A memória de uma Leva da Morte de 1918 ou a Rua António Maria Cardoso

A Rua António Maria Cardoso no dia 25 de abril de 1974
(Foto: sem identificação de autor, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua António Maria Cardoso era no dia 25 de Abril de 1974 a morada da sede da PIDE, polícia de repressão política do Estado Novo, que ainda nessa tarde fez mais 4 mortos – os únicos da revolução – e 45 feridos, através de rajadas disparadas a partir das suas janelas, pelo que não se estranha que este topónimo figure muitas vezes entre os pedidos de alterações apresentados no pós-25 de Abril, sendo sugerido como topónimos alternativos que passasse a ser Rua da Leva da Morte ou Rua Dias Coelho, um pintor assinado pelo PIDE aos 38 anos de idade.

Entre inúmeras solicitações de alterações que a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa recebeu na época, a substituição da Rua António Maria Cardoso por Rua Dias Coelho, foi sugerida pelo cidadão Alberto Bastos Flores. O topónimo pedido acabou por ser concretizado em Alcântara, com a Rua José Dias Coelho, freguesia onde o artista havia sido morto a tiro e justamente na artéria onde tal aconteceu, através do Edital municipal de 17 de fevereiro de 1975.

Também a Associação dos Ex-Presos Políticos Antifascistas (AEPPA)  propôs que a Rua António Maria Cardoso voltasse «à sua antiga denominação de Rua da Leva da Morte » a que a Comissão Municipal respondeu que deveria «aguardar-se maior manifestação popular no sentido da alteração toponímica». Em termos de rigor histórico, a Rua da Leva da Morte havia sido,  durante a I República, um troço daquela artéria que hoje identificamos como Rua Serpa Pinto, em homenagem aos presos políticos anti-sidonistas que foram mortos num tiroteio em plena Rua Vítor Cordon em 1918, mas a força simbólica da presença da PIDE naquele arruamento era muito forte, a ponto da Associação dos Ex-Presos Políticos Antifascistas, que tinha sede nesta rua ter impresso os seus materiais e papel timbrado com Rua da Leva da Morte nº 15 como morada.

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)

O General Sem Medo na toponímia de Lisboa

Humberto Delgado que ganhou o epíteto de General Sem Medo, muito por no decorrer da sua candidatura presidencial em 1958, ter afirmado em relação a Salazar «Obviamente, demito-o!», está perpetuado desde 1979 na toponímia de Lisboa, primeiro como Praça General Humberto Delgado e desde o final de 1990, como Praça Marechal Humberto Delgado, considerando a sua promoção póstuma na carreira militar.

Logo após o 25 de Abril foram vários os pedidos para homenagear Humberto Delgado na toponímia de Lisboa, somando 8 sugestões antes da decisão definitiva. Um deles, analisado na reunião da Comissão Municipal de Toponímia de  20 dezembro de 1974, sugeria que o seu nome fosse  dado à Avenida Dom Carlos Primeiro. Essa mesma carta solicitava que a Rua Agostinho Lourenço passasse a Manuel Rodrigues da Silva,  a Avenida Sidónio Pais fosse a Avenida Doutor Afonso Costa, a Rua António Maria Cardoso tivesse antes o nome de José Dias Coelho  – escultor assassinado pela PIDE -, a Rua General Sinel de Cordes ficasse como Rua Alves Redol (o que sucedeu mesmo) , a Praça do Príncipe Real levasse antes o nome de Aquilino Ribeiro, a  Rua Quirino da Fonseca passasse a  Soeiro Pereira Gomes, a Rua de São Lázaro voltasse ao topónimo republicano de Rua Vinte de Abril, a Praça do Areeiro fosse antes Praça Presidente Salvador Allende e que o Largo de Santos ficasse como Largo Ribeiro Santos (tendo sido antes escolhida a Calçada para Calçada Ribeiro Santos).

