A Rua do arquiteto de Monsanto, Francisco Keil do Amaral

Freguesia de Marvila
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Francisco Keil do Amaral, o autor de uma nova Lisboa verde nascida nas décadas de 40 e 50 do século XX, onde sobressai o Parque Florestal de Monsanto, foi perpetuado num arruamento feito com a soma das Ruas 1, 6 e 7 da Zona N 2 de Chelas, como Rua Keil do Amaral e com a legenda «Arquitecto/1910 – 1975».

Tal sucedeu por via do Edital municipal de 10 de agosto de 1978 que criou o Bairro dos Arquitetos, na freguesia de Marvila, com mais onze topónimos, a saber: Rua Adães Bermudes, Rua Adelino Nunes, Rua Álvaro Machado, Rua Cassiano Branco, Rua Domingos Parente, Rua José Luís Monteiro, Rua Luís Cristino da Silva, Rua Miguel Nogueira Júnior, Rua Norte Júnior, Rua Pardal Monteiro e Rua Pedro José Pezerat.

Francisco Caetano Keil Coelho do Amaral (Lisboa/28.04.1910 – 19.02.1975/Lisboa), formado pela ESBAL, começou por trabalhar como designer publicitário com Fred Kradolfer. Entre 1938 e 1949 foi arquiteto-urbanista da Câmara Municipal de Lisboa, onde assegurou uma corrente modernista quer nos espaços verdes quer nos grandes equipamentos da capital. Projetou  o Parque de Monsanto (1940-1942), assim como traçou a renovação do Parque Eduardo VII e do jardim do Campo Grande (hoje, Jardim Mário Soares).

Em Monsanto, somou ainda o Restaurante de Montes Claros, o teatro ao ar livre,  o Parque infantil do Alto da Serafina, o Clube de Ténis de Lisboa (1949-1952) e em 1953, o Parque Infantil do Alvito, com Hernâni Gandra e Alberto José Pessoa. Será também com estes dois arquitetos que fará equipa para  o remate do topo norte do Parque Eduardo VII e da Estufa Fria (1948- 1949), assim como na remodelação de 1945 do jardim do Campo Grande, onde Keil do Amaral foi o autor da piscina infantil (1960), do Restaurante Alvalade, do ringue de patinagem e da biblioteca ao ar livre.

Ainda em em Lisboa, Keil do Amaral foi o autor da aerogare do  Aeroporto de Lisboa (1938-1942), obra dirigida pelo  Engº Duarte Pacheco, assim como do Instituto Pasteur (1934), do Parque de Diversões da Exposição Mundo Português de 1940 e do Bairro Económico de Benfica (1945).

O  endurecimento político do regime de Salazar após a Segunda Guerra levou Keil do Amaral a pedir a sua exoneração da Câmara Municipal de Lisboa. Traçou então outros equipamentos emblemáticos na modernização de Lisboa:  a FIL-Feira Industrial de Lisboa (1952-1957),  ainda com Alberto José Pessoa e Hernâni Gandra, uma obra promovida pela AIP – Associação Industrial Portuguesa na Junqueira;  o edifício de escritórios da União Elétrica Portuguesa em Lisboa (1957); a sede do Metropolitano de Lisboa na zona de Sete Rios e o acompanhamento da primeira fase deste transporte público (inaugurada em 1959), com o programa das estações decoradas com azulejos de Maria Keil – com quem casara em 1933-, o design dos pequenos equipamentos e o lettering. Deixou ainda moradias no nº 1 da Avenida Vasco da Gama (1951) – onde mais tarde se instalou a Embaixada da Noruega – e no nº 44 da Rua António de Saldanha (1962), assim como impulsionou o Inquérito à Arquitetura Popular Portuguesa.

Fora de Lisboa, entre muitas outras realizações salientamos a sua autoria do Pavilhão de Portugal na Exposição Mundial de Paris de 1937, o Cine-Teatro de Mangualde (1947), o Aeroporto de Luanda (1950), o edifício da União Eléctrica Portuguesa em Coina (1954) e a sua Colónia de Férias em Palmela (1961-1967), a  Urbanização da Península de Tróia (1963) e com Carlos Manuel Ramos, um estádio de futebol em Bagdad (Iraque),  tendo na soma da sua obra de arquiteto merecido a Ordem de Santiago da Espada em 1941 e o Prémio Municipal de Arquitetura em 1951 e em 1962.

