Alterações de topónimos tradicionais rejeitadas: Largo do Pote de Água, Largo da Graça e Praça do Comércio

O Largo do Pote de Água – Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias)

O Largo do Pote de Água, em Alvalade, a Praça do Comércio em Santa Maria Maior e o Largo da Graça, na freguesia de São Vicente, são topónimos que foram alvo de pedidos de alteração pós-25 de Abril mas que por serem topónimos tradicionais mereceram parecer negativo da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa.

Na reunião de 20 de dezembro de 1974 foi analisada uma carta de Maria Augusta Barbosa, solicitando a alteração do topónimo Largo do Pote de Água. Mais tarde, na de 22 de julho de 1975 foi a vez da carta de Francisco Cota sugerir que a Praça do Comércio passasse a Praça do Povo. Em ambos os casos, por serem alterações de topónimos tradicionais, mereceram o parecer negativo da Comissão Municipal de Toponímia pelo que nunca foi redigida proposta para ser levada a sessão de câmara que caso aprovada expediria um Edital formalizando o nascimento de um novo topónimo.

O sítio do Pote de Água, deu o seu nome à Quinta do Pote de Água, que foi destruída pelo terramoto de 1755 e também daí advieram os topónimos Largo e Travessa do Pote de Água que ainda hoje encontramos. O Largo ficou fixado na memória da cidade pelos seus moradores e o Edital municipal de 21 de dezembro de 1960 colocou-o na Rua 1 à Avenida do Brasil.  Quase nove anos depois, pelo Edital municipal de 23/05/1969, juntou-se a Travessa do Pote de Água, a partir de um pedido do serviço municipal de Escrivania para atribuição de topónimo ao arruamento que ligava a Avenida do Brasil com o Largo do Pote de Água e o Largo João Vaz. A localização da Quinta do Pote de Água, aparece nas memórias paroquiais publicadas em Lisboa na 2ª metade do século XVIII (plantas e descrições pelas freguesias), na Freguesia de Santo André, da seguinte forma: «pela Estrada da Charneca athé a Quinta do Pote de Agoa inclusive, q hoje he de Joseph Antonio Ferreira» e, esclarece mais adiante que a Quinta «foi dos Padres Jezuitas.»

O Largo da Graça – Freguesia de São Vicente                                                  (Foto: Ana Luísa Alvim)

O pedido de alteração do Largo da Graça chegou à reunião da Comissão de 15 de junho de 1976, numa carta do Grupo Escolar Republicano Almirante Reis que avançava com  o nome de Alfredo Pedro Guisado para a substituição, e que mereceu um desfecho semelhante aos anteriores, porque embora «reconhecendo a justiça de ser consagrada na toponímia citadina a figura do doutor Alfredo Guisado, notável republicano e homem de letras, a Comissão emite parecer desfavorável por entender que o topónimo existente é tradicional e não deve, por isso, ser alterado. Na devida oportunidade, e logo que se consiga arruamento condigno, será prestada homenagem a essa individualidade.» O Largo da Graça foi um espaço definido como tal após 1700, cujo nome deriva do antigo Convento de Nossa Senhora da Graça, começado a construir em 1271 naquele local, então conhecido por Almofala, pequeno arrabalde mourisco extramuros onde as tropas de D. Afonso Henriques acamparam durante o cerco de Lisboa. A Almofala mourisca tornou-se no Bairro da Graça, topónimo repetido no Largo, na Calçada, no Caracol, na Rua,  e demais topónimos que a ecoam na Rua da Bela Vista, na Rua e na Travessa do Arco, na Rua do Cardal, na Rua do Sol, na Travessa de Santo António e na Travessa do Olival. Por seu lado,  Alfredo Guisado chegou à toponímia lisboeta em 1977,  através do Edital de 10 de outubro que o colocou numa Rua de São Domingos de Benfica.

Outras sugestões de topónimos ou pedidos de alterações foram rejeitados pela Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa neste período histórico por colidirem com os princípios pelos quais se o órgão consultivo se regia.