A 5 de março de 1975, a Comissão Municipal de Toponímia analisou o pedido da Comissão Executiva de Lisboa de Homenagem ao General Humberto Delgado para que fosse consagrado na toponímia de Lisboa e  a Comissão deu parecer favorável, propondo mesmo que «ao arruamento designado por Rua A no plano de urbanização da Quinta dos Condes de Carnide – Unor 36 – seja atribuído o topónimo  Avenida General Humberto Delgado/1906 – 1965». Todavia, tal não se concretizou pelo que mais tarde, pelo Edital municipal de 23/02/1978, esse arruamento foi designado Avenida do Colégio Militar, curiosamente a instituição de que Humberto Delgado fora aluno. Pode supor-se que não se tenha considerado o arruamento condigno para o efeito, considerando que cerca de 4 meses depois, por cartas da Comissão Nacional de Homenagem ao General Humberto Delgado, bem como das Juntas de Freguesia do Alto do Pina, de São João e de Santa Engrácia, foi solicitado à edilidade lisboeta que o nome de Humberto Delgado fosse atribuído à Praça do Areeiro, a que a Comissão Municipal de Toponímia, de acordo com a Ata da reunião de 22 de julho de 1975, respondeu que «Conforme já foi esclarecido pelo presidente da Comissão, aguarde-se o parecer do M.F.A.»

Em 1976, já na vigência da segunda Comissão Municipal de Toponímia pós- 25 de Abril, a reunião de 15 de junho de 1976 esclarece que «A Comissão entende que, em princípio, servirá condignamente para o efeito, a actual Praça do Aeroporto, conhecida vulgarmente por Praceta do Relógio, até porque, tratando-se de uma figura da Aviação, o nome do General Humberto Delgado ficará bem homenageado nas imediações do aeroporto. Todavia, convirá que a decisão definitiva mereça o consenso da Comissão de Homenagem, pelo que deverá pedir-se a comparência de alguns membros desta, à próxima reunião da Comissão, que terá lugar em 29 do corrente mês, só após o que será emitido parecer definitivo.» No dia definido, compareceram 5 membros da Comissão Executiva da Homenagem Nacional ao General Humberto Delgado, a saber, Dr. Abranches Ferrão, Drª Alcina Bastos, Daniel Pires Lourenço, Dr. Duarte Vidal e José Moreira da Assunção. O vogal da Comissão Municipal de Toponímia José Augusto-França «pronunciou-se desfavoravelmente quanto à pretendida alteração do topónimo Praça do Areeiro, por considerar tratar-se de uma nomenclatura que designa um sítio de Lisboa bastante tradicional que nenhuma razão de ordem política justifica que seja alterada, pese embora a muita consideração que lhe merece a figura do falecido General Humberto Delgado». A Comissão Municipal de Toponímia apresentou também a sugestão da Comissão Administrativa do Concelho de Oeiras para que fosse usada para o efeito a Praça Dom Manuel Primeiro, situada em Algés, nos limites dos concelhos de Lisboa e Oeiras, assim como uma avenida situada no prolongamento da Avenida João Vinte e Um que partindo da Praça do Areeiro segue para Nascente – pelo Edital de 30 de dezembro desse ano passou a ser a Avenida Afonso Costa -,  e também a Praça do Chile. No entanto, a «Comissão Executiva da Homenagem recusou todas as sugestões apresentadas, alegando para tanto que o General Humberto Delgado, como percursor do Vinte e Cinco de Abril, bem merece que o seu nome seja consagrado numa praça do centro da cidade ou zona de grande densidade populacional, até porque se pretende que esse local possa vir a servir para comícios ou concentrações. Recordou, a propósito, que a Comissão Administrativa do concelho do Porto não teve relutância em dar o nome do General Delgado à antiga Praça do Município e que, seguindo sua opinião, nada impediria que a cidade de Lisboa procedesse de idêntico modo. Assim entendo, apresentarem como única alternativa aceitável, de preferência a Praça do Município, ou então, a Praça do Areeiro». A Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa acabou por emitir, por unanimidade, parecer de que «Como tradicionais que são, nenhuma razão de ordem política justifica que se alterem os topónimos Praça do Município ou Praça do Areeiro. Como contrapartida, sugere-se que o nome do General Humberto Delgado seja atribuído, em primeira alternativa, à avenida que constitui prolongamento da Avenida João Vinte e Um [hoje Avenida Afonso Costa ] e que partindo da Praça do Areeiro segue para Nascente e, em segunda alternativa, ao Largo dos Caminhos de Ferro, situado em frente da Estação de Santa Apolónia, local que está historicamente ligado à campanha presidencial de 1958».

