As reviravoltas da Rua da Paz na Ajuda

Freguesia da Ajuda – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Edital municipal de 11 de Novembro de 1918, mandado publicar pelo Presidente da Comissão Administrativa da CML, Adães Bermudes, fez nascer na Ajuda a Rua da Paz , feita com «a parte da Rua Brotero que confina ao Sul com a Rua das Mercês e ao Norte com o Largo da Paz», retirando deste último topónimo a sua designação, conforme a deliberação camarária de 14 de outubro de 1918. É esta artéria que nos dias de hoje liga da Rua das Mercês à Travessa de Paulo Martins.

Contudo, o topónimo Rua da Paz, na Ajuda, sofreu diversas reviravoltas. Sabe-se que por volta de 1762-1763, a freguesia da Ajuda deixou de ser considerada suburbana e estava incluída nos limites da cidade de Lisboa com 5 principais arruamentos: Calçada que vai de Alcântara para a Ajuda, Travessa da Estopa, Calçada de Nossa Senhora da Ajuda, Rua das Mercês e a Rua da Paz. Mas depois, por Decreto do Ministério do Reino, de 11 de setembro de 1852, o concelho de Lisboa foi subdivido em três: Lisboa, Olivais e Belém, sendo este último constituído pelas freguesias de Ajuda, Benfica, Carnide, Belém, Odivelas, Alcântara extra-muros, Santa Isabel extra-muros e São Sebastião da Pedreira extra muros. Extinto o Concelho de Belém em 1885, a edilidade alfacinha recebeu os seus arruamentos e por isso, passados 4 anos, por Edital municipal de 6 de junho de 1889, a Rua da Paz passou a denominar-se Rua da Paz à Ajuda, uma vez que na cidade de Lisboa já existia uma Rua da Paz, junto à Rua dos Poiais de São Bento, que de acordo com Norberto de Araújo já existia em 1602, antes do que teria sido denominada Rua da Peixeira.

Já no séc. XX, o Edital de 26 de setembro de 1916 pegou no  troço da Rua da Paz à Ajuda com começo na Travessa da Memória e término na Rua do Jardim Botânico e juntou ao troço da Rua do Laranjal com começo no Largo da Paz e término na Rua do Jardim Botânico para fazer a Rua Brotero, que por sua vez doou parte para dois anos depois se fazer a Rua da Paz na freguesia da Ajuda.

A Rua da Paz dos nossos dias – Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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Trinta anos da Avenida Presidente Wilson em Lisboa, de 1918 a 1948

A Avenida Presidente Wilson em 1919
(Ilustração Portuguesa, 16 de Junho de 1919)

A Avenida Presidente Wilson existiu em Lisboa durante 30 anos, de 1918 a 1948, em homenagem ao Presidente dos Estados Unidos da América que declarou guerra à Alemanha em 1917, Thomas Woodrow Wilson.

Essa artéria foi somando topónimos ao logo do tempo. Foi a Rua Duque de Terceira que nascia na Rua 24 de Julho e pelo Edital municipal de 28 de Dezembro de 1889 passou a ser denominada Rua Dom Carlos I, ainda em vida do homenageado. Após a implantação da República, por Edital de 5 de novembro de 1910, passou a ser a Avenida das Cortes, em louvor deste  órgão de representação nacional, o órgão do poder legislativo.  Depois, o Presidente dos Estados Unidos da América, Thomas Wilson, fez a entrada formal do seu país na I Guerra Mundial, com a declaração de guerra à Alemanha em abril de 1917 e logo no ano seguinte, por deliberação camarária de 19 de setembro e consequente Edital de 24 de setembro de 1918, a edilidade lisboeta trocou o nome da Avenida das Cortes por Avenida do Presidente Wilson, em vida do presidente homenageado que faleceria cerca de 6 anos depois.

Thomas Woodrow Wilson (E.U.A. – Staunton/28.12.1856-03.02.1924/Washington – E.U.A.), foi o Presidente dos Estados Unidos da América de 1912 a 1921 e enquanto tal, foi o responsável pela declaração de guerra à Alemanha em 1917. Cerca de dois meses após o Presidente Wilson ser um topónimo lisboeta foi assinado o Armistício, em Compiègne, em 11 de novembro de 1918, e a Ilustração Portuguesa noticiou na sua edição seguinte, de dia 18 de novembro , «Acabou a guerra, acabou a guerra! Foi o grito unanime, vibrante de entusiasmo, louco de alegria, que reboou no dia 11 por toda a cidade, ao saber-se que o ‘Seculo’ afixára, no seu placard e nos placards das suas sucursaes, o radiograma recebido ás 10 horas sobre a assinatura do armisticio que, finalmente, se realizará às 5 horas da madrugada d’esse dia.

Em 1919, este presidente dos Estados Unidos da América  recebeu o Prémio Nobel da Paz, pelo seu papel crucial na fundação da Sociedade das Nações, também conhecida por Liga das Nações, cujo papel seria o de assegurar a paz e por isso se extinguiu após deflagrar a II Guerra Mundial, tomando depois o seu papel a ONU – Organização das Nações Unidas.