A sugestão de Margarida Stella Bulhão Pato Maia Rebelo,  para a atribuição do nome de José Afonso a uma artéria, apreciada na reunião de  20 de dezembro de 1974, foi recusada por contrariar a regra de atribuição de topónimos apenas a falecidos. Recusa análoga teve nessa mesma reunião uma carta anónima que sugeria a restituição do nome de Alferes Malheiro à Avenida do Brasil, pelos óbvios inconvenientes que acarretaria aos residentes das duas artérias assim fixadas desde há 40 anos. No entanto, o jornal A Capital de 10 de fevereiro de 1975 insistiu na proposta, pelo que a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa, reunida quatro dias depois, deu parecer para o assunto ser arquivado.

Por último, na reunião de 14 de fevereiro de 1975, analisou-se o pedido de substituição do topónimo Avenida Casal Ribeiro, remetido por  Miguel Araújo Rato Fernandes, que foi rejeitado, com o parecer de que «esta Comissão entende que não é de alterar o referido topónimo, visto a figura homenageada não ser o “Casal Ribeiro” deputado à Assembleia, mas sim o primeiro conde de Casal Ribeiro – José Maria Caldeira do Casal Ribeiro.»

A Praça do Comércio em 25 de Abril de 1974
(Foto: Fernando Baião, «O Século Ilustrado», 28.04.1974)

 

Da Quinta do Areeiro à Praça para Salvador Allende ou Humberto Delgado

Freguesia do Areeiro
(Foto: Ana Luísa Alvim, 2017)

A Praça do Areeiro, topónimo oficializado pela Câmara Municipal de Lisboa pelo Edital de 17 de fevereiro de 1947, recebeu após o 25 de Abril duas sugestões de alteração: uma, para que passasse a denominar-se Praça Presidente Salvador Allende, o presidente chileno assassinado em 11 de setembro de 1973; e uma outra que propunha a designação de Praça Humberto Delgado, em memória do candidato às eleições presidenciais de 1958 que fora também assassinado, pela PIDE, em 13 de fevereiro de 1965.

Recorde-se que nesta época após o 25 de Abril mais 3 figuras que foram assassinadas passaram a integrar a toponímia de Lisboa: as Ruas dedicadas a José Dias Coelho e a Ribeiro Santos, ambos mortos a tiro pela PIDE, em 1961 e em 1972, bem como a Praça Machado Santos, militar obreiro da implantação da República que foi   assassinado no decorrer da Noite Sangrenta de 1921.

Topónimo derivado da antiga Quinta do Areeiro,  que ainda aparece indicada como tal na planta de Lisboa de 1908, de Júlio Silva Pinto e Alberto de Sá Correia, ao lado de outras 3 Quintas – a dos Peixinhos, a das Olaias e o Casal Vistoso -, a Praça do Areeiro já era assim vulgarmente conhecida, como aliás se pode ler no Edital de 1947: «A via pública situada no término da Avenida Almirante Reis, conhecida por Praça do Areeiro, toma a referida denominação de Praça do Areeiro.»  

A sugestão para que fosse Praça Presidente Salvador Allende adveio de uma carta de Alberto Bastos Flores ainda em 1974. No ano seguinte, a Comissão Nacional de Homenagem ao General Humberto Delgado bem como as Juntas de Freguesia do Alto do Pina, de São João e de Santa Engrácia, sugeriram que o General Sem Medo desse nome à Praça. Nenhuma destas propostas se veio a concretizar neste local. O parecer da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa quanto à artéria a escolher para o General Humberto Delgado, emitido por unanimidade na sua reunião de 29 de junho de 1976, repetiu o princípio de não alteração de toponímia tradicional: «Como tradicionais que são, nenhuma razão de ordem política justifica que se alterem os topónimos Praça do Município ou Praça do Areeiro.»