E assim, Humberto da Silva Delgado (Torres Novas – Brogueira/05.05.1906 – 13.02.1965/Villanueva del Fresno -Espanha), que foi assassinado por um comando da PIDE liderado por Rosa Casaco,  chegou à toponímia de Lisboa através do Edital municipal de Edital de 02/02/1979, como Praça General Humberto Delgado no antigo Largo de Sete Rios, nas freguesias de São Domingos de Benfica , Campolide e Avenidas Novas, após o parecer favorável do Estado-Maior General das Forças Armadas. Em 5 de outubro de 1990, sendo nomeado a título póstumo, Marechal da Força Aérea, e os seus restos mortais trasladados para o Panteão Nacional, foi depois também o topónimo foi alterado para Praça Marechal Humberto Delgado, através do Edital municipal de 13 de dezembro de 1990, tendo ainda a Câmara Municipal de Lisboa promovido uma cerimónia de inauguração das novas placas toponímicas em 18/01/1991, na qual usaram da palavra o vereador Anselmo Aníbal e Fernando Piteira Santos, em representação da Comissão Municipal de Toponímia.

Recentemente, em maio de 2016, Humberto Delgado que esteve ligado desde a primeira hora à criação do primeiro aeroporto civil em Portugal, foi ainda homenageado com a atribuição do seu nome a esse Aeroporto: o de Lisboa.

 

O pedido de alteração do topónimo Calçada do Duque de Lafões

Calçada Duque de Lafões – Freguesias de Beato e Marvila
(Fotos: Sérgio Dias)

A Calçada do Duque de Lafões foi alvo de vários pedidos de alterações após o 25 de Abril, por diversas cartas de munícipes endereçadas à edilidade, bem como através da própria Junta de Freguesia do Beato.

Em carta de 14 de fevereiro de 1975, a Junta de Freguesia do Beato « patrocinando pedido dos seus paroquianos»  solicitou a alteração dos topónimos Calçada do Duque de Lafões, Rua João do Nascimento Costa e Rua Dr. Manuel Espírito Santo. A Comissão Municipal de Toponímia chegou mesmo a reunir com representantes dessa Junta de Freguesia e solicitou-lhes que reexaminassem o assunto. Em 1976, a Junta do Beato insistiu no pedido, desta feita apresentando como alternativa o nome de Manuel Rodrigues da Silva, «lutador antifascista, com cerca de 23 anos de prisão, 10 dos quais no Tarrafal, tendo morrido há relativamente pouco tempo em Moscovo, e que habitava na dita Calçada do Duque de Lafões».

Nesta demanda, a Junta de Freguesia do Beato voltou a incluir o pedido de alteração dos topónimos Rua João do Nascimento Costa e Rua Dr. Manuel Espírito Santo, a que a Comissão deu o parecer de que  «O topónimo Calçada do Duque de Lafões é tradicional e, como tal, não deve ser alterado. Não se vê contudo inconveniente em que a Rua João do Nascimento Costa passe a denominar-se Rua Manuel Rodrigues da Silva/ Militante operário/ 1909 – 1968.  Quanto à alteração do topónimo Rua Dr. Manuel Espírito Santo, deverá aguardar-se estudo conjunto, de molde a que em todos os arruamentos da Quinta do Ourives, onde o referido arruamento se situa, venham a consagrar-se nomes de falecidos militantes operários.» Porém, Manuel Rodrigues da Silva só se tornou topónimo por Edital de 24/09/1996, no Impasse DE DF à Quinta dos Inglesinhos à Avenida das Nações Unidas, na freguesia de Carnide,  com a legenda «Político/1909 – 1968» e a Rua João do Nascimento Costa e a Rua Dr. Manuel Espírito Santo nunca foram alteradas, embora nenhum documento municipal justifique o sucedido.

Também um cidadão solicitou repetidas vezes, no ano de 1975,  a  alteração do topónimo Rua João do Nascimento Costa. Chegou mesmo a sugerir que o mesmo passasse a ser Rua Amílcar Cabral, recebendo o parecer « Aguarde-se conhecimento da orientação do Governo e do M.F.A. sobre a atribuição de topónimos que consagrem as figuras de dirigentes dos movimentos de libertação.» Neste caso, Amílcar Cabral acabou mesmo por ser um topónimo lisboeta, numa rua do Lumiar, com a legenda «Político/1924 – 1973», através do Edital municipal de 22/04/1983, na via pública que estava identificada provisoriamente como arruamento A do Plano de Urbanização da Quinta do Lambert ao Lumiar (Unor 32) ou como Impasse 2 à Alameda das Linhas de Torres.

Finalmente, a Calçada do Duque de  Lafões hoje pertença das freguesias do Beato e de Marvila, continuou até hoje como topónimo, a ligar a Rua do Grilo à Estrada de Marvila, por ser um topónimo tradicional, que guarda a memória de ali existir o palácio residencial setecentista do Duque de Lafões, cuja entrada se fazia pelo nº 1 da Calçada do Duque de Lafões.

