Rua Julieta Ferrão

Em 1952, na inauguração da exposição sobre D. João da Câmara
(Foto: Firmino Marques da Costa, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua Julieta Ferrão, topónimo atribuído a um arruamento da freguesia das Avenidas Novas por Edital de 10 de Agosto de 1978

Julieta Bárbara Ferrão (1899-1974), conservadora dos Museus Municipais da Câmara Municipal de Lisboa. Pertenceu à Sociedade Nacional de Belas Artes, à Cruzada das Mulheres Portuguesas, à Associação Feminina Portuguesa para a Paz e ao Grupo Amigos de Lisboa. A vida de Julieta Ferrão está intimamente ligada à do museu Rafael Bordalo Pinheiro uma vez que era afilhada e sobrinha por afinidade de Artur Ernesto Santa Cruz Magalhães, coleccionador da obra daquele artista, colecção iniciada em 1895.

Ao longo da sua vida Cruz Magalhães reuniu originais, objectos pessoais, correspondência e periódicos de Bordalo, decidindo criar de raiz um museu dedicado ao artista. Assim, a partir de 1813 começa a criar o museu cujo plano inicial incluía três salas para a exposição da colecção, uma escola primária feminina e uma casa para a professora. Desde o início que Julieta participa no projecto ajudando o padrinho principalmente na aquisição de peças e convencendo outros coleccionadores a doá-las. A sua formação escolar fizera-se no ensino particular, tendo ainda aulas de violino e de escultura com Raul Xavier e crescera num ambiente imbuído de ideais republicanos, fazendo amizade com muitas das figuras femininas republicanas conhecidas, como Sara Benoliel, Ana de Castro Osório, Maria Lamas e Elina Guimarães, por exemplo. O museu é inaugurado a 6 de Agosto de 1916, tendo apenas as 3 salas previstas no projecto. Num dos registos de Ferrão assinala-se que em pouco mais de 4 anos, o museu recebera mais de 7000 visitantes e rendera uma quantia considerável que fora distribuída por várias associações filantrópicas, entre as quais a Cruz Vermelha e a Cruzada das Mulheres Portuguesas. Desde o início, Julieta Ferrão está à frente da instituição em parceria com Cruz de Magalhães e rapidamente se apercebe que o museu teria de crescer. Em 1919 contava já 9 salas e a ideia da escola feminina fora abandonada. Em 1920, cria-se o Grupo de Amigos Defensores do museu, do qual foi secretária, substituindo Cruz Magalhães sempre que necessário. Em 1922 publica a 1ª monografia sobre o museu, embora, já antes disso tivesse colaborado em vários periódicos. Em simultâneo, não descura a sua aprendizagem, tornando-se assinante de várias revistas europeias da especialidade, como, por exemplo, a Museum, ou a Musées et Monuments, ao mesmo tempo que realiza algumas viagens pela Europa conhecendo outros museus.

Em 1924, Cruz Magalhães doa o museu à Câmara Municipal, sendo condição da doação a manutenção de Julieta Ferrão como sua directora. Integrada nos quadros de pessoal da edilidade, Julieta dava assim início a uma carreira formal de conservadora. Dizia de si própria que sofria de “doença bordaliana, ou seja, de rafaelite aguda”, tal a sua dedicação ao museu e à figura de Bordalo. A sua obra será um reflexo dessa “doença”: Rafael Bordalo Pinheiro e a Crítica (1924); Guia do Museu Rafael Bordalo Pinheiro (1927) Rafael Bordalo Pinheiro e a Faiança das Caldas (1933). Nos seus relatórios sobre o museu não deixa de fazer uma análise crítica às necessidades do mesmo: pugna pela instalação de um alarme de incêndios, por uma maior segurança, pelo aumento de pessoal, e sobretudo pela aquisição de peças ainda em vida do último pintor que trabalha com o mestre Bordalo. Paralelamente organiza exposições, colabora em periódicos, como o Modas e Bordados, A Capital, O Século, Diário de Notícias, e Revista Municipal, entre muitos outros. Apesar de já exercer a função de conservadora de museu, ingressa no primeiro curso de Conservador, organizado por João Couto, director do Museu Nacional da Arte Antiga.

Em 1942 a Câmara Municipal, no seguimento de uma reorganização dos Serviços Culturais, cria o Serviço dos Museus Municipais, sendo Julieta Ferrão a primeira mulher a desempenhar esse cargo. A sua obra alarga-se para além de Rafael publicando Lisboa, Lisbon, Lisbonne (1952), A conquista de Lisboa por um caldense (1955), Vieira Lusitano (1956), colabora na Nova Colecção da Arte Portuguesa (1956) e Há 70 Anos (1962) ao mesmo tempo que organiza ou colabora na organização de dezenas de exposições dos museus municipais. Em 1969 reforma-se por ter atingido a idade máxima. Mas a Câmara viria a convidá-la, no ano seguinte, para integrar a Comissão Municipal de Toponímia, cargo que desempenhou até à sua morte e mais uma vez sendo a primeira mulher a integrar a comissão.

© CML | DPC | Gabinete de Estudos Olisiponenses| 2019

 

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A 1ª mulher da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa

na Freguesia de Nossa Senhora de Fátima – na futura Freguesia das Avenidas Novas

Freguesia das Avenidas Novas

Julieta Ferrão foi a 1ª mulher com assento na Comissão Consultiva Municipal de Toponímia, a partir do dia 21 de outubro de 1970 e até 22 de fevereiro de 1974, e quatro anos após a sua morte (pelo Edital de 10 de agosto de 1978) foi perpetuada na toponímia alfacinha na Rua C à Avenida Álvaro Pais, com a legenda «Museóloga/1899 – 1974».

Julieta Bárbara Ferrão (Lisboa/04.12.1899 – 1974) era licenciada em Belas- Artes e trabalhava há 44 anos para o Município de Lisboa como directora do Museu Rafael Bordalo Pinheiro, do qual se reformara no ano de 1969, quando foi convidada a integrar a Comissão de Toponímia, então presidida pelo Vereador Dr. José Arraiano Tavares, e sendo os outros vogais o Dr. Durval Pires de Lima e o Director dos Serviços Centrais e Culturais, Dr. Henriques Martins Gomes e, mais tarde, o Dr. Fernando Castelo Branco da Repartição de Acção Cultural e o Dr. Cristiano Simões de Maia Alves, Director dos Serviços Centrais e Culturais.

Desde 1926 que Julieta Ferrão dirigia o Museu Rafael Bordalo Pinheiro, ou seja, logo após as obras para a sua abertura definitiva e como tal, foi a principal responsável pela selecção das obras a expor e pela montagem do Museu. A partir de 1942, ano em que a Autarquia lisboeta inaugurou o Museu Municipal e criou um Serviço de Museus – onde englobou o Rafael Bordalo Pinheiro e mais tarde, o Antoniano -, que lhe foi confiada a direcção técnica deste Serviço, sendo assim também a 1ª Conservadora dos Museus Municipais de Lisboa.

Nos anos de 1970 a 1974 em que Julieta Ferrão foi vogal da Comissão de Toponímia, preencheram-se arruamentos da Malha J de Chelas com os nomes de dois engenheiros, um navegador, o restaurador de Pernambuco, dois exploradores africanos, um capitão-mor do séc. XVII, a Atriz Palmira Bastos, o Conselheiro Emídio Navarro e o escritor Aquilino Ribeiro, ao mesmo tempo que na Célula E de Olivais- Sul se perpetuava a memória de povoações de Moçambique e, em Olivais Velho e no Calhariz de Benfica se homenageavam militares «falecidos no ultramar em combate ao terrorismo». Foi também nesta época que se denominaram grandes vias como as Avenidas José Malhoa e de Ceuta e que, por sugestão do então Presidente da Câmara, foram atribuídos a ruas de Lisboa os nomes do cineasta Leitão de Barros, da aguarelista Raquel Roque Gameiro, do Prof. Lima Basto, dos navegadores João de Paiva, Diogo Afonso, Rodrigues Cabrilho – na zona do Alto do Restelo -, e dos olisipógrafos Luís Pastor de Macedo e Eduardo Neves. Julieta Ferrão deixou ainda obra publicada de que se destaca a  Monografia do Museu Rafael Bordalo Pinheiro (1922), Rafael Bordalo Pinheiro e a Crítica (1924), Guia do Museu Rafael Bordalo Pinheiro (1927), Rafael, Bordalo e a faiança das Caldas (1933), Lisboa…1870 (1943), A conquista de Lisboa por um Caldense (1955), Vieira Lusitano(1956), Há 70 Anos: inauguração do caminho de ferro da Beira Baixa (1962).

na Freguesia de Nossa Senhora de Fátima – na futura Freguesia das Avenidas Novas

Freguesia das Avenidas Novas