A Rua de Joaquim Gonzalez Garrido

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua do Garrido deve o seu nome a Joaquim Gonzalez Garrido, proprietário e construtor das casas iniciais deste arruamento, também conhecido como Bairro Garrido, um bairro operário da segunda década do século XX.

No séc. XIX  a Quinta do Garrido surge já em documentos municipais e em 1911, na planta de Silva Pinto a Rua do Garrido aparecia identificada nas terras da Quinta do Bacalhau ou seja, no ano em que em 14 de outubro, Joaquim Gonzalez Garrido teve licença concedida pela Câmara  para construir uma parte do Bairro Operário da Quinta do Bacalhau, no prolongamento da Rua Barão de Sabrosa, que ficou conhecido como Bairro Garrido. Depois, por escritura lavrada em 19 de junho de 1920 a Rua do Garrido foi municipalizada, sendo uma das condições impostas pelos cedentes que a Câmara mantivesse a designação de Rua do Garrido e assim ficou, como se pode verificar através do Edital municipal de 17 de outubro de 1924 que oficializou o topónimo.

De Joaquim de Jesus Gonzalez Garrido (1874-1937) sabemos que era um proprietário, referido em documentos municipais por ceder gratuitamente à edilidade terreno para alinhamento da Rua Barão de Sabrosa (1912), por trocar terrenos para prolongamento dessa mesma Rua Barão de Sabrosa (1915), assim como por ceder terreno na então Azinhaga do Areeiro (1920) ou vender o jazigo n.º 4451, do 1.º Cemitério, a David Sul da Costa (1931).

A artéria que o perpetua na toponímia de Lisboa sofreu no entanto, alguns revezes. A partir de 1939, por via do prolongamento da Alameda Dom Afonso Henriques – desde a Rua Carvalho Araújo até ao Alto do Pina- , bem como da construção da Fonte Monumental conhecida como Fonte Luminosa, desapareceu parte da Rua Garrido, tendo a  filha e o genro de Joaquim Gonzalez Garrido recebido uma indemnização de 292 500$00 pela expropriação. Por ironia, o troço da Rua do Garrido que não foi demolido e que chegou aos nossos dias foi o que não foi edificado por Joaquim Garrido e que encontramos a ligar a Rua José Acúrsio das Neves à Rua Egas Moniz, na freguesia do Areeiro.

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

 

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O Largo do Jacinto Gonçalves dos Transportes Jacintho

Freguesia de Alcântara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Largo do Jacinto, no Bairro Social da Quinta do Jacinto, deriva do nome de Jacintho Gonçalves, que no séc. XIX, naquele sítio teve as primeiras cocheiras da sua empresa de transportes  de tração animal, denominada Jacintho, primeiro, de mercadorias e depois, de passageiros.

As suas primeiras cocheiras estavam no então designado Pátio do Jacinto e mais tarde, foram transferidas para a Calçada da Tapada nº 58. Jacinto Gonçalves já transportava passageiros nos seus Choras pelo menos desde 1864 sendo que a partir de julho de 1892 encontramos os documentos municipais de «pagamento de taxas das licenças dos seus carros de carreira» desde julho desse ano. Os Choras, das empresas Rippert, Chora, Salazar, Florindo ou Jacintho eram mais concorridos que os carros Americanos por praticarem preços mais económicos e assegurarem as viagens entre a Mouraria, o Intendente e Belém.

O Bairro Social da Quinta do Jacinto, situado entre a Calçada da Tapada e o Estádio da Tapadinha, foi construído nesta zona de Alcântara em 3 fases, entre 1946 e 1958, no que foi uma das primeiras realizações da Câmara Municipal de Lisboa para alojar população carenciada. Na sua primeira fase teve casas unifamiliares, para depois no início dos anos 60 –nas 2ª e 3ª fases – incluir prédios de 3 e 4 pisos  mas mantendo o carácter ruralista com hortas sociais cultiváveis em redor dos edifícios.

