A Rua da taberna da Castiça

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua da Castiça guarda a memória da dona de uma taberna  do Lumiar,  que durante bastantes anos do séc. XX ali serviu a sua clientela, junto à quinhentista casa de veraneio do Marquês de Angeja.

O topónimo nasceu pelo Edital de 25/06/1985, no troço da Estrada da Ameixoeira compreendido entre a Rua do Lumiar e a Rua Alexandre Ferreira, a partir de uma sugestão do munícipe  Pedro Lourenço, que justificava o pedido por a comerciante ser uma figura muito estimada na freguesia do Lumiar.

Rua Direita do Lumiar, com a publicação do Edital municipal de 8 de junho de 1889, passou a ser a Rua do Lumiar e até ao começo  dos anos 80 do século XX, era um arruamento fértil em diversos estabelecimentos que na sua maioria ocupavam os pisos térreos das casas desta rua. Um deles era a taberna da Castiça, no começo de uma artéria logo ao lado da Rua do Lumiar.  Ao lado desta taberna fica a Vila Adelina, a antiga casa de campo do Marquês de Angeja, ali erguida em data entre 1510 e 1530.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

A Rua do sentimento dum poeta e comerciante ocidental do final do séc. XIX

Freguesia da Penha de França - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Penha de França – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

Cesário Verde, autor do poema em 4 partes «O Sentimento dum Ocidental» e também comerciante no negócio familiar da Rua dos Fanqueiros, é topónimo da Penha de França desde o ano de 1933, quarenta e sete anos após o seu falecimento.

Foi pelo Edital municipal de 18 de julho de 1933 que Cesário Verde passou a dar o seu nome à Rua nº 2 do Olival do Monte Alperche à Penha de França, entre a Avenida General Roçadas e a Rua da Penha de França. O mesmo Edital colocou  nos restantes arruamentos o poeta alentejano Conde de Monsaraz (na Rua nº 1),  o estudioso de Camões Visconde de Juromenha (Rua nº 7), o Padre Sena de Freitas que foi o primeiro biógrafo de Camilo Castelo Castelo Branco (nº 8), os geólogos Carlos Ribeiro ( na Rua nº 3) e Nery Delgado (nº 6), bem como os arqueólogos  Estácio da Veiga (na nº 4) e Martins Sarmento (na nº 5).

Por Columbano, na 1ª edição do seu Livro

José Joaquim Cesário Verde (Lisboa/25.02.1855 – 19.09.1886/Lisboa), nascido no dia de São Cesário no nº 16 da Rua da Padaria, na antiga Freguesia da Madalena, e falecido devido a tuberculose na Estrada do Paço do Lumiar , era filho do lavrador ( foreiro do Marquês de Pombal na zona de Caxias ) e comerciante ( da loja de ferragens e quinquilharias da Rua dos Fanqueiros n.ºs 2-8) José Anastácio Verde e de sua mulher Maria da Piedade David dos Santos.  Aos 18 anos de idade, Cesário matriculou-se no Curso Superior de Letras mas apenas o frequentou alguns meses , embora aí tenha conhecido Silva Pinto,  que ficou sempre seu amigo, garantindo a publicação das suas poesias em diversos jornais, bem como a organização de uma compilação de poemas no ano seguinte à morte do poeta, publicada em 1887 com o título de O Livro de Cesário Verde.

Cesário Verde frequentava a tertúlia dos novos no Martinho dos escritores, no Largo do Camões (hoje, Praça D. João da Câmara), por detrás do teatro D. Maria II e ainda em vida publicou inúmeras poesias no Diário de Notícias, no Diário da Tarde, na Tribuna de Lisboa, A Folha Nova, O Porto, nos semanários A HarpaBranco e Negro e nas revistas O Ocidente e Renascença, bem como na coimbrã Mosaicos, em quantidade a dobrar do que se encontra no seu livro póstumo. Cesário retratou o campo mas também a cidade de Lisboa, partilhando as impressões das suas ruas e situações quotidianas, num realismo de imagens extremamente visuais.

