A Travessa do Bahuto, da Quinta do mesmo nome, oficializada em 1918

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Travessa do Bahuto, que já assim era vulgarmente denominada há muito tempo, foi oficializada pelo Edital municipal de 8 de fevereiro de 1918, assinado pelo presidente da Câmara Municipal de Lisboa, José Carlos da Maia, que foi assassinado na Noite Sangrenta de 1921 e que em 1932 virá também a ser topónimo de Campo de Ourique.

Em 1918, esta Travessa ligava a Rua Saraiva de Carvalho com a Parada dos Prazeres (hoje é a Praça de São João Bosco) e guardava a memória da Quinta do Bahuto, cujo nome seria provavelmente o apelido do seu proprietário.

Um pouco antes do Terramoto de Lisboa, em 1741, foi  criada a freguesia de Santa Isabel, então destacada do território de Santos-o-Velho. Em 1959, a parte em que se incluía a Travessa do Bahuto foi para a nova freguesia de Santo Condestável e desde 2012 que esta artéria é pertença da freguesia de Campo de Ourique.

Por altura do terramoto de 1755, através do Rol dos Confessados da paróquia de Santa Isabel, podemos ter uma ideia aproximada dos lugares já habitados desta zona: Rua Direita da Boa Morte (Rua do Patrocínio), Rua da Fonte Santa (Rua Possidónio da Silva), Quinta do Bahuto, Quinta do Sargento-Mor, Casal Ventoso, Arco do Carvalhão, Vila Pouca, Sítio dos Moinhos e Campo de Ourique. A enorme Quinta do Bahuto ocupava em 1770 toda a área a sudoeste da Rua de Campo de Ourique (na altura era a Rua dos Pousos) até à Rua Saraiva de Carvalho (era então Caminho dos Prazeres).

Bahuto seria, provavelmente, o apelido de família do proprietário da Quinta, se considerarmos que em Belém também existia uma família com esse apelido que até originou junto ao antigo Mercado de Belém uma Rua do Bahuto e Gonçalves, referenciada de 1907 a 1913, no que são hoje  terrenos dos jardins de Belém, assim como em Belas (no concelho de Sintra) existiu uma Quinta do Bahuto e existe hoje uma Rua Felisberto Bahuto da Fonseca. Aliás, um vereador da Câmara Municipal de Lisboa em 1918 e 1919 chamava-se Pedro Midosi Baúto.

Já antes da sua oficialização em 1918, a artéria em causa era vulgarmente conhecida por Travessa do Bahuto, surgindo já assim nos documentos municipais do séc. XIX, para introdução de canalização no arruamento, bem como para construção de prédios entre 1891 e 1901.

 

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Da Azinhaga da Ponte Velha à Rua das Laranjeiras em 1919

Excerto da planta municipal de maio de 1905

A Azinhaga da Ponte Velha, na Palma de Baixo, passou em 1919 a ter categoria de Rua e a denominação de Rua das Laranjeiras, por referência à Estrada das Laranjeiras onde começava, por via do Edital municipal de 19 de julho desse ano.

Esta decisão foi aprovada por unanimidade na reunião 10 de julho da Comissão Executiva da CML, a partir da proposta do Vereador Augusto César de Magalhães Peixoto, «Considerando que tal denominação [ a de Azinhaga ] não se coaduna com as construções que actualmente possue, e que a tornam hoje uma via pública moderna», tanto mais que já em 1905 a Azinhaga da Ponte Velha havia sido alargada conforme planta municipal. O sítio da Ponte Velha situava-se no extremo da Estrada das Laranjeiras. Já o topónimo Laranjeiras, nesta zona de Lisboa está ligado à famosa Quinta das Laranjeiras.

A Rua das Laranjeiras hoje
Freguesia de São Domingos de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Denominada inicialmente Quinta de Santo António, a Quinta das Laranjeiras, de Estêvão Augusto de Castilho, tem como referência mais antiga conhecida a data de 1671. No final do séc. XVII já era de Manuel da Silva Colaço e  em 1760 pertencia a Luís Garcia Bívar. Sabe-se que depois foi propriedade de Francisco Azevedo Coutinho, até em 1779 ser adquirida pelo Desembargador Luís Rebelo Quintela que em 1802, com um Palácio novo, a deixou de herança ao seu sobrinho,  Joaquim Pedro de Quintela (1801-1869), o 2º Barão de Quintela e 1º Conde de Farrobo.

É com este último que o Palácio da Quinta passou a ser famoso e identificado como Palácio Farrobo. O 2º Barão de Quintela deu-lhe a divisa OTIA TUTA (Toda prazeres). Os bailes, os festejos e eventos artísticos ocorridos nesta propriedade do 1º Conde de Farrobo, que passou também a incluir o Teatro das Laranjeiras ou Teatro Tália – construído em 1820 para 560 espectadores-, geraram a expressão popular «farrobodó». No ano da morte Joaquim Pedro de Quintela, ano de 1869, o Palácio das Laranjeiras foi comprado pelo Monteiro dos Milhões, o capitalista António Augusto Carvalho Monteiro, e em 1874, foi vendido ao fidalgo espanhol Duque de Abrantes e Liñares. Três anos depois, a propriedade foi adquirida pelo comendador José Pereira Soares que também comprou as adjacentes Quintas das Águas Boas e dos Barbacenas e que 1888 vendeu uma casa na Estrada das Laranjeiras para o Serviço de Incêndios em 1892 vendeu outra, para um posto de limpeza.

Em 1903, o conjunto da propriedade foi comprado pelo Conde Burnay, que  em 1904 arrendou os jardins das Laranjeiras e das Águas Boas ao Jardim Zoológico, que assim foi inaugurado em 28 de maio de 1905. Em 1940, o Palácio das Laranjeiras e toda a restante propriedade rústica e urbana foi adquirida aos herdeiros da condessa de Burnay pelo Ministério das Colónias e desde aí vários serviços ministeriais foram lá instalados.

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

 

A Rua dos Sete Moinhos, o primeiro topónimo de 1919

A Rua dos Sete Moinhos em 1939
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

O primeiro topónimo de 1919 nasceu do Edital municipal de 17 de março e foi a Rua dos Sete Moinhos, junto à  Rua do Arco do Carvalhão, no território da Freguesia de Campo de Ourique de hoje, oficializando a denominação pela qual já era conhecido o arruamento.

Conforme se pode ler no Edital emitido pelo então presidente da Câmara Municipal de Lisboa, o bacharel de Direito Alberto Ferreira Vidal, «a Comissão Executiva da Câmara deliberou em sua sessão de 14 de outubro do ano findo, que a rua que começa na Rua do Arco do Carvalhão e finda no Alto dos Sete Moinhos, e que o vulgo denomina Rua dos Sete Moinhos ou Rua do Alto dos Sete Moinhos, tenha a denominação oficial de Rua dos Sete Moinhos.»

Este topónimo perpetua no local a memória do lugar dos Sete Moinhos, que no final do séc. XIX também determinou na zona do vale o Caminho dos Sete Moinhos  e no alto, esta Rua dos Sete Moinhos. Na última década do século XX eram ainda visíveis os vestígios dos moinhos que neste sítio existiram. No séc. XVIII, como se pode ver nas plantas paroquias de 1780, esta zona era a Quinta do Sargento-Mor e nas memórias paroquiais  de 1769 refere-se a «estrada q passa junto à Quinta do Sargº Mor ou de sete moinhos». Aliás, nas proximidades existiu também a Rua do Sargento-Mor que hoje em dia designamos por Rua do Arco do Carvalhão.

Em 1939, de maio a agosto, a edilidade comprou diversos prédios e casas abarracadas nesta Rua dos Sete Moinhos, para conseguir abrir um arruamento de acesso à autoestrada, a A5, também conhecida por Autoestrada de Cascais, a mais antiga autoestrada portuguesa, quando era Presidente da Câmara lisboeta o Engº Duarte Pacheco (de 1938 a 1943). O primeiro troço desta autoestrada – Lisboa-Estádio Nacional – foi inaugurado em 1944.

Nos nossos dias existe também na vizinha freguesia de Campolide, um topónimo semelhante mas posterior, a Calçada dos Sete Moinhos, nascida 5 anos depois, pelo Edital municipal de 17 de outubro de 1924, embora a deliberação camarária ocorra apenas de 3 anos depois, em 24 outubro de 1920.

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Alameda da Quinta de Santo António de Telheiras

Pormenor da Quinta de Santo António na planta de Silva Pinto de 1907

Este topónimo preserva no sítio a memória da Quinta de Santo António e da sua Ermida de Santo António, em Telheiras, na Urbanização da Quinta de Santo António dos anos 80 do século XX.

A Alameda da Quinta de Santo António, que vai da Rua Fernando Namora à Rua Prof. Simões Raposo – no espaço que comercialmente foi denominado Parque dos Príncipes-, foi atribuída pelo Edital municipal de 25 de outubro de 1989 a um troço da Rua B da Urbanização da Quinta de Santo António a Telheiras, perpendicular à Rua A.

Como topónimo, esta Alameda da Quinta de Santo António, surgiu na sequência de um pedido da Junta de Freguesia do Lumiar para que fosse atribuído o nome do médico e investigador Prof. Luís Simões Raposo. A Comissão Municipal de Toponímia na sua reunião de 17 de outubro de 1989 colocou esse topónimo no troço da Rua B situado entre a Alameda da Quinta de Santo António e o Impasse 2 (da Urbanização da Quinta de Santo António), na mesma altura fazendo uso do troço  da mesma Rua B, com início na Rua A e perpendicular a esta, para fixar esta Alameda da Quinta de Santo António, memória de uma das quintas de Telheiras e da sua ermida.

A partir do séc. XVIII povoavam Telheiras proprietários lavradores e assalariados agrícolas, sendo estes últimos que trabalhavam nas quintas dos nobres  então conhecidos como  «os saloios de Tilheiras». Eram famosas as Quintas de São Vicente e de Santo António mas todas estas quintas de lazer possuíam um conjunto de terrenos de cultura e a casa com jardim do proprietário. Em 1758, a Quinta de Santo António pertencia a António Francisco Gorge e tinha uma Ermida dedicada a Santo António,  conforme relato do pároco Feliciano Luz Gonzaga.

Ainda segundo a mesma narrativa deste padre do Lumiar, de 4 de maio de 1758, tinha a paróquia do Lumiar 450 fogos e 2226 pessoas, ficando a um quarto de légua de distância do lugar do Campo Grande; precisa ainda que «os lugares que compreende são o do Lumiar que tem 188 fogos e 93 pessoas, o de Tilheyras em que se acham 92 fogos e 440 pessoas, o do Paço com 122 fogos e 603 pessoas, tem mais 2 lugares pequenos que são a Urmeyra que tem 5 fogos e 34 pessoas, e a Torre do Lumiar que tem 19 fogos e 104 pessoas, e os mais fogos que tem que são 24 em que habitam 142 pessoas são em várias quintas que se acham pelos limites desta freguesia».

Mais tarde, na planta de Silva Pinto de 1907 ainda está assinalada a Quinta de Santo António, bem como a Quinta dos Ingleses e a Quinta da Torre do Fato e ainda depois, nas plantas municipais  de 1967 do plano de urbanização da malha de Telheiras ainda aparece a Quinta de Santo António.

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Rua da Quinta das Conchas

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Rua da Quinta das Conchas, no Lumiar,  é um topónimo que deriva da proximidade à Quinta do mesmo nome, sendo que esta, por seu turno, é uma denominação que advém de vestígios aí encontrados, provavelmente fósseis calcários do Miocénico lisboeta ( ou seja, entre cerca de 20 a 7 milhões de anos atrás), como sucedeu no Alto das Conchas, em Marvila.

Esta artéria inicialmente designada por Rua F à Quinta das Conchas passou a ser a Rua David Mourão-Ferreira por Edital municipal de 18 de novembro de 2003. Todavia, ao pretender-se que o nome do escritor designasse um arruamento de maior extensão passou este homenageado a deter uma Avenida também na freguesia do Lumiar e a Rua passou a denominar-se Rua da Quinta das Conchas, tudo conforme o Edital nº 56/2005 de 22 de julho de 2005.

A Quinta das Conchas – que hoje é um Parque – nasceu como uma estrutura agrícola concebida e desenvolvida em meados do século XVI por Afonso de Torres, sabendo-se que já em 1520 era um morgadio deste rico negociante de origem espanhola. Ao longo do tempo teve vários proprietários, dos quais se destacou no final do séc. XIX Francisco Mantero – que dá nome a uma Rua dos Olivais tal como seu filho, Mantero Belard, dá a uma Rua de Santa Clara -, após se ter tornado um dos grandes exploradores das roças de café de São Tomé na qual restaurou e ampliou a casa da Quinta dos Lilases, dando-lhe um carácter de mansão colonial e, em 1897, comprou a parte rústica da Quinta das Conchas, não sendo assim de estranhar que tenha mandado fazer um grande lago artificial,  com duas pequenas ilhas nas quais plantou palmeiras, em homenagem às ilhas de São Tomé e Príncipe.

Contudo, no século XX, a área desta Quinta foi mais utilizada pela então muito recente indústria cinematográfica, uma vez que  em 1920 foi nela fundada  a Caldevilla Film, que produziu por exemplo, Os Faroleiros e As Pupilas do Senhor Reitor e doze anos depois, em 1932, foi a vez da Tobis Portuguesa adquirir parte da Quinta para aí edificar os seus estúdios. Em 1966, os descendentes de Francisco Mantero transferiram para a Câmara Municipal de Lisboa a gestão da Quinta que recebeu obras de requalificação em 2005 que mereceram o Prémio Valmor e Municipal de Arquitectura desse ano.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)