A Praça das Indústrias e a Praça dos Congressos em Alcântara

Praça das Indústrias – Freguesia de Alcântara

No espaço fronteiro do Centro de Congressos dos dias de hoje está desde 1961 a Praça das Indústrias, já que esses edifícios foram a FIL-Feira Industrial de Lisboa, construída em 1957, de acordo com o projeto dos arquitetos F. Keil do Amaral, Alberto José Pessoa e Hernâni Gandra, uma obra promovida pela AIP – Associação Industrial Portuguesa.

O topónimo Praça das Indústrias foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa através do Edital municipal nº 109/61, de 16 de junho de 1961, à «praça em frente ao Pavilhão das Indústrias» como regista o Edital.

Entretanto, a Feira Internacional de Lisboa (FIL) mudou-se para terrenos do Parque das Nações em 1999, para ocupar um maior superfície, num total de 100.000 m2 ou seja, o equivalente a 11 campos de futebol.

O espaço da Junqueira foi remodelado e ampliado passando a ser o Centro de Congressos de Lisboa  e assim, o espaço público nas traseiras desse Centro de Congressos, na  confluência da Avenida da Índia com a Rua da Junqueira, passou a ser a Praça dos Congressos, em resultado da deliberação de câmara de 11 de abril de 2007 e Edital municipal de 3 de maio do mesmo ano.

Foi deste modo que a edilidade lisboeta correspondeu favoravelmente a uma solicitação da Associação Parque Junqueira, associação sem fins lucrativos composta pela própria Câmara Municipal de Lisboa e a AIP – Associação Industrial Portuguesa, proprietária do Centro de Congressos de Lisboa.

Freguesia de Alcântara (Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua do Jardim Botânico da Ajuda, o primeiro de Lisboa

Freguesias da Ajuda e de Belém
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Jardim Botânico da Ajuda foi o primeiro de Lisboa, nascido no ano de 1768, e ficou registado na memória toponímica lisboeta 148 anos depois, na Rua do Jardim Botânico, que faz a ligação da Calçada da Ajuda à Calçada do Galvão, pelo Edital municipal de 26 de setembro de 1916 que oficializou 56 artérias da Ajuda.

O Jardim Botânico da Ajuda foi fundado em 1768, de acordo com o desenho do botânico italiano Domingos Vandelli (1735-1816), chamado de Pádua pelo rei D. José I, por influência de Miguel Franzini, mestre dos príncipes e com o intituito de servir para a educação destes. O espaço escolhido foram os terrenos arborizados que haviam sido da Quinta do Conde da Ponte e que D. José I em boa hora adquiriu para cultura de frutas e hortaliças necessárias ao palácio real, instalado na Ajuda após o  terramoto de 1 de novembro de 1755. No Jardim se procurou estudar e colecionar o máximo de espécies do mundo vegetal, tendo tido 5000 espécies dispostas segundo o sistema sexual proposto por Lineu, que fora mestre de Vandelli.

Em 1765, Domingos Vandelli ficou com o encargo de delinear e dirigir as obras do Real Jardim Botânico da Ajuda enquanto o ministro da Marinha,  Francisco Xavier de Carvalho, irmão do Marquês de Pombal, as devia fiscalizar. Domingos Vandelli dirigiu o então denominado Real Jardim Botânico da Ajuda de 1768 a 1774 e o 2º diretor foi o botânico Félix de Avelar Brotero, de 1811 a 1828, altura em que por ordem de D. João VI  o Jardim foi aberto ao público às quintas-feiras. Por decreto de 27 de agosto de 1836,o Real Museu e Jardim Botânico da Ajuda foi confiado à administração da Academia das Ciências de Lisboa mas passados dois anos, a partir de 1838-1839 o Jardim Botânico da Ajuda passou para a tutela da Escola Politécnica e a ser usado pelos seus alunos. Em 1874, o Jardim foi entregue à administração da Casa Real, altura em que decaiu progressivamente.