Começou a  ter sintomas de tuberculose em 1877, uma doença então incurável, que já lhe vitimara o irmão e a irmã  e assim lhe serviu de inspiração para o poema «Nós» (1884).

De índole republicana, Cesário foi durante a I República homenageado em Lisboa, nos anos vinte, com  o Jardim Cesário Verde na Praça Ilha do Faial, na Freguesia de Arroios, a que em 1955 foi acrescentado um busto do poeta, da autoria de Maximiano Alves.

Freguesia da Penha de França (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Penha de França
(Foto: Sérgio Dias)

A Praça da Ribeira ou Ribeira Nova

Praça da Ribeira em 1960
(Foto: Artur João Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

Hoje, na confluência da Avenida 24 de Julho, Rua dos Remolares, Travessa da Ribeira Nova e Rua da Ribeira Nova encontramos a Praça da Ribeira ou Ribeira Nova, topónimo derivado da proximidade ao Mercado da Ribeira Nova que para aqui  começou a ser transferido a partir de 1771 do Mercado da Ribeira Velha.

O sítio da Ribeira Nova, junto ao Tejo, encontra-se já referenciado nas plantas relativas à descrição das freguesias da cidade resultantes da remodelação paroquial da cidade de 1770. O Cais da Ribeira fora construído em 1768 e o decreto assinado por D. José I em 1771, ordenava a transferência das bancas de peixe, hortícolas e frutícolas do Mercado da Ribeira Velha, junto ao Campo das Cebolas, para o Mercado da Ribeira Nova, na praia de São Paulo, junto à nova zona pombalina reconstruída após o  terramoto de 1755.

Já nos séculos XIX e XX são diversas as denominações atribuídas ao espaço que hoje temos como Praça da Ribeira. Na planta de Filipe Folque, de 1856, o arruamento está identificado como Regueirão da Ribeira Nova, tal como surge na planta de  1859 de Francisco e César Goullard embora num plano de alteração de 1856, do prédio com o nº 17, aparece identificada como Praça da Ribeira Nova e, em 1902, numa planta municipal, é mencionada como Travessa da Ribeira.

Ao lado da Praça da Ribeira, ficou o Mercado da Ribeira que hoje conhecemos, com projeto de Ressano Garcia aprovado em sessão de Câmara de 1876, e construído a partir de 1877,  sendo inaugurado a 1 de janeiro de 1882. A 7 de junho de 1893 um incêndio destruiu parte do Mercado a que se seguiu uma reconstrução e obras de melhoramentos desde 1902 até 1930. A última remodelação do mercado foi inaugurada em 18 de maio de 2014.

Parte do espaço da Praça da Ribeira  foi ocupado  em 1899 pela construção do edifício da Assistência Nacional aos Tuberculosos, obra da vontade da  Rainha D. Amélia.

Sobre a artéria, Norberto de Araújo  recorda que «Este local, antes de se levantar o edifício [da Assistência Nacional aos Tuberculosos], era, por assim dizer, público, havendo-se instalado nele, há cerca de 50 anos [finais do séc. XIX], um destes circos ambulantes, que – por vizinho da Ribeira Nova – foi conhecido pela pitoresca designação do “Circo do Carapau”.» O mesmo olisipógrafo caracteriza o sítio nos anos 30 do século XX da seguinte forma: «Abundavam as baiucas e os “cafés de lepes”; eram frequentes as rixas, não sendo o sítio, pelo que se sabe das crónicas, muito recomendável.»

