A rua do pintor ibérico Sanches Coelho ou Sánchez Coello

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Sanches Coelho, o pintor retratista do século XVI, português segundo uns ou espanhol de acordo com outros, conhecido como o Ticiano Português é o topónimo de uma artéria da Freguesia das Avenidas Novas desde 1972, que hoje encontramos a unir a Avenida das Forças Armadas à Rua da Cruz Vermelha.

Uma informação da Escrivania municipal deu conta à Comissão Municipal de Toponímia que os nomes de Sanches Coelho, Frei António Brandão, Inocêncio Francisco da Silva, Dom António Caetano de Sousa, General José Paulo Fernandes e Dom João II haviam tido deliberações municipais de 23 de março de 1932, 14 de abril de 1932 e 12 de abril de 1934 mas que esses arruamentos nunca chegaram a ter execução, e daqui surgiu  que Sanches Coelho e os três seguintes fossem atribuídos pelo Edital municipal de 1 de fevereiro de 1972, tendo cabido ao pintor a Rua A à Avenida 28 de Maio a que já em 2009, pelo Edital de 16 de julho, se acrescentou a Rua D no prolongamento da Rua Sanches Coelho do Loteamento da Avenida das Forças Armadas.

O homenageado é o pintor Afonso Sanches Coelho ou Alonso Sánchez Coello, que terá nascido em Benifairó (Valência, Espanha) entre 1529 e 1532 e falecido em Madrid entre 1588 e 1590, sendo certo que foi muito apreciado tanto na corte de Lisboa como na de Madrid e pelos seus retratos conhecido em diversas cortes europeias.

Supõe-se que terá viajado para Lisboa na sua juventude e assim foi na capital portuguesa que iniciou a sua formação artística. Sabido é que se tornou protegido de D. João III, que adorava os seus quadros e por isso mesmo o enviou para a Flandres para completar a sua formação, com o já reconhecido pintor António Moro, que foi o mestre que mais o marcou e influenciou. Julga-se que também terá estudado com Rafael Urbino, em Roma.

Há quem garanta que era conhecido como o Ticiano Português, nome que lhe terá sido dado por Filipe II,  como há quem defenda que foi o mais proeminente pintor do Renascimento espanhol e grande retratista da corte de Filipe II, monarca que muitas vezes retratou e para quem trabalhou a partir de 1555 e que enviou os seus quadros a todas as cortes europeias, sendo certo que Sanches Coelho também retratou D. Sebastião em 1562.

A exemplo de Ticiano, os retratos em tela de Sanches Coelho destacam-se pelo consistente detalhe dos trajes e dos seus tecidos, pela imponência do escuro e pela penetração psicológica do modelo retratado, como se pode observar, por exemplo na obra  Infantas Isabel Clara Eugénia e Catalina Micaela (1568).

Segundo Cyrillo Volkmar-Machado escreveu no séc. XIX, o pintor teve uma filha nascida em 1564 em Espanha, de nome Isabel Sanches, que foi sua discípula em pintura.

A obra deste pintor está representada no Museu do Prado (em Madrid) e no Museu Nacional de Arte Antiga (em Lisboa).

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Anúncios

A Rua Vicente Borga onde nasceu a Severa

Freguesia da Estrela (Foto: Ana Luísa Alvim)

Freguesia da Estrela
(Foto: Ana Luísa Alvim)

No coração da Madragoa, na quinhentista Rua da Madragoa, nasceu em 1820 a fadista Severa , mas 39 anos depois, o Governo Civil de Lisboa renomeou-a como Rua Vicente Borga, perpetuando o alemão Vicente Borchers que no século anterior havia morado naquele arruamento.

A Rua Vicente Borga que  nos nossos dias une a Travessa do Pasteleiro à Rua das Trinas, fixa na memória de Lisboa o negociante alemão Vicente Borchers que no séc. XVIII,  após ter casado com Maria Clara Sousa Peres, passou a ser morador da antiga Rua da Madragoa.