Neto de Alfredo Keil e de Giuseppe Cinatti e filho do 1º Visconde de Pedralva, Francisco Coelho do Amaral dos Reis, e de Guida Maria Josefina Cinatti Keil, Francisco Keil do Amaral foi o responsável de importantes obras públicas dos anos 40 e 50 do séc. XX, sem se identificar com o regime político nem com os padrões do gosto oficial do Estado Novo.  Keil do  Amaral foi dinamizador do ICAT (Iniciativas Culturais Arte Técnica), animador da revista Arquitectura, eleito presidente do Sindicato e impedido de tomar posse e também, de 4 a 8 de Abril de 1973, membro da Comissão Coordenadora de Urbanismo e Habitação no 3º Congresso da Oposição Democrática, em Aveiro.

Publicou ainda as obras A Arquitectura e a Vida (Cosmos, 1942), A Moderna Arquitectura Holandesa (Seara Nova,1943),  O Problema da Habitação (Latina, 1945),  Histórias à Margem de um Século de História (Seara Nova. 1970), Lisboa, uma Cidade em Transformação (Europa-América, 1970) e Quero Entender o Mundo, (Iniciativas Editoriais, 1974).

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua do arquiteto da Praça do Areeiro, Cristino da Silva

Freguesia de Marvila
(Foto: Google Maps, editada pelo NT do DPC)

Cristino da Silva, o arquiteto que traçou a Praça do Areeiro  e assim foi um impulsionadores das linhas da arquitetura do Estado Novo em Lisboa, está desde 1978 homenageado no Bairro dos Arquitetos de Marvila, numa artéria que começa e acaba na Rua Pardal Monteiro.

Foi pelo Edital de 10 de agosto de 1978 que foi atribuída a Rua Luís Cristino da Silva, na Via Comercial da Zona N 2 de Chelas. O arquiteto Silva Dias integrava então a Comissão Municipal de Toponímia e dele saíram as sugestões que além de Cristino da Silva colocaram nesta zona de Marvila mais 11 topónimos referentes a arquitetos, a saber: Rua Adães Bermudes, Rua Adelino Nunes, Rua Álvaro Machado, Rua Cassiano Branco, Rua Domingos Parente, Rua José Luís Monteiro, Rua Keil do Amaral, Rua Miguel Nogueira Júnior, Rua Norte Júnior, Rua Pardal Monteiro e Rua Pedro José Pezerat.

A Ilustração Portuguesa, 26 de janeiro de 1924

Luís Ribeiro Carvalhosa Cristino da Silva (Lisboa/21.05.1896 – 31.10.1976/Lisboa) foi um arquiteto formado pela ESBAL em 1919 e estágio com bolsa de estudo em Paris (de 1920 a 1925), funcionário da edilidade lisboeta (a partir de 1927) e professor de Arquitetura da ESBAL (1933 – 1966), neto e filho de pintores, respetivamente, João Cristino da Silva e João Ribeiro Cristino da Silva.

Cristino da Silva começou como arquiteto modernista, com o pórtico de entrada do Parque Mayer e o Cineteatro Capitólio (1931) e a elegante dupla escadaria que liga os dois planos de jardins do Palácio de São Bento (1937-1938). Depois, seguiu os modelos da arquitetura do Estado Novo, ao traçar o Pavilhão de Honra e de Lisboa da Exposição do Mundo Português (1940), e  o prédio do nº 12 da Avenida Sidónio Pais, com um baixo-relevo de uma «entalada», processo que teve o seu auge quando é o autor do projeto da então novel Praça do Areeiro (1938 – 1949).  Foi ainda  o autor do traçado do Café Portugal, com portas para a Rua Primeiro de Dezembro e a Praça Dom Pedro IV, bem como da Agência do Diário de Notícias nessa mesma Praça, tudo em 1938; de uma moradia no nº 20 da Avenida António José de Almeida, também na década de trinta.

Fora de Lisboa, saliente-se o seu Liceu de Beja (1929-1934) e a Cidade Universitária de Coimbra (1948) de que foi o arquiteto-chefe. Cristino da Silva desempenhou ainda funções de Vogal do Conselho Superior de Obras Públicas, no período de 1942 a 1954.