Todavia, nos anos oitenta, a Praça do Areeiro acabou por ver o seu topónimo alterado. A partir de uma proposta do vereador  Dr. João Martins Vieira com deliberação camarária de 22 de dezembro de 1980 e consequente Edital municipal de 5 de abril de 1982, passou a ser a Praça Francisco Sá Carneiro, com a legenda «1934 – 1980», assim como o Largo do Caldas se modificou para Largo Dr. Adelino Amaro da Costa, para homenagear o primeiro-ministro e o ministro da defesa da época que em 4 de dezembro de 1980 faleceram de forma trágica no decorrer de um voo de Lisboa para o Porto. Na década seguinte, ainda foi aditado à legenda «Antiga Praça do Areeiro», em resultado do parecer da Comissão Municipal de Toponímia de 11 de novembro de 1994.

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua do Seminário e da Escola Vergílio Ferreira

Freguesia de Carnide (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua do Seminário acolhe desde 1983 a Escola Secundária de Vergílio Ferreira, no espaço que foi a Quinta dos Inglesinhos, de frades católicos irlandeses.

Este arruamento que liga o Largo da Luz à Rua Fernando Namora recebeu a denominação de Rua do Seminário por deliberação camarária de 02/11/1882 da Câmara Municipal de Belém, naquela que era antes a Rua dos Galegos.

Recorde-se que em 1840 Carnide pertencia à freguesia de Belém, pelo que  aquando da fundação do Concelho de Belém em 1852, passou a integrá-lo. Após a extinção do Concelho de Belém em 1885, Carnide foi ainda pelo curto espaço de um ano parte do Concelho dos Olivais, após o que transitou para o Concelho de Lisboa, em 1886.

Este topónimo Rua do Seminário regista uma memória do ano de 1855 em que uma comunidade de frades católicos irlandeses comprou neste local uma quinta para residência de veraneio, que ficou conhecida como a Quinta dos Inglesinhos.

De 1825 a 1832 esteve sediado nesta artéria o Instituto de Surdos Mudos e Cegos e, de 1913 a 1918, a sede paroquial de Carnide esteve instalada provisoriamente na capela dos padres inglesinhos, até transitar para a Igreja da Luz.

 

Freguesia de Carnide (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Carnide
(Planta: Sérgio Dias)

A Estrada da Quinta das Laranjeiras

FReguesias das Avenidas Novas e de São Domingos de Benfica (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias das Avenidas Novas e de São Domingos de Benfica
(Foto: Sérgio Dias)

A obra de Luís Dourdil está representada na Embaixada do Brasil em Lisboa, razão para incluirmos o arruamento que lhe dá morada, a Estrada das Laranjeiras, neste roteiro toponímico alfacinha do pintor.

Refira-se ainda que Dourdil esteve presente em exposições no Brasil, como na de Arte Portuguesa Contemporânea em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro (1976).

Este extenso arruamento que vai da  Avenida dos Combatentes até à Estrada da Luz tem o seu topónimo nascido da Quinta das Laranjeiras.

A Quinta das Laranjeiras foi inicialmente denominada Quinta de Santo António. No final do séc. XVII pertencia a Manuel da Silva Colaço, passando em 1760 para Luís Garcia Bívar e, mais tarde, para Francisco Azevedo Coutinho a quem, em 1779,  a adquiriu o Desembargador Luís Rebelo Quintela, por 24 contos e, assim se tornou em 1802 herança de Joaquim Pedro Quintela, seu sobrinho e 1º barão de Quintela. O Palácio das Laranjeiras ou Palácio Farrobo ganhará fama pelas festas no seu salão de baile revestido de espelhos  e pelo seu teatro para 560 espectadores (construído em 1820), com o 2º Barão de Quintela e 1º Conde de Farrobo, na 2ª metade do século XIX.

Em 1904 o Jardim Zoológico passou a ocupar grande parte dos terrenos da Quinta das Laranjeiras e, a sua inauguração foi a 28 de Maio de 1905, continuando o palácio e a sua zona ajardinada privativa, na posse da família Burnay. Em 1940 o Estado adquiriu aos herdeiros da condessa de Burnay toda a propriedade rústica e urbana.

