Frei Manuel do Cenáculo

Busto de Frei Manuel do Cenáculo na Academia das Ciências de Lisboa
(Foto: António da Silva Fernandes Duarte © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

O primeiro topónimo atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa no ano de 1916 foi a Rua Frei Manuel do Cenáculo, na Penha de França, através do Edital de 8 de janeiro de 1916.

O homenageado é Manuel de Villas-Boas Anes de Carvalho (Lisboa/01.03.1724- 26.01.1814/Évora), conhecido como Frei Manuel do Cenáculo, que se notabilizou enquanto arcebispo de Évora, pensador iluminista e criador de bibliotecas.

Enquanto jovem frequentou as lições do Padre João Baptista da Congregação do Oratório (1737-1740) e aos 16 anos vestiu o hábito de franciscano da Ordem Terceira. Depois teve também aulas com Frei Joaquim de São José, que lhe deu uma orientação mais moderna e coincidente com uma movimentação intelectual de crítica da Escolástica. Doutorou-se em Teologia na Universidade de Coimbra em 26 de maio de 1749 e foi nomeado lente de Artes do Colégio de São Pedro de Coimbra (1746-1749), vindo depois a reger uma cadeira de teologia (1751 a 1755) na Universidade, instituição onde mais tarde foi também mentor da Junta Reformadora (1772).

Frei Manuel do Cenáculo que chegou a desempenhar as funções de Superior provincial da Ordem Terceira de São Francisco, na sua viagem a Roma de 1750 conheceu bibliotecas que o influenciarão na sua dedicação a esta área, nomeadamente como dinamizador da reconstrução da Real Biblioteca Pública e da Biblioteca Pública de Évora (1775).

Foi uma  figura de relevo do iluminismo em Portugal, caracterizando-se o seu pensamento filosófico por matematismo, gosto do real e  crítica moderada da escolástica, de acordo com os seus estudiosos Hernâni Cidade e Francisco da Gama Caeiro. Tornou-se uma referência no círculo político e intelectual português que lhe valeram sucessivas nomeações por parte de D. José I e do Marquês de Pombal:  Presidente da Real Mesa Censória (1768) e consequentemente, participação na organização do ensino através da sua função neste organismo que lhe permitiu dinamizar a abertura de escolas em zonas rurais, sobretudo no Sul do País, em 1771; Bispo de Beja (1770 a 1795), instituindo um curso de humanidades e de teologia no seu paço episcopal onde também instalou uma biblioteca e um museu e em 1779  mandou escolher alguns rapazes das famílias pobres da zona entre Campo de Ourique e o Algarve para serem instruídos em Beja e depois instruírem aquela localidade da sua diocese de onde provinham, para além de ter fundado a Academia Eclesiástica de Beja (1793);  Presidente da Junta de Providência Literária criada para tratar da reforma dos estudos, Preceptor do Príncipe Herdeiro D. José, Príncipe da Beira (todos em 1770); e ainda, Presidente da Junta do Subsídio Literário (1772).

 

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Pascoal de Melo

Pascoal de Melo num medalhão do Salão Nobre dos Paços de Concelho de Lisboa
(Foto: Francisco Leite Pinto, Arquivo Municipal de Lisboa)

As ideias iluministas  de Cesare Beccaria (Génova/1738- 1794/Milão), difundidas na Europa a partir de 1764 com a publicação do seu Dos Delitos e das Penas, tiveram eco em Pascoal de Melo e nas suas aulas em Coimbra, tendo sido chamado a Lisboa em 1783  para elaborar um Novo Código Penal, que ele procurou humanizar sendo que 84 anos após o seu falecimento e 15 após a abolição da pena de morte em Portugal este vulto maior do direito português teve honra de dar o seu nome a uma rua de Lisboa.

A rainha D. Maria I encarregou em 1783 José Pascoal de Melo Freire de fazer um Novo Código Penal, que ele apresentou em 1789 através de um Novo Código de Direito Público  e de um Ensaio do Código Criminal a que mandou proceder a Rainha fidelissima D. Maria I (embora só seja publicado em 24 de junho de 1823), citando na introdução deste último Beccaria, Locke e Montesquieu e preconizando no seu conteúdo leis menos severas, a fim de evitar maiores tormentos aos condenados, assim como atenua penas, embora mantenha algumas infamantes. Daqui se atribui a Pascoal de Melo a posição de precursor do  moderno direito penal português, por fazer eco do pensamento iluminista e humanitário, mesmo que nenhum dos seus códigos tenha sido adotado. Aliás, no processo de revisão do Livro II das Ordenações, houve uma polémica famosa entre Pascoal de Melo e António Ribeiro Santos, em que o primeiro apodou o segundo de republicano.

Desde a Viradeira, período iniciado em 1777 com a subida ao trono de D. Maria I e a substituição do Marquês de Pombal, que os abolicionistas tentaram que nos códigos e nas leis houvesse menos motivos para a pena de morte ao contrário das Ordenações Filipinas em vigor desde o séc. XVII e que previam  uma longa listagem de razões para a aplicação da pena de morte. A outra estratégia seguida era tentar que o rei comutasse a pena, na maior parte das vezes em degredo para as colónias, o que na prática aconteceu frequentemente com D. Maria I, D. João VI , D. Maria II e D. Pedro V. Chegados ao séc. XIX, uma questão muito debatida na imprensa na época foi a necessidade de meios para substituir as execuções e foi nesse contexto que foram então construídas as penitenciárias de Lisboa e de Coimbra, sendo nos finais do século XIX, difundida a ideia de que as penitenciárias deviam também permitir aos presos aprender a trabalhar, tendo surgido as enxovias de sapateiro, carpinteiro, bordadeira.

A artéria que hoje identificamos como Rua Pascoal de Melo nasceu como Rua Pascoal José de Melo, por deliberação camarária de 5 de outubro de 1882 e edital de 13 de dezembro de 1882. Sete anos depois,  por edital de 8 de junho de 1889, passou a denominar-se Rua de Pascoal de Melo. E mais 62 anos passados, o Vice-Presidente da CML, Luís Pastor de Macedo, homologou o parecer da Comissão Municipal de Toponímia para que fosse suprimida a  partícula «de» uma vez que aqueles terrenos não haviam sido dele nem ele lá havia morado e ficou desde aí a designar-se como Rua Pascoal de Melo.

Curioso também é saber que nessa época o topónimo foi atribuído antes da rua estar fisicamente concluída, já que por exemplo, em 29 de agosto de 1883, encontramos um documento municipal de expropriação de umas barracas e pátio situadas na Travessa da Cruz do Tabuado, necessárias para a conclusão da abertura da Rua de Pascoal José de Melo e, em 17 de outubro desse mesmo ano, deparamos com um requerimento de Teotónio d’Ornelas Bruges pedindo o arrendamento de um terreno que sobejou da expropriação realizada para a nova Rua de Pascoal José de Melo.  Já no séc. XX, pelo Edital camarário de 11 de agosto de 1916 foram incorporados troços de outros arruamentos na Rua Pascoal de Melo conferindo-lhe desde aí os limites que ainda hoje tem: foram-lhe acrescentados os troços de via pública compreendidos entre o viaduto de Arroios e a Avenida Almirante Reis, bem como o troço entre esta Avenida e a Rua Francisco Sanches, passando, assim a rua Rua Pascoal de Melo a ter começo na Rua Francisco Sanches e a findar do lado poente no Largo de Dona Estefânia. Em 1956 a edilidade também firmou um contrato de prestação de serviços com o Engº Edgar Cardoso para a a elaboração do prolongamento da Rua Pascoal de Melo, incluindo o túnel sob a Rua Heróis de Quionga e uma praceta.

Paschoal José de Mello Freire dos Reis (Ansião/06.04.1738 – 24.09.1798/Lisboa), foi um jurisconsulto que se formou com apenas 19 anos em Leis, na Universidade de Coimbra e aí ensinou. A sua obra fundamental –  Institutiones Juris Civilis Lusitani (1798) – foi escolhida para a cadeira de Direito Pátrio, sendo considerada uma das mais significativas expressões da ciência jurídica portuguesa da época. Foi também o responsável pelos manuais utilizados na Universidade de Coimbra durante muitos anos, sendo que muitos dos professores que lhe sucederam bem como as suas obras são ainda a continuação de Melo Freire.

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Brotero

Gravura de Félix de Avelar Brotero
(Foto: Eduardo Portugal © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

Félix de Avelar Brotero, médico que preferiu dedicar-se à botânica e assim dirigiu o Jardim Botânico da Ajuda, começou por ter Rua em Lisboa na freguesia de Alcântara no final do séc. XIX e em 1916, também passou a dar nome a uma artéria da Ajuda e depois, foi também o nome do Jardim do Alto de Santo Amaro em Alcântara.

Por deliberação camarária de 8 de julho de 1892 passou a existir em Alcântara, na Rua 6 do Bairro Rolão ou de Santo Amaro, a Rua Avelar Brotero. Já no séc. XX, o Edital municipal de 26 de setembro de 1916, alterou o topónimo Rua da Paz para Rua Brotero, considerando a localização desta entre o Largo da Paz e o Jardim Botânico que Brotero dirigira. Nos anos 80 do séc. XX, perante a manifesta escassez de novos arruamentos na cidade, a edilidade alterou pelo Edital de 7 de setembro de 1987 a Rua Avelar Brotero para Rua Pedro Calmon, passando a existir apenas uma rua dedica a Brotero em Lisboa, a da Ajuda, à qual em 1992 foi aditada a legenda «Félix de Avelar Brotero / Médico e Botânico/1744 – 1828», a partir da sugestão de um munícipe para se identificar convenientemente o antropónimo.

Ainda em Alcântara, no início do séc. XX, o Jardim do Alto de Santo Amaro, sito na Rua Filinto Elísio- que antes de 8 de julho de 1892 era a Rua 2 do Bairro Rolão ou de Santo Amaro-, foi denominado Jardim Avelar Brotero mas tal resolução nunca tornou oficial o topónimo do Jardim. A CML aumentou o número de bancos deste espaço verde nos anos 50, a pedido dos moradores da zona e a última remodelação do Jardim aconteceu no ano passado.

Nascido Félix da Silva de Avelar (Loures – Santo Antão do Tojal/25.11.1744 – 04.08.1828/Lisboa), pela forte amizade que o ligava a Filinto Elísio (Francisco Manuel do Nascimento) e pelo ardor com que se dedicava à ciência tornou-se suspeito para o Santo Ofício e para fugir à polícia de Pina Manique, emigrou para Paris em 1778, com Filinto Elísio. Durante os 12 anos de permanência em Paris, fez os principais estudos de história natural e doutorou-se na Escola de Medicina de Reims, assim como adotou o apelido de Brotero, que significa amante dos mortais (pela junção do grego brothos com eros). Publicou o Compêndio Botânico (Compendio de Botanica ou Noçoens Elementares desta Sciencia, segundo os melhores Escritores modernos, expostas na língua Portugueza) em 1788, em Paris.

Regressou a Lisboa no ano de 1790, tendo sido logo nomeado lente de Botânica e Agricultura na Universidade de Coimbra, em 1791 e que manteve até 1807, acumulando com a direção do Jardim Botânico da Universidade e publicou Flora Lusitanica (1804). As invasões francesas alcançaram Coimbra em 1807 e Brotero veio refugiar-se em Lisboa e só lá voltou para ser jubiliado, o que sucedeu por Carta Régia de 27 de abril e Decreto de 16 de agosto de 1811. Passou então a dirigir o Real Museu e Jardim Botânico da Ajuda (o primeiro jardim botânico português e o 15.º da Europa, desenhado em 1768 por Domingos Vandelli por ordem de D. José I), reabilitando o Jardim Botânico e elaborando o seu catálogo. Da sua investigação, resultaram também as suas obras Phytographia Lusitaniae selectior – em 2 tomos- 1816 e 1827 – e a História Natural dos Pinheiros, Larices, e Abetos (1827).

Em 1821, Félix Avelar Brotero foi eleito deputado às Cortes Constituintes pela Estremadura, tendo participado na discussão da lei dos cereais, onde exortou os agricultores a cultivarem centeio e trigo, para que fosse possível produzir pão para toda a população e a um preço acessível à bolsa de todos mas 4 meses depois pediu dispensa, pela idade avançada (77 anos) e foi-lhe concedida. Faleceu aos 83 anos de idade na sua casa, na Calçada do Galvão, em Alcolena, em Belém.

Brotero foi homenageado com a atribuição do seu nome a várias plantas, como é o caso da Brotera ovata e da Brotera trinervata e está também na toponímia de Coimbra, do seu concelho natal – em Loures, Santo António dos Cavaleiros e Santo Antão do Tojal-, da Amadora, do Barreiro, Carnaxide, Custóias, Mafra, Matosinhos, Montijo, Odivelas (em Ramada e em Caneças), do Porto, Santa Maria da Feira, Seixal e Setúbal.

Também os seus pares, perpetuando a sua memória e sua importância decisiva para o desenvolvimento da Botânica em Portugal fundaram em Coimbra, em 1880, a agremiação científica “Sociedade Broteriana”. O seu prestígio internacional de Brotero é confirmado pelas várias Sociedades e Academias a que pertenceu, entre outras, a Sociedade de Horticultura e a de Linnean, ambas de Londres, a Academia de História Natural e Filomática de Paris, a Sociedade Fisiográfica de Lunden na Suécia, a Sociedade de História Natural de Rostock e a Academia Cesarea de Bona (Alemanha). Em Portugal, pertenceu à Academia Real das Ciências de Lisboa.

O sucesso dos seus trabalhos de registo, inventariação e compilação de espécies botânicas, traduz na prática o enquadramento do novo espírito científico e filocientífico de oitocentos, bem como o prestígio crescente das ciências naturais que decorreu dos novos paradigmas do pensamento Iluminista.

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José Anastácio da Cunha

José Anastácio da Cunha (Lisboa, 11/05/1744-Lisboa, 01/01/1787), foi militar, matemático e poeta. Fez a sua formação académica em Lisboa, no Convento de Nossa Senhora das Necessidades que pertencia à Congregação do Oratório, onde, até aos 19 anos, aprendeu Gramática, Retórica e Lógica, desenvolvendo como autodidata o seu gosto pela Física e Matemática.

A sua nomeação como Tenente do Regimento de Artilharia do Porto (1764) levou-o a desenvolver outras áreas de interesse, dedicando-se ao estudo da História, das Línguas (latim, grego, inglês, francês e italiano) e das Belas Artes, o que em parte ficou a dever-se ao seu convívio com oficiais protestantes ingleses. Cruzando os seus conhecimentos com a atividade militar, em 1769, redigiu a Carta Fisico-Mathematica sobre a Theoria da Polvora em geral e a determinação do melhor comprimento das peças em particular (editada em 1838, no Porto), na qual eram identificados erros em trabalhos anteriores sobre artilharia.

No âmbito da reforma da Universidade empreendida pelo Marquês de Pombal, em 1773, Anastácio da Cunha foi nomeado professor de geometria da Faculdade de Matemática da Universidade de Coimbra, sendo-lhe concedido o título de doutor. Porém, cerca de cinco anos depois, com a subida ao trono de D. Maria I e com a alteração do contexto político que deu origem ao período conhecido como “Viradeira”, foi denunciado à Inquisição (1778), sendo acusado de ler autores que defendiam ideais iluministas (como Rousseau, Voltaire e Hobbes) e de exercer uma influência nefasta junto dos seus alunos através da apologia do racionalismo e da liberdade de consciência.

No final do processo, Anastácio da Cunha foi condenado a três anos de reclusão na Casa das Necessidades da Congregação do Oratório e a quatro anos de degredo em Évora, tendo sido afastado dos seus cargos universitários e confiscados os seus títulos e bens. Nos finais de 1780, foi aceite pela Inquisição o seu pedido de perdão. Porém, eram já muitas as dificuldades económicas, a par da sua perda de prestígio social. Neste difícil período da sua vida foi apoiado pelo Intendente Pina Manique que nomeou Anastácio da Cunha como professor de Matemática, na recém-criada Casa Pia (1781).

Anastácio da Cunha traduziu para português obras de autores como Voltaire, Pope, Rousseau e Holbach publicadas ainda durante a sua vida, mas as suas obras científicas e poéticas só foram editadas postumamente. Entre as primeiras, refiram-se: Principios mathematicos para instrucção dos alunos do Colegio de S. Lucas da Real Casa Pia do Castello de S. Jorge (terminada em 1786; publicada em 1790, em Lisboa), considerada a sua obra mais importante pela reformulação da Geometria de Euclides e que foi traduzida para francês (publicada em 1811, em Bordéus); e, Ensaio sobre os Principios de Mechanica que deu um contributo decisivo para o desenvolvimento das ciências físico-matemáticas (publicado em 1807, em Londres).

A sua obra poética, considerada como precursora do romantismo, só deu à estampa em 1839, por iniciativa de Inocêncio da Silva, com o título Composições poéticas do Doutor José Anastácio da Cunha, cujos exemplares foram depois apreendidos e apenas reeditados em 1930.

Foram necessários mais de dois séculos após a sua morte para que fosse reconhecida a importância e valor de José Anastácio da Cunha como matemático e como poeta que, partilhando os princípios da Europa das Luzes, defendia um ensino voltado para a experiência, aliando a teoria à prática e às demonstrações, aspetos que, entre os anteriormente referidos, o levariam a ser condenado pela Inquisição.

Em Lisboa, foram também necessários 202 anos após a sua morte, para que através do Edital municipal de 28 de dezembro de 1989 se tornasse o topónimo da Rua Dois do Bairro do Alto da Serafina, como Rua Anastácio da Cunha. No ano seguinte, num processo de remodelação da toponímia do Bairro da Serafina a pedido dos seus moradores, passou a Rua José Anastácio da Cunha, pelo Edital municipal de 14 de dezembro de 1990 e assim continua.

 

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Dr. António Ribeiro Santos

António Ribeiro dos Santos
(Imagem de domínio público)

Este reputado jurista e professor da Universidade de Coimbra publicou em 1814 no Jornal de Coimbra o «Discurso sobre a Pena de Morte e Reflexões sobre alguns Crimes» onde defendeu que a pena de morte é «ir além dos limites da necessidade do remédio, é exceder a moderação e violar a Lei Sagrada, que nos manda não fazer maior mal do que o que nos é absolutamente necessário para a nossa conservação, para a defesa da nossa vida», afirmando claramente que a pena capital «não é nem útil nem necessária».

Ainda neste âmbito da abolição da pena de morte e direitos humanos, António Ribeiro dos Santos foi também membro  da Junta de Revisão do Novo Código de Direito Público de Pascoal de Melo, tendo havido acesa polémica entre ambos. As ideias iluministas mas despóticas, de raiz absolutista, de Pascoal de Melo foram contestadas por Ribeiro dos Santos que defendia que o Poder vem de Deus ao Povo que é o único a poder outorgá-lo ao rei. Pascoal de Melo após não ver o seu  projeto aprovado, apodou Ribeiro dos Santos de republicano.

Em Lisboa, o  Dr. António Ribeiro dos Santos está fixado numa Rua junto à Calçada do Galvão, desde a publicação do Edital municipal de  14/06/1967, no arruamento identificado provisoriamente como Rua projetada à Calçada da Memória. Já em 1954, a Comissão Consultiva Municipal de Toponímia na sua reunião de 23 de abril propusera que o Dr. António Ribeiro dos Santos fosse homenageado na toponímia lisboeta na avenida A do plano de arruamentos dos terrenos da Cidade Universitária, então em construção. Todavia, em 1963 essa artéria passou a ser a Avenida Professor Egas Moniz e só treze anos mais tarde foi fixada a Rua Dr. António Ribeiro dos Santos, cerca de 150 anos após a sua morte, na então freguesia da Ajuda, através do edital de 14/06/1967, que atribuiu mais quatro topónimos: a Rua das Pedralvas e a Rua Almirante Campo Rodrigues (rua A e rua B da Quinta das Pedralvas), a Rua Manuel Múrias (rua C da Quinta das Pedralvas) e a Avenida Professor Gama Pinto (avenida F da Cidade Universitária).

António Ribeiro dos Santos (Porto/30.11.1745 – 16.01.1818/Lisboa) foi um homem de vasta cultura que a partir de 1796 passou a ser o primeiro Bibliotecário Mor da Real Biblioteca Pública da Corte (hoje Biblioteca Nacional), instituição que dirigiu até 1816 e nessa qualidade propôs em 1805 a primeira lei de depósito legal, que obrigou as tipografias a entregar à Biblioteca pública exemplares das obras produzidas, para além de ter batalhado pela obtenção de verbas que permitissem a aquisição de novas obras no mercado nacional e internacional.

Estudara Humanidades no Brasil (entre 1756 e 1763) e Direito na Universidade de Coimbra, onde se doutorou em 1771 e exerceu como Professor de Cânones a partir de 1779. Aos 32 anos, em 9 de outubro de 1777, foi também nomeado por Carta Régia Rainha D. Maria I bibliotecário da quinhentista Biblioteca da Universidade de Coimbra (Biblioteca Joanina) , tendo procedido à sua reorganização de acordo com a sua Minuta para o regimento da Livraria da Universidade de Coimbra, onde além de questões de organização interna, tratamento documental e criação de catálogos, propôs o reforço da biblioteca como serviço público aberto a todos os interessados, a ampliação dos fundos da biblioteca com novidades literárias, artísticas, científicas bem como periódicos, mesmo que proibidas pela Real Mesa Censória, destacando-se a atenção especial que dava aos leitores quando determina «que todas as pessoas, que entrarem nela sejam recebidos e servidos com muita prontidão com muito decoro, e com todo o agasalho, e cortesia». Permaneceu neste lugar até 1796 quando foi chamado a Lisboa para organizar e dirigir a que viria a ser a Biblioteca Nacional, criada então por D. Maria I por alvará de 29 de fevereiro de 1796 e instalada no Torreão Ocidental da Praça do Comércio.

Homem culto, aberto à modernidade que caracterizou a Europa das Luzes, Ribeiro dos Santos que enquanto jurista deixou inédita a maior parte da sua obra, foi ainda membro da Academia das Ciências (1778) e dedicou-se aos estudos linguísticos, sendo filólogo, tradutor das Odes de Horácio e até poeta fundador da Arcádia Lusitana e publicando Poesias de Elpino Duriense, onde se encontra já poesia científica. Legou-nos ainda inúmeros estudos sobre o povo e a literatura sacra judaica, as origens e progressos da poesia portuguesa, a história das matemáticas, as origens e a evolução da tipografia em Portugal com Memória para a história da typografia portugueza do século XVI (1792) e Memória sobre as origens da tipografia em Portugal no século XV (1812). Defendeu uma filosofia de vida bucólica, com retiro do mundo e frugalidade, envolta em bons amigos e excelentes livros.

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Manuel de Azevedo Fortes

Manuel de Azevedo Fortes
(Foto: Estúdio Mário Novais © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

O  Engenheiro-Mor do Reino Manuel de Azevedo Fortes, considerado o pai da cartografia científica moderna portuguesa já que em 1722 publicou o seu Tratado do modo mais fácil e o mais exacto de fazer as cartas geográficas, está homenageado na toponímia de Lisboa, na Freguesia de Campolide, desde a publicação do Edital municipal de 05/12/1990, com a legenda «Engenheiro-Mor do Reino/1660 – 1749».

Esta artéria nasceu como Rua 12 do Bairro do Alto da Serafina (edital municipal de 15/03/1950 ), seguindo a tradição daquela época em atribuir nos bairros sociais apenas topónimos numéricos. Quase quarenta depois, pelo edital de 28/12/1989, passou à denominação de Rua do Andador das Almas, numa remodelação de toda a toponímia do Bairro da Serafina para designações consideradas populares mas a que os moradores reagiram com protestos intensos e a que a nova vereação então eleita reagiu acolhendo os anseios da população e pelo edital de 14/12/1990 renomeando as artérias do Bairro da Serafina com nomes de personalidades ligadas ao Aqueduto das Águas Livres.

E assim entra Manuel Azevedo Fortes (Lisboa/1660 – 28.03.1749/Lisboa) na toponímia de Lisboa. Foi ele o Engenheiro-Mor do Reino nomeado por D. João V em 23 de outubro de 1719 e esteve ligado ao projecto de construção do Aqueduto das Águas Livres, com Manuel da Maia e José da Silva Pais, tanto nos estudos preparatórios como nas medições da obra.

Esta figura maior do Iluminismo Português que estudara Filosofia em Alcalá de Henares, Paris e Sena – sendo o primeiro em Portugal a professar o cartesianismo -, bem como Teologia e Matemática em Paris, regeu durante 3 anos  a cátedra de Filosofia em Sena (Itália) e tornou-se professor de matemática na Academia Militar da Fortificação, em Lisboa, no período de 1695 a 1701. Em 1702 foi nomeado capitão de infantaria com exercício de engenheiro e, em 1735, foi nomeado sargento-mor de batalha. São obra sua, por exemplo, a reconstrução da povoação de Campo Maior destruída por um raio (em 1734) bem como a edificação dos paióis de Estremoz, Olivença, Elvas e Campo Maior e o plano parra a nova praça da Vila da Zibreira. Fez também parte do grupo de 50 académicos fundadores da Academia Real de História (1720), onde dirigiu os Estudos Geográficos, e publicou  Representação a Sua Majestade sobre a forma e direcção que devem ter os engenheiros para melhor servirem neste reino e suas conquistas (1720), os dois volumes de O Engenheiro Português (1728-1729), Evidência apologética e crítica sobre o primeiro e segundo tomo das ‘Memórias Militares’, pelos praticantes da Academia Militar desta côrte (1733) e Lógica Racional, Geométrica e Analítica (1734).

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Newton

Busto de Newton na Academia das Ciências de Lisboa
(Foto: António da Silva Fernandes Duarte © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

 

A Rua Newton, proposta na reunião de Câmara de 17 de agosto de 1916 como Rua Lord Byron, no Edital de 24 do mesmo mês, passou antes a homenagear Newton, ficando assim perpetuada no Bairro de Inglaterra uma personalidade inglesa incontornável na área das ciências e do pensamento científico.

Isaac Newton (Woolsthorpe/25.12.1642 ou 04.01.1643 – 20.03.1726 ou 31.03.1727/Kensington), descobriu a Lei da Gravidade, a fórmula do Binómio, a lei da viscosidade e a natureza corpuscular da luz. Foi um cientista reconhecido como físico, matemático, astrónomo, alquimista, filósofo e teólogo, considerado por muitos como o pai da ciência moderna pelas suas descobertas notáveis.

Ao estudar no Trinity College de Cambridge, onde concluiu a sua formação em 1665, contactou com obras de Euclides, Descartes, J. Kepler, G. Galilei, entre outros, autores que se viriam a revelar decisivos, tendo mesmo dado continuidade aos trabalhos iniciados por Galilei, nomeadamente através do método experimental e desenvolvendo a teoria heliocêntrica. A interrupção forçada do seu percurso académico devido à peste negra que assolou Inglaterra e levou ao encerramento da universidade entre 1665 e 1667, revelou-se profícua para Newton pois corresponde ao período mais produtivo em termos das suas descobertas: o teorema binominal, o cálculo, a lei da gravidade (que ficará para sempre associada à descrição da suposta maçã que lhe caiu sobre a cabeça, facto que despertou a sua curiosidade para a sua compreensão) e, ainda, a natureza das cores.

Por ser um homem reservado e sem grande empatia social, as suas descobertas e trabalhos foram divulgados e conhecidos pela comunidade científica através do seu professor Isaac Barrow, o que chamou a atenção da Royal Society que na época era a instituição mais importante neste domínio.

Foi em 1668 que Newton inventou o telescópio refletor e não refrator como os existentes até então, que ficou conhecido como o “telescópio newtoniano”. Três anos depois publica a sua primeira obra intitulada Métodos das Fluxões. Foi, porém, o livro seguinte, publicado em 1687 em 3 volumes, que foi reconhecido e considerado um dos mais importantes na área científica – Principia (Philosophiae Naturalis Principia Matematica) – onde descreveu a lei da gravitação universal e as suas três Leis (Lei da Inércia, Lei Fundamental da Dinâmica, Lei da Ação-Reação) que fundamentam a mecânica clássica. Os seus estudos em torno da luz e da ótica foram o tema de um outro livro, Optica (1704), que foi escrito numa linguagem mais acessível alcançando assim um maior número de leitores. Também as suas pesquisas no domínio da matemática, em 1707, foram alvo de publicação – Aritmética Universal.

Newton também foi Professor em Cambridge, a partir de 1667; um dos dois membros da Universidade no Parlamento, em janeiro de 1689; presidente da Royal Society a partir de 1703 e reeleito ano após ano até falecer; e, o primeiro cientista a receber a honra de ser armado cavaleiro (Sir) pela rainha Ana, em 1705. Precursor do culto da razão e do espírito crítico e sustentando o seu conhecimento na experimentação, características indissociáveis do Iluminismo, o impacto do trabalho realizado por Isaac Newton foi muito para além do seu próprio tempo, alcançando grande impacto na história da ciência.

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Régio, «As Encruzilhadas de Deus» e a Alameda António Sérgio

Publicado em 1936
(Imagem: © CER)

José Régio publicou em 1936 As Encruzilhadas de Deus, com capa e desenhos do seu irmão Júlio, nas Edições Presença – Atlântida de Coimbra e enviou esta obra a António Sérgio que lhe retribuiu com o seu parecer, em carta datada de 21 de setembro de 1936, escrita na Pensão Colaço de Alcoentre, sendo sabido que os dois escritores se corresponderam entre 1933 e 1958.

Desde a estreia de Régio em 1926 com Poemas de Deus e do Diabo, que o poeta vilacondense terá delineado manter a temática religiosa e foi assim reunindo os poemas que produzia neste âmbito, para intitular «Novos Poemas de Deus e do Diabo» mas de que acabou por resultar cerca de dez anos o novo título de 1936, por muitos considerado uma obra-prima com a sua poesia torrencial, reflexiva, lírica e dramática. Também em 1926, de  23 a 26 de abril, realizaram-se na Lusa Atenas sessões de divulgação da Seara Nova, dinamizadas por António Sérgio, a que  José Régio assistiu tendo depois colaborado na revista até 1940, ano em que António Sérgio e Mário de Azevedo Gomes abandonaram a da revista embora António Sérgio tenha regressado em 1947 e Régio em 1949, no n° 1116, de 28 de maio de 1949. Nesse ano de 1949, José Régio escreveu o artigo «O recurso ao medo», anunciado pelo jornal República de 16 de Janeiro, acabando por ser publicado num pequeno volume de 64 páginas dos Serviços Centrais da Candidatura de Norton de Matos, com o título genérico de «Depoimento contra Depoimento», numa clara alusão ao discurso «O meu Depoimento», de Salazar, de 7 de janeiro de 1949, no Palácio da Bolsa do Porto.

(Foto: © CER)

António Sérgio, cujo cinquentenário da morte passa este ano, deu nome à Alameda António Sérgio na Freguesia de Santa Clara, onze anos após o seu falecimento, artéria que liga a Rua Jorge de Sena à Rua Vitorino Nemésio, atribuída através da publicação do Edital municipal de 23 de abril de 1980, na via identificada urbanisticamente como Impasse 1 e 2 da Quinta de Santa Clara à Ameixoeira.

António Sérgio de Sousa Júnior (Índia – Damão/03.09.1883 – 12.02.1969/Lisboa) foi um importante pensador do século XX, que em Portugal lançou a ideia do Cooperativismo, mas cuja vasta obra abarca também a teoria do conhecimento e a filosofia política, a pedagogia e a filosofia da educação, assim como a filosofia da história. Radicado em Lisboa desde 1893,  estudou no Colégio Militar, na Escola Politécnica e na Escola Naval, tendo sido oficial da Marinha Portuguesa até 1910.

A partir da implantação da República em 1910, António Sérgio dedicou-se ao mundo editorial, como colaborador da revista Águia (1910), onde conheceu Teixeira de Pascoais e Fernando Pessoa, para no ano seguinte ser o diretor da revista Serões. Em 1918-1919 ( durante o consulado sidonista), fundou e dirigiu a revista Pela Grei, para a qual convocou diversos especialistas para apresentar um programa de Fomento Nacional; a partir de 1923, colabora na revista Seara Nova, como membro da direção  com Raúl Proença e Jaime Cortesão, sendo assim convidado para ministro da Instrução no governo de Álvaro de Castro, onde se manteve apenas dois meses, tempo que lhe foi suficiente para criar o ensino para deficientes, o cinema educativo e o Instituto Português para o Estudo do Cancro (decreto de 29/12/1923).

Integrou também o grupo da Biblioteca Nacional a partir do qual  lançará em 1924 a revista Lusitânia (1924), sendo  mais tarde o diretor da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Depois, residiu na Travessa do Moinho de Vento, no Bairro da Lapa, de 1926 a 1969,  numa habitação traçada pelo Arqt.º Raúl Lino, com excepção do exílio parisiense de 1926 a 1933.

Por outro lado, António Sérgio para além de teórico de pedagogia foi também professor, quer ao ministrar lições particulares na residência de alunos durante o exílio parisiense – após a subida ao poder de António Oliveira Salazar e, de onde passou para Madrid, até ter sido abrangido por uma amnistia- quer em Portugal, como docente de português no Liceu  Pedro Nunes e da Universidade de Santiago de Compostela, em 1932.

Da sua vasta obra destaquem-se Notas sobre os Sonetos e as Tendências Gerais da Filosofia de Antero de Quental (1909), Educação Cívica (1915), Bosquejo da História de Portugal (1923), O Desejado (1924), O Seiscentismo (1926), História de Portugal (1926), Cartesianismo Ideal e Cartesianismo Real (1937), Introdução Actual ao Problema Cooperativista (1937), Antero de Quental e António Vieira (1948), Antologia Sociológica (1956), oito volumes de Ensaios (1920-1958) e Democracia (edição póstuma em 1974).

A título póstumo foi agraciado com a Ordem da Liberdade (Grande Oficial em 30 de junho de 1980) e a Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (Grande Oficial em 3 de agosto de 1983) e nessa mesma década, a sua casa da Lapa, passou a servir a Biblioteca do INSCOOP e a Biblioteca António Sérgio, para além do seu nome ser o de um Prémio Cooperação e Solidariedade que a CASES criou em 2012 para distinguir pessoas singulares ou coletivas na Economia Social.

Na sua vida pessoal, António Sérgio casado com Luísa Epifâneo da Silva que chegou a assinar escritos pedagógicos como Luísa Sérgio.

Carta de António Sérgio a José Régio (Foto: © CER)
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José Régio e Mário Dionísio, dois intelectuais multifacetados como topónimos de Lisboa

Poema de Mário Dionísio na Presença nº53 e 54, 1938
((Imagem: © CER))

José Régio e Mário Dionísio, ambos professores de carreira e intelectuais multifacetados empenhados na literatura, nas artes plásticas, na crítica e ensaio, também partilham a homenagem de darem nome a artérias de Lisboa, o primeiro desde 7 de agosto de 1997 e o segundo, desde 1 de agosto de 2005.

José Régio, o teorizador da Presença que logo no nº 1, na primeira página, publicou Literatura Viva, texto que pode ser visto como manifesto programático da publicação, aceitou a colaboração do jovem Mário Dionísio, quinze anos mais novo,  durante a década de trinta até este se afastar, em conjunto com João José Cochofel, Fernando Namora e Carlos de Oliveira.  E no espólio de Mário Dionísio, encontram-se originais manuscritos ou dactilografados de vários autores, sendo Régio um deles, o que nos recorda a ideia de 1937 nunca concretizada, por falta de sala, de organizar o I Certame de Arte Moderna, pelo que  pediu para uma brochura de inéditos a colaboração dos poetas contemporâneos José Régio, Edmundo de Bettencourt, Fausto José, Francisco Bugalho, José Gomes Ferreira, João Falco/Irene Lisboa e Vitorino Nemésio. Tanto Régio como Dionísio também publicaram nas páginas de Cadernos da Poesia, a revista literária de Tomás Kim, José Blanc de Portugal e Ruy Cinatti nas décadas de quarenta e cinquenta.

A Rua Mário Dionísio nasceu do Edital municipal de 1 de agosto de 2005, na Rua A do PER 8, na Freguesia do Lumiar, doze anos após o falecimento de Mário Dionísio de Assis Monteiro (Lisboa/16.07.1916-17.11.1993/Lisboa), nascido que fora no nº 2 da Rua Andrade  e licenciado em Filologia Românica em 1939, pela Universidade de Lisboa, que se mostrou um intelectual multifacetado como escritor, ensaísta, pintor, crítico de arte e tradutor, para além de ter sido professor do Ensino Secundário durante praticamente quarenta anos, no Colégio Moderno e no Liceu Camões, assim como a partir de 1978 e até 1987 foi docente de Técnicas de Expressão do Português na Faculdade de Letras de Lisboa.

Mário Dionísio foi autor de uma obra literária autónoma, com ensaio, poesia, conto e romance, onde se podem salientar Poemas (1941), As Solicitações e Emboscadas (1945), O Riso Dissonante (1950), Memória dum Pintor Desconhecido (1965), os poemas em francês Le Feu qui dort (1967), Terceira Idade (1982), o seu único romance Não há morte nem princípio (1969),os seus contos O Dia Cinzento (1944), Monólogo a Duas Vozes (1986) , a sua Autobiografia (1987) e o seu último livro, de contos,A morte é para os outros (1988).

Ao longo da sua vida foi um dos principais promotores e teorizadores do neorrealismo português, sendo assinalável a sua regular colaboração em jornais e revistas literárias para além da Presença, como Altitude, A Capital, Diário de LisboaO DiaboGazeta MusicalLiberdadeRepúblicaRevista de PortugalSeara Nova, O Tempo e o Modo ou Vértice. Foi ainda diretor de programas da RTP de dezembro 1975 a março de 1976.

Pintor desde 1941, usou os pseudónimos de Leandro Gil e José Alfredo Chaves, expondo em mostras coletivas desde a década de quarenta mas só em 1989 realizou a sua primeira exposição individual de pintura. Publicou também A Paleta e o Mundo,  obra editada em fascículos a partir de 1956 ( e até 1962) com orientação gráfica de Maria Keil que lhe valeu o Grande Prémio de Ensaio da Sociedade Portuguesa de Escritores (1963). Refira-se ainda que na sua obra pictórica pintou retratos dos seus contemporâneos, como Joaquim Namorado (1952),  Carlos de Oliveira e João José Cochofel (1988) ou José Gomes Ferreira (1989). Obteve também o troféu «Pintor do Ano» da Antena 1, em 1989.

Como cidadão, casou em 1940  com a sua antiga colega de curso Maria Letícia Clemente da Silva, de quem terá uma única filha, a escritora Eduarda Dionísio. Também se mostrou empenhadamente antirregime desde o início dos anos 30 do século passado, integrando o Movimento de Unidade Democrática (MUD), onde ficará responsável por estabelecer a ligação entre a sua Comissão de Escritores, Jornalistas e Artistas e o Partido Comunista Português, para onde entrará em 1945 e ficará até 1952. Na década de 60 frequentava ainda a tertúlia do Café Bocage, na Avenida da República, onde se encontrava com Augusto Abelaira, José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira, João José Cochofel,  e outros.

Mário Dionísio foi galardoado com o Prémio do Centro Português da Associação Internacional de Críticos, ex-aequo com Alexandre O’Neill, em 1982 e, nove anos depois, em 1991, o Museu do Neo-Realismo organizou em Vila Franca de Xira e em Lisboa, exposições e colóquios sobre os seus 50 Anos de Vida Literária e Artística. Finalmente, em setembro de 2008, familiares, amigos, ex-alunos, ex-assistentes, conhecedores e estudiosos da sua obra fundaram em Lisboa, na Rua da Achada, a Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, que abriu ao público um ano depois.

Rua Mário Dionísio na Freguesia do Lumiar

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Os correspondentes José Régio e Jorge de Sena na toponímia de Lisboa

Na Livraria Leitura, no Porto, (da esquerda para a direita) Eugénio de Andrade, José Régio e Jorge de Sena (Foto: © CER)

José Régio tinha mais 18 anos que Jorge de Sena (que na Presença assinava como Teles de Abreu) mas tal não impediu que os dois escritores tivessem trocado inúmera correspondência ao longo da vida de ambos, que foi reunida por Mécia de Sena e editada pela primeira vez em 1986, tal como ambos se encontram homenageados na toponímia de Lisboa através da Avenida José Régio e da Rua Jorge de Sena.

Cinco meses após o seu falecimento, Jorge de  Sena  foi colocado como topónimo da Rua A da Quinta de Santa Clara à Ameixoeira, na  Freguesia de Santa Clara, enquanto na Rua B ficava Vitorino Nemésio, ambos através de Edital municipal de 20 de novembro de 1978.

De seu nome completo Jorge Cândido Alves Rodrigues Telles Grilo Raposo de Abreu de Sena (Lisboa/02.11.1919 – 04.06.1978/Santa Barbara – E.U.A.), que este ano cumpre o centenário de nascimento, foi um engenheiro de formação que se distinguiu com escritor e professor universitário, ensaísta e historiador da cultura, pelo que desde 2009 os seus restos mortais passaram a repousar em Lisboa, num jazigo do Cemitério dos Prazeres.

Em  março de 1938 era Jorge de Sena um Cadete da Escola Naval quando em foi demitido da Marinha por motivos políticos, tema que ele abordará em Sinais de fogo. Em 1944 concluiu a sua licenciatura em Engenharia Civil na Universidade do Porto e foi depois trabalhar para a Junta Autónoma de Estradas, de 1948 a 1959. Mas nesse mesmo ano de 1959, por causa da ditadura, partiu para o exílio e nunca mais regressou a Portugal a não ser para participação em eventos. Fixou-se no Brasil, receando as perseguições políticas resultantes de uma falhada tentativa de golpe de estado, a 11 de março desse ano, em que esteve envolvido.

No Brasil, Jorge de Sena exerceu como engenheiro e professor de engenharia  em algumas universidades, mas em paralelo doutorou-se em Letras, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara (em São Paulo) em 1964, momento a partir do qual fez uma reconversão profissional e se dedicou ao ensino da literatura. Em 1965, partiu com Mécia de Sena e os nove filhos de ambos, para os Estados Unidos da América, por temor do golpe militar ocorrido no Brasil no ano anterior e aí foi docente na Universidade de Wisconsin, onde se tornou  professor catedrático em 1967, passando depois para a Universidade de Santa Barbara (1970), onde também exerceu funções do diretor do Departamento de Espanhol e Português e do Programa de Literatura Comparada.

Na sua obra literária estreou-se em 1942  com Perseguição e construiu uma obra multifacetada que soma mais de vinte coletâneas de poesia, uma tragédia em verso, uma dezena de peças em um ato, mais de 30 contos, uma novela e um romance, cerca de 40 volumes dedicados à crítica e ao ensaio – com destaque para os estudos sobre Camões e Pessoa-, à história e à teoria literária e cultural -com trabalhos pioneiros sobre o Maneirismo-, ao teatro, ao cinema e às artes plásticas, sem esquecer que traduziu duas antologias gerais de poesia, da Antiguidade Clássica aos Modernismos do século XX assim como autores de ficção como Faulkner, Hemingway, Graham Greene, teatro de Eugene O’Neill e ensaios de Chestov. Do conjunto da sua obra, destacamos os títulos As evidências (1955), Metamorfoses (1963), Peregrinatio ad loca infecta (1969), O Indesejado (1951), Novas andanças do demónio (1966), Os Grão-Capitães (1976), O físico prodigioso(1977) e Sinais de fogo (1979). O seu espólio foi doado pela família à Biblioteca Nacional em 2009.

Jorge de Sena foi ainda cofundador do grupo de teatro Os Companheiros do Páteo das Comédias, em 1948, e colaborador, nesse mesmo ano, de António Pedro, no programa de teatro radiofónico Romance Policial, no Rádio Clube Português; conferencista; crítico de teatro e de literatura em diversos jornais e revistas; comentador de cinema; diretor de publicações como os Cadernos de Poesia e coordenador editorial da revista Mundo Literário; consultor literário da Livros do Brasil (em Lisboa) e da Editora Agir (no Rio de Janeiro).

 

Rua Jorge de Sena na Freguesia de Santa Clara

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