A toponímia do Bairro foi determinada após uma visita ao local da Comissão Consultiva Municipal de Toponímia, que na sua reunião de 8 de junho de 1951 «Emitiu o parecer de que a rua principal que circunda o bairro se denomine: Rua da Quinta do Jacinto e o pequeno largo à entrada e à direita da mesma rua: Largo do Jacinto. Pelo que respeita à denominação das restantes ruas, a Comissão foi de parecer que sejam designadas por números, de forma que às ruas orientadas no sentido Nascente-Poente sejam atribuídos números ímpares e às ruas com a orientação Sul-Norte números pares.» e assim ficou tudo fixado pelo Edital municipal de 19 de junho de 1951.

Estes Bairros Sociais eram implantados em zonas isoladas, assemelhando-se de alguma forma ao modelo de aldeia portuguesa e estimulando um estilo de vida rural, o apego à casa, à família e ao Estado. Por outro lado, a atribuição de números às ruas em vez de nomes distinguia os Bairros de Casas Económicas dos restantes bairros citadinos.

Freguesia de Alcântara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Travessa das Zebras oriundas de Angola

Freguesia de Belém
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Zebras oriundas de Angola, como presente para o rei D. José I, originaram no séc. XVIII o topónimo Pátio das Zebras  no local onde elas viveram, em Belém, junto à Calçada da Ajuda, sendo que já na passagem do século XIX para o XX passou a ser conhecida como Travessa das Zebras.

A Travessa das Zebras, que hoje encontramos a ligar a Calçada da Ajuda à Travessa do Desembargador, fixou-se na memória de Lisboa em virtude de algumas  zebras terem vindo de Angola, como presente para o rei D. José I, e terem sido instaladas naquele local. Segundo o Archivo Popular de 15 de abril de 1837, procuraram domesticá-las embora sem sucesso e os animais definharam, experiência que voltou a ser repetida mais tarde, com outras zebras mas com o mesmo resultado.

Seriam entre 10 a 13 zebras que vieram de Angola para Lisboa como presente, entre  1770 e 1775. Segundo alguns autores teriam sido enviadas por militares empenhados na exploração de Angola e que assim mereceram subida de posto, com evidentes vantagens económicas. Foram instaladas num pátio próprio, a exemplo do que acontecera antes houvera com o Pátio dos Elefantes e ainda em 1858, a planta de Filipe Folque denomina o espaço como Pátio das Zebras, sendo  no mesmo local da hoje Travessa das Zebras embora mais amplo.

Por plantas municipais elaboradas por Augusto César dos Santos, de 20 de setembro de 1897, sabemos que se fizeram obras de ligação do Pátio das Zebras à Travessa das Terras (hoje, Travessa do Desembargador) e foi a artéria pavimentada. Em 1909, a planta de Silva Pinto já mostra uma artéria mais estreita e com a designação de Travessa das Zebras.

D. José I (Lisboa/06.06.1714 – 24.02.1777/Lisboa) vivia na Real Barraca da Ajuda quando foi o destinatário da prenda das zebras. Após o terramoto de 1750 a corte instalou-se na encosta Belém/Ajuda, por mor de ter sido uma zona pouca atingida pela catástrofe, havendo mesmo então a ideia da construção de uma nova capital entre Ajuda e Belém o que contribuiu para uma intensificação da urbanização do local, com famílias da nobreza a adquirirem quintas nesta zona, desde o Tejo até ao Alto da Ajuda, bem como ao longo da Praia do Bom Sucesso e da Praia de Pedrouços.

Freguesia de Belém (Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Largo do Rio que foi Seco

Freguesias de Ajuda e Alcântara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Largo do Rio Seco guarda a memória do rio que em tempos ali correu ladeado por dois grandes desfiladeiros, com o seu leito aberto pela força das águas ao longo do tempo, até ser aterrado para acabar com focos de infecção.

Localizado na confluência das Rua Dom João de Castro, Rua do Rio Seco, Rua Rui de Pina, Rua Silva Porto, Rua Aliança Operária e Rua Diogo Cão, está o Largo do Rio Seco que como a Rua e a Travessa do mesmo topónimo foram atribuídos pela deliberação camarária de 3 de agosto de 1911 e Edital de 7 de agosto, pouco depois do rio ter sido aterrado para arruamento.