Refira-se ainda que na documentação municipal encontramos um requerimento de 1889 de alguns proprietários e inquilinos de prédios situados na Estrada das Laranjeiras a pedir a construção de um cano geral de esgoto bem como uma escritura de 1920 de expropriação de um prédio para permitir o alargamento da artéria a que se segue outra de 1928 para  cedência de terreno da Quinta das Laranjeiras para o mesmo efeito.

A cidade de Lisboa acolhe ainda uma Rua das Laranjeiras que se inicia na Estrada das Laranjeiras, e que tomou este topónimo pela proximidade, por Edital de 19/07/1919, já que até aí era a Azinhaga da Ponte Velha.

Freguesia de qualquer coisa

Freguesias das Avenidas Novas e de São Domingos de Benfica

A Rua da Horta Seca quinhentista

Freguesia da Misericórdia (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

Luís Dourdil foi galardoado em 1965 com o Prémio de Desenho da Casa da Imprensa,  instituição que reside no nº20 da Rua da Horta Seca, uma artéria da Freguesia da Misericórdia.

Esta Rua que liga a Praça Luís de Camões à Rua das Chagas mantém viva a memória rural quinhentista da herdade de Santa Catarina, como aliás defendeu Norberto de Araújo: «A Rua das Flores já existia antes do Terramoto, no troço até à Rua do Ataíde, ambas seiscentistas. E de igual modo existia a Rua da Horta Seca, designação, que, tal a das Flores, e a das Parreiras (sôbre a qual assentou a Rua da Emenda) evocam os tempos de quinhentos em que por aqui eram quintas e chãos rústicos da herdade de Santa Catarina». As herdades de Santa Catarina e da Boa Vista foram vendidas pela viúva de Guedelha Palaçano a D. Luís de Atouguia em 1498 e, em 1551,  a Freguesia do Loreto já registava 8.697 habitantes e tinha dois postos, um no Vale das Chagas e outro na Calçada da Boa Vista.

Nesta artéria foi instalado um recolhimento de mulheres em 1587, o Recolhimento de Nossa Senhora da Natividade das Convertidas, dirigido por Jesuítas.

Freguesia da Misericórdia - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Misericórdia – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Misericórdia

Freguesia da Misericórdia

O Largo da Princesa Maria Francisca Benedita

Freguesia de Belém (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Belém
(Foto: Sérgio Dias)

O Largo da Princesa, em Belém, é um topónimo cuja origem radica na antiga Quinta da Princesa que existiu neste local, propriedade da filha mais nova de D. José I.

Esta quinta era propriedade da Infanta D. Maria Francisca Benedita Ana Isabel Josefa Antónia Lourença Inácia Gertrudes Rita Joana Rosa de Bragança (Lisboa-Palácio da Ajuda/25.07.1746- 19.08.1829/Palácio da Ajuda-Lisboa), a quarta e última filha do Rei D. José I e irmã da Rainha D. Maria I. Era também princesa do Brasil desde os seus 30 anos, pelo seu casamento com o Príncipe D. José, seu sobrinho e filho de D. Maria I, então com 15 anos, sendo que com a morte deste onze anos depois, em 1788, a tornou conhecida como a Princesa-viúva.

D. Maria Francisca Benedita fundou em Runa o Asilo dos Inválidos Militares.

Em 1939  (Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Em 1939
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Freguesia de Belém

Freguesia de Belém

A Rua da Quinta do Loureiro

Freguesia de Campo de Ourique (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Sérgio Dias)

O arruamento executado no prolongamento da Rua Costa Pimenta, no empreendimento Ceuta Norte recebeu o nome de Rua da Quinta do Loureiro, pelo Edital de 19/10/2001, para perpetuar a memória da Quinta que existiu neste local do Vale de Alcântara.

Onde antigamente eram os terrenos da Quinta do Loureiro surgiu uma nova urbanização de 14 lotes de habitação- para realojamento do Casal Ventoso- , que ficaram designados por Empreendimentos Ceuta Norte e receberam os primeiros inquilinos no mês de abril de 2001, transformando em definitivo uma zona degradada num espaço citadino com equipamentos sociais e estabelecimentos comerciais.

A Quinta do Loureiro é provavelmente do século XVII, de acordo com Luís Pastor de Macedo que refere que, em 1718, o seu proprietário António de Albuquerque Coelho de Carvalho, um fidalgo e governador colonial no Brasil e em Angola,  afirmava estar ela na posse de sua família há 80 anos conforme consta do Livro dos Prazos da Freguesia de São Pedro de Alcântara. Junto à Ribeira de Alcântara existiram várias Quintas como a dos Prazeres, a do Inferno e a do Cabrinha, sendo a Quinta do Loureiro a norte da Quinta da Horta Navia e em paralelo à Quinta dos Prazeres. O olisipógrafo Luís Pastor de Macedo também menciona que em 1819 funcionava uma fábrica de chitas na Quinta do Loureiro.

Supõe-se que a Quinta tenha sobrevivido até ao início do século XX, já que aparece referenciada na planta de 1856 de Filipe Folque e também mais tarde, numa planta de 1910. De igual forma, na Planta da Cidade de 1948, do Instituto Geográfico e Cadastral, encontramos referências toponímicas relativas à Quinta do Loureiro como o Caminho da Quinta do Loureiro e a Estrada do Loureiro. A Estrada do Loureiro começava na Rua Capitão Afonso Pala e corria em paralelo com a Rua Possidónio da Silva e a Rua Maria Pia.

Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Campo de Ourique (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias)

A Quinta do Calado vive numa Travessa

Em 1951 (Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Em 1951 (Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Travessa do Calado que liga a  Calçada do Poço dos Mouros à Rua Dr. Lacerda e Almeida guarda a memória da Quinta do Calado que neste local existiu.

Nos séculos XVII e XVIII a Penha de França ainda era um arrabalde de Lisboa, uma zona eminentemente rural com algumas quintas de veraneio. Em 1807, na planta de Duarte José Fava já surge a Quinta do Calado no sítio onde hoje existe a travessa do mesmo nome. Depois, a Travessa do Calado passa a surgir em todas as plantas do local como no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque (1858), no levantamento topográfico de Francisco e César Goullard (1878) e, na planta de Silva Pinto e Sá Correia de 1909 tanto é mencionada a Travessa do Calado como a Quinta do Calado.

O olisipógrafo Norberto de Araújo ao abordar a Travessa do Calado nas suas Peregrinações em Lisboa (vol. VIII), debruça-se antes sobre os vários edifícios que no final da década de trinta do séc. XX ainda existiam nesta artéria como a casa de Pêro de Alenquer (demolida quando se construiu a Piscina da Penha de França), o Palácio da Machada (desaparecido com a abertura da Avenida General Roçadas)  ou «esse prédio enorme, entre a Travessa do Calado e a Rua Cesário Verde, aberta há dois ou três anos; é de 1937, modernista e aerodinâmico.» 

Freguesia da Penha de França (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Penha de França
(Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Penha de França (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

O Largo de Carnide com pimenteiras

Em 1961 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

Em 1961 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Largo de Carnide que é hoje das Pimenteiras já foi parte da Quinta do Gaupers (ou Caupers), a qual passou a ser conhecida como Quinta das Pimenteiras quando em meados do século XIX justamente o espaço deste largo foi arborizado com pimenteiras e, assim nasceu o topónimo para a Quinta e para o Largo.

Já na Planta Topográfica de Lisboa de 1908, de Júlio Silva Pinto, aparecem referidas as seguintes denominações:  Quinta do Pregoeiro, Rua da Mestra, Rua do Machado,  Travessa do Cascão, Quinta do Gaupers, Largo da Pimenteira e Travessa do Pregoeiro.