Em 1946, a Comissão de Toponímia propôs mesmo que o arruamento denominado Praça da Ribeira Nova, por estar no prolongamento da Travessa da Ribeira Nova, passasse com esta a constituir um único arruamento com a denominação de Travessa da Ribeira Nova. Todavia esta alteração toponímica não chegou a concretizar-se.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

A Travessa de José António Pereira e o Palacete Pombal

O Beco do Cais de José António Pereira na planta de 1856 de Filipe Folque

José António Pereira, negociante em Lisboa e São Tomé no séc. XIX, construiu um prédio próximo da Avenida 24 de Julho, que após o vender ficou conhecido como Palacete Pombal, e em cuja proximidade está a Travessa que guarda o nome do comerciante.

A Travessa José António Pereira, que liga a Avenida 24 de Julho à Rua das Janelas Verdes, foi o topónimo dado por deliberação camarária de 8 de maio e consequente Edital de 8 de junho de 1889 ao Cais de José António Pereira, na então freguesia de Santos-O-Velho.

O Cais de José António Pereira, como era vulgarmente conhecido, devia o seu nome a um prédio que o comerciante construíra na 1ª metade do séc. XIX no Aterro (onde hoje temos a Avenida 24 de Julho) e já aparece assim referido em documentos municipais – como vistorias, escrituras de vendas de terrenos – de 1838, 1845, 1878, bem como no levantamento topográfico de Francisco Goullard de 1881. Já Filipe Folque, em 1856, no seu  Atlas de  Lisboa identifica a artéria como Beco do Cais de José António Pereira, o que condizia mais com o formato do arruamento.

A título de curiosidade refira-se que em 1905 José Dugas obteve licença municipal para a colocação de uma mesa de refrescos na então Rua 24 de Julho, em frente da Travessa de José António Pereira.

Segundo Gomes de Brito, José António Pereira era «Negociante em Lisboa, construtor do edifício que deu o seu nome ao Caes em frente do mesmo existente, ao longo ao actual Atêrro (Avenida 24 de Julho). Êste negociante, segundo as informações de Lopes de Lima (…), fundou em 1803 na Ilha de S. Tomé um estabelecimento rural e mercantil (…)»  e terá procurado ligar comercialmente a Ilha de S. Tomé com Portugal.

Já de acordo com Norberto de Araújo, José António Pereira era um «capitalista e comerciante» que na 1ª metade do séc. XIX mandou construir um edifício nos nºs 37 a 39 da Rua das Janelas Verdes, remodelando edificações anteriores do local. Mais tarde, vendeu este prédio a Joaquim José Fernandes, que sobre ele ergueu o imóvel que ficou conhecido como Palacete Pombal ou Palacete Burguês, para nele habitar a sua filha – Maria do Carmo Fernandes (1858 – 1931) – casada com D. António de Carvalho Melo (1850 – 1911), o 6º Marquês de Pombal. Em 1937, o detentor do título de Marquês de Pombal arrendou o palacete à Mocidade Portuguesa e passou a viver no palacete contíguo e nos anos 90 do séc. XX, lá funcionava a Escola Superior de Conservação e Restauro do Instituto José de Figueiredo.

A Travessa de José António Pereira hoje – Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua de Afonso Alves, o Merca-tudo seiscentista com capela no Convento da Esperança

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Mário Marzagão)

Afonso Alves, mercador do séc. XVI que ganhou a alcunha de Merca-tudo, é quem dá o seu nome ao arruamento que liga hoje o Largo do Conde Barão à Avenida Dom Carlos I: a Rua do Merca-tudo.

O Mestre Júlio de Castilho foi quem primeiro apontou a origem do topónimo nesse opulento mercador. Luís Pastor de Macedo acrescentou que «Esse homem instituiu capela no próximo convento da Esperança» assim como «por ele ter casado nobremente a sua herdeira, com um Andrade, da antiga Casa da Torre da Sanha, veio a ser administrador da dita capela (assim como de outros vínculos)» o político regenerador Andrade Corvo, também presente na toponímia de Lisboa.

Repara-se na proximidade da Rua do Merca-tudo com as instalações do Regimento de Sapadores Municipais, onde outrora foi o Convento da Esperança. O Convento de Nossa Senhora da Piedade da da Boa Vista, fundado em 1524, ficou mais conhecido como Convento da Esperança, por ter sede na sua igreja a confraria de de pilotos e mestres do mar de Nossa Senhora da Esperança.

O Convento da Esperança era recolhimento para senhoras nobres, por cláusula testamentária de D. Isabel de Mendanha, casada com D. João de Meneses. Em 1551, o Convento tinha 37 freiras da Ordem de Santa Clara, uma capela com as suas obrigações e duas confrarias. Ficou conhecido por Nossa Senhora da Esperança, devido à irmandade aí criada sob a referida invocação. Com a morte da última freira, em agosto de 1888, o Estado cedeu o conjunto ao município de Lisboa, em novembro: para construir uma padaria municipal, abrir um arruamento que ligasse o aterro da Boavista com o Largo das Cortes (hoje é a Avenida D. Carlos I) e urbanizar as restantes áreas. Em vez da padaria foram sendo instaladas oficinas do serviço de incêndios, até 1891. Com algumas estruturas do extinto convento, o novo edifício da estação de serviço nº 1 dos bombeiros, conhecido como Caserna da Esperança, ficou concluído em 1900.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

A quinhentista Travessa da Espera dos antigos joalheiros da Coroa e do Farta-Brutos

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

A quinhentista Travessa da Espera, no Bairro Alto, ainda nos dias de hoje alberga diversos comércios, de que se destacam o  restaurante Farta Brutos desde 1904, bem como uma loja  dos antigos joalheiros da Coroa – Leitão & Irmão – que desde 1887 se estabeleceram em Lisboa.

Sobre o significado do topónimo desta artéria que liga a  Rua da Misericórdia à Rua da Atalaia, ou seja, que faz a ligação do exterior ao interior do Bairro Alto, e que assim aparece denominada logo nas suas primeiras plantas, apenas se podem fazer suposições. Seria este arruamento o escolhido como ponto de encontro para se entrar neste Bairro implantado extra-muros mas adjacente à cerca fernandina, a partir da Rua Larga de São Roque [hoje, Rua da Misericórdia]?…

Recorde-se que o Bairro Alto de São Roque, de 1513, resulta da expansão urbana quinhentista próxima de uma porta da muralha fernandina e caracteriza-se por traçado quase ortogonal, com um esquema hierarquizado de ruas e travessas, em que as primeiras são eixos estruturantes perpendiculares ao rio e as travessas, os eixos secundários paralelos ao Tejo. A definição clara dos limites do Bairro em relação à cidade envolvente, manteve-o inalterado, único e original até aos nossos dias. Talvez a Travessa da Espera fosse o ponto de encontro para entrar nesse mundo íntimo do Bairro Alto de São Roque.

Na década de trinta do séc. XX, o olisipógrafo Norberto de Araújo caracterizou esta Travessa de uma forma que parece indiciar a predisposição para ponto de encontro: «A Travessa da Espera – pela qual vamos sair do interior do Bairro Alto – e que liga a Rua da Atalaia com a Rua Larga de S. Roque, é das serventias do Bairro mais movimentadas e tradicionais de turbulência. Porquê? – perguntas tu. Pela circunstância de ser uma saída natural do íntimo do sítio bairrista para o exterior, por S. Roque. Foi sempre servida por baiúcas de esquina, que desapareceram; hoje possue dois restaurantes pequenos, bem frequentados, de fundação recente em relação à antiguidade do sítio, mas sem nenhuma característica típica: o “Primavera“, e o “Farta-Brutos”, respectivamente nos nºs 45 e 53, êste mais antigo».

O Farta Brutos, no segundo quarteirão da Travessa da Espera, conforme Esculápio afirmou em 1941 numa conferência no Grupo Amigos de Lisboa, era uma «baiúca instalada em uma loja para a qual se descia por dois degraus, e administrada por um galego hercúleo, antigo cosinheiro de bordo, casado com uma mulher muito franzina que servia às mesas. Chamam-me o Farta Brutos, dizia o galego, para me chamarem bruto, quando, afinal, os brutos são êles. A casa era muito bem freqüentada por gente de jornais e de teatros. »

Já no primeiro quarteirão, nos 8 a 14, encontramos hoje a loja da oficina da joalharia Leitão & Irmão, ocupando parte do espaço onde foi a Imprensa Minerva – nos nºs 12 a 14 – em que se imprimia o António Maria, de Rafael Bordalo Pinheiro, e no qual Esculápio trabalhou.

A portuense Casa Leitão, na altura do cerco do Porto (1832 -1833), ocasionou relações do proprietário José Teixeira da Trindade com D. Pedro IV de Portugal e I do Brasil, que cinquenta anos depois lhe concedeu o título de Ourives da Casa Imperial do Brasil. Cerca de 15 anos depois, em 1 de dezembro de 1887, D. Luís I,  nomeou-os Joalheiros da Coroa Portuguesa, pelo que a Casa Leitão  se transferiu do Porto para Lisboa nesse ano e estabeleceu a sua primeira loja no então conhecido popularmente Largo das Duas Igrejas [hoje, Largo do Chiado]. Referia-se que a ourivesaria produziu uma baixela criada por Columbano Bordalo Pinheiro e em 1917, um faqueiro de prata com peças desenhadas por Jaime de Castro Leitão e René Lalique.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

 

Da estrada que vai para Cata que Farás à seiscentista Rua do Alecrim da Fábrica de Sant’Anna

Rua do Alecrim, no cruzamento com o Largo do Barão de Quintela, em 1965
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

A quatrocentista Estrada que vai ter a Cata que Farás tornou-se na setecentista Rua do Alecrim e desde 1916, acolhe no seu nº 95 a loja da Fábrica de Sant’Anna,  que comercializa produtos de cerâmica portuguesa.

A Rua do Alecrim que nasce na Praça Duque de Terceira e sobe até à Praça Luís de Camões, de acordo com o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo, era no final do séc. XV «a estrada que vay ter a Cata que farás», para ser no séc. XVII a Rua do Conde ou a Rua Direita do Conde, «aparecendo pela primeira vez em 1693 a denominação da rua Direita do Alecrim». Após o terramoto de 1755, segundo Júlio de Castilho, foi conhecida como a Rua das Duas Igrejas. No Atlas da Carta Topográfica de Lisboa, de 1856, de Filipe Folque, surge como Rua do Alecrim, topónimo floral que vingou até aos nossos dias, nesta artéria paralela à também floral Rua das Flores.

A Fábrica de Sant’Anna produz azulejos e faianças artesanais, mantendo os mesmos processos desde 1741, data da sua fundação nas terras de Sant’Anna, próximas da Basílica da Estrela, numa pequena olaria de barro vermelho. Após o Terramoto de 1755 e dada a necessária reconstrução de Lisboa,  o azulejo tornou-se moda, já que  quando comparado com outros revestimentos como a pedra tinha um preço mais  baixo e assim se generalizou na decoração das fachadas de muitos prédios em Lisboa aumentando a produção da Fábrica de Sant’Anna. No início do século XX a fábrica teve de ser deslocada para a Rua da Junqueira, de onde vinte anos depois partiu para a Calçada da Boa-Hora. Em 1916 abriu também uma loja na Rua do Alecrim, no rés-do-chão de um palácio registado no Inventário Municipal do Património.

Sobre o topónimo Alecrim falta referir que existe também a Travessa do Alecrim, a ligar a Rua do Alecrim à Rua das Flores, desde a publicação do Edital municipal de 31/12/1885 , que veio substituir a Travessa do Cata que Faraz que até 09/02/1882 fora denominada como Travessa do Catefaraz.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

O boticário, o barbeiro e o vendedor de pastéis de Belém na toponímia da Ajuda

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias)

O boticário Horta e Silva, o barbeiro José Maria Preto e o vendedor ambulante de bolos da zona, Zé Pincel, figuras locais do séc. XIX, integram a toponímia da Ajuda, no Bairro do Caramão e na Calçada da Ajuda, os dois primeiros desde a publicação do Edital municipal de 18/12/1989 e o terceiro, por nomeação popular.

A Rua Horta e Silva perpetua a memória do boticário – hoje seria o farmacêutico – da Ajuda, que também fabricava graxa, muito procurada pelos quartéis da zona. A sua fábrica de graxa funcionava no Pátio Zé Pincel, que se localizava no nº 246 da Calçada da Ajuda, pelo que também era conhecido como Pátio da Graxa. Nesse pátio oriundo do séc. XVIII e de denominação popular, vivia Zé Pincel, um conhecido vendedor ambulante de bolos: de pastéis de Belém e de raivas do Bom Sucesso. A Rua Horta e Silva, com a legenda «Boticário», deu nome à Rua 5 do Bairro do Caramão da Ajuda, e hoje liga a Rua Hermínia Silva e a Rua da Preta Constança.

José Maria Preto, foi um topónimo atribuído com a legenda «Barbeiro Popular», o que indica que o seu comércio era uma barbearia. Deu nome à Rua 11 do Bairro do Caramão da Ajuda, que começa na Rua Horta e Silva.

Os arruamentos do Bairro Social do Caramão da Ajuda foram cunhados com toponímia numérica pelo Edital municipal de 8 de fevereiro de 1949, como na época se usava fazer para os bairros sociais. Mas 40 anos mais tarde passaram a ter outras denominações no seguimento de uma resolução da Comissão Municipal de Toponímia para recuperar figuras populares e tradicionais para a toponímia da zona ocidental de Lisboa, conforme se pode ler na Ata da reunião: «Aberta a reunião, o presidente da Comissão informou ter recebido do Gabinete de Estudos Olisiponenses o estudo sobre a antiga toponímia dos arruamentos dos bairros do Caramão da Ajuda, Serafina e da G.N.R. que, a seu pedido, foi elaborado pela Dr.ª Eunice Relvas. A Comissão manifestou o seu apreço pelo valioso estudo apresentado, revelador de um trabalho de pesquisa que muito engrandece a sua autora e que contribuirá para uma desejável recuperação da toponímia mais tradicional de Lisboa.»  Assim, para além dos topónimos já referidos do boticário e do barbeiro, nos restantes arruamentos do Bairro ficaram a Rua da Preta Constança, a Rua Rainha das Ilhas das Cobras, a Rua Rainha do Congo, a Rua de Nossa Senhora da Ajuda, a Rua das Chaminés d’El-Rei, a Rua dos Vaga-Lumes, a Rua dos Archeiros, a Rua José Pinto Bastos e a Rua Pedro Augusto Franco.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias)

José Rovisco Pais da Cervejaria Trindade e da Maternidade alfacinha

Freguesias do Areeiro e de Arroios
(Foto: Sérgio Dias)

A Avenida Rovisco Pais, repartida pelas freguesias do Areeiro e de Arroios, perpetua em Lisboa o grande proprietário rural de Pegões, comerciante da Fábrica de Cerveja da Trindade e benemérito da Maternidade Alfredo da Costa e dos Hospitais Civis de Lisboa.
Esta atribuição toponímica  teve lugar no próprio ano da morte de Rovisco Pais, através do Edital municipal de 25 de outubro de 1932, fixando-o no prolongamento da Avenida Duque de Ávila, entre a Rua Visconde de Santarém e a Avenida Manuel da Maia.