Também a artéria que hoje conhecemos como Rua Dom João de Castro, fixada pelo mesmo Edital de 7 de agosto de 1911, foi até esta data a Estrada do Rio Seco que em 1890 era registada como Estrada dos Fornos de El-Rei ou Estrada dos Fornos de El-Rei no Rio Seco.

No espaço deste Largo do Rio Seco foi instalado em 1821 um chafariz. E 37 anos depois, na planta Filipe Folque de 1858, ainda podemos ver o  Rio Seco a correr entre a Calçada da Boa-Hora e o Tejo. E logo no início de 1887 encontramos os planos e orçamentos da canalização regular do ribeiro do Rio Seco para debelar os focos de infecção, sendo que em 1909 é já uma arruamento como mostra a planta de Júlio Silva Pinto e Alberto Sá Correia.

Freguesias de Ajuda e Alcântara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

O único Corredor de Lisboa

Freguesias da Estrela
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Corredor da Torrinha é o único Corredor na toponímia de Lisboa e será provavelmente um topónimo fixado na memória da cidade no decorrer do século XIX, antes de 1816.

Desde logo porque a sua localização, como prolongamento natural da Travessa José António Pereira e junto ao Beco da Galheta, assim o indica. O Cais de José António Pereira que será Travessa por Edital municipal de 8 de junho de 1889, deve o seu nome a esse comerciante de Lisboa e de São Tomé que no início do séc. XIX construíra no Aterro (onde hoje temos a Avenida 24 de Julho) um prédio que veio mais tarde, na 2ª metade do séc. XIX, a ser conhecido como  Palacete Pombal ou Palacete Burguês. Este palacete está nos nºs 37 a 39 da Rua das Janelas Verdes e nas suas traseiras e sob os seus terraços localizam-se o Corredor da Torrinha, o Beco da Galheta e a Travessa José António Pereira.

Freguesias da Estrela – Placa Tipo II
(Foto: Mário Marzagão)

Acresce que a Gazeta de Lisboa, de sexta-feira 9 de fevereiro de 1816, publica um aviso com data do dia anterior onde se pode ler já o topónimo: Sábado 10 do corrente, pelas 10 horas da manhã, no local de José António Pereira, Corredor da Torrinha, Armazém de Sacaria do Patacas, se há-de proceder a Leilão de duas a três mil sacas de diferentes qualidades, em Lotes.

E se andarmos ainda mais para trás, em 1856, vemos que a planta de Filipe Folque refere o arruamento como Torrinha, em cujo seguimento está o Beco do Cais de José António Pereira e o Beco da Galheta.

Freguesias da Estrela
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

Topónimos incomuns de Lisboa

As Escadinhas da Porta do Carro ou o Beco do Quebra Costas são daqueles topónimos que nos ficam nas orelhas a fazer cócegas à nossa curiosidade até sabermos o que se passou para Lisboa guardar memória de tal nas suas esquinas. São estes topónimos incomuns ou cujo significado nos escapa à primeira vista que preencherão o nosso mês de outubro, seguindo a sugestão do nosso leitor Ricardo Rodrigues de Oliveira.

Neste grupo de topónimos, quer de forma singela quer agrupados,  já referimos os seguintes:
1 Escadinhas da Porta do Carro
2 Beco do Quebra Costas
3 Animais
4 Autoparque, a nova realidade urbana
5 Azeite
6 Beco do Alfurja
7 O Beco do Belo em Alfama
8 O Beco da Curvinha Semedo ou da Corvina?
9 Beco do Funil
10 Beco do Imaginário
11 Beco da Maria da Guerra
12 Os cais, os boqueirões e o regueirão
13 Cais da Lingueta
14 Calçada da Pampulha
15 As Cruzes na toponímia de Lisboa
16 Cruzes da Sé
17 Campo Grande
18 Campo Pequeno
19 Costa do Castelo
20 Cunhal das Bolas
21 A esplanada, a estacada e o passeio
22 Farinhas e fornos
23 Frutas
24 O General Pereira de Eça e o Paço da Rainha
25 «As histórias que os nomes das ruas escondem»
26 Rua da Atalaia
27 Poço do Borratém
28 Rua da Adiça
29 Rua do Alqueidão
30 Rua Augusta
31 Rua dos Corvos
32 Ruas das Farinhas
33 A Rua da Galé
34 Rua da Páscoa
35 Rua da Rosa
36 Rua do Saco
37 Rua dos Sete Céus
38 A toponímia das ruas que não o são
39 Travessa dos Brunos
40 Travessa da Espera
41 Travessa da Portuguesa
42 Triste Feia
43 Outros temperos