O título de Duque de Lafões foi criado por D. João V, em 17 de fevereiro de 1718, em favor do seu primo D. Pedro Henrique de Bragança, filho do infante D. Miguel de Bragança que era filho bastardo de D. Pedro II. Sem descendência, o título  passou para o seu irmão, o general D. João Carlos de Bragança de Sousa Ligne Tavares Mascarenhas da Silva, assim feito 2º Duque de Lafões, que foi um dos fundadores e o 1º presidente da Academia das Ciências, sendo 1º secretário o Abade Correia da Serra , ambos opositores do Marquês de Pombal.

Freguesias de Beato e Marvila
(Planta: Sérgio Dias)

O pedido de mudança da Rua Agostinho Lourenço, nome igual ao do diretor da PIDE

Rua Agostinho Lourenço – Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Agostinho Lourenço, nascida por Edital de 1903, foi das que após o 25 de Abril recebeu inúmeros pedidos de alteração do topónimo por parte dos munícipes e cidadãos em geral, já que o nome era igual ao daquele que foi o primeiro diretor da PIDE.

Lembrava o topónimo o nome do Capitão Agostinho Lourenço (Lisboa/05.09.1886 – 1964) que fora diretor da Polícia Internacional desde 1931,  da PVDE a partir de 1933 e da PIDE, de 1945 até 5 de setembro de 1956, data em que atingiu o limite de idade.

Entre os diversos pedidos para se proceder a esta alteração, todos de 1974 e 1975,  um deles sugeria mesmo que a artéria passasse a ter o nome de Manuel Rodrigues da Silva (Brasil/10.04.1909 – 22.07.1968/Moscovo), um militante operário que passou grande parte da sua existência preso no Tarrafal e em  Peniche. Passados mais de vinte anos, o nome de Manuel Rodrigues da Silva veio mesmo a ser um topónimo lisboeta, por Edital de 24 de setembro de 1996, na freguesia de Carnide.

Edital de 1903

Como topónimo, a Rua Agostinho Lourenço nasceu  em 1903, determinando o Edital municipal de 8 de junho «Que a nova via publica, entre a Avenida Antonio Augusto d’Aguiar e a rua de S. Sebastião da Pedreira, tenha a denominação de: rua Agostinho Lourenço». Todavia, passados 43 anos, em 18 de junho de 1946, a Comissão Municipal de Toponímia visitou diversos arruamentos da cidade, e concluiu « Que, em virtude das obras de urbanização efectuadas no respectivo local, o troço ainda existente da Rua Agostinho Lourenço, seja integrado na Rua Filipe Folque, devendo atribuir-se a outra via pública o nome de Agostinho Lourenço.»

Durante 9 nove anos não voltou a ser reposto o topónimo em Lisboa até que, na reunião de 11 de novembro de 1955, a Comissão Municipal de Toponímia deu o parecer de «que o nome de Agostinho Lourenço denomine o troço da Rua Alves Torgo, a Norte da Avenida do Aeroporto, até à linha férrea, mantendo a Rua Alves Torgo esta denominação entre a Rua de Arroios e a Rua António Pereira Carrilho». E assim ficou registada uma nova Rua Agostinho Lourenço, que hoje une a Avenida Almirante Gago Coutinho à Avenida São João de Deus, pelo Edital municipal de 15/03/1956, ou seja, cerca de 6 meses antes do Capitão Agostinho Lourenço deixar de ser o diretor da PIDE por atingir o limite de idade.

A figura de Agostinho Lourenço que está perpetuada na toponímia de Lisboa desde 1903 é de seu nome completo Agostinho Vicente Lourenço (Índia-Goa/1822 ou 1826- 1893/Lisboa), um químico e professor universitário, formado na Escola Médica de Nova Goa, onde foi docente, tal como na Escola Politécnica de Lisboa, a partir de 1862. Frequentou centros universitários em Paris, Munique, Heidelberg e Londres, tendo na capital francesa desenvolvido a maior parte da sua atividade científica, nomeadamente, trabalhando com Adolphe Würtz, que nos seus artigos lhe atribuiu a categoria de ter sido o primeiro investigador a obter o álcool dietilénico ou éter intermediário do glicol. Em 1867, Agostinho Lourenço publicou Trabalhos preparatorios ácerca das aguas minerais do Reino e providencias do Governo sobre proposta da Commissão respectiva, assim como organizou uma colecção de amostras das águas minerais portuguesas que integrou o trabalho Renseigments sur les eaux minerales portugaises, que foi nesse mesmo ano premiado na Exposição Internacional de Paris com medalha de ouro.