O olisipógrafo Norberto de Araújo, nas suas Peregrinações em Lisboa,  dá-nos uma imagem do contexto urbanístico desta avenida na década do seu nascimento : «Ora agora nos embrenhamos, a nascente, na urbanização gloriosa da nova Lisboa da década de 30 dêste século. São dois bairros, um, na planta, em forma oval – o Bairro Social do Arco do Cego, circundado pelas Avenidas D. João I [a Avenida Marconi de hoje] e do México, e que tem por remate a Praça do México [a Praça de Londres de hoje]; outro, em ogiva, contornado pelas Avenidas Rovisco Pais e Dr. António José de Almeida, aquêle onde se ergue o Instituto Superior Técnico (…)».

José Rovisco Pais (Casa Branca/16.10.1862 – 1932/Lisboa) deixou a sua marca na capital  por ser o proprietário da conhecida Fábrica de Cerveja da Trindade. Manuel Moreira Garcia – um galego que criara em 1836 a Fábrica de Cerveja da Trindade e com abertura de balcões ao público em 1840- passou o comércio a seu filho Domingos Moreira Garcia, cuja morte levou alguns empregados a constituir uma sociedade para explorar o negócio, com o apoio de Rovisco Pais, que acabou por ficar com todo o negócio, pelo que em 1932 quando faleceu foi a Cervejaria posta em hasta pública.

Rovisco Pais entregou a  Augusto Monjardino um donativo de mil e quinhentos contos para se concluir a construção da Maternidade de Alfredo da Costa, assim como por disposição testamentária, legou 10 mil contos – o que era uma fortuna na época – para os Hospitais Civis de Lisboa fazerem assistência aos necessitados.A Avenida Rovisco Pais, repartida pelas freguesias do Areeiro e de Arroios, perpetua em Lisboa o grande proprietário rural de Pegões, comerciante da Fábrica de Cerveja da Trindade e benemérito da Maternidade Alfredo da Costa e dos Hospitais Civis de Lisboa.

Enquanto agricultor, era o proprietário da Herdade de Pegões (concelho do Montijo), um latifúndio de 7000 hectares, na qual tentou instalar um plano de colonização análogo ao que José Maria dos Santos criara na Herdade de Rio Frio, visando fixar a mão de obra assalariada, necessária às grandes explorações da zona. Pela sua doação aos Hospitais Civis de Lisboa, que incluía parte da sua Herdade, a Junta de Colonização Interna – criada em 1936 -, desenvolveu nela um plano de fixação de colonos semelhante ao modelo agrícola alemão,  com o fim de desenvolver um «bom e abundante viveiro de colonos, que no Império Colonial irão fixar a Raça e valorizar o território», como se pode ler no Diário das Sessões da Assembleia Nacional e da Câmara Corporativa de 29 de outubro de 1938. Em 1958, constituiu-se a Cooperativa Agrícola Santo Isidro Pegões, destinada a laborar na sua adega e à produção dos novos vinhedos, não sendo assim de estranhar que alguns dos vinhos produzidos tenham o nome de Rovisco e que  Santo Isidro de Pegões tenha uma Avenida Rovisco Pais.

Rovisco Pais foi ainda benemérito da Santa Casa da Misericórdia de Setúbal, bem como da construção da Leprosaria Nacional Rovisco Pais, na Tocha (Cantanhede), inaugurada em 1947 e que desde 1996 é o Centro de Medicina de Reabilitação, pelo que a Tocha tem também uma Avenida José Rovisco Pais.

José Rovisco Pais foi agraciado postumamente, em 17 de março de 1933, com a Grã-Cruz da Ordem de Mérito.

Freguesias do Areeiro e de Arroios
(Planta: Sérgio Dias)

Comércio e comerciantes na toponímia de Lisboa no mês de maio

No decorrer do mês de maio vamos apresentar os topónimos que se ligam aos comerciantes e ao comércio na cidade de Lisboa.

Como habitualmente, não repetiremos aqueles que já usámos: