A Alameda da Quinta de Santo António de Telheiras

Pormenor da Quinta de Santo António na planta de Silva Pinto de 1907

Este topónimo preserva no sítio a memória da Quinta de Santo António e da sua Ermida de Santo António, em Telheiras, na Urbanização da Quinta de Santo António dos anos 80 do século XX.

A Alameda da Quinta de Santo António, que vai da Rua Fernando Namora à Rua Prof. Simões Raposo – no espaço que comercialmente foi denominado Parque dos Príncipes-, foi atribuída pelo Edital municipal de 25 de outubro de 1989 a um troço da Rua B da Urbanização da Quinta de Santo António a Telheiras, perpendicular à Rua A.

Como topónimo, esta Alameda da Quinta de Santo António, surgiu na sequência de um pedido da Junta de Freguesia do Lumiar para que fosse atribuído o nome do médico e investigador Prof. Luís Simões Raposo. A Comissão Municipal de Toponímia na sua reunião de 17 de outubro de 1989 colocou esse topónimo no troço da Rua B situado entre a Alameda da Quinta de Santo António e o Impasse 2 (da Urbanização da Quinta de Santo António), na mesma altura fazendo uso do troço  da mesma Rua B, com início na Rua A e perpendicular a esta, para fixar esta Alameda da Quinta de Santo António, memória de uma das quintas de Telheiras e da sua ermida.

A partir do séc. XVIII povoavam Telheiras proprietários lavradores e assalariados agrícolas, sendo estes últimos que trabalhavam nas quintas dos nobres  então conhecidos como  «os saloios de Tilheiras». Eram famosas as Quintas de São Vicente e de Santo António mas todas estas quintas de lazer possuíam um conjunto de terrenos de cultura e a casa com jardim do proprietário. Em 1758, a Quinta de Santo António pertencia a António Francisco Gorge e tinha uma Ermida dedicada a Santo António,  conforme relato do pároco Feliciano Luz Gonzaga.

Ainda segundo a mesma narrativa deste padre do Lumiar, de 4 de maio de 1758, tinha a paróquia do Lumiar 450 fogos e 2226 pessoas, ficando a um quarto de légua de distância do lugar do Campo Grande; precisa ainda que «os lugares que compreende são o do Lumiar que tem 188 fogos e 93 pessoas, o de Tilheyras em que se acham 92 fogos e 440 pessoas, o do Paço com 122 fogos e 603 pessoas, tem mais 2 lugares pequenos que são a Urmeyra que tem 5 fogos e 34 pessoas, e a Torre do Lumiar que tem 19 fogos e 104 pessoas, e os mais fogos que tem que são 24 em que habitam 142 pessoas são em várias quintas que se acham pelos limites desta freguesia».

Mais tarde, na planta de Silva Pinto de 1907 ainda está assinalada a Quinta de Santo António, bem como a Quinta dos Ingleses e a Quinta da Torre do Fato e ainda depois, nas plantas municipais  de 1967 do plano de urbanização da malha de Telheiras ainda aparece a Quinta de Santo António.

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

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A Rua da Quinta das Conchas

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Rua da Quinta das Conchas, no Lumiar,  é um topónimo que deriva da proximidade à Quinta do mesmo nome, sendo que esta, por seu turno, é uma denominação que advém de vestígios aí encontrados, provavelmente fósseis calcários do Miocénico lisboeta ( ou seja, entre cerca de 20 a 7 milhões de anos atrás), como sucedeu no Alto das Conchas, em Marvila.

Esta artéria inicialmente designada por Rua F à Quinta das Conchas passou a ser a Rua David Mourão-Ferreira por Edital municipal de 18 de novembro de 2003. Todavia, ao pretender-se que o nome do escritor designasse um arruamento de maior extensão passou este homenageado a deter uma Avenida também na freguesia do Lumiar e a Rua passou a denominar-se Rua da Quinta das Conchas, tudo conforme o Edital nº 56/2005 de 22 de julho de 2005.