Nesta artéria, no nº 33, nasceu no dia 26 de julho de 1820, Maria Severa Onofriana, filha de Ana Gertrudes Severa (conhecida como a Barbuda) e de Severo Manuel de Sousa. Por isso, no dia em que se celebrava o 193º aniversário do nascimento da fadista, a Câmara lisboeta e a Junta de Freguesia de Santos-O-Velho colocaram uma placa evocativa no prédio do evento com os seguintes dizeres: «Neste local/ onde sua mãe tinha uma taberna/ segundo a tradição nasceu/ em 26 de Julho de 1820/ a mítica fadista/ Maria Severa Onofriana».

Segundo José Silva Carvalho, que colheu testemunhos orais dos moradores mais antigos da Madragoa, a taberna da mãe da Severa ficava no edifício de esquina da Travessa das Inglesinhas, 14 com a Rua Vicente Borga, 33 a 35, tendo a Severa tinha nascido no nº 33 e afirmando-se também que por aqui terá vivido até aos 8 anos.

De acordo com Norberto de Araújo, esta artéria denominava-se no séc. XVI  Rua das Madres de Goa. Na planta da remodelação paroquial de 1770 ainda aparece registada como Rua da Madragoa. Segundo Gomes de Brito, tinha o topónimo Rua da Madragoa sido aposto em 1802 pela Administração Geral dos Correios, quando era destes a competência para a denominação dos arruamentos.  Ainda de acordo com este último olisipógrafo o topónimo foi alterado pelo Governo Civil de Lisboa, em 9 de julho de 1859, para Rua Vicente Borga, por ter confundido a palavra Madragoa com mandrágora: «É conhecido o motivo da substituição, que se prende a razões de moral pública, pôsto que o vocábulo substituido nada tenha de menos decoroso, e resulta apenas de um mal entendido. O que , provàvelmente se quis, com efeito, fazer denominação desta rua foi o vocábulo ‘Mandrágora’, que a Corografia de Carvalho da Costa (1712), por infeliz lapso de revisão, estropiou.» 

Freguesia da Estrela (Foto: Ana Luísa Alvim)

Freguesia da Estrela
(Foto: Ana Luísa Alvim)

A Rua do Almirante genovês de D. Dinis

Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Artur Matos)

Manuel Pessanha, o navegador genovês que D. Dinis contratou para dirigir a frota portuguesa no séc. XIV, é o homenageado na Rua do Almirante Pessanha, na Freguesia de Santa Maria Maior.

Esta artéria, que nos nossos dias liga a Calçada do Sacramento ao Largo do Carmo, era a Travessa do Sacramento, até o Edital do Governo Civil de Lisboa de 01/09/1859 passar a denominá-la Travessa do Sacramento do Carmo e já no séc. XX, a edilidade republicana, por Edital municipal de 4 de abril de 1925, tornou-a Rua do Almirante Pessanha, resgatando a memória de por ali ter existido o Bairro do Almirante.

Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Artur Matos)

Emanuele Pessagno, italiano nascido em Génova no último quartel do século XIII,  era um navegador com quem D. Dinis celebrou um contrato de vassalagem em 1 de fevereiro de 1317, para dirigir as construções navais e a frota portuguesa em tempos de paz e de guerra, recebendo o título de Almirante-Mor, bem como um bairro inteiro em Lisboa – no lugar da Pedreira – que ficou conhecido como Bairro do Almirante, delimitado entre as Portas de Santa Catarina (hoje Rua Garrett ) e a Calçada da Glória, descendo até Valverde (hoje Praça D. Pedro IV) e contornando a Rua Larga de S. Roque (hoje Rua da Misericórdia)  e a Rua de São Pedro de Alcântara, que grosso modo corresponde ao que foi a freguesia do Sacramento. Tinha ainda direito à quinta parte das presas de guerra – que tomasse aos inimigos da fé ou aos inimigos do reino -, mais uma tença anual de 3 mil libras que em 1322 foi acrescida de mais mil libras. Em 14 de abril de 1319 foi ainda equiparado a Alcaide de Lisboa e em setembro recebeu a doação do reguengo de Algés  e da vila de Odemira.

Julga-se que durante o reinado de D. Afonso IV, Micer Manuel Pessanha comandou os navios portugueses que atingiram as Canárias, a Madeira e os Açores e terá elaborado os primeiros registos cartográficos destas ilhas que, posteriormente foram re-descobertas por João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira.

Os seus filhos sucederam-lhe nas funções e benesses, conforme estipulado no contrato entre o Almirante Pessanha e o rei português. Do seu primeiro casamento, com Genebra Pereira, filha de Gomes de Alpoim, teve o primogénito Carlos Pessanha que foi o 2.º Almirante-Mor do Reino de Portugal (1342), Bartolomeu Pessanha que foi o 3.º Almirante-Mor (1342 – 1356) e Leonor Gomes que depois de viúva foi Comendadeira da Ordem de Avis no Mosteiro de Santos. Do seu segundo casamento, com Leonor Afonso da Franca, filha de Lanzarote da Franca, teve Lançarote Pessanha que foi o 4.º Almirante-Mor do Reino (1356, 1357-1364, 1367-1373 e 1383-1384), Manuel Pessanha que foi o  6.º Almirante-Mor (1385) , Antão Pessanha que foi um escudeiro morto em Aljubarrota, Simoa da Franca, Carlos Pessanha que foi o 7º (1387) e ainda, Diogo Pessanha.

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua do Convento de Santa Marta de Jesus

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Do Asilo de Santa Marta de Jesus, fundado no séc. XVI, mais tarde instituído como Convento, nasceu a Rua de Santa Marta.

Já no séc. XIX, o Edital do Governo Civil de Lisboa de 01/09/1859 incorporou a Rua de Santa Joana na Rua de Santa Marta. E em 1926, face aos pedidos insistentes da Junta de Freguesia de Camões para substituir a nomenclatura da Rua de Santa Marta, por deliberação de Câmara de 31 de maio de 1926 passou a denominar-se Rua Alexandre Braga, embora quase quatro meses depois, pelo edital municipal de 14 de setembro desse mesmo ano,  voltou a designar-se Rua de Santa Marta, ao mesmo tempo que colocava o topónimo Alexandre Braga «á rua sem nome que, partindo da Rua José Estevam e ao norte do Jardim Constantino, vai ligar-se com a Rua Dona Estefânia».

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Asilo de Santa Marta de Jesus foi criado para acolher e tratar as filhas das vítimas da Grande Peste de Lisboa de 1569, a pedido do Padre António de Monserrate, representante dos Padres de São Roque, da Companhia de Jesus. Depois de 1577, os padres jesuítas pediram a passagem do recolhimento a Mosteiro e em 1583, o arcebispo de Lisboa D. Jorge de Almeida, autorizou a instituição de um convento de religiosas franciscanas clarissas, sob a invocação de Santa Marta, sendo fundadoras 3 religiosas vindas do Convento de Santa Clara de Santarém. Em 1612 teve início a construção da igreja do Convento que está classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1946.

Refira-se que em 1693, residindo a rainha viúva de Inglaterra, D. Catarina de Bragança, no palácio dos Condes de Redondo, contíguo à igreja conventual, foi aberta uma tribuna sobre a capela-mor para que a soberana aí pudesse assistir às celebrações mas que foi fechada assim que D. Catarina se instalou no Paço da Bemposta, originando o topónimo Paço da Rainha.

Na descrição corográfica de arruamentos anteriores ao terramoto, a Rua de Santa Martha surge já na freguesia de S. José. O Convento de Santa Marta foi um de 11 entre os 65 conventos existentes em Lisboa que, não obstante os danos do Terramoto de  1 de novembro de 1755, se mantiveram habitáveis.