Este arquiteto foi galardoado com a Medalha de Honra da Sociedade Nacional de Belas Artes – SNBA (1943), os Prémios Valmor e Municipal de Arquitetura de Lisboa (1944) por uma moradia na Avenida Pedro Álvares Cabral n.º 67 – que era aliás a sua casa de família-, o Prémio Nacional de Arte do Secretariado Nacional de Informação-SNI de 1961, assim como recebeu em 1973 o Prémio José de Figueiredo pelo seu estudo A Sede da Academia Nacional de Belas-Artes.  Cristino da Silva foi ainda agraciado com as Comendas da Ordem Militar de Santiago da Espada (1941), da Ordem da Instrução Pública (1957) e da Ordem do Infante D. Henrique (1961).

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Praça do 1º arquiteto urbanista: Faria da Costa

Freguesia dos Olivais
(Foto: Google Maps, editada pelo NT do DPC)

João Guilherme Faria da Costa, o primeiro arquiteto urbanista português e o autor dos Bairros do Restelo e de Alvalade, está homenageado numa Praça  dos Olivais desde 1971, o próprio ano do seu falecimento.

Cerca de dois meses após a sua morte, o Edital municipal de 15 de março de 1971 colocou este  arquiteto como o topónimo do arruamento identificado como Impasse A 3.1 da Quinta do Morgado,  com a legenda «Arquitecto/1906 – 1971».  O mesmo Edital atribuiu também denominações aos restantes arruamentos da Quinta do Morgado, incluindo outro arquiteto construtor da cidade de Lisboa, Carlos Ramos, também numa Praça  (Impasse A2.1.2 da Quinta do Morgado).

João Guilherme Faria da Costa (Sintra/16.04.1906 – 19.01.1971/Lisboa) foi o primeiro arquiteto urbanista português, diplomado pelo Instituto de Urbanismo da Universidade de Paris, em 1935, após ter concluído o curso de Arquitetura da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (ESBAL) em 1934.

Logo em 1934, colaborou com Pardal Monteiro, António Martins, Fernando Batalha e Rodrigues Lima no traçado da Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, nas Avenidas Novas. Em Paris, trabalhou com os mestres urbanistas Alfred Agache e Étienne de Groër, sendo por isso o responsável por a Câmara Municipal de Lisboa ter convidado Groër para a elaboração do Plano Geral de Urbanização e Expansão da Cidade de Lisboa (1938-1948) mas de 1937 a 1959, Faria da Costa também colabora assiduamente com a Direção-Geral dos Serviços de Urbanização do Ministério das Obras Públicas.

Foi em 1938 que ingressou nos serviços técnicos da CML, como arquiteto-urbanista, tendo trabalhado com os arquitetos Keil do Amaral, Perez Fernandez e Miguel Jacobetty Rosa. Faria da Costa criou um gabinete para estudos de urbanização e foi responsável na cidade de Lisboa  por gizar o Bairro do Areeiro (1938), o Bairro do Restelo ou da Encosta da Ajuda (1938-1940 e 1947-1953 ),  o estudo para  o Martim Moniz (1943),  bem como o Plano de Urbanização do Bairro de Alvalade ou da da Zona a Sul da Avenida Alferes Malheiro (1945-1947) mais o Mercado de Alvalade (1948) e o plano de urbanismo da Estrada de Benfica (1951).

Moradia da Avenida do Restelo que foi Prémio Valmor e Municipal de Arquitectura em 1952
(Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

