A Rua dedicada a Gilberto Freyre do luso-tropicalismo

Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias)

Por proposta do Sr. Appio Sottomayor e do Prof. Esteves Pereira, enquanto membros da Comissão Municipal de Toponímia, foi atribuído o nome de Gilberto Freyre em Lisboa, o que se concretizou pelo Edital municipal de 26/12/2001 na Rua M4 da Zona M de Chelas, em Marvila, sendo também atribuída a Rua Jorge Amado nas proximidades, fazendo com que no presente a Rua Gilberto Freyre una a Rua Jorge Amado à Avenida Vergilio Ferreira.

Gilberto Freyre (Brasil-Recife/15.04.1900 – 18.01.1987/Recife-Brasil) foi um sociólogo brasileiro que se distinguiu pela criação do conceito de luso-tropicalismo: uma natural e inata capacidade de adaptação dos portugueses aos trópicos teria permitido uma miscigenação cultural de índios, negros e lusos sendo essa a característica da colonização portuguesa.  Politicamente, esta tese teve grandes repercussões no Brasil por valorizar o papel importante dos índios e negros na formação da sociedade brasileira.

A sua obra mais conhecida é Casa Grande & Senzala (1933), onde traçou um quadro da fusão de raças e das heranças culturais com base luso-africana e o modo como esta fusão contribuiu para a identidade brasileira, pelo que recebeu elogios de Roland Barthes e Fernand Braudel.

Foi na sequência de uma visita a Cabo Verde, Guiné, São Tomé, Angola, Moçambique e Goa,  a convite do governo português, que Gilberto Freyre lançou o conceito de tropicalismo e luso-tropicalismo expresso nas suas obras O mundo que o português criou (1940),  O luso e o trópico (1961), Arte, ciência e trópico (1962), Homem, cultura e trópico (1962), A Amazónia brasileira e uma possível lusotropicologia (1964), para além de em 1966 ter iniciado um Seminário de Tropicologia que dirigiu até à sua morte.

Refira-se ainda que Gilberto Freyre se exilou em Portugal de 1930 a 1933, acompanhando o governador de Pernambuco, de quem era secretário particular, na fuga provocada pela Revolução de Outubro de 1930, que colocou Getúlio Vargas no poder.

Freguesia de Marvila (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Cervantes e o Autoparque Madrid

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Rua Cervantes - Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Rua Cervantes – Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

A ligar a Avenida João XXI à Avenida de Madrid encontramos hoje a Rua Cervantes, atribuída em 1948, hoje paralela ao Autoparque Madrid, um topónimo de 2001.

A Rua Cervantes resultou da publicação do Edital municipal de 29 de julho de 1948, fixada no arruamento identificado então como Rua D2 da Zona compreendida entre a Alameda Dom Afonso Henriques e a Linha Férrea de Cintura. Este Edital resultou da procura da edilidade lisboeta de imprimir algum cosmopolitismo à cidade, com doze topónimos, todos ligados a personalidades de cariz internacional ou a cidades europeias e brasileiras, onde couberam os nomes dos cientistas europeus Pasteur e Marconi, do inventor americano Edison, dos escritores Vítor Hugo (francês), Afrânio Peixoto e João do Rio (brasileiros), bem como Avenidas para Madrid, Paris e Rio de Janeiro, uma praça para Londres, para além da Avenida João XXI que homenageia o único Papa português.

A Rua Cervantes e o Autoparque Madrid - Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

A Rua Cervantes e o Autoparque Madrid – Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

O castelhano Miguel de Cervantes Saavedra (Alcalá de Henares/29(?).09.1547 – 22 ou 23 (?).04.1616/Madrid) foi um romancista, dramaturgo, poeta, soldado e cobrador de impostos, autor do famoso D. Quixote de la Mancha, considerado o primeiro romance moderno, que teve licença de impressão em 26 de setembro de 1604 e alcançou um êxito enorme com 9 edições em 1605: duas em Madrid, três em Lisboa (sem o consentimento do autor) e duas em Valência.

Cervantes enquanto soldado, lutou em Itália (1569), combateu na Batalha de Lepanto (1571), nas Jornadas de Tunes e da Goleta (1573), foi feito cativo por corsários em Argel (1575 – 1580), onde conheceu Manuel de Sousa Coutinho (Frei Luís de Sousa), de quem aliás narrou os amores em Trabajos de Pérsiles y Sesinanda (1616). Regressado a Espanha passou a ser cobrador de impostos e veio para Portugal em 1581 para conseguir entrar na corte de Filipe II de Espanha e I de Portugal, tendo ficado em Lisboa até 1583 e escrito  a ideia «Para festas Milão, para amores Lusitânia».

Em 2001, pelo Edital municipal de 3 de janeiro, o espaço compreendido entre a Avenida de Madrid, Rua Cervantes e Avenida João XXI passou a denominar-se Autoparque Madrid, referindo-se o topónimo à artéria onde se abre o Autoparque, uma nova categoria de via pública essencialmente destinada ao parqueamento automóvel cuja denominação corresponde sempre ao nome da artéria que lhe dá acesso.

Autoparque Madrid - Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Autoparque Madrid – Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

 

A Rua de Zelins, o autor do «Menino de engenho»

Freguesia de Alvalade (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias)

Por sugestão de Guedes de Amorim num artigo publicado no Século Ilustrado,  a Comissão Municipal de Toponímia deu parecer positivo a que o autor do romance Menino de engenho, conhecido pelos amigos como Zélins, integrasse a toponímia de Lisboa no arruamento ou Praceta projetado entre a Avenida do Brasil e as Ruas Antónia Pusich e Afonso Lopes Vieira, na Freguesia de Alvalade, como Rua José Lins do Rego, o que aconteceu pelo Edital de 28 de outubro de 1960.

Escritor José Lins do Rego, 2 negativos 6x6 cm PB nitrato

José Lins do Rego Cavalcanti (Pernambuco/03.06.1901 – 12.09. 1957/Rio de Janeiro) morou no Engenho Tapuá de seu pai, e após o falecimento de sua mãe mudou-se para o engenho do seu avô materno, que era o Coronel Bubu do Corredor (José Lins Cavalcanti de Albuquerque), senhor de 8 engenhos da várzea do Rio Paraíba.

Formou-se em Direito no Recife colaborando também  no Diário de Recife e sendo um dos fundadores do semanário Dom Casmurro. Em 1925 ingressou no Ministério Público de Minas Gerais, como promotor em Manhuaçu, mas no ano seguinte transferiu-se  para a capital de Alagoas, onde passou a exercer as funções de fiscal de bancos até 1930, e fiscal de consumo, de 1931 a 1935, sendo assim que participou do movimento regionalista de 33 organizado por Gilberto Freyre no Recife. Em Maceió, colaborou no Jornal de Alagoas e participou no grupo de Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Aurélio Buarque de Holanda, Jorge de Lima, Valdemar Cavalcanti, Aloísio Branco e Carlos Paurílio, entre outros. Publicou o seu 1º livro, Menino de engenho (1932), que foi Prémio da Fundação Graça Aranha e impulsionou a literatura regionalista do nordeste do Brasil. Em 1933 publicou Doidinho, o 2º livro do «Ciclo da Cana-de-Açúcar», a que se seguiram Bangüê (1934), O Moleque Ricardo (1935), e Usina (1936), no mesmo ano em que deu à estampa o seu único livro infantil: Histórias da Velha Totonha.

Em 1935 mudou-se para o Rio de Janeiro e passou a colaborar com O Globo e Diários Associados. Foi também este o ano em que ganhou  paixão pelo futebol, passando de sócio do Flamengo a cronista desportivo e a dirigente do Clube de Regatas do Flamengo, tendo publicado 1571 crónicas desportivas só no Jornal dos Sports. A sua obra passou a espelhar  o neorrealismo pós-modernista brasileiro, com títulos como Fogo Morto (1942) ou Cangaceiros (1953). Entre muitas outras obras de Lins do Rego, destacam-se Água mãe (Prémio da Fundação Felipe de Oliveira), Eurídice (Prémio Fábio Prado). Lins do Rego foi ainda membro da Academia Paraibana de Letras e da Academia Brasileira de Letras (1955).