Já no século XX, em 1910, o Jardim Botânico da Ajuda passou a integrar o património nacional e em 1918 foi entregue ao Instituto Superior de Agronomia permitindo assim que em 1934, sob a direção do Prof. André Navarro, o Prof. Caldeira Cabral estabelecesse o traçado dos canteiros do tabuleiro superior, que se tinha perdido completamente. Entre 1993 e 1997, com o apoio do Prémio de Conservação do Património Europeu e do Fundo de Turismo, sob a orientação da Profª. Cristina Castel-Branco, foi restaurado o Jardim, com a recuperação da coleção botânica,  do sistema de rega e a instalação do Jardim dos Aromas.

O outro Jardim Botânico de Lisboa pertence ao Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MUHNAC) e data de 1878. Foi por iniciativa do Conde de Ficalho que em 1873 se iniciaram os trabalhos deste novo jardim que esteve aberto ao público desde 1878 e está classificado como Monumento Nacional desde 2010, integrando todo o património artístico (esculturas) e edificado que nele se encontra: Observatório Astronómico da Escola Politécnica, Edifício dos Herbários, Estufas, Palmário e ainda, a antiga estufa em madeira.

Freguesias da Ajuda e de Belém
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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Escolas Gerais: a universidade no Pátio dos Quintalinhos

O entroncamento da Calçada de São Vicente com as Escolas Gerais
Freguesias de São Vicente e de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Sob o nome de Escolas Gerais, a Universidade de Lisboa funcionou no Pátio dos Quintalinhos, no Paço do Infante Dom Henrique, antes de ser transferida para Coimbra em 1537, tendo gerado no local os topónimos Escolas Gerais, Rua das Escolas Gerais e Escadinhas das Escolas Gerais.

O olisipógrafo Luís Pastor de Macedo, na sua Lisboa de Lés a Lés explica que «Como decerto o leitor já viu, ao Bairro dos Escolares chamaríamos hoje Bairro Universitário, e as Escolas Gerais ou o Estudo Geral são a Universidade transferida definitivamente para Coimbra em tempo de El-Rei D. João III (1537). Também com certeza sabe o leitor que na Lisboa de hoje existem duas serventias públicas com nomes determinados pelo Estudo fundado por El-Rei D. Dinis: as Escolas Gerais, artéria inclassificada que pertenceu às antigas freguesias de Santa Marinha e de S. Vicente [hoje sob administração das freguesias de  Santa Maria Maior e São Vicente], que a compartilhavam, e a Rua das Escolas Gerais que pertenceu à antiga freguesia de S. Tomé, e durante algum tempo, pelo menos, também à do Salvador [hoje também na administração das freguesias de  Santa Maria Maior e São Vicente].»

A primeira universidade portuguesa foi estabelecida em Lisboa, entre 1288 e 1290, tendo D. Dinis promulgado a carta Scientiae thesaurus mirabili em que conferia vários privilégios aos estudantes do Estudo Geral de Lisboa. Localizar-se-ia então no Campo da Pedreira, uma zona no arrabalde ocidental da cidade, no espaço que hoje conhecemos entre a Rua Garrett e o Convento da Trindade. No século seguinte a Universidade foi transferida várias vezes de Lisboa para Coimbra e vice-versa. Em 1377 regressou por um longo período a Lisboa e em 1431, o Infante Dom Henrique concedeu-lhe várias casas no Pátio dos Quintalinhos, hoje com entrada pelo nº 3 da Rua das Escolas Gerais.

As Escadinhas das Escolas Gerais
Freguesias de São Vicente e de Santa Maria Maior
(Foto: Ana Luísa Alvim| CML)

O topónimo primitivo do local será Escolas Gerais, arruamento que hoje une a Rua das Escolas Gerais à Calçada de São Vicente. Dele derivou o arruamento central do sítio, a Rua Direita das Escolas Gerais como aparece mencionada no Atlas de Lisboa de Filipe Folque em 1858 e que denominamos como Rua das Escolas Gerais, pelo menos desde que o Edital do Governo Civil de Lisboa de 1 de setembro de 1859 incorporou a Rua de Marco Salgado na referida como Rua das Escolas Gerais. Esta última teve vários alargamentos a partir de uma proposta do vereador Joaquim José Alves, desde que em 1879 foi expropriada uma parte do terreno do Convento do Salvador para o seu alargamento, a que seguiram mais em 1881 e 1886.

As Escadinhas construídas para ligar a Rua Guilherme Braga à Rua das Escolas Gerais, dada a proximidade, tomaram também a denominação de Escadinhas das Escolas Gerais, e são pertença também das freguesias de  Santa Maria Maior e São Vicente, sendo o último topónimo gerado pela Universidade medieval naquele local.

Mencione-se ainda que Escolas Gerais foi também o topónimo da freguesia local até 1959, quando o Decreto-Lei n.º 42142, de 7 de fevereiro de 1959, remodelou as freguesias da Conceição e das Escolas Gerais: a Conceição ou Conceição Nova viu o seu território repartido pelas freguesias da Baixa de Lisboa, como Madalena, Mártires e São Nicolau e a freguesia das Escolas Gerais passou a designar-se São Vicente de Fora.

Os 3 topónimos com Escolas Gerais
Freguesias de São Vicente e de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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Património Cultural lisboeta na toponímia alfacinha

2018 é Ano Europeu do Património Cultural e por isso, este ano todos os nossos temas mensais estarão relacionados com um determinado património cultural lisboeta de que a toponímia alfacinha guarda memória, quer seja uma estrutura escolar, um templo religioso, um monumento, um jardim ou um pavilhão desportivo, sendo cada texto nosso um  convite a todos para conhecer e celebrar esse património alfacinha.

No corrente mês de janeiro, apresentaremos uma miscelânea de topónimos que são a montra do que iremos exibir ao longo de cada mês do ano de 2018, procurando informar e sensibilizar quem nos lê para a diversidade de património cultural que Lisboa possui e que a toponímia foi memorizando nas suas placas toponímicas, quer pela importância que os cidadãos lhe davam e assim impuseram o topónimo, quer pelo cuidado que a administração municipal colocou em preservá-lo na toponímia.

No âmbito deste tema, desde 2012, já aqui publicámos inúmeros artigos sobre diversos topónimos como, por exemplo, os seguintes:

O Alto das Conchas e conchinhas miocénicas
Arco das Portas do Mar
Alameda da Música
Alameda da Universidade
Avenida Torre de Belém
Beco das Atafonas
Beco do Colégio dos Nobres
Beco do Hospital da Marinha
Beco do Imaginário
Beco dos Lóios
Costa do Castelo
Cruzes da Sé
As Cruzes da Toponímia de Lisboa
No Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, o Património Comum do Desporto, na toponímia de Lisboa
Escadinhas da Porta do Carro
Escadinhas da Saúde
O Fado na toponímia de Lisboa
Jardim Alfredo Keil
Jardim Ducla Soares
Largo da Academia Nacional de Belas Artes
Largo da Associação Ester Janz
Largo dos Caminhos de Ferro
Largo da Cantina Escolar
Largo do Carmo
Largo do Nautilius 
Largo das Portas do Sol
Largo da Torre
Santa Maria da Luz em 4 artérias de Carnide
Património Comum do Desporto na Toponímia de Lisboa: o Bilhar e o Boxe
Património Comum do Desporto na Toponímia de Lisboa: o Ciclismo e a Esgrima
Património Comum do Desporto na Toponímia de Lisboa: Clubes na Toponímia de Lisboa
Património Comum do Desporto na Toponímia de Lisboa: os Dirigentes Desportivos
Património Comum do Desporto na Toponímia de Lisboa: Educação Física e Ginástica, Hóquei em Patins e Patinagem
Património Comum do Desporto na Toponímia de Lisboa: o Futebol
Património Comum do Desporto na Toponímia de Lisboa: os jornalistas desportivos
Património Comum do Desporto na Toponímia de Lisboa: a Natação e o Tiro
Parque Eduardo VII
Pena de Morte e Direitos Humanos na Toponímia de Lisboa
Praça Ginásio Clube Português
Praça da Ribeira
Praceta do Chinquilho
Rotunda Pupilos do Exército
Rua da Academia das Ciências
Rua da Academia Recreativa de Santo Amaro
Rua Aliança Operária
Ruas com Arcos
Rua do Arsenal
Rua de Artilharia Um
Rua Corsário das Ilhas
Rua Diário de Notícias
Rua da Estrela
As Ruas das Especiarias do Parque das Nações
Rua da Fraternidade Operária
Ruas com Igreja
Rua do Instituto Industrial
Rua do Instituto Virgílio Machado
Rua Jangada de Pedra
Rua do Jardim do Tabaco
Rua da Judiaria
Rua da Menina do Mar
Rua da Mouraria
Rua do Montepio Geral
Rua Nova do Grilo
Rua de O Século
Rua das Portas de Santo Antão
Rua da Praia do Bom Sucesso
Rua da Praia de Pedrouços
Rua de São Pedro de Alcântara
Rua dos Sapateiros
Rua da Voz do Operário
Rua da Misericórdia
Rua Centro dos Trabalhadores do Alto da Ajuda
Rua Clube Atlético e Recreativo do Caramão
Rua de São Paulo
Rua do Triângulo Vermelho
Toponomenclatura de espaços verdes: os Jardins e os Parques
Toponomenclatura do passado rural: as Azinhagas
Travessa da Fábrica dos Pentes
Travessa das Mónicas
Travessa dos Teatros
Travessa do Vintém das Escolas

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A Rua Áurea a que todos chamam Rua do Ouro

A Rua Áurea no Cartulário Pombalino de 1760
(Arquivo Municipal de Lisboa)

A pombalina Rua Áurea de 1760, topónimo oficial nascido do  primeiro diploma de toponímia de Lisboa, é pela maioria chamada como Rua do Ouro por ser de pronúncia mais fácil mas também porque outrora existiram ruas do Ouro alfacinhas.

No séc. XV,  os vereadores da cidade de Lisboa proibiram o lançamento de esterco e outras sujidades na rua do Ouro, que era a Betesga, estipulando pena por incumprimento, conforme lavrou o escrivão da Câmara Gomes Eanes de Monte Agraço.

A partir da 2ª metade do século XVI, Lisboa começa a apresentar uma Rua Nova dos Ourives do Ouro, também designada Rua da Ourivesaria do Ouro (em 1577 e em 1700), aberta sobre um antigo esteio do Tejo que D. João II mandou parcialmente tapar, talvez situada na área hoje ocupada pelas Ruas de São Nicolau e de São Julião, ou ainda, como Rua dos Ourives do Ouro (por exemplo, em 1577, 1600, 1602, 1619, 1663, 1686, 1688, 1692, 1702, 1704, 1705, 1707, 1719).

Após o Terramoto de 1755 nasceu a nova Rua Áurea, rasgada e integrada no todo simétrico da Baixa Pombalina, em resultado da Portaria de 5 de novembro de 1760, de D. José I, que atribuiu toponímia a todos os novos 14 arruamentos entre a Praça do Rossio (hoje Praça D. Pedro IV) e a Praça do Comércio, bem como regulamentou a distribuição dos vários artesãos e comércios por eles.

No séc. XIX, seguramente a partir de 1849 passou a ser conhecida vulgarmente como Rua do Ouro, tanto mais que em 1906 circulavam postais com o Banco de Portugal e Rua do Ouro na legenda. Aliás, nos postais da primeira década do séc. XX era comum encontrar-se a imagem dos estabelecimentos bancários que a artéria albergava: o Monte Pio dos Empregados Públicos (1840), o Banco de Portugal (na última metade do séc. XIX), o Banco Lisboa & Açores (1907), como mais tarde, também aconteceu com a Agência Havas (1931).

A Rua Áurea em 2012 –
Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Artur Matos)

As Escadinhas da Rocha e a Escadaria José António Marques

A Escadaria José António Marques – Freguesia da Estrela
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A ligar a então Rua 24 de Julho (desde 1928 é a Avenida 24 de Julho) ao Jardim das Albertas (desde 1925 é o Jardim Nove de Abril) foi construída uma escadaria entre 1887 e 1892, vulgarmente conhecida por Escadinhas da Rocha ou Escadinhas da Rocha Conde de Óbidos.

Quase um século depois, em 1985, foi atribuído ao espaço o topónimo Escadaria José António Marques pelo Edital municipal de 21/02/1985, para homenagear o fundador da Cruz Vermelha Portuguesa (Lisboa/29.01.1822 – 08.11.1884/Lisboa) no centenário do seu falecimento, junto da sede a instituição no Jardim Nove de Abril, instalada desde 1919 no palácio do primeiro Conde de Óbidos, D. Vasco de Mascarenhas, construído no segundo quartel do séc. XVII.

A edilidade lisboeta no programa das condições para fornecimento de uma grade de ferro para a parte superior da escadaria, de acordo com o desenho de Augusto César dos Santos, em 5 de setembro de 1891, denomina-a escadaria à Rocha do Conde de Óbidos enquanto os postais de 1910 a designam como Escadas da Rocha de Conde d’Óbidos e os de 1920 apenas com Rocha de Conde d’Óbidos. A coincidência de ambos os topónimos radicarem no mesmo palacete faz com que ainda hoje ambos os topónimos sejam usados para este arruamento.

As Escadinhas da Rocha, em construção, em 1891 (Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

 

A Rua da Cooperativa de Caselas e a Rua Sara Afonso

Freguesia de Belém
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Desde 1988 que a Rua Sara Afonso é o topónimo oficial da artéria que antes era vulgarmente conhecida por Rua da Cooperativa de Caselas, razão para que nos últimos 29 anos as duas denominações tenham coexistido no Bairro de Caselas.

Como era hábito fazer-se para os bairros sociais na década de 50 do século passado  também o Bairro de Caselas, traçado por  Couto Martins e construído em 1949, recebeu toponímia numérica para os seus arruamentos pelo Edital municipal de 15 de março de 1950. Entretanto, chegados os anos 80, a então Junta de Freguesia de São Francisco Xavier (hoje o território é pertença administrativa da Junta de Freguesia de Belém) solicitou à edilidade que fossem atribuídos topónimos aos arruamentos do Bairro de Caselas e assim sucedeu através do Edital municipal de 20 de abril de 1988 que atribuiu 12 topónimos em ruas, sendo 7 de mulheres, a saber:  a pintora Sara Afonso e 1ª mulher a frequentar as tertúlias de A Brasileira (Rua da Cooperativa de Caselas), a médica Carolina Ângelo e  1ª mulher a votar em Portugal (Rua 1), a republicana setecentista Leonor Pimentel (Rua 2), a pedagoga Alice Pestana (Rua 3),  Virgínia Quaresma a 1ª jornalista portuguesa (Rua 4), a 1ª notária portuguesa Aurora de Castro (Rua 6) e a escritora Olga Morais Sarmento (Rua 7).

Talvez por a Rua Sara Afonso não ter substituído um topónimo numérico, conforme era anseio dos moradores, mas antes um topónimo que popularmente lhe fora dado pelos residentes se tenha mantido na memória  da população do Bairro de Caselas.

Imagem relacionada

Família, 1937 (óleo sobre tela)

A Rua Sara Afonso, que liga a  Rua Carolina Ângelo à Rua Padre Reis Lima, homenageia  Sarah Affonso (Lisboa/ 13.05.1899 – 14.12.1983/Lisboa) a pintora alfacinha que foi uma das últimas discípulas de Columbano na Escola de Belas Artes de Lisboa, a que somou duas estadias em Academias livres de Paris (1923-1924 e 1928-1929) e a frequência das tertúlias de A Brasileira, nos anos trinta do séc. XX, que até aí eram território masculino.

Sara desenvolveu um estilo oriundo do imaginário popular minhoto, zona onde viveu dos 4 aos 15 anos, a que aliou uma intensa temática de noivados, maternidades e famílias, assim integrando a   segunda geração de pintores modernistas portugueses, com Bernardo Marques, Mário Eloy ou Carlos Botelho. Acabou  por  abandonar a pintura no final da década de quarenta, tendo ainda sido galardoada com o Prémio Amadeo de Sousa Cardoso (1944) do SNI. Na década seguinte regressou à ilustração de obras de literatura infantil com A Menina do Mar de Sophia de Mello Breyner Andresen, para além de na sua carreira ter colaborado no grafismo das revistas Presença e Eva. A sua obra pictórica está representada no Museu do Chiado, no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, bem como nos Museus de Bragança e de Amarante, tendo sido agraciada com Ordem de Santiago de Espada (1981). Dá também nome à Escola Básica e Jardim de Infância sita na Rua Almada Negreiros, nos Olivais.

Na sua vida pessoal, casou em 1934 com José de Almada Negreiros, passando a usar o nome de Sarah Affonso de Almada Negreiros, tendo tido dois filhos (José Afonso e Ana Paula) e residido no nº 42 da Rua de São Filipe Nery.

Freguesias de Belém
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O setecentista Largo das Duas Igrejas e o Largo do Chiado de 1925

O Largo das Duas Igrejas num bilhete postal de 1906

Largo das Duas Igrejas é um topónimo setecentista que perdurou até aos dias de hoje, como as duas igrejas que o originaram, apesar de oficialmente o arruamento se designar Largo do Chiado desde 1925.

Era aqui a Porta ou Portas de Santa Catarina, construída na muralha fernandina entre 1373 e 1375, com as suas duas torres. Depois do séc. XVI as Portas de Santa Catarina coexistiram com a denominação Chiado, já que segundo Norberto de Araújo «Depois do século XVI essas designações foram simultaneamente usadas, havendo contudo um período, pelo menos, de distinção: Porta (ou Portas) de Santa Catarina – era o actual Largo do Chiado; Rua das Portas ou Rua Direita de Santa Catarina – era o troço da actual Rua Garrett, até onde se rompe a Rua Ivens de hoje; Rua do Chiado se chamava apenas ao troço desde esta confluência até ao topo, isto é: ao Convento do Espírito Santo, depois Palácio Barcelinhos, e hoje Armazéns do Chiado.»

As Portas de Santa Catarina foram demolidas entre 1702 a 1707 e o local começou a ser  conhecido como Praça do Loreto, embora com o tempo tenha passado a ser mais usada a denominação Largo das Duas Igrejas por referência aos dois templos ali existentes: a Igreja italiana de Nossa Senhora do Loreto (de 1518 e restaurada em 1785) e a Igreja de Nossa Senhora da Encarnação (de 1708 e restaurada em 1784). O Cartulário Pombalino menciona a artéria como Rua das Duas Igrejas. De 1771 a 1853, o o Largo das Duas Igrejas tinha em si implantado o Chafariz do Loreto,  encimado pela estátua de Neptuno,  da autoria de Machado de Castro, que hoje está no centro do Largo de Dona Estefânia.

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior (Foto: NT do DPC)

Já no séc. XX, em 1925, a edilidade lisboeta atribuiu a este arruamento a denominação de Largo do Chiado, com a legenda «António Ribeiro Chiado – Poeta do Século XVI», através da publicação dos Editais de 28 de abril e 19 de maio, homenageando assim o autor do Auto das Regateiras, tendo também a vereação municipal ali erguido uma estátua da autoria de Costa Mota (tio), inaugurada em 18 de dezembro desse mesmo ano de 1925.

Refira-se que António Ribeiro, conhecido como Poeta Chiado, apesar de ter professado na Ordem dos Franciscanos, abandonou a vida religiosa e veio viver para Lisboa, tornando-se conhecido como poeta popular e boémio, sendo até mencionado no Auto de El Rei Seleuco de Camões, o poeta maior para os republicanos. António Ribeiro Chiado dedicou-se sobretudo à poesia jocosa e à sátira sobre  a vida social do período em que viveu, sendo que em 1925 faria sentido para a vereação republicana a proximidade entre os poetas Camões e Chiado ser repetida na toponímia da cidade.

O Largo do Chiado nos anos 70 do séc. XX 

A longa Avenida de Cabo Ruivo a Marechal Gomes da Costa

Freguesias do Parque das Nações, dos Olivais, de Marvila e de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Um troço da 2ª Circular que começava em Cabo Ruivo foi conhecido como Avenida de Cabo Ruivo até oficialmente ganhar o nome de Avenida Marechal Gomes da Costa, no ano de 1966, mas ambos os topónimos, o popular e o oficial, continuaram até hoje na boca dos lisboetas.