A Quinta das Conchas – que hoje é um Parque – nasceu como uma estrutura agrícola concebida e desenvolvida em meados do século XVI por Afonso de Torres, sabendo-se que já em 1520 era um morgadio deste rico negociante de origem espanhola. Ao longo do tempo teve vários proprietários, dos quais se destacou no final do séc. XIX Francisco Mantero – que dá nome a uma Rua dos Olivais tal como seu filho, Mantero Belard, dá a uma Rua de Santa Clara -, após se ter tornado um dos grandes exploradores das roças de café de São Tomé na qual restaurou e ampliou a casa da Quinta dos Lilases, dando-lhe um carácter de mansão colonial e, em 1897, comprou a parte rústica da Quinta das Conchas, não sendo assim de estranhar que tenha mandado fazer um grande lago artificial,  com duas pequenas ilhas nas quais plantou palmeiras, em homenagem às ilhas de São Tomé e Príncipe.

Contudo, no século XX, a área desta Quinta foi mais utilizada pela então muito recente indústria cinematográfica, uma vez que  em 1920 foi nela fundada  a Caldevilla Film, que produziu por exemplo, Os Faroleiros e As Pupilas do Senhor Reitor e doze anos depois, em 1932, foi a vez da Tobis Portuguesa adquirir parte da Quinta para aí edificar os seus estúdios. Em 1966, os descendentes de Francisco Mantero transferiram para a Câmara Municipal de Lisboa a gestão da Quinta que recebeu obras de requalificação em 2005 que mereceram o Prémio Valmor e Municipal de Arquitectura desse ano.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Calçada da Quintinha do Marquês de Pombal

A Calçada da Quintinha em 1953
(Foto: Fernando Martinez Pozal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Calçada da Quintinha, onde assenta um dos arcos do Aqueduto das Águas Livres e que hoje no seu nº 6 lhe dá morada, é um topónimo proveniente da Quintinha do Carvalhão, isto é, de uma das propriedades que o Marquês de Pombal possuía em Campolide.

Campolide medieval e renascentista era uma soma de campos e quintas «fora de portas», isto é fora da cidade de Lisboa, vocacionada para a produção agrícola de frutas, vinho e azeite, para além de desde o século XV ali se proceder à extração da pedra existente, prática que acabou por também se fixar em topónimos como a Rua da Cascalheira do séc. XIX e a Rua da Pedreira do Fernandinho atribuída em 1986.

Por ordem de D. João V, através do seu alvará de 12 de maio de 1731, foi erguido o Aqueduto das Águas Livres, para melhorar o abastecimento de água a Lisboa, e em Campolide arrabaldino começam nos finais do século XVII e inícios do século XVIII a surgir outras quintas, pertencentes a nobres ou a ordens religiosas, sendo um grande proprietário local aquele que era conhecido como Carvalhão, de seu nome Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, que aqui detinha propriedades que se estendiam desde a Cruz das Almas até à Ribeira de Alcântara, sendo dono de casas, terras, olivais, pedreiras (a da Cascalheira, por exemplo), fornos de cal, moinhos e azenhas. Foi justamente  uma das suas Quintas, a Quintinha, que deu  o seu nome à Calçada, onde as casas solarengas ostentavam no portal de acesso o brasão do Marquês.

No séc. XIX, o Atlas de Filipe Folque de janeiro de 1857  já mostra a Calçada da Quintinha  a ligar a Estrada do Aqueduto das Águas Livres até um arco do próprio Aqueduto, situada à esquerda da Estrada da Circunvalação e passando pela Calçada dos Mestres e a Meia Laranja das Águas Livres. Em 31 de outubro de 1896, nasceu no nº 17 desta Calçada o futuro maestro Pedro de Freitas Branco.

Em 1907, a edilidade traçou um plano de alargamento da Calçada da Quintinha e do caminho entre o Alto dos Sete Moinhos e o Largo da Senhora de Santana. Hoje, a Calçada da Quintinha começa na Rua Dom Carlos de Mascarenhas e segue até junto ao prolongamento da Rua 12 do Bairro da Calçada dos Mestres.

Freguesia de Campolide
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A antiga Praça do Areeiro e Francisco Sá Carneiro

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Desde 1982 que a Praça do Areeiro – cerca de um ano e meio após a trágica morte de Francisco de Sá Carneiro – se denomina oficialmente Praça Francisco Sá Carneiro, embora a maioria da população a continue a designar pelo antigo topónimo fixado em 1947, a ponto de a Comissão Municipal de Toponímia no seu parecer de 11 de novembro de 1994 ter aditado à legenda  deste topónimo «Antiga Praça do Areeiro».

Cronologicamente, o Edital municipal de 17/02/1947 instituiu que «a via pública situada no término da Avenida Almirante Reis, conhecida por Praça do Areeiro, toma a referida denominação», sendo o topónimo derivado da antiga Quinta do Areeiro que Júlio Silva Pinto ainda em 1908 representava na sua planta de Lisboa.  Após a morte do então Primeiro-Ministro, Francisco Sá Carneiro, em 4 de dezembro de 1980 a deliberação camarária de 22 de dezembro de 1980 e o consequente Edital municipal de 5 de abril de 1982 alteraram a denominação Praça do Areeiro para Praça Francisco Sá Carneiro, cuja legenda é desde 1994 a seguinte: «1934 – 1980/Antiga Praça do Areeiro».

No seguimento das dramáticas mortes de Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa, que na época eram o Primeiro-Ministro e o Ministro da Defesa, foi aprovada por maioria na reunião de Câmara de 22 de dezembro de 1980 uma proposta dos vereadores da Aliança Democrática  para serem atribuídos os seus nomes a ruas de Lisboa. A Comissão Municipal de Toponímia sugeriu para o efeito, em 13 de janeiro de 1981, as duas alamedas interiores do Campo Grande. Todavia, acabou por vingar o local sugerido pelo então Vereador do Pelouro da Cultura, Dr. João Martins Vieira, que mudou a antiga Praça do Areeiro para Praça Dr. Francisco Sá Carneiro e o antigo Largo do Caldas para Largo Dr. Adelino Amaro da Costa.  Em 19 de julho de 1991, data do 57º aniversário de nascimento de Francisco Sá Carneiro, foi inaugurado na praça como o nome deste político um monumento em sua homenagem, da autoria de Mestre Soares Branco, conseguido através de subscrição pública lançada pelo jornal O Dia .

Francisco Manuel Lumbrales de Sá Carneiro (Porto/19.07.1934 – 04.12.1980/Camarate), advogado que se empenhou com paixão numa carreira política, foi fundador e o primeiro Secretário Geral do PPD (Partido Popular Democrático) em maio de 1974. Em 1979, o já então denominado PSD (Partido Social Democrata), por coligação com o CDS e o PPM, formaram a AD (Aliança Democrática) que através das eleições legislativas intercalares alcançou o governo do qual Sá Carneiro foi primeiro-ministro (o VI Governo Constitucional) até falecer, com 46 anos, vítima de um controverso acidente aéreo.

Formado em Direito pela Universidade de Lisboa em julho de 1956, Francisco Sá Carneiro exerceu advocacia no Porto e dirigiu a  Revista dos Tribunais a partir de 1961. Viveu por muitos anos em Lisboa, na Rua Dom João V, já que nos anos do fim do marcelismo, de 1969 a 1973,  foi deputado independente da chamada Ala Liberal, propondo com o deputado Pinto Balsemão uma Lei de Imprensa que reduzia a Censura (1970), assim como uma revisão constitucional (1970) num projeto conjunto com Mota Amaral, acabando mesmo por se confessar social-democrata e renunciar ao cargo de deputado em 26 de janeiro de 1973. Após o 25 de Abril foi ministro sem pasta no I Governo Provisório de Adelino da Palma Carlos, deputado à Assembleia Constituinte e depois na Assembleia da República, sendo o líder da bancada parlamentar do PPD/PSD.

A título póstumo foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo (1981), da Ordem Militar da Torre e Espada (1986) e da Ordem da Liberdade (1990), bem como com uma Sessão Solene de homenagem na Assembleia da República(1990), a Medalha de Ouro da Ordem dos Advogados (2006) e a Ordem do Infante D. Henrique (2017), para além de o seu nome ter sido dado ao Aeroporto Internacional da sua cidade natal (1990).

A Praça do Areeiro nos anos 40 do séc. XX
(Foto: António Passaporte, Arquivo Municipal de Lisboa)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Azinhaga da Torre do Fato

Freguesias de Carnide e do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Azinhaga da Torre do Fato ainda hoje sobrevive estendendo-se desde a Rua Fernando Namora à Estrada do Paço do Lumiar, derivando o topónimo da dita Azinhaga do nome da Quinta da Torre do Fato.

Freguesias de Carnide e do Lumiar – Placa Tipo IV
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Tradicionalmente, as azinhagas que acompanhavam os limites de uma Quinta ganhavam a denominação dessa Quinta, tal como acontece aqui embora se desconheça a origem da Torre do Fato. O que sabemos é que no séc. XVIII, em 1775, na então freguesia de São João Batista do Lumiar, o proprietário da Quinta Torre do Fato era João Caetano de Abreu. No século XIX, a Quinta era a casa de campo da família de Bernardo de Sá Nogueira, Barão (1833), Visconde (1834) e primeiro Marquês de Sá da Bandeira (1854), sendo que no jornal Gazeta de Lisboa deparamos em 13 de agosto de 1823 com o anúncio de «Quem quizer comprar a uva das vinhas, pero e maçã da quinta da Torre do fato, à Luz; falle com os donos da mesma quinta, ou em Lisboa na rua da Gloria nº 41 terceiro andar».  Seis anos depois, em 16 de maio de 1829, publicitava-se o arrendamento da Quinta fazendo saber que «arrenda-se as casas com mobilia, e a quinta da Torre do fato, no sitio da Luz, tem pomar, vinhas e duas courellas de vinha annexas, olivedo, lagar, adêga, forno para cozer pão, cavalharice, palheiro, e commodos para huma grande familia; ha de principiar o arrendamento no primeiro de Junho proximo: fale-se a Paulo José Nunes, em Lisboa na rua dos Algibebes nº 78». Ainda em 1832, o mesmo periódico insere um anúncio de  Ayres de Sá Nogueira, na sua «quinta da Torre do Fáto, perto da Luz»  para contratar quem lhe administrasse uma quinta agrícola em Santarém.

No séc. XX, na  planta de Júlio Silva Pinto de 1907 está identificada a Quinta e a Azinhaga da Torre do Fato. De 1922 a 1924 encontramos  permutas de terrenos entre a Câmara Municipal de Lisboa e Manuel Gomes, para alargamento da Azinhaga da Torre do Fato e da Estrada de Telheiras de Cima. E em 1970 sabemos que a Clínica Psiquiátrica de São José das Irmãs Hospitaleiras estava em 1970 já instalada na Quinta da Torre do Fato.

Freguesias de Carnide e do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Azinhaga do Reguengo da Charneca

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Azinhaga do Reguengo que se estende desde  terras próximas da Azinhaga das Galinheiras até ao concelho de Loures guarda a memória dos domínios do Rei naquela zona: o reguengo da Charneca.

Depois da Reconquista de Lisboa aos mouros, o território ao redor de Lisboa, o Termo de Lisboa, ficou na propriedade do Rei que, de seguida, fez dele doações a nobres e às ordens militares e religiosas, embora tenha conservado na sua posse vastos domínios que se denominavam reguengos. Reguengo ou realengo era a qualificação jurídica dos lugares conquistados dependentes diretamente da autoridade do rei, eram as terras cujo senhor era o próprio rei.

Concretamente, o reguengo da Charneca ainda no século XVII continuava na posse dos Duques de Bragança e é dele e da sua  Quinta do Reguengo que o topónimo Azinhaga do Reguengo guarda memória até aos nossos dias.

A extinção dos reguengos foi feita pelas leis de organização da administração e da fazenda pública de Mouzinho da Silveira em 1832. Em 1906 ainda a planta de Júlio Silva Pinto mostrava tanto a Quinta como a Azinhaga do Reguengo.

Freguesia de Santa Clara (Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Pote de Água: do sítio à Travessa, passando pelo Largo

Travessa do Pote de Água – Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Sítio do Pote de Água deu nome a uma Quinta, destruída pelo terramoto de 1755, para no séc. XX, nos anos sessenta, o nome voltar ao local, primeiro num Largo e depois numa Travessa.

A partir de um pedido do serviço municipal de Escrivania para atribuição de topónimo ao arruamento que ligava o Largo João Vaz à Avenida do Brasil foi atribuída a Travessa do Pote de Água, pela publicação do Edital municipal de 23 de maio de 1969.  Nas proximidades já estava, desde a publicação do Edital de 21 de dezembro de 1960, o Largo do Pote de Água.

Na segunda metade do séc. XVIII encontramos em memórias paroquiais várias referências ao Pote de Água e aos proprietários da Quinta do mesmo nome. Na descrição da Freguesia de Santo André, sabemos que «pela Estrada da Charneca athé a Quinta do Pote de Agoa inclusive, q hoje he de Joseph Antonio Ferreira», esclarecendo ainda que a Quinta «foi dos Padres Jezuitas». Na descrição de 1758, da freguesia do Campo Grande, volta ser referida a Quinta do Pote de Água: «No citio do Pote de Agoa, e Calvanas a [ermida] da Senhora Santa Anna na Quinta do Dr. Joachim Pereira da Sylva Leal hoje demolida por cauza do terramoto (…).»

Também no século XIX, encontramos em documento municipais a menção à construção do  lanço do Campo Grande ao Pote de Água na estrada do Campo Grande aos Olivais (1878-1896), bem como à reparação da Estrada da Charneca desde o Pote de Água até ao lugar da Charneca (1889).

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua da Quinta da família Baldaque

Freguesia da Penha de França
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Em 1956 a Travessa das Baldracas passou a ser a Rua dos Baldaques, porque um estudo solicitado pela Comissão Municipal de Toponímia esclareceu que Baldracas era uma corruptela do nome da família Baldaque, moradora da artéria.

A Comissão Consultiva Municipal de Toponímia havia encarregado o seu membro, Dr. Durval Pires de Lima, de elaborar um estudo de revisão da toponímia de Lisboa – que foi aprovado na reunião da Comissão de 19 de janeiro de 1950 – no qual se esclareceu que Baldracas «É uma corrupção do nome da família Baldaque, em cuja Quinta foi delineada a travessa» pelo que se propôs que a designação passasse a ser Travessa dos Baldaques. E assim a Travessa das Baldracas passou, pelo Edital municipal de 25/02/1956, a ser a Rua dos Baldaques, unindo a Rua Barão de Sabrosa ao Largo Mendonça e Costa.

Em 1780 o espaço hoje ocupado pela Rua dos Baldaques eram terras de cultivo. Nesse século de reconstrução da cidade de Lisboa, fidalgos e burgueses procuraram os arredores da cidade de Lisboa para as suas casas de campo, como aconteceu com as novas quintas do Coxo, do Pina (que  veio a dar nome à freguesia do Alto do Pina) ou da família Baldaque.

No século XIX, o Alto do Pina era ocupado por quintas e a planta de Duarte Fava de 1807 situa os Baldaques junto à Azinhaga dos Sete Castelos, derivada esta última do nome do lugar já povoado desde o séc. XIV. Em 1896 deparamos com uma Azinhaga das Baldracas na planta de colocação de novo pavimento na Azinhaga ou  Calçada da Ladeira. Também de 1914  a 1916 continuamos a encontrar a designação Azinhaga das Baldracas em vários documentos municipais, referentes à iluminação da zona ou à construção da Rua Edith Cavel. E só em 1919 deparamos com a denominação Travessa das Baldracas na planta municipal para o alinhamento desse mesmo arruamento.

Refira-se que António Lobo Antunes dedicou uma crónica a esta Rua dos Baldaques, publicada em 2002 no livro que compilou os seus textos publicados na revista Visão.

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

 

 

 

A Azinhaga e a Calçada da Quinta do Carrascal

Freguesia do Beato
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Quinta do Carrascal que se estendia desde a Picheleira à Rua do Sol a Chelas deu chão para o nascimento da Azinhaga e da  Calçada do Carrascal.

Nesta Quinta que surge já na planta de 1909 de Júlio Silva Pinto,  predominavam carrascos – seriam árvores parecidas com o carvalho ou antes oliveiras da variedade carrasca, já que o Beato era desde o séc. XII uma zona de vinhas e olivais?… – , sendo o arruamento próximo a Azinhaga do Carrascal, seguindo a tradição das Azinhagas ganharem o nome da Quinta que lhe era mais próxima. Dada o acentuado declive de uma parte do seu traçado parte da Azinhaga também foi conhecida por Calçada do Carrascal.

Assim, quando em finais de 1969 a Azinhaga ficou dividida em dois troços distintos, por obras na zona, a Câmara acolheu a  sugestão de António Fontes Laranjeira, morador no local, ficando ambos os topónimos como explicita o Edital municipal nº 14/70, de 16 de janeiro de 1970: « tendo em vista a circunstância de a Azinhaga do Carrascal, também designada vulgarmente por Calçada do Carrascal, se encontrar, actualmente, dividida em dois troços distintos, o que torna difícil a sua conveniente identificação, resolvi (…) que o troço do citado arruamento compreendido entre a Calçada da Picheleira e a Rua Frei Fortunato de São Boaventura, mantenha a denominação de Azinhaga do Carrascal e o troço compreendido entre a Rua do Sol a Chelas e a Rua Eng.º Maciel Chaves, passe a denominar-se Calçada do Carrascal.»

Entre a Azinhaga do Carrascal e a Azinhaga da Picheleira também se ergueu um bairro destinado desde 1927 a habitações económicas e que em 1933  os seus arruamentos receberam os seguintes topónimos : Rua Capitão Roby, Rua Frederico Perry Vidal, Rua Frei Fortunato de São Boaventura e Rua de Silveira Peixoto.

Freguesia do Beato
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

Alterações de topónimos tradicionais rejeitadas: Largo do Pote de Água, Largo da Graça e Praça do Comércio

O Largo do Pote de Água – Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias)

O Largo do Pote de Água, em Alvalade, a Praça do Comércio em Santa Maria Maior e o Largo da Graça, na freguesia de São Vicente, são topónimos que foram alvo de pedidos de alteração pós-25 de Abril mas que por serem topónimos tradicionais mereceram parecer negativo da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa.

Na reunião de 20 de dezembro de 1974 foi analisada uma carta de Maria Augusta Barbosa, solicitando a alteração do topónimo Largo do Pote de Água. Mais tarde, na de 22 de julho de 1975 foi a vez da carta de Francisco Cota sugerir que a Praça do Comércio passasse a Praça do Povo. Em ambos os casos, por serem alterações de topónimos tradicionais, mereceram o parecer negativo da Comissão Municipal de Toponímia pelo que nunca foi redigida proposta para ser levada a sessão de câmara que caso aprovada expediria um Edital formalizando o nascimento de um novo topónimo.

O sítio do Pote de Água, deu o seu nome à Quinta do Pote de Água, que foi destruída pelo terramoto de 1755 e também daí advieram os topónimos Largo e Travessa do Pote de Água que ainda hoje encontramos. O Largo ficou fixado na memória da cidade pelos seus moradores e o Edital municipal de 21 de dezembro de 1960 colocou-o na Rua 1 à Avenida do Brasil.  Quase nove anos depois, pelo Edital municipal de 23/05/1969, juntou-se a Travessa do Pote de Água, a partir de um pedido do serviço municipal de Escrivania para atribuição de topónimo ao arruamento que ligava a Avenida do Brasil com o Largo do Pote de Água e o Largo João Vaz. A localização da Quinta do Pote de Água, aparece nas memórias paroquiais publicadas em Lisboa na 2ª metade do século XVIII (plantas e descrições pelas freguesias), na Freguesia de Santo André, da seguinte forma: «pela Estrada da Charneca athé a Quinta do Pote de Agoa inclusive, q hoje he de Joseph Antonio Ferreira» e, esclarece mais adiante que a Quinta «foi dos Padres Jezuitas.»

O Largo da Graça – Freguesia de São Vicente                                                  (Foto: Ana Luísa Alvim)

O pedido de alteração do Largo da Graça chegou à reunião da Comissão de 15 de junho de 1976, numa carta do Grupo Escolar Republicano Almirante Reis que avançava com  o nome de Alfredo Pedro Guisado para a substituição, e que mereceu um desfecho semelhante aos anteriores, porque embora «reconhecendo a justiça de ser consagrada na toponímia citadina a figura do doutor Alfredo Guisado, notável republicano e homem de letras, a Comissão emite parecer desfavorável por entender que o topónimo existente é tradicional e não deve, por isso, ser alterado. Na devida oportunidade, e logo que se consiga arruamento condigno, será prestada homenagem a essa individualidade.» O Largo da Graça foi um espaço definido como tal após 1700, cujo nome deriva do antigo Convento de Nossa Senhora da Graça, começado a construir em 1271 naquele local, então conhecido por Almofala, pequeno arrabalde mourisco extramuros onde as tropas de D. Afonso Henriques acamparam durante o cerco de Lisboa. A Almofala mourisca tornou-se no Bairro da Graça, topónimo repetido no Largo, na Calçada, no Caracol, na Rua,  e demais topónimos que a ecoam na Rua da Bela Vista, na Rua e na Travessa do Arco, na Rua do Cardal, na Rua do Sol, na Travessa de Santo António e na Travessa do Olival. Por seu lado,  Alfredo Guisado chegou à toponímia lisboeta em 1977,  através do Edital de 10 de outubro que o colocou numa Rua de São Domingos de Benfica.

Outras sugestões de topónimos ou pedidos de alterações foram rejeitados pela Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa neste período histórico por colidirem com os princípios pelos quais se o órgão consultivo se regia.

A sugestão de Margarida Stella Bulhão Pato Maia Rebelo,  para a atribuição do nome de José Afonso a uma artéria, apreciada na reunião de  20 de dezembro de 1974, foi recusada por contrariar a regra de atribuição de topónimos apenas a falecidos. Recusa análoga teve nessa mesma reunião uma carta anónima que sugeria a restituição do nome de Alferes Malheiro à Avenida do Brasil, pelos óbvios inconvenientes que acarretaria aos residentes das duas artérias assim fixadas desde há 40 anos. No entanto, o jornal A Capital de 10 de fevereiro de 1975 insistiu na proposta, pelo que a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa, reunida quatro dias depois, deu parecer para o assunto ser arquivado.

Por último, na reunião de 14 de fevereiro de 1975, analisou-se o pedido de substituição do topónimo Avenida Casal Ribeiro, remetido por  Miguel Araújo Rato Fernandes, que foi rejeitado, com o parecer de que «esta Comissão entende que não é de alterar o referido topónimo, visto a figura homenageada não ser o “Casal Ribeiro” deputado à Assembleia, mas sim o primeiro conde de Casal Ribeiro – José Maria Caldeira do Casal Ribeiro.»

A Praça do Comércio em 25 de Abril de 1974
(Foto: Fernando Baião, «O Século Ilustrado», 28.04.1974)