No presente, podemos encontrar o seu nome também perpetuado em artérias brasileiras de Belo Horizonte, Curitiba, Estado de São Paulo, Estado do Paraná, Goiás, Paraíba, Pelotas, Petrolina, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

Freguesia de Alvalade (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do Herói da batalha de Riachuelo, Almirante Barroso

Freguesia de Arroios (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Foto: Sérgio Dias)

O Almirante Barroso, Barão do Amazonas, integrou a toponímia de Lisboa vinte e um anos após o seu falecimento, através do Edital municipal de 16 de dezembro de 1903, na Estrada das Picoas no «arruamento que começa no Largo de Dona Estefânia e termina no Largo do Matadouro [hoje, Praça José Fontana]», a partir de uma proposta do próprio Presidente da Câmara, o Conde d’Ávila.

almirante-barroso-barao_do_amazonasFrancisco Manoel Barrozo da Silva (Lisboa/29.09.1804 – 08.08.1882/Montevideu – Uruguai) partiu em 1808 com a sua família para o Brasil, seguindo a família Real  e aí se tornou Oficial da Marinha de Guerra Brasileira. Distinguiu-se ao comandar a esquadra brasileira na batalha naval de Riachuelo que venceu, em junho de 1865, no contexto da Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai,  pelo que foi considerado um Herói e galardoado pelo governo imperial com a Ordem Imperial do Cruzeiro e o título honorífico de Barão do Amazonas (1866), que era aliás o nome do navio que comandava. Recebeu também as ordens da Rosa, do Cruzeiro e de São Bento de Avis. Em 1868 foi nomeado Comandante-chefe da esquadra e nesse mesmo ano foi promovido a Vice-almirante.

Refira-se que Barroso da Silva nascido português se tornou brasileiro por força da Constituição imperial de 1824.

Para além de Lisboa, o Almirante Barroso também dá o seu nome a inúmeras artérias do Brasil: a ruas de Bagé, Blumenau, Florianópolis, Fortaleza,  Limeira, Paraná, Peruíbe, Porto Alegre, Praia Grande, Pelotas, Rio Grande, Salvador e ainda,  avenidas em Belém, Campina Grande, João Pessoa, Porto Velho e Rio de Janeiro. No Chile também existe um arruamento a que deu nome.

Freguesia de Arroios (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias)

O centenário Bairro de Inglaterra nascido em 29 de agosto de 1916

O Bairro de Inglaterra (Planta: Sérgio Dias)

O Bairro de Inglaterra
(Planta: Sérgio Dias)

Há cem anos, pelo Edital municipal de 29 de agosto de 1916, nasceu nas encostas nascentes do Monte Agudo e colinas da Penha de França o Bairro de Inglaterra, com topónimos todos relacionados com esse país, a saber: a Rua Cidade de Cardiff, a Rua Cidade de Liverpool, a Rua Cidade de Manchester, a Rua Newton (que esteve para ser Lord Byron) e a Rua Poeta Milton.

A Rua Cidade Cardiff (Foto: Sérgio Dias)

A Rua Cidade Cardiff
(Foto: Sérgio Dias)

O Bairro de Inglaterra passou a ser a denominação do Bairro de Brás Simões, já que o proprietário desta urbanização e grande comerciante de Lisboa era José Brás Simões de Sousa, que em 13 de outubro de 1913 entregou os seus arruamentos particulares à Câmara Municipal de Lisboa. O antigo nome do bairro derivava do nome do seu proprietário e os topónimos das suas artérias homenageavam familiares do mesmo, como já acontecera no Bairro Andrade e era costume na época. O novo nome espelhou as alianças que Portugal firmou no contexto da I Grande Guerra: ao incluir modernas cidades inglesas na toponímia da capital portuguesa reforçava diplomaticamente a antiga aliança de Portugal com Inglaterra.