São também da sua autoria os edifícios no números 6 a 14 da Rua dos Jerónimos (1944), o Bairro das Casas Económicas do Vale Escuro  ou Bairro da Companhia Lisbonense dos Chauffeurs (1947), a  Barbearia da Rua do Comércio n.º 6 (1950-1951), o edifício-sede da firma de construção civil Carlos Eduardo Rodrigues junto à Travessa da Praia (1950-1952), a moradia nos nº 23 e 23-A da Avenida do Restelo, em conjunto com Fernando Silva, obra galardoada com o Prémio Valmor e Municipal de Arquitectura em 1952 bem como a do nº 8 (1953), a do nº 40 (1953-1954), a dos lotes n.ºs 31 e 32 (1953-1956). Faria da Costa traçou ainda prédios na Rua de Campolide n.º 305, no Alto do Carvalhão nº 5, junto ao n.º 19 da Rua D. João de Castro, o conjunto da Rua Teresa Gomes nºs 3 a 13, os nºs 20 e 22 da Rua Dom Dinis, moradia na Alameda das Linhas de Torres n.º 235, edifício do nº 15 da Rua do Arco do Chafariz das Terras, dos n.ºs 4 a 14 da Rua dos Lusíadas, cinco moradias na Rua São João de Brito, n.º 45 da Avenida Almirante Reis, nº 106 da Rua Bartolomeu Dias e nº 62 da Avenida Duque d’ Ávila com Joaquim Ferreira.

Para o Ministério das Obras Públicas e outros, destaque-se o seu trabalho como autor do  Plano da Faixa Marginal do Tejo, Moscavide a Vila Franca de Xira/Seixal ao Montijo (1938); caserna e refeitório da Base Aérea do Montijo (1939-1953); Plano de Urbanização de Alcobaça (1938), Portalegre (1939-1942), Amadora (1944-1947); acesso ao Estádio do Jamor na Estrada Marginal Lisboa/Cascais (1940);  Paços do Concelho de Sintra (1943-1944); o Cinema Carlos Alberto na Portela de Sintra (1944-1948), o Teatro-Cine Luísa Todi de Setúbal (1945); o Bairro dos Pescadores da Costa da Caparica (1946); o Plano de Urbanização da Chamusca (1945 e 1947), Coruche (1950), da Costa da Caparica (1953), do Funchal (1958-1959) com Jacobetty Rosa e ainda, da Figueira da Foz, Funchal, Pombal, Rio Maior e Luanda (todos em 1959).

De 1959 a 1971 partilhou atelier com David Lopes e Jorge Costa Maia, sendo em 1971 aí substituído pelo seu filho José João Faria da Costa. Francisco Guilherme Faria da Costa é o nome do outro filho que teve com Cristina Maria da Silva Faria da Costa com quem casou.

Na localidade de Azenhas do Mar, em Sintra, está também homenageado através da Rua Faria da Costa.

Freguesia dos Olivais
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua do arquiteto dos Paços do Concelho de 1866, Domingos Parente

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Domingos Parente, o arquiteto lisboeta dos Paços do Concelho de 1866, está desde 1978 perpetuado num arruamento da Marvila dos arquitetos, a unir a Rua Luís Cristino da Silva à Rua José Luís Monteiro, estando este último arquiteto também ligado aos Paços do Concelho por ter substituído o primeiro nos dois últimos anos da obra.

Este Bairro dos Arquitetos em Marvila nasceu de uma sugestão da Comissão Municipal de Toponímia, concretizada através da publicação do Edital municipal de 10 de agosto de 1978, que colocou doze arquitetos na toponímia da Zona N2 de Chelas:  Adães Bermudes (antiga rua 14), Adelino Nunes (ruas 2 e 3), Álvaro Machado (arruamento de ligação entre a via envolvente e a rua 6), Cassiano Branco (ruas 4 e 5), José Luís Monteiro (ruas 11B e 12), Keil do Amaral (ruas 1, 6 e 7), Luís Cristino da Silva (via comercial), Miguel Nogueira Júnior (rua 11), Norte Júnior (ruas 8 e 11A), Pardal Monteiro (via envolvente), Pedro José Pezerat (rua 10) e Domingos Parente (rua 13).

Domingos Parente da Silva (Lisboa/04.04.1836 – 17.11.1901/Lisboa ) foi o arquiteto que projetou os Paços do Concelho de Lisboa que começaram a ser construídos em 1866. Um incêndio em 19 de novembro de 1863 destruiu quase por completo os anteriores Paços do Concelho pombalinos, do risco de Eugénio dos Santos. No mesmo local começou a ser construído o novo edifício de Pedro José Pezerat mas, a partir de 1866 e até 1875, vingou antes o traçado por Domingos Parente. O remate final da fachada foi modificado por decisão do Engº Ressano Garcia e então responsável pelos Serviços Técnicos da Câmara, ficando antes um frontão clássico com decoração escultórica do francês Anatole Calmels. Em 1876 Domingos Parente pediu a sua exoneração e por concurso foi substituído  por José Luís Monteiro a partir de 1878 e até a conclusão da obra em 1880. Foi este edifício que, com ligeiras modificações, sofreu o incêndio de 7 de novembro de 1996 e após o sinistro teve uma recuperação dirigida pelos arquitetos Francisco da Silva Dias, Daciano da Costa, João de Almeida, Manuel Tainha e Nuno Teotónio Pereira.

Domingos Parente trabalhou em Pintura e Arquitetura mas acabou por fixar-se nesta última área. Pintou tetos na Sé de Lisboa e trabalhou como desenhador na Companhia Real dos Caminhos-de-Ferro, para depois ingressar na Câmara Municipal de Lisboa como arquiteto em 1866, onde se tornou chefe da 1ª secção a partir de  24 de agosto de 1874 e dois anos pediu exoneração. De seguida, de 1888 a 1894, trabalhou na Direção do Distrito de Lisboa do Ministério das Obras Públicas.

São obra sua na cidade de Lisboa, entre outros exemplos, o pórtico de entrada do Cemitério dos Prazeres, a construção dos arruamentos entre a Alfândega municipal e o Tejo (em 1867); a proposta de 1879 para a construção da artéria entre a Estrada da Tapada (hoje, Calçada da Tapada) e a Rua Direita do Calvário (hoje, Rua Primeiro de Maio), em frente das oficinas da Companhia dos Caminhos de Ferro Americanos, ou seja, a Rua Luís de Camões ; o plano de trabalhos para abertura da Avenida da Liberdade (1879) o Mercado Geral de Gado em Entrecampos; as remodelações nos Palácios da Ajuda e das Necessidades, no Mosteiro dos Jerónimos para acolher a Casa Pia, no Tribunal de Contas e no Farol do Cabo da Roca; o traçado original do edifício da Imprensa Nacional (1895) no nº 135 da Rua da Escola Politécnica.

Domingos Parente foi um dos fundadores da Sociedade de Arquitetos Portugueses e académico de mérito da Academia Real de Belas Artes (1869). O seu Mausoléu no Cemitério da Ajuda foi traçado por Álvaro Machado e resultou de uma subscrição de amigos.

Na sua vida pessoal, Domingos Parente da Silva nasceu filho de José Parente da Silva e Inácia Batista. Casou com Carlota da Silva Gil, com quem teve 3 filhos, sendo que documentos municipais registam que o seu filho Francisco Carlos Parente, aos 12 anos,  realizou o exame final das disciplinas do curso elementar de instrução primária e foi aprovado com distinção com 15 valores, em 25 de maio de 1885. Viveu e faleceu em Belém, no Bairro de Alcolena.

Freguesia de Marvila
(Foto: Google Maps, editada pelo NT do DPC))

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A Rua do arquiteto do Edifício Castil, Conceição Silva

Edifício Castil de Conceição e Silva
(Foto: Artur Pastor, anos 80 do séc. XX, Arquivo Municipal de Lisboa)

Francisco da Conceição e Silva, o arquiteto do Edifício Castil, na Rua Castilho, dá nome a uma rua do Lumiar – antes identificada como Impasse A2 de Telheiras Norte III – desde a publicação do Edital municipal de 1 de agosto de 2005, paralela à Rua Francisco George que ali estava desde o Edital municipal de 24 de setembro de 1996.

Francisco da Conceição e Silva (Lisboa/1922-23.01.1982/Rio de Janeiro – Brasil) foi um arquiteto que contribuiu para a construção da sua cidade natal com criatividade, sendo neste particular de destacar o seu Edifício Castil,  o primeiro grande centro comercial da cidade, com 15 pisos – 8 de escritórios e 3 de comércio – e estacionamento subterrâneo, traçado no início dos anos 70, com linhas de modernismo tardio e influências da estética pós-modernista internacional, tendo sido classificado como Monumentos de Interesse Público em 2011.