Edital de 1956

Os primeiros dois princípios da Comissão e o 1º Edital de Toponímia pós 25 de Abril

 

Quando os Editais municipais não eram feitos a computador e fotocopiadora mas impressos na Imprensa Municipal de Lisboa, o primeiro Edital municipal sobre toponímia pós 25 de Abril, com 850 exemplares, saiu no penúltimo dia no ano de 1974,  em resultado dos pareceres da reunião da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa de 15 de novembro de 1974 e conforme as instruções recebidas da Secretaria de Estado da Administração Interna sobre alteração de topónimos, após aprovação de proposta em sessão de Câmara.

De acordo com o princípio «de eliminação dos nomes afrontosos para a população, pela sua última ligação ao antigo regime» esse primeiro Edital, mudou o nome da Avenida Vinte e Oito de Maio para Avenida das Forças Armadas, da Avenida Marechal Carmona para Avenida General Norton de Matos e da Rua General Sinel de Cordes para Rua Alves Redol.

De igual modo, na sequência de um despacho do então Presidente da edilidade, Engº Caldeira Rodrigues, no qual solicitava o «parecer da Comissão sobre a consagração na toponímia citadina, de nomes que a opinião pública impõe como Ribeiro Santos, Alves Redol, Bento Gonçalves e outros» foi alterada o nome da Calçada de Santos para Calçada Ribeiro Santos, tanto mais que o homenageado morara no Largo de Santos e de lá saíra o seu funeral em 1972, após ter sido morto por agentes da PIDE. Também considerando uma carta de várias centenas de munícipes solicitando que a Estrada de Malpique se denominasse Rua Dr. João Soares, «em homenagem ao falecido professor e educador, pai do actual Ministro Mário Soares», também a Estrada de Malpique  deu lugar à Rua Dr. João Soares.

A Comissão Municipal de Toponímia aprovou ainda duas linhas ou princípios de orientação fundamentais.

Uma delas delineava a substituição de topónimos pela necessidade de eliminação dos nomes afrontosos para a população dada a sua ligação ao Estado Novo. Salvaguardava-se que fossem ponderados os prejuízos para os munícipes, serviços da Câmara, serviços públicos e particulares; que não fossem eliminados topónimos populares tradicionalmente consagrados; que não se usassem nomes de personalidade ainda vivas, nem designações com carácter ou apologia partidária, nem as que contivessem elementos atentatórios e ofensivos da dignidade das instituições vigentes.

A outra, apontava para a participação da população nas decisões autárquicas, considerando que «Dado que os topónimos de Lisboa têm um interesse citadino de carácter e interesse geral, antes da substituição ou inicial colocação de qualquer placa toponímica proceder-se-á à pública divulgação da decisão nesse sentido tomada pela Comissão Consultiva de Toponímia, de modo a que a população de Lisboa e os seus organismos e instituições se possam pronunciar no prazo de quinze dias, contados a partir dessa pública divulgação» e acrescentando mais um prazo de 15 dias  para a Comissão de Toponímia conjuntamente com o executivo da Câmara decidir sobre as reclamações surgidas, consultando as Juntas de Freguesia ou outra instituição julgada conveniente.

Além das alterações e nomes solicitados que deram corpo ao 1º Edital de toponímia pós 25 de Abril são de referir como mais solicitados na época a alteração dos nomes da Rua António Maria Cardoso, Rua Agostinho Lourenço, Avenida Sidónio Pais, Avenida Dom Carlos Primeiro, Avenida dos Combatentes, Praça do Príncipe Real, Rua Quirino da Fonseca e Rua de São Lázaro. De igual forma, os nomes mais frequentemente sugeridos para inclusão na toponímia de Lisboa foram, por ordem alfabética, Abel Salazar, Afonso Costa, António Sérgio, Aquilino Ribeiro, Bento Gonçalves, Catarina Eufémia, Cuba, Dias Coelho, Ferreira de Castro, Humberto Delgado, Jaime Cortesão, Manuel Rodrigues da Silva, Presidente Salvador Allende, Professor Egas Moniz, Soeiro Pereira Gomes, Vinte de Abril  e Vinte e Cinco de Abril, tendo a maioria deles sido colocados como topónimos lisboetas.

 

A Rua do Engenheiro primeiro presidente da CML após o 25 de Abril

Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias)

O Engº Caldeira Rodrigues foi o presidente da 1ª Comissão Administrativa da CML após o 25 de Abril de 1974, que assinou os primeiros 5 Editais de Toponímia e desde 2007 o seu nome está na memória das esquinas de Lisboa, numa rua da freguesia de Alvalade.