Rua Cidade de Liverpool (Foto: Sérgio Dias)

Rua Cidade de Liverpool
(Foto: Sérgio Dias)

Recorde-se que em fevereiro de 1916 a Inglaterra, país aliado de Portugal desde o casamento de D. João I com D. Filipa de Lencastre (em 1387), pediu ao nosso país que fizesse o apresamento de todos os navios alemães que estavam ancorados na costa portuguesa, e assim feito a Alemanha respondeu com uma declaração oficial de guerra a Portugal, em 9 de março de 1916, não obstante os combates entre Portugal e a Alemanha já ocorrerem desde setembro de 1914, tanto na fronteira sul de Angola como na fronteira norte de Moçambique.

Rua Cidade de Manchester (Foto: Sérgio Dias)

Rua Cidade de Manchester
(Foto: Sérgio Dias)

Foi neste contexto que cinco meses volvidos após a declaração de guerra, na reunião de Câmara de 17 de agosto de 1916, por proposta dos vereadores Santos Neto e Feliciano de Sousa, foi deliberado atribuir topónimos relacionados com Inglaterra.

A Rua Cidade de Cardiff tomou o lugar da Rua Maria Gouveia, fixando uma cidade portuária, como Liverpool ou Lisboa, que em 1916 detinha a maioria do trânsito de carvão no mundo.

A Rua Cidade de Liverpool era antes a Rua José de Sousa, trazendo a memória da cidade inglesa cujo porto prosperou graças à presença de inúmeros mercadores oriundos de Londres, após esta ter sofrido a  grande peste de 1664 e o grande incêndio de 1666.

Já a Rua Cidade de Manchester tinha sido a Rua Isabel Leal até este Edital de 1916 trazer para Lisboa esta cidade do Noroeste da Inglaterra, próspera desde a  Revolução Industrial já que nela se aplicou a máquina a vapor na indústria têxtil logo desde 1789, o que a tornou a segunda cidade inglesa ainda no séc. XIX.

Rua Newton (Foto: Sérgio Dias)

Rua Newton
(Foto: Sérgio Dias)

À Rua Aurora foi dado o nome de Rua Lord Byron na proposta apresentada na reunião de Câmara de 17 de agosto de 1916. Mas na reunião da semana seguinte, a 24 de agosto, foi decidido mudar o topónimo para Rua Newton, já que conforme a Ata dessa reunião «Lord Byron, que sendo uma gloria de Inglaterra e um dos cantores das belezas de Cintra, e da propria capital do nosso paiz, tinha comtudo, devido ao seu temperamento, sido um poeta que agravara os portuguezes, como aliás havia procedido pela mesma forma para com os proprios inglezes. Por esse motivo a resolução da Comissão Executiva sofrera reparos por parte de alguns municipes e de um jornal importante da capital.» Assim, o Edital dos topónimos deste Bairro de Inglaterra só foi publicado a 29 de agosto, sendo a Rua Aurora desde aí designada Rua Newton, resultando assim que as duas personalidades inglesas escolhidas fossem uma da área das letras e outra da área das letras.

À Rua Margarida foi atribuído o topónimo Rua Poeta Milton, que além de ser poeta foi também um defensor da República Inglesa.

Passados 18 anos, em 1934, foram de novo pavimentadas a Rua Cidade de Liverpool, a Rua Cidade de Cardiff e a Rua Newton. O mesmo aconteceu com a Rua Poeta Milton, cuja obra foi adjudicada a Artur Fernandes Alves Ribeiro.

Rua Poeta Milton (Foto: Sérgio Dias)

Rua Poeta Milton
(Foto: Sérgio Dias)

O Largo do companheiro de Amadeu em Paris

Freguesia de Carnide (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias)

Quando Amadeu de Sousa Cardoso completou 19 anos partiu para Paris, acompanhado de outro pintor, o seu amigo Francisco Smith, que também está perpetuado num Largo de Lisboa desde 1982.

O Largo Francisco Smith, com a legenda «Pintor/1881 – 1961», ficou no Impasse E1 da Urbanização de Carnide pelo Edital municipal de 14/04/1982 que também colocou nas proximidades a Rua Eduardo Viana – referente a outro pintor amigo de Francis Smith e de  Amadeu- na Rua E-1 da Urbanização de Carnide.