Conceição e Silva começou por trabalhar no atelier do Arqº Adelino Nunes  em 1942 e quatro anos depois estava licenciado em Arquitetura pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. A partir de 1949, enquanto arquiteto dos Serviços Médico-Sociais da Federação das Caixas de Previdência traçou  diversos Postos Clínicos e fez sociedade com o Arqº  José Bastos, tendo como principal linha a habitação unifamiliar para a classe média/alta de que é exemplo a moradia na Avenida das Descobertas nº 8, de 1952. Depois, em 1953,  abriu atelier próprio na Rua Nova da Trindade e pressionado pela escassez de encomendas, dedicou-se ao desenho de mobiliário tendo mesmo feito uma exposição conjunta com os escultores e pintores Jorge Vieira, Júlio Pomar, Querubim Lapa e Sá Nogueira, entre outros, o que na época deu escândalo. Em 1957, com os arquitectos Sena da Silva e José Daniel Santa Rita, venceu o concurso para o Pavilhão de Portugal na Feira Internacional de Lausana que contou com painéis cerâmicos de Querubim Lapa.

Em Lisboa são obra sua o edifício de escritórios do nº 17 da Rua Doutor António Cândido, de 1960, tendo no ano seguinte traçado a Loja Can Can na Praça Dom Pedro IV  e a Papelaria Progresso no nºs 151 a 155 da Rua Áurea. Em 1967, o Atelier Conceição Silva  era já o maior atelier português,  com departamentos de arquitetura, equipamento, design, planeamento urbano, paisagismo, fotografia, artes plásticas e gráficas. Trabalharam nele ou com ele, Maurício de Vasconcelos, seu sócio de 1965 a 1967; os arquitetos Arsénio Cordeiro, Bartolomeu Costa Cabral, José Daniel Santa Rita, José Forjaz, Manuel Vicente, Pedro Vieira de Almeida, Sena da Silva e Tomás Taveira; os paisagistas Álvaro Ponce Dentinho e Gonçalo Ribeiro Telles; o designer Eduardo Afonso Dias, bem como os escultores e pintores Alice Jorge, Almada  Negreiros, Estrela Faria,  Fernando Conduto, João Cutileiro, Jorge Vieira, Júlio Pomar,  Manuel Cargaleiro, Querubim Lapa, Sá Nogueira; os geógrafos Jorge Gaspar e Teresa Craveiro, a historiadora Raquel Henriques da Silva e até o escritor Herberto Hélder.

Ainda para Lisboa,  encontramos no Arquivo Municipal um contrato do Município com Francisco da Conceição Silva, de  19 de fevereiro de 1971, para a elaboração do Plano de pormenor da zona do Largo do Rilvas. Fora da capital destaque-se a sua autoria no Hotel Serra da Estrela; no Hotel do Mar e o  Bloco Apartamentos Porto de Abrigo, em Sesimbra; no Plano turístico da Península de Tróia; nos Plano de urbanização de Évora, Loures e Portimão; e no Hotel da Balaia, no Algarve.

Conceição e Silva foi ainda membro da Direção da Sociedade Nacional de Belas Artes-SNBA, eleito em 1957, qualidade na qual organizou um programa pedagógico, o Curso de Formação Artística, com vista a modificar o ensino académico tradicionalmente ministrado.

Apesar de conotado com a oposição ao Estado Novo, sofreu um atentado à porta da sua casa, no Dafundo, em janeiro de 1975, por motivos nunca esclarecidos mas talvez pela organização de tipo empresarial do seu atelier, o maior do país, ou por ser acionista da Torralta. Francisco da Conceição Silva exilou-se então no Brasil, onde chegou  em 15 de março de 1975 e se instalou no Rio de Janeiro. De 1975 a 1982, em associação com o Arqº Pinto da Cunha, organizou um atelier no Rio de Janeiro, com vasta produção em edifícios e conjuntos arquitetónicos que vão desde a vasta moradia unifamiliar, ao pequeno bairro, abarcando também a conceção de interiores. Conceição Silva viveu os seus últimos 7 anos de vida no Rio, tendo falecido vítima ataque cardíaco, pouco antes de chegar a completar  60 anos de idade.

No concelho de Sesimbra, está também perpetuado na Rua Francisco Conceição Silva.

Freguesia de Lumiar (Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

Os arquitetos de Lisboa

Os arquitetos são os construtores do espaço urbano, desde os seus prédios mais emblemáticos até às urbanizações residenciais, ao traçado das praças e ruas de novas urbanizações até aos jardins. Das escolas aos estádios,  das igrejas aos teatros, são os arquitetos que produzem uma forma de enquadrar a paisagem assim traçando ao longo dos séculos o tecido urbano de Lisboa.

Estes construtores de cidade, inúmeras vezes funcionários públicos da Câmara Municipal de Lisboa ou do Ministério das Obras Públicas, são produtores de património cultural edificado lisboeta e assim são o tema do mês de maio deste Ano Internacional do Património Cultural.

Os nossos artigos deste mês vão incidir sobre as artérias lisboetas que homenageiam os arquitetos Adelino Nunes, Afonso Álvares, Carlos Ramos, Custódio Vieira, Daniel Santa Rita, Domingos Parente, Faria da Costa, Formosinho Sanchez, Francisco da Conceição Silva, Francisco Ferreira Cangalhas, Honorato José Correia, Jorge Segurado, José da Silva Pais, Keil do Amaral, Luís Cristino da Silva, Mateus Vicente, Maurício de Vasconcelos, Norte Júnior, Pedro José Pezerat, Perez Fernandez, Raúl Lino e  Rodrigo Franco.

Já antes publicámos artigos sobre:
Avenida Manuel da Maia
Avenida Ventura Terra
Jardim Prof. Francisco Caldeira Cabral
Praça Cottineli Telmo
Rua Adães Bermudes
Rua Alberto José Pessoa
Rua Álvaro Machado
Rua António do Couto
Rua Carlos Mardel
Rua Cassiano Branco
Rua Eduardo Bairrada
Rua Eugénio dos Santos
Rua Frederico George
Rua Giovanni Antinori
Rua João de Castilho
Rua João Frederico Ludovice
Rua José Luís Monteiro
Rua Leitão de Barros
Rua Maria José Estanco
Rua Miguel Ângelo Blasco
Rua Miguel Nogueira Júnior
Rua Pardal Monteiro
Rua Reinaldo Manuel dos Santos
Travessa Possidónio da Silva

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Igreja da Memória

Situada nas proximidades do Palácio da Ajuda, em 1760 iniciava-se a sua construção em memória da tentativa de assassinato do rei D. José pela família Távora, facto ocorrido em 1758.

O projeto deste templo coube ao italiano Giovanni Carlo Bibienna, arquiteto e cenógrafo encarregue de diversas encomendas régias à altura. A condução das obras esteve a cargo de Mateus Vicente de Oliveira, que substituiu o arquiteto italiano após a sua morte e que manteve as características essenciais do projeto por ele desenhado.

Os trabalhos de construção da Igreja pararam em 1762 e só em 1781 são retomados, já com alterações ao projeto inicial.

Trata-se de uma construção barroca com características neoclássicas que se impõe pelas linhas equilibradas e harmoniosas, sendo coroada por um zimbório. No interior, destaca-se a igreja-salão de nave única, caracterizada pela sua sobriedade, merecendo especial destaque os mármores lavrados e a tela do altar da autoria de Pedro Alexandrino de Carvalho.

Em 1923 nela seriam transladados os restos mortais do Marquês de Pombal.

Classificada como Monumento Nacional.

Texto: © DPC | 2018
Fotos: © José Vicente |CML | DPC | 2018

A Calçada da Memória do atentado a D. José I

A Calçada da Memória em 1969
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

A memória das aventuras galantes de D. José I com D. Teresa de Távora, que terminaram com um atentado à integridade física do soberano, ficou registada no próprio local da agressão com a construção de uma Igreja dedicada a Nossa Senhora do Livramento – por ele ter saído ileso-, assim como a São José – por ser o nome do rei-, e essa lembrança estendeu-se depois a três topónimos locais: a  Calçada , o Largo e a Travessa da Memória.

Tanto a Calçada da Memória como a Travessa homónima, foram topónimos oficializados pela edilidade lisboeta através do Edital de  26 de setembro de 1916. Já o Largo da Memória não possui prova documental que ateste a sua data de fixação mas terá de ser posterior ao início  da construção nesta zona da Igreja da Memória , isto é, a partir de 1760. A partir dos documentos constantes no Arquivo Municipal de Lisboa podemos deduzir que todos os três topónimos serão do séc. XIX e que antes foram genericamente as Terras da Memória.