A Rua Margarida de Abreu, o 1º topónimo de Dança em Lisboa

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Margarida de Abreu, considerada a «mãe» da dança portuguesa, através da Rua com o seu nome na freguesia do Areeiro e a legenda «Professora de Dança/1915 – 2006», é também o 1º topónimo ligado à Dança na cidade de Lisboa e faz sentido evocá-la aqui hoje quando passam onze anos sobre o seu falecimento.

O topónimo resultou de um sugestão de António Laginha , a que a Comissão Municipal de Toponímia deu parecer favorável, passando a proposta, aprovada na sessão de Câmara de 26/10/2016 e ficando pelo Edital municipal de 10/11/2016 estabelecida a Rua Margarida de Abreu na Via projetada “B” à Avenida Almirante Gago Coutinho.

Margarida de Abreu por Eduardo Malta

Margarida Hoffmann de Barros Abreu Salomão de Oliveira (Lisboa/26.11.1915 – 29.09.2006/Lisboa) fez uma carreira de professora de dança, coreógrafa e diretora artística, tendo tido um importante papel num período em que a pedagogia e a profissionalização no bailado em Portugal eram praticamente inexistentes. Exerceu como Professora do Curso de Bailarinas e do Curso de Teatro do Conservatório Nacional (de 1939 a 1986) e do Centro de Estudos de Bailado do Instituto de Alta Cultura, vulgo Escola do Teatro de S. Carlos (de 1964 a 1972), sendo conhecida pelos seus alunos como Dona Margarida.  Ainda como professora, realizou dois estágios, em 1947 e em 1948, na escola do Sadler’s Wells, hoje Royal Ballet School.

Em paralelo, criou o seu estúdio de ensino e companhia de bailado, o Círculo de Iniciação Coreográfica (CIC), em funcionamento de 1944 a 1960, de onde saíram os Bailados Margarida de Abreu, o Bailado em Acção e o Grupo Studium, assim como surgiram criadores como Águeda Sena, Armando Jorge, Carlos Trincheiras, Fernando Lima, Jorge Trincheiras, Olga Roriz e Vasco Wellenkamp, entre muitos outros. Desempenhou também um papel de mecenas ao proporcionar a vinda a Lisboa de alguns vultos do bailado internacional para trabalhar com o CIC, bem como  períodos de aperfeiçoamento artístico no estrangeiro a alguns alunos. Entre 1960 e 1975, de parceria com o seu discípulo Fernando Lima, também exerceu as funções de diretora artística do Grupo de Bailados Portugueses Verde Gaio.

Coreografou inúmeros bailados, logo desde 1943, de que são exemplo  Bailado Setecentista (1943), O Pássaro de Fogo (1946), Clair de lune (1952), Ab Initio (1953), Prólogo Galante (1961), Festa na Aldeia (1965),  A menina dos Olhos verdes (1971), com música de Bach, Britten, Carlos Seixas, Chopin, Cláudio Carneyro, Debussy, Dvorak, Elvira de Freitas, Ivo Cruz, Jayme de la Téy Sagán, Luís de Freitas Branco, Mahler, Mendelsshon, Mozart,  Mussorgsky, Ruy Coelho, Schumann, Stravinsky, Tchaikovsky, bem como diversas peças do Teatro Nacional de S. Carlos e uma opereta de grande sucesso no Teatro Monumental, As Três Valsas, estreada em 8 de novembro de 1951. No cinema, foi coreógrafa de três filmes de Manoel de Oliveira: Amor de Perdição, Francisca e Os Canibais.