As escadinhas, 1934

Francisco Smith (Lisboa/1881 — 1961/Paris), foi um pintor de origem inglesa e de nacionalidade portuguesa que foi para Paris com Amadeu de Sousa Cardoso e nessa cidade fixou residência em 1907, o ano em que Picasso pintou Les Démoiselles d’Avignon, raramente voltando a Portugal, tanto mais que após o seu casamento na década de 1930, com a escultora Yvonne Mortier, optou pela nacionalidade francesa e simplificou o seu nome para Francis Smith.

Em Portugal,  integrou a Exposição dos Humoristas e Modernistas de 1911, a mostra da Galeria de Artes de 1916 e o Salão de Outono de 1925; e individualmente expôs no Salão Bobone (1934) na Rua Serpa Pinto bem como na I Exposição de Arte Moderna do SPN/SNI (1935). No entanto, a sua carreira desenrolou-se sobretudo em França, a partir de 1922 , tendo até museus de província franceses adquirido obras suas.

A sua pintura é sobretudo uma exploração da memória dos lugares de infância, uma Lisboa posta em pequenas telas de vistas da cidade e de outras aldeias e vilas recordadas que foi recordada pelo SNI – Secretariado Nacional de Informação quando organizou a Exposição retrospetiva de Francisco Smith, 1881-1961 (1967); ao integrar a exposição itinerante em Bruxelas, Paris, Madrid, intitulada Art Portugais (1967-1968) e, quando o Centro Cultural Português da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris mostrou em 1969 Le Portugal dans l’oeuvre de Francis Smith.

Francis Smith está representado no Museu do Chiado/Museu de Arte Contemporânea, no CAM da Fundação Calouste Gulbenkian e  no Museu de Lisboa- Palácio Pimenta.

Freguesia de Carnide (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Carnide
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do republicano poeta Milton de Paraíso Perdido

Freguesias de Arroios e Penha de França (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias de Arroios e Penha de França
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Poeta Milton, no Bairro de Inglaterra, nasceu há 100 anos na Rua Margarida do antigo Bairro Brás Simões –  referindo o nome do comerciante e proprietário daquelas terras e daquela urbanização -, pelo Edital de 29 de agosto de 1916, que também atribuiu a Rua Cidade de Cardiff, a Rua Cidade de Liverpool, a Rua Cidade de Manchester e a Rua Newton.

Sabe-se também as ruas Poeta Milton, dos Remédios, de São Gens, de Santiago, da Saudade, Barão de Sabrosa, Cavalheiro de Oliveira e Calçada da Graça foram de novo pavimentadas em 1934, graças a adjudicação da edilidade  a Artur Fernandes Alves Ribeiro em 24 de maio desse ano.

John Milton (Londres/09.12.1608 – 08.11.1674/Londres), poeta e defensor da República Inglesa é o inscrito nesta rua do Bairro de Inglaterra, paralela à Rua Newton, entre a Rua Cidade de Liverpool e a Rua Cidade de Manchester.

John Milton foi um poeta, polemista republicano, intelectual e funcionário público da Comunidade da Inglaterra sob Oliver Cromwell, servindo como ministro de línguas estrangeiras.  Licenciado pela Christ’s College da Universidade de Cambridge em 1629 e com mestrado de artes em 1632, escreveu panfletos de controversas teológicas (1639) mas 15 dias após a implantação da República publicou uma defesa do acto de execução de Carlos I e outros panfletos que lhe valeram a fama europeia de polemista (1649). Ainda em 1649, foi nomeado Secretário de línguas estrangeiras do Conselho de Estado e apesar de cegar em 1652, cumpriu os seus deveres até à abdicação de Ricardo Cromwell em 1659.  Após a Restauração (1661)  continuou a defender a república e a criticar a monarquia para além de se dedicar ao trabalho literário, com elegias latinas, opúsculos, alegações a favor da liberdade de Imprensa, alguns sonetos e o grande  poema épico Paradise Lost (1667), publicado em 10 volumes.