Com data de 27 de outubro de 1886, encontramos  um projeto de ruas a executar na zona da Memória e da Ajuda, no qual percebemos que a Igreja da Memória confrontava com o Caminho do Buraco, o Pátio das Vacas e o Largo do Chafariz. Também com a data de 8 de janeiro de  1891 deparamos com o projeto definitivo das ruas nas denominadas Terras da Memória, em terreno cedido pela Casa Real. E em 1892, descobrimos um requerimento de vários moradores a solicitar a demolição do muro na travessa do Pátio das Vacas para comunicação com as Terras da Memória e ainda uma solicitação de Rosa Gomes para construção de casa num dos arruamentos projetados na zona da Memória.

Da ligação de D. José I a D. Teresa de Távora, informa o olisipógrafo  Norberto de Araújo que o atentado ocorreu na noite de 3 de setembro de 1758, quando o monarca saído dos aposentos da jovem marquesa de Távora subia de Belém para Ajuda, na carruagem do seu criado e confidente Pedro Teixeira (também fixado como topónimo numa Estrada da Ajuda) e que ao passar no Pátio das Vacas foi D. José atacado a tiro. Os conjurados sumiram-se e o rei partiu à desfilada para a casa do Marquês de Angeja, na Junqueira, para tratar os seus ferimentos no braço. Saiu ileso o rei desta conspiração, tida como dos Távoras, e por tal bênção desta salvação foi erguida a Igreja da Memória. Depois, o Marquês de Pombal acusou os seus inimigos Távoras de conspiração e estes foram torturados e depois executados em janeiro de 1759. A morte dos Távoras foi celebrada com um pelourinho erguido no Beco do Chão Salgado, topónimo também relativo a essa ocasião e os restos mortais do Marquês de Pombal foram transladados em 1923 para a Igreja da Memória.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Igreja de São Domingos

A Igreja de São Domingos pertencia ao Convento de São Domingos, casa-mãe da Ordem dos Pregadores (dominicanos) e um das mais importantes e maiores casas religiosas de Lisboa. Localizado junto ao Rossio, o conjunto conventual foi mandado edificar por D. Sancho II em 1241, e a sua construção ficou concluída em 1259.

O templo foi objeto de vários cataclismos ao longo dos tempos, que obrigaram à sua reconstrução parcial e lhe alteraram a traça primitiva. Das várias campanhas de obras e de redecoração destacam-se a sacristia (1664), os silhares de azulejos da portaria nascente (c. 1710), da autoria de António de Oliveira Bernardes, e a reforma da capela-mor, por João Frederico Ludovice, adornada com esculturas de João António Bellini de Pádua.

O terramoto de 1755 e o incêndio subsequente causaram danos significativos no templo, tendo caído a frontaria e a torre sineira. No interior apenas se salvaram a sacristia, a capela-mor e a ala do claustro. O projeto de reconstrução, de Manuel Caetano de Sousa, seguiu o modelo das igrejas pombalinas mas integrou na fachada o portal e sacada que João Frederico Ludovice desenhara para a Capela Real do Paço da Ribeira.

Quase dois séculos depois, em 1954, a igreja é atingida por um violento incêndio. Após obras de limpeza geral e de reforço estrutural e colocação de uma cobertura provisória o templo é reaberto ao culto.

Além da sua importância artística, a Igreja de São Domingos destaca-se pela sua herança simbólica. Era daqui que saíam em procissão os condenados à fogueira da Inquisição; e desde finais de 1834 foi a igreja eleita para a celebração dos casamentos e batizados Reais.

Atestando a passagem do tempo e as catástrofes que assolaram esta igreja, o seu interior apresenta um estado de aparente ruína, que se assume como tal, mas que não dispensou uma cuidadosa intervenção. De planta em cruz latina e nave única com quatro capelas colaterais, a imensidão do espaço, despojado de elementos decorativos, é acentuada pela imponente cobertura em abóbada de berço, construída em 1992 e constituída por uma inovadora estrutura de metal suportante do telhado, em substituição da anterior de madeira.

Classificada como Monumento Nacional.

Texto: © DPC | 2018
Fotos: © José Vicente |CML | DPC | 2018

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