Régio, «As Encruzilhadas de Deus» e a Alameda António Sérgio

Publicado em 1936
(Imagem: © CER)

José Régio publicou em 1936 As Encruzilhadas de Deus, com capa e desenhos do seu irmão Júlio, nas Edições Presença – Atlântida de Coimbra e enviou esta obra a António Sérgio que lhe retribuiu com o seu parecer, em carta datada de 21 de setembro de 1936, escrita na Pensão Colaço de Alcoentre, sendo sabido que os dois escritores se corresponderam entre 1933 e 1958.

Desde a estreia de Régio em 1926 com Poemas de Deus e do Diabo, que o poeta vilacondense terá delineado manter a temática religiosa e foi assim reunindo os poemas que produzia neste âmbito, para intitular «Novos Poemas de Deus e do Diabo» mas de que acabou por resultar cerca de dez anos o novo título de 1936, por muitos considerado uma obra-prima com a sua poesia torrencial, reflexiva, lírica e dramática. Também em 1926, de  23 a 26 de abril, realizaram-se na Lusa Atenas sessões de divulgação da Seara Nova, dinamizadas por António Sérgio, a que  José Régio assistiu tendo depois colaborado na revista até 1940, ano em que António Sérgio e Mário de Azevedo Gomes abandonaram a da revista embora António Sérgio tenha regressado em 1947 e Régio em 1949, no n° 1116, de 28 de maio de 1949. Nesse ano de 1949, José Régio escreveu o artigo «O recurso ao medo», anunciado pelo jornal República de 16 de Janeiro, acabando por ser publicado num pequeno volume de 64 páginas dos Serviços Centrais da Candidatura de Norton de Matos, com o título genérico de «Depoimento contra Depoimento», numa clara alusão ao discurso «O meu Depoimento», de Salazar, de 7 de janeiro de 1949, no Palácio da Bolsa do Porto.

(Foto: © CER)

António Sérgio, cujo cinquentenário da morte passa este ano, deu nome à Alameda António Sérgio na Freguesia de Santa Clara, onze anos após o seu falecimento, artéria que liga a Rua Jorge de Sena à Rua Vitorino Nemésio, atribuída através da publicação do Edital municipal de 23 de abril de 1980, na via identificada urbanisticamente como Impasse 1 e 2 da Quinta de Santa Clara à Ameixoeira.

António Sérgio de Sousa Júnior (Índia – Damão/03.09.1883 – 12.02.1969/Lisboa) foi um importante pensador do século XX, que em Portugal lançou a ideia do Cooperativismo, mas cuja vasta obra abarca também a teoria do conhecimento e a filosofia política, a pedagogia e a filosofia da educação, assim como a filosofia da história. Radicado em Lisboa desde 1893,  estudou no Colégio Militar, na Escola Politécnica e na Escola Naval, tendo sido oficial da Marinha Portuguesa até 1910.

A partir da implantação da República em 1910, António Sérgio dedicou-se ao mundo editorial, como colaborador da revista Águia (1910), onde conheceu Teixeira de Pascoais e Fernando Pessoa, para no ano seguinte ser o diretor da revista Serões. Em 1918-1919 ( durante o consulado sidonista), fundou e dirigiu a revista Pela Grei, para a qual convocou diversos especialistas para apresentar um programa de Fomento Nacional; a partir de 1923, colabora na revista Seara Nova, como membro da direção  com Raúl Proença e Jaime Cortesão, sendo assim convidado para ministro da Instrução no governo de Álvaro de Castro, onde se manteve apenas dois meses, tempo que lhe foi suficiente para criar o ensino para deficientes, o cinema educativo e o Instituto Português para o Estudo do Cancro (decreto de 29/12/1923).

Integrou também o grupo da Biblioteca Nacional a partir do qual  lançará em 1924 a revista Lusitânia (1924), sendo  mais tarde o diretor da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Depois, residiu na Travessa do Moinho de Vento, no Bairro da Lapa, de 1926 a 1969,  numa habitação traçada pelo Arqt.º Raúl Lino, com excepção do exílio parisiense de 1926 a 1933.

Por outro lado, António Sérgio para além de teórico de pedagogia foi também professor, quer ao ministrar lições particulares na residência de alunos durante o exílio parisiense – após a subida ao poder de António Oliveira Salazar e, de onde passou para Madrid, até ter sido abrangido por uma amnistia- quer em Portugal, como docente de português no Liceu  Pedro Nunes e da Universidade de Santiago de Compostela, em 1932.

Da sua vasta obra destaquem-se Notas sobre os Sonetos e as Tendências Gerais da Filosofia de Antero de Quental (1909), Educação Cívica (1915), Bosquejo da História de Portugal (1923), O Desejado (1924), O Seiscentismo (1926), História de Portugal (1926), Cartesianismo Ideal e Cartesianismo Real (1937), Introdução Actual ao Problema Cooperativista (1937), Antero de Quental e António Vieira (1948), Antologia Sociológica (1956), oito volumes de Ensaios (1920-1958) e Democracia (edição póstuma em 1974).

A título póstumo foi agraciado com a Ordem da Liberdade (Grande Oficial em 30 de junho de 1980) e a Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (Grande Oficial em 3 de agosto de 1983) e nessa mesma década, a sua casa da Lapa, passou a servir a Biblioteca do INSCOOP e a Biblioteca António Sérgio, para além do seu nome ser o de um Prémio Cooperação e Solidariedade que a CASES criou em 2012 para distinguir pessoas singulares ou coletivas na Economia Social.

Na sua vida pessoal, António Sérgio casado com Luísa Epifâneo da Silva que chegou a assinar escritos pedagógicos como Luísa Sérgio.

Carta de António Sérgio a José Régio (Foto: © CER)
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José Régio e Mário Dionísio, dois intelectuais multifacetados como topónimos de Lisboa

Poema de Mário Dionísio na Presença nº53 e 54, 1938
((Imagem: © CER))

José Régio e Mário Dionísio, ambos professores de carreira e intelectuais multifacetados empenhados na literatura, nas artes plásticas, na crítica e ensaio, também partilham a homenagem de darem nome a artérias de Lisboa, o primeiro desde 7 de agosto de 1997 e o segundo, desde 1 de agosto de 2005.

José Régio, o teorizador da Presença que logo no nº 1, na primeira página, publicou Literatura Viva, texto que pode ser visto como manifesto programático da publicação, aceitou a colaboração do jovem Mário Dionísio, quinze anos mais novo,  durante a década de trinta até este se afastar, em conjunto com João José Cochofel, Fernando Namora e Carlos de Oliveira.  E no espólio de Mário Dionísio, encontram-se originais manuscritos ou dactilografados de vários autores, sendo Régio um deles, o que nos recorda a ideia de 1937 nunca concretizada, por falta de sala, de organizar o I Certame de Arte Moderna, pelo que  pediu para uma brochura de inéditos a colaboração dos poetas contemporâneos José Régio, Edmundo de Bettencourt, Fausto José, Francisco Bugalho, José Gomes Ferreira, João Falco/Irene Lisboa e Vitorino Nemésio. Tanto Régio como Dionísio também publicaram nas páginas de Cadernos da Poesia, a revista literária de Tomás Kim, José Blanc de Portugal e Ruy Cinatti nas décadas de quarenta e cinquenta.

A Rua Mário Dionísio nasceu do Edital municipal de 1 de agosto de 2005, na Rua A do PER 8, na Freguesia do Lumiar, doze anos após o falecimento de Mário Dionísio de Assis Monteiro (Lisboa/16.07.1916-17.11.1993/Lisboa), nascido que fora no nº 2 da Rua Andrade  e licenciado em Filologia Românica em 1939, pela Universidade de Lisboa, que se mostrou um intelectual multifacetado como escritor, ensaísta, pintor, crítico de arte e tradutor, para além de ter sido professor do Ensino Secundário durante praticamente quarenta anos, no Colégio Moderno e no Liceu Camões, assim como a partir de 1978 e até 1987 foi docente de Técnicas de Expressão do Português na Faculdade de Letras de Lisboa.

Mário Dionísio foi autor de uma obra literária autónoma, com ensaio, poesia, conto e romance, onde se podem salientar Poemas (1941), As Solicitações e Emboscadas (1945), O Riso Dissonante (1950), Memória dum Pintor Desconhecido (1965), os poemas em francês Le Feu qui dort (1967), Terceira Idade (1982), o seu único romance Não há morte nem princípio (1969),os seus contos O Dia Cinzento (1944), Monólogo a Duas Vozes (1986) , a sua Autobiografia (1987) e o seu último livro, de contos,A morte é para os outros (1988).

Ao longo da sua vida foi um dos principais promotores e teorizadores do neorrealismo português, sendo assinalável a sua regular colaboração em jornais e revistas literárias para além da Presença, como Altitude, A Capital, Diário de LisboaO DiaboGazeta MusicalLiberdadeRepúblicaRevista de PortugalSeara Nova, O Tempo e o Modo ou Vértice. Foi ainda diretor de programas da RTP de dezembro 1975 a março de 1976.

Pintor desde 1941, usou os pseudónimos de Leandro Gil e José Alfredo Chaves, expondo em mostras coletivas desde a década de quarenta mas só em 1989 realizou a sua primeira exposição individual de pintura. Publicou também A Paleta e o Mundo,  obra editada em fascículos a partir de 1956 ( e até 1962) com orientação gráfica de Maria Keil que lhe valeu o Grande Prémio de Ensaio da Sociedade Portuguesa de Escritores (1963). Refira-se ainda que na sua obra pictórica pintou retratos dos seus contemporâneos, como Joaquim Namorado (1952),  Carlos de Oliveira e João José Cochofel (1988) ou José Gomes Ferreira (1989). Obteve também o troféu «Pintor do Ano» da Antena 1, em 1989.

Como cidadão, casou em 1940  com a sua antiga colega de curso Maria Letícia Clemente da Silva, de quem terá uma única filha, a escritora Eduarda Dionísio. Também se mostrou empenhadamente antirregime desde o início dos anos 30 do século passado, integrando o Movimento de Unidade Democrática (MUD), onde ficará responsável por estabelecer a ligação entre a sua Comissão de Escritores, Jornalistas e Artistas e o Partido Comunista Português, para onde entrará em 1945 e ficará até 1952. Na década de 60 frequentava ainda a tertúlia do Café Bocage, na Avenida da República, onde se encontrava com Augusto Abelaira, José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira, João José Cochofel,  e outros.

Mário Dionísio foi galardoado com o Prémio do Centro Português da Associação Internacional de Críticos, ex-aequo com Alexandre O’Neill, em 1982 e, nove anos depois, em 1991, o Museu do Neo-Realismo organizou em Vila Franca de Xira e em Lisboa, exposições e colóquios sobre os seus 50 Anos de Vida Literária e Artística. Finalmente, em setembro de 2008, familiares, amigos, ex-alunos, ex-assistentes, conhecedores e estudiosos da sua obra fundaram em Lisboa, na Rua da Achada, a Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, que abriu ao público um ano depois.

Rua Mário Dionísio na Freguesia do Lumiar

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Os correspondentes José Régio e Jorge de Sena na toponímia de Lisboa

Na Livraria Leitura, no Porto, (da esquerda para a direita) Eugénio de Andrade, José Régio e Jorge de Sena (Foto: © CER)

José Régio tinha mais 18 anos que Jorge de Sena (que na Presença assinava como Teles de Abreu) mas tal não impediu que os dois escritores tivessem trocado inúmera correspondência ao longo da vida de ambos, que foi reunida por Mécia de Sena e editada pela primeira vez em 1986, tal como ambos se encontram homenageados na toponímia de Lisboa através da Avenida José Régio e da Rua Jorge de Sena.

Cinco meses após o seu falecimento, Jorge de  Sena  foi colocado como topónimo da Rua A da Quinta de Santa Clara à Ameixoeira, na  Freguesia de Santa Clara, enquanto na Rua B ficava Vitorino Nemésio, ambos através de Edital municipal de 20 de novembro de 1978.

De seu nome completo Jorge Cândido Alves Rodrigues Telles Grilo Raposo de Abreu de Sena (Lisboa/02.11.1919 – 04.06.1978/Santa Barbara – E.U.A.), que este ano cumpre o centenário de nascimento, foi um engenheiro de formação que se distinguiu com escritor e professor universitário, ensaísta e historiador da cultura, pelo que desde 2009 os seus restos mortais passaram a repousar em Lisboa, num jazigo do Cemitério dos Prazeres.

Em  março de 1938 era Jorge de Sena um Cadete da Escola Naval quando em foi demitido da Marinha por motivos políticos, tema que ele abordará em Sinais de fogo. Em 1944 concluiu a sua licenciatura em Engenharia Civil na Universidade do Porto e foi depois trabalhar para a Junta Autónoma de Estradas, de 1948 a 1959. Mas nesse mesmo ano de 1959, por causa da ditadura, partiu para o exílio e nunca mais regressou a Portugal a não ser para participação em eventos. Fixou-se no Brasil, receando as perseguições políticas resultantes de uma falhada tentativa de golpe de estado, a 11 de março desse ano, em que esteve envolvido.

No Brasil, Jorge de Sena exerceu como engenheiro e professor de engenharia  em algumas universidades, mas em paralelo doutorou-se em Letras, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara (em São Paulo) em 1964, momento a partir do qual fez uma reconversão profissional e se dedicou ao ensino da literatura. Em 1965, partiu com Mécia de Sena e os nove filhos de ambos, para os Estados Unidos da América, por temor do golpe militar ocorrido no Brasil no ano anterior e aí foi docente na Universidade de Wisconsin, onde se tornou  professor catedrático em 1967, passando depois para a Universidade de Santa Barbara (1970), onde também exerceu funções do diretor do Departamento de Espanhol e Português e do Programa de Literatura Comparada.

Na sua obra literária estreou-se em 1942  com Perseguição e construiu uma obra multifacetada que soma mais de vinte coletâneas de poesia, uma tragédia em verso, uma dezena de peças em um ato, mais de 30 contos, uma novela e um romance, cerca de 40 volumes dedicados à crítica e ao ensaio – com destaque para os estudos sobre Camões e Pessoa-, à história e à teoria literária e cultural -com trabalhos pioneiros sobre o Maneirismo-, ao teatro, ao cinema e às artes plásticas, sem esquecer que traduziu duas antologias gerais de poesia, da Antiguidade Clássica aos Modernismos do século XX assim como autores de ficção como Faulkner, Hemingway, Graham Greene, teatro de Eugene O’Neill e ensaios de Chestov. Do conjunto da sua obra, destacamos os títulos As evidências (1955), Metamorfoses (1963), Peregrinatio ad loca infecta (1969), O Indesejado (1951), Novas andanças do demónio (1966), Os Grão-Capitães (1976), O físico prodigioso(1977) e Sinais de fogo (1979). O seu espólio foi doado pela família à Biblioteca Nacional em 2009.

Jorge de Sena foi ainda cofundador do grupo de teatro Os Companheiros do Páteo das Comédias, em 1948, e colaborador, nesse mesmo ano, de António Pedro, no programa de teatro radiofónico Romance Policial, no Rádio Clube Português; conferencista; crítico de teatro e de literatura em diversos jornais e revistas; comentador de cinema; diretor de publicações como os Cadernos de Poesia e coordenador editorial da revista Mundo Literário; consultor literário da Livros do Brasil (em Lisboa) e da Editora Agir (no Rio de Janeiro).

 

Rua Jorge de Sena na Freguesia de Santa Clara

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Nascidos em 1901: Nemésio e Régio em ruas lisboetas

Freguesia de Santa Clara

Vitorino Nemésio e José Régio, que ao longo das suas vidas se vão corresponder, nasceram no mesmo ano de 1901 e partilharam também a participação em revistas comuns: Nemésio pontificou na Presença de Régio a partir de 1930 e Régio publicou na Revista Portugal  de Nemésio. Refira-se ainda que Vitorino Nemésio publicou no jornal académico Gente Nova, em abril de 1927, uma crítica favorável ao primeiro livro de José Régio, Poemas de Deus e do Diabo.

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva (Ilha Terceira-Praia da Vitória/19.12.1901 – 20.02.1978/Lisboa), filho de Vitorino Gomes da Silva e de Maria da Glória Mendes Pinheiro, notabilizou-se como professor universitário da Faculdade de Letras de Lisboa, ensaísta, escritor e autor do famoso programa televisivo Se bem me lembro, estando desde o ano do seu falecimento na toponímia de Lisboa, através do Edital municipal de 20 de novembro de 1978, na Rua B da Quinta de Santa Clara à Ameixoeira, tendo ficado na Rua A o também escritor e professor universitário Jorge de Sena.

Na sua carreira académica, Vitorino Nemésio foi também diretor da Faculdade de Letras de Lisboa, de 1956 a 1958, bem como agraciado com o Doutoramento Honoris Causa pelas Universidades de Montpellier e do Ceará. Cumprido o serviço militar, como voluntário, a partir de 1919, concluiu o liceu em Coimbra, em 1921 e inscreveu-se no curso de Direito. Passados  três anos,  trocou pelo curso de Ciências Histórico-Filosóficas, e no ano seguinte voltou a mudar, desta feita para o curso de Filologia Românica, que concluiu em 1931 na Faculdade de Letras de Lisboa,  onde começou desde logo a ensinar Literatura Italiana e, mais tarde, Literatura Espanhola. Doutorou-se em 1934 com a tese A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio. Nemésio foi também professor na Universidade Livre de Bruxelas, entre 1937 e 1939, assim como no Brasil, em 1958. Publicou diversos ensaios de que se salientam Sob os Signos de Agora (1932), Relações Francesas do Romantismo Português (1936) ou Conhecimento de Poesia (1958).

Na carreira literária, Nemésio tanto foi poeta como prosador de crónicas ou romances. Se o seu primeiro livro publicado, como Régio, foi de poesia –Canto Matinal (1916) -, ele é o autor de obras incontornáveis como o romance Mau Tempo no Canal (1944) –  galardoado com o Prémio Ricardo Malheiros – ou as crónicas de Corsário das Ilhas (1956), para além da ficção Varanda de Pilatos (1926) ou Quatro prisões debaixo de armas (1971). Na poesia, destaquem-se as suas obras Eu, Comovido a Oeste (1940), Limite de idade (1972), Sapateia Açoriana, Andamento Holandês e Outros Poemas (1976) e o póstumo Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga (2003).

Na comunicação social, Vitorino Nemésio construiu uma história longa: fundou e dirigiu as revistas  Estrela d’Alva (1916) e a Revista Portugal (1937); dirigiu o jornal O Dia (entre 11 de dezembro de 1975 a 25 de outubro de 1976); fundou a revista Tríptico (1924) com Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões, assim como a Gente Nova. Jornal Republicano Académico (1927) com Paulo Quintela, Cal Brandão e Sílvio Lima; foi redator de A Pátria, A Imprensa de Lisboa, Última Hora (1921), do Humanidade de Coimbra (1925); e ainda colaborou na revista Bizâncio (1923), na Seara Nova (1928), na Presença ( a partir de 1930), em O Diabo (1935), no Diário Popular (1946) com uma rubrica regular, na revista Vértice (1947) e na revista Observador (1971).

Na televisão ficou célebre pelo seu programa semanal Se bem me lembro, de meia hora em horário nobre, onde com uma postura descontraída, de 1970 a 1975, discorria sobre mentalidades e cultura em geral.

Vitorino Nemésio foi galardoado com o Grande Oficialato da Ordem da Infante D. Henrique (1961), o Prémio Nacional de Literatura (1965), o Prémio Montaigne (1974), a Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1967) de que também recebeu,  a título póstumo, a Grã-Cruz (1978).

Freguesia de Santa Clara

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A Rua Prof. Pais da Silva e o Arraial do Bairro Padre Cruz

Freguesia de Carnide

O lisboeta historiador de arte e pioneiro na defesa do Património Cultural, Jorge Henrique Pais da Silva, recebe na sua rua alfacinha um Arraial popular, no decorrer deste mês de junho, no largo que se abre junto ao Auditório Natália Correia,  promovido pela Associação de Pais e Encarregados de Educação do Agrupamento de Escolas do Bairro Padre Cruz.

A Rua Prof. Pais da Silva, que se estende da Rua Professor Almeida Lima até à Estrada da Circunvalação, resultou da sugestão da Profª Maria Calado, que na época era a representante da Universidade Técnica de Lisboa na Comissão Municipal de Toponímia e foi concretizada na Rua C da Nova Urbanização do Bairro Padre Cruz através do Edital municipal de 19 de Fevereiro de 1992. O mesmo Edital colocou nos outros novos arruamentos do Bairro mais 3 professores catedráticos, a saber,  na Rua A o filólogo Prof. Lindley Cintra , na Rua D o catedrático de Medicina Legal Prof. Arsénio Nunes  e na Rua F, o Prof. Almeida Lima, fundador da prática da neurocirurgia em Portugal.

Jorge Henrique Pais da Silva (Lisboa/08.07.1929 – 23.09.1977/Lisboa), historiador de Arte e professor universitário que delineou o 1.º Congresso Internacional de Defesa do Património Cultural e Natural – realizado em Alcobaça em 1978 – que potenciou um  boom de associações de defesa do património em Portugal, assim como traçou grande parte do organigrama do que seria o futuro Instituto Português do Património Cultural, começou a sua carreira como professor liceal (1956-1958). Depois foi docente da Escola Superior de Belas Artes do Porto (1959-1966), da Faculdade de Letras do Porto (1965-1966) e da Faculdade de Letras de Lisboa (1966-1967), tendo ainda dirigido a ESBAP em 1970. Realizou ainda cursos de expansão universitária no Museu Nacional de Arte Antiga e na Fundação Calouste Gulbenkian, onde foi também diretor-adjunto do Serviço de Belas-Artes.

As suas pesquisas e investigação centraram-se no  Renascimento, e sobretudo do Maneirismo, em especial no campo da Arquitetura, dentro do país e no estrangeiro, mormente em Itália. Em paralelo, pugnou pela modernização da investigação em Portugal no domínio da História da Arte, em concorrência com a comunidade científica internacional. Do conjunto da sua obra publicada salientamos Notas sobre a arquitectura dos Jesuítas no espaço português (1961), Em torno da arquitectura setecentista portuguesa : Barroco e Rococó (1974), Estudos sobre o Maneirismo (1983), O Pretérito Presente – Para Uma Teoria da Preservação do Património Histórico- Artístico (1984) e os dois volumes de Páginas de História da Arte (1986). Refira-se ainda o Dicionário de Termos de Arte e Arquitectura, editado em 2004,  obra sua que permaneceu inacabada devido à sua morte prematura mas que foi organizada e completada pela Profª Maria Margarida Calado para publicação.

O Prof. Pais da Silva foi académico efetivo da Academia Nacional de Belas Artes, na Cadeira nº 5, sucedendo ao Arqtº Carlos João Chambers Ramos em 9 de dezembro de 1970.

Freguesia de Carnide

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A Rua José Cardoso Pires e o italiano Peeta no 3º Festival de Arte Urbana de Lisboa – MURO’19

PEETA na Rua José Cardoso Pires
(Foto: © José Vicente, 2019 |DPC |DMC |CML )

A passagem que da Rua José Cardoso Pires dá acesso a um pátio que desemboca na Alameda da Música será o alvo da intervenção artística do italiano Peeta, no âmbito do MURO’19 – 3º Festival de Arte Urbana de Lisboa, mostrando a ilusão de tridimensionalidade que caracteriza a sua obra.

Radicado em Veneza, Peeta é o nome artístico de Manuel Di Rita, pintor e escultor que desde 1993 se dedica à Arte Urbana, usando figuras geométricas e letras para criar estruturas mais complexas num estilo de tridimensionalidade ilusória, revelando a ilusão da percepção humana, a falácia de pontos de vista estreitos, sendo de destacar os trabalhos que já realizou em Itália -Agropoli, Bolonha, Gemona, Milão ou Turim -, Vancouver (Canadá), na Catalunha, em Chicago, Atenas, Bristol (Reino Unido) ou Borås (Suécia). Na escultura, usa o pvc através de um software profissional de design 3D, a fibra de vidro e o bronze como materiais. Na pintura, executa telas em acrílico e óleo, quer com pincéis quer com aerógrafo.

Freguesia do Lumiar – Placa Tipo IV

Desde a publicação do Edital de 18 de novembro de 2003 que José Cardoso Pires, que a si se definia como alfacinha de coração, ficou a ser o topónimo da Rua D da Malha 15 do Alto do Lumiar, a ligar a Avenida Álvaro Cunhal à Avenida David Mourão-Ferreira.

José Augusto Neves Cardoso Pires (Vila do Rei-aldeia de S. João do Peso/02.10.1925 – 08.07.1998/Lisboa), filho de Maria Sofia Cardoso Pires Neves  e de José António das Neves, distinguiu-se nas letras portuguesas quer no jornalismo, quer na dramaturgia, no romance ou no ensaio. Em 50 anos de atividade literária iniciada em 1948 com Caminheiros e outros contos, sobressaem títulos como Histórias de Amor (1952) que foi apreendido pela PIDE, a peça O Render dos Heróis (1960), o ensaio Cartilha do Marialva (1960), a novela O Hóspede de Job (1963) consagrada com o Prémio Camilo Castelo Branco, O Delfim (1968), Dinossauro Excelentíssimo (1972), Balada da Praia dos Cães (1982) que foi Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores,  Alexandra Alpha (1987) que obteve o Prémio Especial da Associação de Críticos de S. Paulo, ou De Profundis, Valsa Lenta (1997) ou o seu póstumo Lavagante (2008).

Cardoso Pires veio morar para Lisboa com poucos meses de idade, para o n.º 7 da Rua Carlos José Barreiros, em Arroios,  e esta foi a sua cidade do coração, a quem dedicou inúmeras páginas e mesmo uma obra inteira – Lisboa, Livro de Bordo (1997)- para além de ter exercido as funções de Vereador da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, em 1975. Estudou no Liceu Camões e na Faculdade de Ciências; fundou com Victor Palla a coleção de bolso «Os Livros das Três Abelhas» (1949) bem como dirigiu as Edições Artísticas Fólio (1954); foi professor de Literatura Portuguesa e Brasileira no King’s College da Universidade de Londres (1969 a 1971); foi jornalista no Diário PopularDiário de LisboaO Jornal e nas revistas Eva, Almanaque ou &etc. Viveu Lisboa desde o Café Herminius à Cervejaria Portugália, dos bilhares da Almirante Reis  à casa de jogo clandestina do carvoeiro da Rua José Estêvão, do Café Chiado ao Monte Carlo, do Toni dos Bifes à Pastelaria Joaninha (junto ao Jardim Constantino) ou o bar Procópio, na companhia de tantos como Abelaira, Alexandre O’Neil,  Carlos de Oliveira, CesarinyEduardo Prado Coelho, Gastão da Cruz, Herberto Helder, José Gomes FerreiraLuiz Pacheco,  Manuel da Fonseca, Pedro Oom ou Vespeira.

Democrata empenhado na luta contra a opressão, com Alçada Baptista, Miller Guerra, Lindley Cintra, Joel Serrão, José-Augusto França, Nuno Bragança e Nuno Teotónio Pereira, constituiu em 1966 o núcleo português da Association Internationale pour la Liberté de La Culture e em 1985 foi agraciado com a Ordem da Liberdade, assim como em 1989 com  a Grande Cruz de Mérito Cultural. Na sua vida pessoal, casou em 1954 com a enfermeira Maria Edite Pereira – a quem chamava Esquilo-  de quem teve duas filhas, a Ana e a Rita.

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Muzai na Escola Nuno Cordeiro da Avenida David Mourão-Ferreira, no MURO’19

Muzai na Escola Nuno Cordeiro: A Balada de Seu Ciro e Dona Elvira
(Foto: © José Vicente| CML| DPC| 2019

No âmbito do MURO’19 foi Muzai o escolhido para deixar a sua intervenção artística – A Balada de Seu Ciro e Dona Elvira – na empena da Escola Básica Nuno Cordeiro, sediada na Avenida David Mourão-Ferreira, nesta 3ª edição Festival de Arte Urbana de Lisboa em que a arte urbana se une à música e à literatura presente no espaço, quer através da toponímia, quer de concertos e peças artísticas que unem a pintura a sonoridades.

O brasileiro Muzai usa o fio condutor da simplicidade do seu traço e de cores puras, fortes e contrastadas, para produzir arte urbana. Procura uma poética visual de fantasia e sonho, como que resgatando a criança interior do interior do homem. Nascido em Minas Gerais, em 1968, como Fabrício Alves, desde criança que era apaixonado por banda desenhada e licenciou-se pela Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Uberlândia. Desde 2009 que se tornou o artista Muzai, após ter visitado São Paulo e ter ficado impressionado com o impacto da arte urbana na cidade em contraste com as antigas ruas cinzentas. Começou o seu percurso pela arte urbana mural na sua cidade natal.

David Mourão-Ferreira, escritor romancista, novelista, contista, dramaturgo e poeta que também escreveu para fado, professor universitário de literatura, ensaísta, jornalista e cronista, tradutor e crítico literário é o homenageado nesta longa Avenida onde se encontra a Escola Básica Nuno Cordeiro em cuja empena Muzai pintou a sua obra de caras, guitarra e ternura.

A Avenida David Mourão-Ferreira foi o topónimo dado à Rua 3 da Malha 14,6,1,2 e 3 do Alto do Lumiar através da publicação do Edital municipal de 22 de julho de 2005 e que encontramos desde a rotunda onde confluem a Avenida Carlos Paredes e a Rua General Vasco Gonçalves até ao Eixo Central (no troço entre Rotunda 2 e a Av. Nuno Krus Abecassis). Com a Rua José Cardoso Pires e a Avenida Carlos Paredes define quase um círculo em cujo espaço interior decorre o MURO’19.

O escritor David de Jesus Mourão-Ferreira (Lisboa/24.02.1927-16.06.1996/Lisboa), filho de David Ferreira – secretário do diretor da Biblioteca Nacional – e de Teresa de Jesus Mourão-Ferreira, homem de múltiplas facetas notabilizou-se como poeta do amor e da sensualidade, como uma personalidade que tanto na vida como na escrita celebrou o amor, o erotismo e o corpo em palavras. Nasceu e viveu até aos 15 anos no Bairro da Lapa, frequentou o Colégio Moderno e já nas brincadeiras de infância fazia peças de teatro e jornais que o seu irmão mais novo – Jaime Alberto – ilustrava. Licenciou-se em 1951 em Filologia Românica, na Faculdade de Letras de Lisboa, onde veio a ser professor e catedrático de Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa.

Com Alain Oulman, David Mourão-Ferreira levou os seus poemas também para o fado e para a voz de Amália, em que se destacam Barco Negro (1954), Abandono, Solidão,  Espelho Quebrado, Primavera, Anda o Sol na Minha Rua, Nome de Rua ou Maria Lisboa (1961). Depois, também produziu letras para Simone de Oliveira ou Luís Cília, apesar de ter sido alvo de uma campanha de difamação, assim como de um processo judicial por  ter subscrito a apresentação da Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia (em 1965), bem como por no ano seguinte ter prefaciado a tradução de A Filosofia da Alcova do Marquês de Sade.

Começou a sua vida literária na poesia com a A Viagem (1950) a que somou, entre outros, Tempestade de Verão (1954) que foi Prémio Delfim Guimarães, Os Quatro Cantos do Tempo (1958), A Arte de Amar (1962), Cancioneiro de Natal (1971) que foi Prémio Nacional de Poesia, Matura Idade (1973), Sonetos do Cativo (1974), Os Ramos e os Remos (1985), No Veio de Cristal (1988) que foi Grande Prémio Inasset de Poesia, Nos Passos de Pessoa (1988) que ganhou o Prémio Jacinto Prado Coelho e a antologia erótica Música de Cama (1994).

São também de destacar as novelas Gaivotas em Terra (1959) que conquistaram o Prémio Ricardo Malheiros e são topónimo de uma artéria do Parque das Nações, a peça O Irmão (1965) que foi Prémio de Teatro da Casa da Imprensa, os contos Os Amantes (1968), As Quatro Estações (1980) galardoada com prémio da Associação Internacional dos Críticos Literários, o romance Um Amor Feliz (1986) – que recebeu o Prémio de Narrativa do Pen Clube Português, o Prémio D. Dinis da Fundação da Casa de Mateus, o Prémio de Ficção Município de Lisboa, o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores e a Medalha Oskar Nobiling da Academia Brasileira de Letras -, Duas Histórias de Lisboa (1987) e o CD Um Monumento de Palavras.

Colaborou também em jornais e revistas, como o Diário Popular ou a revista Seara Nova (onde em 1945 publicara os seus primeiros poemas), para além de ter sido um dos fundadores da revista literária Távola Redonda (1950-1954) que dirigiu com António Manuel Couto Viana e Luís de Macedo. Em 1967, tinha a rubrica «Poesia para Todos» no Diário de Lisboa e após o 25 de Abril dirigiu A Capital e foi diretor-adjunto de O Dia. Na década de sessenta do séc. XX também foi o autor do programa Música e Poesia na Emissora Nacional e de Hospital das Letras e Imagens da Poesia Europeia na RTP, tendo nos anos setenta criado também O Dom de Contar para a televisão.

Desempenhou ainda as funções de Secretário de Estado da Cultura (nos anos de 1976, 1977 e 1979), sendo seu o despacho que criou a Companhia Nacional de Bailado. A partir de 1981 dirigiu o Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian e depois, presidiu à Associação Portuguesa de Escritores (1984 – 1986) e ao Pen Club Português (1991).

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Rua Prof. Mário Chicó

Rua Prof. Mário Chicó, topónimo atribuído a um arruamento da freguesia do Lumiar por Edital de 27 de Fevereiro de 1978

Mário de Sousa Tavares Chicó (1905-1966), historiador de Arte, conservador de museu e professor universitário. O seu apelido Chicó foi por ele adoptado em homenagem ao seu avô adoptivo, Manuel Rodrigues Chicó, natural de Goa, engenheiro agrónomo que trabalhou nas propriedades agrícolas da Casa Cadaval, em Évora. Terá sido também por influência deste avô que Mário Chicó, após o Liceu, se decidiu a frequentar a Escola Agrícola de Coimbra, curso que viria a abandonar e a trocar pelo de Direito, na mesma Universidade, até finalmente, ingressar e completar o Curso de Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras de Lisboa (1935). Entre 1937 e 1939 foi bolseiro do Instituto de Alta Cultura, o que lhe permitiu frequentar o Instituto de Arte e Arqueologia da Universidade de Paris, e de estudar Arqueologia Medieval. A sua obra escrita revela bem o interesse por este período tendo publicado Remarques sur le choeur de l´église Sainte Marie de la Victoire Batalha (1940), A arquitectura da Idade Média em Portugal (1944), A catedral de Évora na Idade Média (1946), A arquitectura gótica em Portugal (1954), entre outros. Em 1942 colaborou na História da Arte em Portugal com diversos outros historiadores e em 1959 planeou e dirigiu um inovador Dicionário da Pintura Universal em colaboração com José-Augusto França e Artur Nobre Gusmão. Concorreu ao lugar de director do Museu Regional de Évora, que venceu em 1943, aqui permanecendo até à sua morte. A partir de 1946, ingressou na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa como professor da cadeira de Estética e História da Arte, tendo sido convidado a leccionar em várias universidades europeias e brasileiras. Em 1951 concretiza um outro projecto de investigação, obtendo o apoio da Junta das Missões Geográficas e Investigações Coloniais, viajando até à Índia para estudar a arquitectura de influência portuguesa naquela parte do Mundo. Foi o primeiro presidente da mesa da assembleia geral da Associação Portuguesa de Museologia, e pertenceu à Academia Nacional de Belas Artes.

O seu contributo para o conhecimento da história de Lisboa prende-se sobretudo com a sua carreira de Conservador de Museu, curso que fez em 1940 após o seu regresso do estrangeiro. É a Mário Chicó que a Câmara Municipal de Lisboa recorre para o projecto de criação de um museu municipal. A ideia de criar um espaço museológico dedicado à história da cidade fora lançada em 1909, e muito tenuemente executada em 1922, numa sala da Associação dos Arqueólogos Portugueses. O projecto de um museu de Lisboa, arrancou definitivamente por proposta do vereador Pereira Coelho, de 1935, destinando-se-lhe o Palácio da Mitra, adquirido pela autarquia em 1930. A adaptação do Palácio a Museu Municipal foi entregue a Mário Chicó, conservador dos Museus Municipais, o qual, consciente que seria uma morada provisória (como aliás tinha sido afirmado pela própria Câmara na proposta que apresentou à Junta Nacional de Educação, organismo da tutela), e das dificuldades em expor todas as espécies, optou por um circuito expositivo de acordo com a tipologia das peças (pinturas, gravuras, cerâmica, etc.) em detrimento de uma exposição cronológica, ao mesmo tempo que procurava valorizar o próprio edifício. No entanto, Mário Tavares Chicó deixou delineado um outro projecto para um futuro museu municipal que se pretendia edificar de raiz. Neste projecto, o museu deveria ter as seguintes secções: História e Geografia Locais, Arqueologia, Artes Plásticas, Estampas e Desenhos, Artes Decorativas, Etnografia, Medalhas, Sala de Exposições Temporárias, Biblioteca Olisiponense, Arquivo Municipal e Arquivo Fotográfico.

É de facto, Mário Tavares Chicó o primeiro a propor a criação de um núcleo arquivístico dedicado exclusivamente à fotografia, destinado a preservar a colecção inicial de fotografias que a Câmara possui, datadas de 1898-1908, e que constituem o seu núcleo antigo, bem como as fotografias que eram então tiradas, fosse para efeitos de propaganda da cidade, fosse para efeitos de recolha de imagens do património lisboeta. Desde o início da sua carreira de historiador de Arte Chicó utilizara a fotografia para documentar os seus trabalhos, valorizara a importância da fotografia para o estudo do património e deu destaque aos fotógrafos que com ele colaboraram como co-autores. Apesar desta sua proposta inicial, o Arquivo Fotográfico só abriria ao público, na década de 60 do século XX.

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A Rua do arquiteto Adães Bermudes, vereador da CML em 1918 e 1919

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O arquiteto portuense Adães Bermudes, foi também vereador da Câmara Municipal de Lisboa em 1918 e 1919, tendo sido perpetuado como topónimo de uma rua de Marvila em 1978, com mais onze arquitetos.

Republicano assumido e membro da Maçonaria, Adães Bermudes foi vereador da Comissão Administrativa da CML de 15 de março de 1918 a 21 de  fevereiro de 1919, a que sucedeu à presidida pelo também republicano José Carlos da Maia, que saiu para ser ministro da Marinha de Sidónio Pais em março de 1918 e fez com que pedisse a exoneração dos vereadores republicanos Matias Ferreira de Mira, Raul de Almeida Carmo, António Ferreira e António do Couto Abreu, tendo sido então designados em 15 de março de 1918, para os mesmos cargos, o presidente da Sociedade de Ciências Médicas Zeferino Falcão para Presidente da edilidade, o tenente-coronel de engenharia José Tavares de Araújo e Castro, o advogado Carlos Barbosa e Adães Bermudes, a quem coube o Pelouro da Arquitetura e a 4ª Repartição. Nesta Comissão Administrativa serviu como presidente de 10 de maio  até 4 de julho de 1918, a partir do que será presidente  José Tavares de Araújo e Castro, bem como nos impedimentos deste, tendo assim assinado como vogal-presidente os Editais que permitiram à Companhia de Carris de Ferro de Lisboa aumentar os preços das tarifas das carreiras durante os dias da semana excepto ao domingo, durante 3 meses, bem como aumentar a lotação em 50%, assim como o que determinou iguais condições para a  Nova Companhia dos Ascensores Mecânicos de Lisboa (23 de maio de 1918); o dos termos da cobrança dos impostos municipais a partir de 15 de julho para os relativos ao 2º semestre de 1918,  (1 de junho de 1918); a atribuição da Rua da Paz e outras desanexações e integrações toponímias na Ajuda ( 11 de novembro de 1918).

O Occidente, 20 de maio de 1913

Arnaldo Redondo Adães Bermudes (Santo Ildefonso – Porto/29.09.1863 – 18.02.1947/Paiões- Rio de Mouro) foi um arquiteto formado pela Academia Portuense de Belas Artes (entre 1880 e 1886), Escola de Belas-Artes de Lisboa e pela École des Beaux-Arts de Paris. Destacou-se como um expoente do movimento da Arte Nova e criou em 1898 um modelo de escola que foi difundido em todo o país e identificado como Escola Adães Bermudes. Traçou o Bairro de casas económicas do Arco do Cego, em 1897,  de acordo com o conceito cidade-jardim. Como arquiteto já antes lhe dedicámos um artigo mas sintetizamos agora que a sua obra em Lisboa soma um edifício Arte Nova concebido em 1908 para a Avenida Almirante Reis (na época, era a Avenida Dona Amélia) que foi distinguido com o Prémio Valmor; o restauro do Mosteiro dos Jerónimos, do Museu Nacional de Arte Antiga e do Museu Nacional de Belas Artes; o mausoléu dos benfeitores da Santa Casa da Misericórdia  no Cemitério do Alto de São João (1908); o Instituto Superior de Agronomia (1910); a Escola Normal Primária de Lisboa (1913), em Benfica;  e o Monumento ao Marquês de Pombal (1914), em equipa com Francisco Santos e António do Couto.

O Edital de 10 de agosto de 1978, proposto pela primeira Comissão Municipal de Toponímia que integrou um arquiteto – o  arqº Frederico George -, procurou criar pela toponímia um «bairro de arquitetos», até aí quase ausentes da toponímia lisboeta. A Adães Bermudes coube a  a Rua 14 da Zona N 2 de Chelas e os outros onze escolhidos foram Adelino Nunes (ruas 2 e 3), Álvaro Machado (arruamento de ligação entre a via envolvente e a rua 6), Cassiano Branco (ruas 4 e 5), Domingos Parente (rua 13), José Luís Monteiro (ruas 11B e 12), Keil do Amaral (ruas 1, 6 e 7), Luís Cristino da Silva (via comercial), Miguel Nogueira Júnior(rua 11), Norte Júnior (ruas 8 e 11A), Pardal Monteiro (via envolvente) e Pedro José Pezerat (rua 10).

Adães Bermudes foi pai do arquiteto Jorge Bermudes, irmão mais velho de Félix Bermudes e assim, também tio de Cesina Bermudes.

Está também presente na toponímia de Rio de Mouro (no concelho de Sintra), localidade onde faleceu e foi sepultado.

Freguesia de Marvila
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Publicação municipal da Rua Padre Manuel Antunes

A publicação municipal de toponímia referente à Rua Padre Manuel Antunes, hoje distribuída no decorrer da inauguração oficial deste arruamento, na Freguesia do Lumiar, já está online.

É só carregar no link acima ou na capa abaixo e poderá ler.

Caso queira conhecer publicações anteriores poderá ir às Publicações Digitais do site da CML e escolher o separador Toponímia.

Ou no topo do nosso blogue carregar em 3 – As nossas Edições.