A Rua Engº. Caldeira Rodrigues foi atribuída pelo Edital municipal de 23/04/2007 ao arruamento identificado como Rua 2.2 à Rua António Albino Machado, com a legenda «Autarca/1925 – 2004», ligando a Rua António Albino Machado à Rua Joaquim Rocha Cabral. Recorde-se que António Albino Machado foi o fundador e 1º presidente da Cooperativa de Habitações Económicas 25 de Abril  e Joaquim Rocha Cabral foi um engenheiro que presidiu à Junta de Freguesia do Campo Grande durante dois mandatos consecutivos (1994-97 e 1998-2001).

O Engº Caldeira Rodrigues numa Conferência de Imprensa dada em dezembro de 1974, no Salão Nobre dos Paços do Concelho de Lisboa
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Joaquim Ângelo Caldeira Rodrigues (Torres Vedras/06.12.1925 – 29.12.2004/Lisboa), foi nomeado Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Lisboa e exerceu essas funções de 2 de setembro de 1974 a 19 de novembro de 1975 , sucedendo ao Delegado da  Junta de Salvação Nacional, João António Lopes da Conceição. Caldeira Rodrigues levou a cabo uma importante reconversão do município, no quadro de uma dinâmica de participação popular, tendo sido determinante a sua intervenção no aliviar de tensões e na resposta imediata a carências básicas da população, como a habitação. Em matéria de toponímia assinou 5 editais que colocaram em Lisboa os nomes de Alves Redol, Avenida dos Bombeiros, Capitão Henrique Galvão, Castro Soromenho, Dr. João Soares, Avenida das Forças Armadas, General Norton de Matos, José Dias Coelho, Julião Quintinha, Luís de Freitas Branco, Maria Isabel Aboim Inglês, Praça das Novas Nações, Rua da República da Bolívia e Calçada Ribeiro dos Santos.

Na época, o Engº Caldeira Rodrigues integrava  a direção do MDP/CDE mas já antes, durante mais de 30 anos, tinha sido um resistente político  que sofreu mesmo a prisão por duas vezes, em 1947 e em 1951. Foi dirigente da Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico, onde se licenciou em Engenharia em 1950 mas também se tornou ativista do MUNAF ( (Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista) e do MUD Juvenil (Movimento de Unidade Democrática), cuja comissão central integrou em 1947, com Mário Soares, Octávio Pato, Salgado Zenha, António Abreu, Fernanda Silva e outros. Em 1950 também aderiu ao Movimento para a Paz, liderado por Maria Lamas e Manuel Valadares.

Enquanto engenheiro, Caldeira Rodrigues desenvolveu uma carreira como especialista de Planeamento e Estruturas Hidráulicas na Hidrotécnica Portuguesa e na Companhia de Águas de Lisboa, para além de ter sido um dos sócios-fundadores da COBA – Consultores para Obras, Barragens e Planeamento, S.A., bem como dirigente da Associação Portuguesa de Projetistas e Consultores, entre 1989 e 1993.

O nome de Joaquim Caldeira Rodrigues está também perpetuado numa rua da sua terra natal e refira-se que Maria João Rodrigues, catedrática do ISCTE que desempenhou as funções de Ministra do Emprego no primeiro Governo de António Guterres, é sua filha.

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Frederico George, membro da 2ª Comissão Municipal de Toponímia pós 25 de Abril

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

O arqº Frederico George integrou a 2ª Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa pós 25 de Abril, a de 1976, e passou a dar o seu nome a uma Rua de Telheiras, na freguesia do Lumiar, dois anos após o seu falecimento.

Esta 2ª Comissão Municipal de Toponímia foi designada por despacho de 14 de junho de 1976 e realizou a sua primeira reunião no dia seguinte. De acordo com as Atas, era presidida pelo Dr. Augusto de Azeredo Costa Santos e tinha como membros o Dr. Fernando Castelo Branco em representação da CML, e mais três personalidades convidadas: o Dr. Jacinto Baptista, o Prof. Dr. José Augusto França e o Prof. Arqtº Frederico George. No último mês de 1976, passou a ser presidida pelo Dr. Orlando Martins Capitão contando com o Dr. Fernando Castelo Branco e o Prof. Arqtº Frederico George como membros.

Um princípio essencial definido por esta Comissão, na esteira do já defendido pela primeira pós 25 de Abril, foi o de não alterar toponímia tradicional, como se pode ler na Ata da reunião de 15 de junho de 1976: «O professor doutor José Augusto França, lembrou a existência de nomenclaturas tradicionais na toponímia de Lisboa, e propôs que, só em casos muito excepcionais, se encarasse a hipótese da sua alteração, não só pelas razões que lhes deram origem, como ainda porque essas alterações provocam sempre grandes inconvenientes, quer para os munícipes, quer para os próprios serviços. Submetida à votação, foi a referida proposta aprovada por unanimidade.»

A Rua Frederico George, com a legenda «Arquitecto e Pintor/1915 – 1994», situada  a partir da confluência da Rua Prof. Prado Coelho e a Rua Armindo Rodrigues até chegar à Rua Daniel Santa Rita, foi atribuída por Edital municipal de 24/09/1996 à Rua B do Alto da Faia e Rua A de Telheiras Norte III. Mais tarde, juntar-se-ão nas proximidades, também em Ruas, os arqºs Daniel Santa Rita (16/02/2005) e Conceição Silva (Edital de 01/08/2005).

autorretrato de Frederico George de 1939

Frederico Henrique George (Lisboa/15.11.1915- 26.01.1994/Lisboa), nascido na freguesia de Santa Isabel, filho de pai inglês e mãe portuguesa, estudou à noite na Escola de Artes Decorativas António Arroio e formou-se em pintura (1936) e em arquitetura (1950) pela Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, seguindo uma carreira de cenógrafo, arquiteto, designer e professor universitário.

É obra sua na cidade de Lisboa o Museu da Marinha (1962) e o Planetário Calouste Gulbenkian (1965) , em Belém, zona onde já havia participado nas pinturas murais da Exposição do Mundo Português (1940), bem como com Manuel Magalhães e Daciano Costa, o Hotel Penta (1975) ou o edifício de escritórios do Metropolitano de Lisboa (1983), a recuperação do Palácio Pancas Palha (1991) e o Pavilhão Gimnodesportivo do Casal Vistoso (1992). Frederico George também desenvolveu os planos de recuperação do Palácio Fronteira (1958 e 1988) e diversos projetos de análise do território e urbanismo para a Câmara Municipal de Lisboa e para o Ministério das Obras Públicas (1969 a 1976) como os blocos de habitação social em Olivais Sul de 1961-1963; executou as Exposições comemorativas do V Centenário do Infante D. Henrique (1958-1960), o Pavilhão de Portugal na Exposição Comemorativa do IV Centenário da cidade do Rio de Janeiro (1964) e com Daciano Costa, traçou o Pavilhão de Portugal da Expo Internacional de Osaka (1970).

Como professor, Frederico George começou nas escolas de ensino técnico de Lisboa e Setúbal e a partir de 1940 na Escolas de Artes Decorativas António Arroio – onde veio a introduzir o ensino do Design – para a partir de 1957, ser Professor do Curso de Arquitetura da Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, desempenhando assim um importante papel pedagógico na formação dos artistas da geração seguinte. Sofreu um interregno de 1948 a 1955, período em que foi exonerado da docência por ter subscrito a candidatura do General Norton de Matos à presidência da República. Também no seu atelier reuniu um conjunto de colaboradores que continuaram o seu legado, particularmente no desenvolvimento e ensino do Design em que foi pioneiro, como Daciano Costa, Fernando Conduto e Sena da Silva. Refira-se ainda que Frederico George participou na 1.ª Exposição de Design Português (em 1971) e defendeu com empenho a profissionalização do Designer em Portugal. Em 1972 foi encarregue pelo Ministério da Educação do estudo para a reforma do ensino de arquitetura e, em 1992, foi ainda o responsável pela criação de novos cursos universitários. Colaborou no Inquérito à Arquitectura Popular Portuguesa, editado em 1961 e publicou Considerações sobre o Ensino da  Arquitectura, a sua dissertação de 1963. 

Na sua vertente de pintor, iniciada na década de 40 do séc. XX com quadros figurativos e estrutura de raiz cubista, marcou presença na II Exposição Geral de Artes Plásticas (1947) e Salão da Primavera da Sociedade Nacional de Belas-Artes tendo alcançado, entre outros, o Prémio Luciano Freire da Academia Nacional de Belas Artes (1936), a 1ª Medalha da SNBA (1945), o Prémio Columbano  (1946) e o Prémio Silva Porto (1947), ambos  do SNI. A sua obra está representada no Museu do Chiado e na Fundação Calouste Gulbenkian. Frederico George foi também galardoado com o oficialato da Ordem de Cristo (1941), a Grã Cruz da Ordem de Mérito (1989), o Prémio  de Arquitectura da AICA (1994) e o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Técnica de Lisboa (2001).

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Fernando Piteira Santos, membro da 1ª Comissão Municipal de Toponímia pós 25 de Abril

Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias)

Fernando Piteira Santos foi membro da primeira Comissão Municipal de Toponímia após o 25 de Abril de 1974, bem como da primeira Comissão Municipal de Toponímia da década de 90 do séc. XX, e desde o ano seguinte ao seu falecimento dá nome a uma Rua de Carnide, com a legenda «Político e historiador/1918 – 1992».

A primeira Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa após o 25 de Abril de 1974 era presidida pelo Vereador Henrique José Monteiro Chaves  e integrava o Dr. Fernando Castelo Branco, em representação da autarquia, bem como três personalidades convidadas, a saber a Drª Maria da Conceição Machado, a  Drª Leonor Pizarro Beleza e o Dr. Fernando Piteira Santos. A primeira reunião desta Comissão ocorreu em 15 de novembro de 1974 e a última, no dia 22 de julho de 1975.

Piteira Santos voltou a ser convidado para a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa, na primeira dos anos 90 do séc. XX, onde participou desde a primeira reunião, em 8 de junho de 1990, até à data do seu falecimento.

No ano seguinte, a partir de uma moção aprovada por unanimidade na reunião de Câmara de 30 de setembro de 1992  e formalizado através do Edital municipal de  26/01/1993, Fernando Piteira Santos  passou a ser o topónimo do Impasse G da Nova Urbanização do Bairro Padre Cruz, a ligar hoje a Rua Prof. Arsénio Nunes à Rua Prof. Sedas Nunes. O mesmo edital também colocou o professor catedrático Tiago de Oliveira no Impasse I, contribuindo para reforçar a presença de professores universitários naquela  zona da cidade.

Piteira Santos com Oliveira Marques (à esquerda) em 25 de outubro de 1975, numa conferência no São Luiz
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Fernando António Piteira Santos (Amadora/23.01.1918 – 28.09.1992/Lisboa) foi um político, historiador, professor universitário e jornalista. Logo nos anos quarenta do séc. XX dirigiu movimentações estudantis contra as propinas e pela Autonomia Universitária e veio a ser membro do Comité Central do PCP entre 1941 e 1950, ano em que foi expulso a pretexto de uma falsa acusação de delação, aproximando-se então da Resistência Republicana e Socialista. Oposicionista ativo ao Estado Novo conheceu os cárceres da ditadura, tendo sido preso por três vezes. Colaborou na tentativa de assalto ao Quartel de Beja (1961) vendo-se por isso obrigado a passar à clandestinidade e depois ao exílio político em Argel, onde foi um dos membros fundadores da Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN) e de lá só regressou após a revolução de 25 de Abril de 1974.

Em maio de 1974 foi nomeado Diretor-Geral da Cultura Popular e Espetáculos mas exerceu o cargo apenas por um mês e passou a dirigir os Centros Populares 25 de Abril e a integrar a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa. Em 1977 esteve na fundação da associação Fraternidade Operária, criada por destacados dirigentes e militantes do PS, entre os quais Lopes Cardoso e César Oliveira, descontentes com o rumo político tomado pelo partido.

De 1974 a 1988 Piteira Santos também lecionou na Faculdade de Letras de Lisboa e na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, dedicando-se sobretudo ao estudo das questões metodológicas da História e dos regimes fascistas e totalitários, em especial o Estado Novo.

Enquanto fundador da Sociedade Portuguesa de Autores teve um papel preponderante na luta pela independência e liberdade dos autores portugueses mas também trabalhou nas editoras Europa-América e Sá da Costa, para além de se dedicar ao jornalismo, particularmente no Diário de Lisboa, de que foi diretor-adjunto de 1974 a 1989 e onde assinou a coluna de análise política «Política de A a Z» a partir de 1976. Também colaborou na Seara Nova e na revista Ler, da qual chegou a ser chefe de redação.

Freguesia de Carnide
(Planta: Sérgio Dias)

Sete novos topónimos na freguesia do Lumiar

Pelo Edital nº 38/2017, de 17/03/2017,  foram atribuídos sete novos topónimos na freguesia do Lumiar:  Largo Gérard Castello-Lopes, Rua Irisalva Moita, Rua Isabel Magalhães Colaço, Rua Joaquim Rodrigo, Largo Michel’Angelo Lambertini, Rua Padre Manuel Antunes e Rua Pedro Bandeira Freire.