Conforme se pode observar na planta de Lisboa de Júlio Silva Pinto existia em 1907 uma Quinta de Cabo Ruivo. Em 1944, o arqtº municipal Perez Fernandez realizou um estudo arquitetónico para o viaduto da 2ª circular em Cabo Ruivo e a partir de 1960 começou a execução do troço da 2ª Circular no lanço da rotunda da Praça do Aeroporto e Cabo Ruivo

E pelo Edital de 27 de maio de 1966, um longo troço da 2ª Circular que começava em Cabo Ruivo, na Avenida Marginal (Rua Cintura do Porto de Lisboa) e terminava na Praça do Aeroporto passou a ser a Avenida Marechal Gomes da Costa. Este topónimo resultou de uma sugestão da Liga dos Combatentes da Grande Guerra e do filho do homenageado, 37 anos após o falecimento do Marechal, e 40 anos menos um dia depois do golpe de Estado de 28 de maio de 1926 de que Gomes da Costa foi um dos mentores para de seguida ser Presidente da República, de 17 de junho a 9 de julho de 1926.

Freguesias do Parque das Nações, dos Olivais, de Marvila e de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

De seu nome completo Manuel de Oliveira Gomes da Costa (Lisboa/14.01.1863 – 17.12.1929/Lisboa)  foi um militar que após um interregno iniciado em 1921 regressou à politica no 28 de maio de 1926, lançando em Braga o grito «Às armas, Portugal!» e comandando as tropas que do norte chegaram a Lisboa.  Em 17 de junho um golpe de Estado depôs o comandante Mendes Cabeçadas e foi Gomes da Costa que assumiu a presidência da República nesse mesmo dia, da qual também acabou por ser deposto, em 9 de julho, por outro golpe de Estado.

O Marechal Gomes da Costa na Praça do Comércio em 1926
(Foto: Amadeu Ferrari, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Campo Santana dos Mártires da Liberdade

Freguesia de Arroios
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O antigo Campo de Santana, por mor do Monte de Sant’Ana com a ermida da mesma invocação, ainda perdura como nome pelo qual é conhecido o Campo dos Mártires da Pátria, que no século XIX da sua atribuição também era denominado como Campo dos Mártires da Liberdade.

O Campo de Santana  passou a designar-se Campo dos Mártires da Pátria, pela deliberação camarária de 5 de junho e consequente Edital municipal de 11 de julho de 1879, em memória dos 11 companheiros de Gomes Freire de Andrade suspeitos de conspiração contra o general Beresford, que neste local foram enforcados  há 200 anos, no dia 18 de outubro de 1817. No decorrer do século XIX, a memória ainda viva destes acontecimentos também cognominava popularmente a artéria como Campo Mártires da Liberdade.

Refira-se que no ano da atribuição do topónimo Campo dos Mártires da Pátria, em setembro de 1879, vários vendedores da feira semanal do local indicaram o Campo de Santa Clara como o local mais indicado para a transferência deste mercado, assim como vários proprietários e moradores no Campo de Santa Clara pediram a mesma transferência, mesmo que passados 5 anos, os logistas, negociantes e proprietários do Campo dos Mártires da Pátria tenham solicitado que se voltasse à situação anterior face aos prejuízos que tinha sofrido desde então.

Este Campo foi também alvo de um projeto de ligação a São Pedro de Alcântara, por um viaduto metálico de 9 metros de largura,  conforme ofício da Repartição Técnica municipal de Ressano Garcia de 1882. Em 1910, a edilidade lisboeta comprou o prédio com os nºs 29 e 37 do Campo dos Mártires da Pátria para a abertura da Rua Júlio de Andrade. E a partir de 1944 começou a ser arranjado o  Jardim Braamcamp Freire, sito no Campo dos Mártires da Pátria, de acordo com o traçado pelo arquiteto municipal Perez Fernandez.

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)