Nascida em casa, no 3º esquerdo do nº 79 da Avenida Duque de Ávila, filha da professora suíça Anna Helena von Hoffmann e do advogado António de Barros Mendes de Abreu, começou na Dança com a rítmica dalcrozeana através da inglesa Cecil Kitkat e da grega Anastasia, em Lisboa, após o que se graduou no Institut Jacques Dalcroze de Genebra, em  1937, tendo ainda complementado os seus estudos na Deutsche Tanz Schule de Berlim e na Hellerau Laxemburg Schule de Viena.

Refira-se que era irmã da pianista Maria Helena de Freitas Branco e cunhada do musicólogo João de Freitas Branco, bem como foi casada com o escultor João Salomão de Oliveira, um seu aluno, e mãe da professora Margarida Carmo e da bailarina Maria João Salomão.

Margarida Abreu foi agraciada com a Ordem de Instrução Pública e o Troféu da Casa da Imprensa (1979), a Medalha Almeida Garrett (1980), o Troféu do Jornal Sete (1988), a Medalha de Mérito Artístico do Conselho Brasileiro da Dança e  o Troféu Verbo(1990), uma edição de selos dos CTT-Correios de Portugal (2006)  e  a título póstumo, com a Medalha Municipal de Mérito da Câmara Municipal de Lisboa, grau ouro ( 2007).

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua Bernardo Lima, do professor de agronomia e veterinária Silvestre

Freguesias de Santo António
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Silvestre Bernardo Lima, professor de Zootecnia e de Higiene no Instituto de Agronomia e Veterinária no séc. XIX, está desde 8 de junho de 1903 inscrito na toponímia de Lisboa,  na artéria sita entre a Rua Bernardim Ribeiro e a Avenida Duque de Loulé, como Rua Bernardo Lima, paralela à Rua Ferreira Lapa de um seu condiscípulo e amigo, atribuída na mesma altura e ambas hoje território da freguesia de Santo António.

(Foto: Joshua Benoliel, cerca de 1914, Arquivo Municipal de Lisboa)

Sylvestre Bernardo Lima (Alpiarça/01.04.1824 – 10.09.1893/Lisboa) foi um agrónomo e veterinário que exerceu funções como lente de Zootecnia e de Higiene, no Instituto Geral de Agricultura como então se denominava, durante 30 anos. Desenvolveu intensa actividade pedagógica e científica sendo na época o maior especialista português em  zootecnia, para além de ter organizado o recenseamento geral dos gados em 1870. Bernardo Lima, como o seu condiscípulo e amigo João Ignácio Ferreira Lapa, transitaram do Corpo Docente da antiga Escola Veterinária Militar na Rua do Salitre para o então novo Instituto Geral de Agricultura. No ano letivo de 1878/79 também desempenhou as funções de Diretor Interino do Instituto. Terminou a sua carreira docente em 1881 por em março ter sido nomeado Diretor Geral da Agricultura, Comércio e Indústria no Ministério das Obras Públicas, substituindo Morais Soares que falecera, onde se manteve até à aposentação em 25 de julho de 1886.

Da sua vasta obra publicada destaquem-se Estudos hípicos (1858-1878), Tabela do resultado do estudo das lãs portuguesas (1862), Doenças da oliveira, laranjeira e sobreiro do Sul de França (1865), Bibliografia agrícola (1878) ou Chá do feno (1879), bem como o primeiro manual de divulgação agrícola escrito em língua portuguesa e acessível ao grande público,  o Catecismo Popular de Agricultura (1856), elaborado em conjunto com Ferreira Lapa. Em paralelo, foi um colaborador assíduo da revista Portugal e Brasil , bem como do Jornal Oficial de Agricultura (1880) e do Archivo Rural, que em 1858 fundara de parceria com Ferreira Lapa, José Maria Teixeira e Elvino de Brito, sendo a 1ª publicação periódica portuguesa dedicada à agricultura.

Ainda desempenhou funções como vice-Presidente do Conselho Especial de Veterinária e vogal da Secção de Agricultura do Conselho Geral do Comércio Industria e Manufaturas.

Bernardo Lima viveu os seus últimos anos no Bussaco, responsável pela Intendência das Matas do Reino e foi agraciado como Cavaleiro da Ordem de Cristo (1862), como Conselheiro (1877), assim como com a colocação de um busto na Escola de Medicina Veterinária, da autoria de Costa Mota (sobrinho), tendo ainda a mesma Escola  celebrado o centenário do nascimento deste professor em 1924.

Freguesias de Santo António
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

A Rua do Conselheiro Mariano de Carvalho, professor da Escola Politécnica

Freguesia dos Olivais
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Mariano Cirilo de Carvalho, professor de Matemática da Escola Politécnica, jornalista e político, foi consagrado ainda em vida, dez meses após se demitir do cargo de Ministro da Fazenda, na Rua do Conselheiro Mariano de Carvalho, na última década do século XIX, nos  Olivais, artéria que hoje começa hoje junto ao nº 365 da Avenida Infante Dom Henrique  e se estende até à Praça da Viscondessa dos Olivais (em virtude de alterações urbanísticas ocorridas na zona foi eliminado o troço entre a Avenida Infante Dom Henrique e a Avenida D. João II).

Foi por deliberação camarária de 25 de novembro de 1892 e consequente Edital municipal de dia 30 que a Rua Direita, que da Praça da Viscondessa dos Olivais seguia para o nascente até à Praia do Tejo, se passou a denominar Rua do Conselheiro Mariano de Carvalho, tendo o mesmo Edital  consignado também em Ruas da mesma freguesia os nomes de Conselheiros de Estado que haviam sido ministros ou governadores na mesma época, a saber, a Rua do Conselheiro Dias Ferreira, a Rua do Conselheiro Ferreira do Amaral, a Rua do Conselheiro Lopo Vaz e a Rua do Conselheiro Teles de Vasconcelos.

N’ O Berro, 29 de março de 1896,  caricaturado por Celso Hermínio

Mariano Cirilo de Carvalho (Alenquer-Abrigada/25.06.1836 – 19.10.1905/Estoril), formado em Farmácia e em Matemática pela Escola Politécnica de Lisboa, distinguiu-se como  professor de Matemática dessa mesma Escola a partir da década de sessenta do séc. XIX, tendo sido também vogal do Conselho Superior de Instrução Pública.

Mariano de Carvalho foi  também jornalista, começando logo a partir de 1864 no Gazeta de Portugal mas chegou até a fundar títulos como o Notícias, o Novidades, o Correio Português e o Diário Popular. Em paralelo, ainda se dedicou à tradução, tendo sido o primeiro tradutor para português de Júlio Verne (nas obras Aventuras de três russos e de três ingleses,Viagem ao centro da terra, O país das peles, A galera Chanceler).

Filiado no Partido Reformista foi deputado de 1870 a 1880, eleito pelos círculos da Chamusca, do Porto, de Timor e do Cartaxo, tendo em 1900 sido deputado independente. Em 1876, por fusão do Reformista com o Partido Histórico, passou a representar o Partido Progressista. Foi ainda Ministro da Fazenda (1886-1889; 1891-1892) com José Luciano e com João Crisóstomo, época que publicou as obras Reorganização das Finanças Portuguesas – Relatório e Proposta de Lei (1887),  A Questão dos Tabacos (1889) e Os Planos Financeiros (1893).

Mariano de Carvalho conseguiu ainda ser o Comissário português à Exposição de Paris de 1890, presidente da Câmara Municipal de Setúbal e Comissário régio no Banco Nacional Ultramarino.

Por último, refira-se que Mariano de Carvalho foi um empenhado defensor da construção da linha de caminho de ferro para Cascais, tendo mesmo apresentado um plano de construção de um porto franco naquela vila, bem como de uma linha férrea que pela Quinta Marinha, seguisse até Colares.

Freguesia dos Olivais
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua do mestre de música Marcos Portugal

Freguesias da Misericórdia e de Santo António
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Mestre de Música de princesas e príncipes, Marcos Portugal ficou perpetuado na antiga Rua da Conceição, a ligar a Praça das Flores à Rua da Imprensa Nacional, num dos primeiros Editais municipais de toponímia após a implantação da República.

Pelo Edital de municipal de 7 de agosto de 1911, junto com mais 43 topónimos, a antiga Rua da Conceição que pelo Edital do Governo Civil de 01/09/1859 se tornara Rua de Nossa Senhora da Conceição passou a ser a Rua Marcos Portugal, com a legenda «Músico Compositor/1762-1830». Todavia, após a criação da Comissão Municipal de Toponímia na edilidade lisboeta, em 1943, foi esta Comissão de parecer que a legenda fosse  suprimida, na sua reunião de 16/12/1946, o que foi homologado pelo Presidente da Autarquia em 20/12/1946.

O homenageado é Marcos António da Fonseca Portugal (Lisboa/24.03.1762 – 07.01.1830/Rio de Janeiro) que se distinguiu como organista, maestro e prolífico compositor, com mais de 70 obras dramáticas, cerca de 40 óperas e mais de 140 obras religiosas, tendo ficado conhecido no estrangeiro como Marco Portogallo.

Marcos António estudou composição desde os 9 anos, com João de Sousa Carvalho, no Seminário da Patriarcal de Lisboa, assim como canto e órgão. A partir de 1782, Marcos Portugal iniciou uma longa colaboração com a Família Real, desde a encomenda de música religiosa para as festividades nas Capelas Reais. Aliás, as suas 3 obras sacras mais conhecidas mantiveram-se no repertório durante cerca de um século: a Missa Grande (c. 1790), as Matinas da Conceição (1802) e o Te Deum (1802). De 1783 a 1792  foi organista e compositor da Sé Patriarcal de Lisboa, acumulando com o lugar de Mestre de Música do Teatro do Salitre, a partir de 1784 ou 1785, onde compôs vários entremezes, óperas portuguesas com libretos italianos traduzidos e elogios para festejar os aniversários de Pessoas Reais.

Em 1792 partiu para Itália, onde compôs 21 óperas, cujo sucesso rapidamente lhe granjeou fama internacional. Depois de uma breve visita a Lisboa em 1795, voltou em 1800, época em que se tornou professor dos príncipes, mestre do Seminário da Patriarcal e maestro do Real Teatro de S. Carlos até ao Carnaval de 1807, ano em que se destacou pela enorme quantidade de obras religiosas que compôs utilizando os 6 órgãos de Mafra, numa altura em que o Príncipe Regente (futuro D. João VI) e a corte residiam no Palácio.

Em novembro de 1807, quando as tropas de Napoleão entraram na capital portuguesa, Marcos Portugal permaneceu em Lisboa, reescrevendo a ópera Demofoonte para o aniversário do Imperador francês a 15 de agosto de 1808 e depois, até janeiro de 1811, foi intermitentemente maestro no Real Teatro de S. Carlos. O Príncipe Regente chamou-o para o Rio de Janeiro, onde a Família Real residia desde março de 1808 e para lá foi em 11 de junho de 1811, nomeado Mestre de Música de Suas Altezas Reais e Compositor Real oficial. Dedicado sobretudo à música religiosa, recebeu a Comenda da Ordem de Cristo em 1820, na data de aniversário do Príncipe Pedro. Quando a Corte portuguesa retornou a Lisboa, em 1821, Marcos manteve-se ao serviço do seu aluno, o Príncipe Pedro, que viria a ser D. Pedro I, o Imperador do Brasil, pelo que em setembro de 1822 compôs o Hino da Independência do Brasil e a 10 de dezembro de 1824 foi confirmado como Mestre de Música das princesas.

Freguesias da Misericórdia e de Santo António
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)