E em 1919 a Câmara Municipal de Lisboa fixou este topónimo pelo Edital camarário de 19 de julho, bem como as denominações pelas quais já eram conhecidas as artérias próximas, a saber, a Travessa do Pregoeiro, o Largo da Praça, o Beco da Mestra, o Beco do Norte, a Rua do Machado, a Rua da Mestra, a Travessa do Cascão, a Rua do Norte e a Rua da Fonte.

A Junta de Freguesia de Carnide está sediada neste largo, no Palácio da Quinta que em 1979 foi doada à Freguesia pelo Conde de Carnide, Eng.º Street de Arriaga e Cunha.

Em 1961 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

Em 1961 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

Freguesia de Carnide

Freguesia de Carnide

 

A Rua da Quinta da Fonte que foi da Pipa e do Anjo

Freguesia dos Olivais (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia dos Olivais
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua da Quinta da Fonte foi a designação dada à   antiga Rua I do Bairro da Encarnação, pelo Edital de 15/03/1950, que atribuiu topónimos, sobretudo numéricos, aos bairros sociais da Lisboa de então – Bairro do Alto da Ajuda, Bairro do Alto da Serafina, Bairro da Calçada dos Mestres, Bairro de Caselas, Bairro da Encarnação e Bairro das Terras do Forno -, perpetuando o nome de uma Quinta da zona.

Na acta da reunião da Comissão Municipal de Toponímia de 19/12/1949 podemos ler a origem desta atribuição: “Passando, seguidamente, a ocupar-se da denominação das ruas dos bairros de casas económicas, foi de parecer que sejam dados os seguintes nomes às ruas do Bairro da Encarnação que ficaram por designar em reunião de 10 de Maio e 19 de Outubro, últimos: Praça do Norte, Praça das Casas Novas, Rua dos Lojistas, Rua da Portela, Rua da Quinta de Santa Maria, Rua da Quinta do Morgado, Rua da Quinta da Fonte, e ruas números: 2, 4, 6, 8, 10, 12, 14, 16, 18, 20, 22, 24, 26 e 28, e 1, 3, 5, 7, 9, 11, 13, 15, 17, 19, 21, 23, 25, 27 e 29, aos arruamentos situados, respectivamente, à direita e à esquerda da Alameda da Encarnação. Os arruamentos do Bairro da Encarnação ficaram assim totalmente designados por: Alameda da Encarnação, Rua dos Eucaliptos, Rua do Poço Coberto, Rua das Escolas, Rua do Mercado, Praça do Norte, Praça das Casas Novas, Rua dos Lojistas, Rua da Portela, Rua da Quinta de Santa Maria, Rua da Quinta do Morgado e Rua da Quinta da Fonte, ruas 2, 4, 6, 8, 10, 12, 14, 16, 18, 20, 22, 24, 26, 28, e 1, 3, 5, 7, 9, 11, 13, 15, 17, 19, 21, 23, 25, 27 e 29.” 

O Bairro da Encarnação, da autoria do Arqº Paulino Montez, concebido em 1940 e inaugurado em 1946, tem o formato de uma borboleta cujo corpo central é a Alameda da Encarnação e a sua denominação resulta de ali no lugar da Panasqueira ter existido uma ermida dedicada a Nª Sr.ª da Encarnação.

A Quinta da Fonte que dá origem ao topónimo foi,  em finais do séc. XVII, anexada à Quinta da Pipa e, mais tarde chamou-se Quinta da Fonte do Anjo. A Quinta da Pipa era do Padre Martim Esteves que, em 1384, ali instituiu um vínculo e, a partir do século XVII, algumas quintas dos Olivais que até então eram pertença dos religiosos passaram a ser propriedade da nobreza, que chegou para ali ter  as suas casas de campo como a Quinta do Pinheiro, Quinta de Cortes ou Morgado dos Marcos, entre outras. Dessa época apenas sobram as casas originais de duas quintas: a Quinta do Contador Mor e a Quinta da Fonte do Anjo.

 

Freguesia dos Olivais (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia dos Olivais
(Foto: Sérgio Dias)