Voltando à Avenida Presidente Wilson, passados 30 anos sobre o seu Edital de atribuição, em 1948, a edilidade lisboeta decidiu alterar este topónimo para Avenida D. Carlos I, ao mesmo tempo que atribuía ao Presidente Wilson uma Rua – a Rua D1 do plano de urbanização da zona compreendida entre a Alameda Dom Afonso Henriques e a linha férrea de cintura – na então freguesia de São João de Deus (hoje, freguesia do Areeiro), tudo através do Edital municipal de 23 de dezembro de 1948.

A Avenida Presidente Wilson em 1930
(Foto: Ferreira da Cunha, Arquivo Municipal de Lisboa)

No ano da «pneumónica», a Rua do Instituto Bacteriológico

Freguesia de Arroios – Placa Tipo II
(Foto: NT do DPC)

O topónimo Rua do Instituto Bacteriológico ficou firmado definitivamente em 1918, o ano em que a «pneumónica» vitimou milhares de portugueses.

A gripe pneumónica ou gripe espanhola, foi uma pandemia mundial que causou milhares de mortos. Chegou a  Portugal em final de maio de 1918 e em cerca de dois anos, dizimou mais de 50 mil pessoas, chegando a somar  10 por cento da população em algumas zonas do país, numa época em que Portugal participava na I Guerra Mundial e era governado ditatorialmente por Sidónio Pais.

O combate à doença, liderado por Ricardo Jorge – que era então Inspector-Geral de Saúde, diretor do Instituto Central de Higiene-, passou pelo fecho de escolas, pela proibição de feiras e romarias, pela notificação obrigatória de todos os casos e foram requisitados dezenas de espaços públicos para funcionarem como enfermarias. Entre junho e julho de 1918 esta gripe grassou na capital, onde chegou a provocar mais de 400 mortos por semana e em finais de agosto, começou uma segunda vaga cuja máxima intensidade ocorreu em outubro. Jornais como A Luta noticiavam em outubro e novembro a intensidade da epidemia em Lisboa e na ata da sessão de câmara de 24 de outubro de 1918 pode ler-se o seguinte:

«O Sr. Pedro Midosi Baúto declarou estar normalizado o serviço de enterramentos nos cemitérios, tendo-se oficiado ao Conservador Geral do Registo Civil para, em vista do estado anormal, se prolongar o serviço nas Repartições do Registo Civil , o qual, como determinava a lei respectiva, podia até ser prestado de noite em momentos como os actuais. Ainda o orador declarou que já se tinham fabricado nas oficinas municipais e vendido pelo preço do custo, caixões a pessoas necessitadas e que esperava dentro em pouco possuir em depósito bastantes caixões. Terminou o Sr. Midosi Baúto por propor que, de futuro, não só se vendessem pelo preço de custo os caixões às pessoas necessitadas, como aos indigentes fôssem êles fornecidos gratuitamente mediante atestado do regedor respectivo comprovando as suas circunstâncias.»

O Instituto Bacteriológico foi criado numa enfermaria do Hospital de São José, em 1892, pelo médico Luís da Câmara Pestana. O nome Câmara Pestana seria dado ao Instituto no ano do falecimento do médico, em 1899. No ano seguinte, a Câmara Municipal de Lisboa, na sua sessão de 21 de novembro, estabeleceu que tanto o nome do  Instituto como do seu criador passassem a fazer parte da toponímia lisboeta naquela precisa zona da cidade. Depois, o Edital municipal de 5 de dezembro de 1901 determinou que a Rua Câmara Pestana ficasse na Rua do Convento de Santana e que a Rua do Instituto Bacteriológico fosse a Travessa do Convento de Santana. Todavia, passados 17 anos, o Edital de 13 de agosto de  1918 retificou o anterior, colocando antes a Rua Câmara Pestana na Travessa do Convento de Santana e a Rua do Instituto Bacteriológico na Rua do Convento de Santana, situação de que houve ainda uma reconfirmação pelo Edital de 17 de outubro de 1924.

Luís da Câmara Pestana (Funchal/1863 – 1899/Lisboa) criou o  Instituto Bacteriológico de Lisboa para combater um surto de febre tifóide declarado em Lisboa e arredores. O decreto que o formalizou foi publicado em  29 de dezembro de 1892, ou seja, apenas 4 anos após a criação do Instituto Pasteur de Paris, que era então a instituição de referência, bem como no ano imediatamente seguinte aos congéneres de Berlim (Instituto Robert Koch) e Londres (Instituto Lister). Em 1895 ficou com a designação de Real Instituto Bacteriológico de Lisboa e quatro anos depois mudou-se para um edifício próprio, na Rua Câmara Pestana, traçado pelos arquitetos Pedro Romano Folque e Joaquim Pedro Xavier da Silva, sobre as ruínas do Convento e Ermida de Sant’Ana, no que constitui o primeiro exemplar português de arquitetura hospitalar e laboratorial de investigação construído de raiz. Nesse mesmo ano de 1899, o nome do  fundador, falecido nesse mesmo ano, passou a ser o nome do Instituto, por proposta dos estudantes da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa. Em 1911, o Instituto foi incorporado na Universidade de Lisboa, agregado à  Faculdade de Medicina de Lisboa.

Freguesia de Arroios – Placa Tipo II
(Foto: NT do DPC)

A Travessa do Bahuto, da Quinta do mesmo nome, oficializada em 1918

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Travessa do Bahuto, que já assim era vulgarmente denominada há muito tempo, foi oficializada pelo Edital municipal de 8 de fevereiro de 1918, assinado pelo presidente da Câmara Municipal de Lisboa, José Carlos da Maia, que foi assassinado na Noite Sangrenta de 1921 e que em 1932 virá também a ser topónimo de Campo de Ourique.

Em 1918, esta Travessa ligava a Rua Saraiva de Carvalho com a Parada dos Prazeres (hoje é a Praça de São João Bosco) e guardava a memória da Quinta do Bahuto, cujo nome seria provavelmente o apelido do seu proprietário.

Um pouco antes do Terramoto de Lisboa, em 1741, foi  criada a freguesia de Santa Isabel, então destacada do território de Santos-o-Velho. Em 1959, a parte em que se incluía a Travessa do Bahuto foi para a nova freguesia de Santo Condestável e desde 2012 que esta artéria é pertença da freguesia de Campo de Ourique.

Por altura do terramoto de 1755, através do Rol dos Confessados da paróquia de Santa Isabel, podemos ter uma ideia aproximada dos lugares já habitados desta zona: Rua Direita da Boa Morte (Rua do Patrocínio), Rua da Fonte Santa (Rua Possidónio da Silva), Quinta do Bahuto, Quinta do Sargento-Mor, Casal Ventoso, Arco do Carvalhão, Vila Pouca, Sítio dos Moinhos e Campo de Ourique. A enorme Quinta do Bahuto ocupava em 1770 toda a área a sudoeste da Rua de Campo de Ourique (na altura era a Rua dos Pousos) até à Rua Saraiva de Carvalho (era então Caminho dos Prazeres).

Bahuto seria, provavelmente, o apelido de família do proprietário da Quinta, se considerarmos que em Belém também existia uma família com esse apelido que até originou junto ao antigo Mercado de Belém uma Rua do Bahuto e Gonçalves, referenciada de 1907 a 1913, no que são hoje  terrenos dos jardins de Belém, assim como em Belas (no concelho de Sintra) existiu uma Quinta do Bahuto e existe hoje uma Rua Felisberto Bahuto da Fonseca. Aliás, um vereador da Câmara Municipal de Lisboa em 1918 e 1919 chamava-se Pedro Midosi Baúto.

Já antes da sua oficialização em 1918, a artéria em causa era vulgarmente conhecida por Travessa do Bahuto, surgindo já assim nos documentos municipais do séc. XIX, para introdução de canalização no arruamento, bem como para construção de prédios entre 1891 e 1901.

 

A Rua da Bica da Guarda pessoal do Marquês de Pombal, dada em 1918

Freguesia da Ajuda
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Na presidência de José Carlos da Maia na edilidade lisboeta, nasceu numa artéria da Ajuda a Rua da Bica do Marquês sobre a Rua Alegre, com a publicação do Edital municipal de 8 de fevereiro de 1918, que assim fixou na toponímia lisboeta a proximidade de uma bica de água ao quartel da Companhia da Guarda do Marquês de Pombal.

Este arruamento era só denominado como Rua da Bica até o Edital municipal de 26 de setembro de 1916 preferir antes designá-la como Rua Alegre. Contudo, este nome não vingou porque passados menos de dois anos, a Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Lisboa, presidida por Carlos da Maia, voltou a mudar-lhe o nome, retomando a antiga denominação de Rua da Bica, através do Edital de 1918 acima referido, mas transformando esta artéria que une a Rua de Dom Vasco à  Calçada da Ajuda na memória mais explicativa de Rua da Bica do Marquês.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Saliente-se que foi no quarteirão que termina com o prédio da antiga Farmácia Mendes Gomes que existiu o Pátio da Guarda, um conjunto de casebres dispostos em forma de U, que era o quartel da Companhia da Guarda do Marquês de Pombal, uma guarda de proteção pessoal do Conde de Oeiras (título de 1759) e Marquês de Pombal (título de 1769). Onde hoje são instalações da Junta de Freguesia da Ajuda – Calçada da Ajuda nº 236 – eram as antigas cavalarias da Companhia da Guarda do Marquês. O Pátio da Guarda também foi denominado Pátio do Bonfim, por nele ter vivido o Conde de Bonfim.