Freguesias de Arroios e Penha de França (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias de Arroios e Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua de Sir Newton que esteve para ser de Lord Byron

Freguesia de Arroios (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Newton, começou por ser proposta na reunião de Câmara de 17 de agosto de 1916 como Rua Lord Byron mas no Edital de 24 do mesmo mês passou antes a homenagear Newton, sendo os restantes arruamentos do bairro denominados Rua Cidade de Cardiff, Rua Cidade de Liverpool, Rua Cidade de Manchester e Rua Poeta Milton, ficando assim perpetuadas no Bairro de Inglaterra uma personalidade inglesa das área das ciências e outra da área das letras, para além de três cidades do Reino Unido.

A Rua Newton, que vai da Rua Cidade de Liverpool à Rua de Moçambique, era a Rua Aurora do antigo Bairro Brás Simões, comerciante e proprietário das terras que urbanizou e que crismou as artérias com nomes de familiares seus, como era costume na época antes de entregar os seus arruamentos particulares à Câmara em 13 de outubro de 1913, o que permitiu à edilidade pelo Edital de 24 de agosto de 1916 passar também a Rua Maria Gouveia a Rua Cidade de Cardiff , a Rua José de Sousa a Rua Cidade de Liverpool, a Rua Isabel Leal a Rua Cidade de Manchester e a Rua Margarida a Rua Poeta Milton.

@ NewtonIsaac Newton (Woolsthorpe/25.12.1642 ou 04.01.1643 – 20.03.1726 ou 31.03.1727/Kensington), por muitos considerado o pai da ciência moderna, descobriu a Lei da Gravidade, a fórmula do Binómio, a lei da viscosidade e a natureza corpuscular da luz. Foi um cientista reconhecido como físico, matemático, astrónomo, alquimista, filósofo e teólogo. A sua Principia (Philosophiae Naturalis Principia Matematica), publicada em 1687, onde descreveu a lei da gravitação universal e as suas três Leis – Lei da Inércia, Lei Fundamental da Dinâmica, Lei da Ação-Reação – que fundamentam a mecânica clássica, é reconhecida como das mais influentes na história da ciência.

Newton também foi Professor em Cambrigde, a partir de 1667; um dos dois membros da Universidade no Parlamento, em janeiro de 1689; presidente da Royal Society a partir de 1703 e reeleito ano após ano até falecer; e o primeiro cientista a receber a honra de ser armado cavaleiro (Sir) pela rainha Ana, em 1705.

Freguesia de Arroios (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias)

 

Presidente Wilson, de avenida a rua

Rua Presidente Wilson na Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Rua Presidente Wilson na Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

Após a entrada formal dos Estados Unidos da América  na I Guerra, com a declaração de guerra à Alemanha em abril de 1917, logo no ano seguinte, em setembro de 1918, o Presidente Wilson passou a denominar a antiga Avenida das Cortes e assim continuou até 1948, quando foi transferido para uma rua do Areeiro.

 A Ilustração Portuguesa, 09.02.1924

A Ilustração Portuguesa, 09.02.1924

Thomas Woodrow Wilson (E.U.A. – Staunton/28.12.1856-03.02.1924/Washington – E.U.A.), foi o Presidente dos Estados Unidos da América de 1912 a 1921 e enquanto tal o responsável pela declaração de guerra à Alemanha em 1917. Logo no ano seguinte,  por deliberação camarária de 19 de setembro e edital de 24 de setembro de 1918, Lisboa homenageou na sua toponímia o Presidente vivo do Estados Unidos da América naquela que era a Avenida das Cortes, dada após a implantação da República pelo 1º edital de toponímia da edilidade lisboeta (de 05/11/1911), que por seu turno tomara o lugar da Rua D. Carlos I. Cerca de dois meses após o Presidente Wilson ser topónimo lisboeta foi assinado o Armistício em Compiègne, em 11 de novembro de 1918,  e no ano seguinte, este presidente dos Estados Unidos da América  recebeu o Prémio Nobel da Paz e tornou-se grande impulsionador da Sociedade das Nações.

Passados 30 anos, em 1948, a Comissão Consultiva Municipal de Toponímia procurou dar denominações cosmopolitas a Lisboa, com referências europeias e brasileiras, que  também se traduziram por transformar a Avenida Presidente Wilson na Avenida D. Carlos I, ao mesmo tempo que era atribuída a Rua Presidente Wilson na Rua D1 do plano de urbanização da zona compreendida entre a Alameda Dom Afonso Henriques e a linha férrea de cintura, na então freguesia de São João de Deus (hoje, freguesia do Areeiro), através do edital municipal de 23 de dezembro de 1948.

Este edital camarário de 23 de dezembro, bem como o 29 de julho desse mesmo ano, colocaram na toponímia de Lisboa mais americanos com a Rua Edison, alusões francesas com a Avenida de Paris, a Rua Vítor Hugo e a Praça Pasteur, referências europeias através da Praça de Londres,  da Avenida Madrid, da Rua Cervantes e da Avenida Marconi,  e ainda incluindo ainda nesta ocasião registos brasileiros com as Avenida do Brasil e Rio de Janeiro, as Praças João do Rio e Afrânio Peixoto, para além de colocar na toponímia alfacinha o único papa português através da Avenida João XXI.

Rua Presidente Wilson na Freguesia de (Planta: Sérgio Dias)

Rua Presidente Wilson na Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

A I Guerra na Toponímia do Bairro América

Freguesia de São Vicente (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)

Os Estados Unidos da América declararam guerra à Alemanha em abril de 1917 e no ano seguinte findou a I Guerra Mundial. Em Lisboa, 14 dias após a assinatura do armistício de Compiègne (11 de novembro), a deliberação camarária de 25 de novembro de 1918, denominou um novo bairro,  construído entre 1915 e 1920 na antiga Quinta das Marcelinas, como Bairro América e as suas artérias com os nomes de dois norte-americanos e de outras figuras ligadas ao continente americano.

Já antes mesmo da assinatura do armistício, por deliberação camarária de 19 de setembro e edital de 24 de setembro de 1918, Lisboa homenageara numa Avenida o então Presidente dos Estados Unidos da América, Thomas Woodrow Wilson.

A deliberação municipal especificou «Que se denomine Bairro America, o bairro em construção na Quinta das Marcelinas na rua do Vale de Santo Antonio e que os respectivos arruamentos tenham as designações seguintes: o nº 1, rua Franklin [Benjamin Franklin, estadista norte-americano fulcral na independência das 13 colónias inglesas para a construção dos estados americanos]; o nº 2, rua Washington [o 1º Presidente dos Estados Unidos da América]; o nº3, rua Ruy Barbosa [político e jornalista brasileiro que defendia o princípio da igualdade das nações]; o nº 4, rua Bolivar [Simon Bolívar que combateu o domínio espanhol na América do Sul, fundou a República da Bolívia e procurou implantar a República dos Estados Unidos do Sul com a junção da Bolívia, Venezuela e Colômbia]; a nº 5, rua do Costa Reais [refere-se aos Cortes Reais, família de navegadores portugueses que empreenderam navegações para o continente americano]; o nº 6, rua Fernão de Magalhães [o primeiro navegador a fazer uma viagem de circum-navegação], e o nº7, rua Alvaro Fagundes [navegador português do século XVI que explorou a costa austral da Terra Nova]. Deliberação camararia de 25 de Novembro de 1918». O Edital municipal foi publicado 6 anos mais tarde, em 17 de outubro de 1924, justificando «Por não terem sido publicados, em devido tempo, os respectivos editais, e por cumprir a esta Comissão Executiva dar execução ás deliberações do Senado Municipal».

Refira-se ainda que os arruamentos Rua Bolívar e Rua Álvaro Fagundes nunca tiveram execução prática, embora, em 1971, o nome de Álvaro Fagundes tenha regressado para a toponímia lisboeta para dar nome à Rua C, à Rua General Justiniano Padrel.

Já as Escadinhas do Bairro América, que ligam a Rua Washington à Rua Rui Barbosa, foram um topónimo atribuído 14 anos depois dos anteriores, pelo Edital de 28/12/1932,  tomando a denominação do Bairro.

Freguesia de São Vicente (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)