernardino Machado, com o a legenda « 1851 – 1944». Contudo, as atas são omissas em relação ao desenvolvimento desta hipótese e Bernardino Machado acabou por ser homenageado numa Praça da freguesia do Lumiar em 1985.

Freguesia das Avenidas Novas – Placa Tipo IV
(Foto: Sérgio Dias)

A Avenida de Sidónio Pais, que liga a Avenida Fontes Pereira de Melo à Rua Marquês de Fronteira, é um arruamento nascido do Edital municipal de 22 de junho de 1948 no que antes era identificado como arruamento a Oriente do Parque Eduardo VII entre a Avenida Fontes Pereira de Melo e a Rua Marquês de Fronteira.

Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais (Caminha/01.05.1872 – 14.12.1918/Lisboa), conhecido como o Rei-Presidente, falecera cerca de 30 anos antes em plena Estação do Rossio,  vítima de um atentado. Militar de carreira, também era licenciado em Matemáticas, pela Universidade de Coimbra, onde aderiu à causa republicana. Após a implantação da República em 1910, foi eleito deputado à Constituinte que elaborou a Constituição Portuguesa de 1911; Ministro do Fomento do Governo de  João Chagas (1911); Ministro das Finanças (1911-1912); embaixador de Portugal em Berlim (1912- 1916), até à declaração de guerra da Alemanha a Portugal.

Regressado a Portugal, mostrou-se como figura principal de contestação ao Governo do Partido Democrático e encabeçou o golpe de estado de 5 de dezembro de 1917, tomando posse como Presidente do Ministério no dia 11 e acumulando as pastas da Guerra e  Negócios Estrangeiros, para além de a partir de dia 27 assumir ainda as funções de Presidente da República, num regime que designou como República Nova. A 9 de Maio do ano seguinte foi eleito Presidente da República por sufrágio direto, considerando que apesar do desaire da Batalha de La Lys e de problemas sociais e económicos  Sidónio Pais conseguia apoio popular com a  distribuição da sopa dos pobres (conhecida como Sopa do Sidónio) ou  a visita a hospitais na altura da Gripe Espanhola. No entanto, muitos o o consideravam um traidor aos ideais da República pelo que no 1º aniversário do golpe de estado que o colocou no poder sofreu um atentado de que escapou, para 9 dias depois falecer, a tiro, noutro, na Estação do Rossio.

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

 

As Avenidas dedicadas a António José de Almeida

António José de Almeida e o marechal Joffre durante a homenagem aos soldados mortos na Grande Guerra 1921 sa

António José de Almeida e o marechal Joffre em 1921, durante a homenagem aos soldados mortos na Grande Guerra (Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

António José de Almeida era Chefe de Governo quando Portugal entrou na I Grande Guerra e Presidente da República no ano em que foi assinada a paz em Versailles sendo homenageado na toponímia alfacinha no mesmo ano em que faleceu, naquela que hoje conhecemos como Avenida Guerra Junqueiro, embora decorridos quatro anos tenha passado para o local onde hoje encontramos a Avenida de António José de Almeida.

Cerca de quinze dias após o falecimento de António José de Almeida decidiu a edilidade, pela deliberação camarária de 07/11/1929 e o edital de 12/11/1929 que a  a Avenida 12 do Novo Bairro no seguimento da Avenida Almirante Reis (hoje, Avenida Guerra Junqueiro) se denominasse Avenida Dr. António José de Almeida. Mas em 1933, pela deliberação camarária de 13 e edital de 18 de julho passou a Avenida António José de Almeida a ser no prolongamento da Avenida Miguel Bombarda, entre a Avenida dos Defensores de Chaves e a Avenida de Manuel da Maia, onde ainda hoje a encontramos, sendo ao mesmo tempo Guerra Junqueiro colocado no arruamento que antes levava o nome do antigo Presidente da República. Acresce que conforme um parecer da Comissão de Toponímia na sua reunião de 13/04/1951, homologado pelo Vice-presidente da edilidade, foi acrescentada a partícula «de», sendo desde então Avenida de António José de Almeida.

Freguesias das Avenidas Novas e do Areeiro - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias das Avenidas Novas e do Areeiro – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

António José de Almeida defendeu a participação de Portugal na Guerra logo em 1914, caso a Inglaterra o desejasse, posição sintetizada na frase «Vamos até onde for preciso, mas sendo preciso!». Foi Chefe do Governo da União Sagrada e Ministro das Colónias (1916-1917) e depois, como Presidente da República (1919-1923) – o único da I República a cumprir integralmente o seu mandato -, participou com o marechal Joffre na homenagem aos soldados mortos na Grande Guerra em 1921 e deu andamento à transladação dos restos mortais dos soldados portugueses mortos na Flandres.

Monumento a António José de Almeida, na Avenida do mesmo nome, em 1937 (Foto: Fernando Martinez Pozal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Monumento a António José de Almeida, na Avenida do mesmo nome, em 1937
(Foto: Fernando Martinez Pozal, Arquivo Municipal de Lisboa)

António José de Almeida (Penacova – Vale da Vinha/27.07.1866 – 31.10.1929/Lisboa), formado em Medicina pela Universidade de Coimbra (1895) aderiu logo nessa época ao Partido Republicano e em 23 de março de 1890 publicou na folha académica Ultimatum o artigo «Bragança, o último», que lhe custou a pena de três meses de prisão. Exerceu medicina em Angola e depois, em São Tomé e Príncipe até 1903, após o que estagiou em Paris e regressou a Lisboa onde abriu o seu primeiro consultório, na Baixa, primeiro na Rua Áurea, que depois transferiu para Largo do Camões nº 6 – 1º (hoje, Praça Dom João da Câmara), onde ganhou fama de médico dos pobres.

Contudo, a sua carreira política foi a que  mais importância ganhou na sua vida. Foi eleito deputado pelo círculo oriental de Lisboa (1906) e integrou a Maçonaria (1907) ainda antes da proclamação da República, tendo depois exercido as funções de Ministro do Interior do Governo Provisório (1910-1911), formado o Partido Republicano Evolucionista (24 de fevereiro de 1912), sido Chefe do Governo da chamada «União Sagrada» e Ministro das Colónias (1916-1917) e ainda Presidente da República (1919-1923), sendo de destacar o seu papel na reforma do ensino superior, sobretudo no estudo da medicina  e  na criação das Universidades de Lisboa e do Porto, bem como a sua visita ao Brasil em setembro de 1922 por ocasião do Centenário da sua independência de que Luís Derouet fez reportagem: Duas Pátrias – O que foi a visita do Sr. Dr. António José de Almeida ao Brasil.

António José de Almeida ainda colaborou em vários periódicos e fundou a revista Alma Nacional (1909) e o diário República (1911). Foi também ele que proferiu um discurso no funeral de Rafael Bordalo Pinheiro (1905), e postumamente, em 1934, foram coligidos os seus principais artigos e discursos e publicados em 3 volumes sob o título Quarenta anos de vida literária e política. Três anos mais tarde,  em 31 de dezembro de 1937, foi inaugurada uma estátua a homenageá-lo, da autoria do escultor Leopoldo de Almeida e do arquiteto Pardal Monteiro, na Avenida com o seu nome.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas e do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

 

Bernardino Machado, duas vezes Presidente da República, numa Praça do Lumiar

0 Bernardino Machado PortugalnaGuerra 1 Jun. 1917

Bernardino Machado que era Primeiro-Ministro quando eclodiu a I Guerra Mundial e Presidente da República quando Portugal entrou no conflito, e nessa qualidade  visitou os militares em França em outubro de 1917, foi perpetuado numa Praça lisboeta 41 anos após a sua morte, através do Edital de 21/10/1985, com a legenda «Presidente da República/1851 – 1944», ficando na Praça J da Urbanização dos Terrenos da Tobis Portuguesa, também designada como Praça J à Rua Luís Pastor de Macedo.

A sua entrada na toponímia alfacinha passou por algumas peripécias. O jornal A Capital sugeriu que os nomes dos antigos Presidentes da República Portuguesa Bernardino Machado e João do Canto e Castro fossem consagrados na toponímia de Lisboa mas a Comissão Consultiva Municipal de Toponímia na sua reunião de 08/07/1970 « foi de parecer que deverá aguardar-se a existência de arruamentos condignos». Seis anos mais tarde, na reunião de 06/07/1976, a Comissão Consultiva Municipal de Toponímia  sugeriu que a Avenida Sidónio Pais, no troço compreendido entre a Avenida Afonso Costa ( é a  Alameda Cardeal Cerejeira  desde o Edital de 14/04/1982) e a Rua Marquês de Fronteira, passasse a Avenida Bernardino Machado. No entanto, só 41 anos após a sua morte, por sugestão de um munícipe, Bernardino Machado foi mesmo consagrado por Edital na toponímia de Lisboa, na Praça do Lumiar onde o encontramos hoje.

Bernardino Machado e Afonso Costa de visita às tropas em França (Portugal na Guerra, novembro de 1917)

Bernardino Machado e Afonso Costa de visita às tropas em França
(Portugal na Guerra, novembro de 1917)

Bernardino Luís Machado Guimarães (Rio de Janeiro/28.o3. 1851 – 28.04.1944/Porto) foi duas vezes eleito para Presidente da República. No primeiro período, para o quadriénio de 5 de outubro de 1915 a 1919, e no segundo, para o de dezembro de 1925 a 1929. Não chegou a cumprir nenhum deles até final, abortados que foram pelo movimento de Sidónio Pais de 8 de dezembro de 1917 que o expulsou do país e no segundo caso, pelo movimento militar do 28 de maio de 1926.

Bernardino Machado formado em Filosofia e Matemática pela Universidade de Coimbra (1875), com a tese  «Teoria Mecânica da Refleção da Luz» e catedrático desde 1879, foi Lente de Matemática e par do Reino nomeado pelo corpo de catedráticos da Universidade de Coimbra até que ao juntar-se aos estudantes por ocasião da crise académica de 1907 foi  obrigado a pedir a demissão do cargo de lente da Universidade. Integrou ainda o Conselho Superior de Instrução Pública (1892), presidiu ao  Instituto de Coimbra (1894) e dirigiu o Instituto Comercial e Industrial de Lisboa. Casou em 1882 com Elzira Dantas, de quem teve 18 filhos.

Iniciou em 1882 as suas funções políticas  como deputado por Lamego, eleito pelo Partido Regenerador. Depois foi deputado por Coimbra (1886), Ministro das Obras Públicas (1893) que elaborou legislação protetora do trabalho das mulheres e dos menores e procedeu à criação do primeiro Tribunal de Trabalho, grão-mestre da Maçonaria (entre 1895 e 1899) e presidente do Diretório do Partido Republicano entre 1906 e 1909. Proclamada a República, foi Ministro dos Negócios Estrangeiros (1910-1911; 1914), Embaixador no Brasil (1912-1914),  ministro do Interior e presidente do Ministério (em 1914 e em 1921). Após o 28 de maio de 1926 ficou em Portugal até às derrotas das revoltas de 3 e 7 de fevereiro de 1927 e foi novamente expulso do País, tendo-se exilado na Galiza e depois, em França. Foi autorizado a regressar em junho de 1940, quando as forças nazis invadiram França mas como estava proibido de residir em Lisboa, fixou residência no Alto Douro onde veio a falecer.

Finalmente, refiram-se algumas das suas obras:  A Introdução à Pedagogia (1892), O Ministério das Obras Públicas (1893), A Indústria (1898), O Ensino (1898), O Ensino Primário e Secundário (1899), O Ensino Profissional (1900), A Agricultura (1900), Pela Liberdade (1900), Da Monarquia para a República (1903), Os Meios de Comunicação e o Comércio (1903), Conferências Políticas (1904), Pela República (1908), No Exílio (1920), A Irresponsabilidade Governativa e as Duas Reacções Monárquica e Republicana (1924).

 

Freguesia do Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua do 1º Presidente da República Portuguesa

Freguesia da Estrela (Foto: José Carlos Batista)

Freguesia da Estrela
(Foto: José Carlos Batista)

A Rua Presidente Arriaga consagra o 1º Presidente da República Portuguesa, três anos após a sua morte (pelo Edital de 18/05/1920), na que era a Rua de São Francisco de Paula,  com a extensa  legenda de «Primeiro Presidente da República Portuguesa Eleito pela Assembleia Nacional Constituinte em 24 de Agosto de 1911/Nasceu em 08.07.1840 e Morreu em 05.03.1917».

Manuel José de Arriaga Brum da Silveira (Horta/08.07.1840 – 05.03.1917/Lisboa) foi o 1º Presidente da República Portuguesa constitucionalmente eleito, com o apoio parlamentar dos partidários de António José de Almeida e Brito Camacho, em 24 de agosto de 1911, aos 71 anos.

Filho de Sebastião de Arriaga e de Maria Antónia Pardal Ramos Caldeira de Arriaga, ambos descendentes de famílias nobres açorianas, desde novo se empenhou na propaganda republicana o que lhe valeu ser deserdado pelo pai e obrigado a dar aulas de Inglês no liceu para conseguir custear os seus estudos na Universidade de Coimbra onde se formou em Leis  em 1865 e, foi depois advogado com escritório em Lisboa, professor universitário e político.

Destaque-se do seu percurso de vida ter sido vereador na Câmara Municipal de Lisboa no biénio 1886-1887; a defesa que fez de António José de Almeida em 1890 por causa do artigo «Bragança, o último» no jornal académico O Ultimatum; o ser membro do Directório do Partido Republicano (1891); ter sido deputado em duas legislaturas ainda durante a Monarquia (1882 e 1892) ;  a sua nomeação como reitor da Universidade de Coimbra em 17 de Outubro de 1910 e, um mês depois como  Procurador-Geral da República, bem como a sua eleição para as Constituintes de 1911 pelo círculo da Madeira.

Manuel de Arriaga enquanto Presidente da República desenvolveu uma política baseada em propósitos de defesa da honra nacional e na concórdia de toda a família portuguesa que colidiu com as tendências golpistas sempre presentes no novo regime e, em 1915, ao empossar Pimenta de Castro, que envolveu a dissolução do Parlamento, mais a amnistia de Paiva Couceiro,  o Parlamento considerou-o fora da lei e setores da Armada chefiados por Leote do Rego e José de Freitas Ribeiro no que ficou conhecido como a Revolta de 14 de maio de 1915 demitiram o Governo e obrigaram Manuel de Arriaga a resignar em 26 de maio de 1915, após o que se retirou da atividade política, tendo escrito e publicado a sua experiência em Na Primeira Presidência da República Portuguesa (1916).

Manuel de Arriaga no Galeria Republicana, abril de 1882

Manuel de Arriaga no Galeria Republicana, abril de 1882

 

A Avenida do 2º Presidente da República após o 25 de Abril

Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

O General Costa Gomes foi o segundo Presidente da República do pós-25 de Abril, escolhido  pela Junta de Salvação Nacional após o 28 de setembro, funções que exerceu como elemento moderador até à determinação em julho de 1976 por eleições livres de um novo Presidente da República, o general Ramalho Eanes.

Costa Gomes (à esquerda) na Vida Mundial de 24.05.1974

Costa Gomes (à esquerda) na Vida Mundial de 24.05.1974

Francisco da Costa Gomes (Chaves/30.06.1914 – 31.07.2001/Lisboa) era oficial de Cavalaria desde 1935 e também se licenciou em Ciências Matemáticas em 1944. Prestou serviço nos regimentos de Estremoz, Castelo Branco e Aveiro, bem como na Guarda Nacional Republicana no Porto. De 1954 a 1956, esteve no Supremo Comando Militar Atlântico e participou, posteriormente, em reuniões internacionais relacionadas com a reorganização da NATO. Exerceu sucessivamente as funções de sub-chefe e chefe do Estado-Maior das província de Macau, de 1949 a 1951, para além de ter sido professor do Curso de Altos Comandos, no Instituto de Altos Estudos Militares, e ainda comandante da Região Militar de Moçambique.

Em 1958, Costa Gomes iniciou funções como subsecretário de Estado do Exército, mas logo em 1961 envolveu-se na intentona militar de Botelho Moniz, então ministro da Defesa, para modificar a política colonial portuguesa e, foi exonerado do cargo nesse ano. Em 1972 foi nomeado Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, cargo do qual foi também exonerado em 14 de março de 1974 por, tal como António de Spínola, terem sido os os únicos generais que se recusaram a prestar lealdade ao governo de Marcelo Caetano, no que ficou conhecido popularmente como «A Brigada do Reumático».

Com o 25 de Abril de 1974 reassumiu as funções de Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, de 30 de abril a 30 de setembro de 1974, com prerrogativas de primeiro-ministro. Foi ainda um dos sete militares da Junta de Salvação Nacional e presidiu ao Conselho da Revolução, instituído em 14 de março de 1975, tendo comandado os destinos do País durante o PREC (Processo Revolucionário em Curso) que terminou em 25 de novembro de 1975.

Pelo edital municipal de 23 de abril de 2004, foram atribuídos os topónimos dos dois primeiros Presidentes da República após o 25 de Abril de 1974 – Marechal António de Spínola e Marechal Francisco da Costa Gomes – cabendo a Costa Gomes o arruamento constituído pela Via B1 e Via B2 (ligação da Rotunda das Olaias à Rotunda 2) e ramais B e C da Urbanização do Vale de Chelas (Zona RTB).

Placa Tipo IV (Foto: Sérgio Dias)

Placa Tipo IV (Foto: Sérgio Dias)

A Avenida do autor de «Portugal e o Futuro» e 1º Presidente da República após o 25 de Abril

Spinola Capa

O General Spínola, que havia sido Governador da Guiné, publicou na Livros Horizonte em fevereiro de 1974 o livro «Portugal e o Futuro», no qual defendia que a solução para a guerra colonial jamais seria militar mas antes política e, advogava a constituição de uma federação com os territórios ultramarinos, o que funcionou também como bandeira para os capitães do MFA – Movimento das Forças Armadas que em 25 de Abril de 1974 o conduziram a Presidente da Junta de Salvação Nacional e, consequentemente, a ser o primeiro Presidente da República Portuguesa após a Revolução dos Cravos.

António Sebastião Ribeiro de Spínola (Estremoz/11.04.1910- 13.08.1996/Lisboa), filho de uma família abastada cujo pai fora inspetor-geral de Finanças e chefe de gabinete de Salazar no Ministério das Finanças, foi um militar de carreira que em 1968, foi chamado para as funções de governador e comandante-chefe das Forças Armadas da Guiné, cargos para que voltou a ser nomeado em 1972, por recondução, mas que não aceitou alegando falta de apoio do Governo da nação. Em novembro de 1973, Marcelo Caetano numa tentativa de o colocar do lado do regime convidou-o para a pasta de ministro do Ultramar, mas Spínola declinou. Por sugestão de Costa Gomes, foi nomeado vice-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas a 17 de janeiro de 1974, cargo de que é demitido em Março por, tal como Costa Gomes, se ter recusado a participar na manifestação de apoio ao Governo e à sua política que ficou conhecida como «A Brigada do Reumático».

A 25 de Abril de 1974, como representante do MFA – Movimento das Forças Armadas, aceitou do Presidente do Conselho, Marcelo Caetano, a rendição do Governo, o que na prática significou uma transmissão de poderes, para a Junta de Salvação Nacional, órgão que passou a deter as atribuições dos órgãos fundamentais do Estado.

O General António de Spínola ocupou a Presidência da República de 15 de maio de 1974 a 30 de setembro de 1974, altura em que renunciou e foi substituído pelo General Costa Gomes, após a tentativa falhada de golpe da chamada «Maioria Silenciosa», a 28 de setembro de 1974, onde esteve envolvido e, que procurou repetir no golpe de 11 de março de 1975. O seu mandato foi conturbado pelas suas tentativas de concentrar o poder na figura presidencial. Spínola tentou logo dissolver o MFA e concentrar poderes na Junta de Salvação Nacional a que presidia, para o que escolheu oficiais da sua total confiança para postos-chave, nomeadamente para as Regiões Militares, assim como escolheu Adelino da Palma Carlos para primeiro ministro do 1º Governo Provisório, procurando uma alteração do quadro constitucional, e sobretudo, na tentativa de ser seu exclusivo o complexo processo da descolonização.

Pelo Edital municipal de 23/04/2004 foram dados a Avenidas de Lisboa os nomes dos dois primeiros Presidentes da República após o 25 de Abril de 1974 : Marechal António de Spínola e Marechal Francisco da Costa Gomes. A Avenida Marechal António de Spínola foi oficialmente inaugurada em 11/04/2010 , dia do 100º aniversário do homenageado.

 

Freguesia de Marvila - Placa Tipo IV (Foto: AA)

Freguesias de Alvalade, Marvila e Areeiro  – No dia da inauguração em 11/04/2010