Após a extinção das ordens religiosas pelo Decreto de 30 de maio de 1834, o Convento de Santa Marta após a morte da  última religiosa em 15 de dezembro de 1887, foi alvo de obras de adaptação para começar a funcionar ao serviço da saúde em 1890, com a designação de Hospício dos Clérigos Pobres, já que desde o ano anterior havia sido cedido a essa Irmandade, para albergar as vítimas de um grande surto de gripe que alvoroçou a cidade e posteriormente, ficou como hospital de doenças venéreas. Em 1903 passou a ser um Hospital dependente do governo, inicialmente como anexo ao Hospital de São José. Em 1910 foi atribuída oficialmente ao Hospital de Santa Marta a função de Escola Médico Cirúrgica de Lisboa assumindo um importante papel no ensino da Medicina em Lisboa, função que manteve até 1953, data em que a clínica universitária foi transferida para o novel Hospital de Santa Maria, voltando o Hospital de Santa Marta para o grupo dos Hospitais Civis de Lisboa. Foi considerado como uma das principais escolas de Medicina Interna durante a segunda metade do séc. XX com Carlos George, bem como ganhou diferenciação na área cardio-vascular com a inovação trazida por Machado Macedo.

Marta era a irmã de Maria e de Lázaro, que foi ressuscitado por Jesus a seu pedido. A devoção a Santa Marta remonta à época das Cruzadas e partiu de França, onde segundo uma lenda, Marta, Maria e Lázaro teriam terminado os seus dias. Santa Marta era muito popular na comuna francesa de Tarrascon já que, segundo a tradição, aí estrangulara Tarasca, um monstro que devorava animais domésticos e crianças. Santa Marta é a patrona das cozinheiras.

Ainda na Freguesia de Santo António, encontramos mais dois topónimos evocativos de Santa Marta: o Beco de Santa Marta, junto ao nº 26 da Rua de Santa Marta, bem como a Travessa de Santa Marta que o Edital do Governo Civil de Lisboa de 01/09/1859 escolheu para ser a nova denominação da Travessa das Freiras.

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua Hein Semke, de um escultor alemão em Portugal

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O escultor alemão Hein Semke que veio para Portugal na primavera de 1929 e se radicou na cidade de Lisboa em 1949, dá o seu nome a uma rua da Freguesia de Santa Clara, desde 2011.

Foi pelo Edital municipal de 3 de janeiro de 2011 que o nome de Hein Semke foi atribuído à Rua I 1B das Malhas 22.4 e 27.1 do Plano de Urbanização do Alto do Lumiar, ligando hoje a Rua João Amaral à Rua Rogério de Moura, correspondendo assim a edilidade a um perdido de Teresa Balté. Nas imediações encontramos topónimos com os nomes do escultor António Duarte e dos pintores António Dacosta Bernardo Marques.

Em 1972
( Foto: Mário de Oliveira)

Hein Semke (Alemanha – Hamburgo/25.06.1899 – 05.08.1995/Lisboa) veio para Portugal em 1929 mas ao ser vítima de um esgotamento no ano seguinte voltou à Alemanha para recuperar e aí acabou por estudar escultura e cerâmica regressando ao nosso país em 1932, onde morou em Linda-a-Pastora e por lá passaram nomes do modernismo português, como Almada Negreiros e Sarah Afonso, Mário Eloy, Abel Manta, Vieira da Silva e Árpád Szenes. A partir de 1949 fixou residência na cidade de Lisboa,  tendo tido atelier na Avenida 24 de Julho (1937 -1941) e a partir de 1953 na Praça António Sardinha, onde também passou a residir, para além trabalhar regularmente na Olaria de Benfica, tornando-se uma figura da vida cultural portuguesa, destacando-se sobretudo como escultor, renovador da cerâmica portuguesa e xilogravador.

A sua obra está publicamente exposta em Lisboa nos painéis cerâmicos da Reitoria da Universidade de Lisboa; na Capela de Santo António do Lumiar; na Igreja Evangélica Alemã de Lisboa, com as três esculturas para o Pátio de Honra aos Mortos Alemães da Grande Guerra, tendo uma sido destruída em 1935 por elementos nazis da colónia alemã em Lisboa; nos murais cerâmicos do Jardim de Inverno do Hotel Ritz ; e ainda nos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian. A sua obra artística de décadas em Portugal foi reconhecida em exposições como a retrospetiva dos seus «Hein Semke – 40 anos de atividade em Portugal» (1972) na Fundação Calouste Gulbenkian; a visão da sua obra cerâmica teve lugar no Museu Nacional do Azulejo em 1991 e a da sua obra escultórica ocorreu em 1997 no Museu José Malhoa, nas Caldas da Rainha.

Semke foi também, a partir de 1958, autor de 34 livros de artista de grandes dimensões,   sendo o primeiro  Em cada Criatura Nasce uma Flor, e o seu Livro da Árvore sido publicado em formato reduzido, em 1995, pela Gulbenkian – ACARTE e o tema de uma exposição na Biblioteca Nacional.

A obra deste escultor alemão está representada no Museu do Chiado-MNAC, na Fundação Calouste Gulbenkian, no Museu Nacional Soares dos Reis, no Museu de José Malhoa e na Casa-Museu João Soares, tendo sido agraciado com o Oficialato da Ordem de Mérito da República Federal da Alemanha (1978) e o Grau de Comendador da Ordem do Infante Dom Henrique (1990).

Na Alemanha, Hein Semke foi aos 18 anos combatente voluntário na I Primeira Guerra Mundial; trabalhou na construção civil, em estaleiros, a vender jornais, em pedreiras, minas e numa fundição; foi pacifista e anarquista, com participação na Revolução de Maio e na Revolução de Outubro, o que lhe valeu 6 anos de prisão na Alemanha, entre 1923 e 1928; e ainda, estudante de cerâmica e escultura na Escola de Artes e Ofícios de Hamburgo e na Academia de Belas-Artes de Estugarda (1930 – 1932).

Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

 

A Rua Bispo de Cochim, D. Joseph Kureethara

Freguesia da Penha de França
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Na freguesia da Penha de França, a ligar a Avenida Infante Dom Henrique à Rua de Xabregas, encontramos a Rua Bispo de Cochim, ali fixada desde a publicação do Edital municipal de 25 de julho de 2001.

A sugestão deste topónimo partiu da investigadora Maria de Lurdes Rosa, do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, e do Patriarcado de Lisboa.

D. Joseph Kureethara (Índia – Chirakal/02.07.1929 – 06.01.1999/Cochim – Índia), nasceu no Estado de Kerala, salientando que a a sua terra natal «foi o local onde os Missionários portugueses iniciaram as suas actividades na Índia». Empenhou-se ao longo da sua vida na preservação do património histórico e religioso da Diocese de Cochim e na defesa da herança cultural portuguesa na Índia, tal como  impulsionou a recolha e conservação de objetos, monumentos e tradições locais. Disso são exemplos a criação em 1995 do Arquivo Histórico da Diocese de Cochim – após trabalho de uma equipa de investigadores portugueses enviados pela Fundação Calouste Gulbenkian e liderada por Maria de Lurdes Rosa -, e do Museu da Diocese de Cochim, nos jardins do Paço Episcopal, também com apoio da Fundação, que só foi possível inaugurar no ano seguinte ao falecimento de D. Joseph Kureethara.

Kureethara estudou em diversas instituições do Padroado Português para depois, em 1950 entrar para a Escola Apostólica Diocesana. Em 1960, foi ainda para Roma para fazer um doutoramento em Direito Canónico na Universidade Urbaniana. Nos seus 70 anos de idade, este prelado ordenado em 18 de março de 1958 somou 40 anos de sacerdócio e 23 anos como Bispo de Cochim, desde 22 de dezembro de 1975, sendo o  33º Bispo da Diocesse de Cochim  e o 2º do clero indiano, a exemplo do seu antecessor. O seu bispado pautou-se pela fundação de muitas instituições, como institutos de assistência social, uma faculdade, algumas escolas, hospitais, casas de repouso, paróquias e igrejas, bem como uma congregação religiosa destinada a mulheres (Irmãs da Sagrada Eucaristia). Empenhou-se também em campanhas de promoção de direitos para as mulheres, idosos e desempregados.

O Bispo de Cochim foi um homem culto, atento, aberto à história e ao diálogo intercultural entre os povos indiano e português, cuja dedicação ao serviço da cultura portuguesa na Índia mereceu ser agraciado com a Ordem do Infante D. Henrique, pelo Presidente Mário Soares, em 1995.

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Bolivar, o «pai» da Bolívia numa rua em papel

O político e militar venezuelano Simón Bolívar, «pai» da Bolívia e de outras nações sul-americanas tornadas independentes da colonização espanhola, foi consignado em papel como topónimo de uma rua do Bairro América, na Freguesia de São Vicente, que nunca chegou a ser fisicamente aberta.

A Rua Bolivar nasceu de uma deliberação camarária de 25 de novembro de 1918, com mais 6 topónimos, todos referentes a figuras ligadas ao continente americano, no novo bairro que estava a ser construído na Quinta das Marcelinas e que a edilidade denominou a pedido dos proprietários como Bairro América, quando tinham passado 14 dias após a assinatura do armistício de Compiègne que pôs fim à  I Guerra Mundial e, no ano seguinte ao da entrada dos Estados Unidos da América no conflito.

Aliás, a ata dessa sessão camarária ainda mais elucida que «Os Srs. Manuel José Martins Contreiras, Dr. João José da Silva e Fernão Boto Machado, proprietários da Quinta das Marcelinas, na Rua Vale de Santo António, 30, requereram a esta Câmara que lhes fosse dado ao Bairro que ali estão construindo, a denominação de Bairro da América, a exemplo do que já foi feito para os bairros da Bélgica e da Inglaterra e que os arruamentos tivessem as seguintes denominações: nº 1:Rua Franklin, nº 2: Washington, nº 3: Rui Barbosa, nº 4: Bolívar, nº 5: Dos Cortes Reais, nº 6: de Fernando de Magalhães, nº 7:de Álvaro Fagundes.»

O correspondente Edital municipal só foi publicado em 17 de 0utubro de 1924 e os arruamentos Rua Bolivar e Rua Álvaro Fagundes nunca tiveram execução prática na urbanização do Bairro América , embora em 1971, o nome de Álvaro Fagundes tenha regressado para a toponímia lisboeta para dar nome à Rua C à Rua General Justiniano Padrel, também na Freguesia de São Vicente.

Simón José Antonio de la Santísima Trinidad Bolívar y Palacios Ponte-Andrade y Blanco (Venezuela – Caracas/24.07.1783 – 17.12.1830/Colômbia),  conhecido como Simón Bolívar, destacou-se como militar desde janeiro de 1797 e político sul-americano que quis libertar a América da colonização espanhola. Com José de San Martín (1778 -1850) desempenhou um papel fulcral nas guerras de independência da América espanhola, tendo nesse processo contribuído para lançar as bases ideológicas democráticas na maioria da América hispânica e conseguido o epíteto de O Libertador.

Nos seus 46 anos de vida, Bolívar foi Presidente da Venezuela, de 6 de agosto de 1813 a a 7 de julho de 1814 bem como de 15 de fevereiro de 1819 a 17 de dezembro de 1819, sendo este país desde 1999 denominado República Bolivariana da Venezuela; do Peru, de 17 de fevereiro de 1824 a 28 de janeiro de 1827; da  Bolívia, de 12 de agosto de 1825 a 29 de dezembro de 1825; para além de ter participou na fundação da primeira união de nações independentes na América Latina, a Grã-Colômbia, que integrava a Colômbia, o Equador , a Venezuela e o Panamá, da qual foi Presidente de 17 de dezembro de 1819 a 4 de maio de 1830.

Edital municipal de 17 de outubro de 1924

A Rua do jovem mártir São Ciro

Freguesia da Estrela
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

Uma rua da Freguesia da Estrela guarda a memória de São Ciro, mártir do cristianismo aos 3 anos de idade, provavelmente desde o séc. XVII ou XVIII, talvez por devoção de religiosos instalados na zona.

Este arruamento que se estende da Rua de Sant’Ana à Lapa (artéria anterior ao Terramoto de 1755) à Rua de Buenos Aires surge já nas plantas e descrições das freguesias de Lisboa após a remodelação paroquial de 1780, como arruamento divisório da Freguesia do Senhor Jesus da Boa Morte  com a Freguesia de Nossa Senhora da Lapa, assim se mantendo em 1857, nas plantas do Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque.

O topónimo homenageia o mártir cristão que com apenas 3 anos de idade foi morto com sua mãe, consagrada como Santa Julita, no século IV, na Turquia, cabendo a ambos o dia 16 de junho no calendário católico. São Ciro vivia na Turquia quando o imperador Diocleciano começou a perseguir, prender e matar cristãos. Sua mãe terá então fugido com ele para Tarso ou Antioquia (ambas localidades turcas) mas acabaram torturados e mortos no ano 304. Precedido  dos santos mártires exterminados pelo rei Herodes em Belém, Ciro tornou-se o mais jovem mártir do cristianismo.

O culto de São Ciro espalhou-se por toda a cristandade, mas quase sem referir a sua mãe, sendo assim que encontramos muitas igrejas ou localidades dedicadas em sua honra na Síria, na Palestina, em Itália, França, Espanha ou Brasil.

Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

A Rua do norueguês que primeiro chegou ao Polo Sul, Roald Amundsen

Freguesia do Parque das Nações
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

O norueguês Roald Amundsen, foi o primeiro a chegar ao Polo Sul, em 1911 e este explorador dos Polos está consagrado numa Rua do Parque das Nações, desde a realização da Expo 98, oficializada pela Câmara Municipal de Lisboa através do Edital de  06/05/2015.

A Rua Roald Amundsen é uma herança toponímica da Expo 98, subordinada  ao tema Os oceanos: um património para o futuro, tendo nomeado os arruamentos do evento com topónimos ligados aos oceanos, a navegadores e aos Descobrimentos Portugueses, aos aventureiros marítimos da literatura e banda desenhada mundial, a figuras de relevo para Portugal, a escritores portugueses ou títulos de obras suas e ainda juntou alguns ligados à botânica. Após a reconversão da zona em Parque das Nações foram oficializados 102 topónimos  pelo Edital municipal de 16/09/2009, e mais tarde, pelo Edital municipal de 06/05/2015, foram oficializados mais 60 topónimos do Parque das Nações Norte, onde se inclui esta Rua Roald Amundsen, que se inicia na Rua da Cotovia e vai até ao limite do concelho de Lisboa.

Roald Amundsen em 1906, numa fotografia de estúdio

Roald Engelbregt Gravning Amundsen ( Noruega – Borge/16.07.1872 – 18.06.1928/Ártico) distinguiu-se como explorador das regiões polares, tendo liderado a primeira expedição a atingir o Polo Sul, em 14 de dezembro de 1911, utilizando trenós puxados por cães.

Depois, esteve em digressão pelos Estados Unidos da América a realizar conferências, país a que regressou em 1914, para obter um certificado de voo, sendo o primeiro civil norueguês a consegui-lo. Em 1918, partiu para o Ártico no veleiro Maud embora não tenha conseguido alcançar o Polo Norte depois de dois anos à deriva. Sete anos depois, em 1925, organizou a primeira expedição aérea ao Ártico, chegando então à latitude de 87º 44′ N. No ano seguinte de 1926 conseguiu sobrevoar o Polo Norte no dirigível Norge, com o italiano Umberto Nobile e o norte-americano Lincoln Ellsworth, sendo os primeiros a fazê-lo e ficando Amundsen como a primeira pessoa a chegar a ambos os Polos.

Amundsen nasceu numa família de proprietários de navio e capitães. Aos 16 anos já estudava as regiões polares, tendo como referência a travessia da Groenlândia por Fridtjof Nansen e embora tivesse  frequentado o curso de Medicina optou por  seguir uma vida ligada ao mar e a exploração. Em 1897, com 25 anos, como primeiro oficial, fez parte da tripulação do Belgica  na Expedição Antártica Belga de Adrien de Gerlache. Em 1903, também embarcou no Gjøa, na expedição que iria atravessar a passagem Noroeste que liga os oceanos Atlântico ao Pacífico, na região norte do Canadá. Em junho de 1928, Roald Amundsen embarcou num hidroavião, em Tromso, perto do cabo Norte, para efectuar as buscas do dirigível Itália que levava o aviador Umberto Nobile e foi a última vez que se teve notícias deste explorador.

Freguesia do Parque das Nações
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )